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Deus Salve A Rainha

                ANTERIORMENTE
                Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, o agente investigou o caso da cidade de Chagas, em que uma onda de radiação afetou todos os habitantes, transformando-os em sanguinolentas criaturas. O caso não foi resolvido, mas, como agente Cruzi desconfia, não pode ter sido apenas um incidente isolado... aquele era apenas o começo.
1

19 de setembro, 5h40

                Os trajes oficiais de William Anderson caíam, enquanto ele vestia seus jeans e jaqueta habituais.
                O dia de trabalho havia sido exaustivo, mas não tanto quanto poderia ser. Bater perna numa missão mais ou menos infiltrada podia ser cansativo, mas ao menos não teve de usar sua arma, muito menos levantar a voz. Dia comum, até. Sem riscos, sem problemas. E tudo o que ele tinha seriam pouco mais de doze horas de descanso, antes que tivesse de voltar para o trabalho, às 18h.
                Não era seu trabalho idealizado, seu sonho de consumo. Mas ele também não poderia reclamar de que não estava na direção certa. Não era nenhum novato, não precisava de ninguém constantemente lhe lembrando que não se chega ao topo da noite pro dia. Um dia, depois de árduo trabalho, seria promovido, certamente. Quem sabe, não fosse transferido para uma divisão menos exploradora da Guarda Nacional? Quem sabe, não acabasse como Tenente ou Coronel? Bastava trabalhar duro, era só isso, e seria reconhecido.
                Como não era do tipo que perdia tempo com aparências, estava pronto em pouco mais de cinco minutos. Hora de ir para casa. Despediu-se de um ou dois colegas que saíam no mesmo horário, cumprimentou Jones, que chegava para substituir seu turno, e saiu do quartel o mais discretamente possível – em sua missão, não poderia ser reconhecido como policial. Como sempre era instruído, deu três ou quatro voltas em quarteirões próximos ao quartel, parou numa padaria para comprar jornal (por mais que notícias não lhe interessassem realmente, o que implicava que o mesmo jornal que comprava todas as manhãs iria parar no lixo), antes de por fim seguir caminho até seu carro; mas mesmo assim, uma vez dentro de seu automóvel, teria de seguir um caminho diferente e criativo toda noite, para que algum possível observador não identificasse quem era.
                Depois de tudo isso feito, William, entediado, só conseguia pensar em seu carro. Mas, na ruela em que havia estacionado naquela noite, ele não viu somente seu pequeno e ultrapassado Sedan...
                (coloque para tocar a música: “Dead Silence Theme Music”, Charlie Clouser)
                A mulher estava próxima à um poste, mas somente vislumbres de sua figura poderiam ser vistos na luz. Ela se debatia, de pé, e gemia alto, falando algo ininteligível... Poucos segundos depois, William identificou um sotaque em sua voz. Não só isso, como uma sombra a envolvia... Outra pessoa estava atacando-a.
                - Ei! – William gritou, e no momento seguinte se arrependeu. Se efetuasse a prisão, atrairia atenção para si mesmo... e provavelmente, teria de sair daquela divisão que trabalhava infiltrada... Já tendo cometido o erro, decidiu, pelo menos, terminar aquilo ao salvar a mulher. Sacou o revolver, repetindo: - Ei! Pare aí!
                William correu, sem ousar atirar, se aproximando cada vez mais da vítima e do atacante... e repetiu:
                - Ei! Pare! Esta é uma ordem!
                Mas tanto mulher quanto homem pareciam ignorá-lo.
                - Senhor! Eu não vou repetir mais uma vez...
                Então, o homem mudou de alvo: William foi acertado por um soco no estomago, e, quando se deu conta, o criminoso estava montado sobre seu corpo caído. William, no entanto, não era nada mal quando o assunto era defesa pessoal, e, em poucos segundos, havia dominado o assaltante. Pondo-se de pé novamente, apontando a arma para o homem, a fim de mantê-lo dominado, ele disse, voltando-se para a mulher:
                - A senhora está b...
                No entanto, não concluiu a pergunta: a mulher havia sacado algum tipo de spray, pulverizando algo contra William. Ele imediatamente gritou, e deu um passo para trás, derrubando a arma... enquanto ouvia os passos de duas pessoas se afastando. A mulher e o homem fugiam dele...
                - Esperem! – ele disse, de olhos fechados. – O que está... Ei! Ei!
                Ele não ousava abrir os olhos, mas sentia um cheiro estranho... floral, quase...
                Quando seu nariz começou a arder, não aguentou a curiosidade, abrindo os olhos: estava envolto numa pura camada de fumaça amarelada...
                - Ei! – uma senhora gritou, e logo pôs a cabeça para fora da janela de seu apartamento. – Que gritaria é essa aí embaixo?
                William se voltou para ela, disposto a responder... mas, no momento seguinte, as palavras ficaram presas em sua garganta. Depois de tossir três ou quatro vezes, seu corpo se contorceu, e ele vomitou sobre os próprios sapatos. A senhora continuava a gritar algo, mas ele não ouvia... ele não...
                Argh!, gritou ele, ou pensou ter gritado. Seus gemidos não faziam sentido...
                Havia algo... algo dentro dele... crescendo...
                Argh! Parecia... rasgar...
                Argh! Argh! Argh!
                William já não respirava direito... ele não sabia o que estava acontecendo, enquanto caía no chão...
                Mas a senhora sabia. Ela, horrorizada, gritava, enquanto observava um grande espinho, maior do que lâmina de uma espada, brotar de dentro pra fora do peito do oficial. Não somente isso, como espinhos maiores brotaram da boca e dos olhos, enquanto outros deformaram o peito de William e deceparam as pernas. Os braços se tornaram massas vermelhas, enquanto espinhos de cinco a dez centímetros brotavam como pelos.
                E, afinal, ele caiu, contorcendo-se e sangrando, mas demorou muitos momentos de dor antes que pudesse finalmente morrer. E muitos momentos de horror antes que os gritos da senhora, a única testemunha, calassem o silêncio da noite.

