Olá galera :) Eu gostaria de comunicar a vocês que recentemente recebi o documento oficial da FBN, dizendo que meu outro livro, "O RÉQUIEM DAS GUERRAS: ECOS" está registrado. Isso quer dizer que eu poderei lançá-lo logo. Qualquer novidade, eu direi a vocês :) E ah, este capítulo é uma homenagem especial aos fãs de Arquivo X. Vocês logo vão entender por que. Enfim, espero que curtam :)


1x03

O Hospedeiro

                ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, comandados pelo diretor Marco Noah, o agente deve investigar casos paranormais que ameaçam a nação.

1

28 de setembro, Distrito Imperial, aproximadamente 22h

                (coloque para tocar a música: “Música Urbana 2”, Legião Urbana)
                - Estou morta! – disse Kelly Magalhães, a jovem garçonete do restaurante Curl.
                E não era para menos: ela havia trabalhado doze horas sem parar. Aqueles dias tinham sido bastante pesados para os trabalhadores do restaurante. Desde que a obra havia começado do outro lado da rua, os homens da construtora almoçavam todo dia no Curl, exigindo que a garçonete fizesse trabalho redobrado.  Agora que se aproximavam das 22h da noite, finalmente tinha algum tempo para respirar.
                - Calma – disse Joah, o outro garçom daquele turno. – Acabou, já podemos ir para casa.
                - Que Deus te ouça – Kelly respondeu, arrancando o avental.
                - Ah, qual é, você não pode odiar tanto este lugar. Admita, é até um pouco alegre, se você não considerar a lama que esses pedreiros trazem para dentro.
                - Lama que nós temos que limpar, pedreiros que adoram falar das minhas pernas – Kelly suspirou. – Sinceramente, Joah, como você aguenta?
                - Simples – respondeu o garçom, terminando de fazer a última anotação em seu bloquinho de notas. – Eu não tenho pernas bonitas.
                Kelly fez careta, dizendo:
                - Engraçadinho...
                Joah era um cara legal. Havia sido contratado há 6 meses, pouco antes do inicio das obras, enquanto Kelly trabalhava ali já fazia mais de um ano. Ele havia começado para abrir uma poupança para a faculdade, enquanto ela trabalhava para bancar o apartamento em que vivia, pois já cursava a tal faculdade. Os dois passaram a andar juntos, não apenas por que eram os únicos serventes do turno, mas por que tinham muito em comum. Fora do trabalho, volta e meia saiam, mas como amigos. Não havia a preocupação de um acabar desenvolvendo sentimentos pelo outro: eram estrita e absolutamente amigos.
                Os dois rapidamente saíram do trabalho, se despedindo na porta do Curl. Kelly seguiria para a direita, onde ficava sua casa, enquanto Joah tinha que contornar a obra para pegar o ônibus do outro lado. Era o que ele sempre fazia. Mal se dava o trabalho de estender os olhos até o topo do prédio interditado: já não era interessante ver um monte de entulho e sucata. Ele não sabia, no entanto, que o subsolo do prédio havia sido explorado pelos trabalhadores. Já fazia dias desde que eles haviam colocado suas máquinas para trabalhar quebrando o chão, a fim de que, quando a obra estivesse completa, o subsolo se tornasse um imenso estacionamento.
                Mas não fora isso que acabara acontecendo. Joah parou, pensando ouvir algum ruído vindo da construção; obviamente, era impossível que alguém continuasse trabalhando lá àquelas horas, já que os pedreiros e arquitetos partiam para casa ao fim do expediente, às 19h. Não obstante, um gemido claramente humano vinha de uma pilha de entulho, no que antes era o jardim do prédio... e se alguém houvesse se ferido? Algum trabalhador que houvesse ficado até mais tarde?
                Mal Joah pensou, e estava lá dentro.
                - Olá? – gritou ele.
                Os gemidos pararam de súbito, mas não houve resposta.
                - Oláaa? – Joah repetiu, olhando para a pilha de entulho.
                Foi então que ele ouviu novamente: apurando os ouvidos, percebeu que os gemidos vinham detrás da pilha... subitamente, um homem surgiu detrás. Ele tinha roupas rasgadas e sujas, e não usava capacete. Não tinha como ser um dos pedreiros, nem nada do tipo...
                - E-eu pensei que tinha acontecido um acidente... – Joah se explicou, mas foi quando viu as mãos do homem: estavam cobertas de uma viscosa substância esbranquiçada, muito semelhante à algum tipo de gosma...
                O garçom não teve tempo de gritar: logo, o homem de roupas sujas o atacava. Joah caiu, e o homem montou sobre ele. O garçom tentou acertar-lhe um soco; inútil! Mas em nenhum momento Joah esteve tão paralisado quanto no momento em que tentou puxar os cabelos do homem... e tudo o que sentiu na nuca do homem foi um grande buraco sangrento e viscoso.
                Ao longe, Kelly observava. Ela havia voltado para devolver o celular de Joah, mas agora se escondia atrás de uma lixeira, em choque. Ela observava enquanto o homem de roupas sujas cravava as unhas no rosto de Joah... enquanto o homem perfurava a nuca do garçom... ela não saberia descrever o que aconteceu depois, de tanto medo que sentia. Só sabia que o homem caiu, morto, e Joah, com a nuca perfurada e as mãos cobertas de uma substância branca e viscosa, levantou-se e saiu andando. Ele não pegou seu ônibus naquela noite.

