Olá, galera! Depois de (mais) um atraso, cá estamos com o capítulo 5! Antes que comecem a lê-lo, eu gostaria de avisar que "Titãs" irá entrar numa pequena pausa de duas semanas depois do capítulo 6. Isto é, depois do capítulo de semana que vem, só haverá uma nova postagem no dia 21/09. Enfim, curtam o capítulo 5 por enquanto! :) E já vou adiantando: é neste capítulo que as coisas começam a mudar...


1x05

O Homem Sombra

ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, comandados pelo diretor Marco Noah, o agente deve investigar casos paranormais que ameaçam a nação.

1
30 de outubro, Parque de diversões Nova Era, Distrito Imperial, 22h40

                (coloque para tocar a música: “Victory”, Taylor Momsen)
                - Vamos, Lana – disse Fitzpatrick, seu namorado. – Você não vai amarelar, não é?
                - Para amarelar, é necessário que eu tenha concordado com isso antes.
                Os dois estavam na fila da montanha russa. Não que este fosse o problema. Lana sabia que, com a tecnologia recente, era quase impossível acontecer um acidente. Afinal, a velocidade dos carros era calculada especialmente para os trilhos de aço, considerando atrito e umidade do ar. Ferrugem era algo que não existia naquele parque. Os pregos e parafusos eram tão bem instalados que nada poderia arrancá-los. Tudo visando, em principal, a segurança dos visitantes.
                Não havia nada o que temer... a não ser a própria irracionalidade.
                - Qual é, Lana – Fitzpatrick disse novamente. – Nada vai acontecer, este é provavelmente o lugar mais seguro do Distrito...
                - Mais do que a Guarda Nacional? – Lana respondeu, tentando não transparecer o medo na voz. – Por que é pra lá que eu vou, preencher uma queixa, se você me fizer pôr os pés nesta coisa.
                Ela pretendia falar num tom brincalhão e descontraído, mas o que saíra fora uma ameaça trêmula.
                - Ei – Fitzpatrick chamou-a. – Vai dar tudo certo. É só um brinquedo.
                - Espero que sim.
                O carro então parou, e os ocupantes saíram. Era a vez dos dois. Relutantemente, Lana entrou, e pôs o cinto apertadíssimo que a prenderia com segurança à cadeira. Ela lembrava quando era criança, dez anos antes, e ainda usavam cintos frouxos e fáceis de rasgar em brinquedos como aquele. Pelo menos agora era mais seguro, ela tentou se dizer.
                - Viu? Está tudo bem – Fitzpatrick animou-a.
                - Até agora – Lana respondeu, pessimista, mas completou com um sorriso forçado.
                Poucos segundos depois, o carro estava em movimento.
                Como era comum de uma montanha russa, a viagem começou lenta e amena, mas, para Lana, isso era o suficiente para dar-lhe náuseas. Vendo a subida que logo fariam, ela teve medo: quando descessem, estariam à velocidade máxima...
                - Respire, amor – Ftizpatrick a acalmou. – Respire...
                Mas ela não conseguiu respirar quando, afinal, a velocidade aumentou. Todos no carro gritaram de animação; só ela gritava de medo. Lágrimas rapidamente escorreram por seu rosto.
                Quando o carro estava numa velocidade consideravelmente baixa novamente, ela tapava os olhos com as mãos.
                - Querida...
                - Eu quero sair... eu quero sair!...
                Ela abriu os olhos, limpando as lágrimas.
                - Me tira daqui. Por favor, me tira daqui...
                Mas ela ouviu o barulho.
                Olhando para cima, viu: os parafusos estavam caindo, e a estrutura de ferro estava se soltando...
                - Fitzpatrick... – sussurrou ela. – FITZPATRICK!
                - O quê?
                - OLHE!
                Ela temia que estivesse louca. Temia que ele não visse nada. Mas os outros passageiros haviam notado também. Eles estavam se aproximando cada vez mais de onde os parafusos haviam caído...       
                - PARE ESSA COISA! – Lana gritou. – PARE! SOCORRO! NÓS VAMOS... NÓS VAMOS...
                Todos gritavam, aterrorizados. Os cintos de segurança eram apertados demais, e a queda era muito alta... Eles não tinham escapatória...
                Gritaram, e o carro descarrilou, voando em direção ao chão...
                Todos observavam estupefatos.
                Então, algo aconteceu.
                O carro parou no ar, e os passageiros também. Eles falariam alguma coisa, se pudessem se mexer. Em verdade, pareciam estátuas: por mais arduamente que tentassem, não se moviam nenhum centímetro, congelados na posição que estavam. Lá embaixo, as outras pessoas também estavam assim. Não havia nada que se movia, como se eles estivessem presos no tempo...
                Subitamente, um barulho. Lana não podia virar a cabeça pra ver o que era... mas ela viu um homem pular do carro, e atingir o chão. Ele podia se mexer! Era o único que podia!
                “Ajude-me!”, ela queria gritar. “Salve-nos!”. Mas o homem andava, sem se importar com nada... Ele não via o que estava acontecendo? Por que ele não fazia nada?! Por que não os ajudava?!
                Ela não conseguia entender. O homem virou-se para o carro, e, sem nenhuma expressão, voltou a caminhar, adentrando na multidão, para longe...
                Então, o tempo voltou a correr. Não houve tempo para Lana gritar. O carro descarrilado atingiu o chão, matando a todos os passageiros.

