Olá galera ;) Estamos de volta com os últimos capítulos de O REINO DOS CORAÇÕES. Lembrando que o último capítulo será o 18. Bem, estando próximos do fim, eu gostaria de lembrar que farei um anunciamento e alguns agradecimentos numa postagem depois do fim, como sempre faço, e gostaria que vocês lessem para saber qual será a próxima história a ser postada no blog, e também sobre o livro ECOS, que lançarei este ano. Falando nele, aqui está uma foto dele para vocês:


Claro que ainda não encontrei nenhuma editora, então essa não é a capa de verdade. Perdão pela qualidade, mas está basicamente escrito "O REQUIEM DAS GUERRAS: Ecos - Livro 1". O RÉQUIEM DAS GUERRAS é o nome da série. Enfim, na postagem especial, eu falarei mais para vocês. Postarei no grupo do facebook e também no orkut, podem deixar. Enfim, leiam o antipenultimo capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES!


16

1

            A luz recém-descoberta do sol que levemente atravessava as nuvens de um branco leitoso iluminava o campo de batalha. O sangue derramado que manchava as cinzas do que antes era uma grande plantação parecia mais dramático e mais cruel agora que podiam vê-lo melhor, sem a escuridão da noite. Bem como os corpos: alguns haviam morrido com um ferimento comum e tímido, como uma espada cravada num órgão vital ou uma flecha no peito; outros, de forma mais sangrenta, como pescoços degolados, cabeças decapitadas ou mesmo corpos partidos ao meio, exibindo os órgãos internos espalhados, massas de tecidos humanos que pareciam todas terem a mesma cor.
            Kurt tinha sido um dos que morreram com ferimentos mais escondidos, que poderiam ser cobertos pela roupa. Não fosse pela palidez e pela quietude – ele obviamente não podia se mover –, poderia passar por um dorminhoco. Com Tae era a mesma coisa: seu pescoço fora quebrado na batalha, e, por mais que sua cabeça estivesse retorcida num ângulo estranho, não era nada tão fora do comum ou repugnante. Já Kuruno era um caso especial: sua cabeça fora arrancada. Como aquele deveria ser um rápido funeral, os sobreviventes e seus aliados não deviam se dar o luxo de perder muito tempo honrando os mortos, mas Gabriela fez questão que a cabeça e o corpo de Kuruno fossem mantidos juntos, nem que isso significasse procurar por aquele campo inteiro. Luciani, a primeira do grupo a morrer naquela noite, não foi encontrada. Seu corpo havia sido incinerado numa das explosões que vieram do Reino.
            Então, todos os mortos estavam reunidos. Alguém do grupo de fantasmas – os aliados, como logo se provaram – gritou algo sobre 217 corpos. Não havia como enterrá-los, muito menos oferecer suas almas a Deus – apesar destas palavras terem saído com algum ceticismo da boca de um dos fantasmas mais antigos –, então, o que restava a fazer era armar uma grande pira em chamas e queimar os corpos. Tanto dos humanos mortos quanto dos inúmeros fantasmas, que, como havia sido dito na noite da batalha, deviam agora queimar no inferno.
            Gabriela, Marieta e Khaled, os únicos dos 10 sobreviventes originais a realmente sobreviverem, observaram na primeira fila enquanto os corpos encontravam as chamas. Os fantasmas queimavam de maneira engraçada: assim que as labaredas envolviam seus cadáveres, a carne derretia como gelo e tudo o que restavam eram ossos que crepitavam como algum tipo de sal. Mas, quando chegou a vez de seus amigos, ela teve que segurar um arrepio, muito parecido com as lágrimas que já segurava há muito tempo. De queixo erguido, ela observou primeiro Tae cair nas chamas; primeiro, ela não passou de uma sombra, e então, desapareceu, sem que houvesse a chance de ver sua carne queimando. Era bom não poder ver, mas isso não mudava o fato de que ela estava morta. Assim foi com Kuruno, também, apesar de os fantasmas terem empregado menos delicadeza, jogando primeiro o corpo e depois a cabeça.
            Mas quando chegou a vez de Kurt, foi diferente.
            Seu corpo pendeu enquanto dois fantasmas carregavam-lhe pelos braços e pernas. Apesar de esperar alguma expressão de dor, Gabriela não viu nenhuma reação em seu rosto. E como poderia? Estava morto. Não havia o que se fazer.
            Ela não tentara ver o ferimento que a espada deixara no peito de Kurt. Ela não conseguia. Era bom não ver, era bom. E seria melhor se os olhos pudessem enganar a realidade. Era como Tae; ela estava morta, de que adiantava não ver? Mas não era como Tae. A morte de Tae não seria tão sentida no coração de Gabriela. Essa era uma cruel verdade que ela podia ver.
            Gabriela não conseguiu ficar parada.
            – O que vai fazer? – Marieta perguntou tristonha, mas não teve resposta.
            Gabriela caminhou até os fantasmas que carregavam o corpo de Kurt. Mandou-os se afastar, e assim eles fizeram. Já fazia silêncio desde o inicio do funeral, mas agora, mesmo o vento pareceu aquietar-se; restava somente o crepitar da pira.
            Gabriela tentou arrastar Kurt, mas isso sujaria a jaqueta dele. Não, a jaqueta não! Ela não podia destruir nada em seu corpo... ele deveria permanecer intacto. A lembrança deveria permanecer intacta. Então, Gabriela jogou o corpo de Kurt sobre seus ombros, e, com magia, carregou-o. Entrou no fogo, pois, sendo uma bruxa, poderia muito bem enfeitiçar-se para não sofrer nenhum dano. Então, deitou Kurt nas brasas, e observou-o queimar. Tinha que observar. Tinha de vê-lo desaparecer... e, estando dentro do fogo, suas lágrimas evaporaram ao saírem de seus olhos. Gabriela permaneceu lá dentro o tempo, chorando mais do que havia chorado em toda sua vida.
            Quando estava terminado, ela saiu de dentro das chamas cobertas das cinzas de Kurt, que carregaria até o fim. Fosse no Reino Dos Corações, ou no mundo ao que voltaria... e aonde faria a morte de Kurt ter algum significado. Ninguém que ali morrera partiria em vão. Seus sacrifícios seriam valorizados quando aquele terrível lugar fosse destruído.
            - Não se preocupe – disse um fantasma desconhecido. – Vocês logo estarão fora daqui.
            – Vocês também – Gabriela respondeu friamente, porém sem intenção. – Assim que sairmos daqui, eu prometo que essa terra será destruída. Eu prometo que vocês irão encontrar o descanso eterno.
            Então, Marieta e Khaled os seguiram até um pouco mais afastado da multidão que observava a pira queimar.
            – Eu não sei – respondeu Gabriela quando perguntada sobre a saída do Reino. – Meu pai não me disse... Ele e o Anjo apenas disseram que deveríamos ir além deste campo, e a saída estaria lá.
            – É um grande campo – respondeu o fantasma. – Mas nós os ajudaremos a atravessar, senão...
            Ele suspirou, enquanto os olhares dos sobreviventes caíram sobre ele.
            – Eu conheço outra forma – continuou –, mas não é exatamente agradável. Mas, como não podemos perder muito tempo, se não encontrarmos essa saída... bem, teremos que prefiro que nos esforcemos um pouco mais com essa dica de seu pai.
            – Gabriela – Marieta chamou. – Uma vez que estivermos lá fora... teremos que encontrar a Rainha, e então, muito provavelmente... teremos de voltar. Você sabe disso, não sabe?
            – Sim. Mas antes, cuidarei de minha mãe. Ela não consegue sobreviver sem mim... então, é melhor deixa-la preparada. Se não sei se conseguirei sair daqui viva agora, que dirá se eu tiver de voltar.

2

            Assim que a batalha recomeçou, rapidamente o sangue voltar a manchar o campo.
            Os inimigos vieram do norte. Os vampiros não puderam voltar, pois, já que a eterna noite acabara, eles queimariam se saíssem de seus abrigos. Isso se algum deles conseguira sobreviver. Desta vez, havia somente Sugadores e os mais diversos tipos de monstros. Um deles parecia uma grande sanguessuga, com pele escorregadia e uma gigantesca boca assassina. Um fantasma rapidamente matou-o ao deslizar, voando pouco mais de cinco centímetros acima da terra como só fantasmas conseguiam fazer, e passando uma espada no pescoço do monstro, que caiu pesadamente, esmagando incontáveis corpos ora vivos, ora mortos.
            Os próprios fantasmas às vezes matavam uns aos outros, confusos. Eles nem sempre podiam ver quem atingiam e, quando atingiam um amigo, tinha que deixar o cadáver cair e voltar para a batalha. Não havia tempo para compaixão, nem mesmo para misericórdia.
            Gabriela, Khaled e Marieta haviam sido instruídos a correr pelo campo de batalha, sem se preocupar em batalhar.
            – Vocês devem chegar à saída o mais rápido possível. Alguns de nós, os fantasmas, irão com vocês.
            – Não se preocupem conosco – Gabriela respondeu – Iremos nos defender.
            – Eu acho que não – o fantasma respondeu. – Vocês sequer tem as armas apropriadas!
            Assim, Marieta recebeu braceletes que aumentavam a capacidade de seus exorcismos até o poder de uma bruxa (como logo se provou, ao desintegrar um Sugador inteiro), Khaled ganhou uma espada e um escudo – por mais que não quisesse se livrar de suas armas de fogo, carregando-as nas costas – e Gabriela ganhou um arco-e-flecha comum. Sendo uma bruxa, ela poderia aumentar seu poder.
            – Cuidado! – ela gritou, atirando uma flecha e perfurando a cabeça de um Sugador. Com sua magia, fê-lo explodir com um raio numa massa de carne e sangue, e o raio atingiu os outros que estavam por perto. No fim, quatro Sugadores e um monstro pequeno haviam caído.
            Ainda assim, era difícil seguir a indicação do fantasma de seguir sem batalhar; volta e meia, uma criatura com corpo humano, porém tão contorcido que conseguia dobrar-se ao meio e tão pegajoso que parecia um feto mal formado, pulava nas costas de um dos sobreviventes. O pior era sua saliva, venenosa e acida. Um pouco do cuspe caíra sobre o braço de Khaled, e o ferimento não parou de sangrar.
            Gabriela matou aquela criaturinha com uma flechada no pescoço. Como não podia desperdiçar flechas, aproximou-se do corpo e recuperou sua arma.
            – Vamos! – gritou ela. – Continuem!
            Era impossível ver o fim do campo daquela distância; o fogo contaminava cada canto. Depois de correr um bocado, os três começaram a se cansar, ainda mais por que tinham que desviar dos corpos que haviam caído pelo caminho.
            – NÃO! – gritou Marieta quando a língua de três metros de um vampiro em transição envolveu seu pescoço; aqueles que ainda não haviam se transformado em completos vampiros ainda não queimavam no sol, e muitas vezes, pareciam não defender nenhum dos exércitos na batalha; nem da Rainha, nem dos fantasmas. Estavam ali só para matar, não importava quem.
            Khaled cortou a língua, fazendo sangue esguichar, e partiu a cabeça do vampiro ao meio. Então voltou a correr.
            As explosões levantaram poeira e fumaça pelo campo, bem como o cheiro pútrido de sangue morto. Era difícil ver qualquer coisa, mas os três continuavam correndo junto, pulando corpos e deixando o perímetro para trás. Até que viram algo no fim. Começou como uma mancha, evoluindo para algo gigantesco, que envolvia todo o Reino...
            – Uma floresta! – Gabriela gritou, atraindo atenção o suficiente para que uma nova língua envolvesse seu pescoço; esta, porém, estava bem próxima, de modo que bastou um soco carregado de raios para explodir a caixa torácica do vampiro em transição. O sangue e os pulmões voaram, negros.
            – Ei! – um grupo de 3 fantasmas se aproximava. – Nós vamos com vocês!
            Os seis, então, entraram na floresta.

3

            As folhas, largas e muitas vezes afiadas, chicoteavam-lhes o rosto. O barulho das explosões e dos gritos da batalha pareciam distantes entre todas aquelas árvores.
            – Rápido! – Gabriela sussurrou, sem folego.
            – Tem certeza que deveremos seguir em frente? – Khaled perguntou.
            – Claro! Não há outra saída! Deve estar aqui na floresta!
            – Então, em qual direção seguiremos?
            Essa pergunta Gabriela não sabia responder.
            Eles chegaram numa clareira, e, assim, o primeiro dos fantasmas foi pego: de cima, veio um Sugador, que puxou-o com suas quatro mandíbulas e engoliu a cabeça do fantasma. Gabriela rapidamente matou o Sugador.
            Mas este não era o maior de seus problemas: uma bola de fogo foi arremessada, não sabia-se de onde. Atingiu uma das árvores próximas, que rapidamente se incendiou e caiu.
            – Corram! – Marieta gritou, e, com seu bracelete, criou um impulso mágico o suficiente para empurrar a árvore pare longe. – Continuem correndo!
            Mas a floresta muito rapidamente se incendiou.
            As árvores, queimando, muito rapidamente tombavam no caminho. Eles tinham que refazer tudo ao dar a volta, tentando não se ferir. Mas, tão rapidamente quanto a floresta era reduzida a cinzas, os monstros começaram a surgir.
            – NÃO! – Gabriela gritou, e mirou uma flecha em lugar nenhum; ela atingiu uma árvore, que explodiu em chamas tão gigantescas que criou um muro vermelho, impedindo os monstros que não fossem à prova de fogo de passar.
            As bolas de fogo continuavam a serem atiradas, bloqueando o caminho. As explosões contaminavam todo o lugar, junto das flechas que Gabriela atirava. Marieta varria a floresta, procurando algum caminho... Mas os monstros achavam novas entradas, cercando-os...
            Eles correram como nunca haviam corrido.
            As balas de Khaled estavam ficando escassas. Não! Não poderia acabar assim tão cedo! Eles estavam sozinhos na floresta, ninguém viria socorrer-lhes...
            Então, quando uma nova explosão sacudiu a floresta, fazendo novas árvores tombarem, eles deram de cara com uma nova clareira... com um lago em seu centro, impedindo-lhes de passar para o outro lado...
            – Merda! – Gabriela gritou. Eles estavam encurralados.
            Mas, de repente, todos os inimigos haviam sido esmagados: um novo e gigantesco monstro havia surgido. Os braços de gorila faziam companhia ao corpo de uma cobra gorda, e, como tal, não havia pernas. A cabeça tinha quatro olhos grotescos, e uma boca maior do que tudo que Gabriela já vira.
            O monstro socou a própria Gabriela.
            – GABRIELA! – Khaled e Marieta gritaram, enquanto o punho do monstro voltava-se para eles. Gabriela não viu o que acontecia enquanto caía no lago, e afundava...

4

            Quando ela voltou à superfície, não viu uma floresta. De fato, não havia nada de verde nas paredes que a envolviam, muito menos na banheira na qual estava mergulhada...
            Era o banheiro de sua casa! Sua casa! Ela estava de volta! Ela sorriu dentre a água, esquecendo-se momentaneamente de Khaled e Marieta. Havia algo mais importante. Sua mãe: como ela estaria? Será que o tempo havia passado? Ela teria se cuidado?
            Gabriela tentou levantar, mas percebeu que não conseguia. Nua, ela olhou para o próprio corpo molhado, e sentiu-se puxada para baixo...
            Mergulhando e afogando-se, ela voltou para a superfície; estava no Reino Dos Corações.
            – Merda! – ela gritou novamente, e, olhando ao redor, viu o gigantesco monstro. Ou o que sobrara dele. As partes explodidas de seu corpo manchavam o verde da floresta, bem como os rostos e roupas de Khaled, Marieta e dos fantasmas. Eles voltaram-se para o lago.
            – Gabriela! – Marieta gritou. – Pensei... Pensei que você tinha morrido!
            – Não – Gabriela estava irada –, mas encontrei a saída do Reino. É o lago. Mas não permaneci em casa quando mergulhei nele! Ele me trouxe de volta para o Reino!
            – A Rainha – um fantasma disse. – Ela fechou todas as passagens, se existiam outras...
            Eles suspiraram, olhando para além do lago.
            – Bem... – continuou o fantasma. – Acho que teremos tentar sair da forma não tão agradável.
            E, juntos, atravessaram o lago para o outro lado da floresta.
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