2

29 de setembro, 9h20
                - Senhor – disse Cruzi, imediatamente saindo de seu carro ao chegar no local do crime. – Qual é o caso?
                - Agentes Cruzi, Foster, Lane, e novato – disse o diretor Marco Noah, enquanto cada um dos agentes da divisão Titãs saíam do carro. – O nome da vítima é Caio Freitas. Ele é um executivo, que trabalha no fim desta rua. Ele estava desaparecido faz dois dias, e foi encontrado morto ontem há noite na obra daquele prédio.
                - Eu creio que esta não é a parte estranha da morte – Lane comentou.
                - Não – Noah respondeu, descontente. – Sigam em frente, vejam o corpo.
                Os agentes obedeceram, e, acompanhados pelo diretor, mostraram seus distintivos para os guardas locais, que permitiram que os cinco fossem em direção ao cadáver, que estava coberto por uma lona de plástico. Uma vez de frente ao corpo, Lane calçou luvas de plástico descartáveis e livrou-se da lona.
                - Uau – disse Cruzi.
                - Definitivamente... – Carter completou.
                O corpo estava virado de barriga para baixo, deixando as costas e a nuca bem visíveis. A causa da morte era bastante óbvia: havia um grande buraco sangrento na nuca, de pelo menos dez centímetros de diâmetro.
                - Senhor – disse Cruzi. – É definitivamente uma morte sangrenta, mas ainda não entendo o motivo do caso ser considerado sobrenatural.
                - Os guardas locais também não entendiam – respondeu Noah. – Eles desejavam investigar o caso como um homicídio comum... até olharem melhor para o buraco na nuca. – Noah olhou para Lane, e disse: - Vá em frente, examine. Diga-me o que acha.
                Lane obedeceu, sacando uma lanterna e tocando com muito cuidado na borda do buraco na nuca da vítima. Olhou dentro da cabeça, movendo a lanterna de um lado para o outro, para ver bem tudo o que havia dentro do crânio. Primeiramente, sua expressão foi de espanto; depois, de intriga; e por último, de descrença.
                - Espere, não é possível... – ele sussurrou.
                - O que? – Foster perguntou. – O que não é possível?
                Lane desligou a lanterna, levantando-se e afastando-se um pouco do corpo. Então, olhando nos olhos dos outros três agentes, disse, incerto:
                - O cérebro deste homem... encolheu!
                - Sim – O diretor Noah confirmou. – Acredite, já fizemos todas as piadas de mau gosto possíveis quanto ao assunto.
                - Ei – Carter disse. – Sou apenas eu, ou o sangue desse homem...
                Os agentes se agacharam perto do corpo. Lane, que tinha os olhos mais treinados para lidar com cadáveres, voltou a olhar para o buraco na nuca, e então para o sangue que havia no chão, e concluiu:
                - O sangue está amarelado... Muito amarelado, na verdade. Nem parece sangue de verdade... E não é só isto... – Ele tocou novamente no buraco na nuca da vítima. – Olhem só...
                Ele apontou para todo o contorno do buraco. Inicialmente, os outros agentes não viram nada, mas então perceberam: havia uma substância branca e viscosa saindo da nuca, grudada no cabelo e escorrendo pelo pescoço.
                - Olhe – Cruzi disse. – Esta mesma substância está nas mãos dele...
                - Há algo mais que eu devo lhes mostrar – disse Noah. Ele então sacou uma grande placa metálica quadrada, que servia para mostrar hologramas. Como tal, assim que tocou na placa, um dos hologramas propriamente ditos surgiu. O diretor continuou a dizer: - Esta é a gravação que uma das câmeras de segurança do restaurante fez ontem há noite.
                Havia dois homens diante do prédio da obra: um deles era obviamente Caio Freitas – era reconhecível pelas roupas que usava. O outro, no entanto, não se sabia quem era. Os dois estavam brigando, e Caio parecia ser quem havia começado a briga. Então, no momento em que os dois caíram no chão, a imagem chiou, como uma televisão com problemas de sinal. Assim continuou por dois minutos, impedindo que os agentes vissem qualquer coisa no holograma. Quando Cruzi abria a boca para reclamar, a imagem voltou, perfeitamente nítida: Caio estava caído no chão, morto de barriga para baixo. O outro homem estava se levantando, e começava a caminhar para longe...
                - Quem é este outro homem? – Cruzi perguntou.
                - O nome dele é Joah Ocanha – respondeu Noah. – Ele é garçom naquele restaurante. Ele está desaparecido desde que esta gravação foi feita.
                - E como é que ele foi identificado?
                - Pela única testemunha do acontecimento – O diretor apontou para a mulher do outro lado da rua. – O nome dela é Kelly. Ela é colega de trabalho de Joah. Ela se escondeu atrás de uma lixeira e viu tudo, mas não consegue falar muito. Está muito abatida.
                O diretor olhou para o corpo, depois olhou para os agentes, e disse:
                - Bem, eu acho que agora o caso é de vocês. – E saiu andando, deixando os quatro sozinhos.
                Carter agachou-se para ver o corpo mais uma vez, enquanto Cruzi e Foster voltavam-se para Lane. Cruzi perguntou:
                - Então, tem alguma ideia do que está acontecendo?
                Lane ficou em silêncio por alguns momentos, remoendo a resposta. E então respondeu:
                - Não... Pela primeira vez, eu não tenho. – Ele voltou a ficar em silêncio, pensando sozinho, antes de dizer: - Mandem pegar o corpo, e tragam-no para o escritório da divisão. Eu não vou conseguir pensar em nada enquanto não fizermos uma autopsia.
                 
Uma rua qualquer, 12h50
               
                (coloque para tocar a música: “The Kids From Yesterday”, My Chemical Romance)
                Joah Ocanha não era um cara mau. Pagava suas contas, estudava dia e noite, não bebia. Joah Ocanha não era um cara nada mau. O Parasita sabia disso. Além disso, Joah Ocanha não tinha má aparência. Teria uma namorada, se tivesse tempo e vontade de um relacionamento sério. Poderia ser fácil seduzir alguma garota, quando o corpo estivesse esgotado...
                Mas, ah, havia o buraco na cabeça – o Parasita pensou.
                Aparentemente, os outros humanos eram bem mais inteligentes do que o Parasita pensava. Não eram guiados por extinto, como outros animais: eram criaturas com senso lógico. Como tal, se um humano visse outro humano com um grande buraco na cabeça, obviamente causaria espanto. Mas para isso havia solução: humanos usavam algo chamado “bonés”, que cobriam a cabeça. Tudo que o Parasita tinha que fazer era cobrir a nuca de Joah com alguma coisa, para estancar o sangramento do buraco, e então botar um boné. Assim, Joah poderia se passar por um humano normal...
                Não é necessário dizer que Joah estava morto. Ele não controlava mais o próprio corpo – o Parasita controlava.
                O Parasita, pelos olhos de Joah, viu a bela mulher à distância – ruiva de olhos azuis e magra, vestida de terninho, ela se encaminhava para um escritório de advogados. Talvez, o Parasita devesse seduzi-la agora... talvez, devesse...
                A mulher entrou no escritório de advogados. Droga! Como o Parasita não havia previsto isso?
                Pelo que ele ouvia dos outros humanos que conversavam a seu lado, entre 12h e 13h, acontecia o evento que era chamado de “horário do almoço”. Nesse horário, todos os humanos deixavam seus trabalhos, e faziam uma refeição. Interessante, o Parasita pensou, os costumes destes humanos são interessantes. Outros humanos diziam que, depois do horário de almoço e de voltarem ao trabalho, “só teriam paz às 18h”. O Parasita concluiu que, às 18h, esses humanos seriam liberados de seus trabalhos... então, bastava esperar ali. Quando o relógio batesse 18h, a bela ruiva de olhos azuis sairia do prédio.