2

31 de outubro, Escritório da divisão Titãs, 8h30

                Carter havia chegado no horário exato, como sempre fazia. Esperava encontrar Cruzi, já que a mesma sempre preferia chegar alguns minutos antes, mas esta, assim como Lane e Foster, pareciam ter se atrasado.
                Era no mínimo estranho ter o escritório vazio. Não que três pessoas a mais fizessem muita diferença, mas todos os arquivos solitários e intocados tornavam-se fantasmagóricos no silêncio.
                O telefone então tocou. No curto período desde que entrara para a divisão Titãs, sabia que tal coisa só acontecia por dois motivos: um telefone da administração – fosse para pedir favores, documentos ou relatórios – ou para um novo caso, apesar deste último ser menos comum. De fato, eram relatados somente um caso sobrenatural a cada semana, em média, e, considerando a crescente quantidade de mortes inexplicáveis em todo o Império, isso só poderia significar que muitas pessoas tinham vergonha de se relatar, ou mesmo se recusavam a fazê-lo.
                De uma maneira ou de outra, Carter atendeu o telefone.
                - Escritório da divisão Titãs, Carter falando – disse ele, e ouviu com atenção. – Sim. Sim, senhor. É claro, senhor.
                Então, perplexo, ele achou que não havia ouvido direito.
                - Perdão, senhor – continuou Carter. – Como? Pode repetir, por favor? Não, não, senhor, está tudo bem, é só... Sim, senhor. Sim. Já estamos a caminho.
                No momento em que desligou a ligação e pousou o telefone, Cruzi entrou no escritório.
                - Hei – disse ela, e, no mesmo momento, parou, dizendo: - Está tudo bem?
                - Sim, sim – disse Carter, ainda de queixo caído. Após alguns segundos, completou: - Temos um caso. Um acidente no parque de diversões mais seguro do Distrito.
                - O Nova Era? – Cruzi admirou-se. – Uau, isso deve ser uma primeira vez...
                - Fale para Lane e Foster seguirem direto para lá... Vamos.
                Ele entrou no elevador, apressado, deixando para trás muitos dos documentos e mesmo as luvas de plástico para análise da cena do crime. Foi Cruzi quem pegou tudo. Ela nunca vira Carter tão afobado, ou tão ansioso por seu próprio trabalho, nem mesmo no primeiro caso da divisão Titãs.

Parque de diversões Nova Era, 9h40

                O lugar estava um caos. Dezenas de repórteres brotavam de todos os lados, para tirar fotos e gravações em primeira mão do surpreendente acidente. O carro estava retorcido, e os corpos das vítimas, grotescamente lacerados. O parque havia sido fechado logo após o acidente, mas muitos dos visitantes continuavam lá, para observar a horrenda catástrofe.
                - Carter, você deve saber mais do que eu – disse Cruzi, saindo do carro. – Mas o que um acidente comum tem a ver com nosso trabalho?
                - Bem – disse Lane, saindo do outro carro que acabava de chegar. – Vamos examinar os corpos e ver o que eles têm a nos dizer...
                - Não foi para isso que viemos – anunciou Carter. – Essas pessoas morreram de maneira normal. Foi o que as levou à morte que nos interessa. – Os três agentes o encaravam, até que ele apontou com o queixo para sua direita, dizendo: - Vamos para a sala do segurança. Ele vai nos mostrar algo.
                Uma vez lá dentro, os quatro agentes cumprimentaram o chefe de segurança Wilton e sentaram-se para ver as gravações das câmeras de segurança.
                - Demorou algum tempo para que percebêssemos – disse Wilton. – E mais algum tempo para que nos convencêssemos de que não estávamos vendo coisas. Mas chamamos você de imediato, por que esperávamos que vocês tivessem alguma explicação...
                Foi dado play na gravação. O vídeo mostrava o inicio do passeio na montanha russa, as primeiras subidas e descidas, e, em dado momento, peças se soltando pela trajetória. Por fim, o carro descarrilou, mostrando o fatídico acidente.
                - Bem – Cruzi disse. – Isso me parece um erro de construção do brinquedo.
                - Não era – Wilton argumentou. – Um técnico do governo veio aqui na semana passada, tudo estava em perfeitas condições... Ganhamos nota máxima. O que eu quero que vocês vejam está aqui...
                Ele colocou a gravação para rodar novamente, e, ao fim, Lane disse:
                - Minha nossa...
                - O quê? – Cruzi respondeu. – O que foi?
                - Veja de novo.
                Carter permanecia calado e sem expressão.
                Então, a gravação foi posta para rodar novamente, novamente e novamente... Cruzi ainda não conseguia ver.
                - O que vocês estão tentando me mostrar?
                - Diminua a velocidade da gravação – disse Lane.
                Wilton obedeceu. Cruzi ainda não conseguia captar nada, mas então, no exato momento do acidente, ela viu.
                - Olhe bem para este homem, o de camisa vermelha e cabelo loiro, sentado na terceira fileira do carro – disse Lane. – Olhe bem para ele neste momento... e então, ele some, e só reaparece lá embaixo, entrando na multidão.
                Cruzi suspirou por um momento.
                - Olhe, se é para isto que nos chamaram, me perdoe, mas...
                - Cruzi – disse Lane. – Este é um caso sobrenatural.
                - Mas é ilógico pensar que este homem pode, eu não sei, se teletransportar baseado numa imagem de baixa resolução. Estes dois podem ser homens diferentes, se nós tivéssemos olhado as vítimas primeiro, poderíamos encontra-lo lá...
                - Cruzi – Carter chamou, num tom de voz assombrado. – Você não está nos entendendo. Isso... já aconteceu antes.
                Ela voltou-se para ele, perplexa.