2

Rua do acidente, 8h40
               
                Diversos carros de policiais haviam cercado a rua, impedindo curiosos de se aproximarem muito mais. Uma lona azul cobria o corpo da vítima, mas nem mesmo esta conseguia impedir que a parte mais macabra da morte fosse mostrada: os espinhos haviam rasgado o tecido, e, mesmo que a lona fosse impermeável, a quantidade de sangue era tão grande que manchas vermelhas dividiam espaço com o azul.
                A multidão era tão grande que a agente Cruzi teve de estacionar seu esportivo em outra rua. Quando os quatro agentes desceram, instantaneamente se apresentaram como oficiais da divisão Titãs, e era óbvio que o caso estava sob jurisdição da mesma. Ao passarem pela faixa amarela que continha os curiosos, Cruzi avançou diretamente para um alto senhor de óculos – não redondos como os de Lane, mas quadrados e sérios, como que para contribuir com a carranca e a expressão de desagrado do senhor.
                - Senhor – Cruzi se apresentou.
                - Agente Cruzi, Lane e Foster – o homem falou, parecendo entediado. A voz grossa e pouco atraente deixava claro que fumava. – E quem é este?
                - Agente Carter, senhor – Cruzi respondeu. – Carter, este é o diretor de nossa divisão, Marco Noah.
                - Prazer em conhecê-lo – Carter disse, estendendo a mão.
                - Não deveria ter – O homem respondeu, e então deu as costas e seguiu em frente, deixando Carter com a mão abanando o ar.  Esta era a deixa para os agentes seguirem-no.
                - Então, qual o caso? – Cruzi perguntou, enquanto os cinco caminhavam entre os diversos outros agentes e testemunhas, além de todos os equipamentos necessários para uma pesquisa de campo.
                - Por volta das 5h50 da noite, aquela senhora ouviu uma gritaria na rua. Ela abriu a janela para ver o que era e encontrou um homem envolto de fumaça amarela.
                - Fumaça amarela?
                - Desconfiamos que seja algum tipo de reagente químico, provavelmente a causa da morte.
                - E tem motivos para esta desconfiança, senhor?
                Eles haviam chegado agora bem perto do corpo, e Cruzi, vendo o que tinha à sua frente, arrependeu-se de ter feito a pergunta.
                - Veja por você mesma – disse Noah, removendo a lona já muito rasgada.
                O corpo estava num estado pior do que aquele da hora da morte: agora, além de espinhos, insetos e abelhas se aproximavam. Formigas formavam uma pequena multidão ao redor do sangue, que brilhava estranhamente...
                - Que cheiro é este? – Foster perguntou, enojada.
                - Rosas e sangue – Noah respondeu. – Creio eu que o motivo desse cheiro é autoexplicativo.
                Dizendo isso, deu as costas e partiu.
                - Lane?
                - Claro, claro – o agente respondeu. – Ah! Isto vai ser divertido...
                Depois de calçar suas luvas, a primeira coisa que fez foi tocar num dos espinhos, que permanecia coberto de sangue.
                - Isto é...
                - Planta? – Foster completou. – Sim, nós sabemos.
                - Mas olhe o tamanho deles... – disse ele. – Os espinhos são somente uma parte de uma planta, e nenhuma planta deveria ter espinhos tão grandes... além disso, plantas são compostas de diversas outras partes, como caule, sementes ou pólen, e eu não vejo nenhuma delas aqui. São puramente espinhos, e não parecem ter surgido de lugar nenhum...
                - É para descobrir isto que estamos aqui – lembrou-lhe Cruzi, mas Lane a ignorou.
                - Tem mais algo estranho... – disse o doutor. Ele então passou seu dedo indicador, devidamente coberto pela luva, numa das grandes poças de sangue que haviam se formado. Então, cheirou a luva manchada de sangue, virando-se para Carter e dizendo: - Lamba isto.
                - Mas que p...?
                - Lamba, prove, eu preciso de uma ajuda.
                - Não, cara! Que merda, por que não lambe v...
                - O sangue – disse Foster. – Está brilhando de modo estranho...
                - Sim – Lane confirmou. – Está sim...
                Foster então lentamente se aproximou, e, hesitante, olhando duas vezes para Lane antes de fazer, cheirou o sangue. Ela sentiu o típico odor de ferro e sal, mas sentiu outra coisa...
                - Açúcar? – perguntou ela. – O sangue deste homem tem açúcar?
                - Não, açúcar é um adoçante comercial – Lane disse – Acho que o que estamos vendo aqui é glicose. O sangue de pessoas comuns obviamente não tem glicose em excesso, como o desse homem... mas o sangue de pessoas diabéticas, tem.
                - Ele era diabético, então?
                - Não sei. – disse Lane. – E, para falar a verdade, duvido muito que tenha sido. Você está ciente de que plantas fazem fotossíntese, certo? Este é o processo que transforma gás carbônico em oxigênio. E, nesse processo, glicose é produzida. É claro que é só um palpite, não sabemos muito sobre este homem...
                - Para falar a verdade – Carter interrompeu. – Quem é este homem?
                - Eu acho que sei – disse Cruzi, se agachando junto ao corpo. Depois de observar por alguns segundos, disse a Lane: - Veja os bolsos.
                O doutor obedeceu, mas não encontrou nada. Cruzi falou novamente:
                - Então veja dentro da calça.
                Lane obedeceu, mesmo com tantos espinhos no caminho. Depois de alguns segundos de dificuldade e de três ou quatro espinhos quebrados, ele tirou as mãos da calça da vítima, e carregava algo...
                - Um distintivo – Carter percebeu. – Como...
                - A jaqueta dele – a agente respondeu. – Parece normal, mas é à prova de balas. Agentes infiltrados recebem jaquetas assim para que possam se passar por pessoas normais, ao mesmo tempo que estejam protegidos para qualquer ocasião. Já o distintivo, eu somente desconfio... – disse ela, abrindo a pequena carteira que acompanhava o distintivo, e depois mostrando a mesma para seus parceiros. – Na mosca: este homem trabalha infiltrado, mas não para qualquer um...
                - Ele trabalha...
                - No esquadrão oficial de proteção à Rainha. Ele fazia parte do pequeno exército para proteção pessoal da Rainha em pessoa.
                Entregando a prova nas mãos de Lane, Cruzi voltou-se para a senhora que havia visto a transformação, a única testemunha. Mas não foi isto o que chamou sua atenção: um homem vinha em sua direção, passando diretamente por todos os outros policiais. Não era necessário que ele se identificasse: sua farda do exército era o suficiente. Não somente isso, como o grande “R” em seu peito, deixavam claro a que esquadrão ele pertencia...
                - A senhora é a agente Mila Cruzi? – o soldado perguntou, ao chegar perto o suficiente.
                - Sim – respondeu Cruzi. – E o senhor, quem seria?
                - Soldado Guilherme Son. Faço parte...
                - Da esquadra da Rainha, assim como este homem. – Cruzi completou. – E vou chutar dizendo que sua visita não é uma coincidência.
                - Não – O soldado concordou, ficando em silêncio logo depois.
                - Você conhece esse homem? – Cruzi continuou, apontando para o corpo.
                O soldado ficou longos segundos em silêncio, examinando cada espinho e olhando para as grandes deformações do cadáver, antes de responder:
                - Não. E mesmo se conhecesse, acho que não conseguiria identificar. Mas não é para isto que vim aqui. – Refazendo sua pose de sentido, o soldado continuou: - Queira me acompanhar, agente Cruzi.
                - Sob qual pretexto?
                - A Rainha deseja lhe ver. – disse o soldado, tão friamente quanto todas suas outras palavras.
                - A Rainha?! -  os outros três agentes disseram em uníssono, mas Cruzi simplesmente respondeu:
                - Vou chutar dizendo que isso também não é uma coincidência.
                - Não – O soldado concordou novamente, dando as costas e esperando que a agente o seguisse.

Paço Imperial, 10h

                Demorou trinta minutos após Cruzi ter chegado à moradia da Rainha para a própria lhe receber. Quando lhe foi instruído que subisse até a sala de reuniões da monarca, ela foi acompanhada até o respectivo andar do Paço Imperial, e a partir dali foi deixada para seguir sozinha. A sala, mesmo do lado de fora, seria inconfundível: sua porta era a maior e mais reluzente do corredor. Ela seguiu seu caminho, mas parou ao ouvir os sussurros:
                - Não podemos deixar que continue assim! Você ouviu os boatos! Temos que revidar...
                Eram dois soldados que discutiam, do outro lado do corredor. Cruzi olhou-os de longe, e os soldados fizeram o mesmo com ela, antes dos dois decidirem ir para um lugar mais reservado.
                Cruzi voltou-se para a porta da sala de reuniões, sem se importar com o que os soldados haviam dito.
                (coloque para tocar a música: “The Equation”, Fringe OST)
                Ela aprendera na academia como deveria se dirigir à Rainha, caso fosse convidada a reunir-se com ela no Paço: deveria abrir as grandes portas duplas da sala de uma só vez, nem muito devagar, nem muito rapidamente. Ela assim o fez, e, vendo-se dentro da sala, não permitiu-se admirar a beleza e riqueza do ambiente: tinha que cumprimentar a Rainha, mantendo contato visual. Lá estava a senhora, sentada, como uma dama, em seu sofá branquíssimo, enquanto Cruzi se curvava, pondo-se de joelhos.
                - Vossa Majestade, Altíssima Excelência.
                A Rainha assentiu, com um sorriso, e Cruzi viu a deixa para levantar-se e fechar a porta.
                O nome real dela mal era dito na mídia; figurava apenas os livros de história. Mas o sobrenome sempre acompanhava sua colocação: ela era a Rainha Valença. Seu reinado era longo, mas não havia como comparar com o reinado de outras monarcas, que haviam vivido setenta a oitenta anos no trono. Valença ainda era uma Rainha jovem: mal passara dos cinquenta anos. Seus cabelos, apesar de completamente grisalhos, haviam perdido a cor faz pouquíssimo tempo; Cruzi lembrava de ver a cabeleira lisa e ruiva da Rainha nos Desfiles Reais que se faziam anualmente, na época em que era criança. Na época, muitos dos artefatos do mundo Antes da Terceira Grande Guerra continuavam perdidos; dentre estes artefatos, estavam as câmeras fotográficas coloridas e a TV à cores. Ambas tecnologias haviam sido recriadas e repopularizadas nos últimos dez anos, mas aí os cabelos da Rainha já haviam perdido a cor.
                - Agente Cruzi – A Rainha disse, com sua voz doce e perfeita, cujo timbre fora trabalhado por toda sua vida para ser lindo desse jeito. – É um prazer recebe-la.
                - O prazer é todo meu, Vossa Majestade – respondeu a agente, agora sempre mantendo a cabeça baixa. Desse modo, ela não pôde ver o que a Rainha fazia, senão ouvir o barulho de vidro cintilante vindo da mesinha que ficava de frente ao sofá.
                - Diga-me, cara agente – A Rainha continuou. – Você tomou café da manhã?
                Cruzi, surpresa, levantou os olhos. A Rainha continuava sentada, porém, agora estava curvada sobre a mesa, derramando café numa das xícaras. Acabado o ritual, ocupou-se com misturar açúcar ao líquido negro.
                - Perdão, Vossa Alteza?
                - A senhorita me ouviu, você tomou café da manhã?
                Desnorteada, Cruzi engasgou-se com as palavras. A Rainha sorria, levando a xícara de café quentíssimo aos lábios, sem porém expressar nenhuma dor.
                - Eu... – Cruzi tentou dizer. – Eu não tive a possibilidade, Vossa Alteza. O caso ocorreu tão cedo que tive de vir direto para o trabalho, para não comprometer o cadáver da vítima...
                - Oh, sim, sim, o caso – disse a Rainha. – Ora, deixe de bobagens, não vamos falar destes assuntos viscerais num momento de descontração! Sente-se, sente-se, não é correto deixar uma agente da divisão Titãs com fome!
                Cruzi obedeceu imediatamente, porém, sem esboçar nenhuma reação. Se fosse permitido que o fizesse, estaria confusa. Onde a Rainha queria chegar?
                Servindo a agente de uma xícara, a Rainha disse:
                - Antes de mais nada, gostaria de parabeniza-la pelo fantástico trabalho na cidade de Chagas. A nação inteira agradece por seus feitos.
                Cruzi não sabia se ela estava sendo sarcástica ou não. Mas, no momento seguinte, percebeu com quem estava falando: uma rainha não deve tolerar brincadeiras, nem envolver-se com a plebe. Deve manter-se superior, e relações devem ser estritos negócios.
                - Senhora – Cruzi disse, largando a xícara de café depois de um gole. Estava intensamente quente, e ainda assim lá estava a Rainha, bebendo como se não fosse nada demais. Como ela conseguia suportar a dor? – Eu sinto lhe informar, mas o caso ainda não foi resolvido. E este não é um dos casos que a divisão Titãs mais se orgulha. Eu sinto dizer, mas, mesmo depois da morte de milhares de pessoas, não sabemos por onde prosseguir.
                - Não diga bobagens, senhorita – A Rainha tratou de discordar. – As mortes foram... fatalidades, impossível negar, mas de forma alguma devemos desconsiderar que o evento foi interrompido. Vocês identificaram a radiação a tempo de impedir que a mesma vasasse para fora da cidade. Proteger a vida de inocentes já é vitória o suficiente para os membros da divisão Titãs.
                - Bem, não são tantos membros a se sentirem vitoriosos – Cruzi retrucou, porém muito educada. – Somos só três... quatro agora. Não é como se a divisão recebesse o maior apoio...
                Cruzi logo se arrependeria do que havia dito, não fosse a atitude da Rainha. A monarca olhou nos olhos da agente, e pousou sua xícara sobre a mesinha à sua frente. Inexpressiva, ela pareceu pensativa, antes de voltar-se para Cruzi, com os olhos muito mais sérios do que quando oferecera café.
                - Governar um Império como o Brasil não é fácil – disse ela. – Somos, junto com os Impérios Unidos, ou Estados Unidos, e alguns países da Europa, os únicos Impérios que não se fragmentaram com o passar do tempo. Nosso território continua sendo o mesmo que era na época da Terceira Grande Guerra. Mas esta estabilidade não veio sem conflitos, e é dever do monarca apaziguar esses conflitos. E, como já disse, não é fácil... 29 Distritos é um território gigantesco, mas de longe, o mais difícil de se governar é o Distrito Imperial – o nosso Distrito, onde eu e você moramos, onde este Paço e o prédio da Guarda Nacional estão localizados. É meu dever tornar a população o mais feliz possível... e o mais segura possível. É meu dever governar social, econômica e politicamente.
                A Rainha então se levantou e dirigiu-se à janela, encarando a paisagem.
                - Mas, como vê – ela continuou -, não posso agradar todo mundo. Estou correndo risco tremendo somente por estar aqui, parada diante da janela, pois pode haver algum inimigo do estado parado num dos prédios com uma arma sniper, pronto para estourar minha cabeça. Um dos prazeres da vida de ser Rainha. – Ela suspirou, antes de voltar-se novamente à Cruzi. – Por favor, não quero que pense que estou tomando seu tempo apenas para meus devaneios. Acho que devo ir direto ao ponto: a divisão Titãs.
                “Não posso dizer que estou tendo a maior diversão quando o assunto é sua divisão, agente Cruzi. Eu acredito em seu trabalho, mas nem todos são como eu. Alguns creem que investigar o sobrenatural é pseudo-investigação; alguns acreditam que vocês não investigam coisa alguma, apenas fingem investigar. Tais acusações são absurdas, sabemos, pois há diversas provas da existência da ciência sobrenatural. Mas, mesmo carregando tanta história, a humanidade ainda tem dificuldade de acreditar em algo que não entende.
                “Mas deixe-me afirmar novamente: eu acredito em seu trabalho. Não é a toa que a divisão Titãs é considerada uma das bases da Guarda Nacional: mesmo havendo divisões para investigar assassinatos comuns ou atentados contra o país, nenhuma sabe lidar com as emergentes ameaças que os Titãs enfrentam. Mas eu devo respeitar a democracia, e os votos não estão a favor desta divisão: creio que não sejam novidade as inúmeras tentativas legais de fechá-la de vez.”
                Ela suspirou, e aproximou-se a passos silenciosos do sofá, sentando-se novamente. Em nenhum momento deixava de encarar nos olhos de Cruzi.
                - Eu venho segurando as pontas, controlando as rédeas para manter sua divisão aberta faz muito tempo... – Pausa. – Por que eu sei que o dia em que os Titãs serão finalmente reconhecidos está para chegar, e não vai demorar muito... A nação precisa estar unida, e esta pequena divisão de quatro pessoas é o que completa a Guarda Nacional... é o que vai completa-la, quando for chegada a hora. Não negue, agente Cruzi, que a senhorita tem visto grandes coisas até agora. E esta experiência será recompensada num futuro próximo... – A Rainha completou com uma pausa, antes de pronunciar muito calmamente: - Tanto será recompensada quanto será necessária.

                Não muito longe dali, ficava uma das estradas principais do Distrito Imperial. A mesma se subdividia em inúmeras avenidas, ruas e ruelas residenciais, e, num dessas últimas, um carro estava estacionado. Era no mínimo estranho, considerando o tamanho soberbo do veículo – era um carro de luxo, com alta suspensão e provavelmente blindado, caríssimo. Era coisa rara ver um modelo desses naquela região da cidade, já que aquela era comumente tida como uma das áreas mais pobres do Distrito. Dentro dele, dois homens estavam parados. Não conversavam, mal se entreolhavam. Mantinham-se sérios e inexpressivos, olhando para além do retrovisor...
                Até que o homem de jaqueta surgiu na esquina. Era facilmente reconhecido, já que a jaqueta propriamente dita podia ser identificada como à prova de balas. Um dos homens dentro do carro disse algo, mas não era o claro português: era um idioma completamente diferente. Mas o outro homem do carro parecia entender claramente, de tal forma que deu partida no carro. Segundos depois, o modelo de luxo estava passando lentamente ao lado do homem de jaqueta... a janela foi abaixada, e um dos homens do carro pulverizou o conteúdo de um spray no rosto do homem de jaqueta.
                - Arrrgh! – disse a vítima. – Mas... Mas que merda, cara! Ah, EI! EI, VOCÊ AÍ!
                Mas o carro já estava em alta velocidade, indo para longe... enquanto uma fumaça amarelada envolvia o oficial da Guarda da Rainha, que ainda estava desnorteado, sem saber do terror exorbitante que sentiria, alguns segundos depois.

3

                De volta ao Paço Imperial, a Rainha pegou a grande placa de metal que estava pousada em cima da mesa. Aquele era um aparelho de alta tecnologia, usado principalmente pelo governo; algumas pessoas ricas também podiam se dar o luxo de ter tal artefato. A placa de metal era um reprodutor de imagem, mas não somente isso: ele criava hologramas nítidos, em alta definição. Como tal, com um toque, a imagem que a Rainha desejava ser mostrada foi criada: uma ficha da Guarda Nacional.
                - O homem que vocês encontraram morto é William Anderson – disse a Rainha, séria, passando a placa de metal holográfica para que Cruzi pudesse ver melhor. – Esta é a ficha dele. Creio que sua divisão já tenha descoberto que ele era um dos meus soldados, para garantir minha segurança. É um fato um pouco óbvio, mas ainda assim, poucos sabem que alguns desses soldados trabalham infiltrados, disfarçados como cidadãos normais, a fim de não atrair tanta atenção. Agente Cruzi, eu chamei-a aqui principalmente por que acho que posso conferir algumas informações de importância ao caso...
                Cruzi tirou os olhos do holograma, encarando a Rainha.
                - Quando eu soube que o caso da morte do soldado Anderson havia caído sob a jurisdição da divisão Titãs, fiquei intrigada – disse a Rainha. – Mas então, fui informada das... circunstâncias da morte. Não posso dizer que não estou chocada... mas não posso dizer que esse choque se resume somente à morte do soldado.
                - O que quer dizer?
                A Rainha Valença tomou a placa holográfica em suas mãos novamente, e, com um clique, criou diversas imagens: diversas fotos e anotações de cadáveres comuns, mortos por tiros, facadas ou atropelamentos. Nenhum parecia ligeiramente sobrenatural.
                - Todos esses mortos eram soldados de minha guarda pessoal. – disse a Rainha. – E todos foram mortos por armas comuns, caindo sob a jurisdição de investigações de assassinato comuns. É ilógico pensar que não há uma ligação entre essas mortes... é óbvio que a mesma pessoa, ou mesmas pessoas, estão detrás de cada um desses assassinatos. Mas agora, com a morte de Anderson... temo que os assassinos estejam mais sofisticados. Creio eu que, agora, eles tem acesso à uma tecnologia desconhecida... e, justamente por não a conhecermos, pode ser imensamente perigosa para todos nós.
                “Tem mais uma coisa que devo mostrar-lhe.”
                Os hologramas todos desapareceram, dando lugar à uma nova imagem: era uma gravação em baixa qualidade.
                - Eu consegui muito rapidamente ter acesso às fitas das câmeras de segurança da rua onde ocorreu o assassinato – continuou a Rainha -, e consegui estas imagens.
                A gravação era pouco nítida, talvez por que o assassinato havia ocorrido às 5h50 da manhã, quando as únicas luzes presentes eram as dos postes elétricos. Ainda assim, era possível ver claramente a briga entre um homem e uma mulher, e um segundo homem – o soldado Anderson – chegando para separar a briga. No entanto, depois de dominar o outro homem, a mulher borrifou algo em seu rosto – era impossível de se ver o que era, mas Cruzi logo desconfiou que era a fumaça amarelada  de que a testemunha havia falado. Logo depois, tanto o homem quanto a mulher fugiram deixando Anderson tonto e sozinho na rua... segundos depois, os espinhos irromperam de seu corpo, matando-o.
                - Alguém armou para ele... – Cruzi concluiu.
                - Sim – disse a Rainha. – Não duvido que tenha sido planejado. Apesar dos cuidados que meus soldados são obrigados a ter... alguém claramente estava observando sua rotina. Alguém muito, muito cuidadoso e profissional.
                O celular de Cruzi tocou. A agente, depois de pedir licença, atendeu a ligação, e, pouco depois de desligar, disse:
                - Perdão, Vossa Alteza, mas tenho que ir. Houve outra morte.
                - Obviamente – disse a Rainha, friamente. – Já eu, tenho que me preparar para o discurso público do canal quatro hoje. Não se surpreenda se não tiver ouvido falar, são realmente só os convidados que sabem, era para ser surpresa! – A Rainha, surpreendentemente, riu, mas logo depois recuperou a seriedade. – Agente Cruzi, confio que irá solucionar esse caso antes que mais vidas inocentes sejam perdidas.
                Cruzi assentiu, e já estava saindo pela porta quando a Rainha interrompeu-a:
                - Não quer levar um biscoito?
                A agente voltou-se para a Rainha, que, ainda sentada em seu sofá, oferecia um grande biscoito redondo.
                - Perdão?
                - Oras, café da manhã não é feito de só café. Vamos, leve um biscoito... considere como uma lembrança.
                A agente sorriu educadamente, e aceitou o biscoito. Depois, saindo da sala e fechando a porta, caminhou a passos lentos, sentindo o sorriso falso lentamente se esvair de sua cara, enquanto esmagava o biscoito com uma só mão, reduzindo-o a migalhas que ficariam espalhadas no reluzente piso do Paço Imperial.

Escritório da Divisão Titãs, 14h30

                (coloque para tocar a música: “Was It A Dream”, 30 Seconds To Mars)
                O segundo corpo já havia sido transportado para o escritório da divisão. Cruzi demorou mais do que o devido para chegar ao escritório, passando por engarrafamentos típicos do horário de almoço. Nenhum deles havia melhorado seu estado de ânimo.
                - Oi – disse Carter, quando viu a parceira chegar.
                - Oi – Cruzi disse de volta. – Já temos alguma novidade quanto ao caso?
                - Não. Os dois corpos chegaram quase ao mesmo tempo, então Lane está fazendo as duas autópsias ao mesmo tempo. É bem divertido de se assistir, de um ponto de vista.
                Cruzi assentiu, e seguiu para sua própria mesinha, sentando-se, sem se preocupar em disfarçar seu desconforto.
                - Ei – Carter chamou. – Tem algo errado? Como foi a reunião com a Rainha?
                - Empolgante – respondeu Cruzi, seca. – Creio que ela enviou a vocês as mesmas informações que apresentou a mim. Que estes assassinatos não estão ocorrendo por acaso, que diversos outros soldados foram mortos... o de sempre.
                Então, ela se largou na cadeira novamente, suspirando. Carter sentou-se a seu lado.
                - Certo, eu vou perguntar mais uma vez – disse ele. – Há algo errado?
                Cruzi soltou uma risada seca, dizendo:
                - É só que... é inacreditável – Ela apoiou o queixo numa das mãos, num sinal de indignação.
                Então, ela contou a Carter tudo o que a Rainha havia lhe dito: como a monarca defendia a divisão Titãs, mas ainda assim não podia apoiar os agentes completamente; como havia pressões externas para que a divisão fosse fechada; como a Rainha era a mocinha da história, acreditando que grandes atos ainda seriam cometidos pelos agentes.
                - Tudo isso foi uma imensa perda de tempo – Cruzi completou. – Eu não sou idiota, não sou mesmo. Se ela acha que pode me enganar...
                - Por que ela tentaria te enganar, Cruzi? – Carter interrompeu-a. – O que, você não acredita que a Rainha esteja sendo pressionada a fechar a divisão? Eu estou aqui há somente uma semana, Cruzi, e já escuto muitas coisas a meu respeito que ninguém ousaria falar antes...
                - Ah, nisso eu acredito perfeitamente. Mais cedo ou mais tarde, talvez alguém acabe mesmo por fechar este escritório – Cruzi respondeu, pessimista. – Mas, me perdoe, o que eu não consigo acreditar é como a Rainha pode ser tão filha da mãe a ponto de achar que vinte minutos de conversa fiada sobre como ela é a coitadinha incompreendida defensora dos fracos e reprimidos iriam me convencer sobre quem é o mocinho desta história.
                Carter largou suas costas na cadeira também, com as sobrancelhas arqueadas e pronto para ouvir. Cruzi continuou:
                - Quer dizer, olhe com quem estamos lidando! É a Rainha, pelo amor de Deus. Se ela quisesse algo feito, estaria feito.
                - Olhe, a meu ver, eu acho que ela tem um álibi muito bom. Ela não pode simplesmente ignorar o fato de que a divisão Titãs é muitíssimo mal vista. Ela não pode arriscar seu mandato fazendo algo que contraria a vontade da maior parte da Guarda Nacional...
                - Exatamente! – Cruzi exclamou. – O interessante é como ela não pode arriscar seu mandato, mesmo a divisão Titãs sendo tão importante, e tão destinada a grandes coisas!... – Ela suspirou. – Carter, nós vivemos em monarquia. Ela é a monarca. Não fomos nós que decidimos que ela governaria. Ela herdou o trono de seu pai. Nós não decidimos nada, nunca. Tudo o que podemos fazer é esperar que a Rainha aja dentro da lei, sendo justa para todos... mas é ingenuidade pensar que ela faz isso o tempo todo.
                - Mas e se ela agir?
                - Carter...
                - Você já parou para pensar? Eu não estou feliz com as coisas que dizem do trabalho da divisão, mas ingenuidade é esperar que a Rainha arrisque tudo o que tem por causa de quatro agentes – Carter fez uma pausa, e bufou. – Não é justo, não é nem um pouco justo, mas não podemos esperar que o mundo vá parar por causa de nós. Não podemos esperar que a Rainha esteja certa, que a divisão vai ser importante algum dia. Temos só... que fazer nosso trabalho. Salvar o mundo, coisas do tipo. Botar o salário em nossa conta. Se você pensar bem, não somos a única divisão que desagrada alguém, então por que deveríamos ser a única divisão a se sentir ofendida por isso?
                Cruzi meneava a cabeça em negativa, sem olhar para Carter. O agente, depois de alguns segundos de silêncio, disse:
                - Cruzi... – Ele parou, e recomeçou: - Mila...
                A agente Cruzi então voltou o olhar para ele; Carter havia recuperado sua atenção:
                - Você honestamente nunca considerou a possibilidade de a Rainha estar do nosso lado?
                Cruzi engoliu em seco, antes de responder:
                - Aquele não é o lugar dela, Carter. Aquele trono. O papai dela morreu e ela ganhou o trono. Isso é bárbaro, é coisa da Idade Média, é... ultrapassado, antidemocrático. Depois de tanto sofrimento, tantas guerras, nós estamos finalmente em direção à paz e à ordem, mas isto nunca vai acontecer enquanto o povo não levantar a voz, não escolher seus governantes... a escolha por si só seria um grito de liberdade.
                - Sim, mas não é isto o que eu estou falando – disse Carter. – Você realmente nunca pensou que talvez a Rainha estivesse falando a verdade?
                Cruzi suspirou.
                - As pessoas não costumam falar a verdade para mim.
                - Sim, mas isto numa sala de interrogatório. E na vida real, Cruzi?
                A agente voltou-se para Carter, olhando-o pensativa. Foi a vez do agente suspirar, antes de completar dizendo:
                - Olhe, eu te conheço há somente uma semana, e da última vez que tentei julgá-la eu te chamei de sociopata, e estou incrivelmente arrependido de ter feito isso. Mas você não acha que às vezes... talvez... você viva nessa ideia de que todos estão contra você? Você já tentou ao menos confiar em alguém?
                Ela não pôde responder, pois, neste momento, Foster apareceu, falando:
                - Ei, gente... eu acho que vocês precisam ver isto.

                Poucos minutos depois, Lane havia ligado um aparelho de slides, e projetava as imagens.
                - Isto foi o que eu encontrei nos corpos – disse ele, apontando para uma bandeja esterilizada onde dois pequenos objetos amarelos se encontravam. – Essas coisas são feitas de um material parecido com resina, e eu acho que foram ela que causaram a morte destes homens.
                - Como isso é possível? – Carter perguntou.
                - Sente-se e observe os slides – Lane respondeu, mostrando uma imagem de um satélite no espaço sideral. – Como todos sabem, no ano 1745 d.N., os efeitos do aquecimento global se tornaram tão extremos que, se os governos não fizessem algo, a vida no mundo se tornaria impossível. Então, numa reunião da ONU, foi decidido que satélites com placas reflexivas seriam enviadas para o espaço. Isso serviria para impedir que grande parte dos raios solares entrasse na Terra, assim prevenindo o aquecimento. Essa era uma ideia que já era antiga, já era discutida tal coisa desde antes da Terceira Grande Guerra. Mas os satélites fariam algo mais: a tecnologia deles era especialmente feita para estabilizar o clima do planeta em diversas regiões, de tal modo que, em cada uma das quatro estações, há uma temperatura fixa para cada país. Por exemplo, no Brasil, a temperatura de todos os dias do verão sempre será 39ºC, enquanto a temperatura do verão da França sempre será 26ºC. Isso foi um grande avanço na história da humanidade, pois, com a temperatura fixa, não houve mais alterações climáticas, logo, não houveram deslizamentos de terra, enchentes, secas...
                Lane passou a imagem, mostrando gráficos das temperaturas fixas das quatro estações do Brasil.
                - Como estamos em meados de setembro, quer dizer que estamos saindo do inverno e entrando na primavera. A temperatura fixa do inverno, no Brasil, fica entre 18ºC e 22ºC, enquanto da primavera fica entre 35ºC e 38ºC.
                Lane mais uma vez passou o slide, agora mostrando a imagem de um corpo humano.
                - Agora, todos aprendemos em aulas de física o que é temperatura de condensação e temperatura de solidificação. Temperatura de condensação é a temperatura em que um objeto passa do estado gasoso para o estado líquido, como, por exemplo, o vapor vira água. Já a temperatura de solidificação é a temperatura em que o líquido vira sólido, como, por exemplo, a água vira gelo. Minha teoria é a seguinte: esses objetos amarelos que eu retirei do cadáver das vítimas são a mesma coisa que a fumaça amarela de que a testemunha falou, só que sólida: a fumaça, estado gasoso, virou estes objetos, estado sólido. Isso acontece por que hoje, em especial, está fazendo 38ºC desde as 5h da manhã, segundo os satélites. A temperatura do corpo humano é de 36ºC, então, eu acho que essa diferença de 2ºC entre a temperatura do dia e a temperatura do corpo humano foi o que fez esses objetos ficarem sólidos: assim que a fumaça amarela foi respirada pelas vítimas, assim entrando no corpo das mesmas, virou sólido pela mudança de temperatura. E, uma vez em estado sólido, foi o que causou a morte dessas pessoas.
                - Foram esses objetos amarelos que fizeram esses espinhos brotarem do corpo dessas pessoas?
                - Sim... mais ou menos. Eles não são simples objetos amarelos... deixa eu explicar: plantas normais se reproduzem a partir de sementes, ou seja, sementes dão origem a novas plantas. Estes objetos claramente não são sementes... são outro tipo de gameta sexual, responsável por reprodução sexuada...
                - Espere – Foster interrompeu. – Você está querendo me dizer que esses objetos amarelos são sêmen de planta?
                - Basicamente – disse Lane, constrangido. Em seguida, continuou com a palestra: - Seja como for, isto é uma novidade evolutiva. Nenhuma planta conhecida produz... isto. Assim como nenhuma planta conhecida é composta de somente espinhos. Por esse motivo, creio eu que estejamos diante de uma nova espécie, criada em laboratório...
                - ... e essa espécie foi criada com puramente a intenção de servir como arma – Cruzi completou.
                - Exatamente.
                - Mas para que tudo isso? – Foster se perguntou. – Para que tanto trabalho para matar soldados?
                - Não é apenas para matar soldados... – Cruzi pensou alto.
                - Também acho que não, Cruzi – Lane disse. – Isso é claramente um caso de demonstração de poder. Seja quem for que criou essa abominação, com certeza o fez apenas para se mostrar... E não acho que as mortes serão somente de membros da Guarda. Acho que, lentamente, os assassinos estão abrindo caminho, matando os guardas, somente para chegar ao objetivo final...
                - Matar a Rainha – disse Cruzi, numa epifania.
                Nesse momento, o celular de Foster tocou. Depois de atender, ela disse:
                - Mais um membro da guarda oficial da Rainha foi morto, mas, dessa vez, foi com um simples tiro na testa... depois, roubaram a farda dele, o uniforme oficial da guarda da Rainha... Mas por que fariam isso?
                Cruzi levantou-se, perplexa, enquanto tudo se encaixava em sua cabeça:
                - A Rainha irá fazer um discurso surpresa na televisão hoje – disse ela. – O assassino roubou o fardo a fim de se infiltrar na festa desse discurso, e assim, matar todos os presentes... inclusive a Rainha.
                - Então o que estamos esperando? – Carter disse. – Vamos logo!
                E, enquanto desciam os inúmeros andares e entravam em seus veículos, um homem de uniforme do exército entrava no Paço Imperial, no salão de festas. Mas ele não fazia parte do exército... e, se pretendia alguma coisa, com certeza não era proteger a Rainha.

4

                Os agentes chegaram rapidamente ao Paço Imperial, já que agora não havia quase nenhum transito. Na porta, mostraram seus distintivos aos seguranças, e disseram:
                - Temos razões para acreditar que a vida da Rainha está em perigo.
                A frase, por si só, despertou alarde dentre os membros da guarda. Mas a organização foi feita muito rapidamente, e aos agentes foi permitida a entrada. A guarda inteira pôs-se à postos, mas eram os agentes que deveriam encontrar o criminoso.
                Ao chegarem ao salão, Cruzi e os outros demonstraram-se surpreendidos.
                - Eu não acho que um spray vai dar conta de tanta gente.
                Pelo menos trezentas pessoas em trajes de gala transitavam de um lado para o outro. Lane e Carter, ambos trajados do terno que era o uniforme habitual da divisão, poderiam facilmente se misturar ao grupo, mas as mulheres convidadas usavam longos e chamativos vestidos. Cruzi e Foster, ambas de terninho feminino, não iriam passar despercebidas. Além de todas aquelas pessoas, estava o palanque, onde o discurso seria provavelmente feito. As câmeras do canal quatro, posicionadas à distância, para captar o melhor ângulo possível da monarca.
                - A Rainha disse que havia convidados, mas não pensei que seriam tantos – Cruzi disse.
                - Esses assassinatos não ocorreram hoje por acaso – Lane disse. – O assassino provavelmente tinha tudo planejado... ele sabia desta festa, e sabia da quantidade de convidados.
                - Isso muda alguma coisa?
                - Sim, obviamente. Para infectar essa quantidade de convidados, vai ser necessário muita fumaça amarelada... é mais provável que estejamos lidando com um caso de homem-bomba.
                Assim, os quatro se separaram. Os diversos convidados tornavam cada vez mais complicada a identificação do criminoso, mas de uma coisa sabiam: o homem-bomba estaria vestindo o fardo da guarda da Rainha. Caminhando entre os convidados, Carter, Lane e Foster não encontravam nada. Não podiam se comunicar entre si, e se encontravam perdidos entre tantos trajes de luxo...
                Cruzi, por sua vez, havia decidido seguir dentre os corredores anexos do Paço. Seria impossível vasculhar todos os imensos seis andares, então, ela manteve-se no térreo, onde o salão de festas estava localizado. Numa das passagens, havia uma pequena televisão ligada, mostrando a Rainha subindo ao palanque... mas não era isso que chamava sua atenção. No meio da multidão, havia um dos membros fardados da guarda da Rainha... os soldados não deviam ficar dentre a multidão, era proibido: eles deveriam observar tudo de fora, eram as regras...
                Aquele era o assassino.
                (coloque para tocar a música: “Keeping Up With The Jones”, Fringe OST)
                Cruzi correu todo o caminho de volta, já sacando a pistola. Quando viu-se de volta ao salão, procurou e procurou pelo fardado no meio da multidão, mas não o encontrou à primeira vista. Então, arma em punho, decidiu entrar no meio das pessoas, empurrando-as desajeitadamente e apressadamente – a situação era desesperadora.  A Rainha dizia alguma coisa sobre paz e avanço, enquanto Cruzi desbravava a multidão.
                - O mundo caminha para a prosperidade e a paz, e o Brasil, como uma de suas maiores potências, não poderia deixar de acompanhar o ritmo...
                Os convidados, entretidos com o blábláblá político, não pareciam se mover... eram trapalhões, pedras no caminho de Cruzi... não podia-se sequer salvar a Rainha em paz, pelo amor de...
                O soldado no meio da multidão. Estava ali. Dois metros à direita, à mais ou menos três ou quatro pessoas de distância...
                Cruzi levantou a arma.
                - Parado!
                As pessoas no caminho instantaneamente se afastaram, e o soldado voltou-se para ela, perplexo. Os convidados mais distantes, no entanto, não ouviram o grito de Cruzi, pois o microfone da Rainha transmitia seu discurso em um volume muito alto.
                - Mas o que... – O soldado balbuciava.
                - Parado! Guarda Nacional! O senhor está preso por assassinato e atentado à Rainha, tem o direito de permanecer cala...
                A mão do soldado entrou no bolso do fardo...
                - PARADO! – Cruzi gritou novamente. – PARADO! EU NÃO VOU REPETIR! PONHA AS MÃOS ONDE EU POSSA VÊ-LAS!
                - Senhora! – O soldado levantou o tom de voz, quase gritando também.
                - PARADO! EU JÁ DISSE!
                - Senhora, o que pensa que está...?!
                - PARADO! NÃO ME OBRIGUE A ATIRAR, TIRE A MÃO DO BOLS...
                Mas Cruzi voltou-se para o palanque no último momento.
                Havia um soldado detrás da Rainha, como sempre deveria haver.
                Mas o uniforme do soldado estava ao contrário.
                Soldados de verdade nunca usavam uniformes ao contrário.
                Além disso, havia uma estranha deformação na barriga... quase como se houvesse uma bomba escondida ali embaixo...
                E, enquanto a Rainha falava, o soldado de uniforme invertido se aproximava, tirando do bolso um dispositivo que parecia um botão...
                Cruzi atirou.
                O barulho do tiro foi tão ensurdecedor que superou o do microfone. A Rainha pulou de susto, e vários dos convidados gritaram de horror. Logo depois, estavam todos perplexos, e em seguida, em pânico. Os convidados tentavam fugir o mais rapidamente possível, mas Cruzi estava parada, olhando: a Rainha deu meia volta, olhando para o soldado às suas costas, que caía, com um tiro no peito. Cruzi abaixou a arma, enquanto a Rainha olhava para ela. Com um assentir, a monarca agradeceu.
                Olhando ao redor, Cruzi percebeu que todas as câmeras estavam focadas nela.
                Não, ela pensou. Tudo menos isto, não...
                Ela ainda tinha que verificar o suspeito. Não podia se preocupar com as câmeras.
                Cruzi subiu ao palanque, e ajoelhou-se ao lado do suspeito abatido. Ele ainda estava vivo, e não parecia preocupado em morrer. Esboçava um sorriso cruel, contornado por um filete de sangue que escapava de sua boca. Nesta mesma condição, disse:
                - Hail Deutschland... dass die Seelen der Verräter in der Hölle brennen.
                E morreu, ainda com o sorriso no rosto.
               
Escritório da divisão Titãs, 18h40

                (coloque para tocar a música: “Rumplestiltskin in Love”, Once Upon A Time OST)
                Já fazia três horas desde o discurso da Rainha. O rosto de Cruzi estava em todos os noticiários, sendo analisado por profissionais que criticavam a atitude dela, dizendo que, “apesar de ter protegido a Rainha, havia instalado pânico generalizado”. Cruzi mais tarde se referiria a este episódio como “mais um orgulho para a divisão Titãs”.
                - O exército pessoal da Rainha levou o corpo antes que eu pudesse examiná-lo – disse Lane. – Disseram que era o caso passaria para a jurisdição deles, por envolver assassinatos de outros soldados e uma tentativa de assassinato à Rainha.
                - E, no entanto, ainda somos nós que temos que fazer 20 páginas de relatório – reclamou Carter.
                - Sim, mas esta não é a parte mais estranha – continuou Lane. – Nos poucos minutos que eu tive para examinar o corpo, eu não realizei autopsia nenhuma: só olhei o que o soldado tinha nos bolsos, e examinei a bomba. Essa era definitivamente uma bomba estranha... olhe, eu tirei uma foto.
                Ele mostrou a imagem do assassino morto, já despido do traje. Como haviam desconfiado, ele era sim um homem-bomba: um colete envolvia seu torso, e nesse mesmo colete, havia diversos fios coloridos, conectados à um quadrado verde que ficava do lado esquerdo do peito. Em cima desse quadrado, havia um estranho símbolo...
                - Ei – Cruzi exclamou. – Eu conheço este símbolo... Carter, este foi o símbolo que eu vi na cidade de Chagas, naquele aparelho de radiação...
                - Este símbolo? – Carter perguntou, surpreso. – Eu conheço ele. É a suástica invertida, um símbolo do nazismo. Ele foi usado pela Alemanha na Segunda Grande Guerra.
                - Alemanha? – Lane pensava alto. - Vocês acham que são os alemães por trás disso? Mas isso não faz sentido, Brasil e Alemanha mantêm relações políticas e comerciais favoráveis, não haveria por que a Alemanha criar um atentado desse porte...
                - Não... – Cruzi falou. – Eu não acho que foram os alemães...
                Todos se voltaram para ela, que continuou:
                - Antes de morrer, o homem-bomba me disse uma coisa... Hail Deutschland, dass die Seelen der Verräter in der Hölle brennen. Isto é Alemão, ou deveria ser. Os verbos estão conjugados em tempo errado, e o homem falava com sotaque... este homem com certeza não era alemão. Apenas fingia ser. Além disso, olhe essa foto – Cruzi apontou para o torso do homem-bomba. – Olhe o estado do colete que teoricamente é a bomba. Está murcho, vazio... é uma bomba falsa.
                - O que isso quer dizer?
                - Quer dizer que, além deste homem não ser alemão, nunca tentaram matar a Rainha. Eles nos enganaram o tempo todo... para nos fazer pensar que a Alemanha estava no atacando, e provavelmente criar um conflito.
                - Bem – Lane disse. – Pelo menos, descobrimos a tempo de evitar isso.
                - Não exatamente – disse Cruzi. – Quando eu fui convidada pela Rainha à ir ao Paço, hoje de manhã, eu encontrei dois soldados discutindo. Um deles havia dito: “Você ouviu os boatos! Temos que revidar...”, e eu acho que era disso que eles estavam falando. O exército provavelmente acha que a Alemanha está tentando nos atacar.
                - Então temos que avisá-los!
                - Mas não temos provas. Essa foto sozinha não quer dizer nada. E sabe-se lá o que estão fazendo neste momento com o corpo... E, se o exército tiver a mínima suspeita de que a segurança nacional está ameaçada... é capaz que eles comecem uma guerra contra a Alemanha. Carter tinha razão: a Rainha pode ser monarca, mas isso não quer dizer que ela possa controlar tudo. O exército brasileiro pode acabar criando essa guerra sozinho... E nós não podemos fazer nada.
                Todos ficaram em silêncio, observando enquanto Cruzi terminava seu discurso. Tudo fazia sentido. Tudo fazia um cruel sentido.
                - A nossa única esperança – concluiu Cruzi. – É que o exército não pode revidar, não pode começar uma guerra baseado somente em um ataque. Eles não podem começar uma guerra da noite para o dia. Mas, ainda assim, desconfio que, seja quem for que esteja por trás desses ataques... vai fazer novamente, e vai fazer parecer que foi a Alemanha novamente. Seja quem for o culpado, ele quer nos enganar a fim de criar essa guerra, custe o que custar.
                Cruzi bateu o punho cerrado na mesa, fazendo estrondo. Estava desolada, e irritadíssima. Ela deu meia volta, caminhando para fora do escritório da divisão Titãs, sem se despedir de ninguém. Parou somente ao lado de Carter, e disse:
                - Sim, eu já tentei confiar em alguém. E é por este motivo que eu não confio.
                E continuou a caminhar, entrando no elevador sozinha e saindo do escritório.

                Cruzi estava certa, no final das contas. As pessoas por trás do atentado em Chagas e do atentado da fumaça amarelada não eram alemães; apenas estavam fingindo ser. Então, não era choque nenhum que, não muito longe dali, no próprio Distrito Imperial, uma linda mulher entrasse numa sala de um prédio desconhecido e comum; de jeito nenhum levantaria suspeitas. A mulher caminhou até a única mesa daquela sala; sentado nela, estava um homem de terno. Sorrindo, ele cumprimentou a mulher, que, devolvendo o sorriso, disse calmamente, em bom e claro português:
                - Missão cumprida.

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