Então, gente, estamos de volta com Titãs! Eu agradeço a todos que tiveram paciência de esperar por este capítulo, naquela correria de ENEM e tudo mais. Espero poder compensar! Enfim, espero que gostem do conto desta semana, curtam aí : )


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Violação

ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, comandados pelo diretor Marco Noah, o agente deve investigar casos paranormais que ameaçam a nação.

1

22 de novembro, 21h10
                Jemina Alves acabara de sair de seu trabalho. Estava exausta. A vida naquele escritório não era fácil; ela vivia com dores de cabeça e afins. Todos os dias, lidava com pilhas e pilhas de papelada, fosse em relação a seus clientes ou qualquer coisa que tivesse de assinar. Era tanto trabalho que já estava acostumada. Sabia que, assim que chegasse em casa, sentiria a prazerosa sensação de se deitar em sua cama e não fazer mais nada.
                - Oi – ela disse para o zelador, que limpava a entrada do prédio naquele exato momento, e passou direto por ele.
                Marcos Lood – este era o nome do zelador – nada disse nem fez. Olhou para ela apenas, enquanto ela caminhava para longe...
                Era óbvio que era uma mulher linda. Ele adoraria tê-la para si. Era um anjo... um belo anjo. Ele adorava vê-la, admirá-la. Mas somente sua observação muitas vezes não era o suficiente.
                Marcos suava frio. Jemina era uma mulher linda demais... e jamais haviam trocado nenhuma palavra além daquele “oi” que ela lhe dizia todos os dias ao ir embora.
                Ele desejou-a... desejou-a muito... e, então, aconteceu.
                Jemina estava a meio caminho de seu carro na rua, quando foi impedida de respirar. Ela caiu no chão, deixando cair sua bolsa e as coisas que estavam dentro dela. Ela se sentia sufocada... como se tivesse uma mão invisível em sua garganta.
                Então, ela foi erguida no ar, e pressionada contra a parede... cada vez mais... como se um corpo a pressionasse. Mas não havia ninguém a segurando... ela estava flutuando... e sentiu dor. Pura dor e vergonha. Era como... era como se alguém invisível estivesse...
                Ela não conseguia gritar. Havia várias pessoas na rua, desesperadas, vendo o que estava acontecendo. Não demorou muito tempo para que Jemina morresse sufocada, mas, ainda assim, ela continuou sendo pressionada contra a parede por mais três minutos. Então, como se o corpo invisível a soltasse, ela caiu, morta.

2

23 de novembro, 7h50

                - É bom que vocês tenham vindo rápido – disse o diretor Noah quando viu os quatro membros da divisão Titãs saindo de seus carros. – Estamos lidando com um caso que pode causar pânico geral na população.
                Nenhum dos quatro nada disse. Noah se virou, e caminhou até o local do crime.
                - Este é o corpo de Jemina Alves, 29 anos – disse ele. – Ela morreu pouco depois de sair de seu trabalho.
                - Quais as circunstâncias? – perguntou Cruzi.
                - Aparentemente assassinada, mas... ah, bem, de modo estranho, isto é muito estranho. Mais estranho do que quase qualquer coisa que eu já vi.
                - O que houve?
                Noah suspirou.
                - Aparentemente, há sinais de estupro. E nós nem precisamos chamar nossos médicos para averiguar isso: existem sangramentos na vagina e na boca. Esta é a causa da morte: ela morreu sufocada durante sexo oral.
                Cruzi disse, surpresa:
                - Mas... como? Existem várias testemunhas que dizem que algo, alguma coisa invisível a suspendeu no ar...
                - Exatamente isto. – Noah retrucou. – Como ela poderia ter sido estuprada e mesmo sufocada até a morte por algo invisível, algo que ninguém viu?

Escritório da Guarda Nacional, 18h

                - Eu não consigo entender – disse Foster. – Por que alguém faria uma coisa dessas?
                - Pelo mesmo motivo que estupradores comuns o fazem, ou pelo mesmo motivo que assassinos matam pessoas – Lane respondeu. – Há alguma coisa errada com eles. Estupros e assassinatos são só alguns meios que eles encontram de botar isso pra fora. Mas, neste caso, acho que o assassinato foi completamente acidental... Veja só.
                Lane levou Foster até o necrotério. Lá, o corpo de Jemina estava em cima de uma mesa de metal, pronto para ser examinado.
                - O médico legista ainda não examinou o corpo – disse Lane. – Mas acho que nem precisa. Olhe isto.
                Foster chegou perto. Lane tinha razão; os ferimentos eram óbvios.
                - Tem pelo menos quatro costelas quebradas – disse Lane. – Há hematomas em toda a região abdominal, alguns cortes nos seios, marcas de mãos no corpo todo e principalmente no pescoço...
                - Ele não simplesmente estuprou ela – Foster concluiu. – Ele a violentou... Feriu-a, de todas as maneiras possíveis...
                - São ferimentos típicos de sexo violento – disse Lane. – Sadomasoquismo, coisa assim. Neste caso, acho que foi um estupro forte demais... Quase como se ele tivesse prazer em machuca-la, ou simplesmente não conseguisse se controlar...
                - Isto é horrível – disse Foster, enojada.
                - E, no entanto, isto ainda não explica como o estuprador pode ser invisível. Não... “invisível” é uma palavra simples demais, ninguém é invisível. Ele deve ter algum tipo de poder, mas não consigo pensar em qual...
                 Neste momento, Carter entrou na sala, dizendo:
                - Hei, nós precisamos de vocês.
                - O que houve?
                - Aconteceu de novo. Temos mais uma vítima.

20h30

                - Os mesmo sinais – disse Lane, olhando para o corpo de uma mulher identificada como Dan Martins. – Hematomas, marcas de mãos... cabelos arrancados...
                - Olhe o pescoço dela – Foster disse, cheia de repugnância. – Ele... O estuprador... Ele torceu o pescoço dela!
                - Até a morte, aparentemente – Cruzi concluiu.
                - Isso é doente – Foster reclamou, gaguejando e se afastando. – Isto é simplesmente... doente!
                - Foster – Lane chamou. – Você está bem?
                - Não! – ela respondeu, retorcendo o rosto. – Que tipo... que tipo de maníaco faria isto? Que tipo de homem faria isso com uma mulher inocente?
                Ela estava claramente chocada, Lane conseguia perceber.
                - Nós vamos pegar ele, Foster – disse ele. – Nós vamos...
                - É bom mesmo! – ela respondeu com raiva. – É bom esse maníaco receber o que merece.
                - Ei, gente! – Cruzi chamou. – Nós encontramos uma coisa!
                Lane foi na frente, e Carter lhe mostrou. Próximo ao corpo de Dan, havia um terço de orações. Aparentemente, era feito de madeira, mas, quando Lane o pegou em suas mãos, sentiu algo estranho. O terço era transparente, quase azulado. Era quase como se não fosse feito de matéria...
                - Eu já sei! – Lane anunciou. – Vamos voltar para o escritório! Peça para levar esse corpo para examinar! Eu já sei o que estamos procurando!

De volta ao escritório, 21h

                - Olhe o terço – disse Lane. – Segure ele. O que vocês me dizem? Parece que não é feito de matéria, não é?
                Cruzi, Foster e Carter confirmaram acenando a cabeça.
                - É por que ele não é feito de matéria mesmo. – completou Lane. – Este é o terço do assassino; e eu já sei qual é a dele.
                Lane ligou um holograma, mostrando a imagem de um arquivo de um caso de 2029 d.N.
                - O assassino é capaz de realizar projeção astral – disse ele.
                - O quê?
                - Você sabe, existem teorias sobre a existência da alma, certo? Algo espiritual dentro de seu corpo. Pois bem, este homem é capaz de fazer sua alma sair de dentro do corpo, para voltar depois de fazer alguma coisa. E é a alma dele que estupra estas mulheres até a morte.
                - Por isso que ninguém conseguiu ver o estuprador – Foster pensou alto. – Por que era a alma dele estuprando as mulheres.
                - Exatamente.
                - E o que o terço tem a ver com isso? – Carter perguntou.
                - O assassino provavelmente estava carregando o terço com ele... quando a alma saiu de seu corpo, ele devia ainda estar carregando esse terço, e, enquanto estuprava Dan Martins, deve tê-lo deixado cair. A questão é: se a alma dele estava carregando o terço, o terço devia estar invisível para nós... Então, eu tenho uma teoria: como ele deixou cair o terço e a alma dele voltou ao corpo, o terço foi lentamente perdendo sua capacidade de ficar invisível... E vocês sabem o que isto quer dizer?
                - Que se o assassino deixou digitais nos corpos, elas podem começar a aparecer agora que ele está de volta ao corpo...
                - E nós podemos identificar o assassino!
                - Chame os legistas – disse Cruzi. – Temos pouco tempo até ele tentar algum outro estupro.
                Carter e Cruzi saíram da sala, e Lane fez menção de segui-los. Mas então, parou, e olhou para Foster: ela estava parada, sem ação, olhando para o terço.
                - Foster? – disse ele, e então, chamou-a pelo primeiro nome: - Allen...
                - Ele é religioso – disse ela. – O assassino é religioso. – ela então largou o terço, com o rosto retorcido em nojo. – Por que ele faria isso?
                Lane não soube o que dizer.

3

Bairro 8, Igreja da Salvação, 5h40

                A Igreja da Salvação era gigantesca, uma das maiores do Distrito Imperial. O padre era muito amigo de Marcos Lood. Ele havia concordado em ouvir a confissão de Marcos, mesmo àquela hora.
                - Padre, perdoa-me, pois pequei – disse Marcos. – Eu fiz de novo. Eu... eu usei meus poderes para o pecado de novo.
                - Todos temos poderes para pecado, meu filho – O padre Cardozo respondeu. – Deus ainda nos ama como iguais.
                - Eu não consigo parar – continuou Marcos. – Eu... eu... eu gosto disso. Eu gosto de fazer isso, de fazer...
                - A chave para a salvação é resistir ao pecado, meu filho.
                - EU NÃO CONSIGO!
                - Filho...
                - Eu gosto de senti-las contra mim. – anunciou Marcos. – Eu gosto de sentir o corpo quente, por que eu me sinto tão frio quando... quando saio de meu corpo. É tão gelado. Eu... eu não consigo suportar... por que uma coisa tão boa é um pecado? Por que elas não querem a mim? Por que elas lutam, por que elas não se rendem?
                O padre ficou em silêncio.
                - Marcos... o que você esteve fazendo?
                - Coisa melhor que você – respondeu grosseiramente, e se levantou saindo do confessionário.
                Padre Cardozo, preocupado, o seguiu.
                - Marcos! Marcos, volte! Não faça...
                - O que, padre? – Marcos vociferou. – Não faça o que? O que eu estou fazendo de errado, se estou fazendo o que quero? Muito melhor do que seu Deus! Suas regras sem sentido!
                - Marcos, você está machucando essas mulheres, não está?!
                - APENAS POR QUE NÃO TENHO ESCOLHA! – Marcos gritou, fazendo o padre dar um pulo para trás. – Elas merecem tudo que lhes acontece! Por não se entregarem! Não se entregarem A MIM!
                - Marcos, isto é errado!
                - Eu não ligo. Que seja errado. É o que eu quero.
                Ele deu as costas para o padre, e caminhou para fora da igreja.
                - Marcos! – Padre Cardozo continuou a chamar. – Marcos! Pare! Pare... ou eu vou parar você! Eu vou chamar a polícia!
                Marcos estava passando pela grande entrada da igreja quando parou. Com um sorriso sádico no rosto, se virou, e disse:
                - Eu gostaria de ver você tentar.
                Então, o padre foi arremessado para trás. Alguma coisa invisível o havia golpeado...
                - O quê...
                Cardozo sentiu-se erguido no ar por uma mão invisível que lhe apertava a garganta. Foi jogado contra as escadas do altar, onde bateu a cabeça. Ficou tonto por alguns segundos, sem conseguir focalizar nada... quando recobrou a consciência, só viu uma coisa: um dos candelabros, afiadíssimo, pairava no ar sobre seu corpo... então, a ponta foi enfiada em seu peito. O padre balbuciou, sem saber o que dizer, sentindo uma dor aguda em torno do ferimento. Ele sentia seu peito ficar quente conforme o sangue jorrava.
                A alma de Marcos então voltou a seu corpo, e ele sorriu. Aproximando-se lentamente, ele apertou o candelabro ainda mais contra o peito do padre, causando dor.
                - É tão bom fazer as coisas de verdade... – disse Marcos. – Sem ter que sair de meu corpo... Hora de tentar de verdade.
                Ele então deu as costas, e saiu da Igreja, caminhando para a direita.

6h

                As digitais haviam sido analisadas muito rapidamente, e haviam apontado para somente um nome: Marcos Lood. Ele morava no complexo residencial que a Igreja da Salvação mantinha para aqueles que não tinham casa, como um convento. Foi para lá que a equipe foi imediatamente.
                Chegando lá, era impossível não olhar para o grande portal que levava para dentro da Igreja, e, mesmo de longe, era possível ver um homem deitado nas escadas do altar, com um candelabro enfiado no peito.
                Eles se aproximaram do homem. Ela estava vivo por pouco.
                - Senhor, nós somos da divisão Titãs, e iremos...
                - Os dormitórios – balbuciou o padre. – Ele foi para os dormitórios, à direita. Ele vai tentar de novo.
                Então, o padre tossiu e se engasgou em seu próprio sangue.
                - Eu fico com ele – disse Lane. - Vão atrás de Lood.
                Cruzi, Carter e Foster concordaram com a cabeça, e seguiram para a direita por um corredor que levaria aos fundos da Igreja. Não sabiam, porém, que seria uma área tão grande: havia pelo menos oito prédios de dois andares cada por ali. Decidiram, por fim, se separarem.
                - Eu pego os últimos da direita, Carter pega os últimos da esquerda – disse Cruzi. – Foster, pegue esses prédios da frente.
                Assim eles se separaram.
                Porém, Foster não precisou entrar em prédio algum para ouvir os ruídos. Algo estava quebrando, alguma coisa estava caindo no chão... E vinha do segundo prédio de dormitórios.
                Ela arrombou a porta rapidamente, e subiu para o segundo andar. Havia mais de dez quartos ali, e ela passou botando os ouvidos em cada uma das portas, procurando captar o menor dos ruídos... Era no quarto 27.
                Ela arrombou a porta, e lá estava ele: Marcos Lood. Havia uma mulher jovem e bela a seus pés – provavelmente, uma das mulheres que não tinha onde morar e encontrara abrigo na Igreja. Ela chorava e gritava, com as roupas rasgadas, enquanto Lood a segurava contra o chão, com a alma ainda dentro do corpo.
                - Parado aí! – disse Foster, apontando seu revolver para ele.
                No momento em que Lood olhou para ela, a arma voou de sua mão. Foster, confusa, não teve tempo de reagir: uma mão invisível acertara um soco na boca de seu estomago. Ela caiu, e então a mesma mão invisível a levantou e jogou-a contra a parede, apertando seu pescoço.
                Lood estava de pé, olhando para ela. Foster sabia: ele estava praticando projeção astral. A alma dele estava fora do corpo, e era essa mesma alma que a segurava contra a parede.
                - Marcos – sussurrou Foster, sentindo-se sufocada. – Você não tem que fazer isso... Você crê em Deus! Você crê nos direitos das outras pessoas!
                - Deus estava apenas me atrasando – respondeu Marcos.
                - Marcos... por favor...
                - Eu preciso – disse ele, suplicando em lágrimas. – Eu quero... Por que vocês não me querem? Isso só me obriga a obrigar vocês a me quererem... isso não acaba bem, não é? ENTÃO POR QUE VOCÊS NÃO ME QUEREM?
                Assim que ele terminou de gritar, ouviu-se um tiro, e Marcos caiu, morto. Cruzi havia atirado em suas costas.
                - Cruzi! – gritou Foster, caindo no chão ao sentir que a mão invisível largava seu pescoço.
                - Eu não poderia rendê-lo – disse Cruzi. – A alma dele iria me atacar e eu não teria como me defender. Ninguém poderia se defender. Era o único jeito disto acabar.
                Foster tossiu, massageando o pescoço e olhando para o cadáver de Marcos. Seu corpo havia morrido... e aparentemente, sua alma também.

4

Do lado de fora da Igreja, 6h30

                Foster estava sentada numa ambulância, coberta por uma toalha e tomando um chá de ervas que melhoraria sua garganta. Um hematoma começava a surgir nos locais onde Marcos Lood havia tocado.
                - Hei – disse Lane ao se aproximar. – Você está bem?
                Foster forçou um sorriso e acenou a cabeça positivamente. E então suspirou.
                - Como estão os hematomas? – Lane perguntou.
                - Surgindo.
                Foster tomou mais um gole de seu chá, e disse:
                - É só que... eu fui criada numa família católica. E, apesar de não concordar com tudo o que a religião diz... eu acredito em Deus. Mas esse cara... Marcos Lood não devia ter sequer certeza de se acreditava ou não, e ele não se importava. Ele só usava Deus como uma fachada, como... como algo para disfarçar o que ele realmente era por dentro. E o pior é que muita gente faz isso, muita gente ainda faz isso...
                Lane olhou para o chão. Ele não acreditava em Deus, muitas vezes pelos motivos que Foster acabara de falar. Decidiu ficar calado.
                Foster tomou mais um gole de seu chá, em silêncio.

Em algum lugar, em alguma hora

                Marcos Lood sentia frio.
                Não era novidade, na verdade. Era o mesmo frio que sentia todas as vezes que praticava projeção astral, todas as vezes em que sua alma saía de seu corpo... Agora, esse frio não tinha fim. Desde o momento em que aquela mulher havia atirado em seu corpo, matando-o...
                Mas ela havia matado seu corpo, não sua alma. A alma estava fora do corpo quando este foi morto; foi a única coisa que manteve Marcos vivo. E agora, ele tinha a liberdade para fazer o que quisesse...
                Ele não sabia por onde começaria. Tinha a liberdade, mas tinha tanto frio... estava tão sozinho... era tão tristonho e infeliz... e passaria toda a eternidade assim.
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