Mundus Sine Velum – Um Mundo Sem Véu

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A Cidade de “Ouro”


“Tudo estava em paz... Éramos quem deveríamos ser. E estávamos felizes até eles chegarem aqui... Os Humanos.”


Morávamos em um vilarejo, como os humanos chamam, construído com várias pedras amarelas. Não as pedras que brilham, mas apenas amarelas.

Nosso “vilarejo”, humilde e pequeno, se situava no meio de uma mata fechada e nós somos, ou éramos ‘Reptus-Aqua’. Esse é o nome do que somos.

Durante o dia, éramos muito semelhantes aos humanos, mas possuímos habilidades que os humanos não tinham, mas desenvolveram após muito estudo sobre nós, nossa raça, e as outras que convivia com os humanos
.
Eu, um garoto durante o dia, vivia em uma casa humilde junto com outros garotos. Eu sempre soube que nós nos transformávamos durante a noite mas sempre deixei meus instintos falarem mais alto, então, dificilmente eu me lembrava do que fazia durante a noite e nunca tive problemas com isso. Nem ninguém com quem convivíamos.

Logo quando éramos mais novos, já havíamos ficado sabendo da existência dos humanos e das coisas que eles faziam com os seres como nós. Então aprendemos a evitar sair do vilarejo por causa deles. E se precisávamos sair, nós nos escondíamos durante a noite toda para não ter muitos problemas.

Mas estávamos em paz, até o dia em que eles nos encontraram...

Eu estava voltando da “escola”, como os humanos chamam.

- Olha a verdura! Legume! Final da tarde é baratinho! – gritava o feirante na rua um pouco estreita da nossa vila, em meio aos muitos seres semelhantes a humanos, falando e conversando tranquilamente em mais uma tarde dourada. Com a luz forte batendo nas pedras amarelas e as deixando em tom de laranja. Sempre muito bonito de se ver.

- Por favor – parei na barraca de legumes e pedi ao vendedor – gostaria desses legumes e destes outros aqui, sim?

- Claro jovem! – me respondeu o homem colocando para mim os legumes em casca de arvore lisa, boa para levar esse tipo de comida.

Enquanto eu pegava o que pedi, o barulho na rua parou e várias crianças correram para dentro de suas casas, subindo a rua da entrada da cidade, toda de pedra, humanos haviam adentrado a cidade e estavam falando com um dos homens de lança.

Como o sol já estava se pondo, outros homens com lança e vestidos de maneira normal apareceram. Eu de cima observava tudo, e logo, os três humanos, estavam sendo escoltados para dentro de nosso vilarejo.

Tentaram não deixar a mostra a apreensão que sentiam mas não era difícil perceber.

Vários de nós guardaram as barracas em tom triste de decepção e outros foram embora. Eu fiz o mesmo, peguei o que havia pedido e fui embora para o local onde eu estava com os outros garotos.

Ainda deu tempo para que eu pudesse ver os humanos que entraram passando pela frente de nossa casa que fica na subida da rua principal do vilarejo.

Uma humana fêmea, mulher, “como chamam o pelo em cima?”, o cabelo, curto e preto e dois humanos machos, homens, grandes e fortes. Chegavam a assustar apenas de olhar.

A mulher observava tudo com atenção e notei um pouco de admiração no olhar delas ao olhar para as nossas casas, mas não foi muito duradouro, logo voltou ao olhar examinador de tudo.

Observei mais ela ao passar e logo ir, vestida com “roupas” escuras e uma pele um pouco branca. Ela me preocupava mais que os homens.

***

Logo a noite caiu e eu já estava no dormitório com os outros garotos. Não tínhamos 'cama'  dormíamos em um chão de madeira lisa e quente, apesar da casa ser toda bem construída como a de um humano.

Tínhamos apenas um objeto na casa que os humanos chamavam de sofá, e lá, quem queria mais conforto deitava-se, o que eram poucos. Afinal todos sabiam o que aconteceria a noite.

Eu, nesta noite e por causa dos humanos, resolvi tomar controle de meu próprio corpo e mente enquanto estivesse transformado. E me vi me transformar. Meus braços sumindo e diminuindo, meu corpo aumentando de tamanho e comprimento, perdendo a forma humana, meu rosto semelhante ao humano desaparecendo, toda a fisionomia humana sumindo lentamente enquanto eu me olhava me transformar no que eu era. Um Reptus-Aqua.

Corpo de réptil, com escamas duras e grossas, comprido feito cobra mas mais achatado. Membranas que se abriam como pequenas asas entre a cabeça e o resto do corpo para planar se fosse preciso, meu rosto agora, de um animal, fino e com dentes pontudos e afinados para fora.

Abri minha boca e vi os vários dentes pontudos de minha boca em um espelho que havia na parede. E a essa altura, eu era o último na casa.

Sorri, mostrando os dentes. Com certeza nenhum humano perceberia que era um sorriso.

Barulho de pedras caindo e madeira rolando do lado de fora.

Deslizei para fora rápido e vi o vilarejo destruído, com fogo em algumas partes de madeira, inclusive na casa do chefe. O meu coração de Réptil se apertou de raiva.

- Humanos! – gritei, minha voz grossa, quase não me reconheci. Uma rede caiu sobre meu corpo me prendendo, e percebi vários humanos carregando vários de nós.

- Fujam! – gritou uma de nós, a nossa chefa, a nossa mãe. – Fujam Jovens! – Gritou mais enquanto usava a sua longa cauda para bater com força e violência nos corpos frágeis dos humanos que prendiam os mais jovens.

- Mãe! – eu e vários presos gritávamos para ela.

Seu corpo aumentou acima dos das outras fêmeas de nossa raça, ela a mãe de todas e todos.

Com apenas uma balançar de bater da cauda, acabou matando a grande parte dos humanos que prendiam a todos, inclusive a mim.

Todos deslizavam o mais rápido que podiam para perto dela.

- Não! – Ordenou ela, gigante e imponente.

Paramos.

A nossa frente, e de costas para nós, a humana de cabelo curto apareceu com um pequeno livro preto nas mãos.

A mulher não precisou nem mesmo abrir o livro, apenas levantou a mão e começou a usar 'aquela habilidade' que os humanos não deveriam ter mais.

Tentamos correr mas a mulher olhou para nós, e nós, literalmente ficamos imóveis no lugar.

- Ó queridos... Preciso de vocês vivos para fazer algumas experiências... – ela chegou perto de mim, que estava mais à frente dos outros na rua – e já que a sua chefe não quis colaborar... Precisei ser um pouco mais dura para conseguir o que preciso...

Ela chegou o rosto dela perto de mim.

Senti um cheiro que não era dela, mas exalava o que ela não era, doce.

Tocou-me com a sua mão meio branca e gelada.

- Vocês serão a minha mina de Ouro e Poder, jovens – ela me disse.

No mesmo instante a cauda de nossa mãe, a ponta dela. Que não era afetada pela ‘habilidade’ bate certeiro no corpo da mulher humana que é jogada para longe, para o meio das arvores.

Livramo-nos do encanto da mulher e olhamos a nossa mãe. Gigante e imponente.

- Vão embora! Todos! – Ordenou ela para nós. Víamos e sabíamos o sentimento de tristeza e preocupação dela.

Não demorou muito e a humana, sangrando na cabeça dela apareceu por entre as árvores, com os olhos vermelhos de raiva.

- Vou matar você. – disse ela olhando para a nossa mãe.

- Corram! – ordenou ela nos agarrando com a sua imensa cauda, todos nós q estávamos ali perto e literalmente, nos jogou longe da cidade. Em direção ao grande rio que dividia o limite de entrada da cidade.

- Mãe! – vários e varias de nós gritavam ainda no céu, até cair na água do rio e ser levado pelas fortes correntezas de lá, para algum lugar.
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