CAP. 9

- Tonny! – Disse o Carlos vindo atrás de mim. Paro e olho para trás, mas até então, já estamos do lado de fora da casa, estamos exatamente na pista de corrida, o lugar onde abriu o caminho para tudo começar.
Olhei para o Carlos como se dissesse “Vamos, pode falar!” e parece que ele entendeu e então falou: - Olha, sei que é difícil aceitar isso, sei que tudo esta muito confusa na sua cabeça, mas eu sei que posso conseguir muitas respostas pra gente. – Disse ele pronto para me fazer uma proposta. – Mas eu preciso da sua ajuda. Topa?
- Carlos, - Falei abaixando a cabeça. – não foi isso que busquei para minha vida. – Voltei a andar em direção oposta a ele. – Minha escolha foi outra. Sinto muito!
Não quis olhar para trás, Carlos é um cara durão, e pra ele ter ido até mim e pedido minha ajuda, é porque realmente precisa, e com a minha resposta, ele deve ter ficado um tanto frustrado.
Não era hora de arrependimentos, mas tomar uma decisão dessas em tão pouco tempo, é muito difícil. Pode parecer que não, que é tudo questão de “Ah que isso, cai na briga com esses vilões, se mostra pro mundo e se torne herói de muitas pessoas... Crianças vão vestir seu uniforme bonito e dizer que é você, ou que quando crescer quer ser que nem você, pois é um herói, e salva a terra dos homens malvados”. O que eu penso na verdade, é que não vou poder ter uma vida normal se aceitar isto. Não vou ter uma namorada, não vou ter um filho, não vou ter um emprego, não terei amigos e nem minha família poderei ver, se não, poderão ficar em perigo, pelo simples fato de me conhecerem.
Não é tão fácil assim como parece ser, mas eu ainda preciso conversar com alguém, e desta vez, eu queria uma conversa olho no olho, e por isso, não poderia ser meu pai.
- Alô, Isa! – Falei no celular enquanto entrava em um ônibus para voltar pra casa. – Preciso falar com você... Na verdade eu preciso de alguém pra conversar...
- Claro! Mais tarde eu vou à sua casa, pode ser? – Pergunta ela da outra linha.
- Não... Nos encontramos na lanchonete do Boris, topa?
- Hm, um encontro. – Diz soltando um risinho. – Ok! Oito horas no Boris, confirmado?
- Confirmado! Até mais tarde então.
Desligamos os celulares e continuamos os nossos afazeres. Continuei seguindo meu caminho, minha cara não devia ser uma das melhores no momento, pois estava me sentindo cansado. Por sorte, o ônibus estava vazio, havia apenas cinco ou sete passageiros.
Depois de quase quinze minutos, desço do ônibus e continuo minha caminhada até minha casa. Wilson quer que eu aceite a proposta, o que não seria má idéia, mas sinto que eles realmente precisam de mim, não pela minha força, mas pela quantidade de gente que eles têm no grupo. Talvez um a mais em um grupo pequeno, possa fazer a diferença.
- Wilson? – Chamei por ele quando entrei em casa, mas como sempre, não havia ninguém. Ele deveria esta resolvendo alguma coisa lá na cidade.
Aguardei o tempo passar, e quando batem sete horas no relógio, me arrumei para me encontrar com a Isa. Não seria um encontro romântico, e sim um encontro para apenas desabafar com a minha amiga, afinal, ela é a pessoa em que mais confio aqui no Rio, só que isso não significava, que eu não poderia ir bem arrumado, perfumado e de cabelo penteado, o que eu não costumava fazer. Pois bem, coloquei uma camisa pólo cor de rosa e uma calça jeans preta. Passei um bom perfume no corpo, fiz um belo de um topete e estava pronto.
Minutos depois, eu estava chegando à lanchonete do Boris, e ela estava lá, sentada e esperando por mim, e pelo visto, pegou a melhor mesa da lanchonete, que ficava na janela e dava uma bela vista pro lado de fora.
- Isa, me desculpe! – Falei, pois eu estava atrasado sete minutos, o que é de costume e não faz disso uma surpresa, e infelizmente, ela já era acostumada com isso.
- Normal Tonny, mas cheguei faz dois minutos. – Disse me dando um sorriso.
- É, parece estar aprendendo bem comigo.
Rimos, conversamos e conversamos mais um pouco, e depois, conversamos mais e mais. Já ia dar dez horas e ainda estávamos de papo lá dentro, e era isso que dava gosto de estar com ela. Não acabava assunto, parece que um quer desvendar o outro, e essa vontade não acabam o que é até um pouco estranho.
Dez e onze, foi quando eu pedi a conta e fomos embora. Até ai, nenhum assunto que queríamos abordar, foi abordado, mas tudo tem o seu momento.
- Sabe... – Paramos na praça e sentamos em um dos banquinhos que dava de frente pro rio, e aquele lugar, era bom e aconchegante, principalmente para revelar segredos. – Acho que nunca contei sobre minha mãe para você.
- Não... – Falou como se quisesse que eu continuasse.
- Eu a perdi quando tinha apenas onze anos. Foi uma dor terrível ver meu pai e mi... Minha família sofrer daquele jeito. Eu não fiquei presente no seu velório, só lembro que fui até seu caixão e dei um beijo em sua testa, e depois, fui embora. Senti uma dor terrível, era muito forte. – Solto um sorriso e continuo dizendo. – Suas ultimas palavras foram, “Estou orgulhosa do nosso filho!”, mas meu pai foi quem ouviu isso, não eu. Não pude ouvir minha mãe pela última vez. Ela foi à única mulher que amei, e sinto falta disso. Não de uma companheira, mas de alguém que você sabe que dorme se perguntando se esta realmente tudo bem com você, de alguém que você sabe que te ama mais que tudo, sabe...? Alguém que cuida de você e te faz carinho sem que seja necessário pedir, ou dar para receber de volta. Ela era perfeita, não existe mulher como a minha mãe, não mesmo. E acho que é por isso que não quero entrar neste grupo. – Falo e olho nos olhos da Isa. – Vocês são meus amigos, e gosto muito de vocês para vê-los correrem perigo de vida.
- Nossa, gosta? – Disse a Isa com os olhos brilhando. – Tonny, não se perca no seu mundo! Não deixe que o passado continue afetando seu presente. Sua mãe te criou para ser forte, para enfrentar as barreiras da vida não para ser um covarde! E como acha que me sinto, ao ver meus amigos com força de vontade para lutar contra o crime, sabendo que o perigo já está na nossa casa, pois agora estamos sendo perseguidos. Como acha que me sinto, quando te imploro para correr risco de vida para estar junto conosco nessa luta? Hein? Como acha? – Depois dessas perguntas, ela deixa escapar algumas lágrimas, não tira seus olhos dos meus. – Mas se apenas gosta de mim, por favor, não corra esse risco.
Foi ai que pude perceber, eu acho que estou gostando demais da Isa, mas o medo de isso ser verdade ainda me domina, não posso dizer meus sentimentos sendo eles verdadeiros ou falsos, pois podem atrapalhar em alguma coisa, prefiro mostrar o quanto gosto dela com atitudes e não com falas, assim talvez, eu não a magoe e nem me iludo ou então, deixo de criar expectativas em algo inexistente.
- Isa, é... Por que... – Eu não sabia o que falar e então eu a beijei.
O beijo foi doce e bom. Simples e perfeito. Certo e diferente. Um beijo gelado que foi se aquecendo. Ela precisa me entender que não posso dizer burrices, até porque, acho que o problema é que não consigo, não tenho essa coragem, mas preferi fazer tudo diferente, mudar pelo menos um pouco essa história.
- Você não rejeitou, - Falei sorrindo. – isso é um bom sinal. – E então voltamos a nos beijar, como se aquele momento fosse tão aguardado por nós.
Levei a Isa até a sua casa e nos despedimos com um beijo rápido, parecíamos até um casal, mas não era isso o que estava se formando, pelo menos não ainda, o importante era que eu estava apto a entrar pro grupo, e me fortalecer, mais e mais.

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