Olá galero :) Este é o penúltimo capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES, e, como tal, semana que vem será o último. Lembrem-se: AO FIM DE UMA HISTÓRIA, EU SEMPRE FAÇO UM POST DE AGRADECIMENTOS, mas este post de agradecimentos terá também mais informações sobre o livro ECOS, que pretendo lançar nas livrarias este ano. Enfim, estejam ligados! Pois, sexta, dia 11/05, tem o último capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES e no dia 18/05, teremos o post de agradecimentos! Enfim, curtam o penúltimo capítulo, e estejam vorazes por respostas!



17

1

            Enquanto eles continuavam a correr, as bolas de fogo que engoliam a floresta continuavam a serem cuspidas de sabe-se lá onde. As cinzas caiam e a fumaça adentrava os pulmões dos desprotegidos, isto é, Khaled. Gabriela e Marieta estavam protegidas pelo filtro de ar que criaram a partir das habilidades de bruxa de uma e dos braceletes de outra. Já os fantasmas não precisavam respirar. Apenas Khaled inalava o ar poluído, o que acabava com sua capacidade de correr mais rápido.
            As bestas que continuavam a lhes perseguir eram despedaçadas por raios e etc. Não havia tempo nem espaço para combate-las a finco, logo, tinham de ser abatidas ainda a metros de distância.
            – Gabriela! – Khaled gritou rouco, antes de atirar tanto na cabeça de um monstro que fê-la explodir. – Eu não poderei te salvar para sempre!
            Gabriela atirou um raio, destroçando uma besta que pretendia abocanhar Khaled por trás.
            – Eu que o diga – ela respondeu, e então se abaixou: um lince deformado, provavelmente cobaia das mesmas experiências de onde nasceram os Sugadores, pulou sobre ela. Ao pousar, Gabriela teve uma boa visão de grotescas nove caudas em forma de facas afiadas que ligavam-se à boca, formando uma mandíbula cortante, antes de atirar uma de suas flechas, que perfurou o olho da criatura. Ela era mais frágil do que os Sugadores, de modo que caiu morto muito rapidamente.
            Outros de sua espécie surgiram, e não restou nada a fazer além de correr.
            Quando os monstros estavam todos mortos, Gabriela olhou para o céu: estava escurecendo.
            – Está voltando a ser noite novamente – disse Khaled, abaixando o cano quente de sua arma. A munição acabara naquele momento, de modo que ele teria que sacar sua espada e escudo.
            – É a Rainha – um dos fantasmas disse. – Ela tomou controle da situação novamente... Ela sabe que esta é a noite da última batalha.
            – Então façamos que seja – respondeu Gabriela. – Ela não vai parar até que estejamos longe daqui...
            – O jeito difícil! – Marieta disse.
            – Sim – o fantasma respondeu. – Há essa outra saída, mas é quase impossível de chegar lá... por que fica no covil da Rainha.
           
2

            Eles continuaram a correr, até encontrarem, no fim da floresta, a imensa imagem de um castelo.
            – Mais um?!
            – É o mesmo em que vocês estiveram – disse o fantasma. – Ou quase, por que vocês não estiveram em castelo nenhum. Foi apenas uma ilusão criada para vocês. Este é o castelo verdadeiro.
            Escondidos nas árvores, eles viram o imenso exército que formava uma guarda ao redor do castelo.
            – Tem pelo menos dez vezes o que enfrentamos lá trás... – Gabriela sussurrou, desanimada e aterrorizada.
            – Isto não será problema. – disse o segundo fantasma, calado até então, e correu gritando para o centro do exército. As lanças, espadas e flechas logo o estraçalharam e desfiguraram, tornando seu corpo uma mistura de ossos e carne irreconhecível.
            – Ele sabia o que estava fazendo. – disse o fantasma que restara.
            E então, o exército de fantasmas que eles haviam deixado para trás explodiu de dentro da floresta. Os fantasmas corriam na direção do castelo da Rainha, brandindo espadas e matando Sugadores e vampiros. Morriam no caminho também. Mas a intenção nunca fora ganhar esta batalha ou sair dali com vida: era simplesmente criar distração suficiente para que Gabriela e os outros pudessem encontrar a saída do Reino, e fugissem para o mundo de origem.
            – Corram! – gritavam. – Não temos muito tempo!
            E eles obedeceram, à medida que a noite caía, até que o breu se tornasse intenso. A única coisa que, novamente, iluminava os campos de batalha era o fogo das explosões, ornando o sangue vermelho.
            O clangor das espadas quase calou a explosão da floresta, que se transformou em puras chamas. Voltar agora não era opção. Eles tinham de seguir em frente.
            Gabriela desviava das pesadas espadas que descreviam arcos em sua direção, e continuava a correr. Atirando flechas, que explodiam o que atingiam, ela abria seu caminho. Khaled fazia chocava seu escudo contra espadas que zuniam em sua direção, e matava os inimigos sem dó. Ele teve de várias vezes pular os corpos, tanto de aliados quanto de inimigos; e, às vezes, os mesmos sofriam de combustão espontânea sem nenhum motivo aparente, a não ser, talvez, o poder da Rainha.
            Marieta criou facilmente um escudo mágico que protegeria os três pelo caminho todo. Flechas, espadas, inimigos, tudo e qualquer coisa que fosse lançada ou investisse contra eles seria desviada. Gabriela reforçou o escudo, de modo que tornou-se tão forte que arrastaria aqueles que se chocassem contra ele. Mas os três teriam que correr no mesmo ritmo, senão, ficariam para trás.
            – Pare! – Khaled gritou. – Parem de correr! Eu... eu não aguento!
            Ele não conseguia respirar, devido à fumaça que inalara.
            – Não podemos! – Gabriela respondeu. – O portão! Está ali! Olhe! Nós vamos conseguir!
            E foi então que o fogo engoliu o campo de batalha.
            O escudo não foi suficiente para pará-lo: ambos explodiram, jogando os três sobreviventes para trás. Mas as labaredas, vivas, não sabiam o que era recuar: juntas, Gabriela e Marieta tiveram de criar novos escudos, que eram facilmente destruídos. A cada choque, um novo escudo. Eles se levantaram, pois não fazia sentido continuarem caídos no que parecia que seria um combate sem fim.
            Os escudos continuaram a serem criados, mas era difícil fazê-lo quando se estava correndo. A entrada do castelo estava cada vez mais próxima...
            As labaredas alcançaram o grupo no momento em que as portas se abriram com uma explosão da magia de Gabriela, e se fecharam logo em seguida.

3

            O fogo chamuscou a calça de Gabriela e fez um ponto de mais ou menos 15cm de diâmetro em sua coxa transformar-se em carne viva. Ela gemeu de dor, mas não parecia ter acontecido grande coisa com Khaled ou Marieta.
            Porém, não havia tempo para lamentos. O corredor estava cheio de guardas vampiros, trajados de belas armaduras e espadas, que estavam surpresos por alguém ter passado pelo exército. Eles não tiveram tempo para reação: Marieta atingiu-os com a magia de seus braceletes. Eles não morreram, protegidos por suas armaduras, mas a força foi o suficiente para derrubá-los e desacordá-los.
            – Levante! – disse Marieta para Gabriela. – Vamos!
            Mas, a medida que eles avançavam por corredores, viram o quão perdidos estavam.
            – Onde é esta saída? – Marieta se perguntou. – Onde está, onde está...
            Os guardas ressurgiam dos corredores.
            – Não! Merda!
            O sangue respingava na parede, à medida que a batalha tomava conta. Eram eles três contra milhares, que saíam dos mais diversos lugares. Os corredores não tinham fim, e, passados trinta minutos de correria, eles ainda não haviam passado por um segundo corredor. O castelo que eles haviam habitado podia ser uma ilusão baseado no castelo em que agora se encontravam, mas este aqui não era nada parecido.
            Alguma força invisível matou todos os guardas num corredor, deixando seus corpos caírem. Então, o fantasma que havia lhes acompanhado até ali se revelou.
            – Eu posso me tornar invisível – disse ele. – Eu abri caminho para vocês. Mas por pouco tempo! Eles voltarão logo...
            Mas seu corpo foi partido ao meio, e a metade de cima desapareceu no ar. O que se revelou foi um gigantesco monstro sem olhos, quase do tamanho exato do corredor, com quatro diminutas patas e um corpo excessivamente largo. Aparentemente, o fantasma não era o único que podia ficar invisível.
            Tornando-se invisível de novo, o monstro moveu-se muito rapidamente. Khaled foi arremessado para o outro lado, e com certeza havia quebrado algumas costelas.
            Gabriela gritou, atirando raios para todo o lado, mas nunca saberia se estaria atingindo ou não. Então, uma ideia passou por sua cabeça: ela tomou nas mãos um punhado do sangue que escapulia do corte aberto no pescoço de um dos guardas mortos, e atirou o líquido escarlate numa direção qualquer. O sangue ficou suspenso no ar, como tinta em relevo, revelando o monstro.
            Gabriela atirou sua última flecha, que explodiu na cara da criatura. Explodindo, o monstro caiu para trás, mas o fogo era voraz e engolia o corredor.
            – Levante-se! – Gabriela gritou para Khaled, e, não conseguindo fazê-lo respirar direito, contentou-se em levantar-lo no ar com magia.
            As duas correram, levando Khaled no encalço, enquanto o corredor explodia. Elas rapidamente tiveram de achar uma maneira de contorna-lo, e seguiram em frente.
            – Para onde iremos? – Marieta perguntou-se novamente. – Onde está a saída?
            Eles encontraram um corredor ainda maior do que aqueles que já haviam passado. Havia uma porta no final. A única porta que viram desde que entraram naquele castelo.
            – É ali... – disse Gabriela.
            E eles entraram.

4

            O lugar em que se encontravam era completamente diferente do castelo. A única iluminação que havia vinha de uma lâmpada elétrica, vário metros a frente... e de uma pequena sala, muito branca... um elevador.
            – Vamos! – gritou Gabriela.
            Mas então, Khaled parou de flutuar no ar.
            – O quê...
            – A magia – Marieta pensou. – A magia não funciona aqui...
            – Não! – Gabriela sussurrou. – Vamos arrastá-lo...
            Mas elas ouviram o som de gemidos guturais, vindos da porta da qual ela acabara de sair.
            – Merda! Merda! Merda!
            – Gabriela – Khaled fez esforço para falar. – Vai.
            – Não! – ela gritou de volta. Khaled riu.
            – Engraçado... chegar até aqui e morrer na porta...
            – Não! Você não vai morrer!
            – Leve-a – Khaled disse para Marieta, e a mulher obedeceu.
            – Não! – Gabriela gritava. – Não!
            Elas entraram no elevador, e nesse momento, a sala escura foi invadida pelos guardas e monstros. Uma bala foi enfiada na cabeça de Khaled, enquanto os monstros devoravam seu corpo...
            Tudo isso no intervalo de três segundos, enquanto a porta do elevador fechava.
            Elas se mantiveram em silêncio durante toda a subida. Gabriela não derramou nenhuma lágrima, mas estava inegavelmente sofrendo. E, tendo Marieta a mesma expressão dolorida de Gabriela, ela também estava.
            O elevador se abriu, vários andares acima. A sala estava vazia, e um corredor inteiro, alvo, era visível... longo, porém, no fim, havia uma porta, tão brilhante quanto o próprio elevador...
            A saída.
            Elas correram.
            – Ali está! – Marieta gritava em júbilo. – Ali está!
            Gabriela sorria. A morte de Khaled estava fresca em sua memória. O sangue de seu amigo escorrendo enquanto monstros arrancavam nacos de seu corpo. Assim como a morte de Kurt, Luciani, Tae, Kuruno, Natalie, e, por que não?, Jessica e Danii. Os amigos que fizera naqueles poucos meses... mortos, ou num destino ainda pior. Mas a morte deles não permaneceria sem sentido. Uma vez lá fora, ela procuraria as últimas respostas, ao lado de Marieta... e destruiria o Reino. Só então, aquelas almas poderiam descansar em paz, e o sangue não seria mais derramado.
            Os momento em que passara no Reino dos Corações passaram por sua cabeça: o primeiro dia, no Hotel Overlook, o terror que vivera ao ser capturada, a primeira visão do Anjo, o fantasma; a primeira succubus; a visão que o Anjo lhe mostrara; as negociações com o governo, no castelo; as revelações de seu pai; a guerra. Como flashes, ela sabia que, com lágrimas nos olhos, deixaria aquele lugar, e encontraria a paz... mesmo que momentânea.
            Ela e Marieta, em júbilo, corriam, cada vez mais próximas da saída...
            Mas as luzes se apagaram, deixando apenas a porta aberta brilhando tão intensamente que era impossível ver o que havia além dela.
            – Mas o quê...
            Então, o corredor tremeu.
            Elas ainda não podiam usar magia, mas sabiam que havia algo se aproximando. Algo gigantesco. Algo que as mataria.
            Pelo pouco da luz da porta que iluminava suas faces, elas podiam ver o terror no rosto uma da outra.
            – Corra! – gritaram, e assim fizeram.
            A coisa continuava a se aproximar, mais e mais... Elas gritavam, desesperadas, desarmadas e indefesas...
            – Corra! Corra!
            Houve um grande grito, e Gabriela olhou por somente um instante. Marieta havia caído, e ela foi arrastada para as sombras. Então, sangue espirrou no rosto de Gabriela.
            Ela gritou.
            E não soube mais o que aconteceu: uma explosão sem fogo arremessou-a na direção da luz. Ela bateu na parede e caiu. Com a cabeça girando, não entendia nada... só via a luz tomando cada vez mais conta do corredor, até que...
            Ela desvaneceu, sem saber o que aconteceria ao fim daquele efêmero instante, que poderia durar toda sua vida.
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