Olá gente :) Aqui está o último capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES. Eu queria agradecer a todos vocês que acompanharam a saga, e, para isso, farei uma postagem especial na próxima sexta. Vou avisar no twitter, no facebook, no orkut, podem deixar. E, nesta postagem, falarei sobre uma novidade sobre meu livro ECOS e sobre a próxima história que irei postar aqui no blog. Enfim, curtam o último capítulo e as últimas respostas!


18

1

            Gabriela acordou, sentindo a água massagear levemente sua pele. Seus olhos entreabriram-se em instinto, procurando captar qualquer sinal do lugar onde estava... e, dentre as turvas ondinhas que a água que a envolvia formava, viu luz. Viu as cores conhecidas das paredes de seu banheiro... e sentiu seu pulmão clamar por ar. Mas não foi somente por isso que pulou da banheira, molhada e nua como estava, se afastando o máximo possível da mesma. Tinha medo; medo de voltar para o Reino, como da última vez.
            E o medo por fim deu lugar ao alívio, vendo-se fora da escuridão que a engolira naquela eterna noite. Estava livre! Livre do Reino Dos Corações!
            Mas veio então o luto. Livre do Reino, estava sim; porém, sozinha também estava.
            Ela lembrou-se das mortes, memórias ainda frescas, que não pudera lamentar enquanto estivera correndo para a saída do Reino. Khaled, deixado para trás; e Marieta, que não fora rápida o suficiente. Mortos, assim como todos os outros.
            Ela engoliu as lágrimas, pois não podia se deixar abater por isto. Estava em seu apartamento, depois de sabe-se lá quanto tempo. Talvez, houvessem se passado as poucas (porém eternas) semanas que havia passado no Reino; talvez, não houvesse passado tempo nenhum no mundo real. Ou talvez, houvessem passado anos a fio. Ela tinha que descobrir. Sua mãe, sua doce mãe!, estava ali, na sala, do outro lado da porta. Como ela estaria? Caso o tempo tivesse passado, ela poderia ter conseguido se cuidar?
            Enrolando-se numa toalha, Gabriela abriu a porta. O coração lhe veio a boca, lembrando-se do primeiro momento em que pisara no Reino dos Corações... ao abrir aquela mesma porta. Mas não: desta vez era sua apartamento. Era o mundo real.
            – Mãe? – ela perguntou, baixinho, como que para si mesma, antes de falar mais alto: – Mãe!
            Não houve resposta.
            – Mãe?! – Gabriela correu pelo corredor, chegando à sala onde vira sua mãe sentada pela última vez, mas não havia ninguém lá. A televisão estava ligada, mas era pura estática, e seu apartamento era silêncio.
            As luzes também estavam apagadas. A sala, com seu assoalho de madeira e suas duas estantes ocupando a parede, parecia mais escura do que jamais fora. A única luz era proveniente da janela; luz que conseguia atravessar as finas cortinas de pano, a doce luz do dia. Gabriela afastou as cortinas, para observar a luz lúgubre e nublada entrar...
            O céu estava cinzento como pensara. Os pássaros ali emitiam sons vívidos e verdadeiros, em contraste com o silêncio agourento do Reino. Os arranha-céus realmente arranhavam os céus!, tão altos que eram! Mas o que chamava sua atenção era o número de sirenes que corriam pelas ruas. As luzes vermelhas e azuis, da polícia e dos bombeiros, iluminaram seu rosto, mesmo estando no sexto andar. Ela olhou para baixo, surpresa, e viu: além de tantas alegorias policiais, ambulâncias também corriam pela rua. Um cerco policial havia sido fechado com uma faixa amarela no fim da rua, e, dali em diante, encontravam-se carros revirados, amassados e destruídos. Sacos azuis também estavam espalhados pelo chão, porém, não havia suficiente para esconder todos os cadáveres, de modo que alguns mortos permaneciam expostos no meio da rua, com suas barrigas cortadas, desmembramentos e cabeças decapitadas.
            Então, pela rua, passou um gigantesco tanque militar, provavelmente armado para qualquer ocasião.
            Gabriela olhou com horror, indigno de alguém que vira muito pior no Reino dos Corações. O que acontecera ali?
            Subitamente, ela ouviu algo dentro de seu apartamento. Não eram passos, nem uma respiração, não... era a batida de um coração. Tum-tum, tum-tum. 79 a 80 por minutos, pouco abaixo do normal, indicando calma excessiva. Pressão normal. Era um mestre em se esconder. Ninguém poderia ouvi-lo chegar, pois ele podia controlar todos seus movimentos mais silenciosos... menos a batida de seu coração. E era isso que Gabriela ouvia quando virou-se.
            O homem atacou-a e atirou em sua cabeça.
            Gabriela sentiu a bala entrando pela sua testa, e a pressão a fez perder o equilíbrio com tanta força que caiu em cima da janela, quebrando-a. Alguns cacos de vidro rasgaram sua pele. Mas ela não estava morta; inexplicavelmente, não estava. O homem logo percebeu isso e largou a arma, não se preocupando mais em ser silencioso. Em vez disso, simplesmente avançou para cima de Gabriela e agarrou seu pescoço com uma mão, sufocando-a. Enquanto isso, com a outra mão, ele enfiou o dedo mindinho no buraco da bala, pressionando-o cada vez mais para dentro até achar a bala propriamente dita. Então, continuou a pressionar, de modo que a bala continuou escavando seu caminho para dentro do cérebro de Gabriela.
            Ela gritou.
            Seu grito foi o suficiente.
            O homem voou para longe com tamanha violência que seu dedo foi arrancado, permanecendo dentro do buraco de bala. Mas não por muito tempo: por uma força invisível, o dedo foi lentamente saindo do ferimento, até cair no chão, ensanguentado. A bala fez o mesmo. E logo, o ferimento estando limpo, se fechou sozinho. E as únicas provas que haviam de que o tiro alguma vez existira era a bala amassada caída no chão.
            Gabriela olhou para si própria com temor, mas o homem a atacou novamente com uma faca. Ele pretendia enfiá-la no olho da garota...
            Mas ela gritou novamente, e não soube o que aconteceu. Sua toalha estraçalhou-se em pedaços, enquanto algo brotava de sua coluna. No momento seguinte, o mesmo algo segurava o homem no ar, apertando-o firmemente... e cortando sua cabeça, seus braços, seu corpo em pedaços, até que restasse somente uma massa sangrenta, que foi absorvida pelo mesmo algo.
            O chão se manchou de vermelho, mas o homem desapareceu depois de sua horrenda morte. E nenhum grito foi desferido da garganta do homem silencioso.
            Gabriela olhou para o algo que saía de dentro dela... e eram mandíbulas, como as dos Sugadores. Mas não estavam em suas bocas, e sim nas costas de Gabriela... e ela sentia a vida do homem dentro de si. Por que havia acabado de suga-lo.
            Era isso o que ela era agora. Uma Sugadora que não se deixava guiar pelo instinto animal. Uma Sugadora que podia pensar. E, diante dessa mesma capacidade de pensamento, ela estava horrorizada.

2

            Sua mãe realmente não estava no apartamento, de modo que Gabriela simplesmente vestiu uma calça jeans, uma camisa e um casaco com capuz para esconder seu rosto. Ao contrário dos próprios Sugadores, ela conseguia fazer as mandíbulas voltarem para debaixo de sua pele, e assim fez ao sair.
            Os corredores de seu prédio estavam cheios de cadáveres em decomposição. Os mais bem tratados ainda pareciam com seres humanos, porém, a causa da morte também era mais visível: alguns haviam perdidos os olhos, e, pelo mesmo orifício ocular, parte do cérebro havia vazado; outros, simplesmente haviam sido abertos, de modo que a caixa torácica e o sistema digestório eram completamente visíveis, bem como um líquido negro que saía do estomago. O elevador não estava em melhor estado, mas o cheiro pútrido ali era mais forte.
            Ela saiu do prédio rapidamente, apenas para ver mais corpos na rua. Aparentemente, o cerco policial havia se estendido para um raio de cinco quarteirões.
            Sua audição não era nada humilde, misturando os poderes de bruxa aos de Sugadora; de modo que podia ouvir claramente os carros passando à distância, o vento chicoteando seu rosto... e alguém lhe observando. Era um militar, e dizia para seu radio:
            – Código 6277; repito, código 6277. Tem uma aqui. Área 44 da cidade. Humana, acho. Não, não estou próximo. Porra, é só uma menina! Não tenho confirmação. Não, senhor. Com todo respeitos, senhor, é só uma porra de uma menina! Uma criança, caralho! Senhor, senhor, por favor...
            Gabriela não podia ouvir direito o que o senhor dizia, mas, das poucas frases que conseguira captar, ouviu:
            – Este esquadrão não dá lugar para sangues quentes. Você sabia disso quando entrou. Não é diferente de todo o resto que estamos fazendo. Mate-a, e prove que tem sangue frio como neve nas veias.
            O soldado desligou, e, antes que pudesse fazer qualquer coisa, havia sido sugado por Gabriela. Não era um soldado velho; tinha 19 anos no máximo. Um curiosíssimo evento ocorreu: talvez, fosse por que Gabriela era meio bruxa, mas ela pôde ver exatamente o que ele estava pensando no momento em que o sugou: estava lembrando-se de uma garota. Não havia nome no pensamento, só lembrança e imagem. Ela tinha algo como 17 anos. Talvez fosse sua namorada, ou não. A lembrança só mostrava em detalhes sórdidos os últimos momentos que passara com ela, na noite anterior. Ela havia invadido a instalação do exército. Ela havia passado por todos os seguranças (o que, considerando que aquela era uma operação de risco de segurança nacional, não era algo fácil) até chegar ao alojamento do soldado. Ele estava sozinho no momento, tentando dormir. Era o único, afinal, todos os outros haviam saído para beber e comemorar, na festa que poderia ser a última de suas vidas. Mas o soldado em questão não ligava para essas coisas, de modo que ficou sozinho no alojamento. Tão sozinho estava que não havia ninguém para notar quando a garota, sua namorada, chegou no alojamento. Não havia ninguém ali para testemunhar. Eles fecharam a porta, e ela mesma dispensou todos os cumprimentos, beijando-o rapidamente. Depois, tirou suas roupas. Então, tirou as roupas dele. Chupou-o por alguns leves momentos, e ele não questionou em momento algum como ela havia conseguido entrar. A garota levantou-se, e nele sentou-se; cavalgou-o com vigor, controlando-se o máximo possível para não fazer muito barulho e chamar atenção. Permaneceram assim pelo que na cabeça do rapaz foram vários minutos, mas, na realidade, não passaram de alguns segundos. Então, ela deitou-se de quatro, e permitiu que ele entrasse. Por fim, chegaram ao final juntos, com leves gemidos e arquejos, ambos muito tensos. E então, passados os segundos (que pareciam décadas de prazer) do auge do orgasmo, sentiram-se muito relaxados. Tudo isso em pouco mais de oito minutos, mas que poderia ter sido muito mais tempo.
            A memória do que acontecia depois não estava presente; apenas a visão de que a garota era muito parecida com Gabriela, pelo menos de costas (isso, claro, no momento em que as roupas ainda estavam presentes). Parecida o suficiente para que fizesse o soldado hesitar em matar Gabriela, coisa que permitiu-a ser mais rápida. Ela não sentiu pena do soldado, pois não deu-se o luxo de ter tempo para fazer tal coisa. Tinha que se mover.
            Rapidamente, entrou no caminhão do soldado e despiu-se, vestindo-se dos fardos que encontrara ali. Sendo uma bruxa, disfarçou sua voz, e perguntou a situação no rádio. E isto foi o que ela conseguiu captar de tudo que estava acontecendo:
            A cidade do Rio de Janeiro, assim como São Paulo, Belo Horizonte, Manaus e várias outras capitais e grandes cidades do Brasil haviam sido sitiadas com as forças militares para combater algum tipo de infecção maléfica, que transformava os habitantes em terríveis criaturas (Gabriela bem sabia o que eram: vampiros, succubus e Sugadores). A infecção não se restringia ao Brasil, mas aos EUA, Rússia, China, Japão, México, Chile, Argentina, por toda Europa e outros inúmeros países. As áreas onde a infecção era mais grave haviam sido fechadas em quarentenas, e a população dessas áreas, dizimada. Infectados e não infectados.
            Mas a origem da infecção ainda era desconhecida: teorizava-se que era uma evolução do vírus da varíola, que teria de alguma forma vazado dos laboratórios nos EUA e na Rússia. Não havia como se descobrir, pois, uma vez mortos, os infectados não apresentavam nenhum indicio além da comum humanidade, além de entrarem em decomposição muito rapidamente. E era impossível capturar qualquer infectado vivo. Mas havia alguma noção entre os maiores cientistas que o mesmo fator que causava a rápida decomposição era o que impedia as criaturas infectadas de serem “perfeitas”: a falta de pensamento lógico. A fonte da infecção, como toda outra criatura, deveria estar tentando se reproduzir, e, para isso, teria de ser perfeita. Logo, teria pensamento lógico, e talvez até mesmo fala. Assim, a ordem era capturar qualquer infectado que pudesse demonstrar qualquer sinal de pensamento.
            Ao ouvir aquilo, Gabriela sequer se importou em responder o rádio. Engolfou seu rosto com as mãos em concha. Ela podia ter fugido do Reino dos Corações, mas aquele não havia sido o fim.

3

            Gabriela teve que fugir rapidamente, pois o comandante do rádio interpretou sua falta de resposta como algo errado acontecendo, e enviou dezenas de tropas.
            Ela rapidamente descobriu que as quatro mandíbulas poderiam servir para escalar prédios, e, assim, passou a pular de construção em construção, tomando cuidado para não ser vista pelos helicópteros que passavam por ali, volta e meia. Quando chegou à uma área onde não havia cerco sobre a infecção, ela voltou às ruas de modo bem sublime. Mas, de qualquer jeito, ninguém a notaria: todos estavam fora de suas casas (o exército havia obrigado todos a dormirem nas ruas para facilitar a investigação; quem permanecesse em suas casas, seria abatido), observando uma grande televisão que fora instalada fora de uma loja. Como não havia ninguém olhando, Gabriela despiu-se de suas calças e boné (ela já havia tirado a camisa para que suas mandíbulas saltassem de suas costas anteriormente) e roubou uma nova calça jeans, camiseta e casaco de uma loja de roupas abandonada. Então, voltou para ver a TV.
            As cenas eram de Nova York. A população era arrancada de suas casas por algo que não parecia sequer no mais mínimo nível com Sugadores, succubus ou vampiros: uma vez nas ruas, as criaturas esmagavam os seres humanos, fossem eles adultos, idosos ou crianças. O exército não podia se importar quanto a quem atirar, de modo que humanos pegos no campo de batalha eram mortos. Bombas explodiam, e, uma vez que uma das criaturas caiu em cima do abrigo de crianças, rasgando-as em pedaços, uma bomba teve de ser explodida ali, também. Os membros decepados e o sangue das crianças espalhou-se pela rua, mas a criatura saltou dali – em chamas, porém viva.
            A ponte que conectava a ilha de Manhattan com o resto de Nova York teve de ser explodida, pois a infecção na ilha era mais agravada do que em qualquer outro lugar do país. Imagens da Estátua da Liberdade em chamas, e por fim desmoronando, pipocavam na tela, e uma comparação de imagens foi feita com a queda das Torres Gêmeas. Subitamente, a imagem cortou novamente para as ruas de Nova York, onde uma serpente negra gigantesca brotou da baía que separava Manhattan da cidade. A serpente rapidamente dizimou grande parte da população, incluindo a equipe de reportagem que observava em terra; mas a câmera continuou ligada, mostrando em detalhes vívidos enquanto a população era violentamente morta e o monstro destruía cada vez mais a terra.
            A população carioca que observava a televisão estava em choque. As crianças não choravam, pois já haviam se acostumado àquelas imagens. Aparentemente, a infecção já durava mais de duas semanas, que bastaram para reorganizar todo o dia-a-dia da população mundial, bem como dizimar 60% da mesma. Mais de duas semanas... o tempo aproximado desde que Gabriela entrara no Reino dos Corações.
            – Povo! – gritava alguém – Povo!
            Era um senhor, de barba e olhar maníaco, mas este rapidamente foi morto com um tiro na nuca por um militar que vinha por trás. Este, sim, parecia um comandante.
            – Povo! – ele disse, com a voz firme. – Sigam para o abrigo! Todos, sigam para o andar mais baixo! Quem ficar sequer um degrau acima do permitido, será abatido! Corram! Vocês têm vinte minutos!
            A correria foi tamanha que muitos caíram e foram pisoteados. Ninguém morreu, apesar de terem de ser carregados até o alojamento. A única que permaneceu parada foi Gabriela... ela estava perdida...
            – Ei, você! – um soldado gritou, visando manda-la para algum alojamento... mas então, o tiro partiu do comandante, e acertou a cabeça de Gabriela.
            – Os vinte minutos acabaram – disse ele, e então não pôde acreditar nos próprios olhos.
            Gabriela andou três passos para trás, devido à pressão do tiro, mas permaneceu de pé. Afinal, se não morrera com o primeiro tiro, não morreria com o segundo. A diferença foi que, desta vez, não houve tempo para que a bala saísse de sua testa: uma saraivada de tiros acertou-a, de todas as direções, arrancando-lhe grandes proporções de sangue.
            Ela gritou, e, com suas quatro mandíbulas, arremessou-se para o topo de um prédio. Lá, todas as 39 balas que haviam se cravado em seu corpo saíram dos ferimentos, que se fecharam ao custo de muita dor. Então, ela viu o helicóptero que se aproximava. Felizmente, suas mandíbulas tinham longo alcance, de modo que rapidamente matou os tripulantes e subiu a bordo. Sugando os mortos, aprendeu a pilotar muito rapidamente.
            Mas o alerta já havia sido dado: eles haviam encontrado a fonte da infecção. As tropas rapidamente chegaram, incluindo armas russas, americanas e chinesas. Os americanos que haviam entrado no Reino junto deles, e que haviam sido tão rapidamente mortos, haviam fornecido todas as informações e plantado uma escuta no Reino. Eles sabiam que 8 estavam mortos, 1 era um vampiro e havia uma sobrevivente – brasileira. Estavam prontos para essa batalha muito antes de Gabriela estar.
            Um dos tanques atirou contra o helicóptero, destruindo-o. Mas Gabriela pulou para fora antes, de modo que pôde ver o helicóptero cair e explodir lá embaixo, explodindo também o tanque que atirara. Doce ironia, que Gabriela não pôde aproveitar.
            – ARGH! – gritou ela, caindo... mas, ao atingir o chão, o concreto subverteu para baixo, engolindo tudo. Os carros, tanques e militares começaram a afundar, e pressionaram o gatilho de seus fuzis inutilmente. A saraivada de balas corria por todas as direções, atingindo Gabriela vez ou outra. Mas ela não podia parar, senão, seria engolida pelo buraco também.
            Metade da força militar se foi daquele jeito, caindo no buraco. Gabriela saltou para o topo de um prédio, que foi rapidamente explodido por um dos tanques que restara. Ela pulou novamente, seguindo assim e criando um rastro de destruição. Para completar, um novo helicóptero surgiu, metralhando o caminho. Gabriela era mais rápida e podia se desviar das balas.
            Mas o motivo de a população ter sido evacuada para o subsolo não fora Gabriela, muito menos a rapidez com que todas aquelas tropas estavam ali. Gabriela logo viu isso.
            Ela havia corrido tanto que se aproximara do Corcovado. O Cristo Redentor não passava de uma mancha, e o mar era bem mais visível. E era de lá que surgia o monstro: uma serpente gigantesca e negra, dizimando a praia e destruindo os prédios mais próximos da orla.
            Gabriela não parou de correr por puro instinto. A visão era assustadora o suficiente para congelar qualquer um. Ela pôde ouvir, do helicóptero:
            – Jesus Christ! – Era um americano. Deveria ser. Mas foi então que a serpente arremessou algo, com tamanha força que viajou todos os quilômetros de distância na velocidade da luz e acertou o helicóptero, explodindo-o.
            As forças militares continuavam a chegar, mas a serpente continuava a destruir e matar. Gabriela viu de longe tudo explodir. Logo, ainda mais forças chegariam e seriam mortas... ela tinha de atacar agora.
            Enquanto os tanques remanescentes continuavam a atirar na serpente, Gabriela correu e saltou. Em poucos segundos, estava grudada à pele da serpente, e suas mandíbulas nela se cravaram. Não tardou para que ela fosse lançada à terra, mas houvera efeito: a carne negra do monstro agora estava manchada de sangue.
            Gabriela lançou-se novamente, e prendeu-se no mesmo lugar que havia feito antes. O ferimento já aberto foi novamente escavado, até que um buraco houvesse se formado, e Gabriela entrou na corrente sanguínea. De dentro, atormentou a criatura, rompendo vasos e artérias com suas mandíbulas e por fim saindo pelo olho do monstro, já aleijado. As forças militares continuavam a atirar, porém, Gabriela era quem fazia a maior parte do trabalho.
            A serpente mergulhou de volta ao mar, levando Gabriela consigo. Submersas, elas continuaram sua luta. Na mesma proporção que a criatura estava cega de um olho, Gabriela não conseguia ver através do sangue que manchava a água. Tinha de apenas prender-se à pele do monstro, destruindo-o mais e mais.
            Então, ela viu o corpo da serpente: seu fim não era visível; continuava até onde a água não permitia que fosse visto. O pensamento atingiu Gabriela com horror... era... o mesmo monstro de Nova York?! Ele viajara toda aquela distância naqueles poucos segundos? Ou... ele tinha duas cabeças?! E uma cabeça estava em Nova York e a outra ali...?
            Gabriela foi arremessada para fora d’água pela serpente. Ela caiu, diante dos tanques e militares, que a ignoravam momentaneamente, mas que logo se disporiam a mata-la...
            Mas então, a própria serpente saiu da água, e cravou seus dentes na praia. Subitamente, todo seu corpo brotou do mar, e era imenso... quase uma resposta ao que Gabriela pensara. Todo seu corpo girou, em 360 graus, cada vez mais baixo... até destruir toda a extensão do estado. Tudo no Rio de Janeiro e seus arredores caiu, e o que restou foram destroços.
            O gigantesco corpo da serpente continuou a girar até se desfazer, diante de Gabriela caída. A escuridão que compunha seu corpo desprendeu-se, e fez o céu virar noite... assim como no Reino dos Corações. Então, o corpo terminado de se desfazer, restou uma mulher magnifica em meio aos destroços. Seu vestido negro e vermelho destacava-se na escuridão, e em suas mãos havia cetro e espada... era a Rainha. A Rainha estava ali, e a batalha começaria... não fosse por um detalhe. O único detalhe que Gabriela estava observando.
            – Mãe? – ela sussurrou, desacreditada, enquanto a risada da Rainha, sua mãe, crescia e a engolia na noite, fazendo tudo escurecer e desaparecer... em chamas tão rubras quanto sangue.

4

            Gabriela acordou novamente, sentindo os pulsos presos à parede. Estava no castelo da Rainha. Ela havia sonhado... sonhado com a liberdade, a cruel liberdade. O cruel destino que o mundo sofrera. A cruel morte de milhões de pessoas. Ela não sabia o que era pior: seu sonho ou sua realidade...
            – Eu posso lhe garantir – disse uma voz – que sua realidade é muito pior do que o sonho jamais poderia ser.
            Era a Rainha. Gabriela levantou os olhos e viu-a, sentada em seu trono. Elas estavam sozinhas, separadas por duzentos metros de degraus. E ainda era a mãe de Gabriela.
            – Você! – gritou Gabriela. – Quem é você?! Por que está fazendo isto?!
            – Meu amor, meu anjo – a Rainha levantou-se e deixou a cauda do vestido sapatear pelos degraus enquanto os descia – Sou sua mãe!
            – NÃO! – Gabriela gritou. – VOCÊ NÃO PODE SER! É... É UMA FARSANTE! O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE? SUA FILHA DA PUTA! MALDITA! ME DEIXE EM PAZ! ME DEIXE IR!
            Enquanto ela gritava, seus raios chicoteavam todos os lados, mas não faziam efeito nenhum. Ela não tinha nenhuma mandíbula nas costas. Nunca fora uma Sugadora. A única parte real de seu sonho fora a Rainha.
            – Doce, doce Gabriela – disse sua mãe. – A verdade dói? Está doendo em você? Experimente fazer um parto! Garanto que dói muito mais!
            Ela riu, ensandecida.
            – Mas – a Rainha retomou –, posso lhe garantir que não terá a chance de pôr mais um de sua prole imunda neste mundo.
            – Do que está falando?! EU SOU DE SEU SANGUE E SUA CARNE! EU SOU SUA FILHA!
            – Agora você admite, não é, sua suja! – A Rainha cuspiu no rosto de Gabriela, mesmo estando ainda vários degraus acima. – Eu sou sua mãe agora que você precisa, não é! Mas estou me preparando para este momento há muito tempo... Há mais de cinquenta anos!
            – Do que você está falando?! – Gabriela sussurrou, deixando as lágrimas transbordarem-lhe dos olhos – Eu mal tenho 18 anos! Você mal tem 40! Como pode...
            – TOLA! – A Rainha urrou. – Tola, estúpida, idiota! Medíocre! Eu dei-lhe 3 semanas no Reino... Três semanas para ativar-la, e espalhar sua imundice pelo mundo! E não descobriu!
            Gabriela arfou.
            – Você enviou a succubus...
            – CLARO! EU SOU A RAINHA! Eu mando no Reino dos Corações. Eu o criei, em 1940, diante de uma cidade devastada da Inglaterra na Segunda Guerra! EU separei o tecido da realidade desta cidade do resto do mundo! EU alterei as leis do universo a fim de poder criar um mundo somente meu! O Reino dos Corações! Para então reunir um exército...
            – Um exército que em parte se rebelou contra você – Gabriela cuspiu as palavras. – Os fantasmas... eles não querem que você comande o Reino dos Corações! Eles queriam que eu e meus amigos fugíssemos, para que você não nos matasse!
            Mas a Rainha simplesmente riu.
            – Lhes matar? – disse ela – Quem disse isso? Por que eu iria matar quem eu demorei tanto tempo trazendo... de outras eras?
             Então, a Rainha desceu do último degrau da escada, agora encarando Gabriela na altura dos olhos.
            – Veja, meu bem... minha criação!
            Os degraus se moveram, revelando uma passagem secreta. Não somente isso, como nove novos pares de algemas... cada um segurando um dos sobreviventes do Reino dos Corações. Kurt, Khaled, Kuruno, Tae, Marieta, Luciani, Jessica, Natalie, Danii... estavam todos ali. Todos os que deveriam estar mortos.
            Os olhos de Gabriela se encheram de lágrimas, vendo seus amigos... nas mãos da Rainha.
            – Gabriela? – eles exclamaram. Mesmo Danii, o vampiro, e Jessica, o demônio, pareciam aterrorizados.
            Então, começou a gritaria. Os sobreviventes clamavam um pelo outro, e pediam ajuda. Tentavam se livrar de suas algemas, atentavam contra a Rainha com palavras... até que a própria simplesmente riu.
            E de sua risada, brotou a onda de energia. Não havia luz, nem escuridão, apenas a sensação fria que a magia negra proporcionava. E a energia engolfou os sobreviventes... todos se calaram, e suas expressões murcharam à inexistência. Apenas Gabriela continuava a gritar e chorar.
            Então, as algemas de 6 dos 9 sobreviventes os soltaram. Apenas Tae, Luciani e Natalie continuavam presas. Todos continuavam sem expressão, e os livres caminharam em frente.
            – O que – a Rainha riu-se – são... amigos?
            Então, os olhos dos 6 sobreviventes livres brilharam vermelhos. Gabriela sentiu o terror subindo sua garganta, e vomitou, antes de voltar a gritar ensandecida.
            – Meu amor, meu aaanjo... – A Rainha disse. – Se acalme, se acalme...
            – FIQUE LONGE DE MIM! TODOS! FIQUEM LONGE DE MIM!
            – Você acha que eles a traíram? – A Rainha disse, fingindo-se de magoada. – Não! Eles não a traíram! Não poderiam! Eles não sabiam de nada!... Mas sabem agora! – E a Rainha riu novamente, antes de se aproximar de Kurt.
            – Sabe quem este é? – riu-se a Rainha. – Seu nome verdadeiro é Nicolau Flamel. Oh, claro, o nome de nascença é Kurt... mas a alma pertence a Flamel. Sabe... ele foi um grande químico em sua época. Clamava ter descoberto a Pedra Filosofal, que lhe garantia a vida eterna! E, naturalmente, todos riram quando Flamel morreu! Mas, quando seu túmulo foi aberto... Não havia corpo nenhum! Havia desaparecido! E ninguém sabia de seu paradeiro... ninguém sabia se ele realmente continuava vivo... bem, a Pedra tem seus truques! A vida eterna é a capacidade de não conhecer o céu e o inferno... de reencarnar, para sempre! Há! SEMPRE! – Ela riu-se novamente. – Eu demorei para encontrar Kurt. Realmente demorei... mas, quando o encontrei, sabia que era Flamel! Afinal, Flamel era um químico, e Kurt é um traficante de drogas! Ele pode como ninguém misturar substâncias até torna-las prazerosas e viciantes!
            Então, a Rainha seguiu para perto de Jessica.
            – E nossa querida mascote? Sabe quem é? – A Rainha apertou a bochecha da garota. – É Lilith; a primeira esposa de Adão, e também o primeiro demônio. A serpente do Paraíso, também. Você não achou que ela fosse qualquer demônio, não é? Mas e ele? – A Rainha apontou para Danii. – Também achou que fosse qualquer vampiro? Há há! Ele é o VAMPIRO ORIGINAL! O criador de todas as raças de vampiros! Você realmente achou, por um segundo, que ele havia sido transformado em vampiro no Reino? NÃO! Ele sempre foi um vampiro! Mas estava preso no corpo de um humano, pois, como todos os 9 sobreviventes, também reencarnou! Por que eu fiz todos beberem do elixir da Pedra Filosofal!
            Ela seguiu em frente, até Kuruno:
            – E este aqui? Diga, querido Kuruno, quem você é!
            – Sou Oni – disse Kuruno –, o pai de todos os Oni. Sou o demônio superior. E serei reconhecido por isso...
            – Oh, é o suficiente, querido, não estrague a surpresa! – a Rainha disse sadicamente, seguindo para Marieta: – Esta é sua maior amiga, não é? A exorcista! Pois não é exorcista coisa nenhuma! Ela é a bruxa sem nome, que se sacrificou no caso Croatoan! Um dos maiores mistérios da humanidade! Uma tribo indígena inteira desaparecendo, sobrando apenas uma palavra entalhada numa árvore: Croatoan! Eu vou lhe contar o que aconteceu! Lúcifer veio a terra naquele dia! E a bruxa teve que sacrificar toda a tribo para que suas almas fossem acolhidas no céu, em vez de lambidas pelo fogo do inferno, com uma única palavra: Croatoan!
            “E, por último, temos Khaled! Ele esteve presente até o fim, não é? Ele morreu na porta, não é? Você deixou-o para trás, quando ele era claramente quem mais sabia sobre o ocultismo e o Reino! Por que ele é Aleister Crowley! O homem com maior conhecimento sobre ocultismo da face da terra! No século XIX ele viveu, e eu o trouxe! Trouxe todos eles, com um único objetivo! O mesmo pelo qual criei o Reino!”
            – Me matar?... – Gabriela perguntou, com a voz triste e cheia de medo.
            – NÃO, SUA TOLA! – A Rainha estava zangada, mas ria-se do mesmo jeito. – Você nunca foi nada neste plano! Um mero zero! Nós... vamos matar Lúcifer!
            E sua risada explodiu.
            – Você é louca! – Gabriela gritou, explodindo em lágrimas.
            – Eu sou? – a Rainha riu-se ainda mais.
            – Lúcifer abusou de mim – disse Jessica, ou Lilith. – Ele me matou repetidas vezes e me fez de escrava... apenas por que não posso morrer. Mas posso sentir dor! E o odeio!
            – Nunca fui reconhecido por meu poder! – disse Kuruno, ou Oni. – Lúcifer! Ele é tido como maior demônio! Mas não tem poder nenhum! Vou mata-lo, e ter o inferno para mim!
            – Lúcifer destruiu meu lar – disse Marieta, ou a bruxa Croatoan. – E me fez matar meus amigos... quero vingança!
            – Lúcifer quer minha alma! – Kurt, ou Nicolau Flamel, disse – Por que sou imortal! Vou mata-lo antes que ele tenha o gosto de me ter!
            – Sou subordinado a Lúcifer – Danii, ou o Vampiro Original, disse – Mas não serei mais quando ele estiver morto!
            – Com Lúcifer morto – disse Khaled, ou Aleister Crowley – serei o maior demonólogo do mundo!
            – Como você vê – a Rainha disse –, todos temos nossos motivos para matar Lúcifer... – Ela gargalhou mais uma vez, e continuou:
            – Você, meu amor... doce Gabriela... é apenas mais uma vítima de tudo isso... que pena, que pena! Lúcifer está me fazendo matar minha própria filha...
            – NÃO ESTÁ! – Gabriela gritou. – NÃO ESTÁ! VOCÊ NÃO PRECISA FAZER ISTO!
            – Ah, preciso... você não sabe o que você é...
            – Uma bruxa!
            – NÃO, MEDÍOCRE! – A Rainha desferiu um tapa em seu rosto. – Você não é uma bruxa! Você foi enganada! Lúcifer enganou Marieta a lhe dizer isso!
            Gabriela arfou, não conseguindo respirar.
            – Então... o que eu sou?
            A Rainha se aproximou, aparentando pesar. E, sombriamente, anunciou:
            – É dito que Lúcifer um dia terá um herdeiro. E este herdeiro trará o fim do mundo... o fim de todas as espécies, e o Juízo Final se dará lugar...
            Gabriela engasgou em lágrimas. Seu rosto, queimando vermelho, contorceu-se de dor.
            – Não... – ela choramingou.
            – SIM! – A Rainha gritou. – VOCÊ É O ANTICRISTO! VOCÊ DEVERÁ TRAZER O FIM DO MUNDO! E seu pai... SEU PAI É LÚCIFER! ELE ENGANOU A TODOS NÓS! ELE FORJOU SUA MORTE NO MOMENTO EM QUE EU DESCOBRI, E ALTEROU SUA MEMÓRIA PARA PARECER ALGO NORMAL!
            A Rainha derramou uma lágrima.
            – Em 1940... quando você nasceu... eu descobri que eu havia sido enganada... que Lúcifer havia me engravidado, para trazer o fim do mundo ao fim da Segunda Guerra Mundial... então, eu tentei lhe matar. Lhe matar, Gabriela, para impedir isso!
            A memória voltou à Gabriela; na noite em que ela descobrira seus poderes de bruxa (que, na verdade, eram poderes de anticristo), o Anjo lhe mostrara... um bebê, de pescoço cortado, morto...
            – Era eu...
            – ERA VOCÊ! Mas eu não consegui mata-la. Eu a matava, e você continuava voltando... então, eu descobri meu propósito. Eu nasci para matar Lúcifer! Deus me deu essa dádiva! E quando eu morrer, serei abençoada por ele! Ele irá confirmar tudo que estou falando! Há há!
            Gabriela pensou que a Rainha estava louca.
            – Mas eu precisava de uma arma para mata-lo... então, descobri as almas de nossos queridos colegas! – Ela apontou para os sobreviventes. – E criei o Reino dos Corações! Lá não existe tempo, de modo que eu e você fomos para lá! E vivemos lá de 1940 até 1995, quando eu disse que você nasceu! E então, voltamos ao mundo real, e vivemos aqui até que você completasse 16 anos... a idade em que você pode ser corrompida... e ativar seus poderes de anticristo! Lúcifer, na verdade, me ajudou nisto... ele enviou aquele maldito Anjo e fez você se ativar! Sim! O Anjo estava do lado de Lúcifer! Era um Anjo Caído, cacete! Um Anjo que se virou contra Deus! Assim como os malditos fantasmas que queriam vê-la fora do Reino! Foram enganados por Lúcifer! Todos, todos tolos!
            Gabriela não conseguiu falar nada. As lágrimas impediam o ar de passar por sua garganta. Impediam as palavras de encontrarem seu significado.
            – O Anjo... – ela sussurrou, e recomeçou a chorar. Ela não conseguia fazer qualquer outra coisa. Estava morta por dentro.
            – E, restam somente duas coisas a fazer, minha doce Gabriela... – a Rainha sussurrou. – Eram 9 sobreviventes, certo? Você sabe o que estas 3 são?
            Ela apontou para Tae, Luciani e Natalie, que se contorciam em suas algemas.
            – Você sabe – a Rainha disse mais uma vez – O que elas são? Depois que eu ativei você, tudo o que aconteceu no Reino dos Corações foi para capturar Natalie, Luciani e Marieta... nem que eu tivesse que mata-las e então trazê-las de volta. Mas você sabe quem elas realmente são?
            Então, as três gritaram. Gabriela observou, enquanto seus olhos caíam dos orifícios oculares. Os seis olhos – dois de cada uma – rolaram e se fundiram, formando somente um olho.
            – E agora, você sabe? – A Rainha continuou. – São as Moiras, as irmãs do destino da mitologia grega. Elas tecem o fio da vida, e controlam o inicio, meio e fim do destino... tudo que está pra acontecer. E elas escreveram que o Juízo Final se dará quando Lúcifer vier à terra... Mas, se elas morrerem... esta previsão perderá a validade, não é?
            Então, os 6 outros sobreviventes correram em direção às Moiras. Gabriela não pôde ver, mas sabia. Os gritos das Moiras denunciavam. Elas estavam sendo estraçalhadas, partidas em pedaços... e por fim mortas. O olho fora esmagado no chão. O destino fora quebrado.
            – E a última coisa a se fazer, minha cara Gabriela... – ela riu-se, e os 6 sobreviventes voltaram-se para Gabriela e a Rainha, suas bocas manchadas do sangue e das vísceras das Moiras. – Você, sendo o anticristo, tem poderes inimagináveis... poderes de Lúcifer em pessoa. Você poderia mata-lo...
            – Então deixe-me mata-lo! Eu irei com vocês! Eu mato ele!
            A Rainha levantou seu dedo indicador.
            – Não, minha querida. Você pode voltar-se contra nós. Você pode... acabar conosco. Não queremos isto... Apesar de que agora você saiba como será o Juízo Final, afinal, não foi o que eu acabei de mostrar em seu sonho? Você não está horrorizada? Não vai tornar as coisas mais fáceis para nós?
            Gabriela se remexeu em suas algemas, chorando e gemendo.
            – Muito bem então – A Rainha deu de ombros. – Eu tentei!
            E se dirigiu ao outro lado da sala, à um pequeno montinho coberto de um lençol.
            – Para onde você acha que foi a força de todos que morreram no Reino? Todos os fantasmas, kitsunes, succubus, vampiros etc? Você acha que desperdiçaríamos? A energia não se cria, Gabriela... ela se transforma!
            A Rainha puxou o lençol, revelando uma gigantesca máquina. Diversos tubos estavam conectadas a ela... e a uma linda garota, ruiva, e muito parecida com a Rainha. Muito mais do que Gabriela poderia ser.
            – Contemple! – disse a Rainha. – Eu apresento a você... minha filha! Eu a transformei na succubus mais poderosa de todas! Ela será a arma contra Lúcifer, tendo absorvido o poder dos mortos do Reino!
            – NÃO! – gritou Gabriela. – EU SOU SUA FILHA!
            – NÃO É! – A Rainha gritou em resposta. – Podemos ter o mesmo sangue, mas alguém de alma podre e infernal como você nunca será minha filha! Nunca mais!
            A Rainha se aproximou de Gabriela.
            – Eu vou soltá-la no Reino agora... – disse a Rainha. – E quando você morrer, seu poder irá para minha filha...
            – Mamãe... – Gabriela choramingou. – Por favor!
            – Minha querida...
            – Eu não sou má! Eu não quero matar ninguém! Eu não...
            – Eu sei que não, minha querida... Eu sei que não. Eu queria que as coisas não tivessem que ser assim... mas... acho que é assim que o coração funciona.
            Ela sorriu largamente.
            As algemas soltaram Gabriela, e ela caiu. Suas pernas não eram fortes o suficiente. Ela olhou ao redor, fitando os cadáveres despedaçados das Moiras; os olhares vorazes dos outros 6 sobreviventes, prontos para mata-la; o sorriso da succubus ruiva, ansiosa para ter o poder de um anticristo; e o júbilo de sua mãe, a Rainha, por ver que tudo estava chegando ao fim.
            – Dez... – disse a Rainha, calmamente.
            As portas do castelo se abriram para Gabriela, revelando o Reino.
            – Nove...
            Gabriela, caída, olhou nos olhos da Rainha.
            – Oito...
            – Por favor... – choramingou Gabriela.
            – Sete...
            Gabriela se levantou gritando.
            – POR FAVOR!
            – Seis...
            – MÃE! POR FAVOR! NÃO FAÇA ISSO!
            – Cinco...
            Gabriela gritou, e arremessou um raio contra a Rainha; contra todos. Ela tinha que matar todos. Era o único jeito de sobreviver... mas o raio não atingiu ninguém. A Rainha riu, satisfeita, e Gabriela tremeu de horror.
            – Quatro...
            Gabriela correu, aos tropeços, em direção à saída, e sentiu o vento do Reino chicotear-lhe o rosto. Que escolha tinha, senão fugir, compactuando com os jogos sádicos da Rainha?
            – Três...
            Ela gritou. Não podia terminar assim. Não podia! Aquela não poderia ser a vida dela... era um novo pesadelo!
            – Dois...
            O fim... estava chegando ao fim... sua morte estava chegando...
            – Um.
            A gargalhada da Rainha ribombou pelo Reino, sádica, enquanto os 6 sobreviventes, sedentos por sangue, atravessavam a porta.
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