Olá galero, boa páscoa para vocês! O REINO DOS CORAÇÕES está entrando numa pausa a partir deste capítulo, e só voltará dia 27/04! Curtam ele, pois faltam só mais três capítulos para o último (o capítulo 18)!


15

1

            Enquanto os corpos de Sugadores ficavam pelo caminho, constatou-se que a munição inteira havia surgido do nada em grandes proporções: o último ato do Anjo, antes de seu derradeiro momento. Armados, os 7 honraram o sacrifício: seus inimigos caíam mortos pelo Reino, enquanto eles avançavam de volta para o campo de batalha.
            Gabriela explicou-lhes tudo o que precisavam saber.
            – Temos que correr para longe! – dissera. – A saída está lá! Naquela direção!
            – O que é a saída?! – Kurt gritou, atirando contra os monstros em seu caminho. – Como vamos saber o que é?!
            – Eu não sei! – Gabriela gritou. – Ele me disse... ele me disse somente para ir além!
            – Quem lhe disse?!
            – Meu pai!
            Os canos de todas as armas se abaixaram à voz de Gabriela.
            – Seu... pai? – Khaled admirou-se.
            – Como ele está envolvido nisto? – Marieta perguntou-se. – Será que todos estão envolvidos? Todas nossas famílias?
            – Bem, melhor para mim – respondeu Kurt friamente. – Eu não tenho família.
            Então, lembrou-se das tardes gastas em seu laboratório particular, criando novas misturas e substâncias para serem usadas e vendidas mais tardes. E que substâncias!, ele pensava. O vício desenvolvido por elas era algo incontrolável. Nada poderia superar as drogas que ele criava.
            Mas então, ele foi desperto de seu devaneio pelo grito de Tae. Mas ela não tinha medo por si mesma... estava horrorizada.
            Todos olharam na mesma direção de Tae: Luciani. Uma flecha em chamas havia atravessado sua cabeça, entrando por um lado e saindo pelo outro. A flecha havia se apertado tanto lá dentro que os globos oculares se tornaram esbugalhados, como se fossem saltar das órbitas por não haver mais espaço em seu crânio.
            A ponta da flecha continuou a queimar enquanto ela deixava seu corpo cair, morta.
            Quando Danii morrera, não houve remorso; ninguém gostava dele, e quando ele acabou por se transformar num vampiro, sua morte foi ainda menos sentida. Já com Natalie, todos estavam muito mais preocupados com o fato de Jessica ser um demônio do que com a perda de uma vida, de modo que mal houve tempo de sentir falta ou vingar sua morte.
            Mas Luciani... ela estava bem na frente dos 6 restantes. Ela morreu tão rapidamente que não houve nada a se fazer. E, talvez, poderia ter sido impedida. Mas a morte tocou-a muito mais rápido.

2

            – Vamos – Gabriela falou, sentindo a voz entalada na garganta.
            – O... o quê?
            Ela suspirou, sem conseguir desviar os olhos do corpo de Luciani.
            – Não há mais nada que possamos fazer... Temos que sair daqui.
            – Gabriela – Kurt interviu. – Ela acabou de morrer! Na nossa frente!
            – E eu não quero que o mesmo aconteça com mais ninguém! – ela protestou. – Então vamos seguir em frente, merda, e sair deste lugar antes que mais alguém se machuque!
            Então, ouviu-se o estampido de uma explosão.
            Olhando para trás, eles viram: todo o Reino que eles conheciam estava sendo engolido por diversas chamas. As casas eram levantadas no ar, antes que as chamas as vaporizassem, e o concreto virava poeira. A explosão tomava proporções assustadoras, a ponto de engolir a tudo e a todos.
            – Corram!      
            Olhando uma última vez para o corpo de Luciani, Gabriela obedeceu sua própria ordem.
            As chamas eram muito mais velozes e vorazes do que os sobreviventes jamais seriam. O gemido ensurdecedor do fogo engolindo toda a vida ecoou pelo Reino, fazendo a batalha que eclodia lá em baixo parecer música.
            Correr não adiantaria de nada.
            – Se separem! – Gabriela gritou, e então voltou-se para a onda de chamas, parada.
            – GABRIELA! – Kurt gritou.
            – Continue correndo!
            – Você enlouqueceu?!
            – EU MANDEI CONTINUAR CORRENDO!
            Então Kurt parou também, enquanto todos os outros continuavam a fugir.
            Gabriela respirou fundo, olhando o fogo que avançava em sua direção. Ela sentiu a força subindo por seu peito, enquanto o sangue corria forte por suas veias. O medo alimentava sua alma, por mais que a determinação fosse a prioridade em sua mente. Ela levantou as mãos, pronta para o ataque...
            O raio partiu de sua mão, ligando-a como uma corda até as chamas. A claridade dele contrastou-se com o vermelho ígneo. Um buraco abriu-se dentre o fogo, que logo criou vida para lutar com o raio...
            Ambos se dissiparam, mas a quantidade de chamas apagadas não era nada em relação àquelas que continuavam a avançar.
            – Gabriela, temos que sair daqui...
            – Cale a boca! – ela suspirou, sentindo as lágrimas descerem por seu rosto. – Cale a boca!
            O segundo raio partiu de suas mãos, extinguindo novas chamas. As chamas que matariam seus amigos. Que engoliriam o corpo de Luciani. Mas Gabriela não as deixaria! Elas não tinham direito! Eram 10 quando chegaram, e agora restavam 6! Ela não poderia...
            O terceiro raio até destruiu algumas das chamas, mas não foi o suficiente para parar todas.
            ... não poderia perder mais ninguém!
            Mesmo que não os conhecesse ou amasse!
            Bastava de sofrimento, dor e perda!
            – GABRIELA!
            Ela gritou.
            A onda de raios que partiu de seu corpo fez toda a destruição à sua frente levantar-se novamente no ar, para voltar-se contra as chamas. O fogo entrou em choque com os raios, causando gigantescas explosões que ganharam o céu. A luz iluminou todo o Reino, como a Lua da eterna noite jamais fez.
            Gabriela e Kurt ficaram parados, observando as explosões como fogos de artifício. Eram belas... e mortais.
            A garota deixava as lágrimas escorrerem por sua face, até que decidiu limpá-las.
            – Vamos – disse ela. – Temos que reunir os outros.

3

            – Kurt! – gritou ela, atravessando o campo de batalha onde Sugadores, vampiros, e todo outro tipo de criatura lutavam num banho de sangue. – Ali!
            Marieta exorcizava os Sugadores, enquanto Khaled neles atirava. Uma succubus tentou se agarrar às costas dos dois, mas Gabriela rapidamente partiu-a ao meio.
            – Marieta! – gritou ela, protegendo-a novamente.
            – O que está acontecendo? – perguntou Khaled, sem deixar de atirar nos monstros.
            – Temos que ir para além do campo, eu já disse! – ela olhou de Khaled para Marieta para Kurt. – Temos que achar os outros!
            – Nós não teremos paz para fugir enquanto essa batalha não estiver terminada! – argumentou Khaled.
            – Temos de tentar! Não podemos ficar aqui para sempre, nem esperar mais um segundo sequer! Senão podemos acabar mort...
            Ela foi interrompida por um grito que se sobrepôs a toda a batalha.
            Eles agora viam: Tae. Um vampiro, completamente transformado, estava agarrado a ela, segurando-a pelo pescoço...
            – Não! – Kuruno gritou, surgindo da multidão.
            – Ora, ora – disse o vampiro. – Não só peguei uma como encontrei a gangue inteira... – Tanto Gabriela quanto os outros estavam se aproximando. – A Rainha com certeza irá me dar as congratulações!...
            – Solte ela! – Kuruno gritou, apontando a arma para o vampiro.
            – Ora essa! – disse o monstro. – Como ousa apontar uma arma contra o maior vampiro do Reino Dos Corações?! Quero dizer, logo serei o maior vampiro!
            – Você o ouviu! – disse Gabriela, com um raio crepitando em sua mão. – Solte-a!
            Um sorriso cresceu no rosto do vampiro, enquanto lágrimas desciam pelo rosto de Tae.
            – Oras – disse ele –, se não é a doce, doce, Gabriela...
            – O que você quer conosco? Nos levar à Rainha?
            Eles continuaram falando, mas Kuruno já não prestava atenção. Afinal, o vampiro estava com Tae...
            Mas não era somente nisso que pensava. A arma em sua mão já estava destravada, e o gatilho estava pronto para ser puxado...
            E vampiros em transição morriam com uma bala na cabeça, não é? Bastava acertar seu cérebro, como se fazia com mortos vivos... vampiros completos tecnicamente eram mortos-vivos, não é verdade?
            Bastava um segundo... um segundo para puxar o gatilho...
            – Se você quer a mim, venha até mim! – gritou Gabriela. – Deixe-a fora disso, covarde!
            – Palavras muito grandes para a garota que se escondia atrás de lágrimas e de depressões para não ter de enfrentar o mundo! – o vampiro retrucou. – Pobre, pobre Gabriela! A garota que vai sem sutiã para a escola ou que deixa a calcinha à mostra para que os professores lhe passem de ano! Mas, ainda assim, não conseguiu perder a virgindade! Por medo! MEDO! É isso ao que você se resume: MEDO!
            E foi então que o tiro de Kuruno ecoou.
            Tae gritou, sentindo o sangue do vampiro manchar seu pescoço. A bala havia perfurado diretamente o olho esquerdo do monstro... Ele lentamente tombou para trás, morrendo...
            Um sorriso foi se formando no rosto de Kuruno. Ele logo recuperaria sua amada, e juntos, os 6 poderiam fugir do Reino...
            Mas o vampiro retomou a postura, recobrando o equilíbrio.
            Ele estava vivo.
            E apenas uma estaca no coração ou a luz do sol poderia mata-lo... Nada de balas na cabeça.
            – SEU MONTE DE MERDA! – xingou ele...
            E então, o vampiro, num golpe muito rápido, quebrou o pescoço de Tae, deixando-a morrer ao cair no chão.
            – NÃO! – Gabriela gritou.
            Kuruno urrou de ira, e descarregou o resto do pente de sua pistola contra o vampiro, que recebeu os tiros sem sentir nada – então, ao estalar do cão da arma, denunciando que as balas acabaram, o vampiro avançou.
            Seus movimentos foram rápidos demais; não foi possível ver nada até que já estivesse feito. O sangue jorrou do pescoço de Kuruno, uma vez que a cabeça já não estava mais conectada a ele. Seu corpo decapitado também caiu no chão, enquanto o vampiro segurava sua cabeça pelos cabelos. Em seu rosto, estava a última expressão que teria: ira e pavor.
            O vampiro riu, deixando a cabeça rolar, e então se foi.

4

            – Ah, meu Deus... – Marieta ajoelhou-se. – Ah... MEU DEUS!
            As lágrimas de medo e desespero correram de seus olhos.
            – Vamos – Gabriela gemeu, aterrorizada do mesmo jeito. – Temos... temos de ir...
            – ELES ACABARAM DE SER MORTOS! – gritou Marieta. – MOSTRE RESPEITO!
            – O ÚNICO RESPEITO QUE PODEMOS TER É SAINDO DAQUI VIVOS! – gritou Gabriela de volta. – POR ELES! POR NÓS! POR TODO O REINO! SOMENTE NÓS PODEMOS DAR SENTIDO ÀS SUAS MORTES! SOMENTE NÓS PODEMOS DESTRUIR O REINO DE UMA VEZ POR TODAS!
            – Você quer dizer somente você – Kurt disse.
            Gabriela voltou-se para ele, transtornada.
            – Precisamos sair daqui – disse ela.
            Então, os gritos ecoaram novamente.
            Olhando para o horizonte, Gabriela viu o motivo.
            Todos os Sugadores que vira e matara haviam sido seres humanos, em algum passado distante. Como tal, o corpo tinha tamanho tão grande quanto um ser humano. Mas, de humano, aquele Sugador não tinha nada: seus quatro metros de altura deixavam bem claro, bem como se corpo negro feito quase completamente de puro sangue.
            Ele rugiu, e suas mandíbulas poderiam ser usadas como tentáculos, que chicotearam o campo de batalha, dizimando metade de ambos os exércitos.
            – Merda, corram! – Gabriela gritou, atirando um raio na boca do Sugador.
            Ele gemeu, sentindo uma explosão em sua garganta. Logo depois, estava vomitando sangue, porém ávido para um novo ataque.
            Seu gigantesco corpo foi arremessado contra a menina, que prontamente desviou. Em vez de acertá-la, esmagou e partiu ao meio mais algumas dezenas de fantasmas, vampiros e succubus. Gabriela gritou, vendo o grande Sugador seguindo em sua direção, e atirou mais alguns raios, que explodiram contra o corpo gigante. O sangue jorrou, mas, sendo o corpo feito de sangue, não era uma notícia tão animadora.
            – Ei! – ela ouviu gritarem.
            Kurt surgiu novamente, apontando seu fuzil para a cabeça do Sugador – para dentro de sua boca. Um único cartucho foi completamente descarregado em menos de dez segundos, e ele foi rápido em recarregar.
            – CORRA! – Gabriela gritou. – CORRA, SEU IDIOTA!
            O segundo cartucho acabou bem rápido. Uma das grandes mandíbulas caiu, decapitada. Restavam três...
            Mas então, o Sugador golpeou Kurt, levantando-o no ar. Ele caiu do outro lado, e seu fuzil havia caído muito longe...
            – NÃO! – Gabriela gritou...
            Um raio partiu de sua mão, atingindo o pescoço do monstro, que era mais fino do que ela imaginava. Um talho deformou metade do tal pescoço, restando apenas 50% da carne para prender a cabeça...
            A inércia cuidou disso: rasgando-se pelo peso, o pescoço deixou a cabeça rolar. O Sugador gigante morreu facilmente.
            Enquanto a batalha continuava queimando, Gabriela gritou:
            – Kurt! – E correu para ele.
            – Ah – gemeu ele, se levantando. Uma de suas costelas parecia ter se quebrado.
            – Não se preocupe! – Gabriela tranquilizou-o, com um sorriso forçado – Assim que sairmos daqui, poderemos ir a um hospital! Cuidaremos de você! Eu prometo!
            – E eu não duvido – respondeu Kurt, também sorrindo. Marieta e Khaled se aproximavam.
            – Vamos sair daqui – disse ele.
            – Sim! – Gabriela animou-se. – Vamos! Nós temos uma missão a cumprir!
            Tudo aconteceu muito rápido.
            O grito de Marieta ecoou enquanto Khaled se jogava em cima dela, para protege-la. Gabriela nada viu até que estivesse caída também, de bruços contra o chão.
            Quando se levantou, Kurt estava parado à sua frente. Estava contra a luz, de modo que apenas sua silhueta era visível.
            – Kurt? – ela chamou. – Você consegue ficar de pé?
            Então, ela viu.
            Um dos fantasmas que estava do lado da Rainha havia caído no chão, morto, à mais de dez metros de distância. Um tiro em sua testa. Mas não antes de ter arremessado uma espada longa e afiada... que acabaria por cravar-se no coração de Kurt.
            Ele caiu.
            – NÃO! – Gabriela gritou.
            Kurt já não conseguia mover os braços, nem as pernas. Ele quase não falava.
            – Meu Deus – Khaled murmurou, se aproximando.
            – Não! – Gabriela repetiu. – Não! Não! Não!
            Kurt gemeu.
            Piscou os olhos.
            Respirou fundo.
            Sentiu o sangue em sua boca.
            E disse:
            – Saia... daqui...
            – Não! – Gabriela gritou mais uma vez. – Não ouse...
            – Saia daqui... – Kurt continuou. – Salve-se... salve Khaled e Marieta... salve o Reino, salve a todos... impeça a Rainha. E não... não ouse morrer...
            – Pare com isso! – Gabriela gemeu dentre suas lágrimas. – Você não vai... não pode...
            Ela arrancou a espada de seu peito, e colocou as mãos sobre o ferimento. Pressionou-o. Sentiu o sangue em suas mãos... concentrou-se, tentando curá-lo...
            – Gabriela – Marieta disse. – Você o está machucando!
            – CALE A BOCA! EU VOU SALVÁ-LO! EU VOU...
            – Gabriela... – Kurt repetiu. – Shhh... você não vai.
            Então, com toda a força que lhe restava, ele afastou uma mecha de cabelo negro da testa de Gabriela. Ela chorava. E Kurt puxou seu rosto para o último beijo, a última vez que sentiria seus lábios...
            Então, Gabriela, sendo uma bruxa, sentiu quando os lábios de Kurt se tornaram instantaneamente mais frios e duros.
            Ela abriu os olhos. Kurt a havia beijado de olhos abertos. E assim, com seus olhos profundamente azuis encarando o céu, morrera.

5

            Gabriela nada fazia além de gemer.
            – Não... – sussurrava. – Não...
            Ela agarrou-se ao corpo de Kurt, sentindo morto entre seus braços.
            – NÃO!
            A força de seu grito traduziu-se num novo raio, que lançou-se aos céus. As nuvens escuras da noite se afastaram, deixando a luz entrar. A luz do dia.
            Os vampiros que estavam ali queimaram. Todos eles, um a um. Caíram mortos, o que fez todo o exército da Rainha partir. Só restavam aqueles que queriam ver os sobreviventes fora do Reino. E estes mesmos se aproximaram, observando Gabriela de perto. Toda sua dor, toda sua vontade de que os últimos minutos de sua vida fossem reescritos. Toda a vontade de que Kurt não tivesse de partir assim.
            O Reino não estava mais condenado à noite eterna. Em vez disso, o céu era só nuvens cinzentas e pálidas, como o mundo sem cores de Gabriela.
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