Olá galera! Eu peço novamente desculpas por ter atrasado tanto esta postagem, mas aqui está ela. Como eu disse, por eu estar estudando para o ENEM, não há previsão para quando poderei lançar o capítulo 9, mas, assim que puder, irei avisar para vocês no grupo do Facebook. Enfim, mil desculpas novamente, e curtam o capítulo 8!


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Inocência

ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, comandados pelo diretor Marco Noah, o agente deve investigar casos paranormais que ameaçam a nação.

1

Parque Lage, Distrito Imperial, 12 de novembro, 10h21
                O senhor Michel jamais deixaria sua filha sem supervisão. Depois da morte da esposa, a pequena Ana se tornara tudo em sua vida. Mesmo com intensas horas de trabalho, ele ainda arranjava algum tempinho para ela – principalmente aos sábados, pela manhã, quando a levava ao Parque Lage para se divertir.
                Não obstante, aconteceu.
                Bastou um segundo de distração e Ana desapareceu.
                Não que ela não soubesse cuidar de si própria... tinha seis anos, mas sabia muitíssimo bem dos perigos do mundo em que vivia. Provavelmente, tinha ido comprar um doce com as moedas que Michel havia lhe dado, ou havia escapulido para o banheiro, ou um brinquedo qualquer.
                Ainda assim, ele estava preocupado.
                Começou com passos rápidos, olhando para todos os lados. Depois, correu. Até que começou a gritar o nome de sua filha:
                - Ana! – mas ninguém o atendia, ninguém ia a seu encontro. – Filha! Ana!
                Ele não encontrou ninguém.
                Até que, num mero momento, ele viu ao longe.
                A forma de uma criança, vestida exatamente como sua Ana, de mãos dadas com um estranho...
                E, no segundo seguinte, desapareceu dentre a multidão.
                - ANA! – Michel gritou, correndo atrás de sua filha. – ANA!
                Ele seguia sem direção, procurava desesperado pela criança que era sua vida...
                - Papai?
                Ele ouviu uma voz dizer. Mas não era a voz de sua filha...
                Não era a voz de Ana. Era uma voz gutural e triste. Era uma voz caquética, seca, e ainda assim desesperada. E inegavelmente adulta. Mas era o mesmo jeito arrastado que Ana o chamava de “papai”...
                Michel se virou. E viu uma mulher de pelo menos quarenta anos a sua frente... mas os olhos eram de sua filha. Aquela mulher era Ana.
                - Ana... – ele exclamou, com lágrimas nos olhos.
                A mulher que era Ana caiu. Ela estava envelhecendo bem diante de seus olhos... tinha cinquenta, sessenta anos... seus cabelos se tornavam brancos, seus olhos perdiam a cor e a vida, sua pele enrugava...
                Tudo em menos de vinte segundos.
                Michel não soube o que fazer. As lágrimas finalmente rolaram por sua face. Ele gritou, enquanto Ana envelhecia mais e mais.

2

Cena do crime, 19h

                - O pai da criança ainda está muito abalado. – disse Noah para a divisão Titãs, enquanto examinavam o corpo ainda no Parque Lage. – Ele não sabe descrever o que aconteceu, e, sinceramente, eu também não. Esta mulher que vocês estão vendo é Ana Garrido, e ela tem somente seis anos.
                Lane não se demonstrou surpreso; esperava por algo do tipo. Ainda assim, permaneceu calado. Não tinha explicação alguma para como uma garota de seis anos tinha envelhecido até morrer em pouco mais de um minuto.
                - O senhor Michel disse – continuou Noah. – que ela havia desaparecido por pouco tempo. Ela tinha sido pega por um homem, ao que parece.
                - E ninguém consegue identificar quem é este homem?
                - Ainda estamos trabalhando nisto, recolhendo testemunhas e retratos-falados. Fora isso, teremos que conduzir um exame toxicológico para descobrir o que fez essa criança envelhecer...
                - Acho – disse Foster. - que o que deveríamos estar nos perguntando é: por que alguém faria isso?
                Noah suspirou. Neste momento, um estagiário chegou correndo, chamando pelo diretor.
                - Diretor Noah! – dizia ele. – Diretor Noah! Tenho notícias urgentes! Aconteceu...
                - Sim, Gabriel – respondeu Noah. – Já estou ciente.
                O diretor fez um muxoxo desagradado, quase revoltado. Em seguida, disse para a divisão Titãs:
                - Sigam-me.
                Lane e Foster foram atrás do diretor, entrando no carro. Mas Carter se deteve: ele percebeu que Cruzi ainda estava abaixada ao lado do corpo de Ana.
                - Cruzi? – chamou ele.
                - Quantos anos essa garota tinha mesmo? – a agente perguntou simplesmente. – A Ana?
                - Seis. – respondeu Carter.
                Cruzi assentiu, sem dizer nada e sem expressão. Então, levantou-se, passou direto por Carter e entrou no carro. Parecia abalada.

A algumas ruas dali, 19h09

                De maneira alguma, os agentes poderiam esperar o que encontrariam naquela rua de um bairro nobríssimo, onde só gente rica morava. Um cerco policial separava uma parte da calçada e impedia as pessoas de se aproximarem, mas estas ainda assim tentavam. Os agentes tiveram que se acotovelarem e empurrarem uns aos outros para conseguirem passar, e, assim que o fizeram, congelaram. O diretor Noah, mesmo sabendo o que encontraria, calou-se em revolta.
                Havia uma mulher, jovem, de pouco mais de vinte anos, parada de pé na calçada. Trajava um longo vestido azul que ia do decote até os pés, cheio de frufrus e de joias cintilantes; uma tiara de brilhantes verdadeiros estava em sua cabeça, prendendo os cabelos num penteado típico de um baile. Eles logo perceberam: a mulher estava vestida de princesa, uma princesa típica dos contos de fadas. Mas não somente isso: sua pele não tinha cor; era pálida, assim como seus lábios. Seus olhos não tinham brilho. Ela estava parada, e não se movia; parecia quase presa, quase suspensa...
                Ela estava morta.
                - Vocês estão olhando para Bianca Kane – disse Noah. – Uma garota de oito anos.
                Os agentes logo se voltaram para ele, espantados e sem saber o que dizer.
                - Bianca estava no mesmo parque que Ana – continuou Noah. – Nós temos certeza de que foi o mesmo assassino. Achamos que, depois de ele não conseguir sequestrar Ana, ele foi atrás de uma outra garota... Bianca. Sequestrou-a e a fez envelhecer do mesmo jeito, e então fez... isso, que vocês estão vendo.
                Lane se aproximou, horrorizado. Tocou a pele de Bianca... estava rígida, como a pele de um morto deveria ser. Mais do que deveria, até. Talvez fosse isso que estivesse mantendo o corpo de Bianca em pé: talvez, seu corpo estivesse tão rígido e seus músculos tão duros, que a mantinham na mesma pose de pé, como um manequim.
                - Mas Ana envelheceu até mais dos noventa anos – disse Carter. – Por que Bianca envelheceu menos?
                - Provavelmente – foi Lane quem respondeu. – O assassino fez algo errado com Ana... errou a “dose”, e por isso não a sequestrou. Já com Bianca... ele acertou.
                - Então é para isto que ele mata? – Foster indagou. – Para envelhecer as meninas e transformá-las em princesas?
                - Não sabemos ao certo o que ele ganha com isso – Noah anunciou. – Mas...
                Noah continuou a falar, mas Cruzi já não prestava atenção.  Ela saiu dali, saiu de perto do corpo, saiu do meio da multidão. Foi para o meio da rua interditada; precisava respirar. Precisava ver algo diferente daquele desastre. Precisava...
                - Cruzi? – Carter chamou-a, tirando-a de seu devaneio. Ele estava a seu lado. – Está tudo bem?
                Ela demorou um pouco para responder, e disse:
                - Sim – ela acenou a cabeça positivamente, e então deu um sorriso forçado. – Sim.
                - Tem certeza? Por que...
                - Eu estou bem. Estou mesmo. Só... só precisava respirar. Não é exatamente uma coisa bonita de se ver, não é?
                E então, saiu caminhando. Carter percebeu que ela não voltou para perto do corpo. Ela entrou no carro e esperou sozinha lá dentro.

Escritório da Guarda Nacional, 21h50

                Como era um caso de urgência, vários setores da Guarda Nacional haviam decidido se juntar à investigação da divisão Titãs, e todos passariam a noite ali, a fim de obter resultados rápidos.
                - Eu mandei fazer um exame de DNA junto com o exame toxicológico, só por via das dúvidas, para saber se os corpos eram de Ana e de Bianca mesmo – disse Lane, se aproximando de Foster.
                - E já saíram os resultados?
                - Só do exame de DNA. Como é um caso urgente, foi até rápido, mas o toxicológico só deve sair daqui a algumas horas. – Lane abriu a pasta. – E, adivinhe: são Ana e Bianca mesmo, mas... há algo diferente.
                - O quê?
                - O DNA delas foi alterado. Possivelmente, pela mesma coisa que as fez envelhecer. – Lane apontou para os resultados. – O de Ana foi o que sofreu maior alteração: somente 61,34% de seus genes batem, isto é, estão iguais ao que eram antes de sua morte. Beatriz sofreu uma mudança menor: 94,69% batem. Ana foi quem mais envelheceu, então acho que é por isso que o DNA dela mudou mais.
                - O que isso significa?
                - Foster... isto significa que, talvez, milhares de pessoas, milhares de desaparecidos que não conseguimos identificar o DNA... talvez sejam vitimas desse cara. Talvez sejam crianças envelhecidas por esse cara, com o DNA alterado no processo, de modo que ninguém jamais poderia identifica-las...
                - Mas e as roupas de princesa? Aparentemente, o assassino só mata meninas...
                - Bem, eu não sei. Teremos que esperar o exame toxicológico sair pra tirar alguma conclusão...
                Enquanto isso, Carter entrou na saleta separada em que Cruzi analisava documentos do caso. Ela estava sozinha, separada.
                - Hei – chamou ele. – Eu trouxe café.
                Cruzi levantou os olhos, surpresa, e então sorriu. Aceitou o café, mas não queria que Carter ficasse; não queria que ele olhasse em seus olhos, que se sentasse àquela mesa. Ainda assim, ele o fez.
                Ela sorriu para ele, forçada, e então voltou seus olhos para os documentos. Era péssima naquilo, ela sabia.
                - Está realmente tudo bem, Cruzi? – Carter perguntou novamente. – Você tem estado estranha desde o inicio deste caso...
                - Eu lhe disse, Carter – Cruzi interrompeu-o. – Eu estou bem. Eu lhe disse.
                Passou-se um momento de silêncio, até que Carter continuou:
                - Olha, eu sei que você ainda está abalada com tudo isso das Crianças-Cruzi, Lane, Foster e Carter, mas...
                - Carter – Cruzi disse. – Eu não estou preocupada com isto. Quero dizer, estou, claro, mas não posso dedicar toda minha vida a este mistério. Eu não sou assim.
                Carter avaliou as palavras por um minuto, e disse:
                - Cruzi, você levou um tiro na cabeça.
                - Sim, eu sei disso, mas sobrevivi. Qualquer que seja a razão pela que você acha que estou perturbada... lhe garanto que não poderia ser esta.
                Carter esperou que ela dissesse alguma coisa – que confirmasse suas suspeitas, que lhe desse uma razão. Mas não foi isso que ela fez. Ela simplesmente deu mais um de seus sorrisos forçados e voltou a analisar os papéis.
                Neste momento, Foster entrou na sala.
                - Vocês dois – disse ela. – Venham comigo. É urgente.
                - O que houve?
                - Mais um corpo. Eles acharam mais um corpo.

Bairro 21, 22h20

                Estavam diante de um bairro de classe média. Eles saíram correndo do carro, somente para encontrar mais uma “princesa”. Ela estava lá, de vestido amarelo vivo, cabelo deslumbrante. Linda, porém morta.
                Cruzi congelou diante daquela visão horrorosa. Ela desviou rapidamente o olhar, esperando que ninguém tivesse percebido.
                - Identifiquem ela para mim! – gritou Noah.
                - Shhh... – disse Carter. – Vocês estão ouvindo isso?
                Todos se calaram, e fizeram o mais absoluto silêncio. Após algum tempo, conseguiram ouvir um gemido vindo de um beco, logo ao lado de onde o corpo havia sido encontrado.
                Correram para lá, e, sem terem de procurar muito, encontraram uma mulher jogada nos sacos de lixo. Mas era uma mulher comum; não estava envelhecendo. Parecia somente ter levado uma bela pancada na cabeça, tanto que havia um corte em sua testa. Ela balbuciou algumas coisas sem sentido, não conseguindo abrir os olhos direito. Talvez, tivesse tido uma concussão. Então, quando ela conseguiu fazer algum sentido de suas palavras, disse:
                - Minha filha... minha Clara... levaram minha filha...
                Os agentes olharam um para o outro. Eles sabiam o que isto significava. A próxima vítima já havia sido escolhida.

3

Escritório da Guarda Nacional, 00h45

                - Está confirmado – disse Lane. – Logo após a morte de Ana e Bianca no Parque Lage, uma criança chamada Manuela desapareceu na área onde Bianca foi encontrada. Nós achamos que Manuela seja a mulher de vestido amarelo.
                - O que isso quer dizer?
                - Quer dizer que o assassino mata, embeleza, maquia e deixa suas vítimas em algum lugar, e, imediatamente depois de tudo isso, ele sequestra uma nova criança. Vocês ouviram o que aquela mulher disse no beco: Clara foi sequestrada. Temos que agir logo, senão ela estará morta também.
                - Mas como?! – Cruzi perguntou, em desespero. – Nós não sabemos de nada! Absolutamente NADA!
                Ela sentou-se na cadeira, com os olhos trêmulos e angustiados.
                - Não foi você que me disse que essa não era você? – Carter disse, e Cruzi olhou-o com tristeza.
                - Na verdade – Lane interrompeu. – O exame toxicológico acabou de sair. – De dentro de uma pasta, ele retirou alguns papéis. – O exame foi inconclusivo na maior parte, mas já dá para saber alguma coisa. Por exemplo: o que faz elas envelhecerem é uma substância líquida, que foi encontrada no estômago das vítimas. Deve mexer com os radicais ativos, ou com algo assim... enfim, tudo o que sabemos é que é um líquido que faz isso com as meninas, que as faz envelhecer.
                - Isso não ajuda em nada – disse Carter, olhando para Cruzi, que tremia. – Se não conseguirmos localizar o assassino.
                O grupo, perdido, não viu outra opção senão colocar o caso no Supercomputador da Central de Inteligência. Esta máquina analisaria todas as possibilidades de onde o assassino estaria, baseado nos locais onde as vítimas anteriores haviam sido encontradas.
                Demorou trinta minutos para que o Computador concluísse que as informações eram inconclusivas.
                - Merda! – disse Lane.
                - Ela está perdida – disse Cruzi, desesperada. – A garotinha está perdida.
                Então, o computador entrou em tela de espera, mostrando o brasão da Guarda Nacional e um pequeno símbolo da bandeira do Brasil. Então, Lane gritou:
                - É isso!
                Todos se levantaram na hora, surpresos e ansiosos para saber o que ele havia pensado.
                - Olhe a bandeira do Brasil! – continuou Lane. – Pense na cor dos vestidos de Bianca e Manuela! O de Bianca era azul e o de Manuela era amarelo! É isso! O assassino está reproduzindo a bandeira do Brasil!
                - E de que isso importa agora? Precisamos achar ele, de qualquer forma!
                - É exatamente isso! – Lane apontou novamente para a bandeira. – Bianca foi a primeira a ser morta, e estava vestida de azul, e foi encontrada na área mais nobre do Distrito Imperial. Manuela estava vestida de amarelo e foi encontrada numa área de classe média. Logo, a garota Clara vai estar...
                - Na área mais pobre da cidade, vestida de verde. – Cruzi concluiu, sobressaltada.
                - Exatamente. O assassino está fazendo uma crítica política com essas mortes. Provavelmente ele é um desses ricos entediados com a vida.
                - Então o que estamos esperando? – Cruzi disse, e saiu às pressas logo depois, indo para seu carro. Todos sabiam onde seria o próximo local do crime.

Bairro 34, 1h20

                Aquele lugar era o que se poderia se chamar de “favela”, antes da Terceira Guerra Mundial. Porém, agora, a situação era ainda pior. O tráfico de drogas estava praticamente extinto, assim como a violência naquele lugar, mas não a pobreza. Muitas pessoas ali ganhavam menos que cem reais por mês, e era comum ver crianças nas ruas morrendo de fome.
                Assim que o carro estacionou, Cruzi abriu a porta e saiu correndo, apenas para parar e olhar ao redor, sem saber o que fazer.
                - Onde vamos procurar? – disse ela. – Este lugar é imenso!
                - A força tarefa está chegando – disse Lane. – Segundo os cálculos do Supercomputador, demora em torno de 4 horas para que o assassino dê à criança o líquido contaminado despois de sequestra-la. Significa que ainda temos em torno de uma hora. E, se continuarmos seguindo a lógica das áreas ricas e pobres, as pessoas mais pobres moram na base do morro.
                Cruzi não precisou ouvir mais nada. Apesar de terem sido instruídos para esperar a força-tarefa, ela saiu correndo, atrás da criança.
                Ela estava realmente muito estranha, todos admitiam. Como era caso de urgência, já que a vida de uma garotinha estava por um fio, os outros também decidiram se separar, correndo um para cada canto.
               
                Cruzi correu sozinha. Correu por vários minutos. Suas pernas doíam, seu terninho estava sujo de suor. Ela arfava, morria de cansaço. Mas tinha que encontrar Clara, tinha que encontra-la viva...
                Ela passou pela mesma rua diversas vezes. Era uma rua grande, principal, uma das únicas asfaltadas. E, na rua, uma casa sempre lhe chamava a atenção; era a única cujo muro estava pintado, e a cor era verde...
                - Verde... – ela disse para si mesma. A mesma cor do vestido que Clara usaria, se morresse.
                Ela pulou o muro, e rapidamente entrou pela porta aberta. A sala era caquética, caía aos pedaços; atrás do sofá, estava a moradora da casa e sua filhinha, ambas amarradas e amordaçadas, chorando de medo. Cruzi rapidamente soltou-as. Se não tivesse chegado naquele momento, talvez Clara morresse e aquela garotinha amarrada se tornasse a próxima vítima.
                - Eles estão lá em cima – disse a dona da casa. – Ele está com ela, meu Deus!...
                Cruzi subiu as escadas, e viu-se diante de uma porta trancada. Arrombou-a, e encontrou Clara e um homem muitíssimo bem vestido.
                - PARADO AÍ! – disse ela, sacando a arma.
                O homem se levantou, rendido, com as mãos para cima. Então, tentou atacar Cruzi; a agente respondeu com uma porrada, que acertou a cabeça do homem, fazendo-o cair, desorientado.
                - Clara – chamou Cruzi, e a menininha se virou. – Meu nome é agente Cruzi, e estou aqui para te ajudar. Logo mais, logo mais meus amigos irão chegar, e nós vamos tirar você daqui...
                Mas havia algo estranho com a garota. Os olhos dela estavam pálidos...
                - Você chegou tarde demais – disse o homem, sem expressão.
                E só então Cruzi olhou ao redor, e viu um copo vazio jogado no chão.
                Clara já havia bebido o líquido.
                - Clara – disse Cruzi. – Clara, me escute, vai ficar tudo bem...
                Então, a criança entrou em convulsão, e começou a envelhecer. Tinha dez, treze, quinze anos...
                Cruzi apontou sua arma novamente para o homem.
                - Faça isso parar! – gritou a agente. – Faça parar! Traga um antídoto!
                - Não existe antídoto! – o homem disse, ainda sem expressão. – Esta fórmula não foi feita para haver salvação... ela foi feita para ter sucesso.
                Clara, ainda envelhecendo, começou a gritar.
                - Você não devia gastar seu tempo – continuou o homem. – A bebia foi feita para que, quando as crianças atingissem uma certa idade, morressem...
                - Filho da... – Cruzi gritou, destravando o revolver para atirar no assassino...
                Mas então, houve silêncio. Um silêncio tão profundo que fez Cruzi congelar, deixar de se mover, em pânico.
                Clara havia parado de gritar.
Ela envelhecera até atingir o corpo de uma bela dama de 25 anos.
                Parou de se mover.
                Fechou os olhos, e tornou-se rígida, gélida, morta.
                Cruzi olhou para o corpo de Clara. Mesmo sem o vestido verde, mesmo sem a maquiagem e a tiara, ela parecia uma princesa... tão calma e serena.

4

Escritório da Guarda Nacional, 4h50

                Fora descoberto por que o líquido alterava o DNA das vítimas: pois, neste processo, acabaria matando-as ao atingir a idade de 25 anos. Com Ana, alguma coisa havia dado errado, fazendo envelhecer até ter mais de 90 anos.
                Descobrira-se também o nome do assassino: Vitor Viana Braga. Ele vinha do Distrito 14. Tinha 36 anos, e, como Lane suspeitara, era muito rico... e também sofria de sérios problemas mentais. E também, Ana, Bianca, Manuela e Clara não eram as primeiras meninas que matava: em vários outros Distritos, mulheres havia sido encontradas mortas, vestidas de princesas, mas ninguém desconfiava que eram na verdade crianças que haviam sido envelhecidas. Ainda, havia um padrão em seus assassinatos: sempre as vítimas apareciam de vestidos azul, amarelo ou verde, sempre em áreas muito ricas, médias ou pobres.
                Àquela hora, Vitor estava sozinho, preso numa cela especial do Escritório da Guarda Nacional. Esperava para ser levado para uma prisão federal, onde seria julgado e provavelmente condenado à prisão perpétua. No entanto, um agente apareceu para levá-lo à sala de interrogatórios. Lá, Vitor encontrou a agente Cruzi.
                Os dois permaneceram em silêncio por alguns momentos. Então, foi Cruzi quem falou:
                - Você tem alguma ideia do que fez à essas garotas? – disse ela. – A Ana, Bianca, Manuela, Clara... você tem alguma ideia do que fez a elas?
                - Desculpe... – Vitor falou. – Mas, quem é Ana? – depois de alguns segundos, ele continuou. – Ah, claro, deve ser a garota do Parque Lage, a que envelheceu mais do que deveria. Desculpe, eu lembro do nome de todas minhas meninas, todas as que eu peguei, mas, por algum motivo, nunca lembro dos fracassos, das mortes que não saíram certas. Provavelmente, não me lembrarei de Clara também... mas você, senhorita Cruzi... de seu nome sempre me lembrarei... por ter conseguido ter me pegado, e me impedido de terminar com Clara...
                - MAS VOCÊ A MATOU MESMO ASSIM! – Cruzi berrou, pegando Vitor pelo colarinho. – É assim que você pensa nelas? Como fracassos? Você não tem nem ao menos a decência de se lembrar delas?
                Cruzi soltou-o, e tentou recobrar a calma, mas não conseguiu. No momento em que falou novamente, seu olhos estavam cheios de lágrimas.
                - Por que você fez isso, afinal? – perguntou ela, chorosa. – Por que você matou essas garotas?
                Para seu espanto, Cruzi notou que Vitor também tinha lágrimas nos olhos.
                - Quando eu olho para crianças – disse ele -, qualquer criança... Oh, eu as acho tão bonitas... tão puras... elas são princesas. Com ou sem os meus vestidos. Mas elas sofrem tanto neste mundo... crescem tão rápido... se corrompem tanto... elas não tem mais tempo para serem jovens.
                Agora, Vitor chorava copiosamente.
                - Elas não merecem isto – continuou ele. – Nenhuma dessas crianças merece. Eu faço o que faço por misericórdia... Eu as mato para preservar sua inocência. Para mantê-las jovens e puras sempre... para que possam ser princesas para sempre.
                Cruzi não entendia a mente daquele homem. Não suportava ouvir aquelas palavras. Ela saiu, no momento seguinte, e entrou no elevador para subir até o Escritório da divisão Titãs.

Escritório da divisão Titãs, 5h55

                Carter subiu para o escritório pouco tempo depois, e tudo que encontrou foi Cruzi, sentada na mesa, chorando. Ela soluçava desesperadamente. Ao perceber que ele havia entrado, Cruzi nem tentou esconder suas lágrimas. Apenas respirou, e continuou olhando para a janela.
                - Ele me disse – falou Cruzi. – O assassino me disse... que ele as matava para mantê-las jovens. Mas como ele fazia isso? Corrompendo-as com uma bebida que as fazia envelhecer até a morte? Como ele achava que as preservava assim?!
                Ela soluçou mais uma vez.
                - Você estava certo, Carter. – continuou a falar. – Este não é um simples caso para mim. Nunca foi. E eu não estou bem, eu sei que não estou bem, mas...
                Ela respirou fundo. Carter se sentou a seu lado, sem nada dizer. Então, Cruzi voltou a falar:
                - Quando eu era criança, dizem que eu era muito feliz. Dizem que eu tinha muitos amigos, dizem... dizem que eu tinha tudo para ter a melhor vida do mundo. Que eu teria um bom emprego, me casaria logo, e teria uma família linda, uma família perfeita...
                Ela fez uma pausa, fechando os olhos. Podia ver todas aquelas imagens correndo em suas pálpebras fechadas, podia ver todos os sonhos se realizando...
                - Mas eu não lembro de nada disso – concluiu ela. – Alguma coisa, a Criança-Cruzi, eu não sei... algum coisa não nos deixa lembrar de nossas vidas, Carter! Eu não lembro de ter sido feliz! E agora estou triste o tempo todo, mas eu não quero estar! Eu não quero estar!
                Lágrimas voltaram a rolar de seu rosto.
                - Essas crianças... Ana, Bianca, Manuela, Clara, e tantas outras que foram mortas por Vitor... elas deveriam ter vivido. Elas deveriam ter vivido suas juventudes, deveriam ter sido felizes e deveriam ter tido memórias felizes, pois o mundo não é justo, Carter, o mundo não é justo! – A esse momento, Cruzi tremia de tanto chorar. Sua face estava distorcida numa máscara de puro desespero. – E eu não pude salvá-las. Eu não pude salvar essas crianças, eu não pude libertá-las. Não houve ninguém para salvar elas, assim como não houve ninguém para me salvar.
                Ela respirou mais uma vez.
                - Vitor estava fazendo tudo errado, Carter... ele não preservava a inocência das crianças ao mata-las. E elas deveriam continuar sendo inocentes... Elas deveriam viver. Elas deveriam ter sido livres...
                Carter não sabia o que dizer. Não ousou sequer se aproximar, sequer oferecer um abraço. As lágrimas de Cruzi eram reais, dolorosas demais. Ele apenas a observou chorar, apenas a viu desmoronar, angustiada.
                Os dois permaneceram assim, enquanto o sol nascia no horizonte.
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