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                                            CAP.6

Sempre, não sei ainda o porquê, mas as palavras do Mascarado surtia um efeito amedrontador em mim. Ele falava tão calmo e sua voz irritante fazia com que parecesse tudo parte de uma irônica facilidade. Talvez o efeito mesmo, seja causado pelo fato de ninguém ver sua feição, já que usa mascara.
- O Tonny não vai a lugar nenhum! – Disse o professor Marcelo.
- Certo. Agora chega de brincadeira, - Falou o Mascarado enquanto subia em sua rocha flutuante. – vamos Tonny! – Disse estendendo sua mão para mim.
- Ei! Como assim “vamos Tonny”? – Falei. – Eu nem te conheço, porque iria com você para não sei aonde?
- Você não sabe quem são eles e está aqui, porque não viria comigo?
- Por quê? Ah cara, não me leve a mal, mas você é estranho. - Falei, e ele não pareceu gostar muito, o que era até engraçado.
- Com eles você só vai correr riscos moleque, - Disse o Mascarado em um tom mais sério. – se você não fosse importante, eu já teria te matado!
Não sei bem se era para eu começar a ficar com medo, ter mais cuidado com as minhas palavras ou sei lá o que, mas eu pude perceber que as coisas não estavam nada bem, e a tendência, era piorar.
- Vai embora daqui, - Disse o Carlos, e assim ouvi sua voz pela primeira vez já que ele não parecia ser de muitas palavras. – já não percebeu que ele não vai com você?
- É. Pode até ser uma ideia dele, só que... Eu não estou dando escolha!
Quando o Mascarado disse isso, ele em sua rocha flutuante e com seu cajado rochoso esticado para frente, ou melhor, dizendo, para minha direção, veio ao meu encontro. Me posicionei para atacar, só que eu não sentia mais a mesma força dentro de mim, por sorte, pude ver meus novos amigos me defenderem.
Charles cobriu a visão do Mascarado com seu corpo elástico, enquanto o Carlos puxava uma faca do bolso de trás de sua calça. Não sei se aquilo ajudaria em alguma coisa, mas eu não poderia subestima-los.

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O professor Marcelo correu com o Luca e a Isabela para dentro do mato, talvez fosse diretamente para a casa onde estávamos. Pensei até em acompanha-los, mas percebi que o medo estava me dominando, então, resolvi ficar. Afinal, ainda tinha o Carlos, Charles e a Lorena lutando contra o Mascarado, e estava faltando eu naquela luta.
- Tonny! Sai daqui! – Gritou Charles ofegante em meio à luta, mas não dei ideia.
Era incrível como o Mascarado estava se dando tão bem, contra três fortes candidatos a vitória. Lorena foi a que mais estava me surpreendendo ali. Ela cria algum tipo de campo de força, mas dependendo do tamanho, pode servir como uma bola quase transparente e assim, lança-la contra o oponente.
- Agora é a minha vez! – Gritei correndo na direção do Mascarado.
Antes de começar o meu ataque, eu deveria estar há uns doze metros de distancia do Mascarado, e ele, estava de lado para mim, se defendendo e atacando os outros. Quando comecei a correr, só pensei no soco que dei naquela rocha e no jeito que ela ficou. Puro pó! Achei que se desse um soco desses nele, venceríamos aquela luta. Então, fechei bem meu punho e continuei avançando em velocidade pra cima dele, mas quando gritei, ele se virou para mim, e se não fosse pela mascara tampando seu rosto, eu poderia jurar que ele estava com um sorriso maléfico na cara.
Me posicionei em meio a corrida, quando era hora de soltar a mão nele, taquei todo o peso do meu corpo para trás, e quando soltei toda a minha força na mão, ele simplesmente esticou o braço com a mão aberta, e assim uma rocha saiu do chão bem na minha frente, formando uma parede, e quando soquei ela, percebi que era bem dura. Tão dura a ponto de ter apenas rachaduras, e não ter ficado do jeito que pensava que era pra ficar.
- Achou mesmo que você poderia me atacar assim? – Perguntou Mascarado. Fiquei perplexo, o medo foi tomando conta de mim novamente, eu não estava preparado para aquilo, e estava ficando assustado com tudo isso. E então ele se aproximou de mim lentamente. Meus amigos estavam caídos no chão, com dor e muitos machucados. O que aconteceu pra eles ficarem assim, é que eu não sei. Acho que só pensei em acabar com isso, mas tentei fazer sozinho, e isso pode ter sido meu maior erro.
- Tonny, Tonny, Tonny! – Dizia o Mascarado cada vez mais próximo. Sua rocha que se formou na minha frente, já estava descendo de volta para o seu lugar.

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- Tonny, - Tentava falar o Charles, que aparentemente, era o que estava pior. – fuja!
Fugir? Mesmo que eu quisesse, eu já não via opção de fugir! Além de ver eles ali, todos machucados. O problema era o Mascarado e como eu poderia para-lo, detê-lo ou então, mata-lo?
- Antes, - Soltei, sem querer, mas soltei a primeira palavra, essa já era uma questão que eu tinha formulado na primeira vez em que me encontrei com ele, e foi ai que soube a resposta. – por que... Porque eu?
- Porque você, - Disse o Mascarado pulando de sua rocha flutuante, estando a uns dois metros de mim. – foi à experiência que deu certo!
- Não de ouvidos a ele Tonny! – Berrou a Lorena tentando se levantar.
- Como assim? Experiência? – Pergunto.
- Haha! Nunca te disseram? – Respondeu o Mascarado em uma gargalhada.
- Tonny... – Gritou novamente a Lorena, só que assim que ergueu sua voz, o Mascarado esticou seu braço, e foi levantando lentamente, e junto com seu movimento, uma nova rocha saia do chão, e quando ela ficou na altura dos olhos do Mascarado, ele lançou ela em cima da Lorena.
- Lorena! – Gritei sem ter muito que fazer, mas ela era experta e boa. Fez um campo de força, e a rocha apenas bateu e esfarelou a sua volta. Logo em seguida, aproveitei que tinha dado um impulso para ir até a Lorena, e por sorte, percebi a brecha que o Mascarado havia me dado. Ele estava de costas para mim, com a mão ainda esticada para a Lorena, foi então que ataquei.
Nunca fui bom na luta, ou ao menos, nunca lutei. A minha única noção de luta, é pelos filmes de ação que assistia na TV.
Primeiro golpe, defendido facilmente pelo Mascarado, acertei em cheio, mas ele segurou meu punho com facilidade. Segundo golpe, chutei o lado de seu joelho, talvez na intenção de quebra-lo ao meio, mas não obtive sucesso, pois sua perna se protegeu com uma camada de rocha ao seu redor. Terceiro golpe e lancei meu cotovelo na direção do seu rosto ou melhor, sua mascara, e pela primeira vez eu o acertei. Ele ainda segurava minha mão, com qual dei o meu primeiro golpe, e minha perna, ainda estava flexionada para frente, por causa do chute que dei em sua perna, e então, ainda estava sem certo apoio, porém,

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minha cotovelada deixou uma marca nele, pena que não pude admirar, já que ele me empurrou e sai de perto dele.
- Lorena, - Falei desviando o olhar para ela rapidamente. – você está bem? – Ela ainda estava caída, mas não podia ficar olhando para ela, eu tinha um oponente muito mais forte que eu no momento, então me voltei para o Mascarado.
- Você vai pagar por isso. – Disse ele tirando a mão de dentro de sua mascara, e só assim eu pude sorrir. Eu consegui feri-lo, e provei pra ele que não é assim que a banda toca. Como assim vai me levar? Isso não existe, pelo menos, não no meu mundo!
Olhei para meus amigos de novo. O Carlos já estava conseguindo se colocar de pé, e lentamente, ia até os outros para ajudar. Mas houve um momento em que ele olhou para mim, e pela primeira vez, não foi como os outros olhares que ele adorava me mostrar. Ele me olhou, parecendo que estava depositando confiança em mim. Fez que sim com a cabeça e virou para ajudar a Lorena.
Talvez eu tivesse errado ai. Ficar olhando eles, e dar uma enorme brecha para o Mascarado. Ele me atacou e não pude evitar, pois estava distraído. Recebi um forte golpe no peito. Senti sua mão tão dura, que só depois percebi que estava coberta por uma camada de rocha.
Doeu! E como doeu esse golpe. Só tinha algo mais que eu poderia fazer, e fiz. Agarrei seu braço e quando cai, fiz força para que ele caísse do meu lado, e assim, fiquei por cima dele com a mão dele ainda forçando em meu peito, porém, eu não podia dar atenção a isto. Em meio à troca de socos, eu consegui colocar mais força na mão e lançar sobre ele. Mas quando eu lancei minha mão na direção dele, ele colocou seu cajado rochoso na frente. E assim eu quebrei seu cajado. Ele começou a se contorcer, parecia até estar passando mal. Se isso foi um plano, deu certo! Eu tirei meu peso de cima dele, e dei espaço para que ele respirasse. Não tinha motivos para que eu me preocupasse com ele, e não estava, mas aquilo estava me deixando nervoso, até que ele me jogou para o lado, e saiu correndo para sua rocha flutuante, segurando com firmeza, seus dois pedaços do cajado. E assim ele se foi, nos deixando livres, pelo menos, por enquanto.
Corri até os outros, Charles, Carlos e Lorena estavam sentados um perto do outro.
- Acabou. – Falei sem saber se eles perceberam o Mascarado indo embora.

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- Não Tonny, - Disse Carlos levantando a cabeça e olhando para o céu. – muita coisa ainda está para acontecer. – Completou fechando os olhos lentamente.
Se ele não estivesse mexendo no chão com as mãos, eu pensaria que ele estava indo desta para uma melhor, mas não, talvez estivesse cansado e suas feridas atrapalhassem a manter as forças. Charles conseguiu se colocar de pé, e isso foi até um pouco melhor, porém a Lorena ainda estava sentada e sem forças para se levantar.
- Charles, consegue ajudar o Carlos a andar? – Perguntei.
- Acho que sim, - Disse ele olhando para o estado do Carlos. – por quê?
- Bom o que esta em melhor estado aqui sou eu, e quem esta no pior estado, parece ser a Lorena. É mais fácil eu leva-la do que você ou o Carlos. – Respondo.
- Se é assim, acho que você tem razão. – Disse o Charles andando na direção do Carlos. Ele ajudou o Carlos a se levantar e apoiou o braço dele em seu ombro. Os dois foram seguindo para dentro do mato, na direção da casa onde provavelmente estavam os outros.
- Oi! – Falei sorrindo para ela.
- Tonny, - Ela sorriu, mas ainda demonstrava fraqueza. – era pra você ter fugido!
- Ei, já acabou. Ele se foi, não esta mais aqui para nos atormentar.
- Ai é que você se engana Tonny. Ele vai voltar, e se bobear, com força maior. Somos fracos perante eles!
- Eles quem? – Perguntei olhando fixamente para os olhos dela e parecia que ela estava ficando mais fraca a cada segundo que se passava.
- Ton... – Ela dizia enquanto caia. Por sorte, eu a peguei. Peguei-a no colo e a levei para onde estavam os outros.
Passei com ela com cuidado pelo mato, e quando encontrei a casa, pude ver o buraco que o Mascarado havia deixado ali, como um aviso de que algo muito pior estaria por vir. Entrei com ela e encontrei todos sentados à mesa.
- Onde eu posso colocar ela? – Perguntei.

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- No quarto dela, - Disse o professor Marcelo vindo correndo para nos. Afinal, ele era o pai dela. Chegou e acariciou o rosto de sua filha, que parecia dormir feito um anjo, até queria pegar ela no colo, só isso poderia trazer dor para ela, então resolvemos que ele iria fazer algum remédio e preparar os curativos enquanto eu a levava para o quarto.
E assim foi feito. Cheguei ao quarto dela e já a coloquei em sua cama. Infelizmente ela não estava nada limpa, então, sua coberta branca de coelhinhos ficaria suja. Ela era muito caprichosa e vaidosa pelo que vi. Acessórios, cremes, perfumes e outras coisas que só as mulheres sabem o que é, estavam perfeitamente arrumados em uma mesa, na frente de sua cama, com um espelho enorme virado para ela. O quarto dela era lindo, o arquiteto que fez este quarto, é um ótimo profissional. Ajeitei o cabelo que estava por cima de seu rosto, e pude notar mais ainda uma beleza digna da criação de Deus. Seus traços eram perfeitos, os olhos eram um pouco puxados, porém não chegavam aos pés dos olhos de um asiático, mas se diferenciava de todos. Sua boca era carnuda e bem desenhada, parecia até que usava aqueles batons de realce, ou sei lá o que.
- Obrigado por ter me salvado! – Falei beijando sua testa e me retirando de seu quarto.
Ao sair pela porta, o professor Marcelo chegou ofegante, parecia estar correndo para ajudar sua filha o mais rápido possível, mas ele precisava se acalmar.
- Se acalma professor! – Falei segurando seu braço. – Ela está bem. Precisa de cuidados, mas se o senhor continuar nervoso desse jeito vai acabar atrapalhando sem querer.
- É, - Disse ele respirando fundo. – você está certo. Obrigado!
E ele foi para o quarto pelo menos um pouco mais tranquilo. Voltei para a sala, parei e olhei todos. A Isabela estava me olhando com os olhos cheios de lágrimas, e quando percebeu que eu também estava olhando, ela abaixou a cabeça. O momento não estava nada bom, todos precisavam de um tempo para se renovar e até mesmo, pensar no que fazer no que é certo e no que é errado.
- Acho melhor todos irem para suas casas. – Propus. – Pode ser melhor agente descansar em casa, ver nossas famílias e nossos amigos. Pode ser relaxante e precisamos disso.

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Ninguém se movimentou ninguém parecia nem mesmo respirar de tão parados que estavam. Então resolvi dar o primeiro passo, já que queria muito ir para cara.
Enquanto saia da casa, percebi um movimento por trás de mim, mas resolvi não ligar, e apenas pedir pra Deus que não fosse nenhum ataque de novo, porque no nosso estado, estaríamos praticamente mortos com uma nova surpresa como a primeira.
- Tonny! – Falou a Isabela. Eu já estava do lado de fora da casa, na pequena parte que poderia ser chamada de varanda. Era praticamente a entrada da casa. – Espera!
- Oi. – Falei me virando para ela. Foi um tenso momento. Afinal ela já veio quase chorando, e quando chegou perto, me abraçou tão forte, que se o momento não fosse ruim, seria um ótimo abraço. – O que foi Isa? – Falei dando um apelido carinhoso para ela, e a abraçando também.
- Me desculpe não ter ajudado, - Falou entre soluços. – não pude servir de nada. Me perdoe! – Implorou.
- Ei, - Tirei ela de mim, segurei seu rosto e olhei em seus olhos cheios d’água. – não se culpe por isso! Se você tivesse lá, poderia ter ajudado sim, mas também, poderia ter se machucado mais. Se você, o Marcelo e o Luca tivessem ficado lá, o Mascarado teria mais alvos e isso complicaria muito mais. – Sequei suas lágrimas e dei um beijo em seu rosto. – Não fique assim. – Falei sorrindo.
- Obrigada!
- Não há de que. - Sorri. – Quer que eu te leve para casa? – Perguntei.
- Gostaria, mas tenho de ficar aqui. – Disse ela segurando minha mão. – O Luca e os outros podem precisar de mim.
Claro que o Luca ia precisar dela, afinal, é uma criança e do jeito que o Marcelo está preocupado com a Lorena, seria melhor que ela ficasse para ajudar mesmo. Então sorri e soltei minha mão da dela. Um até logo talvez, e fui embora, de volta para minha casa, com os pensamentos fluindo rapidamente em minha cabeça.
O que iria acontecer conosco? O que estava por vim? O que será que o Carlos quis dizer quando falou que muita coisa ainda está para acontecer? Queria saber que coisas eram essas. Queria saber o que vim procurar saber. Ainda era de noite, porém, não duvidaria se daqui a pouco, fosse amanhecer.

                                                         ...

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