Escritório da divisão Titãs, 11h

                (coloque para tocar a música: “Justa Causa”, Mimesis. OBS: por ser uma música difícil de se achar, já estou disponibilizando aqui o link: http://www.youtube.com/watch?v=yGZMXxbawnc)
                - É um arquivo morto, um caso que não foi resolvido – Lane explicou. – Data de 2031 d.N., cinco anos atrás, quando nem você nem Carter tinham entrado para a divisão ainda, Cruzi. O caso do Homem Sombra.
                Ele abriu uma das várias gavetas empoeiradas num canto do escritório que ninguém amis visitava, tirando de lá uma pasta de papéis.
                - O assassinato do ministro da defesa – continuou ele. – O Ministro foi morto após receber inúmeras ameaças. Toda uma guarda, um pequeno exército foi colocado à sua disposição.
                - Sim, eu me lembro disso – Cruzi respondeu. – É um dos maiores arquivos mortos da história do Império.
- Todos os cômodos de sua casa tinham seguranças, sendo que vários tomavam conta especialmente das janelas e das portas de seu quarto... e, ainda assim, o Ministro amanheceu morto, sem que ninguém tivesse visto nada. O pescoço dele havia sido cortado.
                - E o que isso prova?
                - Nada, a não ser que levemos em consideração isto.
                Lane retirou uma foto de dentro da pasta, mostrando o quarto do Ministro com o próprio ainda lá dentro.
                - Olhe a marca na parede – disse ele, mas não era necessário. Uma grande sombra negra ficara estampada na parede, no perfeito formato de um ser humano.
                - Isso, por si só, já caracterizava um caso da divisão Titãs – continuou -, mas não somente isto. O assassinato do Ministro não foi o único. Foi obviamente o mais ousado, mas não o único... Logo, nós tínhamos mais de dez possíveis vítimas em diferentes momentos entre 2028 e 2032... Era um serial killer que gostava de se amostrar, e, ainda assim, não conseguimos prendê-lo.
                - Vocês tinham ao menos alguma noção do modo como ele opera?
                Lane suspirou.
                - Não passam de teorias, nunca tivemos nenhuma confirmação. – disse ele, ligando os slides. – Sentem-se.
                A primeira imagem que apareceu foi a de pequenas bolas, presas umas às outras. Cruzi logo chegou à conclusão de que eram moléculas.
                - O que mais chegou perto da realidade foi uma junção de duas teorias – disse Lane. – A primeira teoria envolve moléculas: como vocês sabem, moléculas vibram em determinada velocidade, que muda dependendo do estado em que o corpo se encontra. Por exemplo, se o corpo estiver no estado gasoso, as moléculas vibram muito rapidamente, mas, se estiver no estado sólido, vibram muito lentamente. É isso o que permite que o corpo continue no estado sólido.
                Ele passou o slide, mostrando uma imagem com inúmeros gráficos e um desenho do planeta Terra.
                - A segunda teoria – continuou -, é complicada. Antes da Terceira Guerra Mundial, foi teorizado que, se um astronauta fosse ao espaço, e sua nave adotasse a velocidade da luz, isto é, quase 300 milhões de metros por segundo, o tempo pararia para ele. Simplificando: se este astronauta fosse para o espaço nesta nave com velocidade da luz aos 20 anos de idade, e passasse 60 anos no espaço, quando voltasse, o astronauta ainda teria 20 anos, mas todos que conhecesse já estariam 60 anos mais velhos.
                - Tudo bem – Cruzi falou. – O que isso significa?
                - Unindo essas duas teorias, a do astronauta e a das moléculas – Lane disse. – Nós achamos que descobrimos a habilidade deste homem, este serial killer. Ele consegue fazer suas moléculas vibrarem na velocidade da luz...
                - ... o que faz o tempo parar para ele. – disse Carter, dando o primeiro sinal de que estava prestando atenção. Então, ele arregalou os olhos, realmente surpreso.
                - Sim – completou Lane. – É isso o que achamos que acontece. Mas isso não explica a segunda parte... ninguém do parque de diversões se lembra de nada do ocorrido. Eles não se lembram de sequer terem visto o carro despencar. É como se a memória deles tivesse desaparecido...
                - Mas, se ele consegue parar o tempo e fazer o que quiser – Cruzi disse. – Por que está matando essas pessoas?
                - Nós não sabemos exatamente – Lane falou. – Nós nunca chegamos a sequer ver o rosto dele. Não temos nenhuma pista de quem ele é... só do que ele faz.
                - Então não há nenhum jeito de pegarmos ele? – A afirmação de Cruzi mais saiu como uma pergunta incrédula.
                - Não exatamente – disse Carter, atraindo a atenção de todos. Mas ele logo se calou, e deixou Lane prosseguir:
                - Todas as mortes que investigamos, todos os assassinatos que sabemos que ele cometeu... se botarmos em ordem cronológica, podemos notar que, a cada morte, a dificuldade para chegar até a vítima aumentava.
                - Ou seja – Cruzi concluiu. – Ele sempre procurava desafios cada vez maiores a cada morte.
                - Exatamente – Lane disse. – E a última morte foi a do Ministro... e foi tão ousada... ele fez suas moléculas vibrarem TÃO rapidamente, que acabou atravessando a parede, sem que ninguém o visse... porém, deixando essa marca negra para trás.
                - Mas, se ele está sempre procurando maiores desafios, por que ele não matou pessoas mais importantes do que simplesmente causar um acidente num parque de diversões, com pessoas inocentes?
                - Eu acho... – Lane disse. – Que ele está recomeçando o ciclo... isto é, ele atingiu seu auge ao assassinar o Ministro. Talvez ele esteja começando do zero, com vítimas menores, até chegar num assassinato gigantesco e caótico...
                - Ei, gente – disse Foster, que havia se dirigido para seu computador do outro lado da sala. – Acho que vocês deveriam ver isso.
               
                Quinze minutos depois, os quatro haviam descido mais de trinta andares para a divisão de homicídios.
                - Coronel Rey – Cruzi cumprimentou o diretor daquela divisão.
                - Agentes – Rey respondeu com um aceno de cabeça. – Vocês devem estar se perguntando por que chamei-os aqui. Correm notícias de que o caso do Homem Sombra foi reaberto.
                - São notícias verídicas, senhor – Lane respondeu. – Temos razões para acreditar que ele iniciou uma nova onda de assassinatos.
                - Então tenho informações que talvez possam lhes ajudar.
                Rey ligou o aparelho de hologramas, que mostrou a imagem de um mapa de uma pequena área do Distrito Imperial, marcado de diversos pontinhos vermelhos, que, se ligados, formariam uma espiral...
                - Estes pontos – disse Rey – são lugares onde foram encontradas marcas negras na parede, desde as seis da manhã até agora. As marcas do Homem Sombra.
                - Ocorreram mortes em todos esses lugares? – Cruzi indagou, espantada.
                - Não, somente marcas nas paredes – respondeu Rey. – Porém, nossa Central de Inteligência deduziu que, como estas marcas são causadas pela vibração muito acelerada de moléculas, o Homem Sombra está atravessando estas paredes como uma dica...
                - Para chamar nossa atenção. – Carter concluiu.
                - Sim, exatamente. E deduzimos que, como os pontos que essas marcas aparecem seguem um padrão, formando uma espiral... um novo atentado irá acontecer no centro desta espiral. Exatamente... aqui.
                Um único grande ponto vermelho se formou no mapa.
                - Uma fábrica abandonada – disse Foster. – Mas não há ninguém lá, nenhuma possível vítima...
                - Não, não há – respondeu Rey. – Mas, de qualquer forma, é um possível atentado.  Devemos impedi-lo de cometer qualquer que seja o crime que tenha em mente. E, perdoe minha presunção, mas um caso deste tamanho fugiu há muito tempo da capacidade da divisão Titãs, e a divisão de homicídios também tem interesse em um serial killer tão perigoso...
                - Então você sugere uma força tarefa conjunta? – Cruzi disse, e, diante da afirmativa do Coronel, apertou-lhe a mão. – Fechado. Vamos atrás dele.
                - Meus agentes estão prontos – disse Rey. – Nós estimamos que temos aproximadamente quarenta minutos para entrarmos e nos posicionarmos na fábrica. Devemos partir logo.

