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Apocrypha (parte 2)

ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, o agente investigou o caso da cidade de Chagas, em que uma onda de radiação afetou todos os habitantes, transformando-os em sanguinolentas criaturas. Pouco depois, a Rainha quase foi vítima de um ataque terrorista, que mais tarde se provou uma falsa: seja quem for o terrorista, ele se fingiu alemão para tentar começar uma guerra entre o Império do Brasil e da Alemanha. E agora, descobre-se que existem crianças que se dizem ser Cruzi, Carter, Lane e Foster, lançando os agentes numa gigantesca conspiração... No capítulo anterior, Cruzi foi morta, mas voltou à vida de alguma maneira, devido à desconhecida radiação de Chagas. O que narra-se a seguir é o que aconteceu depois.

1

                Havia uma certa escuridão, um certo bailar de trevas que impedia Cruzi de enxergar. Ela não se sentia muito bem: era como se tivesse sido arrancada de um sonho, ou arremessada para dentro de um. Uma tontura se abatia sobre seu lóbulo frontal, mal conseguia manter os olhos abertos.
                Subitamente, um tipo de fumaça lhe foi visível. Esta envolvia seus pés, e escondia todo o chão – parecia até que ela estava andando nas nuvens. Mas, à medida que seus olhos se acostumavam à escuridão, percebia que não era nada tão bonito assim, mas definitivamente surreal. As paredes não pareciam paredes, nem eram sólidas: eram gosmas vermelhas, mas não completamente vermelhas. Pareciam desbotadas, ou apodrecidas, uma meleca remelenta e repugnante.
                Ela deu o primeiro passo à frente. Encontrava-se num corredor infindável. Então, ouviu algo, e olhou para trás. Não havia nada além da escuridão impura. Mas os ruídos se alastravam ao seu encalço. Não era possível que ela enxergasse alguma coisa – qualquer coisa, naquela escuridão. Então, Cruzi procurou sua arma. Não havia nada. A pistola sumira, e ela não tinha nada para se defender...
                Ela viu uma luz. Longe. Era estranha, quase deformada... e havia alguém saindo da luz...
                Então, ela percebeu. Não era uma luz qualquer, nem uma pessoa qualquer. Era a radiação colorida da cidade de Chagas. E a pessoa estava dentro dela.
                Subitamente, Cruzi sentiu-se apavorada, e gritou... e uma barreira côncava de radiação envolveu seu corpo...
                - Cruzi... – alguém lhe chamava, e a voz ia ficando cada vez mais alta e mais forte. – Cruzi!
                Era a voz de Carter. Ele a chamava de longe...
                - Cruzi!
                Cruzi abriu os olhos mais uma vez.
                Ela estava naquele lugar cinzento, aquela sala de onde tentara fugir com Carter e as crianças. Os três a observavam, com pavor, e então ela se lembrou do que acontecera. Como que para ter uma prova real, ela olhou para seu lado, e viu a bala e o sangue. A bala que lhe atingira na cabeça, seu sangue.
                Ela voltou-se para Carter, de olhos arregalados.
                - Como? – perguntou.
                - Não temos tempo – A criança Cruzi respondeu.
                E logo suas palavras provaram-se reais: as paredes da sala começaram a se descontruir: era como se escamas fossem soltas no ar, como cinzas criadas sem fogo.
                - Corram! – disse Cruzi.
                Eles desbravaram os corredores novamente, à procura da saída, mas estavam perdidos. Os encapuzados há muito deveriam ter fugido; os agentes e as crianças estavam sozinhos no prédio abandonado, que agora começava a desabar...
                - Espere! – gritou Carter. – E os outros?
                - Cruzi! Carter! – uma voz gritou do fundo do corredor, e Lane e Foster apareceram correndo.
                - Isto responde sua pergunta? – Cruzi ia dizendo, mas então parou. Junto dos dois agentes, vieram também duas crianças.
                - O que está havendo?
                - Não temos tempo para isto – disse a Criança-Cruzi. – Temos que sair daqui!~
                E logo assim se fez. Os quatro agentes e as quatro crianças correram para fora dali, gritando para virarem à direita ou à esquerda à medida que chegavam ao fim de um corredor.
                Poderia ter se passado uma eternidade até o momento em que se viram fora do prédio – e foi neste momento que tudo desabou. A fumaça levantada dos escombros engoliu os oito, e os agentes logo perceberam que não era uma fumaça comum: havia algo de estranho nela... algo que entrava em seus corpos... algo que lhes tirava a força...
                Mas eles ainda ouviam os gritos.
                - Corram!
                - Rápido! Temos que sair daqui!
                Cruzi caía, lentamente, sonolenta... sem nada poder fazer...
                Então, a Criança-Cruzi apareceu na frente dela, e disse:
                - Encontre-nos no caminhão!
                E saiu correndo, junto com as outras crianças.
                Cruzi não entendeu o que ela quis dizer. Sua mente não trabalhava direito. Tudo o que soube é que adormeceu no segundo seguinte.

2

9 de novembro, 7h05

                Cruzi não sabia onde estava quando abriu os olhos. Tudo que viu foi luz; uma luz alvíssima e sufocante. Quando enfim seus olhos se acostumaram, percebeu que não era simplesmente luz: as paredes do lugar onde estava eram brancas. Ao olhar para o redor, viu-se numa sala que reconheceu como um quarto de hospital.
                Ela poderia ter prestado atenção em qualquer outro detalhe, mas tudo o que viu foi o diretor Noah, sentado logo a sua frente.
                - Vocês têm a mínima ideia – disse ele. – Do escândalo que suas ações têm feito na corregedoria?
                Cruzi não respondeu, engolindo em seco. Dessa vez, não tinha palavras nem desculpas.
                - A fama da divisão Titãs já não é exatamente muito boa – continuou Noah. – Um deslize como esse não ajuda em nada. Se vocês estavam cientes de alguma informação relevante para a operação, é óbvio, claro e evidente, que deveriam tê-la contado para seus superiores. E, devido a sua monumental insolência, agora são meus superiores que não estão satisfeitos.
                - Senhor...
                - Não, não, shhh, só ouça. Por que existem no mínimo quarenta engravatados no meu pé, enchendo meu saco pelo simples ato de eu não ter te algemado à cama.
                Cruzi corou levemente. Ela, sempre tão fria, não costumava se importar com palavras, mas desde que as Crianças haviam entrado em sua vida, suas emoções estavam à flor da pele.
                - Agora – prosseguiu Noah. – Eu tenho ciência do quão frustrante deve ser nós, nossa divisão, ter sido deixada para o segundo plano. Sim, eu sei que você provavelmente pensou nisso, assim como eu: se este é um caso claramente sobrenatural, por que o exército se meteu, e tentou esconder de nós até que as crianças fugissem? Se é um caso paranormal, nós, a divisão Titãs, deveríamos ter sido prontamente informados. – Noah fez uma pausa. – Isso me incomoda. Claramente incomoda à vocês também. Mas nada justifica uma tentativa estúpida de salvar as crianças de um batalhão de homens encapuzados com somente quatro agentes, e ainda por cima, sem ligar para a hierarquia da Guarda Nacional, o que poderia ter facilmente sido o motivo para vocês serem demitidos. Vocês não foram exatamente inteligentes, não é?
                Cruzi desviou o olhar, enquanto Noah suspirou pesadamente, antes de dizer:
                - E é por isso que eu estou sendo inteligente por vocês.
                Cruzi voltou-se para ele.
                - Perdão, senhor?
                - Estou mais do que ciente do quão mal falada é a divisão Titãs – disse Noah. – Mas nenhum segmento de nosso governo deveria ter a audácia de prejudicar nosso trabalho ao esconder de nós um caso que é claramente nosso. O exército não está nos contando tudo. E é por isso que vocês vão descobrir.
                Noah se levantou.
                - Eu alterei o boletim médico e subornei as enfermeiras para fazer parecer que vocês quatro tiveram concussões graves e outros ferimentos, de modo que não há risco de morte, mas que vocês só vão poder prestar esclarecimentos em 72 horas. Até lá, ninguém está autorizado a sequer entrar em seus quartos. – disse ele. – Este é o tempo que vocês têm para investigar e concluir este caso, mas é bom que até lá vocês arranjem uma desculpa para o que fizeram. – Ele fez uma pausa, como se estivesse se esquecendo de alguma coisa. – Ah! Ali estão suas roupas.
                Cruzi olhou para a cadeira, onde uma calça jeans e uma camisa velha estavam jogadas. Ela logo percebeu que eram suas roupas velhas – tão velhas que nem usava mais.
                - Não preciso nem dizer – falou Noah. – Que você vai usar essas roupas casuais somente pra não levantar suspeitas. Se vocês quatro saíssem deste hospital de terno e gravata, iam atrair muita atenção. – Ele fez mais uma pausa, e então concluiu: - Conto com vocês, agente Cruzi.
                - Obrigado, senhor – disse Cruzi, superado o momento de choque. – Nós não iremos decepcioná-lo.
                - Mas, eu não preciso dizer que esta troca de favores é uma via de mão dupla – Noah respondeu. – O que quer que você descubra, terá que passar por mim. Quero um relatório completo em minha mesa assim que a investigação estiver finalizada.
                - Posso lhe garantir isto, senhor – disse Cruzi.
                Noah assentiu e saiu do quarto, deixando-a sozinha. Então, a agente trocou de roupa rapidamente, e arranjou um lugar em seu jeans para guardar sua pistola sem fazer volume.
                Assim que Cruzi saiu do hospital, ela viu Lane, Foster e Carter – todos vestidos de roupas tão casuais e largadas quanto a sua.
                - Oi – disse ela, dando de ombros. – Noah...
                - Sim, ele falou conosco – disse Lane, num tom de voz tristonho.
                - O que houve? – Cruzi perguntou, olhando para o rosto de cada um dos três parceiros.
                Carter suspirou.
                - Eu contei para eles – disse ele. – Tudo sobre as crianças. E sequer teria feito diferença se eu contasse ou não.
                Cruzi encarou-o desacreditada.
                - Por quê?
                Foi Foster quem respondeu:
                - Por que existe uma Criança-Foster e uma Criança-Lane também – disse ela. – Estamos nós quatro no mesmo barco.

Na estrada, 10h

                - Eles disseram para os encontrarmos “no caminhão” – disse Cruzi. – Suponho que isto quer dizer o lugar onde o caminhão explodiu.
                Carter assentiu, e continuou dirigindo pela estrada. Passou-se bastante tempo em silêncio, até que Foster falasse:
                - Vocês realmente não têm nada a dizer?
                Cruzi suspirou.
                - E por que teríamos?
                - Não sei! Ao menos revolta, indignação! É impossível que alguém seja tão passivo a algo tão perturbador quanto...
                - Você tem razão – disse Carter. – Nós não estamos calmos. Não estamos levando numa boa. E é por isso que não deveríamos discutir.
                - E por que isso?
                Carter respondeu num suspiro:
                - Por não temos absolutamente nenhuma pista do como isso pode ser possível. – Ele fez uma pausa. – E provavelmente as crianças estão mais preocupadas em salvar suas vidas do que nos dar respostas.
                - Você deveria estar também – disse Lane. – Se essas crianças somos nós, qualquer coisa que afete a elas pode afetar a nós.
                Cruzi se virou em sua cadeira.
                - Então você tem uma teoria?
                - Não é uma teoria, é pura lógica: se essas crianças são nossas versões de quinze, vinte anos atrás, é provável que, se elas morrerem, nós deixemos de existir.
                Cruzi assentiu após alguns segundos, e se calou. Apesar de ser algo óbvio, não havia pensado nisso. O clima agourento se instalou no carro, pairando sobre a cabeça dos quatro.
                - Bem – Foster disse baixinho. – Mais um tópico pra lista de coisas que não sabemos.
                O silêncio perdurou até o momento em que eles se viram no local da estrada onde o caminhão havia explodido. A carcaça de metal do caminhão já havia sido retirada, porém, o fogo deixara uma grande mancha negra no chão.
                - O que exatamente nós deveríamos estar procurando aqui? – Lane perguntou, saindo do carro.
                - Eu não sei – disse Cruzi. – Eles disseram que os encontraríamos aqui.
                - Eu não os vejo em lugar nenhum, e é um pouco difícil de se esconder por aqui.
                - Shhh – disse Carter. – Quietos!
                - O que foi?
                - Vocês não estão ouvindo?
                Assim que os quatro se calaram, notaram: havia um zumbido estranho no ar, vindo da direita. Então, Cruzi foi a primeira a ver: onde terminava a estrada, havia grama, e, dentre o verde, havia uma pequena barreira côncava, a radiação da cidade de Chagas.
                - Ali – apontou ela.
                Os quatro se agacharam em torno da barreira colorida, desta vez tão pequena que não chegava a ter muito mais que um centímetro. A barreira se apagou sozinha, conforme os quatro se aproximavam.
                - Isso deve ter acontecido por causa de Cruzi – Lane teorizou mais tarde. – Se ela emitiu a radiação no momento em que levou um tiro na cabeça, provavelmente esta radiação está dentro dela, e só radiação pode cancelar radiação.
                Assim que a barreira côncava desapareceu, os agentes viram que havia uma pequena carta, jogada na grama. Cruzi tomou-a nas mãos, e estava pronta para abrir, quando ouviu um ruído surdo, como diversos golpes desferidos contra o ar.
                - O que é isto? – Foster se perguntou, e olhou para o céu. Lá, haviam dois pequenos pontos que se aproximavam mais e mais... eram helicópteros. E, dentro deles, havia homens encapuzados que começaram a atirar.
                - Corram! – gritou Carter.
                Os quatro perceberam que o carro estava demasiadamente longe, então, correram para as árvores que cercavam a estrada, que era a melhor chance de se escapar. Não obstante, os dois encapuzados desceram do helicóptero, com seus gigantescos fuzis, e correram mata adentro.
                Os quatro agentes se dividiram: seria mais fácil fugir se o fizessem separados. Cada um seguindo seu caminho, Cruzi corria entre tantas árvores que mal conseguia memorizar o caminho de volta. Ela logo percebeu que de nada adiantava: o encapuzado atirou contra ela, sem acertar nenhuma vez; no entanto, já havia mandado a mensagem de que estava por perto.
                Cruzi se escondeu atrás de uma árvore grossa, e, sacando sua pistola, atirou de volta. Porém, o fuzil do encapuzado era sem dúvidas mais potente, e ele parecia ter plena munição. Ainda assim, houve um momento em que ele não atirou mais, e o barulho surdo de algo caindo chegou aos ouvidos de Cruzi. Ela saiu detrás da árvore, e, quando viu, o encapuzado estava caído morto no chão, com a garganta aberta.
                Às suas costas, então, alguém se aproximava. Cruzi virou-se muito rapidamente, com a arma pronta para atirar... e viu a Rainha. Ela estava vestida de roupas absolutamente casuais, como uma vovó, mas esta não era a parte mais estranha: ela não havia trago segurança algum.
                A Rainha levantou as mãos, rendida, mas também para mostrar que não tinha arma alguma além da faca que usara para cortar o pescoço do encapuzado.
                - Sério, querida? – disse ela, sorrindo. – Você é tola o suficiente para matar uma Rainha?
                - Como posso saber que você não está com eles? – Cruzi protestou. – Como posso saber que você não escondeu de nós as crianças?
                - Querida, querida – disse a Rainha. – Pelo simples fato deste ser o meu Império, e eu não quero vendê-lo a nenhum encapuzado.
                Cruzi então abaixou a arma.
                - O que está fazendo aqui? – ela perguntou, enfim. – Vestida desse jeito e sem seguranças, você pode acabar morta.
                - Estou fazendo o mesmo que você – respondeu ela. – Fingindo uma doença para entrar no campo de batalha. Nossas técnicas não são tão diferentes, sabe.
                - E por que você fez isso?
                A Rainha suspirou, antes de continuar.
                - Por que eu sei que este caso lhe é muitíssimo interessante. Estive a par dos acontecimentos, agente Cruzi, mesmo que de dentro do Paço Imperial, e estou tão intrigada quanto você. Mas não somente por isso: o fato dessas crianças, sendo elas vocês da divisão Titãs ou não, estarem aqui, significa que existe um motivo maior. O meu exército está envolvido no caso, sem nenhuma autorização prévia minha. A minha teoria é que o que estamos vendo aqui, senhorita Cruzi, é o início de uma conspiração: provavelmente existem infiltrados no exército, e esses infiltrados seriam do mesmo grupo que tentou me assassinar, alguns meses atrás.
                - E o que isto significa?
                - Significa que os homens do exército com quem você têm interagido durante este caso não são do exército: são falsos, infiltrados. E esses infiltrados, temo dizer, fazem parte do mesmo grupo que os encapuzados. E esse grupo, minha querida... Não consigo nem imaginar o que eles procuram. Mas essas crianças fazem parte disso, e elas não podem cair nas mãos de ninguém que não seja de confiança.
                A Rainha olhou ao redor.
                - Você veio aqui somente para me dizer isso? – Cruzi perguntou.
                - Sim – respondeu a Rainha. – São informações necessárias para seu caso. – Ela então olhou o relógio. – Eu deveria voltar para o Paço. Provavelmente, meus criados estão trazendo um médico da França para tratar minha falsa doença.
                - Espere! – exclamou Cruzi. – É seguro sair?
                - Creio que sim – a Rainha disse. – Cá entre nós... não acho que mandaram esse helicópteros para nos matarem. Esses encapuzados não sabiam atirar, nem segurar uma arma direito... provavelmente, Lane, Foster ou Carter já devem ter matado o outro. Acho que os mandaram simplesmente para rastrear vocês... para saber o que vocês farão a seguir. Se quer um conselho, é melhor não ir diretamente para onde você deve ir. Fique duas ou três horas no carro, dirigindo para qualquer lugar, e então, se separem. Só um de vocês deve ir para lá. Os outros devem tentar despistar os encapuzados.
                Dizendo isso, a Rainha se virou para as árvores, indo embora.
                - Boa sorte, minha querida – disse ela. – Vocês vão precisar.

3

À caminho, 18h47

                Faziam horas que os quatro agentes estavam andando com o carro de um lado para o outro. Haviam reabastecido o combustível quatro vezes, todas não passando de trinta reais, no cartão e em postos completamente aleatórios; assim, esperavam conseguir enganar quem quer que estivesse rastreando seus passos.
                Quando chegou a hora do crepúsculo, em que o sol se escondia detrás da montanha e lançava seus últimos raios de fogo sobre as nuvens, os agentes se separaram. Seguiram cada um para uma direção, mas foi decidido que Cruzi encontraria as crianças. Ela tivera o primeiro contato, e ela exalara a radiação da cidade de Chagas. Todos teorizavam que, se Cruzi tinha a radiação dentro de si, todos também teriam; porém, à Cruzi aquela questão seria mais urgente: ela “ativara” a radiação há pouco tempo, e tinha que tomar as medidas necessárias para não haver problemas em sua vida.
                - Tome cuidado – Carter desejou, como se a lembrança de alguém atirando em Cruzi ainda estivesse vívida em sua cabeça.
                Foster iria para o sul, dirigindo o carro da divisão. Lane e Carter tomariam táxis diferentes, seguindo cada um para uma direção. Cruzi também tomaria táxis, porém, faria uma viagem mais complicada: tomaria ao menos dois táxis diferentes, compraria uma peruca no meio tempo, e só então roubaria um carro para levar ao local em que deveria chegar.
                Só ela ficara com o papel que haviam achado na estrada. Ninguém havia lido, pois, se um dos quatro fosse capturado e torturado, não poderia dizer nada. Somente agora, que estava sozinha, Cruzi poderia ler. No papel, estava escrito:

                No lugar mais seguro.

                A caligrafia deixava claro que era uma letra de garota. Mas não somente isso: Cruzi não se lembrava de quase nada de seu passado, mas volta e meia encontrava muitos de seus cadernos antigos. Aquela era sua caligrafia de criança. Fora a Criança-Cruzi que escrevera.
                E Cruzi sabia qual era o lugar mais seguro.

20h32

                Cruzi tomou quatro táxis e roubou um carro compacto e uma moto, deixando os dois em locais de fácil acesso, para que os donos pudessem recuperar. Ainda assim, andou dois quarteirões até o “lugar mais seguro”.
                Ela entrou num prédio. Subiu as escadas até o sexto andar. Entrou no apartamento 6B. Sua casa.
                As quatro crianças estavam lá, escondidas na escuridão. Elas saíram de boa vontade, e sentaram-se no sofá. Cruzi não ligou a luz: alguém poderia estar observando do lado de fora do prédio.
                - Vocês não deveriam ter vindo aqui – disse ela.
                - Este é o lugar mais seguro – disse a Criança-Cruzi. – Esta é a casa.
                - Não é o lugar mais seguro para vocês – Cruzi suspirou. – Casa era um lugar seguro quando eu morava com meus pais...
                Cruzi então calou-se. Se não tinha memórias, como se lembrava disso?
                - Nós sabemos o que você deve estar pensando – disse a Criança-Lane. – Nós sabemos que você deve estar querendo respostas. A questão é que nem nós mesmos as temos.
                Cruzi sentou-se também, e disse:
                - Então vocês podem pelo menos me dizer o que sabem.
                - Este não é nosso lugar – começou a Criança-Foster, e logo as outras crianças olhavam feio para ela. – O quê? Estou falando a verdade.
                - Talvez não estejamos começando do jeito certo – disse a Criança-Carter. – O que queremos dizer é: nós não deveríamos estar aqui. Neste lugar, eu não sei. Tudo aqui é diferente. Nós viemos de outro lugar.
                - E que lugar seria esse? – Cruzi perguntou.
                - É aí que está. Nós não sabemos descrever. Sequer sabemos descrever como chegamos aqui. Só sabemos que esses homens de roupas verdes nos querem, e que os encapuzados também.
                Cruzi gastou alguns momentos explicando para as crianças que os homens de roupas verdes eram, na verdade, parte do exército da nação, e que os soldados que estavam atrás deles eram corruptos ou infiltrados, que os encapuzados estavam coagidos com os corruptos.
                - Então há toda uma conspiração para nos pegar! – disse a Criança-Cruzi. – Eu não entendo! Do que eles estão atrás?
                - De seus poderes – Cruzi respondeu. – Eles pretendem usá-los de algum modo, e nós desconfiamos que seja para causar uma guerra.
                - Poderes? – disse a Criança-Carter. – O que seria isso? Não sabia que o verbo “poder” tinha um substantivo equivalente.
                - Como não sabem? Essas coisas que vocês fazem. Explodir o caminhão, por exemplo.
                - Você quer dizer que ninguém neste lugar consegue fazer essas coisas? – a Criança-Lane se admirou. – Que esquisito! A vida de vocês deve ser horrível.
                - Tuomas – disse a Criança-Cruzi. – Não se esqueça de que, aparentemente, eles são nossa versão adulta.
                - Vocês são mais espertos do que eu imaginava – disse Cruzi. – Mas, não vamos nos desviar do assunto: o que vocês sabem? O que aconteceu comigo ontem à noite, quando aquela radiação foi emitida?
                - Você quer dizer a Luz? – a Criança Cruzi respondeu. – É algo que todos nós temos. É como uma impressão digital: cada um tem a sua. Mas nós não podemos nos expor à Luz de outras pessoas, senão nos tornamos criaturas horrendas!
                Cruzi lembrou-se da cidade de Chagas. De como as pessoas expostas à radiação, agora chamada de Luz, haviam se transformado em pedra ou em monstros sangrentos.
                - Eu tenho essa Luz? – disse Cruzi.
                - Se você sou eu, sim – respondeu a Criança-Cruzi. – Aparentemente, as pessoas deste lugar não tem a Luz, já que não tem poderes... mas vocês quatro, dessa tal divisão Titãs, podem ter, por que vocês somos nós... isso é confuso demais!
                - Acho que estamos pulando a pergunta mais importante: como vocês, crianças, vieram parar aqui? Como vocês podem ser nós?
                - Não sabemos, já dissemos. – respondeu Criança-Carter. – Mas, agora que você falou desses corruptos e encapuzados... pode ser que eles tenham nos trago. E só eles devem saber como é possível que vocês sejam nossa versão adulta.
                Cruzi quase suspirou. Não houve tempo: no segundo seguinte, alguém batia à porta.
                - Estão chamando – disse a Criança-Foster, aterrorizada.
                - Não estão aqui para visita – Cruzi respondeu, tão amedrontada quanto.
                No segundo seguinte, a porta foi arrombada. Uma cortina de fumaça adentrou o apartamento, com um estranho cheiro adocicado...
                - A escada de incêndios! – gritou Cruzi, apontando para a janela.
                Ela e as quatro crianças saíram rapidamente, mas, assim que estavam todos foras, alguém atirou. Lá embaixo, haviam dois homens com pistolas, atirando a esmo, esperando acertar alguém.
                - Ai! – a Criança-Lane gritou: fora atingida na perna, de onde jorrava sangue. No segundo seguinte, foi envolto pela barreira côncava de radiação colorida, a tal da Luz, e a bala saiu do ferimento, que se fechou, exatamente como ocorrera com Cruzi na noite passada.
                Os homens começaram a subir a escada de incêndios, sem parar de atirar.
                - Subam! – sussurrou Cruzi, atirando de volta. As crianças subiram apenas um andar, e Cruzi quebrou a janela do apartamento 7B. Os cinco entraram, e, uma vez lá dentro, seguiram correndo para a porta, de onde saíram para o corredor. Lá, havia um homem: ele pretendia atirar em Cruzi... mas a Criança-Carter ergueu sua mão, e, com seus poderes, lançou o homem para trás. Ele caiu desacordado.
                - Vamos descer!
                Eles correram, muitos andares abaixo. Logo, eles perceberam que não era um simples ataque: os encapuzados haviam começado incêndios em vários apartamentos. As portas explodiam para fora, e o fogo se alastrava. Muitos dos corredores já estavam consumidos pelas chamas, e os cinco só puderam passar devido aos poderes das crianças. Quando chegaram ao primeiro andar, o prédio quase desmoronava.
                - Sra. Cruzi! – a Criança-Cruzi gritou. – Espere!
                Assim que saíram das escadas, os cinco viram que uma legião de encapuzados os esperava no térreo. Os encapuzados logo lançaram uma saraivada de tiros, que com certeza mataria tanto Cruzi quanto as crianças – mas as duas meninas e os dois meninos ergueram suas mãos, e, com um só gesto, pararam as balas no ar.
                - O elevador! – Cruzi disse, e entrou com as crianças. As portas se fecharam enquanto os tiros continuavam.
                Em silêncio, eles ouviam a música ambiente. Arfavam, pois haviam respirado fumaça, e suavam de cansaço. Cruzi checou sua munição, e notou que tinha poucas balas.
                O elevador desceria para o subsolo, para o estacionamento mais profundo, onde os moradores mais ricos do prédio estacionavam seus carros blindados. Cruzi poderia facilmente arrombá-los, ainda mais com a ajuda dos poderes das crianças. Assim, os cinco fugiriam dali.
                - Sabem – disse Cruzi. – É perigoso usar elevadores em incêndios.
                Ela não teve resposta: estavam todos cansados demais para jogar conversa fora.
                - Sra. Cruzi – disse a Criança-Cruzi. – Este lugar não é seguro para nós. Nenhum lugar é. Temos que fugir para longe, e encontrar um lugar calmo, até descobrirmos como voltar para casa. – Ela fez um pausa, e desviou o olhar. Quando voltou, tinha lágrimas e medo nos olhamos. – Venha conosco. Nós não sabemos de nada daqui. Nós não conhecemos este lugar. Estamos perdidos.
                O elevador parava lentamente, e um som agudo anunciou que haviam chegado.
                - Por favor – continuou a Criança-Cruzi. – Venha conosco, todos vocês da divisão Titãs. Precisamos de ajuda. Nós estivemos pesquisando. Nós vamos para o...
                No entanto, ela não pôde terminar a frase: assim que a porta se abriu, cilindros metálicos deslizaram para dentro do elevador, soltando a mesma fumaça adocicada que haviam sentido acima... Cruzi se sentiu sonolenta, assim como no prédio abandonado no dia anterior...
                Ela ouviu as crianças gritarem. Ela ouviu passos, e correria, mas não ouviu nenhum tiro. E ela não poderia fazer nada... estava caindo...

4

                10 de novembro, 2h35

                Cruzi acordou alguns momentos depois. Carter havia aparecido, e tirado ela do prédio antes que os bombeiros chegassem. Ele não havia encontrado nenhum encapuzado, nem as crianças.
                Carter rapidamente ligou para Lane e Foster. Os quatro logo estavam reunidos. Mas demorou muito tempo até que Cruzi tivesse recuperado a fala, e o choque tivesse passado. Então, ela explicou tudo. Ela falou sobre a radiação de Chagas se chamar Luz, e sobre o fato de que as crianças tinham poderes por que vinham de outro lugar. Não se sabia qual era o outro lugar. Não se sabia como voltar.
                - Eu não sei se elas foram capturadas ou não – disse Cruzi. – Seja como for, não houve tempo para as crianças me dizerem para onde estavam indo. Não sabemos de nada.
                - Sabemos que elas estão vivas – disse Lane. – Senão, alguma coisa já teria acontecido a nós.
                - Talvez – Cruzi respondeu. – Talvez.
                Ela logo se calou, pensativa. Quando voltou a falar, anunciou:
                - Eu e Carter tivemos nossas memórias apagadas em algum momento de nossas vidas. Vocês dois, Foster e Lane, provavelmente também tiveram. E essas crianças... elas estavam perfeitamente sãs. Isso quer dizer que a memória delas ainda não foi apagada. O que, por sua vez, quer dizer que nós podemos obter algumas respostas a partir delas.
                - Talvez – foi a vez de Carter dizer. – Mas, neste momento, não existe muito o que nós possamos fazer. Temos que encontrar essas crianças novamente. E a única maneira de fazer isso é mantendo nossos empregos, o que significa que teremos que nos explicar para nossos superiores.
                Cruzi assentiu. Mesmo que todos soubessem que era verdade, ninguém tinha real ânimo, nem real esperança.
                - O que nós vamos fazer? – disse Foster, e ninguém respondeu. Ninguém sabia.
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