Escritório da divisão Titãs, 14h30

                - Não há nada para examinar neste corpo – disse Lane, após terminar a autopsia. – Está tudo em perfeitas condições...
                Ele despiu-se de seu jaleco, e retirou as luvas descartáveis, bem como os óculos especiais que normalmente usava para conduzir aquele tipo de procedimento. Decepcionado e frustrado, ele suspirou.
                - Isso não é possível... – ele disse para si mesmo.
                - Eu também acho – Foster respondeu. – Vamos lá, é impossível que você não tenha nenhuma teoria...
                - Mas minhas observações científicas não apontam nada. Absolutamente nada. Não temos de onde partir, nem para onde ir nesta investigação...
                - Mas você tem alguma desconfiança, certo? – Cruzi perguntou.
                Lane suspirou mais uma vez, e chamou os três colegas para se aproximarem do microscópio. Uma vez ali, encorajou os três a olharem.
                - O que vocês veem aí é aquela substância branca que encontramos no corpo. Eu examinei, e examinei, e examinei, mas não consegui encontrar muita coisa. Os átomos, as moléculas, é tudo muito estranho...
                - E o que você acha que isto é?
                Lane sentou-se, e, à contragosto, respondeu:
                - Ectoplasma.
                - Ectoplasma? Você quer dizer...
                - Sim: a substância que, teoricamente, forma o corpo dos fantasmas. Se o que eu digo estiver correto, com a quantidade de ectoplasma que encontramos dentro e fora do corpo, poderíamos dizer que este é um caso de possessão fantasmagórica... Um espírito, de alguma forma, apoderou-se do corpo desta pessoa. Mas isto ainda não explicaria o buraco na nuca, nem o fato do sangue estar amarelado.
                Levantando-se, Lane pegou dois frascos de vidro: um continha a substância branca, que podia ou não ser ectoplasma, e o outro continha o sangue amarelado.
                - Mande esses fracos para análise toxicológica – disse Lane. – Só poderemos ter certeza do que essas substâncias são quando tivermos uma análise completa.
                - Ei – Cruzi chamou. – Eu acabei de receber as fichas de Caio Freitas e Joah Ocanha. Nenhum dos dois tem antecedente criminal. Caio morava no Distrito 12, mas estava cursando uma faculdade ali perto. Os pais dele ainda moram no Distrito 12, então não poderemos interroga-los. Mas Joah Ocanha morava aqui perto com os pais. Estou indo interroga-los agora mesmo.
                - Eu vou junto – disse Lane.
                - Sério? – Foster perguntou. – Mas você odeia dar a notícia da morte para a família, todo o drama e coisa do tipo...
                - Eu vou – Lane manteve-se firme. – Preciso saber sobre este caso.
               
Residência de Joah Ocanha, 16h

                (coloque para tocar a música: “Revenge”, 30 Seconds To Mars)
                A notícia havia sido dada aos pais de Joah Ocanha: ele havia desaparecido depois de deixar um corpo para trás. Porém, não se sabia se Joah havia matado ou não – bem como a vida dele poderia estar em perigo. Primeiro, os pais negaram qualquer possibilidade do envolvimento do filho em um assassinato – depois, caíram em luto.
                - Sr. e Sra. Ocanha, eu sinto muito em interromper, mas eu tenho que continuar a investigação – disse Cruzi. – Vocês têm alguma ideia de alguém que poderia querer ferir seu filho?
                - N-não – disse a Sra. Ocanha. – Ele era um garoto tão bom... é. Ele é um garoto tão bom...
                - Vocês me perdoem se estou dizendo algo errado – disse o Sr. Ocanha. – Mas primeiro, vocês nos disseram que Joah havia desaparecido, e um corpo havia aparecido... Você entram em nossa casa, e vêm praticamente nos dar a notícia da morte, mesmo Joah estando apenas desaparecido, pelo jeito... Tem algo que não estão nos contando!
                Depois de olhar mais uma vez para os agentes, o Sr. Ocanha perguntou:
                - Em que divisão vocês trabalham? – E não deu tempo para os agentes responderem antes de continuar: - São daquela divisão, não são? A divisão Titãs...
                A Sra. Ocanha, ao ouvir o marido falar assim, pareceu agitada.
                - E se o que eu falo é verdade – O Sr. Ocanha continuou. – Quer dizer que este não foi um sequestro normal.
                - Realmente, Senhor – Lane falou pela primeira vez.
Carter, sendo novato, não sabia o que aquilo significava, mas para Cruzi e Foster, poderia acabar saindo um desastre: Lane não tinha tato com vítimas, nem com parentes de vítimas. Poderia estar sempre animado, mas, quando tratava-se de seu trabalho, o doutor era sempre muito frio e calculista, e por isso era tão inteligente.
- Algum parente da família faleceu recentemente? – Lane perguntou. – Ou algum amigo, conhecido de Joah?
Ambos Sr. e Sra. Ocanha negaram veementemente.
- Onde você quer chegar? – perguntaram.
Lane sacou um envelope pardo, e, lá de dentro, retirou as fotos do corpo de Caio Freitas. Cruzi e Foster encolheram-se, nervosas, temendo a reação dos pais de Joah, e com razão: assim que os Ocanha viram as fotos, suas expressões contorceram-se, indo da repugnância à vertigem.
- Que... que coisa horrível! – disse a Sra.
- Este é o corpo que encontraram no lugar em que Joah desapareceu? – O Sr. Ocanha perguntou, controlando-se ao máximo, mesmo estando enojado com as fotos.
- Sim – confirmou Lane. – Vocês me perguntaram o que o falecimento de algum conhecido poderia representar. Bem, nas figuras, vocês podem ver esta substância branca cobrindo o cadáver. Nós suspeitamos que essa substância seja ectoplasma, que é uma lendária substância que, segunda lendas urbanas, formaria o corpo de espíritos e fantasmas...
- Absurdo! – O Sr. Ocanha se levantou. – Espíritos! Fantasmas!
- Eu sei muito bem o que parece – Lane continuou, inabalável. – Sinceramente, eu mesmo tenho dificuldades de acreditar nesta teoria...
O Sr. Ocanha, acalmando-se, sentou-se novamente, muito à contragosto. Era evidente seu desagrado, mas estava disposto a continuar ouvindo.
- Se esta teoria estiver correta – Lane concluiu. – O fantasma possuiu este homem das fotos, e, depois de mata-lo, pulou para o corpo de seu filho, e é uma questão de tempo até que...
- Não – a Sra. Ocanha gemeu. – Por favor, não...
- Nós estamos fazendo todo o possível para encontrar seu filho com vida – Cruzi garantiu, tentando acalmá-la.
- E se este monte de merda for verdade... – disse o Sr. Ocanha. – Como vocês vão capturar o fantasma?
- Nós não sabemos.
- Então vocês não sabem de nada!
O Sr. se levantou, enquanto sua mulher continuava a chorar no sofá.
- Senhor – Lane fez uma última tentativa. – Nós estamos trabalhando para que o caso seja resolvido, para que ele termine da melhor maneira possível, mas, seja como for... todos nós podemos estar diante de uma grande descoberta. O seu filho pode ser a primeira real evidência da existência de fantasmas.
- E eu deveria ficar feliz com isso? – O Sr. esbravejou.
Pouco depois, os quatro agentes saíam da casa. Lane disse:
- Bem, isso foi inútil.
- Eu disse que você não ia gostar – Foster respondeu.
- No fim das contas, não temos nenhuma evidência para seguir em frente com o caso – Cruzi disse.
- Eu vou voltar para o laboratório – disse Lane.
- Tuomas – chamou Foster -, já está quase no fim do expediente...
- Podem ir para casa. Eu não vou demorar.
Ele completou com um sorriso, que não convenceu. No entanto, já entrava no carro, esperando que os três outros agentes o deixassem no Escritório da divisão.

A mesma rua qualquer, 22h30

                O Parasita havia se esquecido de qual prédio a bela ruiva sairia. Já passava bastante do horário em que os humanos eram liberados de seus trabalhos... ele, de certa forma, já até havia perdido as esperanças de que a encontraria novamente.
                Mas foi então que a ruiva saiu do prédio de escritórios de advogados. Depois de perder algum tempo pensando em como “advogados” era uma palavras engraçada, o Parasita pensou nas coisas em que ouviu no “horário de almoço”: às vezes, os trabalhadores não saíam às 18h. Às vezes, eles faziam o que se chamava de “hora extra”, e trabalhavam até mais tarde. Talvez fora isso que a ruiva estivera fazendo: talvez estivesse sendo obrigada a trabalhar até mais tarde.
                O Parasita então sacou a carteira de Joah Ocanha. Os outros humanos usavam algo chamado “dinheiro” para fazer algo chamado “pagar a conta do restaurante”, e assim ele fez. Deixou no balcão duas notas com o número 50 escrito; mal sabia ele que estava pagando cem reais para uma conta de no máximo trinta reais, já que havia consumido  sete ou oito xícaras de um líquido preto e amargo chamado “café” – e tinha um gosto bom, o Parasita pensou. Era viciante. Talvez devesse tomar mais café num outro dia.
                O Parasita, no controle do corpo de Joah Ocanha, saiu do restaurante então. A rua estava deserta, senão por ele e pela ruiva. Sendo Joah Ocanha uma pessoa consideravelmente atraente, o Parasita fê-lo falar:
                - Olá! – A voz de Joah era bonita, atraente, mesmo gritando. A ruiva, no entanto, olhou para trás por somente um segundo, e, no momento seguinte, passou a caminhar mais rápido. O Parasita não entendeu; havia feito algo errado? Como tal, disse novamente: - Olá! Você!
                A ruiva virou numa esquina, caminhando muito rapidamente. O Parasita então disse:
                - Ei! Espere! – E correu atrás dela.
                Quando encontrou-a, a ruiva estava longe... correu ainda mais para alcança-la, muito silenciosamente. Tanto que, quando tocou o ombro da ruiva, a mesma pulou de susto, e arregalou os olhos.
                - Olá! – O Parasita disse novamente.
                - O-olá... – A ruiva respondeu.
                O Parasita, no controle do corpo de Joah Ocanha, fê-lo sorrir docemente, mas, aparentemente, isso não acalmava a ruiva.
                - Oh! Perdão! Perdão! – disse ele. – Não desejava amedrontar-lhe, perdão! – E então, estendendo a mão, disse: - Meu nome é Joah Ocanha. Qual seu nome?
                A ruiva deu dois passos para trás.
                - Ei, está tudo bem! – O Parasita disse. – Está tudo bem! Não vou lhe machucar! De fato, minhas pretensões são contrárias! Poderia dar-me a honra de saber mais sobre vossa mercê?
                - Fique longe de mim! – A ruiva exclamou.
                - N-não! – O Parasita estava confuso. – Estou fazendo algo errado? Estou? Se estou, por favor, me diga, não quero fazer nada errado...
                A ruiva então puxou de sua bolsa alguma coisa... e borrifou nos olhos de Joah Ocanha. O Parasita sentiu dor – o que era aquilo? Era spray... spray de pimenta? Pimenta! Por que se faria um spray de pimenta? A não ser que... aquele era um aparelho que os humanos usavam para ataque? Apesar da dor, o Parasita abriu os olhos de Joah Ocanha, e viu: a ruiva corria para longe, fugia...
                Mas não por muito tempo. No momento seguinte, o Parasita havia comandado que Joah Ocanha a perseguisse e a derrubasse. Quando isso foi feito, o Parasita tirou o boné, pouco se importando se o buraco na nuca aparecia ou não. A ruiva, ao tocar a cabeça de Joah, sentiu o buraco, e nunca esteve com tanto medo na vida.
                Pouco tempo depois, a ruiva estava morta, e possuída pelo Parasita. O corpo de Joah Ocanha ficou para trás. Mas, ainda assim, o Parasita não entendia. O que havia feito de errado? Havia falado algo que não devia? Agora já não importava, ele havia feito o que queria: havia possuído a ruiva; a ruiva agora era seu hospedeiro.

3

30 de setembro, 8h50

                Os agentes da divisão Titãs foram chamados pela polícia, que haviam encontrado o corpo de Joah Ocanha. Assim que chegaram lá, viram as câmeras de segurança, que mostravam Joah atacando uma ruiva desconhecida, antes da imagem sair do ar, exatamente como havia acontecido com Caio Freitas. Lane olhou o corpo de Joah por alguns segundos, antes de constatar:
                - Ele também tem um buraco na nuca... a mesma substância branca está cobrindo o corpo, o sangue está amarelado, o cérebro encolheu... Ele morreu do mesmo jeito que Caio Freitas.
                - Mas existe um padrão aqui – disse Carter. – Caio Freitas atacou Joah, e então, Caio apareceu morto e Joah desapareceu. Agora, Joah atacou esta ruiva, e Joah apareceu morto enquanto a ruiva desapareceu...
                - Isso deixa mais forte minha suspeita de possessão – disse Lane. – O fantasma estaria pulando de corpo para corpo. Cada corpo possuído é um novo morto...
                - Lane – disse Cruzi. – Eu não tive tempo de lhe dizer, mas a análise toxicológica ficou pronta esta manhã.
                A agente entregou um envelope pardo para Lane, que abriu-o, retirando lá de dentro diversos papéis. Depois de passar alguns momentos lendo, ele disse:
                - É claro...
                E sorriu, satisfeito, deixando para trás o mal humor que carregava desde o dia anterior.
                - Peçam para mandarem o corpo de Joah para o laboratório – disse Lane. – Eu já sei o que está acontecendo. Eu estava errado, isso não é obra de um fantasma...
                - Então, o que está causando estas mortes? – perguntou Foster.
                - Simples – Lane respondeu. – Estes homens foram mortos por um alien.
                Foi isto o que Carter e Cruzi disseram mais tarde para o diretor Marco Noah. Incrédulo, o diretor largou sua caneta e seus papéis, e disse:
                - Um alien?
                - Nós também estávamos um pouco céticos, senhor – disse Cruzi, tentando acalmá-lo.
                - Um alien! – repetiu Noah. – Era só o que me faltava! O que mais vocês vão me dizer, que vão mudar seus nomes para Mulder e Scully?
                Noah sentou-se em sua cadeira, e disse:
                - É bom que vocês estejam certos... Seria melhor que estivessem errados! Um alien, pelo amor de Deus! Como se esta divisão já não fosse suficientemente motivo de piada!
                - Mas o senhor tem que admitir – sussurrou Carter. – É melhor um alien do que um fantasma.
                De volta ao escritório da divisão Titãs, Cruzi, Carter e Foster se sentaram em suas cadeiras, enquanto Lane pegava um dos pequenos fracos, cheio daquela substância branca. Ele disse:
                - Segundo o relatório da análise, esta substância branca é nada mais, nada menos do que Francóssito puro.
                - Francóssito?
                - Sim. Francóssito é uma substância que foi descoberta em outros planetas por sondas enviadas para o espaço há mais ou menos cinquenta anos. É uma descoberta científica que foi um divisor de águas, já que, no Francóssito, há substâncias que só um ser vivo consegue produzir. Desde então, as teorias da existência de vida extraterrestre nestes planetas é discutida avidamente...
                - Mas o que isto significa para a investigação? – perguntou Cruzi.
                - Eu estava chegando lá – disse Lane, deixando o frasco numa mesa. – Eu acredito que o Francóssito é a substância que forma o corpo desse alien. E esse alien não é um ser comum: é um parasita. Como todos os parasitas, ele suga os nutrientes e a energia do corpo da vítima, consequentemente matando-a... Mas também não é um parasita comum. Eu acredito que, por ser um alienígena, seu corpo é muito grande. A única maneira de entrar no corpo de uma pessoa seria pela nuca... assim, ele se alimentaria do cérebro das vítimas: tudo o que tem no cérebro pode servir de alimento para o alien, ou neurônios, os hormônios que o cérebro produz... e isso explica por que o cérebro encolheu.
                - Um alienígena comedor de cérebros – disse Carter. – Bem, eu esperaria isso de zumbis, mas não de aliens...
                - Depois de parasitar no corpo da vítima – continuou Lane. – A vítima se torna um hospedeiro... Mas logo, o cérebro encolhe tanto que não pode ser mais sugado... ou seja, o alimento acaba. Então, o alien tem que parasitar outro corpo... e acho que é isso o que aconteceu. Caio Freitas foi parasitado pelo alien, e, quando o cérebro de Caio ficou “seco”, o alien possuiu Joah. Quando, por sua vez, o cérebro de Joah também “secou”, o alien pulou para o corpo da ruiva.
                - Mas e o sangue amarelo? – Cruzi perguntou. – O que isso tem a ver com alienígenas?
                - Todo organismo vivo, depois de alimentar-se, precisa eliminar as excretas – disse Lane. – Agora, todos sabem que o sangue está em todos os lugares de nosso corpo... veias e artérias levam sangue para todos os lugares. Desse modo, há veias e artérias em nosso cérebro, e como o alien precisava eliminar excretas em algum lugar...
                - Então, o sangue está amarelo por que o alien defecava e urinava nele? – Foster perguntou.
                - Eu não falaria com essas palavras, mas sim – Lane respondeu, fazendo Foster se calar e assumir uma expressão de extrema repugnância.
                - Tudo bem – disse Cruzi. – Agora nós sabemos a causa da morte e o assassino, mas como vamos pegá-lo?
                - Eu pensei nisto também – Lane respondeu. – O primeiro assassinato foi na obra daquele prédio, e o segundo, num restaurante a vários quarteirões dali. Agora, pensem bem: há vários relatos de pessoas que dizem que viram OVNIs, há pessoas que dizem isso quase todo dia. E se um OVNI caiu na Terra? E se ele caiu ali, no lugar daquele prédio, milhares de anos atrás, e foi soterrado pelas mudanças climáticas e outros fatores ambientais? O OVNI estaria escondido ali embaixo há milhares de anos, e o alien, sem nenhum humano por perto para parasitar, teria entrado em hibernação, como os ursos polares fazem no inverno. Mas a obra poderia ter acordado ele de novo, já que a construtora estava planejando escavar até o subterrâneo para criar um estacionamento...
                - E o alien está se afastando da obra – disse Cruzi.
                - Exatamente. Ele foi acordado, mas parece estar se afastando do lugar em que sua nave caiu...
                - O que torna a obra segura de se explorar – disse Carter.
                - Talvez sim, talvez não – disse Lane. – De qualquer forma, temos que ir para lá. Temos que investigar a obra, talvez encontremos alguma pista.

A obra, 14h30

                Demorou algum tempo até que a obra fosse completamente interditada, e os trabalhadores fossem completamente evacuados do local. Os curiosos, como sempre, estavam observando de perto. Os quatro agentes checaram mais uma vez com os policiais o quão seguro era entrar: segundo os responsáveis pela obra, havia uma rede de túneis subterrâneos logo abaixo do prédio; eles iriam implodir os túneis dali a duas semanas, de modo que a segurança dos mesmos ainda não estava comprometida. De fato, depois de tantas medidas para que houvesse uma implosão segura, aquele era o melhor momento para se entrar nos túneis.
                Somente os quatro agentes foram autorizados a entrarem nos túneis. Eles ganharam um mapa, descrevendo toda a rede de mais ou menos dois quilômetros de extensão, e por fim seguiram o caminho indicado pelos arquitetos. Lane ia na frente, com o mapa e a lanterna grande, enquanto Cruzi, Carter e Foster seguiam atrás, com suas lanternas de bolso.
                - Ele está realmente dedicado a este caso, o Lane – sussurrou Carter, após andar alguns metros. Ele tinha a esperança de que Lane não o havia ouvido.
                - O Lane... – Foster começou, sem saber como continuar. – O Lane é genial. Mas ele... quer dizer, quando ele encontra um caso desses... ele faz de tudo para solucioná-lo. Ele pode estar sempre animado, mas quando se trata de trabalho, ele leva a sério. Não é à toa que a maior parte dos nossos casos são resolvidos por ele... ele é realmente genial. E isso me preocupa às vezes.
                Lane então parou, e os três pararam atrás dele: o túnel agora se dividia em dois, numa bifurcação. Os agentes se entreolharam, e então, os quatro focaram-se no mapa: ambos os túneis eram igualmente grandes, e poderiam oferecer pistas igualmente importantes.
                - Vamos nos dividir – sugeriu Lane.
                Ficou decidido que Cruzi e Carter iriam para o túnel à direita, enquanto Foster e Lane iriam para a esquerda. No final, Carter fez algum comentário sobre “isso ser injusto com o Scooby”, e eles se separaram.
                (coloque para tocar a música: “Capturing The Dunhams”, Fringe OST)
                Cruzi e Carter foram os primeiros a encontrar alguma coisa: no meio do caminho, havia a substância branca chamada Francóssito; muito semelhante à líquido, a substância estava espalhada pelo chão de terra que formava o túnel. Sendo viscosa e gosmenta, vários dejetos estavam grudados nela, tais como areia, pedaços de metal e mesmo insetos mortos, como que capturados no âmbar.
                - Olhe – disse Carter. O Francóssito formava uma trilha, que levava até mais adiante no corredor...
                Não demorou para que o primeiro cadáver aparecesse.
                - Deus – disse Cruzi, tampando o nariz.
                E pudera: o cheiro pútrido contaminava o ar, deixando-o intragável. O cadáver em questão já estava num avançado processo de decomposição, mas ainda era possível identificar a causa da morte: um grande buraco na nuca.
                - O que você diria? – perguntou Carter.
                - Bem – Cruzi disse -, eu não sou especialista nessas coisas... mas eu diria que já está morto há algumas semanas.
                - Então, os ataques deste alien não são tão recentes...
                Os dois ouviram um barulho, e, ao direcionar a lanterna, viram um rato se movimentando. Ele também tinha um buraco na nuca... e, pouco depois, caiu morto, enquanto Francóssito escorria de sua cabeça. A substância branca era dotada de vida, mas, momentos depois, parou de se mover: havia morrido também.
                - Eles morrem instantaneamente sem um hospedeiro... – concluiu Cruzi.
                - Então, aquilo... – disse Carter, apontando a lanterna para a trilha de Francóssito que haviam deixado para trás.
                - São corpos de aliens – completou Cruzi.
                Os dois continuaram seguindo o túnel. Carter disse:
                - Ei, se o rato possuído pelo alien estava indo naquela direção... o que será que existe por lá?
                Cruzi deu de ombros, mas, ao ouvir um barulho metálico, logo descobriu.
                - Meu Deus... – disse ela novamente.
                As pequeninas lanternas dos dois agentes eram insuficientes para iluminar todo o lugar, mergulhado em breu: eles haviam deixado o túnel para trás, e encontravam-se agora no que deveria ser uma gigantesca clareira, que não existia no mapa. No centro da clareira, havia uma gigantesca esfera metálica: enterrada até a metade, a pequena porção visível de seu verdadeiro tamanho tinha ao menos três metros de altura. Não somente isso, como o chão ao redor da esfera estava repleto de Francóssito; milhares de corpos de aliens estavam caídos no chão.
                - Aquilo... – Carter perguntou. – Aquilo é uma nave?
                - Eu acho que sim... Carter, se isso é verdade, naquela nave havia uma comunidade inteira de aliens...
                - Todos mortos – completou ele. – Talvez, o alien que matou Caio Freitas e Joah Ocanha seja o único que ainda esteja vivo...
                - Ele estava só tentando sobreviver – disse Cruzi.
                Carter, olhando ao redor, apontou o feixe de luz de sua lanterna para mais além, no fundo da clareira. Depois de alguns minutos observando, se aproximou, e disse:
                - Ei, Cruzi, venha dar uma olhada nisto...
                Ela, de longe, não conseguiu ver, mas, ao se aproximar, notou que o Francóssito estava deformado e amontoado... até perceber que havia algo debaixo do Francóssito: diversos outros cadáveres em decomposição. À primeira vista, pareciam ser mais de vinte, mas, à medida que ela olhava ao redor, percebia que eram mais e mais mortos, chegando até mais de cinquenta... várias vítimas não identificadas, que provavelmente haviam desaparecido do mesmo jeito de Caio Freitas e Joah Ocanha.
               
                Enquanto isso, Foster e Lane seguiam pelo outro túnel, que era bem mais tranquilo. Depois de vários minutos de caminhada, Foster chamou:
                - Lane?
                - Hm? – o doutor respondeu, continuando a seguir em frente.
                - Você lembra do caso dos Wendigo?
                Lane sorriu.
                - Os monstros do esgoto. – disse ele. – Viviam nas tubulações de dia, e à noite, saíam e matavam quem quer que estivesse mais próximo. No entanto, por passarem o dia escondidos, eram hipersensíveis à luz... sim, eu me lembro.
                - Bem – Foster disse. – Este túnel meio que trás memórias, não é?
                Lane riu-se, e olhou para trás por um segundo, dizendo:
                - Péssima hora para ser sentimental, Allen.
                - Não estou sendo sentimental, só... – Foster suspirou. – Tuomas, espere.
                Os dois pararam no meio do túnel.
                - Eu sei... – Foster se complicou com as palavras. – Eu sei que você tem essa necessidade... essa necessidade de...
                - Allen... – Lane interrompeu. – Pare.
                - Não, eu não posso parar, por que isto não é saudável, Lane! É ótimo que você esteja preocupado em resolver o caso, é ótimo que você se dedique a ele, mas... você sequer dormiu esta noite? Viu, é disso que eu estou falando! – Foster suspirou. – Nós entramos neste trabalho para garantir a segurança dos outros, mas você não consegue decidir o que é seguro para você mesmo.
                - Allen – Lane disse, calmamente. – Nós estamos num túnel subterrâneo de dois quilômetros de extensão caçando pistas sobre um alien assassino. Você realmente acha que é a melhor hora para discutirmos isso?
                Foster meneou a cabeça negativamente, sem saber o que dizer. Lane então se aproximou, com um meio sorriso no rosto.
                - Ei – disse ele. – Se você quer se lembrar de alguma coisa... lembra-se da academia? Lembra-se?
                - Formandos de 2033 d.N. – disse ela, sorrindo. – Nós dois nos formamos juntos.
                - Sim, exatamente – disse Lane. – E você lembra o que queríamos...
                - Eu queria ser diretora da divisão de homicídios. Você que queria entrar para a divisão Titãs. E, no fim das contas, foi você que me convenceu a entrar na divisão com você.
                Os dois lembravam-se bem: Lane e Foster, ambos novos formandos, haviam acabado de sair da academia. Poderiam escolher a divisão que queriam; mas, desde o início, desde o primeiro ano na academia, quando os dois se conheceram, Lane queria entrar para a divisão Titãs, a divisão marginalizada. Foster, mesmo sendo muito sua amiga, não conseguia ver razão naquilo.
                - Você sempre quis um desafio maior – continuou Foster. – Não, talvez esta não seja a palavra certa... Você sempre quis algo... em que você se destacasse. Algo que exigisse mais de você, algo em que você seria realmente importante...
                - A divisão Titãs nunca teve mais do que três membros – disse Lane. – Raramente teve mais de dois. E eram apenas esses poucos agentes os responsáveis por investigar os casos de teor paranormal em todo território brasileiro... Quando Carter entrou para a divisão, fechando quatro agentes... foi a primeira vez que a divisão teve mais de três membros...
                - Carter – repetiu Foster. – Aquele garoto... ele parece muito com você. Eu vejo você nele, sabe? Ele não veio para esta divisão por acaso, nem por que alguém o empurrou para cá...
                - Nenhum de nós viemos – Lane disse. – Cruzi, você, eu, Carter... Todos tivemos nossos motivos...
                - Eu acho que sim – Foster sussurrou. – É só que... esta é uma divisão perigosa, Tuomas. E eu não consigo chegar ao ponto que eu quero, que é... nem tudo tem que girar em torno disto, dos Titãs. Você não pode ficar como ficou ontem só por que não conseguia decifrar o caso. É perigoso, Lane, não é saudável. Este é o nosso trabalho, não é nossa vida...
                - Allen Foster – disse Lane. Ele raramente chamava a amiga pelo nome completo, somente em situações sérias ou brincalhonas. Esta parecia se encaixar na segunda opção. – Se realmente encontrarmos provas conclusivas e irrefutáveis de que este é um caso de aliens... Podemos mudar a história da humanidade. É por uma oportunidade dessas que os cientistas estavam esperando. E você não pode negar: é bem legal, não é?
                - Eu acho que sim...
                - Então! – Mas, apesar das palavras de Lane, Foster ainda não parecia satisfeita. Lane continuou: - Façamos o seguinte: assim que este caso estiver resolvido, eu sou seu. Não no sentido em que você está pensando: eu serei sua cobaia de relaxamento. Não lerei livros, não verei Arquivo X, não farei absolutamente nada que não seja completamente relaxante. O que me diz?
                Antes que Foster pudesse responder, foi ouvido o grito.
                O ruído ensurdecedor – e humano – vinha do fundo do túnel, e parecia crescer cada vez mais. Alguém estava em perigo... Lane pôs-se a correr, mesmo diante dos gritos de “Espere!” de Foster. A agente, sem nada poder fazer, teve que correr também, mas Lane era muito mais rápido do que ela...
                Após alguns momentos de correria, Lane viu-se diante de uma nova bifurcação: sem pensar, ele seguiu diretamente para a direita, que era de onde os gritos vinham...
                - Espere! – Foster, que havia ficado muito para trás, gritou mais uma vez...
                Lane, seguindo pela bifurcação, encontrou a fonte dos gritos: uma mulher de costas, ruiva... quando Lane se aproximou, ele viu tarde demais: a mulher tinha um buraco na nuca...
                A mulher, muito rapidamente, se virou para ele.
                Foster virou à direita na bifurcação poucos momentos depois, mas tudo que encontrou no corredor foi a lanterna de Lane, ainda acesa. Ela abaixou-se para pegá-la, desnorteada, enquanto Cruzi e Carter chegavam ao corredor.
                - Ei, nós ouvimos gritos – disse Cruzi. – O que aconteceu, estão todos bem?
                - Lane... – disse Foster. – Lane desapareceu.

4

                - Nós estávamos errados – disse Cruzi. – O alien não estava se afastando dos túneis... ele provavelmente estava nos despistando, ou procurando um novo hospedeiro, para então voltar aos túneis...
                - E agora, ele quer fazer Lane como hospedeiro – concluiu Carter.
                - Mas onde vamos procurar? – Foster gemeu, desesperada. – Estes túneis são imensos! O alien pode estar em qualquer lugar!
                - Não pode não – disse Cruzi. – Nós sabemos onde ele está.
                Foster olhou, desacreditada, para ambos os agentes. Então, os três puseram-se a correr o mais rápido que podiam.

                (coloque para tocar a música: “Butterflies”, Silent Hill 2 Soundtrack)
                Lane não lembrava do que tinha acontecido. Ele lembrava-se somente de correr por um túnel, e por fim cair, à visão de uma mulher ruiva...
                Estava escuro. Estava muito escuro onde ele se encontrava. Então, alguém acendeu uma lanterna – a ruiva... Lane se lembrou: ela tinha um buraco atrás da cabeça... O doutor tentou desesperadamente se mexer, mas foi inútil: ele estava preso... não por cordas, mas por Francóssito... novos aliens! Logo, ele percebeu: o Francóssito que o prendia não se movia... eram cadáveres de aliens, que, por serem viscosos, grudavam-no ao chão e o impediam de se mover, como um inseto preso numa teia de aranha...
                Olhando ao redor, ele percebeu que estava numa clareira, e uma grande esfera metálica estava a seu lado... Possivelmente, era a nave de onde os aliens haviam chegado. Então, Lane olhou para a ruiva.
                - Os outros... estão mortos... você é o último sobrevivente de sua espécie – disse ele.
                - Interessante – disse a ruiva. – Humanos... inteligentes...
                Carter, Cruzi e Foster corriam pelo corredor que levaria à clareira...
                - É sua necessidade sobreviver... – Lane continuou. – Sobreviver o máximo que puder...
                - Dar continuidade à espécie – completou o Parasita, que estava no controle do corpo da ruiva. – Povoar o planeta...
                - O planeta é povoado... de humanos!
                - Criaturas inferiores, meros vassalos – disse o Parasita. – Hospedeiros para nossos corpos, pois podemos ser fisicamente mais fracos, mas somos fortes de alma! Vemos aonde os olhos preconceituosos da humanidade não conseguem chegar!
                - Grande discurso para alguém que vive dentre a raça humana faz somente algumas semanas – cuspiu Lane.
                - Nós viemos observando vocês... anos e anos, antes de decidirmos que não havia nada neste planeta. Nada que nos interessasse... era um planeta mal povoado, com pouquíssimos humanos e outros seres vivos, pouquíssimos Hospedeiros, pouca tecnologia... só destruição, e mais destruição...
                Lane, tentando se soltar do Francóssito, rapidamente entendeu o que o alien estava falando: ele provavelmente estava se referindo à Era Negra, o nome dado à época que ia do ano 29 a.N. (também chamado de 2016 depois de Cristo) até 36 d.N., o ano em que Noble, um grande pensador, começaria a revolucionar o modo de se viver no pós-Terceira Grande Guerra, de um modo que as civilizações começaram a ser recriadas.
                - Mas nossa nave, inesperadamente, ficou sem combustível – continuou o Parasita. – E nós esperávamos descer à Terra para procurar qualquer fonte de energia... mas nós não contávamos com um efeito, que mais tarde aprendemos que se chamava “gravidade”... nossa nave não estava preparada para isto. Nós então caímos, e por anos ficamos soterrados embaixo da terra... muitos de nossos companheiros morreram, pois as condições do planeta Terra nos obrigam a procurarmos Hospedeiros para sobreviver... o ar oxigênio, que só existe aqui, é ácido para nossa espécie, além de nosso tipo de alimento comum não existir no seu planeta...
                - Então, você comem nossos cérebros – disse Lane.
                - Então, é assim que os chamam? “Cérebros”? – o Parasita se admirou. – Nome engraçado, sim... não tão engraçado quanto “advogados”, mas bastante engraçado... Sim, eu comi alguns cérebros. São as únicas coisas neste mundo que oferecem uma nutrição saudável...
                - Frutas e legumes para que, né? – Lane sussurrou para si mesmo.
                - Mas devo admitir, humano, você me intriga. Sim, vejo e entendo seu medo, pois, pelo que entendi recentemente, o fato de que eu me alimento do cérebro de seres vivos causa a morte dos seres vivos propriamente ditos. É natural temer a morte, mas ainda assim, cá está você: eu vejo em seus olhos, o movimento sublime de um pensamento funcionando. Tique-taque, tique-taque. Você está pensando, pensando em como sair daqui! Mas não vamos nos desviar do assunto: você está PENSANDO! Todos os outros foram tomados por instintos animais e violentos, mas você está PENSANDO! – O Parasita se aproximou, agachado. – Diga-me, mesmo sabendo que você estará morto em poucos minutos, como você consegue manter a calma e a frieza?
                Lane encarou a ruiva, a Hospedeira do alien, nos olhos, e disse:
                - Pergunte para sua mãe, filho da puta.
                - Garanto-lhe que minha mãe não se chama “puta”, como você diz – o Parasita respondeu. – E também não entendo por que minha mãe saberia da resposta. É algum tipo de jogo?
                - PARADO! – O grito veio detrás, e tanto alien quanto Lane se viraram: Cruzi, Carter e Foster haviam chegado na clareira, apontando armas e lanternas para o alien.
                O Parasita, que não era nada menos do que inteligentíssimo, percebendo que aquelas armas deveriam ser mortais, pegou a arma do cinto de Lane.
                - Eu creio que isto deve resolver o assunto – disse ele, e atirou contra os três agentes.
                - ABAIXEM-SE! – Cruzi gritou, escondendo-se atrás das grandes pedras da clareira.
                Carter e Foster fizeram o mesmo. Carter, depois de escondido, começou a atirar contra o alien também, que continuava a atirar. Mas os agentes logo perceberam o grande risco que corriam: poderiam inadvertidamente acertar Lane. Cruzi disse:
                - Merda! - E se escondeu novamente atrás da pedra, enquanto o alien continuava a atirar.
                Ela contornou a pedra, correndo abaixada para evitar ser atingida. Escondeu-se atrás de outra, e outra, e outra pedra, sempre se aproximando de onde o alien estava, e sempre trocando tiros com o mesmo.
                Carter fez a mesma coisa, seguindo pelo outro lado e atirando. O alien estava ficando cercado...
                Até que o Parasita, muito inteligente, atirou na lateral das pedras – o que era suficiente para assustar os agentes, que deixaram as lanternas cair. Então, o Parasita atirou nas lanternas dos agentes, com uma mira surpreendentemente boa. Logo, a clareira mergulhou em breu puro, visto que a lanterna de Lane estava desligada e as de Carter e de Cruzi, quebradas. A única que continuava acesa era a de Foster, que estava escondida atrás de uma das pedras.
                - Carter!
                - Cruzi!
                - Ah, meu Deus, está todo mundo bem?!
                - Eu não vejo nada!
                - Onde estão vocês? – Foster perguntou. – Gente? Gente? Onde estão vocês? Eu não consigo ver vocês!
                Ela tinha tanto medo que não conseguia se levantar. Tremia tanto que o feixe da lanterna era uma pequena luz trêmula, que iluminava muito mal o arredor detrás da pedra que se escondia. Ela engoliu em seco, mantendo-se o mais alerta possível... mas o medo se metia no caminho, distraindo-a. E mesmo se não tivesse medo, ela não teria ouvido a mulher ruiva, possuída pela Parasita, se aproximar, extremamente silenciosa...
                Quando a mulher tocou Foster, a mesma gritou.
                A mulher caiu sobre a agente, impedindo-a de se mover. A arma de Foster caíra longe, impedindo-a de se defender, também... A mulher, possuída pelo alien, dominou Foster completamente. A agente, imobilizada, não podia fazer nada senão assistir...
                Dos olhos, ouvidos, narinas e boca da ruiva, surgiu Francóssito: o alien estava saindo da Hospedeira... para parasitar Foster. O Francóssito cairia no chão, vivo, e depois, se dirigiria à nuca da agente, abrindo um buraco para sugar seu cérebro... e então, Foster estaria morta...
                Todas essas imagens passavam pela mente de Foster, enquanto ela via o Francóssito escorrer dos olhos da ruiva. A agente gritou à plenos pulmões...
                Então, ouviu-se um tiro. A ruiva caiu, morta, em cima do corpo desesperado de Foster. A agente, depois de dois segundos de choque, tateou o chão até encontrar sua lanterna, e direcionou para o rosto do atirador: Lane. Ele havia se livrado do Francóssito morto que o prendia.
                - Eu atirei na nuca dela – Lane explicou. – O alien se aloja no cérebro... Então, um tiro na cabeça é o que bastaria para matar o alien. Ele está morto... – Lane disse para si mesmo. – Está morto...
                - Ele era o último de sua espécie na Terra, Lane – Foster disse com a voz embargada, depois de vários momentos necessários para se acalmar.
                - Ele ia matar você, Foster – Lane respondeu. - Ele ia matar você.

Escritório da divisão Titãs, 1 de outubro, 10h30

                (coloque para tocar a música: “The Years”, Crosses)
                - Aqui está o relatório – disse Lane, animado, deixando cair o amontoado de papéis na mesa de Foster. – Foi rápido de se fazer, até. Não havia muitos detalhes senão quanto ao Francóssito.
                - Beleza – respondeu Foster, porém sem tanta empolgação.
                Lane se sentou em sua cadeira, observando a companheira.
                - O que foi decidido que seria feito quanto a obra? – perguntou ele.
                - Está interditada pelo exército – Foster respondeu, fazendo Lane retomar a postura séria.
                - O exército?
                - Sim... eles decidiram que é melhor para todos. Afinal, a segurança do local está comprometida... e, além disso.
                - Ei, vocês souberam? – disse Cruzi, que entrava no escritório junto de Carter naquele momento. - O caso está passando para jurisdição do exército!
                O olhar de Lane então desconstruiu-se, passando da animação para o incrédulo. Afinal, ele encarou Foster, com um olhar interrogativo.
                - Eu estava chegando lá – disse Foster, suspirando.
                - Mas... como? – Lane indagou. – Por que?
                - Lane... – Foster começou a dizer. – Eu fui informada de que o nosso caso não deveria existir. Não é permitido que um relatório seja feito, nem que o caso seja arquivado. É como se nossa investigação nunca existisse.
                Lane caiu em sua cadeira, desanimado e sem saber para onde olhar.
                - Mas... por que?
                - Por que este caso “não pode ir à público”, nas palavras deles.
                - Lane – Cruzi disse. – Nós sabemos, tanto quanto você, que esta é uma descoberta científica magnífica e gigantesca, mas... nós realmente sabemos muito pouco sobre esse alien. O fato de que era um ser vivo feito de Francóssito, uma substância extraterrestre, é suficientemente acusador, mas mais pesquisas são necessárias.
                - E o exército será responsável por essas pesquisas – concluiu Lane.
                Ele se levantou, e, irritado, deu as costas para os companheiros.
                - Então, eu creio que o exército também dará um jeito de se livrar da nave que encontramos nos túneis e dos corpos dos aliens. – disse ele.
                - Sim – Foster respondeu -, tudo será levado como material de pesquisa.
                - Inacreditável... Então, será como se anda disso tivesse existido.
                - Essa é a intenção – Carter disse, também desanimado.
                Foster então sacou um outro envelope de papéis, e disse:
                - Ainda assim, foram encontrados cerca de setenta corpos nos túneis. No entanto, os desaparecimentos naquela área, próximo à obra, chegam a quase cento e cinquenta... então, o número de vítimas pode ser muito maior...
                - Bem, acho que isso não importa agora – Lane resmungou -, já que o caso não é nosso.
                - Ei – Foster disse, se aproximando. – Pelo menos, o caso foi resolvido, não importa por quem. As mortes acabaram, ninguém mais vai se ferir. E você me prometeu que relaxaria...
                - É, eu acho que sim. – Mas o muxoxo de Lane deixava claro que ele não estava satisfeito.
                - Vamos lá, sente-se em sua cadeira. E destrua o relatório, enquanto o exército ainda não sabe da existência dele. Senão, vão querer começar um processo imenso para averiguar que não há nenhuma evidência da existência do caso...
                - É, certo – disse Lane, e se afastou do escritório, dirigindo-se ao elevador. Ele apertou o botão para o térreo, onde ficava o incinerador, e pretendia realmente destruir o relatório. Mas, enquanto o elevador descia, ele pensava. Realmente, não era justo que acabasse assim. O trabalho fora dele. A descoberta fora dele.
                Pensava de tal modo que, quando chegou ao térreo, simplesmente escondeu o relatório no blazer de seu terno, e apertou o botão para subir de volta ao escritório da divisão Titãs. E enquanto subia, ele pensava. Exatamente como o alien falou que ele fazia, Lane pensava.

Algum lugar na estrada, horário e dia desconhecidos

                Os soldados do exército geralmente não sabiam o que transportavam em seus comboios. Geralmente, eles simplesmente dirigiam, seja qual for o destino. Daquela vez, não era diferente. Ou talvez fosse: ninguém poderia saber o que havia no comboio. Se soubessem, causaria uma bagunça entre a comunidade científica.
                Mas os próprios soldados já não ligavam muito para o que transportavam. E mesmo se ligassem, não saberiam o que a palavra “Francóssito” significava. E mesmo se por um acaso soubessem, jamais pensariam que estavam transportando restos mortais de aliens. O talvez nem tão mortais assim... seria uma pena se algum dos aliens não estivesse morto... na verdade, seria uma pena se vários aliens continuassem vivos. Talvez, teria sido melhor tê-los deixado onde estavam... talvez, o exército nunca devesse ter se intrometido na investigação.
                Mas bem, como o caso agora estava sobre a jurisdição deles, não era realmente um problema da divisão Titãs, não é?
Reações: