Finados - Parte 1


Clássico




“...A chuva de sempre que nunca falha em vir e cair nesses dias que fazem as homenagens aos mortos...”


Lá estava eu, sentado no alto de uma árvore em um canto da cidade, observando o grande fluxo de humanos, grandes e pequenos passarem pelas estreitas ruas e vielas. Aquelas maquinas gigantes que levavam as pessoas de um lado ao outro, totalmente cheios e sem espaço nem mesmo para um inseto no chão. E eles continuam a se espremerem.

- Coitados... – dizia a mim mesmo.


Logo eu me lembrei daquela criança do início do ano que me viu.


Acabei dando um sorriso alegre por ter sido visto.


Rápido a tarde caia dando lugar ao pôr-do-sol, e logo, á noite.


Já começava a ver as pequenas gotas de chuva que caiam constantemente na véspera do dia de todos os santos.


Não demorou muito para eu começar a ver eles andando solitários na rua. Sozinhos, desolados a procura de seus parentes que moravam nesta região.


-Pai. – Uma voz me chamou de lado tirando a minha atenção.


Era o meu filho, um pequeno lobo-guará que havia acabado de chegar para me ajudar a ficar de olho na situação.


- Sente se filhote – disse eu tranquilamente e com um sorriso no rosto.


Ele se sentou e ficou olhando comigo.


Conforme a noite avançava a temperatura caia e muitos humanos na rua, pegos desprevenidos acabaram se molhando com o aumento do chuviscos para garoa constante ou sentindo muito frio.


Eu e meu filho continuávamos conversando brevemente sobre alguns assuntos enquanto olhávamos os espíritos andando.


- Pai, por que eles estão andando assim? Desolados no dia deles? Ou na véspera. – O meu filho me pergunta.


Olhando os espíritos e um grande terreno vazio a frente de onde estávamos eu respondia.


-Por que eles não tem um motivo para estar feliz. – Respondi e logo acrescentei – eles se alegram ou se acalmam ao ver ou reencontrar a família deles, mas nem todos conseguem isso, ou melhor, a grande maioria não consegue. Ai muitos deles ficam assim, tristes e de cabeça baixa, às vezes chorando...


Meu filho ficou pensativo em silêncio.


Até que uma ideia fora do comum me passou pela mente e olhei para o meu filho.


- Filhote, vamos alegrar a vida deles um pouco, antes deles voltarem para o descanso dele? – perguntei olhando para ele com um sorriso animado.


- Claro! – me respondeu o meu filho muito mais animado do que eu e abanando rápido o rabo dele. – e o que vamos fazer pai? – perguntou no final todo contente.


-Uma festa – respondi – ali – acrescentei apontando para o terreno cheio de maquinas paradas.


Logo a garoa fina e fria se tornava mais grossa, molhando tudo o que faltava ser molhado e o vento que estava ameno, se tornava forte.


Olhando do alto e entre as árvores, a única beleza que víamos eram as luzes, que iluminavam o caminho dos humanos, passando entre as gotas da garoa levadas pelo vento forte, dançando no ar até tocar algo.




Finados - Parte 2


Comemoração

“...Aquele sentimentos e desejos lavados na chuva fria da noite de maneira tão triste... Deixe-me ajuda-los...”
Tão logo saltamos da árvore e paramos no chão de lama do terreno, nenhuma diferença fez. Ninguém que estava do lado de fora poderia ao menos saber que estávamos ali, nem dentro das cabanas de madeira encaixadas para proteger os operários que estavam dormindo ou bebendo no momento.
Olhando em volta, o lobo-guara não via nada e não entendia a minha ideia, até ver em baixo das minhas patas de baixo, luzes vermelhas se formarem de forma uniforme.
- Pai? O que está fazendo? – perguntou ele sem sair do lugar.
Eu estava de olhos fechados, quando os abri eles estavam levemente avermelhados, tranquilamente e iluminado pelas linhas que formavam padrões não chão.
- Estou fazendo uma boa-ação. – Respondi.
Assim que terminei de falar, abri um sorriso amigo para meu filho e uma onda percorreu o espaço do terreno.
As gotas de chuva paradas no ar, as maquinas que haviam sumido do ambiente.
O chão, agora de terra batida e húmida, as gotas de chuva brilhavam cheias de cores diferentes enquanto a noite se iluminava brilhante mas sem muita força.
No fundo do ambiente, eu estava atrás de uma mesa, naquele mundo chamado de “Dj Mixer” e meu filho estava ao lado, admirado de boca aberta.
- Impressionante... –até ele parar de falar e piscar, se virar para min quase se revoltando e falando- e eu?! O que irei fazer?! – perguntou eufórico.
Olhei para ele sorrindo com ar de alguém esperto, levantei a pata suavemente e rapidamente, o meu lobo-guará está vestido com muita classe.
- Você precisa convidar as almas sem sair de dentro deste espaço – respondi a ele sorrindo.
Rapidamente o filhote correu sorrindo, indo até o portão bem aberto e espaçoso que dava entrada ao terreno.
Não demorou muito para a primeira alma passar. Uma alma de humana idosa, triste e olhando para baixo como qualquer outra.
- Senhora? – chama o lobo-guara se controlando, e abaixando a cauda que estava bem levantada, ao ver a tristeza naquela alma – por que a senhora está assim? – ele pergunta em um tom calmo, não havia conseguido segurar a curiosidade, e em um gesto de gentileza, estendeu a pata a ela.
- Quero encontrar meus filhos e netos mais uma vez apenas... Mais uma... Sinto a falta deles.... Meu netinho amado... – disse a senhora parando de andar e olhando um pouco mais para frente.
Do fundo eu apenas observava, parecendo estar sabendo de tudo.
- Deixe-me ajuda-la senhora? – pergunta o filhote de lobo ainda com a pata estendida.
- Por favor meu filho... Se você puder... – fala ela pegando na pata do filhote de lobo, e vendo o ambiente atrás dele, terminando de falar agora menos triste e surpresa – Eu... Agradeceria muito...
Tranquilamente ele caminhava levando a senhora humana para dentro do salão, vendo aquele belo lugar e as gotas paradas no ar, brilhando cintilantes. Ela solta da pata do jovem e movida pela curiosidade, toca na gota brilhante. Por um instante ela vê algo que a faz sorrir muito e some rapidamente do lado do jovem lobo.
- Pai?! – vira ele para trás comigo estando logo atrás sorrindo.
- Ela foi pra onde queria ir filhote – respondi sorrindo.
Rápido o filhote abre um sorriso e a cauda abanando, ele entendeu a minha ideia e volta correndo para o portão, agora bem mais animado, falava alto para todos os espíritos que estavam passando.
***
-Entrem! Por favor! Deixem-nos ajudar vocês neste dia onde vocês querem tanto estar em algum lugar e felizes! – algumas almas, as mais curiosas e um pouco mais jovens, paravam de andar quando ouviam ele falar.
Ao se aproximarem o suficiente já conseguiam ver algumas poucas almas, homens e mulheres, sozinhos e acompanhados, curiosos tocando as gotas, brilhando e sorrindo. Algumas almas jovens que entendiam após ver o que acontecia, permaneceram no local, aproveitando a música e as luzes do ambiente, formados pelas muitas gotas mais no alto onde poucos se arriscavam a tentar alcança-las.
E assim se sucedeu pela noite. Fria para os vivos, e mais aliviante para aqueles que estavam mortos no dia de homenagens a eles, no único dia que podiam eles vir a este mundo.
***
O Sol começava a aparecer, entre muitas nuvens que cobriam o céu. E no instante que o raio de luz tocou as gotículas de agua que ainda restavam, muitas no alto, e com o local agora com um número moderado de espíritos, as gotículas iam se explodindo e iluminando muito o local, lembrando estrelas que brilhavam forte, vários pararam para admirar as gotas mais no alto explodirem e sumir com o alvorecer, e quando eles perceberam, estavam sendo levados para onde queriam.
- Pois o tempo da festa já acabou – falo parando de tocar com o meu filho cansado e dormindo sentado ao seu lado.
Logo todas as gotas se esvairiam iluminando muito e levando todos os espíritos humanos do local. Rápido, um humano operário acordou e viu o terreno todo encharcado da chuva, começava a reclamar.
- Vai dar um trabalho extra hoje...
Longe dali, no alto do prédio próximo ao terreno, o meu filhote lobo acordava e via o amanhecer.
- Hum... Bom dia Pai... Como acabou a festa? ... – perguntou ele com muito sono e esfregando os olhos com as patas.
- Melhor do que eu imaginava filhote. – disse olhando pro meu filhote e sorrindo muito feliz. Satisfeito com o final, e ainda fazendo um carinho nele para agradecer a ajuda na festa. – Brigado! – disse a ele sorrindo e rindo muito.
Reações: