Olá galero :) Como eu disse semana passada (mas vale lembrar), O REINO DOS CORAÇÕES está no fim, e terá somente mais 4 capítulos, chegando aos 18 no total. E, para marcar a reta final, faremos uma pausa a partir do capítulo 15. Ou seja, depois de semana que vem, só teremos um novo capítulo dia 27/04. Mas, enfim, por enquanto, curtam as respostas chegando ;)


14

1

            Depois da escuridão, houve luz.
            As paredes ao seu redor eram espelhos. Gabriela neles encarou. Sua imagem refletida era um desastre. A última vez que tomara banho fora antes do ataque do Trickster, ainda no castelo, quase 3 dias antes. As batalhas que enfrentara desde então estampavam-se como carvão em seu rosto.
            Logo, ela percebeu que não eram simplesmente espelhos; eram os espelhos de um elevador. Então, quando a gravidade começou a leva-la para baixo, as luzes piscaram.
            Quando voltaram, ela estava sozinha. Ainda.
            Piscaram novamente.
            O sangue espirrou contra os espelhos no segundo em que eles estiveram novamente iluminados.
            Escuridão.
            Um grito ecoou.
            Luz.
            Cabeças decapitadas e desvisceradas empilhavam-se no chão.
            As luzes se apagam.
            O gelo se espalha.
            As luzes se acendem.
            Um grande homem sem olhos morde os seios nus de uma desconhecida mulher gritante. Lentamente, a carne é rasgada e tudo debaixo dela cai numa enxurrada rubra.
            As luzes se apagam e se acendem.
            O mesmo acontece com a genitália do homem.
            Quando as luzes tornam a piscar, o elevador parece cheio. Há pelo menos oito pessoas ali com Gabriela.
            Piscam de novo. Gabriela está sozinha.
            Mais uma vez. São vampiros!
            Novamente. Sugadores!
            Última vez. Solidão.
            A descida acaba com o familiar som de um elevador que chegou ao andar certo.
            As portas se abrem; os espelhos continuavam limpos, como se nada houvesse acontecido ali. E talvez não houvesse.
            O corredor que fora revelado era inegável e completamente alvo. Não havia outras cores; somente branco.
            De uma das várias portas que ali estavam, saiu uma mulher de terninho negro e cabelo preso em coque. Estava deslumbrante. Seus lábios, vermelhos como sangue, contrastavam com a pele, branca como a neve, e o cabelo, negro feito a noite; assim como sua aparência, de tão bem cuidada, contrastava com a sujeira que encobria o rosto de Gabriela.
            – Senhorita – disse a mulher, simpática e sorridente; mas, em seus olhos, era possível ver frieza. – Já não era sem tempo.
            Virando-se, deixou seus saltos fazerem eco no corredor.
            – Por favor, me acompanhe.
            – Onde estou? – Gabriela perguntou, sem se mover.
            – Essa e tantas outras respostas estão no fim do caminho, senhorita Gabriela. Não tenho autorização para saber de nenhuma delas. Mas a senhorita deve conhece-las agora.
            A mulher deu-lhe as costas novamente, e caminhou até o fim do longo corredor. Gabriela a seguiu.
            – Entre – disse ela. – A partir desta porta, você estará sozinha.
            Gabriela obedeceu-a hesitante, e foi engolida pela luz desconcertante.

2

            A sala em que se encontrava agora era escura e vazia.
            Os móveis e novas portas estavam espalhados pelas paredes, tornando o curso a se percorrer muito estreito. Gabriela tinha que se policiar para não esbarrar em alguma coisa, e, por algum motivo, estava convicta de que precisava fazer silêncio; como se sua vida dependesse disso.
            Então, houve barulho, vindo da direita. Alguém estava ali com ela.
            Se ela acendesse seus raios, seria uma sinalização para quem quer que fosse que a perseguia.
            Gabriela então correu o mais silenciosamente possível, escondendo-se sob uma das mesas. Os silêncio perdurou por um segundo, antes que passos ecoassem – o estranho ainda estava ali. Lentamente, ele se aproximava...
            Gabriela pôde ouvir os passos a menos de cinco metros de distância.
            Quatro.
            Três.
            Dois.
            Um.
            Estava na sua frente, parado. Pernas masculinas cobertas por uma calça tão escura que confundia-se com os traços da escuridão ao redor.
            Ele recomeçou a andar, no silêncio.
            Um.
            Dois.
            Três.
            Quatro.
            Quando a distância pareceu suficiente, Gabriela se afastou, tendo tremendo cuidado ao sair debaixo da mesa. Nenhum novo barulho. Ela podia ver a sombria silhueta de costas...
            Ela virou-se e andou muito lentamente...
            O homem virou-se para ela.
            E então ambos correram.
            Quando o peso do corpo do desconhecido foi arremessado  sobre Gabriela, ela quase caiu – mas o controle do antebraço que envolvia seu pescoço, sufocando-a, não permitiu. Ela lutou para se livrar do abraço, mas só sentia sua garganta sendo cada vez mais esmagada...
            Então, seu corpo foi virado, para encarar o Anjo que a abraçava.
            – Anjo! – gritou ela no escuro, abraçando-o também. Ela sentiu as asas negras, perfeitamente vivas, e ambas as pernas, completas. – Você está vivo!
            O Anjo nada respondeu, nem mesmo olhou em seus olhos. E ela soube o que ele queria dizer.
            – Venha comigo – disse ele. – Resta algo que você deve ver, antes de sua última batalha.
            Ao fim da sala, havia uma última porta. E nela eles entraram, revelando novamente uma grande sala branca. Dessa vez, não havia novas portas. Não havia saída, muito menos um fim. Uma névoa alva encobria a paisagem depois de uns 500 metros de distância.
            No centro, havia uma maca suspensa, e equipamentos de hospital. O bip-bip de um eletrocardiograma ecoava, e seis enfermeiras cercavam o paciente. Elas se afastaram ao notar a presença do Anjo, com suas asas negras, e da garota suja que o acompanhava. Ela não tinham rosto: lábios, olhos e nariz não estampavam suas faces. Era apenas pele lisa.
            Gabriela não deixou de espantar-se por um segundo. Mas, no momento em que os olhos pousaram sobre o paciente, ela reconheceu aquela face, mesmo que tantos anos depois: os sulcos debaixo das rugas, os cabelos ralos...
            – Pai? – disse ela.

3

            O senhor sobre a maca gemeu, de dor e contentamento.
            – Pai! – Gabriela disse novamente e correu para a maca. As enfermeiras se afastaram, mas, quando a garota deu sinal de que abraçaria o paciente, trataram de afastá-la.
            – Deixem-na! – gritou ele. – Eu quero que ela se aproxime! Não ousem impedi-la!
            As enfermeiras, mesmo que desprovidas de orelhas, obedeceram, e Gabriela logo estava frente a frente com seu pai.
            – Eu pensei... – disse ela. – Eu pensei que você estava morto!
            – E estou, minha querida... eu estou – Seu pai então tocou em seu cabelo. – O que é isto?
            Ela olhou para a mecha grisalha em sua franja.
            – O Reino dos Corações... – explicou ela. – Encontramos um fantasma assim que chegamos lá. Na verdade, depois de meu primeiro encontro com o Anjo. Eu senti tanto medo que isto me aconteceu...
            – Fantasmas? Mas os fantasmas não deveriam constituir uma ameaça! A não ser, claro, os que estão do lado da Rainha! Os nossos fantasmas não deveriam lhe fazer mal algum!
            – Seus? – Gabriela admirou-se. – Quer dizer... que vocês comandam os fantasmas?
            – Mais especificamente, eu, minha filha. Eu comando este Quartel-General, e estamos todos contra a Rainha... contra o que ela pode fazer! O que ela vai fazer, assim que tiver poder suficiente!
            – E o que ela vai fazer?
            O paciente tocou o rosto de sua filha.
            – Infelizmente, não posso lhe dizer, minha querida.
            Gabriela desacreditou-se.
            – Estou aqui por respostas! – disse ela. – Você me trouxe aqui! Você não pode me negar minhas respostas!
            Então, ela deu-se conta das próprias palavras.
            – O Anjo me trouxe aqui... – disse para si mesma, e voltou-se para o Anjo propriamente dito. – Este é seu mestre?
            Ele assentiu, e Gabriela se aproximou.
            – Meu pai é seu mestre? Meu pai?
            – Gabriela, querida – o paciente recuperou sua atenção. – Não foi somente por respostas que eu lhe trouxe aqui. Todas suas respostas virão em tempo certo...
            – Então, por que estou aqui?! Como o senhor pode estar vivo?
            – Simples: eu não estou. – O senhor suspirou, e tentou sentar-se em sua cama. O eletrocardiograma disparou e, quando as enfermeiras tentaram impedi-lo, um simples aceno de mãos fê-las parar em seus lugares, acatando a ordem. – Quanto a sua primeira pergunta...
            Ele levantou-se, fraco, livrando-se dos tantos fios que cobriam seu corpo.
            – Eu lhe trouxe aqui para dizer que estou orgulhoso de você – Ele tocou no rosto de Gabriela. – Você não faz ideia do quanto de poder tem em suas mãos. Você é muito mais do que simplesmente uma bruxa, Gabriela... Você tem o poder para quebrar o Reino dos Corações! Mas antes... você deve fugir dele.
            – E como eu faço isso?
            O paciente olhou para o Anjo, encarando-a num olhar cheio de significado.
            – Vá para além do campo onde você conseguiu seus alimentos – disse o Anjo –, para além de onde a batalha queima e o sangue é derramado! Vá além! Lá encontrará sua saída.
            Gabriela voltou-se para ele.
            – Eu suponho – disse ela, tristemente – Que você não irá conosco.
            – Não – o Anjo respondeu, inexpressivo com o habitual... não fosse a pontada de tristeza que havia em sua voz. – Não irei... estou fadado a desaparecer para sempre. Você bem sabe disso. Sem lugar no Céu, nem no Inferno...
            – Eu queria que não tivesse de ser assim.
            – Eu também.
            O momento em silêncio foi quebrado por seu pai.
            – Vocês devem ir...
            Gabriela abaixou sua cabeça.
            – Quanto mais tempo ficarmos aqui... – disse ela para o Anjo. – Mais você vive.
            Ele afastou uma mecha de sua testa.
            – Nem mesmo anjos podem viver para sempre, minha cara.
            E, numa decisão silenciosa, a hora foi chegada.
            – Gabriela... doce Gabriela... – disse seu pai. – Se você tiver sucesso... eu prometo, tudo será consertado! Tudo estará em seu devido lugar em pouquíssimo tempo! Suas respostas chegarão... Você e seus amigos estão todos aqui por um único motivo...
            Gabriela ouviu algo se rasgando. E então, a luz tomou conta da sala.
            – Estamos sem tempo! – disse o Anjo.
            – Não confie neles, Gabriela! – disse seu pai, num último segundo. – Não confie...
            E então, tudo desapareceu.

4

            – Gabriela! – Kurt gritou; a voz aos poucos ribombou em seus ouvidos, enquanto recuperava a visão.
            O choque passou. Ela estava de volta ao Reino... e o Anjo estava em seus braços. Havia um último olhar em seu rosto...
            – Minha missão está completa – ele disse, com a primeira emoção que sentiria na vida: felicidade.
            Então, todo seu corpo se transformou em cinzas que seriam levadas ao vento. O Anjo, morto, desapareceu num único segundo.
            – Gabriela! – Kurt repetiu, porém desta vez surpreso. As cinzas do Anjo cobriam a garota, que olhava desolada para o nada.
            Mas então, um Sugador apareceu no caminho. Gabriela matou-o, e novos monstros surgiram aos milhares.
            – Vamos! – disse ela. – Eu sei o que temos que fazer!
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