Fábrica abandonada, 12h

                (coloque para tocar a música: “The Escape From Liberty Island”, Fringe OST)
                Os vários carros SUV pararam em frente aos portões da fábrica abandonada. Todos os agentes, da divisão de homicídios e da Titãs, saíram já trajados de coletes à prova de balas, alguns usavam capacetes. Assim que pôs os pés para fora do carro, Carter apontou para uma mancha negra na parede.
                - Ele está aqui, ele está lá dentro – disse o agente.
                A força tarefa rapidamente arrombou o portão, entrando na área exterior da fábrica com armas em punho. Muitos se dirigiram para locais a céu aberto, enquanto pouco decidiram realmente adentrar a fábrica. Toda a divisão Titãs escolheu a segunda opção.
                O interior era escuro, mal se via viva alma. As lanternas tiveram de ser acesas. O pandemônio entre os agentes fora instalado, já que o suspeito poderia estar em qualquer lugar.
                - Dividam-se! – disse Rey. – Agentes Cruzi e Carter, revirem a ala oeste do primeiro andar. Agentes Foster e Lane, vão para o norte. Irei para o segundo andar.
                Mal disse isto, e o imenso ruído de uma explosão veio do segundo andar propriamente dito.
                - CARTER! – Cruzi gritou quando o agente correu em disparada. – CARTER, VOLTE AQUI!
                Ela seguiu-o escadas acima, bem como o Coronel Rey. Apesar dos gritos dos dois, Carter continuava a correr, rumo à origem do ruído...
                Em determinado ponto, Cruzi perdeu-o de vista.
                Carter correu pelos diversos corredores, sem parar em momento algum, seguindo cada vez mais profundamente dentro da fábrica...
                Então, ao adentrar num corredor que parecia como qualquer outro, a porta às suas costas se fechou.
                Ele se virou, espantado, olhando para o inexplicável fenômeno que acabara de acontecer. Subitamente, a lanterna em suas mãos explodiu também, condenando-o ao escuro.
                O silêncio contaminava o lugar. Não havia pista nenhuma de onde o suspeito estava, e, para qualquer lado que Carter olhasse, só via escuro... sua respiração era gélida. Cruzi e Rey não o encontrariam.
                Então, as luzes elétricas acenderam. Tal coisa não deveria ser possível numa fábrica que estava abandonada há mais de quinze anos. Ao olhar para cima, viu que as lâmpadas estavam quebradas, de modo que o próprio fato de estarem acesas era sobrenatural.
                Não obstante a tudo, Carter se virou.
                O suspeito estava ali. Parado. Esperando.
                E o ar não se movia.
                O suspeito deu o primeiro passo.
                Carter sentia-se frio, quase como uma estátua...
                Ele olhou para cima. Havia um relógio na parede, funcionando mesmo depois de todos aqueles anos... E ele estava parado.
                O tempo estava parado...
                O suspeito continuou a dar passos, estendendo a mão para frente, tentando tocar Carter...
                E então, Carter deu um passo para trás.
                Carter não estava congelado no tempo.
                Deu outro e outro passo para trás.
                O rosto do suspeito – Carter se recusava a chama-lo de Homem Sombra – se distorceu em dúvida e terror. Ele olhou torto para o agente, como se não entendesse... O próprio Carter não entendia: como podia se mover, se o tempo estava parado para todos, menos para o suspeito? O tal Homem Sombra, apelido ridículo.
                O suspeito fez um movimento brusco, e Carter apontou-lhe a arma.
                - PARADO! – disse ele, mas a pistola voou de sua mão, chocando-se contra a parede e quebrando-se em pedaços.
                O agente olhou novamente para o suspeito, que ainda o encarava com espanto... como um enigma a ser decifrado. Como se Carter fosse o suspeito e o Homem Sombra fosse o agente.
                Então, o Homem Sombra deu meia volta e saiu correndo da sala. Ao olhar para o relógio, Carter viu que os ponteiros voltaram a se mover, antes da luz elétrica se apagar.

                O Homem Sombra continuou a correr por vários corredores, atravessando várias paredes ao vibrar suas moléculas. Ele não conseguia entender; não havia conseguido atingir Carter. Como? Por quê? Nenhuma pessoa havia resistido, ou conseguido resistir, antes.
                Ele continuou a atravessar paredes, até chegar na entrada da fábrica.
                - Parado aí! – alguém disse, e o Homem Sombra se virou.
                Havia, no primeiro andar, ao menos vinte agentes especiais apontando grandes armas para ele. Nenhum dos agentes parecia pertencer à divisão Titãs. E, como tal, não era de seu interesse.

                Cruzi estava correndo de volta para a entrada da fábrica quando ouviu. Um gigantesco ruído metálico de algo sendo atirado. Correndo mais rápido do que nunca, ela rapidamente chegou a seu destino, e viu: os carros e ônibus que eram guardados no interior da fábrica haviam sido atirados contra os agentes especiais, esmagando-os. Vinte ou trinta haviam sido mortos.
                Então, ela olhou para a porta, e viu: o Homem Sombra, e ele também a havia visto. Logo, ele começou a vibrar, e desapareceu, fugindo mais uma vez.

3

Escritório da divisão Titãs, 18h

                - Ele estava atrás de mim – disse Carter. – Ele nos atraiu para aquela fábrica por que estava atrás de mim!
                Os agentes haviam voltado para o escritório – não havia mais nada a fazer naquela fábrica. Vários agentes haviam sido mortos, esmagados inexplicavelmente, e o suspeito ainda fugira. Para completar, assim como no acidente no parque de diversões, a memória de todos os agentes sobreviventes que estavam num raio de dois metros de distância do suspeito haviam perdido a memória. Carter pela primeira vez falava, pois antes estivera em estado de choque. E agora, parecia dotado de uma raiva incontrolável.
                Ele, por fim, se retirou para alguma cabine particular dentro do escritório.
                - Eu vou falar com ele – disse Cruzi, seguindo-o.
                - Lane – Foster chamou o amigo – Eu conheço esse seu olhar. Você teve alguma ideia.
                - Sim – respondeu ele. – Eu estive pensando... A teoria da vibração das moléculas é válida, mas não explica por que ele consegue manipular a memória das pessoas, muito menos como um carro parado foi de repente arremessado contra os agentes... E cheguei a uma conclusão.
                Os dois se sentaram, antes que Lane voltasse a explicar:
                - As pesquisas indicam que o ser humano usa somente de 2% a 10% de sua capacidade cerebral. Ou seja, o cérebro humano não opera em sua totalidade.
                - Sim, eu sei disso. O que você quer dizer?
                - Eu quero dizer que algumas pessoas teorizam que, se alguém utilizar mais do que esses 10%, é imprevisível o que ele pode se tornar. Não sabemos o que ela poderia fazer. Poderia até mesmo se tornar Deus.
                “Este é um conceito muito ficcional, muitos se recusam a acreditar em tal teoria. É quase que pura ficção científica. Mas, se for verdadeiro... pode explicar muitas das coisas que o Homem Sombra pode fazer.”
                - Como o que? – Foster perguntou.
                - Como a manipulação da memória – respondeu Lane. – E telecinésia, que é a força sobrenatural de mover objetos com a mente... o que pode explicar como os carros foram arremessados contra os agentes... e talvez explique até mesmo o por que da montanha russa do parque de diversões, que estava em perfeitas condições, ter se quebrado: talvez, o Homem Sombra tenha usado telecinésia para destruir a rampa. A própria vibração das moléculas pode ter sido criada a partir dessa maior porcentagem de uso do cérebro, além do modo como ele acendeu aquelas lâmpadas. E, quem sabe não existam outros poderes? Quem sabe isto não seja nem metade do que ele pode fazer?
                - Então, você quer dizer que talvez ele seja invencível?
                - Não sei... é, talvez. Mas, de uma maneira ou de outra, temo que pegá-lo.
                (coloque para tocar a música: “Where Dunham Fears To Tread”, Fringe OST)
                Enquanto isso, Cruzi entrava na cabine de Carter, segurando uma pasta de papéis na mão. Carter, que por sua vez estava sentado e pensativo, olhou para a agente, antes que ela jogasse a pasta em sua mesa.
                - O que é isto? – ele perguntou.
                Cruzi abriu a pasta, expondo alguns papéis.
                - 3 de dezembro de 2034 – disse ela. – Um grupo de adolescentes está bebendo, escondido dos pais, quando, de repente, um deles derrete até a morte. Não sobrou nada de seu corpo e de seus ossos, só uma gosma sangrenta.
                - O... o quê?
                Cruzi folheou os papéis, pegando mais um.
                - 14 de fevereiro de 2035, dia internacional dos namorados – continuou a falar. – São encontrados à beira mar treze corpos mutilados de pessoas que provavelmente estavam numa festa, todos com marcas de mordidas gigantescas, que nenhum animal conhecido poderia causar.
                - Cruzi... o que você está dizendo?
                - 11 de março de 2032, um fenômeno de luzes no céu acaba por tocar a terra e quebrar várias leis da física, tais como desafiar a gravidade e...
                - Cruzi! – Carter disse pro fim com veemência. – Que diabos...?
                Cruzi fechou a pasta novamente, e olhou bem nos olhos do colega.
                - Todos esses casos são arquivos mortos, sem resolução – disse ela. – São apenas alguns dos vários casos que a divisão Titãs não conseguiu resolver... e ainda assim, nenhum deles te chamou tanta atenção quanto o caso do Homem Sombra.
                Carter suspirou.
                - Cruzi...
                - Vamos, me conte. O que este caso tem de tão especial? O que faz você ficar tão mal humorado e tão impulsivo a ponto de ignorar qualquer ordem e colocar sua vida em risco naquela fábrica?
                Carter suspirou mais uma vez, e Cruzi sentou-se do outro lado da mesa. Demorou mais alguns instantes até que ele começasse a falar:
                - Este caso... não é um caso da divisão Titãs. Ou pelo menos não deveria ser, originalmente. – Ele lançou-lhe um olhar cheio de significado. – Sabe quando estamos cursando a academia da Guarda Nacional, e, no quinto período, eles nos designam para investigar um caso simples e mundano, comum, uma coisa do dia a dia?
                - Sim, eu me lembro – Cruzi respondeu.
                - Pois bem, todos em minha classe ficaram com casos simples, como pequenos furtos, ou roubos, ameaças, agressões leves... Eu pensei que eu tinha sido um desses. Mas meu caso foi um pouco mais difícil: eu deveria investigar o furto de um cofre pessoal na casa de um magnata do Distrito 2, em que foram levados cerca de 15 mil reais. Não era um caso exatamente pequeno, mas eles confiavam em mim. E esse furto tinha algo especial: as câmeras de segurança não haviam captado nada. Ninguém havia entrado ou saído do cofre. A única coisa que sobrava de prova era uma mancha negra na parede...
                - A marca do Homem Sombra – completou Cruzi.
                - Sim, mas na época nós não sabíamos das habilidades dele. E, como tal, eu não podia investigar corretamente. Eu estava perdido, eu não sabia o que fazer. Então, houve um furto maior, desta vez, ele havia levado mais de um milhão dos cofres do banco do Distrito. Foi aí que quiseram tirar o caso de mim, mas eu insisti em continuar investigando...
                Ele suspirou.
                - Mas aí, aconteceu o primeiro assassinato. Eu fui forçado a desistir do caso. Era algo grande demais para um aluno da academia investigar. E isso fode com você, sabe? Fracassar logo na primeira tentativa, quando tudo devia ser fácil e perfeito...
                - Carter...
                - Não me diga que isso é fácil. Não me diga nada. Não me diga que eu deveria ter superado, que eu...
                Ele deixou as palavras no ar, antes de continuar:
                - Em nenhum momento, nesses anos todos, eu soube que esse mesmo homem tinha matado o Ministro, talvez por essa informação não ter sido divulgada ao público. Em nenhum momento, soube que o caso tinha caído para a divisão Titãs, ou desconfiei que ele teria cunho sobrenatural. É uma coincidência, eu sei que é, mas... Ele está aqui novamente. Ele está matando novamente. Eu não consegui pegá-lo da primeira vez, e olha como acabou.
                - Carter, nessa época, eu ainda não havia entrado para a divisão, mas posso lhe afirmar que nenhum dos investigadores conseguiu também...
                - Isso não importa, Cruzi. Ninguém conseguiu detê-lo, mas isso não muda o fato de que ele está de volta. Ele está matando, pelo amor de Deus! Ele pode matar qualquer um, até a Rainha!
                - Carter...
                - É uma possibilidade! Cruzi – Carter aproximou-se dela, sussurrando -, eu sei por que ele faz isso. Ele quer um desafio. Ele quer se superar. Ele quer sempre ser melhor do que todos os outros, ser superior, mais poderoso. Essas mortes são o jeito que ele tem pra provar isso pra si mesmo. Ele é louco, Cruzi, e não tem limites. Temos que pegá-lo.
                Neste momento, Foster entrou na cabine.
                - Ei, gente – disse ela, atraindo a atenção dos dois. - Vocês têm que ver isso. Ele está fazendo de novo.

                - Senhor! – disse Cruzi, depois de descer até a entrada do prédio, dirigindo-se ao Coronel Rey. – Está acontecendo de novo!
                - Estou ciente, agente Cruzi – disse ele. – As marcas estão aparecendo em toda a Praça do Relógio, no Bairro 13. O próximo ataque acontecerá lá.
                - Temos que evacuar a área, senhor! Seus homens ainda estão prontos?
                - Você quer dizer os que sobreviveram? Sim, estão.
                - Então temos que partir logo. Não temos muito tempo.

Praça do Relógio, 19h40

                (coloque para tocar a música: “A New Day In The Old Town”, Fringe OST)
                A Praça era assim chamada devido à imensa torre do relógio que nela se encontrava. Aquele era um dos principais pontos turísticos do Distrito Imperial.
                Os agentes, tanto da força tarefa quanto da divisão Titãs, rapidamente se espalharam. Àquela hora, o trânsito era especialmente caótico nos arredores da praça, e, como a situação fugia do controle, motoristas e passageiros tiveram de deixar seus carros no meio da rua para fugirem. A confusão de pessoas correndo para longe era grande.
                - Dividam-se! – gritou o Coronel Rey. Olhando ao redor, era possível ver que quase todo centímetro da Praça estava coberto de manchas negras.
                - Senhor – disse Carter. – Ele quer a mim. Eu sou a única vítima dele que conseguiu escapar, por algum motivo. Ele quer somente a mim.
                O Coronel parecia considerar a ideia.
                Pouco tempo depois, todos os agentes haviam se dirigido para seus respectivos locais. Alguns snipers estavam no topo de vários prédios, enquanto outros ficavam na própria Praça. Os agentes da divisão Titãs se dividiam entre os snipers e outros prédios: Cruzi estava dentro de uma sala na Torre do Relógio, olhando pela janela para a praça, enquanto Carter esperava lá embaixo, de isca. Era bem provável que só ele conseguisse combater o Homem Sombra, assim que o tempo parasse.
                Passaram-se dez minutos. Vinte. Trinta. E nada aconteceu.
                - Senhor, o senhor vê algum sinal do suspeito, câmbio? – disse Lane por meio de seu rádio, de seu lugar entre os snipers.
                - Negativo, agente Lane, as coisas estão calmas e serenas, câmbio.
                - Carter – chamou Cruzi, pelo seu rádio. – Carter, você está bem?
                - Eu não entendo – disse ele. – O Homem criou tamanho alarde, nos fez evacuar esta praça inteira... o que ele quer provar?
                Cruzi não respondeu, pois sabia que as luzes da sala onde se encontrava estavam apagadas. Mas, no momento seguinte, elas se acenderam.
                Cruzi olhou para trás. O Homem Sombra estava ali.
                - Senhor! – sussurrou ela. – Ele está aqui! Ele está...
                - Cruzi? O que...
                Nada mais pôde ser dito, pois, usando telecinésia, o Homem destruiu o rádio.
                Cruzi se levantou, e sentiu o tempo parar ao seu redor...
                Por que ele estava ali? Por que ele estava atrás dela? Por que não estava atrás de Carter?
                O Homem Sombra tinha uma estranha expressão no rosto. Ele estava perturbado... ele não sabia o que fazer. Ele estava desesperado...
                Ele deu o primeiro passo para frente.
                E Cruzi conseguiu dar um passo para trás.
                Não importava se o tempo estivesse parado... Carter conseguira se mover, e agora, Cruzi também.
                O Homem então arregalou os olhos. E sua expressão desesperada piorou, tornando-se perdida e desolada.
                - Por que – disse ele –, você consegue se mexer?
                Ele tremia descontroladamente, antes de continuar:
                - Por que...
                E então, seus olhos brilharam, como se tivesse tido uma ideia.
                Cruzi, assustada, bateu na janela.
                - ALGUÉM ME AJUDE! – gritava ela, sentindo sua arma se estilhaçar, uma obra da telecinésia do Homem Sombra. – ME TIREM DAQUI!
                Ela se voltou para o Homem Sombra... e ele não tinha mais dúvidas nem lágrimas no olhar. Não tinha mais sofrimento.
- Eu entendo – disse ele. – Eu... eu sei.
Ele havia deixado o tempo voltar a correr, e bastou um segundo para que acontecesse. E foi assim que ele recebeu o tiro no peito, vindo de um dos snipers num prédio vizinho.
                O Homem caiu, sem gemer, sem expressar dor. Estava sereno, enquanto o sangue jorrava de seu peito.
                Cruzi se agachou ao lado dele, examinando a hemorragia e tentando fazer uma compressa para estanca-la. Mas não conseguiu. O Homem Sombra, sem usar suas habilidades, puxou o colarinho do terninho de Cruzi, e, de olhos bem abertos, disse aos sussurros:
                - Você é igual ao seu colega – Ele sorria. – Eu... n-não posso p-p-prender você no tempo... por que voc-cê é i-igual a e-ele... e n-não posso apag-g-gar sua mem-m-mória... por que sua memória... já está apagada...
                Ele sorriu, por uma última vez. Derramou uma lágrima, sem saber se era de contentamento ou de desespero. E morreu nos braços de Cruzi.

4

Escritório da divisão Titãs, 21h

                (coloque para tocar a música: “Safe And Sound”, Taylor Swift feat. The Civil Wars)
                O caso foi rapidamente finalizado. O suspeito não tinha nome, nem registro, nem documentos. Ele não pôde ser identificado. Seria para sempre chamado de Homem Sombra, mas, pelo menos, não mataria mais ninguém. O caso foi rapidamente escondido da impressa, por que, se a informação vazasse, poderia ser que a morte do Ministro fosse ligada aos casos sobrenaturais, e isso não era de desejo do governo.
                Àquela hora, o horário de trabalho da divisão já havia acabado. Foster e Lane já haviam ido pra casa, mas Cruzi somente entrava no escritório... e encontrou Carter, com um copo cheio de um líquido cor de âmbar. Uma garrafa de bebida estava a seu lado.
                Carter também notou nela, e disse:
                - Conseguimos – Deu um gole em seu copo antes de continuar. – Nós pegamos ele, Cruzi. Nós conseguimos.
                - É...
                Ela não conseguia olhar diretamente para ele.
                - Vamos comemorar! – continuou Carter, alegre, mas ele logo se sentou, olhando para Cruzi e percebendo que havia algo de errado.
                Cruzi também se sentou, de cabeça baixa. Os dois ficaram em silêncio.
                -  Eu sei que este era um caso importante para você – Cruzi começou a falar. – E, eu sei que você está feliz em vê-lo solucionado, mas... você não se pergunta o por quê do Homem Sombra ter vindo atrás de mim? Em vez de ter ido atrás de você?
                Carter deu de ombros.
                - Ele estava brincando com a gente – respondeu. – Ele era doente, você sabe. Ele provavelmente só estava tentando provar algo para si mesmo.
                - Sim, talvez, mas... – Cruzi começou, mas não sabia como continuar. Hesitante, disse: - E se ele estava tentando provar... Carter, quando ele parou o tempo, eu consegui me mover. Assim como você.
                - Sim, talvez o poder dele estivesse se esvaindo. Talvez, fosse isso que ele estava tentando provar, isso o que ele estava tentando testar...
                - Carter... – Cruzi disse, sussurrando, com o rosto contorcido em temor. – Carter... antes de morrer... o Homem Sombra me disse uma coisa.
                Os dois permaneceram num silêncio cadavérico e apavorante.
                - Ele me disse... que eu era como você. Que eu era... igual a você.
                - E o que isso quer dizer?
                - Eu não sei, mas...
                - Cruzi, espere – Carter interrompeu, calmo. – Como eu disse, ele era louco, ele poderia estar tentando somente confundi-la...
                - Mas não foi só isso! – respondeu Cruzi. – Ele disse... Ele disse que era por isso que ele não conseguia usar o poder em nós. Que era  por isso que nós éramos imunes a ele. E que... ele não podia apagar nossa memória, como apagava a dos outros... por que... nossa memória já havia sido apagada.
                - Cruzi... – Carter disse, ainda cético, sem acreditar, mas Cruzi o interrompeu:
                - Pense, Carter! Pense! Não existe nada que você não se lembra? Nada?
                Ela dizia tudo numa voz fina e cortante, extremamente tristonha e desesperada. Parecia a ponto de irromper em lágrimas quando disse:
                - Eu... eu tentei. Eu tentei me lembrar de minha vida... e não consegui. Eu não lembro de nada antes de entrar para a Guarda Nacional. Eu não lembro de nada antes de 2029. Eu... eu não lembro de meus pais, minha família, meus amigos... eu não...
                Ela engoliu em seco, segurando as lágrimas.
                - Por favor, me diga que você se lembra – disse ela. – Por favor, me diga que isto é um problema meu, me diga que o Homem Sombra não estava certo, me diga...
                Mas ela via nos olhos de Carter. Ela via a confusão enquanto ele tentava discernir o que era realidade e o que não era.
                - Carter... você se lembra de alguma coisa de antes da academia?
                Ele lhe lançou um olhar cheio de dúvidas, e Cruzi teve sua resposta. Ele também havia perdido sua memória. Alguém, ou alguma coisa havia apagado, sabe-se lá quando...
                O Homem Sombra estava certo.
Reações: