Olá galera :) Como prometido, cá está a "estreia" de Titãs, a nova web-série do Histórias e Besteiras. Espero que gostem! Ah, e volta e meia, o texto dará uma "pausa" pedindo que vocês coloquem para tocar uma música. Eu sugiro que coloquem para tocar no YouTube. Pra você que ainda não entrou no grupo do Facebook, clique aqui. E lembrem-se: toda sexta, será postado um novo capítulo.


1x01

Nascimento

Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios.

1

09 de setembro, 23h35
                A última coisa que alguém poderia reclamar sobre a estação de trem da cidade de Chagas era sobre eventos de cunho estranho ou mesmo particular, pois parecia irreal que o lugar fosse palco desse tipo de bobagens. A simples e pequena estação era a menina dos olhos, por assim dizer, dos habitantes de Chagas: estando a base da cidade por demais afastada do Centro do Distrito, seria impossível qualquer tipo de prosperidade senão pela agricultura e/ou exploração desumana de seus habitantes, que no entanto jamais sairiam da pobreza extrema. Como tal, não era incomum da assembleia investir todo o capital interno da cidade na entrada e saída de diligências, movimentando vigorosamente toda a economia da cidade, mas também garantindo a segurança das mesmas como prioridade, fosse por vistorias ou à base da força.
                O dia 17 de outubro não parecia uma exceção à regra. Ao cair da noite, onze “delinquentes” haviam sido expulsos da estação, sendo cinco bêbados, já conhecidos dos seguranças, e um ou outro desordeiro isolado. À medida que o relógio avançava, as ocasiões diminuíam, até atingirem a inexistência no mais tardar da noite, quando a maioria dos moradores já havia ido de encontro às suas camas e finalizado o dia. Os trabalhadores da estação, no entanto, não podiam descansar: mais alguns passageiros ainda iriam embarcar ao bater da meia noite, partindo de volta à seus respectivos Distritos. O trem era esperado meia hora antes, às 23h30, para evitar atrasos.
                - Cinco minutos de atraso – contava o atendente Perseu. – Quem é que estava dirigindo hoje? O Wilson?
                - Poderia ser – respondeu Thomas, o segurança do pavilhão. – He! E pela terceira vez no mês, teremos jantar com um show!
                - O que ele está pensando? Que o velho Domenico irá deixa-lo passar impune? – Perseu tirou seu boné, e passou a contar as moedas. – Será uma surpresa se não for demitido desta vez.
                - Não, Wilson está com câncer.
                Perseu derrubou cinco centavos de volta na caixinha.
                - O que você disse?
                - O que? Câncer? Definitivamente! – riu-se o segurança. – He! He! O velho Wilson deve estar adorando! Domenico não pode realmente demiti-lo, pois ele teria de pagar impostos triplicados por mês para pagar assistência desemprego e o plano de saúde! He! He! He! Wilson pode ouvir o quanto quiser, mas que está se divertindo, ô se está!
                Não obstante, o arranhar de metal contra os trilhos pôde ser ouvido ao longe. A linha 3 estava sendo utilizada, e era por lá que Wilson chegaria.
                - Ei, Thomas – Perseu chamou. – Chame todos e peça para ajudá-lo com a descarga, tenho que terminar deste lado.
                No entanto, não era necessário, já que o segurança viu-se cercado de seus colegas no momento em que o trem passava pelas portas e freava diante da estação. Rindo e falando alto, os seguranças perderam preciosos segundos ali parados, mas foi Thomas quem primeiro percebeu:
                - Há algo errado – dizia, e quando indagado, respondeu simplesmente: - Oras, as portas não abriram! – E contornou a extensão dos doze vagões do trem, dirigindo-se diretamente para a cabine. – Oras, Wilson deve é ter cochilado nas manivelas! Só me faltava esta! Surpresa é que não tenha explodido no meio do caminh...
                Mal dizia isto, e foi ouvido o grito.
                O tumulto instalou-se, e todos correram para a fonte: a própria cabine. A janelinhas instaladas bem acima da entrada não permitiam ver perfeitamente ao conteúdo interior, de modo que encontraram-se gritando:
                - Wilson! Wilson, seu rabugento! Wilson, mão de vaca! Wils…
                Então, a cabeça do próprio bateu contra a porta com tamanha violência que uma mínima gota de sangue escorreu pela vidraça.
                A porta se abriu com um palavrão. Wilson estava caído, gemendo... contorcido, em posição fetal, ele não demonstrava nenhuma reação além de seus balanços involuntários, misturados às lágrimas invisíveis e...
                Parecia doer, o que quer que ele sentia, parecia doer...
                - Wilson? Wilson, seu filho da...
                Foi então que o caos se instalou.
                O segundo trem foi ouvido arranhar os trilhos de longe, porém sem diminuir sua velocidade. Muito pelo contrário: a diligência continuou a avançar, arrebentando os portões com tamanha força que descarrilou. Os doze vagões pularam para fora dos trilhos, como que não dotados de gravidade, e explodiram ao encontrar novamente o chão. Como um intenso engavetamento, a própria base da estação foi arrancada, espalhando tijolos e concreto esmagados em tantas direções quanto haviam. O fogo, por si só, engolia o que restava. O caos que restou esmagava o oxigênio no peito dos operários, impedia-os de ver além da massa cinzenta de destruição!... Seus gritos, perdidos, encontravam poeira e permitiam a mesma de lhes sufocar os pulmões. Estavam, decididamente, perdidos, e demorou muito tempo até que vida e morte fossem discerníveis novamente.
                (coloque para tocar a música: “Transfusion Triumph”, Fringe OST)
                À primeira vista após o acidente, o trem de Wilson parecia obviamente atingido; ninguém sabia de onde o segundo trem viera, carregando a morte com ele, mas os vagões deste estavam completamente destruídos, arrastando consigo a destruição. A cabine de Wilson permanecia, de alguma forma. A luz alaranjada e ígnea lançada sobre a nuvem de poeira cegava exponencialmente Thomas para qualquer visão que não fosse imediata.            De primeira, ele viu os três corpos de seus companheiros, já mortos. A maioria, no entanto, continuava viva e quase ilesa, fora um ou outro derrubado por uma mutilação séria. Ao longe, podia ver a pequena sala de Perseu destruída; este provavelmente estaria esmagado lá dentro.
                - Wilson – disse Thomas, e voltou-se para a cabine, tonto.
                - Wilson! – gritou, entrando na cabine torta. – Wilson!
                O velho maquinista continuava deitado em posição fetal.
                - Wilson! Maldição, Wilson, você está bem?
                E Wilson continuava a gemer, e gemer, e gemer...
                A luz fortíssima do fogo parecia falhar como se fosse elétrica... como se a escuridão quisesse tomar conta...
                O metal parecia contorcesse sob seus pés...
                Irreal. Não podia estar acontecendo, pois era a estação de Chagas, e não acontecia essas bobagens na estação de Chagas.
                O chão tremeu.
                Era a melhor estação do Distrito, se era!
                - Wilson!
                O metal estava vivo, ou aparentava estar.
                O fogo não queria ficar aceso.
                - Wilson!
                Wilson estava quase distante, quase sem querer...
                - WILSON!
                Thomas caiu.
                Wilson gemia, para frente e para trás, posição fetal, para frente e para trás...
                - WILSON!!!
                Ele tocou Wilson, e este se levantou.
                A luz suave permitia ver os globos oculares estourados, e tudo que restava eram lágrimas de sangue, rosadas e pastosas por estarem misturadas com a substância branca que formava o olho. A boca de Wilson estava aberta, e os gemidos escapavam de sua língua... não por vontade própria. Os lábios, vermelhíssimos... estavam virando pedra.
                Cinzentos, duros como pedra...
                Olhos vermelhos como sangue, lábios frios como pedra...
                Os três segundos que Thomas teve para se sentir horrorizado não bastaram. Seus olhos também explodiram... e seus lábios nunca estiveram tão duros e frios.
                Os gritos tomavam a noite, e, pela manhã, estavam todos mortos.
                Bem vindos à estação de Chagas: o espaço mais seguro do Distrito 7.

2

Distrito Imperial, Escritório da Guarda Nacional, 10 de setembro, 8h32
                - 19 de janeiro de 1295 d.N. (depois de Noble) – disse o Coronel Garrido, apontando para um slide. – Richard Astro assume a presidência dos Impérios Unidos da América, na época chamado de simplesmente Estados Unidos da América. Astro vinha prometendo uma inteira nova era de prosperidade, investindo no socialismo econômico, garantindo igualdade e emprego para todos. Inspirador, mas logo após seu discurso ele recebeu como prêmio uma bala no olho de um atirador desconhecido, possivelmente contratado por um grande capitalista.
                Garrido passou o slide para a imagem de um mapa mundial.
                - 15 de novembro de 1560 d.N. – continuou ele. – O Império do Japão se recusara a tomar medidas ambientalistas aproximadamente oito anos antes, tais como reduzir a emissão de dióxido de carbono e o mais recentemente descoberto dióxido de Ununpentium, tão tóxico quanto radiação. E, como a natureza pode ser uma verdadeira filha da puta, um tsunami causado pela explosão de uma usina de energia nuclear extremista engole todo o território do Império, matando toda a população de mais de 60 milhões de habitantes.
                O coronel mais uma vez passou o slide, agora mostrando um abrigo de crianças negras.
                - 18 de abril de 2022 d.N. O planeta Terra atinge os 8 bilhões de habitantes, finalmente ultrapassando a quantidade de habitantes que o planeta tinha antes da Terceira Grande Guerra, em 29 a.N., ou 2016 depois de Cristo, como nossos ancestrais costumavam chamar. Cerca de um terço desta população estaria concentrada nos Impérios da África, e, devido às condições climáticas, escassas e desprovidas de qualquer tipo de agricultura do continente, esta mesma população sofreria de fome extrema, e um simples alimento já era motivo de guerra entre as facções criminosas.
                Finalmente, Garrido desligou o aparelho, e a luz enfeitiçada que lançava imagens contra a parede branca desapareceu.
                - Obviamente, estes fatos podem parecer aleatórios, simples imagens chocantes, afinal, há tantas outras tragédias em nossa raça, seja qual for a Era, Império ou etc. – disse ele, levantando-se e ajeitando seu terno. – E ainda assim, cá estamos nós, discutindo paz e como iremos alcança-la finalmente. – Após um pigarro, ele acendeu um dos pequenos cigarros sem substâncias viciantes, criado mais cedo naquele mesmo século. – Diga-me, agente Carter, por que o senhor acredita que formamos você?
                Pela primeira vez convidado a falar, Leon Carter remexeu-se desconfortável em sua cadeira. Por sua vez, ajeitou o próprio terno e pigarreou também, arrumando a franja em sua testa com um movimento antes de responder:
                - Por que, verdade absoluta ou não, possível ou impossível, alguém ainda precisa salvar o pescoço desses 8 bilhões.
                Garrido riu-se.
                - Oras, Leon, sejamos honestos – disse ele. – Eu lhe conheço desde o primeiro período na academia, desde as primeiras práticas de tiro ao alvo. Sério, praticamente vi-o nascer neste lugar. E, desde as primeiras provas escritas e orais, não posso dizer que estive menos do que impressionado com sua performance. Primeiro lugar na academia em todos os anos... Sinceramente, Leon, este escritório sentirá sua falta.
                Carter pigarreou mais uma vez.
                - Eu não sei o que dizer, senhor – respondeu. – Obrigado.
                - Oras, não diga nada, se o que pretende dizer são despedidas piegas – Garrido entregou-lhe a caixa. – Eu que devo lhe agradecer, por 5 anos de serviço.
                Leon estranhou a leveza da caixa, e, quando abriu-a, esteve surpreso.
                - Senhor, está vazia.
                - Obviamente está. Você não deixou nada no escritório para ser transferido, senão a papelada da própria transferência.
                Carter assentiu.
                - Obrigado novamente, senhor – disse ele, saindo da sala.
                - Carter! – chamou novamente Garrido, recuperando a atenção do agente. – Bem sabe você que não questiono as decisões de meus agentes, mas, extra-oficialmente... você sabe onde está se metendo? Sabe o que isto pode significar para sua carreira?
                Leon sorriu.
                - Não é a primeira vez que me perguntam isto, senhor – disse ele, o que não era realmente uma resposta, e saiu do escritório.
                “Poderia ter sido pior”, pensou ele, largando a caixa na mais próxima lata de lixo que encontrou, corredor abaixo, tirando apenas a papelada para carregar consigo. “Poderia ter sido bem pior”.
                Pois, em verdade, o seu sonho não era exatamente o sonho de muitos naquele escritório. Em verdade, para qualquer um, ver-se subindo ao último andar do prédio para a divisão Titãs não era lá uma grande honra. Virar motivo de chacota, menos ainda. Mas alguém tinha que fazer o trabalho, e era isso que Leon desejava desde a própria academia.
