Olá galero ;) Eu quero me desculpar mais uma vez por ter atrasado os capítulos, mas estou realmente sem muito tempo. Eu praticamente estou tendo que escrever na véspera de cada postagem, principalmente por que estou entrando em semana de provas. Enfim, vou me esforçar para cumprir os prazos. Além disso, quero anunciar que ESTOU NA ÚLTIMA REVISÃO DE ECOS, o outro livro que estou escrevendo, e que já imprimi uma versão preliminar. SE QUISEREM VER FOTOS DA PRIMEIRA PÁGINA (afinal, eu sou orgulhoso pra caralho né) CLIQUEM NESSES LINKS PARA A TWITPIC: http://twitpic.com/8x5zeu http://twitpic.com/8x5ykb enfim, curtam o capítulo 12 ;)


12

1

            – Cinco ruas para a direita – disse Gabriela. – Aquela! É aquela!
            Eles seguiram pelo caminho o mais silenciosamente possível; o escasso armamento não deveria ser gasto com novos vampiros em transição. Já haviam percorrido todas as instruções do Anjo até ali: saindo do esconderijo – um beco formado entre duas casas do Reino –, seguiriam três blocos para frente, e então virariam na primeira esquerda; logo depois, se voltariam para a terceira direita, a primeira transversal na diagonal, virariam na avenida circular no ponto que levava a um grande tatame, seguindo para um pequeno morro, invisível a distância, e chegando naquela última rua.
            O próprio Anjo fora deixado aos cuidados de Marieta, não podendo acompanhar o grupo. Aparentemente, a energia usada para curar Kurt lhe fazia muita falta, a ponto de seu corpo cair num processo semelhante a lúpus: ele estava se destruindo de dentro para fora.
            – Não se preocupe – dissera ele. – Quando eu recuperar meu poder, ficarei inteiro novamente. Todo meu corpo irá se regenerar.
            Então, dera as tais aguardadas instruções. Era fantástico como sabia tanto sobre o Reino.
            – Já chegamos? – Khaled perguntou em voz alta e aflita, e até mesmo desprovida de esperança.
            – Sim! – Gabriela sussurrou animada. – É ali!
            Ao longe, eles viam: mesmo sem o sol, provedor da necessária luz, e sem chuva, uma grande plantação de policulturas era visível. Laranjeiras, pés de batata, morangos frescos, alfaces, cenouras e todo o tipo de vegetal estava ali, pronto para o consumo.
            – Peguem as mochilas! – Kurt disse, sacando três das grandes sacolas que haviam montado ainda no primeiro dia no Reino, quando não haviam saído do hotel. Vazias, eram grandes o suficiente para carregar uma grande quantidade de alimentos, talvez mais do que haviam comido no castelo. Seja quem for a tal Rainha, não pretendia deixa-los morrer de fome, muito menos envenená-los tão simplesmente.
            – O rio! – Luciani apontou.
            Gabriela, sorrindo, aproximou-se do curso da água e então parou. Os outros fizeram o mesmo.
            Não era um aquífero límpido como esperavam, e sim um rio de sangue, literalmente. O cheiro do ferro já contaminava o ar desde muitos metros antes, mas agora tornara-se insuportável. Dentre o rubro, via-se pedaços de escuridão navegando, como pequenos peixes assassinos.
            – Gabriela...?
            – O Anjo nos disse – respondeu ela. – É confiável.
            Ela se aproximou e, com as mãos e forma de concha, tomou um pouco de água nas mãos. Era muito mais líquido e menos grudento do que sangue jamais seria. A água em suas mãos, sim, era transparente e limpa. Como o mar em sua totalidade, verde, seria em comparação com uma pequena quantidade de água em um balde.
            Ela provou do líquido, e o gosto cúprico estava ali; porém, era fácil de se ignorar. Como bruxa, as propriedades da água tornaram-se claras para ela: era tão consumível quanto seria se brotasse de sua torneira.
            – Venham! – disse ela, enquanto as mochilas enchiam-se. – Bebam! E tragam garrafas!
            Mas então, o grito ecoou – mesmo depois de todo esse tempo de terror, um grito ainda infligia medo.
            Deixando as mochilas e garrafas caírem – elas não sairiam dali, mesmo –, eles correram de volta para o beco.
            O Anjo estava caído, levando repetidos socos no rosto. Sobre Marieta, havia um homem beijando-a – incubbus. Assim que viram o grupo chegar, eles tentaram fugir, mas a cabeça daquele que espancava o Anjo fora explodida por um dos raios de Gabriela, enquanto um tiro na clavícula matara o outro.
            O Anjo fora completamente deformado: os músculos em seu peito estavam cobertos pelo próprio sangue. O rosto, inchado, mal dava espaço para os olhos, e dentes quebrados envergavam-se para fora da boca, alguns ainda presos à mandíbula como ervas daninhas insistentes em prender-se à terra. Toda a beleza que ele um dia tivera estava perdida.
            Marieta tremia, fraca, olhando para a imagem do único que poderia tê-los salvo a beira da morte.

2

            – Eles vieram em cima da gente – disse Marieta. – Mas não queriam a mim. Queriam ele, o Anjo.
            – Mas por quê? – Gabriela se perguntou. – O que foi que ele fez?
            – Nos ajudou, provavelmente – respondeu Kurt. – Estão tentando calá-lo, como numa ditadura. Depois de todo esse tempo, não estou surpreso que seja por violência.
            – Eles vão voltar – Marieta continuou. – Eles com certeza vão voltar. Eles prometeram mata-lo!
            – Mas como se mata um Anjo? Quer dizer, ele caiu do céu. Não é algo simples.
            – Eu... eu não sei.
            Silêncio.
            – Ele não poderá ir a lugar algum – disse Gabriela.
            – E por que não?
            – Por que o coração dele... está fraco. Eu consigo ouvir. Ele não vai acordar por enquanto.
            Kurt se aproximou.
            – Você consegue ouvir?
            – É o lado bom de ser uma bruxa. Eu só adoraria o drama de ter uma varinha.
            Ela suspirou.
            – Temos que voltar para pegar nossa comida. Mas é melhor nos dividirmos em dois grupos... e, inevitavelmente, vamos precisar de munição.
            Ficou decidido então que, dos 7 que restaram, apenas Gabriela, Kurt e Khaled iriam atrás de comida. Os outros ficariam com o Anjo.

3

            – Merda!
            O sussurro de Gabriela ecoou enquanto ela recuava; Kurt e Khaled seguiam a deixa dela, escondendo-se atrás de uma casa.
            – Que diabos...
            – Sh! – disse ela simplesmente. – Olhe!
            Ao fundo, onde estavam as mochilas, haviam Sugadores. Eles reviravam as mochilas vazias, sem nunca notarem que não havia nada dentro delas.
            – Merda! – Kurt repetiu.
            – O que vamos fazer? – Khaled se perguntou.
            – Atacar – respondeu Gabriela, pulando para fora de seu esconderijo.
            Não houve tempo para arrependimentos.
            Os Sugadores rugiram ao longe, vendo seus adversários chegando. Eles lançaram-se no ar, bocarras abertas, as quatro mandíbulas vorazes para matar...
            Gabriela arremessou muito facilmente um raio contra um deles, acertando-o tão fortemente no peito que abriu um rombo.
            – O que aconteceu com economizar munição?! – Khaled gritou, sacando seu fuzil e atirando contra o corpo de outro Sugador, sem jamais acertar...
            Eles não podiam-se dar o luxo de perder mais armas, e ainda assim, o fuzil foi arrancado de suas mãos por uma mandíbula monstruosa e partido ao meio, antes que o dono da mandíbula propriamente dita sofresse do mesmo destino pelos raios de Gabriela.
            – Pronto! – Gabriela disse, ao matar o último. – Estão todos mortos! Vamos seguir em frente!
            Mas então, eles ouviram.
            O barulho molhado de milhões de mandíbulas.
            E, como uma horda de vampiros em transição, os vários Sugadores surgiram do horizonte.
            – Merda!

4

            – Vocês ouviram isso? – Marieta perguntou.
            – Já é a terceira vez, Marieta...
            – Shhh... ouçam!
            Ela era a única que ouvia passos.
            – Não há nada ali, Marieta...
            – Estou ouvindo! Ouçam vocês também!
            Fosse pelo medo, ela estava certa de que algo se aproximava.
            – Marieta, por favor...
            Então, ouviu-se o grito – e não era de Marieta. Uma nova vítima se formava.

5

            – As mochilas!
            Gabriela foi mais rápida: estando as mochilas caídas muito próximas umas das outras, ela pegou-as e jogou duas para os caras. Não estavam cheias, mas tinham comida o suficiente para alimentá-los por um bom tempo antes da próxima vez que tivessem de voltar.
            Esse era o lado bom. O ruim era que os Sugadores ainda estavam em seu encalço.
            – Continue atiraaando! – Gabriela gritou, pondo-se a correr.
            Kurt, mais esperto, sacou duas pistolas, que não fariam exatamente falta no caso de perda, e começou a atirar. Entendeu o que o Anjo havia dito: as balas não eram eficazes na hora de matar, porém ainda assim feriam bastante. Um Sugador não pôde mais pular ao ser atingido nas pernas, e outro teve de se arrastar ao perder o movimento da metade inferior do corpo, atingido na coluna como um ser humano qualquer.
            Mas as quatro mandíbulas estavam lá.
            Os raios de Gabriela facilmente decapitaram a primeira fileira, porém haviam mais cem atrás. Pulavam tão alto que mais pareciam bombas em eminente processo de queda, que resultaria numa sem tamanho explosão – como que para confirmar, o piso de concreto se partia ao caírem, tamanho impacto.
            Línguas saltaram para fora das bocarras dos Sugadores, chicoteando tudo. As construções que ali havia caíram uma a uma, arrancadas de suas bases. Segundo o relato de Tae, voltariam ao lugar assim como toda a destruição do castelo. Mas, por enquanto, os pedregulhos levantados no ar eram mortais: tanto para os humanos quanto para os Sugadores. Os mais lentos ou já feridos eram esmagados, não podendo escapar do toque frio e doloroso da morte.
            – Para a direita! – Gabriela gritou; a proximidade do beco a preocupava, já que os Sugadores continuavam muito próximos...
            Subitamente, um deles caiu sobre Khaled.
            – Não! – Kurt gritou, enquanto as mandíbulas lentamente se fechavam sobre o corpo do companheiro...
            O Sugador em questão foi partido ao meio por um novo raio de Gabriela. Khaled caiu: o sangue cobria seu corpo, mas ele estava vivo.
            – Você está bem? – Gabriela ajudou-o a levantar.
            Ele balbuciou coisas sem sentido. Gabriela olhou para Kurt, e deixou Khaled sob seus cuidados...
            Ela voltou-se para o exército de Sugadores, que continuavam a saltar...
            – Deixem-nos EM PAZ!
            Suas palavras criaram uma gigantesca luz ao redor de seu corpo, que reverberou pelo ambiente como uma onda no mar, como um gigantesco raio sem destino. Em contato com a magia, os Sugadores explodiram em mínimas moléculas, apagando suas existências.
            Gabriela quase caiu.
            – Você está bem? – Kurt perguntou.
            – Estou... só... usei poder demais...
            E, por um momento, eles puderam encarar nos olhos um do outro. O momento em que seus lábios se tocaram, horas antes, parecia uma completa outra era. Irreal, como não deveria ser. Como uma lembrança que precisasse ser revivida...
            Khaled gemeu de dor.
            – Você está bem? – Gabriela perguntou novamente.
            – Você me salvou – respondeu ele. – Você... Gabriela!
            – Ele está zonzo, só isso – Kurt disse, abrindo um sorriso. Afinal, haviam acabado de ter sucesso pelo menos uma vez desde o maldito momento em que puseram o pé no Reino.

6

            E foi com esse sorriso que os dois – Khaled estava tonto demais – chegaram gritando:
            – Comida! Nós temos comida!
            Mas, à medida que se aproximavam, a felicidade foi fugindo-lhes a face.
            Os quatro que esperavam com o Anjo estavam sujos e feridos. Ao lado, estava o corpo de um Sugador, morto à custa de muitas balas... Toda a munição que restara.
            – O Anjo... – disse Tae – Nós não conseguimos...
            O Anjo havia recobrado sua beleza. Mas isso já não era tão importante.
            Seus pés lentamente viravam cinza, que eram carregadas pelo ar, e o processo logo tomaria conta da perna inteira... bem como do corpo. Logo, o Anjo não existiria mais.
            – Como... – Gabriela engasgou-se dentre as palavras, as lágrimas chegando aos olhos – Como isso é possível?
            Então, ela viu o que ninguém mais viu.
            As asas do Anjo lentamente soltavam-se das costas... como se alguém as houvesse puxado. E desprendia-se da estrutura óssea tão lentamente quanto o corpo virava cinza... como se o processo estivesse conectado num só. Quando as asas estivessem completamente arrancadas, o destino era inevitável.
            E era assim, a conclusão atingiu-lhe, que se matava um Anjo.
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