Olá galera :) Feliz feriadão! E, pra melhorar, cá está o capítulo 6! Lembrem-se: o capítulo 7 só será postado dia 21/09! Até lá, podem reler a vontade, o que eu sugiro que façam com os capítulo 1 e 2, por que a história vai começar a complicar daqui pra frente! Enfim, curtam, pois é aqui que tudo muda :)



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Apocrypha (parte um)

ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, o agente investigou o caso da cidade de Chagas, em que uma onda de radiação afetou todos os habitantes, transformando-os em sanguinolentas criaturas. Pouco depois, a Rainha quase foi vítima de um ataque terrorista, que mais tarde se provou uma falsa: seja quem for o terrorista, ele se fingiu alemão para tentar começar uma guerra entre o Império do Brasil e da Alemanha. E este é apenas o começo...

1

Alguma estrada qualquer do Distrito Imperial, 7 de novembro, 23h40
                O caminhão seguia pela estrada solitário. Era tarde da noite e ninguém passava por aquela rodovia, mas, mesmo se alguém o fizesse, não perceberia que o caminhão, aparentemente comum, era blindado. Não só isso, como era feito de material cinco vezes mais resistente do que carros blindados comuns. Ninguém perceberia que os homens sentados no banco do motorista e do passageiro eram, na verdade, soldados do exército. Para eles fora oferecida a chance de, caso esta missão fosse cumprida com louvor, eles ganhariam dinheiro suficiente para nunca mais trabalhar na vida.
                Obviamente, não sabiam o que carregavam. Não sabiam o que estava escondido na traseira do caminhão. Deveriam apenas transportar, e não fazer perguntas. Era um preço justo a ser pago. Oito horas na estrada, do Distrito Imperial até o Distrito 5, o único barulho que se ouvia era o do rádio, pois não ousavam conversar.
                De repente, o caminhão tremeu.
                - Você sentiu isso? – perguntou Gustavo, um dos soldados.
                - Acho que atropelamos um cachorro – respondeu Freitas, o outro soldado.
                - Pare o caminhão, vamos ver...
                - Não. Temos ordens expressas para seguirmos nossos caminhos sem parar. E, além disso, não haveria nada que você pudesse fazer pelo cachorro.
                Gustavo acabou por aceitar. Ele nunca falara com Freitas na vida – na verdade, nunca o vira; deviam ser de áreas diferentes. Talvez, seus superiores tivessem colocado os dois juntos de proposito, já que nunca haviam se conhecido...
                O caminhão tremeu novamente.
                - Não é um cachorro – Gustavo disse. – Isso veio... de dentro do caminhão?
                E tremeu mais uma vez.
                - Pare – Gustavo falou – Pare agora!
                E Freitas obedeceu.
                Gustavo pretendia sair do caminhão e ir direto checar se havia alguma coisa errada, mas a porta não queria abrir. Freitas tentou sair também, e o resultado foi o mesmo. Os dois socaram e chutaram suas portas, sem sucesso.
                - Mas que droga...
                Então, o caminhão explodiu.
                As chamas consumiram os corpos dos dois soldados, matando-os queimados. Tudo que estava dentro do caminhão foi destruído pelo fogo... a não ser por duas pequenas figuras, que saíram das chamas como se elas nada fossem. Não estavam feridas nem nada; tinham traços definitivamente humanos, muitíssimo jovens... eram crianças.
                Ela deixaram o caminhão destruído para trás, fugindo, antes que o exército as capturasse novamente.

2

8 de novembro, 7h30

                Cruzi mais uma vez não havia conseguido dormir. Havia se tornado hábito. Ela passava a noite em branco até o momento em que desandasse a beber. Não eram mais do que alguns goles, pois tinha que trabalhar mais tarde, mas ainda assim bebia. Ela não conseguia aguentar o que o Homem Sombra havia dito.
                Seu telefone tocou, e ela prontamente atendeu.
                - Cruzi. – disse ela, ouvindo o que o oficial dizia do outro lado da linha. – Sim, senhor, estamos indo para aí neste momento.
                Ela pegou seu casaco, calçou seus sapatos e ligou para os outros. Eles tinham um caso.

8h55
               
                (coloque para tocar a música: “The Way The World Crumbles”, Fringe OST)
                Cruzi chegou à cena do crime ao mesmo tempo que os outros. Os quatro avistaram o diretor Noah. Ele estava no hospital se recuperando dos ferimentos do caso do vidente do Distrito 23 fazia quase um mês, e era uma surpresa para todos que já estivesse pronto para voltar ao trabalho.
                - Senhor – cumprimentou Lane. – Estou feliz que esteja de volta.
                Noah assentiu, sem demonstrar emoção.
                - Qual é o caso? – Foster perguntou.
                - Este caminhão sofreu um “acidente” no caminho para o Distrito 5. Ele, na verdade, é um caminhão de cargas do exército, disfarçado, transportando algo importantíssimo...
                - E suponho que esta carga seja o motivo de estarmos aqui.
                - Ora, então vamos examinar logo o caminhão – disse Lane. – Se for uma carga tóxica, não podemos correr o risco de deixar contaminar...
                - Você não foram chamados aqui para examinar a cena do crime - Noah interrompeu, e todos olharam diretamente para ele, antes que o mesmo se afastasse junto aos agentes.
                - Os dois soldados morreram na explosão, mas nós sabemos o que o caminhão carregava – continuou o diretor. – Agora escutem bem, esta informação é altamente secreta, não pode sob circunstância alguma vazar para a imprensa...
                Os agentes passaram algum tempo ouvindo os termos de Noah e acalmando-o.
                - Pois bem – disse o diretor por fim. – Este caminhão estava transportando dois... meliantes. Se assim pode se chamar.
                - E como deveríamos chama-los?
                - De protegidos. Estes dois possuem poderes inimagináveis, sequer catalogados entre os casos Titãs... Há alguém atrás deles, e eles não sabem o perigo que correm fora dos domínios do exército. E, talvez, o mais importante de tudo: são crianças.
                - Crianças?
                - Você está me dizendo – falou Cruzi. – Que crianças estão sendo perseguidas?
                - Por causa de seus poderes, é claro – Noah logo prosseguiu. – Não sabemos o que causou esta explosão... mas pode ter sido um ataque. Seja como for, temos que encontrar estas crianças logo, antes que acabem mortas. Espero que eu não tenha que lembrar que vocês terão que adotar extrema descrição neste caso. Tudo o que acontece aqui é segredo absoluto. Se uma única informação sair daqui, pode apostar que vocês colocaram a carreira de pelo menos três andares inteiros em risco.
                Vinte minutos depois, estavam todos coletando informações que seriam importantes na investigação, para que pudessem partir logo. Cruzi, sozinha, esperou que Carter se afastasse da multidão, e falou para ele:
                - Carter...
                O agente se virou.
                - Carter, nós temos que conversar...
                - Não temos não. Temos que investigar este caso.
                - Carter – Cruzi repetiu, suspirando. – Carter, isto é sério, não pode ser deixado para depois...
                - Cruzi – Carter acalmou-a. – Temos que investigar este caso. É nossa prioridade e nosso dever. Qualquer coisa pode ser deixada para depois.
                Dizendo isso, ele entrou em seu carro, e foi embora. Nem ofereceu carona para Cruzi. Ela sabia que ele estava tendo dificuldades em acreditar no que o Homem Sombra dissera – ou melhor, estava tentando não acreditar. E Cruzi não podia culpa-lo.

Escritório da Guarda Nacional, 10h20

                                                                                                                                        
                De volta ao prédio, a divisão pôs-se ao trabalho. No entanto, os Titãs não estavam sozinhos: o caso era tão grave que acabara por mobilizar ao menos mais cinco seções da Guarda Nacional.
                - O que nós já conseguimos descobrir? – Foster perguntou para Lane, que respondeu:
                - O mega-computador da divisão de ciências calculou que, levando em consideração que a musculatura de uma criança não é muito desenvolvida e que por isso elas se cansam mais facilmente num exercício físico puxado, nas dez horas que se passaram as crianças não devem ter se afastado mais do que doze quilômetros.
                - A cidade mais próxima dali fica a trinta quilômetros – calculou Foster. – O que significa que elas ainda estão na estrada... ou entraram na mata.
                - Sim. E não devemos nos esquecer de considerar que dez horas perdidos pode causar imenso estresse, além da fome e do sono que eles devem estar sentindo... isto é, se passaram a noite acordados. E há grande chance de isto ter acontecido, já que o caminhão foi provavelmente explodido por quem quer que esteja atrás das crianças...
                - E eles já podem tê-las capturado... – Foster concluiu com espanto.
                - Sim, mas também há uma chance de elas terem escapado – Lane completou. – Seja como for, temos que encontrar alguma coisa, QUALQUER COISA, que nos ajude. Uma equipe está investigando os arredores e nos enviando informações em tempo real. Tudo que nos resta fazer é esperar e pensar.

                Enquanto isso, Carter pensava sozinho, numa sala. Ele analisava arquivos, fotos, tudo o que já fora encontrado na cena do crime, à procura de qualquer pista que pudesse ajuda-lo.
                Neste momento, Cruzi bateu à porta da sala.
                - Posso entrar? – perguntou ela, e, como não houve resposta, entrou.
                Sentando-se de frente para Carter, encarou-o por alguns segundos, antes que ele largasse seus papéis e dissesse:
                - O que você quer?
                - Carter... não me trate como idiota. Nem tente ignorar o que nós realmente temos que fazer aqui...
                - E o que isto seria? – ele interrompeu. – Acreditar na palavra do Homem Sombra, um criminoso? De um louco? Um homem que assassinou dezenas, talvez centenas de pessoas? Nem mesmo morto ele deixa de destruir vidas! Olhe o que ele está fazendo com você!
                - Que diabo, Carter! – Cruzi bateu na mesa. – Você viu o que aconteceu. Nós dois vimos. E já vimos coisa pior, coisas impossíveis se tornarem realidade. Por que é tão difícil assim de você acreditar?
                - Por que eu conheço tipos assim! Eu conheço mentiras desesperadas! Ele estava fazendo de tudo para nos perturbar, Cruzi, e somente isso!
                A agente suspirou.
                - E o que você me diz das suas memórias? – ela disse. – Você não pode negar isso. O Homem Sombra disse que nossas memórias foram apagadas!
                - Eu não tenho certeza quanto a isso... isso é completamente ilógico, no sentido natural e no sentido paranormal. Pode... pode ter sido o momento, a minha mente pode ter me pregado uma peça...
                - Isso é inacreditável, Carter!
                - Inacreditável é correr atrás da teoria de um assassino sem prova alguma! – Ele refutou. – Cruzi, você está sequer se ouvindo?
                Ela se deixou cair sobre a cadeira.
                - Talvez devêssemos apenas contar para Lane e Foster, ver se eles podem fazer alguma coisa...
                - NÃO! – Carter bradou. – Ninguém pode saber disso! Nós... nós não podemos deixar que isto saia desta sala!
                Cruzi debruçou-se sobre a mesa, admirada, e disse:
                - Do que você tem medo, Carter? – Como não obteve resposta, continuou: - Quer saber? Assim como você julga que eu não tenho prova nenhuma, posso muito bem dizer que você também não tem. Então creio que chegamos a um impasse.
                Carter estava pronto para retaliar, quando Foster adentrou a salinha:
                - Gente... acho que nós achamos as crianças.
                Os dois agentes se voltaram para ela, e Cruzi foi a primeira a dizer:
                - Onde? Como?
                - Elas estão num bairro de classe média baixa do Distrito Imperial... o que não deveria ser possível segundo os cálculos do mega-computador, por que crianças não têm a capacidade corporal de percorrer uma distância tão longa em tão pouco tempo...
                - Certo, certo – falou Carter. – Mas como vocês descobriram onde estavam as crianças?
                - Bem... – Foster anunciou. – Este é o problema. Nós não descobrimos. Uma viatura da policia local informou que viu as duas crianças correndo, com medo, e por onde elas andavam, se alastrava puro caos e destruição.

Ruas do Bairro 8, 12h30

                (coloque para tocar a música: “The Window Of Opportunity” Fringe OST)
                A equipe havia se preparado, com coletes a prova de bala e todo tipo de material, o mais rápido que podia. Chegando ao bairro propriamente dito, viram o desastre: o asfalto das ruas havia sido partido ao meio, e arremessado para os lados em forma de grande pedregulhos. As tubulações de esgoto haviam se rompido, arremessando a água fétida para cima. O bairro inteiro havia se trancado dentro de casa, ou então, haviam fugido para qualquer outro lugar. O terror que a destruição causava era impressionante.
                - Vai ser difícil esconder isso da imprensa – Cruzi comentou.
                Tão logo todos os agentes saíram de seus carros, formando uma legião de mais ou menos cinquenta pessoas armadas e trajadas de coletes, o diretor Noah, que fora designado para ser o líder da força-tarefa, gritou suas ordens:
                - Vamos nos dividir! – dizia ele. – Este é um bairro grande, e as crianças podem estar escondidas em qualquer lugar! Lembrem-se, elas NÃO SÃO PRISIONEIROS! As crianças são VÍTIMAS! Temos que encontra-las antes que alguém mal intencionado o faça!
                Não bastou um segundo para que começassem os tiros.
                Todos os agentes se viraram para o fim da rua. De lá, surgia uma gangue de encapuzados, musculosos e trajados dos mesmos coletes à prova de balas, atirando para o alto. Não demorou até que eles passassem a atirar contra os agentes.
                - RECUAR! – Noah gritou.
                Os agentes se espalharam, desviando-se dos tiros e atirando de volta. O caos se instalou. Cruzi, Carter, Lane e Foster correram, se escondendo. Cruzi e Carter, em especial, seguiram para uma direção, atrás de carros que haviam capotado. Cruzi sacou sua pistola e atirou contra os encapuzados – no primeiro tiro, acertou um no braço, o que o tirou do combate. Carter fez o mesmo, atirando a esmo, procurando atingir qualquer um dos inimigos. No entanto, os encapuzados tinham fuzis e outras armas pesadas, podendo atirar a tamanha velocidade que simples pistolas não seriam o suficiente para combatê-los.
                - Devem ser eles que estão atrás das crianças! – Carter disse, e Cruzi concordou.
                Mas logo, ela deixou de prestar atenção na troca de tiros. Olhando para a direita, ela viu que estava diante da entrada de um beco escuro... E, no fim desse beco, se olhasse bem, ela via duas pequenas formas, um menino e uma menina...
                As crianças.
                - Carter... – Cruzi sussurrou, e o agente viu também.
                Eles também perceberam que os agentes olhavam para eles, e, rapidamente, entraram na primeira porta que viam no beco.
                Os dois agentes se entreolharam num segundo apenas, antes de correram para o beco o mais rápido possível, desviando das balas. Entraram na porta também, e se viram dentro de um grande prédio escuro. As crianças seguiam para um corredor, correndo desesperadas...
                Os agentes as seguiram. Cruzi corria com vigor, deixando Carter para trás muitas das vezes. Seguiu-se uma corrida interminável, subindo e descendo diversas escadas, entrando e saindo de salas, até que Cruzi gritasse:
                - Ei! Esperem! Nós não queremos lhes machucar!
                A garotinha parou de correr, mas o garoto seguiu em frente. Lentamente, a menina se virou para Cruzi, e sussurrou com sua voz estridente:
                - Você não vai me machucar? – ela tinha medo em sua voz.
                - Não! – Cruzi se aproximou, guardando sua pistola. – De jeito nenhum! Viemos apenas ajudar.
                - Você não está com eles? – A menininha sussurrou novamente, enquanto Carter chegava. – Você não está com os homens de roupas verdes?
                Cruzi não entendeu o que ela quis dizer. Mesmo assim, a agente disse que não. Olhou para Carter, e assentiu para ele; assim, ele passou a olhar o redor da sala, sempre alerta para qualquer ameaça.
                - Nós temos que sair daqui – disse Cruzi. – Você e seu amigo são muito especiais, e tem gente má atrás de vocês. Temos que nos esconder, e sair daqui. Eu vou só chamar meus amigos, meus colegas, e aí nós vamos sair daqui, ok?
                A garotinha assentiu.
                Cruzi sacou seu rádio, e tentou falar por ele, mandando uma mensagem para o diretor Noah. Porém, o rádio não funcionava; emitia somente um chiado ensurdecedor.
                Cruzi olhou para Carter de novo, e disse:
                - Não está funcionando.
                - Droga! – Carter respondeu. – Vamos ter que nós mesmos tirá-los daqui.
                Cruzi, respirando fundo, com a adrenalina à flor da pele, falou para a menina:
                - Olhe – ela começou a dizer, acariciando os braços da pequena. – Vamos precisar que você seja muito corajosa para sair daqui, e vamos precisar encontrar seu amiguinho. Vai ser muito perigoso, e vai ter homens maus lá fora, então vamos precisar que você fique perto de nós o tempo todo, entendeu?
                Cruzi fez uma pausa. Aquela garota não lhe era estranha. Olhando para o rosto dela, tinha a impressão de que já a conhecia de algum lugar. Mas o que realmente lhe chamou a atenção foi a cicatriz no braço da criança. Era longa e se estendia desde o cotovelo até os ombros; Cruzi tinha uma cicatriz muito parecida, tanto que sempre tentava escondê-la com seu terno longo e camisas de manga comprida. Cruzi então perguntou:
                - Qual o seu nome, querida?
                A garotinha, sussurrante, disse diretamente:
                - Mila... Cruzi. Meu nome é Mila Cruzi.
                A agente Cruzi congelou, e o agente Carter se virou, surpreso.
                A garotinha... era a própria agente Cruzi.
                Então, saindo do escuro, o garotinho, amigo da Criança Cruzi, apareceu de novo. A Criança Cruzi chamou-o:
                - Leon?
                E foi a vez de Carter congelar. O primeiro nome do agente Carter era Leon... o que significava que a garotinha era uma versão infantil da agente Cruzi, e o garotinho era uma versão infantil do agente Carter. Mas como isso era possível?
                No momento seguinte, nem os agentes nem as crianças tiveram muito tempo de pensar. Os homens encapuzados entraram na sala escura, apontando suas armas. Cruzi percebeu que eles não eram os homens de roupas verdes... e chegou a uma conclusão assustadora.
                Não houve tempo para mais nada. Os encapuzados foram rapidamente mortos, e os agentes Cruzi e Carter foram arremessados no ar por uma força invisível – esses eram os poderes das crianças.
                - Desculpa! – disse a Criança Cruzi, fugindo novamente junto da Criança Carter.

3

Escritório da Guarda Nacional, 17h

                (coloque para tocar a música: “Connecting All The Fringe-Cidentes”, Fringe OST)
                - Eles somos nós, Carter! – Cruzi sussurrava, desesperada. – Essas crianças somos nós!
                Todos os agentes estavam de volta ao prédio da Guarda Nacional. Os encapuzados, de alguma forma, haviam fugido depois que as crianças desapareceram de novo. Cruzi e Carter tinham ferimentos leves devido a terem sido arremessados no ar. Neste momento, ambos estavam escondidos dentro de uma sala, falando a sós.
                - Isso... – Carter dizia. – Isso é impossível...
                - Você viu o que eu vi, Carter! – disse ela. – Aquela garotinha tinha a mesma cicatriz que eu tenho... Ela sou eu! E o garoto é você!
                Carter, chocado, não conseguia pensar direito. Cruzi também não.
                - Carter – continuou ela. – Carter, o que nós vamos fazer?
                - Eu... eu não sei. Eu não sei.
                Cruzi estava a ponto de chorar. Carter a abraçou, e ambos permaneceram assim, estupefatos e sem rumo, por um bom tempo, antes de se recuperarem.
                - Isso pode explicar o que o Homem Sombra disse – Cruzi percebeu. – Eu não sei como, mas deve haver alguma ligação entre nossa memória ter sido apagada e essas crianças...
                - Calma, Cruzi – Carter disse. – Uma coisa de cada vez. Neste momento, temos que nos preocupar em salvar as crianças.
                Cruzi assentiu, e disse:
                - A garotinha... a “Criança-Cruzi”... ela me falou algo sobre homens de roupas verdes. Ela tinha medo desses homens.
                Carter continuou a ouvir, querendo saber aonde ela ia chegar.
                - Carter – prosseguiu Cruzi. – Carter... eu acho que esses homens de roupas verdes são os soldados do exército. Eu acho... acho que eles não estão tentando proteger essas crianças. Pense bem! Se as crianças tem poderes sobrenaturais, este deveria ter sido um caso da divisão Titãs desde o início! E só fomos informados quando as crianças sumiram! O exército se envolveu no caso, e tentou esconder da gente, por que havia algum interesse!
                - Então quem são os encapuzados?
                - Eu não sei! – Cruzi suspirou. – Mas, seja como for, tanto o exército quanto os encapuzados querem as crianças para alguma coisa... e não estão tentando protegê-las.
                - Talvez pelos poderes delas?
                - Sim, provavelmente. Diabo! Os poderes! Se essas crianças são realmente nós... então que diabos de poderes são estes?!
                Ela suspirou novamente.
                - O exército está atrás das crianças... – disse ela, ligando os pontos. – Talvez, a explosão do caminhão na estrada não tenha sido um ataque dos encapuzados. Talvez, as próprias crianças tenham usado seus poderes para fugir do caminhão... para fugir do exército!
                - Então somos nós contra todos – disse Carter.
                - Temos que achar essas crianças – Cruzi concluiu. – Temos que acha-las e temos que protegê-las... não podemos confiar em ninguém!
                Neste momento, chegava uma mensagem ao computador daquela sala. Cruzi e Carter a abriram.
                - Aqui diz que as crianças liberaram algum tipo de energia no Bairro 8 – Carter disse. – Essa energia pode ser facilmente detectada. Os caras da divisão de ciências rastrearam e encontraram as crianças, elas estão escondidas em algum lugar da Avenida 55 do Bairro 16.
                Depois de um minuto de silêncio, Carter imprimiu aquela informação e guardou-a no bolso. Então, olhando para os lados para garantir que ninguém visse nada, ele apagou a mensagem do computador.
                - O que você está fazendo? – Cruzi perguntou.
                - Eliminando provas. Assim, nós podemos chegar às crianças antes do exército e dos outros agentes, e assim podemos salvá-las. – No entanto, Carter suspirou. – Temos pouco tempo até que alguém da divisão de ciências ligue para cá ou mande novamente a mensagem. Temos que ser rápidos.
                Assentindo, Cruzi acompanhou Carter para fora da sala. Os dois entraram no elevador, descendo até o estacionamento... onde encontraram com Lane e Foster.
                - Ei! – os dois falaram, chamando a atenção de Cruzi e Carter. – Estão indo para algum lugar?
                Cruzi olhou para Carter, que olhou para Cruzi. Em seus olhares, os dois concordaram que precisariam de toda ajuda possível, e que Foster e Lane eram os únicos em que podiam confiar. Ainda assim, decidiram não contar para eles sobre o Homem Sombra e sobre as crianças – ainda. A hora certa um dia chegaria.

Avenida 55, Bairro 16, 19h

                - As crianças estão aqui – Foi tudo o que Cruzi e Carter disseram a Lane e Foster. Era tudo o que eles precisavam saber.
                Os quatro agentes saíram do carro rapidamente, e, com pavor, Cruzi notou no carro que fora estacionado do lado de fora.
                - Eles estão aqui! – sussurrou para Carter. – Os encapuzados, o exército, seja quem for!
                Carter assentiu, e, correndo, entrou no terreno em que o carro do inimigo havia estacionado.
                O lugar era um gigantesco prédio abandonado. Tinha somente dois andares, mas parecia uma grande fábrica; devia ser um prédio de executivos, com diversas salas e corredores, mas agora era somente escuro e repugnante. Os quatro entraram, e se dividiram lá dentro: Carter e Cruzi ficariam com área leste do prédio, enquanto Lane e Foster ficariam com o oeste.
                Depois de muito tempo desbravando corredores, Carter e Cruzi se depararam com uma grande sala, de pelo menos dez metros quadrados. Ali, penetrava somente levemente a luz da lua. A Criança-Cruzi e Criança-Carter estavam parados no meio da sala.
                Subitamente, os dois correram para os agentes Cruzi e Carter, e os abraçaram.
                - Nós estávamos esperando vocês! – disse a Criança-Cruzi, cheia de medo na voz.
                - Vocês são diferentes, não são? – perguntou a Criança-Carter. – Vocês são nós, e nós somos vocês... Eu acho que é isso. É estranho.
                - Definitivamente – Carter concordou.
                - Nós não estamos seguros aqui – disse a Criança-Cruzi. – Este lugar foi nosso abrigo por muito tempo, até os homens de roupas verdes nos capturarem... Mas já não podemos ficar aqui. Temos que avisar os outros.
                - Há mais de vocês? – Cruzi perguntou.
                A Criança-Cruzi assentiu, e disse:
                - Temos que sair daqui. Temos que voltar para nosso verdadeiro lar.
                - E qual é o verdadeiro lar de vocês? – Carter perguntou.
                No entanto, não pôde responder. A Criança-Carter levantou os olhos, e disse:
                - Nós não deveríamos ter falado tão alto... Eles estão aqui.
                E não houve tempo para mais nada: os homens encapuzados entraram pela sala com pistolas na mão, atirando em tudo que se movia.
                - CORRAM! – Cruzi gritou, pegando pela mão a Criança-Cruzi. Carter fez o mesmo.
                Os dois agentes e as duas crianças entraram pela primeira porta que viram. No entanto, não se deram o trabalho de fechá-la: as crianças, com seus poderes mentais, arrancaram a porta da parede e lançaram contra os encapuzados. Três caíram. Mas ninguém teve tempo de ver mais nada.
                - Para onde vamos? – Cruzi disse enquanto corria.
                - Para a direita! – A criança Cruzi gritou, e os quatro viraram no corredor.
                Afobados, elas perceberam que os encapuzados os seguiam. Cruzi atirou, sem se importar se acertava ou não. Os encapuzados também atiravam. As balas ricocheteavam nas paredes, e as crianças usavam seus poderes sempre que podiam. Elas criavam explosões nos corredores, que serviriam como distração.
                - Estamos chegando perto! – disse a Criança-Carter. - A saída é daqui a uns três corredores!
                - Temos que avisar aos outros! – disse a Criança-Cruzi, subitamente parando.
                - Nós vamos atrás deles! – Cruzi respondeu. – Mas agora temos que fugir!
                Então, Cruzi percebeu que os encapuzados vinham pelo corredor.
                - Crianças, corram até a saída – disse ela. – Nós já vamos atrás de vocês.
                Assim que as crianças partiram, Cruzi e Carter seguiram por um outro corredor.
                Atirando contra os encapuzados, os agentes os distraíram. Correndo no escuro, pelo emaranhado de corredores, se perderam.
                - Carter! – gritou Cruzi, chamando a atenção do amigo enquanto um encapuzado apontava uma arma para ele... Cruzi atirou, matando o encapuzado, e continuaram a correr.
                No meio do tiroteio, caía um, caíam dois... Os encapuzados também se perdiam no corredores, até que Cruzi e Carter se vissem sozinhos.
                - Vamos sair daqui – disse Carter, seguindo na frente de Cruzi. – Vamos ligar para Lane e Foster, vamos encontrar as outras crianças e sair daqui antes que...
                Carter não viu o encapuzado que saía do corredor à sua frente. Paralisado de surpresa, o agente observou enquanto o encapuzado sacava uma arma...
                - CARTER! – Cruzi gritou, e atirou contra o encapuzado, que caiu morto.
                Carter, aliviado, se virou para Cruzi, querendo agradecê-la... E então gritou:
                - CRUZI!
                Ela se virou para trás. Às suas costas, havia outro encapuzado, apontando a arma para sua cabeça... e ele atirou.

***
(coloque para tocar a música: “Halloween Theme Song”, Michel Mayers)
                Enquanto isso, Lane e Foster desciam até o subsolo, e encontraram uma porta. Assim que abriram, depararam-se com um lugar nojento e molhado, caindo aos pedaços e a ponto de desmoronar.
                - O que é isto? – Foster admirou-se, enojado.
                - Ei! – Lane disse. – Olhe aquilo!
                Havia duas pequenas formas encolhidas junto à parede... crianças. Animado, Lane falou:
                - São eles!
                Mas, no minuto seguinte, apontando sua lanterna para as crianças, percebeu que eram crianças diferentes: as crianças que haviam fugido do caminhão, segundo o que as fotos mostravam, eram uma menina loira e um menino de cabelo preto. As crianças encolhidas eram um menino alto para sua idade, e uma menina de pele morena e cabelos cacheados... Lane e Foster tinham a impressão de que já haviam visto essas crianças em algum lugar...
                - Ei – Foster disse. – Ei, coleguinhas...
                As crianças, chorando de medo, falaram:
                - Vocês não são nenhum deles, não é? Vocês não são os homens de roupas verdes? Vocês não vão nos machucar?
                Foster e Lane se entreolharam, antes que Foster dissesse:
                - Não, não... nós não vamos. Viemos para resgatá-los... – ela fez uma pausa. – Qual o nome de vocês?
                As crianças, amedrontadas, levantaram-se do chão úmido e imundo. E anunciaram seus nomes.
                - Meu nome é Tuomas Lane – disse o menino.
                - Meu nome é Allen Foster – disse a menina.

***

                - NÃO! – Carter gritou, mas era tarde demais.
                O encapuzado atirou. A bala perfurou diretamente a testa de Cruzi, fazendo-a cair, morta.
                - NÃO! NÃO! NÃO!
                O encapuzado se virou, voltando para a escuridão do corredor. Carter nem pensou em segui-lo. Correu diretamente para o corpo inerte de Cruzi, segurando-o nos braços. Um filete de sangue escorria do buraco da bala.
                Carter desesperou-se. Seu rosto contorceu-se numa máscara de angústia, enquanto ele segurava o corpo de Cruzi. Os olhos dela estavam fechados. Ela quase parecia que estava só dormindo.
                Então, ele sentiu uma mão em seu ombro, e se virou. A Criança-Cruzi e a Criança-Carter estavam ali... e tinham medo.
                - Saia de perto dela – sussurrou a Criança-Cruzi.
                - O... o quê?
                - Saia de perto dela agora!
                - Mas...
                - Rápido! Não há tempo!
                A Criança-Cruzi tentou agarrar Carter pelos ombros, mas ele logo se remexeu.
                - O que... o que diabos você está dizendo? – Carter disse, com raiva. – Ela é você! Ela está morta! Como você espera que eu...
                - Você não está entendendo! – A Criança-Carter falou, apressado. – Temos que sair daqui agora!
                E ambas as crianças agarraram Carter pelos ombros. Eram muito mais fortes do que pareciam, muito mais fortes do que meras crianças. Não importava o quanto Carter esperneasse e gritasse, as crianças o levavam para longe do corpo de Cruzi...
                - Me soltem! – gritava Carter. – Me soltem! ME DEIXEM IR! CRUZI! CRUZI!
                - Cale a boca! – A Criança-Carter disse.
                - Olhe o que está acontecendo! – disse a Criança-Cruzi, soltando-o.
                Carter, livre, olhou para o corpo de Cruzi, e ficou tão surpreso que seus olhos poderiam ter saltado das órbitas.
                O corpo de Cruzi estava envolto em uma barreira côncava, parecida com o arco-íris... uma barreira que crescia mais e mais...
                - A radiação da cidade de Chagas – disse Carter, lembrando-se de seu primeiro caso na divisão Titãs. A radiação que transformava pessoas em monstros. Mas, na cidade de Chagas, havia um aparelho que emitia a radiação... ali, não havia nada. A radiação estava saindo de dentro de Cruzi...
                - O que está acontecendo? – Carter perguntou, com lágrimas nos olhos e medo se alastrando no coração.
                Então, dentro da barreira de radiação, o corpo de Cruzi começou a vibrar, muito rapidamente, como um telefone celular vibra. Logo, ela não passava de um borrão. Mas não era isso que chamava a atenção de Carter: um barulho metálico vinha de Cruzi, e, lentamente, a bala que entrara em sua testa saía do buraco... até, por fim, sair completamente de seu corpo. Então, o buraco sangrento em sua testa se fechou. Era como se nunca tivesse existido, como se Cruzi nunca tivesse sido morta.
                - Meu... Meu Deus! – Carter disse.
                - Está acontecendo – disse a Criança-Cruzi, enquanto a barreira de radiação colorida começava a desaparecer. – Está acontecendo...
                Quando a barreira por fim desapareceu, sobrou apenas o corpo de Cruzi, intacto, sem ferimento algum. Demorou mais alguns segundos até que seu peito se enchesse de ar. Ela voltara a respirar. Ela voltara à vida.
                Então, Cruzi abriu os olhos.

CONTINUA NA PARTE DOIS

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