                A divisão, fundada pouco mais de dez anos antes, não conduzia o tipo de investigação convencional da Guarda Nacional. Enquanto todos os outros estavam muito preocupados com a segurança da Rainha ou quanto a políticas internas e convenções internacionais, ou mesmo os cada vez mais comuns assassinatos em série, Titãs, reconhecida pela própria Rainha, procurava além das pistas oculares: não eram só assassinatos que haviam se tornado comuns nos últimos mil anos, como o sobrenatural, também. Não haviam sido poucas as suspeitas de abduções alienígenas, de fantasmas e demônios, ou qualquer coisa que a ciência não poderia provar. A suspeita era de que a guerra nuclear de 29 a.N. havia desencadeado tais eventos, mas não havia confirmação. Até então, as únicas coisas que a divisão poderia fazer era investigar o cunho paranormal de cada caso minimamente estranho, e procurar pistas para não acabar tão desacreditada quanto era.
                A quem ouve, o último andar pode parecer uma extrema honra, mas não era. Mesmo sendo a base de toda segurança do Império, por lidar com os piores e mais ameaçadores casos que a humanidade muitas vezes sequer podia entender, o sobrenatural não era bem visto dentre a PM e outras divisões da Guarda Nacional. Pseudo-investigações, como eram chamadas, tomavam muito do dinheiro da segurança, e não eram poucos os céticos que não acreditavam nas bobagens daquela divisão. Qualquer um passaria pelo botão 43 do elevador de cabeça baixa, quase com medo de apertá-lo e ir parar no estranho e bizarro escritório.
                Leon entrou no elevador, quase vazio, senão por duas pessoas que saltaram vinte andares abaixo do seu destino. A subida seria entediante. Olhando para a câmera de segurança, e então para o espelho, ele ajeitou-se e arrumou-se diversas vezes; organizou a papelada, com um bolo na garganta que seu rosto inexpressivo não denunciava. Era bom nisso, e era isso o que o tornava um ótimo investigador... bem como um ótimo desperdício, à visão do coronel Garrido.
                Andar 31, e continuava subindo.
                Ele mesmo já ouvira aquele discurso. “A divisão Titãs não é vitória alguma”. Mas, nos três meses de burocracia de transferência, ele não deixara-se abalar. Era a divisão que queria.
                Andar 40, 41, 42...
                O leve apito interrompeu a música de elevador, e as portas de metal se abriram.
                O que revelou-se foi um simples corredor, que conduziria a uma bifurcação mais a frente, bem como a uma parede. Visualmente, era menor do que Leon esperava. O barulho de teclas num computador inundava o escritório, mas não havia voz alguma senão sussurros sobre “engano” e “alguém deve ter errado de andar”. Carter deu dois ou três passos a frente, mas mesmo estes soavam mais barulhentos do que de costume no imenso silêncio do escritório dos Titãs. Então, o ruído de teclas cessou, e passos vieram a seu encontro: quem apareceu foi uma mulher de terninho, alta e loira de olhos verdes. Tão inexpressiva quanto o próprio Leon, ela mediu-o de cima a baixa com o olhar antes de dizer, assentindo:
                - Você deve ser o novato.
                Fazendo um gesto com a papelada e abrindo um meio sorriso, Leon respondeu:
                - Você deve ser outra loira.
                A mulher abriu o mesmo meio sorriso, antes de se aproximar com a mão estendida:
                - Mila Cruzi – apresentou-se ela. – E se bem me lembro, você é...
                - Leon Carter.
                Mila assentiu.
                - Pensei que você pareceria mais velho – completou ela para si mesma. – Mais um adulto.
                Antes que Leon pudesse responder, os dois outros agentes de que ouvira falar saíram detrás do tal corredor. Um era um homem, alto e de óculos, enquanto a outra era uma mulher morena, de cabelos curtos e cacheados e olhos negríssimos, consideravelmente mais baixa que seus companheiros. Os dois postaram-se ante a agente Cruzi, estendendo a mão:
                - Tuomas Lane, médico forense – disse o homem, enquanto a mulher completava:
                - Allen Foster, faz-tudo.
                - Parabéns, você acabou de conhecer toda a divisão Titãs – disse Mila Cruzi. – Bem vindo aos menos procurados do Império.
                Dizendo isso, deu meia volta e voltou para os corredores. Foster e Lane entreolharam-se, voltando-se para Carter, e falaram baixinho:
                - Perdoe a agente Cruzi, ela não...
                - Pode deixar suas coisas em minha mesa – Cruzi falou além do corredor. – Mais tarde arranjaremos um lugar para você, novato. Temos um caso. – Assim dizendo, ela apareceu novamente, revirando chaves de um carro entre os dedos, e, vendo-se encarada pelos três agentes, completou: - O quê?
                - Nada – Carter respondeu, dando de ombros, ainda com a papelada na mão.
                - Oras, não fique assim, poderemos fazer sua festa de chegada quando voltarmos de viagem. – Ela seguiu em direção ao elevador, e Foster e Lane a acompanharam, revirando os olhos, enquanto Carter deixava sua papelada na primeira mesa que encontrara no caminho.
                - Que tipo de caso? – ele perguntou, e Mila respondeu:
                - É seu primeiro dia, novato; acho que seria melhor se visse por si mesmo. – Apertando o botão para o térreo, enquanto Carter se preparava para mais uma viagem por 43 andares de elevador, ela continuou: - Teremos de pedir sua passagem para o interior do Distrito 7 de última hora. Só não espere voar na primeira classe.

Chagas, Distrito 7, 16h30

                (coloque para tocar a música: “The Shocking Dead”, Fringe OST)
                Enquanto estavam no avião, um estranhíssimo evento ocorria, mais especificamente no pouso: o céu escurecia à medida que se aproximavam do chão, como se a própria noite caísse. Uma vez pousados, era possível ver as luzes dos postes ligados, para iluminar o caminho, pois nem sol, lua ou estrelas emitiam qualquer tipo de iluminação para o lugar. Não somente isso, como cinzas caíam do céu, fazendo parecer neve.
                Depois de mais trinta minutos num carro alugado, os quatro chegaram à cena do crime: a estação de Chagas. Todo um cerco policial havia sido criado ao redor do lugar, e pudera: o fogo parecia ter sido recém-controlado, e a destruição ainda estava fresca. A estrutura de concreto basicamente desabara, senão pela própria estação de embarque, que, apesar da destruição, ainda era própria para ao menos investigar. A policial local estava ali, controlando curiosos.
                - Ontem à noite, um trem de cargas chegou à esta estação com cinco minutos de atraso – disse Mila Cruzi. – Os sobreviventes disseram que o piloto não estava passando bem; de fato, parecia muito pior do que um simples mal estar. Logo depois, um segundo trem chegou à estação, desgovernado, e descarrilou, matando instantaneamente pelo menos três e incapacitando muitos. O resto morreu logo depois, em condições desconhecidas.
                - Creio que com “desconhecidas”, você queira dizer que o caso é nosso – disse Lane.
                - Exato. Os próprios sobreviventes desconfiam de um ataque biológico, pois só sobreviveram por terem fugido pouco depois do descarrilamento. Seja o que for, não se espalha pelo ar, pois esses sobreviventes foram chamados para identificar os corpos na própria estação. E o que viram os fizeram vomitar na frente da equipe. Vou conseguir alguns depoimentos. Foster, venha comigo. Lane, examine os corpos, eles ainda não foram removidos.
                - Devido às condições desconhecidas, suponho.
                O grupo separou-se e, como Carter não fora mencionado, decidiu seguir com Lane.
                Logo ao entrar na estação, foi possível sentir o denso odor de poeira e fumaça. Aconselhados a usarem máscaras e luvas, os dois agentes seguiram pelos destroços, mas não conseguiram encontrar corpo nenhum. Quando voltaram para procurar assistência de um policial local, este bufou e disse:
                - Demoramos algum tempo para encontra-los também, no meio de tanta pedra. Venham comigo, eu lhes mostro.
                E logo, eles perceberam o motivo: os cadáveres não eram simples corpos, mas pura rocha, que confundia-se com os próprios destroços. Os corpos cinzentos foram afastados do restante das pedras, para melhor análise: alguns tinham braços e pernas destruídos, mas desconfiava-se que isto fora causado por algum fator externo após a transformação em pedra, como, por exemplo, uma queda. No entanto, independente destes danos, todos os corpos tinham algo em comum: os olhos claramente estourados, com metade ou menos dos globos oculares deformados nos respectivos orifícios.
                - Isto é obviamente causado pela petrificação – disse Lane, tocando a pedra como se ainda pudesse sentir a pulsação nos corpos.
                - Obviamente? – Carter disse, soando sarcástico.
                - Sim, veja – Lane apontou com uma caneta para a circunferência dos olhos. – Já tivemos um ou outro caso parecido: a petrificação não acontece somente na superfície, como também na parte interna do corpo; ou seja, nos órgãos, veias e artérias. Se as artérias perdem sua elasticidade e ficam mais duras e rígidas ao virar pedra, o coração tem que bombear o sangue com mais força para conduzi-lo ao resto do corpo, e isto aumenta a pressão. Os olhos foram os primeiros a serem afetados: a pressão foi tanta que explodiram. Não me impressionaria se alguns vasos sanguíneos também tiverem sido arrebentados, ou se eles tivessem sofrido algum derrame ou infarto, mas será difícil saber, com os corpos neste estado...
                - Será possível fazer uma autopsia? – Carter perguntou, e Lane demorou um bocado de tempo para responder.
                - Eu não sei. Será complexo, pois qualquer coisa poderá quebrar os cadáveres... e não acho que encontraremos qualquer coisa.
                - Então você não acha que foi um ataque biológico?
                - Duvido muito. Vírus, bactérias, protozoário, nada faria isto... De todos os outros casos de petrificação que já investiguei, creio que este aqui é bastante parecido com os causados por radiação...
                - Radiação?
                - Sim. Este é inclusive um dos motivos pelas quais usinas nucleares são proibidas por lei: depois da Terceira Grande Guerra, muitos novos tipos de radiação estavam surgindo, e ameaçavam contaminar toda a vida animal e vegetal... mas, de alguma forma, alguns criminosos ainda conseguem sintetizar esses novos tipos de radiação. E acho que é este o caso aqui.
                - Você quer que eu consiga algum aparelho para detectar...
                - Não, esses novos tipos de radiação não seriam detectados tão simplesmente. Acho que precisaríamos de um exame toxicológico, para detectar algum tipo de reação que o sangue teria sofrido com essa radiação. Mas eu gostaria de nos ver tentando tirar sangue de pedra. Apesar de, julgando pelo aumento da pressão e pela explosão dos olhos, esta substância viscosa em que você está pisando agora deve ser o sangue dos ferimentos que não recebeu radiação suficiente para virar pedra.
                Carter olhou para os próprios pés, e pulou para trás: ele estava em cima de um líquido cinza-esverdeado, tão grudento quanto melado.
                - Ah, droga – disse ele. – Mas este sangue está impuro, passou mais de 20 horas exposto à poeira.
                - É este o problema. – Lane disse, e permaneceu alguns segundos em silêncio. – É possível que haja um pouco desse sangue ainda dentro do corpo de pedra, mas precisaremos de muito cuidado para extraí-lo, e de jeito nenhum conseguiremos fazer aqui. Temos que mandar um ou dois desses corpos para o escritório da Guarda Nacional, lá temos equipamentos para termos ao menos esperança de conseguir extrair alguma coisa. – Lane olhou para cima, diretamente para Carter. – Bem vindo à divisão Titãs, amigo.
                Carter riu-se, e disse:
                - Pelo jeito, você é meio que um cérebro aqui, não é?
                - Não gosto de me gabar, mas desconfio que é exatamente por isto que fui designado para esta divisão. Eles precisavam de um cientista. – ele fez uma pausa antes de continuar: - Perdoe a agente Cruzi. Eu tenho certeza que não foi intenção dela parecer...
                - Insensível com o novato? – Carter completou. – Não se preocupe, estou interpretando como desculpa poética. Deve ser só o jeito dela, ela deve ter seus motivos...
                - Mas não espere que ela seja mais um clichê dessas séries de TV – Lane interrompeu-o. – Não espere que ela tenha um passado ou sombrio ou coisa assim. Eu conheço os pais dela, eles moram no Distrito 14. O Natal com eles é animado, até. Mas onde agente Cruzi falha como ser humano, ela é ótima em seu trabalho.
                - Não duvido da capacidade dela. Para enxotar tão rapidamente o agente novo...
                - Onde está a desculpa poética agora? – Lane disse, arrancando um sorriso de Carter. – Vamos, temos mais corpos para ver.
                Enquanto isso, agente Cruzi e Foster terminavam a interrogação do xerife Manu.
                - Eles me chamaram de madrugada – dizia ele. – Mandei-os ao diabo, por que nada pode ser tão urgente nesta cidade à meia noite. Mas eles falaram da estação; falaram que tudo havia sido destruído. Vocês não imaginam como eu me senti ao chegar aqui. Sem esta estação... a cidade vai ruir. Não existe outra fonte de renda considerável. Não há como sobrevivermos.
                - Senhor, nós entendemos que havia cerca de quarenta pessoas na estação ontem à noite – Cruzi prosseguiu.
                - Sim – Manu falou, engolindo em seco -, quase todos seguranças, para ajudar a descarga de matéria-prima que passaria na cidade. Havia, no entanto, um atendente... era responsável pela contabilidade, sabe. Morreu, esmagado, ainda não recuperamos o corpo nos destroços. E havia o Thomas, que ia ajudar o Wilson...
                - O piloto do trem.
                - Sim, exatamente. Mas, quando foram identificar os corpos, não encontraram o do Thomas... não sabemos o que aconteceu.
                - E quanto ao segundo trem – Foster perguntou -, o senhor sabe alguma coisa sobre?
                - Não, acho que não. Pelo que me disseram, não estava na programação, e a Guarda Nacional requisitou que os vagões não fossem tocados para que fossem posteriormente investigados, então ninguém chegou perto. Se vocês quiserem saber de mais alguma coisa, acho que seria melhor falar diretamente com os sobreviventes...
                - Certo – Cruzi interrompeu-o. – É o suficiente, senhor, muito obrigado pela ajuda.
                Então, ela e Foster voltaram-se para a estação.
                - Foster, poderia por favor conseguir os depoimentos desses sobreviventes?
                Ela concordou assentindo.
                - Ninguém sabe ainda sobre essa noite, e essas cinzas caindo?
                - Não – Foster respondeu. – Mas todos falam sobre o segundo trem. Pelo que sabemos, ele pode ser a causa de tudo isso.
                - Irei ver o que Lane pensa então.
                E, uma vez que ambas se separaram, era isto o que Cruzi pretendia fazer. Mas, estando na rua enquanto todos estavam dentro da estação, ela viu o que ninguém mais podia ver: ao longe, bem além de onde os curiosos poderiam ir, havia uma pessoa. Não seria digna de tanta atenção, não fosse o fato de que estava nua: era perceptível mesmo a distância. Cruzi avançou, quase correndo, em direção ao individuo, e, à medida que se aproximava, podia ouvir seu choro e ver que ele caminhava com as mãos envolvendo a cabeça... quase como se tivesse uma insuportável dor.
                - Ei! – Cruzi gritou, e a pessoa em questão se virou. Não era possível ver muitos detalhes àquela distância, mas a agente tinha quase certeza de que o individuo não tinha olhos, nariz nem boca.
                - EI! – ela repetiu, e então o humanoide correu. E, pouco importando o quanto Cruzi corria atrás, logo ele havia desaparecido, e não restava nenhuma pista a seguir.

3

                (coloque para tocar a música: “Matilda Mother”, Pink Floyd)
                - Hora da morte, aproximadamente às 23h40 – dizia Lane para seu gravador, enquanto examinava o máximo que podia do primeiro corpo no limitado laboratório forense da cidade de Chagas.
                Foster observava, mas Carter e Cruzi esperavam do lado de fora, o que não significava que estavam juntos. Cruzi estava sentada na sala de espera, longe de todos, enquanto Carter trabalhava, indo de um lado para outro com diversos documentos e completando ligações. Depois de mais ou menos vinte minutos neste ritmo, Carter disse:
                - Eu poderia usar um pouco de ajuda aqui.
                Cruzi mal se deu o trabalho de olhá-lo.
                - Não é minha obrigação – disse ela. -, nem a sua, alias. O caso é tecnicamente uma parceria entre a divisão e a policia local, então são eles que devem comunicar as mortes aos parentes e iniciar a documentação dos óbitos.
                - Uau – disse Carter. – Já pensou em ser política?
                - Perdão?
                Depois de um sorriso em silêncio, Carter meneou a cabeça negativamente.
                - Nada, esquece.
                Cruzi, no entanto, levantou-se e foi a seu encontro.
                - Nós temos algum problema aqui?
                Carter riu-se, sem fazer barulho.
                - Eu que pergunto, senhora. O que você está fazendo aqui?
                - Perdão novamente?
                - Não acho que preciso repetir. O que você acha que está fazendo na Guarda Nacional? Você não tem tato, não sabe lidar com testemunhas, duvido até que tenha humanidade...
                - E você percebeu isto em 12 horas. É a minha vez de dizer uau, você deveria ser o primeiro ministro!
                Carter bufou, e deixou decididamente os papéis de lado.
                - Pode dizer o que quiser, mas você não pode fugir da verdade que seu lugar não é aqui – disse ele. – Você tem todas as características dominantes de uma sociopata, e é da política da corporação que não admitamos personalidades de risco na Guarda Nacional, principalmente numa divisão tão importante quanto os Titãs...
                - Então é isso? – Cruzi elevou a voz, e, se a delegacia não estivesse vazia à exceção dos  quatro agentes, com certeza teria chamada excessiva e indesejada atenção. – Oras, me desculpe se o seu primeiro dia não está sendo o que imaginava por minha causa, mas não espere que eu vá fazer sua estadia conosco parecer um sonho, por que não é! Bem vindo à divisão Titãs!
                - É, eu tenho ouvido isso muito hoje.
                - Olhe, eu não faço a mínima ideia de quem você é, ou quem você pensa que é, mas você não passou nem um dia conosco, então realmente não acho que é da sua posição decidir qual é a minha posição. Eu, no entanto, posso dizer muito bem que você será devorado vivo aqui dentro.
                - Ah, sério? Pois eu adoraria ver como você se sairia lá fora, onde vocês são a merda da merda da Guarda Nacional.
                - Devo assumir então que você é o salvador de nossa pátria? Que está aqui para ser nosso Jesus Cristo, e que eu sou a vilã por crucifica-lo?
                A discussão teria continuado por muito tempo, não fosse o toque do celular de agente Cruzi. Insatisfeita, ela rapidamente abriu o aparelho, dizendo:
                - Alô? – E, depois de alguns segundos, sua expressão foi reduzida à perplexidade, tanto que, quando desligou o telefone, havia se esquecido completamente de sua discussão. – Pegue suas coisas, e chame Foster e Lane, estamos saindo.
                - Perdão?
                - Não temos tempo para isto, só chame os dois!
                E saiu pela porta, indo ligar o carro.
                Carter, apesar de incrédulo, obedeceu-a, e ambos Foster e Lane confirmaram que logo iriam com eles. Então, Carter entrou no carro com Cruzi, e juntos foram para onde quer que fossem chamados.
                (coloque para tocar a música: “Steig On The Run”, Fringe OST)
                Não precisou muito para que eles vissem o motivo: de longe na estrada principal da cidade, eles viram o caminhão da Guarda Nacional, que viera transportar os corpos petrificados para o aeroporto, parado no meio do caminho, junto com a caminhonete do xerife. Juntos, tanto o motorista quanto o xerife Manu observavam o evento diante de seus olhos: um tipo de forma côncava se formava, estendendo-se do chão até o céu, impedindo qualquer coisa de passar. A forma parecia uma aurora boreal, ou um arco íris, e iluminava completamente o que a negritude do céu não permitia a luz passar.
                - O que diabos é isto?! – exclamou Cruzi, saindo do carro depois de estacionar.
                - Não sabemos! Nós estávamos passando e... essa coisa simplesmente apareceu aí!
                - Vocês a tocaram? Se aproximaram dela?
                - Não! Sequer tentamos ir além de onde estamos parados agora!
                - Temos que trazer Lane para examinar isso – sussurrou Cruzi para Carter, e então puxou seu celular, dizendo ao se afastar: – Com licença...
                Enquanto Carter continuava a discutir com o xerife, Cruzi caminhou para o mais longe possível, a fim de silêncio. No entanto, a ligação parecia não funcionar: depois de duas tentativas, a linha telefônica começou a chiar, até atingir um volume tão alto que era insuportável mantê-lo contra a orelha. Não somente isso, como Cruzi sentiu um choque que fê-la largar o telefone, que quebrou-se no chão.
                - Que diabo...
                E aquele não fora um evento isolado: os alarmes dos carros e do caminhão começaram a ressoar, ecoando na noite, enquanto os faróis ligavam e desligavam sozinhos. A lanterna que Cruzi carregava em seu bolso acendeu sozinha, e as lâmpadas dos postes começaram a piscar. Mas o que realmente chamou sua atenção foi...
                - Cruzi! – Carter gritou. – O que está acontecendo?!
                Ela virou-se, ignorando o chamado... pois estava ouvindo gemidos conhecidos, um choro familiar... o mesmo choro que ouvira poucas horas antes, do mesmo humanoide de poucas horas antes...
                Lá estava ele. Chorando.
                - EI! – chamou Cruzi, e a criatura voltou-se. Não fugiu. Não correu. Se aproximou somente.
                - EI, PARADO AÍ! – Ela sacou sua arma, apontando para a coisa...
                E então, a cabeça da criatura rasgou-se no meio – ou foi o que pareceu, enquanto abria a boca. Os dentes podres e expostos ornaram o grito de horror que saiu da garganta do humanoide, e, inexplicavelmente, a arma de Cruzi voou das mãos da mesma. Então, foi a vez do própria Cruzi ser levantada no ar, arremessada por uma força invisível e lançada contra o chão.
                Então, a criatura estava sobre ela...
                Cruzi gritou, desferindo um soco na cara do bicho, enquanto este tentava engolir sua cabeça. Rolando para o lado, a agente levantou-se e tentou correr, mas a mesma força invisível a puxou para o chão novamente, e logo, a criatura havia pego sua perna...
                As luzes piscavam, impedindo-a de ver...
                - CRUZI! – Carter gritou, sacando sua arma, mas a criatura virou-se antes que o tiro fosse desferido. A arma voou também, e Carter foi arremessado contra um dos carros, caindo.
                Cruzi via-se novamente em perigo, e seus golpes não pareciam suficientes contra a criatura... Os dentes, como navalhas infestados de saliva sangrenta, clamavam por carne para estraçalhar...
                - NÃO! – o xerife Manu gritou, agarrando a criatura por trás e puxando-a de cima do corpo da agente.
                Mas então, o monstro contorceu-se, segurando a cabeça do xerife e fazendo-o gritar. A gigantesca boca voltou-se, abrindo-se quase em 180 graus, e por fim abriu um rasgo nas roupas de Manu, arrancando sangue. O xerife gritou, e a boca parecia prestes a fechar-se sobre sua cabeça...
                Então, o tiro veio, estourando a cabeça da criatura, que caiu morta nos braços do xerife. Fora Cruzi quem atirara, após ter recuperado sua arma... mas ela não tinha tempo para alivio algum.
                - Cruzi? – disse Carter, se levantando.
                A agente olhou para ele, e o xerife lentamente foi se virando... até que Carter pôde ver: os olhos de Manu estavam estourados. O xerife, desnorteado, caiu no chão, e se contorceu levemente... até adquirir posição fetal.
                - Carter?
                - Cruzi, se afaste.
                - O que?
                - Corra, temos que correr, ele está emitindo radiação...
                - Carter?!
                - CORRA, CRUZI!
                Ela obedeceu. Os dois desviaram-se do xerife, correndo o mais rápido que podiam para além da rua. De longe, puderam ouvir os carros retorcendo-se e capotando, devido à radiação, como havia acontecendo com a cabine de Wilson e Thomas, horas antes. Os dois correram até que a distância fosse no mínimo segura, e então viram: a mesma forma côncava envolvia um raio de pouco mais de duzentos metros ao redor de Manu – aproximadamente, o mesmo raio em que os mortos da estação se encontravam. Afinal, ao longe, os gritos de Manu foram morrendo, até que a noite se calasse e esta segunda forma côncava sumisse, restando somente a primeira. Carter não teve medo de se aproximar novamente: Manu já estava morto, completamente transformado em pedra.
                - O sangue – disse ele. – Ainda está fresco.
                A substância cinza-esverdeada viscosa ainda não virara completamente pedra no que seria os olhos de Manu, como ele logo percebeu. Pediu a Cruzi algo, um recipiente, qualquer coisa que pudesse armazenar aquele líquido. Depois de coloca-lo num pequeno recipiente de vidro que acharam nos carros, ambos observaram a substância, enquanto Foster e Lane chegavam.
                - Mas o que diabos aconteceu aqui? – Lane perguntou, e, como resposta, Carter estendeu o recipiente.
                - Este, doutor, é o sangue que você procurava.

4

                - Os componentes deste sangue foram definitivamente desnaturados – disse Lane, de volta ao laboratório. – Praticamente destruídos... Se não fosse por algumas substâncias, eu mal diria que isto é sangue. É quase como se tivessem mudado toda a composição química.
                - E você ainda acha que é radiação o que causou isto? – Cruzi perguntou.
                - Tenho quase certeza – Lane respondeu. – Como eu disse, não é uma radiação comum... acho que vai muito além do nível nuclear. Honestamente, não sei nem dizer se é feita pelo homem.
                - O que você acha? – Cruzi dirigiu-se a Carter, que demonstrou-se surpreso.
                - Eu? Ei, sou apenas o novato aqui.
                - Mas você tem uma teoria, certo? Eu consigo ver, você está pensando em alguma coisa.
                - E você percebeu isso em somente 12 horas – Carter respondeu, sorrindo. Mas depois, bufou e disse: - Vocês viram como aquela barreira côncava formou-se ao redor do corpo de Manu, enquanto ele morria. Ele estava emitindo radiação, e era radiação visível. E a barreira que nós vimos antes está envolvendo toda a cidade, e provavelmente causando esta noite eterna, deixando o céu escuro...
                - Então, toda a cidade estaria sendo alvo de radiação...
                - Exato. E Cruzi disse que viu aquela criatura próximo à estação... e se aquela criatura for o produto da radiação? Um ser humano, tão exposto, que acabou virando aquilo, e até mesmo adquirindo aquele tipo de telecinésia? Esta cidade inteira pode acabar daquele jeito, isto se já não acabou! Vocês não percebem como tudo está quieto demais?
                - Espera, espera – Foster interrompeu – Se todos viraram aqueles humanoides, por que nós não viramos?
                - Por que estamos expostos há pouco mais de três horas, quando chegamos aqui. A população desta cidade está sofrendo com a radiação há vinte quatro horas...
                - O que significa que temos que sair daqui o mais rápido possível - concluiu Cruzi.
                - Exato. Mas não podemos fazer isto, pois não sabemos o que vai acontecer conosco se ultrapassarmos aquela barreira...
                - Então, o que vamos fazer?
                Carter ficou em silêncio por um momento, ponderando com pesar.
                - A estação – disse ele. – Não é de lá que suspeitam que vieram todos esses problemas? Do segundo trem? Não temos tempo para esperar que a equipe forense entre na cidade, nem podemos PERMITIR que eles entrem! Temos que ir lá, pegar o que precisamos e arranjar uma saída o mais rápido possível.
                - Então é isso que vamos fazer – Lane anunciou. – Bom trabalho para um primeiro dia, novato, apesar das condições desagradáveis.
                - Sorte a minha – respondeu Carter.

                A cidade estava realmente silenciosa quando eles entraram no carro, e partiram para a estação. Era difícil achar qualquer sinal de vida ou movimento senão a própria sombra do carro. Do mesmo modo, a própria estação parecia suspeita e silenciosa demais, considerando que era a fonte de todos os problemas. Como era grande demais, e o tempo era curto, a parcela de escritórios e lojinhas seria investigada por Foster e Lane, enquanto Carter e Cruzi ficaram responsáveis pela pior parte: os vagões contorcidos e cheio de cinzas.
                - A cabine do piloto Wilson – disse Cruzi. – Segundo os depoimentos, ele seria o primeiro infectado.
                Os dois seguiram adentro, direcionando as lanternas primeiramente para o caminho, e depois, para as possíveis pistas que a destruição escondia. O ar ainda estava rarefeito e denso de impurezas e poeira, tanto que sequer manter os olhos abertos era difícil.
                - O sangue – apontou Carter para a substância em que havia pisado horas antes.
                - Os sobreviventes haviam reportado que um dos corpos estava faltando – respondeu Cruzi – De um tal de Thomas. Você acha que ele era nossa criatura?
                - Não sei. Provavelmente. Se o corpo estava desaparecido, ele provavelmente havia sido exposto à maior radiação, o que tornou-o daquele jeito.
                Os dois seguiram mais para a frente, para a ligação com o que seria o segundo vagão do trem, em um estado muitíssimo pior que a cabine. Seria quase impossível de caminhar sem as lanternas, pois o metal contorcido rasgara-se e um passo em falso poderia causar um feio corte.
                - Escuta – Carter disse. – Não quero que pense que as coisas que eu disse... quero dizer, que as disse para lhe magoar...
                - Não se preocupe  – Cruzi retrucou. – Vamos para o segundo trem, não há nada aqui. – E saiu, dirigindo-se ao segundo trem propriamente dito.
                - Espera, é claro que eu me preocupo – Carter seguiu ela. – Precisamos falar sobre isso...
                - Não precisamos não. Como eu já disse, mas você parece contente em ignorar, nós nos conhecemos há somente 13 horas. Podemos obviamente deixar o que quer que tenhamos que discutir para mais tarde, quando estivermos fora deste lugar.
                Os dois entraram no primeiro dos vagões.
                - Está vendo o que quero dizer? – Carter respondeu. – Honestamente, como alguém consegue trabalhar com você?
                - Você não estava querendo se desculpar, cinco segundos atrás? – Cruzi logo se arrependeria, pois Carter estava prestes a começar um discurso, quando ela mesma interrompeu-o: - Ei, ei, ei, ei, o que é aquilo?
                - Não tente desviar do assunto! Eu estou falando com...
                - Carter, foco! – Cruzi apontou-o o caminho. – O que é aquilo?
                Ambas os feixes de luz criados pela lanterna se dirigiram para uma mesa, que caíra durante as explosões: partida ao meio, quase escondia um estranho aparelho eletrônico. Completamente ultrapassado, não tinha nenhuma das tecnologias touchscreen ou mesmo de hologramas que haviam sido redescobertas pelos cientistas recentemente, depois de milhares de anos perdidas devido à Grande Guerra. No lugar, haviam diversos botões e manivelas, e uma simples tela LCD, que estava quebrada. Quando Cruzi pegou o aparelho em suas mãos, instantaneamente o soltou.
                - Ai! – disse ela. – Levei um choque!
                Carter remexeu no aparelho com o pé, tomando bastante cuidado para não tocá-lo.
                - Você acha que é daqui que vem a radiação? – perguntou ele.
                - Provavelmente. Teremos que pedir Lane para examinar. – Cruzi ficou em silêncio por alguns momentos. – Mas, se é isto o que causou a transformação de Thomas e desta cidade, por que não está nos afetando?
                - Por que está quebrado – respondeu Carter. – Ou esgotado. Parece que essa coisa transfere a radiação para os seres humanos, e, quando viram aquelas criaturas, as criaturas são  responsáveis por emitir a radiação...
                Mal dizia isto, e ouviu-se um ruído, no fundo do vagão. Cruzi levantou-se e para lá caminhou, dizendo:
                - Olá?
                (coloque para tocar a música: “Escape”, 30 Seconds to Mars)
                A lanterna não captava movimento algum. Para toda e qualquer dúvida, estavam sozinhos ali.
                - Cruzi...
                - Fique parado aí. Tem alguma coisa...
                A porta do vagão se abriu.
                Cruzi estava perto demais para se esquivar: uma nova criatura agarrou seu pescoço. A arma atirou, mas não atingiu o alvo. Cruzi, indefesa, viu-se levar pela criatura, até que ambas se chocassem contra diversas mesas, e caíssem.
                - Cruzi! – Carter gritou, vendo a parceira se levantar...
                Mas a criatura a seguia de perto...
                Então, Cruzi não pôde mais correr: uma barreira côncava e colorida a separava de Carter.
                - CARTER!
                - Merda!
                A radiação estava sobre Cruzi, e logo, ela saberia os efeitos de primeira mão.
                - AH, MERDA! – gritou ela quando a criatura continuou a ataca-la. – CARTER! CARTER!
                Ele, por sua vez, tinha seus próprios problemas: a barreira de radiação crescia cada vez mais... logo, ela iria atingi-lo, e ele estaria perdido...
                - Carter! CARTER!
                A criatura continuava a sufocar Cruzi...
                - Merda! – Carter exclamou, sacando sua arma e por fim atirando.
                A bala perfurou a cabeça da criatura com tanta violência que a mesma viu-se jogada para trás. Carter não tinha tempo de se admirar: lançou um último olhar para Cruzi, que não poderia ser salva, e se preparava para correr... quando a barreira cresceu tanto que estava prestes a tocá-lo...
                Então, o corpo da criatura caiu sobre uma parcela da barreira. Carter não respirou, e nem teve tempo de fazê-lo: as cores desapareceram junto da radiação. Passados alguns segundos, os agentes finalmente conseguiram se encarar. Nenhum dos dois estava no melhor dos estados, afinal, ambos haviam quase acabado de morrer.
                Cruzi levantou-se lentamente – provavelmente, o pouco de radiação que recebera a havia deixado tonta -, e disse:
                - A criatura... a criatura era cheia de radiação... e quando ela caiu sobre a barreira côncava, a radiação parou. Isso... isso quer dizer que...
                - Só radiação pode parar a radiação. – Carter completou.
                - Isso... isso.
               
                Os dois saíram imediatamente do vagão, apenas para encontrar Foster e Lane esperando do lado de fora.
                - Vocês não vão acreditar no que está acontecendo – disseram, e apontaram para além da estação.
                Um imenso grupo de criaturas, iguais às que o grupo já havia enfrentado, caminhava pela rua, sem direção aparente. Desprovidas de olhos, elas não víamos agentes, nem davam sinal de percebê-los. Era um número grande demais para combater com balas, ou mesmo para escapar sem serem percebidos...
                - Ótimo, era exatamente disso que precisávamos – disse Carter, porém, sem um pingo de sarcasmo na voz. – Lane! Você pegou tudo o que precisava do laboratório? O sangue...?
                Diante da resposta positiva do cientista, ele continuou:
                - Ótimo! Peguem o carro, estamos saindo daqui.
                - O que?
                - Ficou maluco?
                - A radiação é a única coisa que pode deter a radiação – Carter disse, olhando por um segundo para uma Cruzi arrebentada e exausta. – Nós precisamos atrair o máximo destes monstros para a barreira, e então, saímos daqui.
                Cruzi confirmou assentindo.
                - O mundo precisa de mais novatos como você – Lane disse, e Cruzi jogou-lhe as chaves do carro.
                Logo, os quatro estavam lá dentro, dirigindo a 100 por hora na estrada principal para a saída da cidade. O barulho do motor havia atraído criaturas o suficiente, que o seguiam numa velocidade sobre-humana. Alguns monstros agarravam-se à suspensão, tentavam pular na vidraça, e os agentes eram obrigados a atirar nestes.
                - E agora? – Lane perguntou.
                - Agora o quê?
                - Como vamos sair da cidade? – Lane disse isso enquanto contornava um quarteirão, e agora, a barreira côncava era bem visível, e estava a somente quarenta segundos de distância. – As criaturas estão atrás de nós, e você disse que elas precisam entrar em contato com a barreira para desativar a radiação...!
                Obviamente, Carter não havia pensado nisto.
                - Merda! – disse ele, e Foster repetiu, apontando para frente e dizendo:
                - Tem mais deles na frente!
                Era verdade: uma legião de criaturas bloqueava o caminho, pondo-se entre o carro veloz e a barreira. Levou um segundo para Carter pensar:
                - Atropela.
                - O quê?
                - Atropela eles! Aumenta a velocidade e atropela!
                Lane obedeceu.
                O grito das criaturas ao chocarem-se contra o capô do carro foi ensurdecedor e agudo. Mas Carter pensara corretamente: o carro movia-se tão rapidamente que os corpos das criaturas encontravam-se presos à lataria...
                De modo que, quando o carro atravessou a barreira, a mesma havia sido desativada, pois as criaturas haviam entrado em contato antes.
                Os gritos foram gigantescos. As criaturas, ainda vivas, contorciam-se de dor em contato com a barreira côncava, mesmo que somente por um segundo. Logo, elas tornavam-se uma massa sangrenta ainda mais irreconhecível, e escorregavam para os lados do carro, caindo pelo caminho.
                - Olhe! – Foster disse, apontando para trás.
                Os agentes, virando-se, viram enquanto a gigantesca barreira era destruída, como papel queimando. A noite continuava a cobrir a cidade de Chagas, mas o espetáculo de luz que a barreira destruída proporcionava iluminava todo o município, mesmo à distância.
                - Os corpos ficaram para trás – Cruzi disse. – Os de pedra.
                - Não se preocupe – Lane respondeu -, só uma amostra do sangue era tudo o que precisávamos.
                - Não foram somente os corpos de pedra que ficaram para trás – Carter disse, obtendo a atenção de todos os agentes. – Não mesmo.
                E assim, eles deixaram a cidade de Chagas, que, semanas depois, não passaria de uma cidade abandonada.

5

Distrito Imperial, Escritório da divisão Titãs, Guarda Nacional, 12 de setembro, 8h00

(coloque para tocar a música: “Sleep Alone (909s In Darktimes Mix)”, Bat for Lashes)
                Exames preliminares nos equipamentos mais sofisticados da Guarda Nacional demonstraram que o sangue havia realmente sido exposto a intensa radiação. Essa informação constou no relatório do caso, apesar da fonte e da causa de tamanho tumulto não terem sido identificados.
                A cidade de Chagas fora isolada, assim que os agentes da divisão Titãs encontraram abrigo numa cidade vizinha. O próprio exército fora convocado. Uma cura fora procurada para as vítimas da radiação, mas estas não duraram tempo o suficiente: morreram pela própria radiação, que, depois de algum tempo de exposição, não só formaria aquelas criaturas, como destruiria a estrutura interna das mesmas. Órgãos, ossos e etc, nada sobreviveu por mais de 12h após a fuga dos agentes.
                Como dito antes, nenhum criminoso fora identificado. Nenhuma facção terrorista assumira o caso, também. Os noticiários comentavam furiosamente sobre o caso naquela quarta feira, 12 de setembro, e a cidade de Chagas estava perdida. Era considerada a Chernobyl dos tempos modernos, apesar de todos saberem que não fora acidente nuclear algum – ênfase no “acidente”.
                O horário de trabalho começava às 8h30, mas Carter decidira chegar antes. Não havia tido tempo de se arrumar na divisão, já que havia voltado à sua casa após a viagem ao Distrito 7 somente na noite anterior. Seus papéis provavelmente ainda encontravam-se na mesma mesa em que os deixara...
                Ou era o que esperava. Os tais papéis haviam sido colocados sobre uma outra mesa, do lado direito do escritório. Havia exatamente quatro cadeiras ali, e ele julgava que a mais próxima de sua papelada seria a cadeira que usaria.
                - Eu arrumei para você – disse Cruzi, chegando de repente. Carter voltou-se, olhando-a mais ou menos assustado: apesar de arrumada, a agente tinha machucados e arranhões em sua testa, para não contar os hematomas em seus braços, escondidos pelo terno. Ela continuou a falar, sem ligar para seu estado: - As suas coisas, sabe.
                - Não... não precisava – Carter disse, pensando em seus próprios ferimentos.
                - Não havia muito o que arrumar. – Cruzi deu de ombros. – De fato, não havia muito em seu arquivo, senão uma ficha limpa. Nós não sabemos nada sobre você, a não ser o fato de que era um ótimo agente na Guarda Nacional...
                - E é irônico, por que eu estava falando de sua frieza e incapacidade de se comunicar com um ser humano – Carter abriu um meio sorriso.
                - Em parte. – Cruzi respondeu. – Olhe, acho que começamos com o pé errado.
                Carter deu de ombros.
                - Como você mesmo disse, podemos falar sobre isso depois.
                - Ou não falar sobre isso. – Cruzi sorriu, sentando-se em sua cadeira.
                - De fato. – Carter riu-se ao fazer o mesmo.
                - Começar do zero.
                - Definitivamente.
                - Afinal, temos meia hora antes de Foster e Lane chegarem.
                Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos, antes que Cruzi tomasse um gole de seu café.
                - Você salvou minha vida – disse ela. – Enquanto Chagas formava o inferno.
                Carter fora pego de surpresa.
                - Não é verdade – respondeu ele -, se não fosse por Lane, nunca descobriríamos como sair...
                - Não - Cruzi interrompeu -, você salvou minha vida, na estação de trem. Quando matou aquela criatura, e me libertou da radiação... – Ela fez uma pausa, na qual se permitiu olhar nos olhos de seu novo parceiro e esboçar um meio sorriso. – É meio que uma grande coisa... para um novato.
                - Eu... acho que só estava fazendo meu trabalho.
                Cruzi assentiu em silêncio, sorrindo.
                - Bem – disse ela. – Sinto muito por estragar sua ficha quase perfeita logo no primeiro caso. Toda a investigação que tivemos, e todo o perigo que corremos...
                - Não diga que foi em vão. Descobrimos uma saída, descobrimos como salvar nossas vidas, descobrimos a causa...
                - Mas não pudemos salvar aquelas pessoas – Cruzi retrucou. – Não pudemos nem determinar o motivo, ou o culpado disso tudo. E sequer temos uma pista para seguir, depois que o exército entrou em quarentena com a cidade de Chagas. Para todos os propósitos, isso foi um caso em aberto, sem solução.
                Carter suspirou.
                - Foi isso o que você colocou no relatório? – perguntou ele, pegando as vinte páginas do próprio relatório e virando-as aleatoriamente.
                - Não – Cruzi respondeu. – Coloquei “Investigação em andamento”.
                Carter levantou os olhos, surpreso.
                - Em andamento?
                - Você por acaso não viu, no segundo trem, o que tinha o aparelho de radiação? – perguntou ela.
                - O que havia para ver, Cruzi?
                - Um símbolo... uma bandeira desconhecida. Não é de nenhum Império que eu conheça... para falar a verdade, acho que é de antes da Terceira Grande Guerra. E não símbolo aleatório... não é um ataque aleatório.
                - Você acha que vai acontecer novamente?
                - Seja quem for que está por trás disso... – Cruzi respondeu, sombriamente. – Não acabou. Vai fazer de novo. Chagas não foi um caso isolado... Foi somente um experimento, pequeno até, em comparação ao que esta radiação pode fazer. Seja o que estiver acontecendo... este é apenas o começo. 

PRÓXIMO CAPÍTULO: DIA 27/07
Reações: