Olá galero ;) Estamos de volta, ahem, com O REINO DOS CORAÇÕES, enfim, depois de uma pausa de 3 semanas (que eram pra ser 2). Enfim, a partir daqui, estamos entrando na reta final da saga, o que significa que AS RESPOSTAS ESTÃO CHEGANDO. Enfim novamente, curtam o capítulo 11


11

1

            – E você realmente acha que deveríamos confiar nele? – disse Kurt, enquanto afastava-se do grupo junto a Gabriela. A chegada do Anjo providenciara um momento de paz depois de tantas mortes e destruição. O Reino dos Corações mergulhara na mesma calmaria silenciosa e ameaçadora de sempre. Mas, mesmo com a promessa do Anjo, ele não se dera por convencer-se completamente.
            – Ele pode nos ouvir, sabia? – Gabriela retrucou. – Não importa que estejamos a meio metro de distância, ele não é humano como a gente. Então, se ao menos puder manter a educação... – Dito isso, Gabriela quase pôde imaginar a risada rouca do Anjo ao longe.
            – É bom que ele ouça. Acho que é melhor para o meu ego que ele descubra que estou pouco me fodendo para aquelas asas por nos ouvir de fininho do que por eu acabar quebrando a cara dele.
            “Como se você fosse conseguir”, Gabriela pensou, mas obrigou-se a engolir as palavras. Kurt continuou em voz alta:
            – E, além disso, ele não ser humano é justamente a questão. Afinal, o quê ele é?
            – Bem, pelo amor da lógica!, acho que o nome dele deixou bem claro.
            – Você sabe tão bem quanto eu que não foi isso o que eu quis dizer. – Kurt virou-se para encará-la. – Como vamos saber a intensidade dos poderes dele? Como vamos saber se ele sequer está do nosso lado como diz? Ou eu preciso lembrar-lhe de Danii?
            – Para ambas as perguntas – Gabriela deixou escapar um suspiro –, ele me levou ao passado, no exato dia em que comecei a dar sintomas de minha depressão.
            – Sim, você já nos contou isso.
            – Ah, é verdade, eu contei no momento em que você preferia ter metido uma bala na minha cabeça. Enfim, ele também me mostrou uma visão estranha: um bebê, morto, e não sei quem ele era e muito menos o que isso significa. Acho... que ele pode ter mais do que somente a resposta para nossa saída... como também a resposta de todas as nossas perguntas.
            – Ainda não estou convencido. – Kurt meneou sua cabeça. – Só o fato dele ter asas já nos dá uma noção de poder suficiente para esmagar todos nós. Eu não confio nele.
            Gabriela suspirou mais uma vez.
            – Quer saber, por que você está sendo tão babaca? – Seu tom de voz estridente não deixava dúvidas de que não se arrependeria do que havia dito mais tarde. – Quando Marieta disse que eu era uma bruxa, O.K., eu entendo que você estava com medo, e eu também! Eu entendo que muitas coisas haviam acontecido, e que nós éramos, e por um lado ainda somos, completos estranhos um para o outro. Mas eu estou aqui! Eu estive no castelo junto com você, eu vi todos que morreram junto a nós. Dói em mim também! Eu adoraria poder não confiar em toda e qualquer ajuda que viesse, como se assim fosse mais fácil dizer a mim mesmo que é tudo culpa deste maldito Reino. Mas se você não confia no Anjo, pelo menos confie em mim quando eu digo que ele pode nos ajudar!
            Então, um lampejo de assombro passou pelos olhos azuis de Kurt, como se ele fosse atingido por uma súbita percepção que ele mesmo não notara antes. A expressão de clemência de Gabriela transformou-se numa máscara inexpressiva e incrédula quando disse:
            – A menos que eu ainda não mereça sua confiança.

            Tae havia se afastado do grupo logo depois da saída de Kurt e Gabriela, de um modo ligeiro que ninguém pôde notar: estavam todos muito preocupados com a morte de Natalie e a repentina revelação sobre Jéssica. Ela mesma não podia excluir-se desses sentimentos coletivos, mas sabia que de nada adiantaria ficar parada no mesmo lugar – ainda mais com aquilo que lhe afligia.
            Sob a luz alva do luar e o passo gélido e brutal do vento do Reino dos Corações, ela caminhou abraçada a si mesma. Há pouco mais de uma hora, estava segura dentro do castelo que não existia mais: apesar do Cristo Redentor e da Torre Eiffel terem desaparecido da face do Reino, a destruição causada por ambos ainda era visível: os corpos esmagados e o sangue manchavam a rua, junto com todos os pedregulhos formados ao quebrar do concreto e das casas. A carne, amassada, cuspia para fora os músculos e tendões que outrora eram protegidos pela camada de pele morta. Os ossos ora havia sido achatados, quebrados ou mesmo pulverizados. O que seria o rosto dos cadáveres, alguns antes tão belos, acabou por transformar-se numa massa sangrenta intensamente rubra: a massa cerebral confundia-se com as vias nasais; a mandíbula retorcida parecia com uma prótese que via-se em consultórios de dentistas; os próprios dentes acabaram por cravarem-se na carne, ou mesmo nos restos de globos oculares, que agora não passavam de um líquido cinza-esbranquiçado misturado a vermelho. O horror se estendia por quilômetros e quilômetros de destruição.
            Bastou um piscar de olhos de Tae e tudo desapareceu: a rua limpou-se como que numa nova lufada de vento, e os corpos todos sumiram em silêncio; o ploc, ploc, ploc que seus sapatos produziam ao pisar inadvertidamente contra a carne destroçada silenciou-se. Não havia mais absolutamente nada para denunciar que o mundo caíra diante de seus olhos bem ali, no Reino dos Corações – e Tae não podia dizer que estava exatamente surpresa; afinal, não fora isso que vira.
            Ela bem que tentara avisar Kuruno. Os mesmos últimos momentos em que dividira sua moradia no castelo, dividira também a cama com seu marido. Ela bem que tentara avisá-lo: em momento algum de seu sonho, vira tantas mortes, mas ah, a destruição do castelo; a volta ao Reino; a morte de Natalie. Não fora a primeira vez: no primeiro ataque da succubus, ela viu Gabriela morrer e voltar à vida. Ela viu cada um dos militares morrer em detalhes sórdidos – antes que morressem. E, ao mesmo tempo, ela lembrava-se da desconfiança no olhar de cada um de seus companheiros quando Gabriela voltou ao grupo; mesmo que esse sentimento houvesse desaparecido diante da maioria, não o fez diante de Kurt: perdurou aos poucos, como um câncer, e talvez ainda houvesse restos para contar história. E tudo que ela sabia era que não queria ser tratada da mesma forma.
            O primeiro ruído veio de suas costas.
            Ela virou-se, mais por instinto do que por razão, mas não ousou se mover mais do que isto; sua respiração reduziu-se a um acompanhamento do sibilar do vento. Rapidamente, cheia de destreza, sacou a pistola completamente carregada que lhe fora dada por segurança; até o dito momento, não tivera de gastar uma bala sequer. Talvez, fosse chegada a hora de isso mudar.
            O luar projetava as sombras das casas recém e magicamente reconstruídas sobre a rua de paralelepípedos, impedindo que qualquer movimento fosse perceptível apenas pelo poder de seus olhos. O vento, ao mesmo tempo que disfarçava seus leves e planejados passos, também escondia qualquer sinal de um agressor. Pelo menos, ele não poderia estar tão perto assim...
            E não estava. Tae sentiu algo gosmento envolvendo seu pescoço, e constatou que não era um monstro ou qualquer tipo de criatura: não passava de uma língua, de muito mais de cinco metros, brotando de algum lugar além da escuridão. Seu dono escondia-se lá trás, e subitamente puxou-a para si.

            – A questão não é confiar em você – disse Kurt. – Mas você foi a única que interagiu com o Anjo, além de mim. E o fato dessa única exceção ter acabado comigo desacordado não contribui muito no quesito “amor ao próximo”.
            – Então, você acha que ele teria algo especial por mim? – Gabriela retrucou.
            – Não... algo especial – Kurt engasgou-se com as palavras, escolhendo-as bem. – Mas, o fato de você ter estado sozinha com ele faz com que não houvesse nenhuma outra testemunha para nos dar um veredicto concreto.
            Gabriela sentiu o sangue subir a seu rosto, bem como seus raios desenharam-se involuntariamente em suas mãos.
            – Você acha... você acha que eu fui controlada por ele? Hipnotizada?
            – Eu não colocaria assim, mas...
            – Você acha que eu sou tão absurdamente fraca e desesperada ao ponto de não saber o que é certo e errado?
            – Não, mas acho que você é absurdamente confiante de que suas vontades mais absurdas serão realizadas num passe de mágica só por que você acha que é certo. Apesar da expressão “passe de mágica” não servir muito bem para alguém como você, não é?
            Sentindo-se ofendida, Gabriela estava a meio caminho de desferir um bofetão no rosto de Kurt – talvez tão cheio de raios que acaba-se por queimá-lo – quando um grito ecoou.
            Antes de qualquer reação, um borrão negro passou por eles e trouxe junto uma nova lufada de ar. Se não fosse pelos óbvios arcos brilhantes brotando em suas costas, o individuo não poderia ser reconhecido como o Anjo, de tão rápido que era.
            – Vê? É disso que eu estou falando – Kurt resmungou, pegando uma pistola e rastreando o grito no ar.
            Quando ele e Gabriela chegaram à cena do crime, encontraram Tae caída no chão, trêmula, mas com suas lágrimas controladas. Naquele momento, o Anjo desferia um golpe com sua perna tão rápido que mal fora visível dentre toda a escuridão das sombras. Da mesma forma, seu alvo voou alto no ar, ecoando junto a um trépido ruído de ossos se quebrando. O corpo, aparentemente humano, caiu ao longe.
            Mas, o que quer que fosse, era tudo menos humano: ao levantar-se, a criatura virou sua cara contra o Anjo. Seus olhos, vermelhos, quase eram escondidos pela franja ruiva que caía-lhe sobre a testa. Mas o que realmente atraía a atenção era como sua boca desdobrava-se em quatro presas gigantescas, formando um X, como um verme: pela extensão de cada pedaço de carne, havia uma nova arcada de dentes. Ao fundo, dispostos em círculos, três camas de mandíbulas descreviam novos dentes ameaçadores. Do fundo de sua garganta, emergiu um grito que fez todo barulho silenciar-se de medo diante de tamanha imponência.
            Seus braços e pernas quebrados retorceram-se até voltar ao lugar, assim como sua carne aberta na altura do peito, expondo as costelas para fora do corpo, costurou-se de volta formando seu corpo completo novamente.
            A criatura saltou, tão rápida quanto o Anjo, atacando o próprio: num golpe, engolindo todo seu braço musculoso, mordendo-o no ato. O Anjo soltou um grito torturante, e quatro tentáculos brotaram das costas da criatura, procurando conectar-se ao rosto do Anjo...
            Mas ele foi mais rápido: arrancou seu braço da bocarra grotesca, desferindo um soco na cara monstruosa com a mão boa e decapitando os tentáculos ao arrancá-los de suas bases. A criatura gemeu de dor e pôs-se a correr, desaparecendo no horizonte ao mesmo tempo.
            – Mas o que diabos foi isso? – Kurt perguntou num grito.
            O braço do Anjo, lacerado e coberto de sangue, lentamente foi se curando: o corte fechou-se, e o líquido rubro ergueu-se no ar por vontade própria, antes de pulverizar-se sem deixar vestígios de que antes existira.
            Ele então voltou-se para Kurt, e, muito mais calmamente do que deveria, disse:
            – Bem... acho que você vai ter que confiar em mim.

                                                                      2

            – Estamos seguros o suficiente para você? – Kurt perguntou rispidamente, assim que os 7 sobreviventes mais o Anjo encontraram um esconderijo no escuro do Reino.
            – Acho que não faz diferença – A voz do Anjo era monótona e inexpressiva, irritantemente controlada. – Não sou o único que pode ouvir sobrenaturalmente por aqui.
            Ele fez um gesto para que todos se sentassem.
            – O que atacou a garota, eu suponho que esta seja a pergunta? – disse. – Aquele era um Sugador; mais uma das exclusividades monstruosas do Reino.
            – Sugador? – Gabriela perguntou-se.
            – Sim. São criaturas mortas, para simplificar. Um dia, quando humanos, foram submetidas ao processo natural da morte; assim que a alma deixou seus corpos, os cadáveres tornaram-se livres para qualquer tipo de corrupção. E foi essa a deixa para que experimentos fossem feitos.
            – Mas que tipo de experimentos? – Marieta sussurrou.
            – Terríveis – O Anjo não deixava dúvidas quanto ao desprezo que sentia –, desumanos e profanos. Coisa que nenhum Filho de Adão nem nenhuma Filha de Eva deveria ter coragem de fazer. Não se mexe na obra de Deus.
            – Mas, afinal, o que eles se tornaram?
            – A mandíbula partiu-se em quatro, e cada uma desenvolveu-se por conta própria; vocês puderam ver. Foi um método de sobrevivência desenvolvido em laboratório, para que fosse possível devorar melhor suas presas. Além disso, a saliva dos Sugadores contém um avançado veneno, feito a partir de presas de serpentes, aranhas e outros tipos de animais peçonhentos, que paralisa as vítimas. Por vezes, se a pobre alma acabar sobrevivendo, morrerá pela reação química em suas células: em menos de duas horas, o corpo entrará em combustão espontânea. Como veem, cada detalhe da estrutura destas criaturas foi meticulosamente planejado.
            “No entanto, como toda experiência, houve um motivo maior para a criação dos Sugadores: eles não têm fome de carne ou de sangue, mas de almas. O único propósito de suas vidas é capturar a alma de um individuo em especial.”
            – Mas de quem? – Kurt perguntou-se em voz alta, apesar de já saber a resposta.
            O único rosto que não voltou-se para Gabriela foi o do Anjo: a máscara severa manteve-se no rosto, enquanto a garota sentia o sangue fugir do seu.
            – E há como mata-lo? – Gabriela encontrou forças no fundo de seus pulmões para perguntar, mesmo que numa vozinha fraca e quase sem vida.
            – Obviamente há; nada foi criado para que se dure para sempre – O Anjo respondeu, voltando-se para ela enfim. – Mas receio que armas mundanas não serão suficientes; a não ser que desejem gastar muito mais munição do que possuem, o que já não é muito agora.
            Kurt abaixou sua cabeça. Era verdade: das mais de quinze armas iniciais e dos mais de trezentos cartuchos de balas, sobravam agora não muito mais do que uma pistola para cada, e três peças de artilharia pesada para qualquer que fosse a ocasião, além de pouco mais que vinte ou trinta cartuchos substitutos. Logo, haveriam acabado.
            – Então, o que matará?
            As asas negras farfalharam contra o ar ao dizer:
            – Acho que seria idiotice pensar que ter uma bruxa ao seu lado é de total prejuízo.

3

            Todos haviam se levantado pouco depois, devorando um pouco da comida que haviam roubado da cozinha do castelo antes que o mesmo desmoronasse. O resto foi embalado e guardado, já que não havia previsão de quando poderiam dar-se ao luxo de ver mais comida fresca, ou mesmo luz elétrica.
            Puseram-se a caminhar em passo desigual, ora alguns eram mais rápidos, ora eram mais lentos. Tae precisava da ajuda de Kuruno para não desabar, trêmula. A ordem sequer fora dada, mas dividiram-se em três grupos subconscientemente: Tae, Kuruno e Luciani seguiram numa direção, enquanto Khaled, Marieta e o Anjo seguiram por outra. Gabriela e Kurt seguiram em frente, com armas e/ou raios em punho.

4

            – Não poderíamos ter feito nada – Khaled disse-lhe. – Não estava em nossas mãos salvá-los; e não podíamos saber que os Kitsunes teriam algum interesse em mata-los.
            O Anjo observava de longe, asas negras arqueadas, enquanto Marieta entoava de volta:
            – É evidente que não. – Ela suspirou. – Nada que façamos neste lugar está sob nosso controle.
            – Você sabe que não foi isso que eu quis dizer...
            – Não, mas deveria ter sido. Não há absolutamente coisa nenhuma a se fazer além de ver todos ao nosso redor morrendo aos poucos. Éramos 10 no inicio, e poderíamos ser 14 agora. Poderíamos até mesmo estar livres agora. Mas cá estamos, presos, os 7.
            Khaled esfregou a ponte de seu nariz com os dedos indicador e polegar.
            – Não é algo bom de se pensar.
            – É fácil de se dizer isso quando se está fedendo a vinho – Marieta retrucou, e Khaled não deu-se ao luxo de parecer surpreso – Ainda está bêbado? Ou já está de ressaca? Seja como for, espero somente que não acabe por acertar uma bala em minhas costas. E aproveite o entorpecimento enquanto durar; daqui pra frente, não teremos álcool para curar nossas dores.
            Ela continuou em frente, enquanto Khaled não tentou parecer arrependido; quando a sobriedade lhe atingisse, talvez sentisse alguma coisa. Mas, por enquanto, indiferença era o máximo que poderiam arrancar-lhe.
            E, mesmo ao longe, a audição apurada do Anjo permitiu que ouvisse o choro escondido e quase silencioso de Marieta: disciplinada, ela não deixara escapar soluços, mas mesmo as lágrimas correndo por sua pele poderiam denunciar seu lamento. O Anjo não entendia muito de humanidade, e, a cada dia, sentia-se como se estivesse mais longe de entender.
            Ele não deveria ter sentimentos, é verdade; mesmo caído, seu coração não fora criado para guardar amor e ódio, alegria ou tristeza. E, ainda assim... a lembrança viva dos lábios de Gabriela poderia mudar um pouco de sua natureza, que seja.

5

            – Você sabe que eu não disse de propósito – Kurt falou.
            – Sabe, eu posso te conhecer a pouco tempo, mas sei que você é impulsivo e explosivo – Gabriela retrucou. – Sei muito bem que, se você fala alguma coisa, é por que essa coisa antes passou por sua mente. Então, não venha me dizer que não foi de propósito só por que agora está arrependido; você quis dizer cada palavra.
            Kurt corou sob a lua; ora por vergonha, ora por raiva.
            – Que seja então – disse ele. – Então que pelo menos tenha a decência de admitir que estou certo.
            – Lá vamos nós de novo.
            – Sim, lá vamos nós de novo! Por Deus, Gabriela!
            – O quê? – A arma em sua mão caiu, dando lugar aos seus raios. – Se você vai procurar toda e qualquer tipo de desculpa para afastar o Anjo, que seja! Mas eu vou com ele. Não me importa quem vá junto, eu vou e vou por que quero voltar para casa.
            – Gabriela! Apague essas coisas! Vai atrair vampiros, ou pior, o Anjo vai achar que estamos em perigo!
            Ela obedeceu, mas não deixou seu rosto descorar-se diante da raiva.
            – Estamos aqui há dias, Kurt – continuou ela. – Há dias que estamos matando e morrendo e estamos longe de nossas casas. Eu posso saber me virar, mas há gente que depende de mim. Minha mãe depende de mim. Eu não poderia tê-la largado em casa! Ela não sabe se cuidar! O que ela poderia fazer sem mim?!
            – E ainda assim, parece que você não pensou nisso quando entrou naquela banheira determinada a cortar os pulsos.
            PAF! Não passou-se um segundo de silêncio antes que o tabefe fosse desferido contra a face direita de Kurt. Cheio de raios, deixou uma marca profundamente vermelha, onde uma pequena mancha negra denunciava as células mais queimadas.
            – Mas o que há errado com você?! – ela gritou. – O que... há... de errado... com... você!
            A cada pausa, um soco acertava-se no peito de Kurt.
            Ele agarrou a garota pelos pulsos, imobilizando-a o suficiente para seus braços não se movessem mais.
            – Me largue! – berrou ela. – Me deixe em paz!
            E então, quando raios involuntários partiram de seu corpo para o céu, explodindo muitos metros acima de sua cabeça e iluminando a noite, ele aproximou-se muito mais do que o suficiente – e, antes que sentisse a respiração contra sua pele, sentiu lábios contra os seus.
            Ela passou a lutar para afastá-lo, tentando livrar-se da sensação doce e quente do corpo dele controlando o seu, até que se desse conta de que era uma bruxa; poderia muito facilmente empurrá-lo para trás e fazê-lo espatifar-se no chão. Além de uma saída do aperto, o ensinaria uma bela lição.
            Mas, no mesmo momento de percepção, notou que não era isso o que desejava.
            Lentamente, relaxou os pulsos, e poucos segundos depois, Kurt os havia libertado. Ela deixou os braços se entrelaçarem no pescoço dele, enquanto ele finalmente aproximava seus corpos a tamanho ponto que chegaram a se tocar da cabeça aos pés. Vorazes, ambos enterraram as mãos um no outro, de olhos fechados no silêncio, sabendo que a única coisa que os observava era a lua ornada pelo céu estrelado...
            Mas, ao longe, o Anjo podia ouvi-los; ele sabia o que estavam fazendo. E, por algum isso motivo, isso o machucava.
            Passaram muitos minutos antes que Kurt desenvolvesse a capacidade de se afastar; e, quando o fez, foi obviamente contra sua própria vontade.
            – Não devíamos ficar parados; os Sugadores podem ser atraídos pelos raios que você lançou ao céu.
            Gabriela soltou uma risada sem humor algum.
            – E nem mesmo nestas circunstâncias você admite que está errado.
            Então, um novo grito ecoou por entre as ruas desertas e sombrias.
            Gabriela voltou-se para Kurt apavorada.
            – Sugadores? – ela admirou-se. – Mas eles deveriam estar atrás de mim!
            – Parece que nem tudo por aqui se resume a você, querida – respondeu Kurt, empunhando a arma e correndo, pronto para atirar.

6

            O grupo de Kuruno fora o primeiro a ser atacado. O Sugador surgiu do nada, esmagando o telhado de uma das casas entre suas garras; suas mãos se transmutaram no que pareciam ser cinco afiadíssimas espadas amarradas umas nas outras. Quanto a sua capacidade mortífera, não deixou dúvida algo: mesmo de longe, era possível ver que o que quer que ele tocasse, reduzia-se a estraçalhos.
            Enquanto Tae e Luciani gritavam, caindo no chão, o Sugador lançou-se no ar, praticamente ignorando Kuruno para atacar as mulheres. Ainda assim, o oriental sacou seu fuzil – não importava o que o Anjo havia dito, ele não podia deixar de fazer alguma coisa.
            As balas ricochetearam contra a pele do Sugador, abrindo crateras onde penetravam-no. O sangue levantou-se no ar. Ainda assim, a criatura, com suas quatro mandíbulas bem abertas, não deixou-se abater: rugindo alto, ele reverteu suas prioridades para Kuruno...
            – Ei! – gritou Kurt, atirando também, destruindo lentamente as camadas ácidas do Sugador...
            Gabriela surgiu do nada, e um de seus raios explodiu no chão abaixo do monstro, implodindo-o e jogando o Sugador de costas.
            Ao levantar-se, ele urrou alto.
            – Atirem! – gritou Gabriela, atirando mais raios que explodiam no ar. – Não deixe que ele se aproxime...
            Mas ela havia se esquecido dos quatro tentáculos: eles brotaram das costas do Sugador e seguraram-na no alto – mesmo as balas ferindo sua pele não pareciam desencorajá-lo... era o fim: ele sugaria sua alma, e estaria tudo perdido...
            Mas a criatura simplesmente arremessou-a longe. E ela caiu bem a tempo de vê-lo avançando contra Tae e Luciani...
            – Não! – Kuruno gritou, mas seria tarde demais...
            Então, o Anjo surgiu empunhando uma espada – e cravou-a nas costas do Sugador.
            A criatura gemeu de dor, e o sangue manchava os trapos que usava quando outrora fora humano.
            O Anjo afastou-se, deixando o Sugador contorcer-se até que, por fim, estivesse recuperado – ele avançou novamente, e o Anjo abriu um talho em seu peito com a espada. Abrindo suas quatro mandíbulas, o Sugador expôs seus dentes...
            A mandíbula quadrupla, aberta formando um X, expandiu-se até que a lâmina da espada coubesse perfeitamente em sua garganta – o Anjo cravou lá dentro, rasgando seu corpo de dentro pra fora, deixando-o cair morto sem um último grito.
            – Está feito – disse, olhando o cadáver do monstro.
            Mas então, Kurt gritou, apontando para além. Um segundo Sugador surgia pulando no céu, e caíra de costas para ele.
            Inadvertidamente, Kurt atirou a queima roupa, e o Sugador virou-se irado – expondo sua mandíbula, ele envolveu a cabeça de Kurt, pronto para engoli-la.
            O grito agoniado do homem ecoou quando os dentes fecharam-se ao redor de sua cabeça...
            Mas o Anjo, movendo-se na velocidade da luz, decapitou o segundo Sugador a tempo de salvá-lo.
            A cabeça caiu, revelando o rosto ensanguentado de Kurt – mas não era somente sangue que o afligia...
            – Meus olhos! – gritava. – Eu não consigo ver! Meus olhos!
            No lugar de seus globos oculares, havias manchas sangrentas que espalhavam-se por todo seu corpo.
            – Meu... meu Deus – Gabriela sussurrou.
            Mas o Anjo já havia se posto ao trabalho – lentamente, ele ergueu as mãos até que tocassem os ferimentos de Kurt. E então, uma gigantesca luz tomou conta da rua onde estavam perdidos, cegando momentaneamente todas as criaturas vivas...
            E, no momento seguinte ao apagar-se da luz, os olhos azuis de Kurt estavam intactos em seu rosto. Espantado, ele observava tudo como se nunca houvesse visto o mundo antes.
            – Foi você... – ele sussurrou, e o Anjo assentiu.
            – Acho que agora você terá um motivo para confiar em mim.

7

            – Foi um dia e tanto – Gabriela disse quando viu-se sozinha com o Anjo. Todos haviam se reunido em outro lugar.
            – Eu suponho que sim.
            Sem jeito, ela olhou de um lado para o outro com um sorriso amarelo, escolhendo com cuidado suas palavras.
            – Eu sei que não houve exatamente tempo para entrarmos nesse assunto – disse –, com o Sugador e tudo mais... Mas você nos fez uma promessa. De nos tirar deste lugar.
            – Eu não fiz promessa nenhuma – disse o Anjo; um arrepio formava-se na clavícula de Gabriela, antes que o tom dele voltasse a tranquiliza-la – Tudo o que eu disse foi que lhes diria como sair daqui. A partir de então, vocês teriam de encontrar o caminho sozinhos.
            – Certo. Que seja. E qual seria essa resposta?
            O Anjo abriu um sorriso – o primeiro que Gabriela teve o luxo de ver.
                – Não é tão simples assim – disse ele. – Há coisas que eu tenho de lhe mostrar antes. Coisas que creio que lhe interessariam além do que pode imaginar.
            – E o que seriam essas coisas?
            Ele se aproximou.
            – Se eu contasse, não acreditaria.
            – Certo – repetiu ela. – Então me mostre.
            – Eu mostraria... se pudesse – Diante do olhar de dúvida no rosto da garota, ele continuou: – Tive de gastar todas minhas forças para curar seu amigo. Reconstruir dois globos oculares e devolver a visão a alguém não é algo fácil de se fazer. Precisarei de descanso antes de ter meus poderes de volta.
            Gabriela suspirou desapontada.
            – Bastam algumas horas – disse o Anjo. – E, além disso, se eu não o tivesse curado, ele morreria. Não há muitas chances de sobrevivência para um cego no Reino dos Corações.
            – Eu sei – Gabriela respondeu. – Mas... esperava poder me ver livre deste lugar o quanto antes.
            – E você se verá.
            O silêncio perdurou por um momento enquanto encaravam a lua.
            – Sabe – disse ela –, eu estive me perguntando... por que haveria alguém fazendo experiências com humanos, justamente neste lugar?
            – Não neste lugar, mas para este lugar. – O Anjo encarou-a nos olhos. – A mesma pessoa que as mantém presas aqui...
            O rosto de Gabriela iluminou-se de medo e perspectiva por um momento.
            – Você sabe quem é?
            – Obviamente – Um suspiro. – A Rainha do Reino. Ela os trouxe aqui; as succubus e os Sugadores trabalham para ela. Foi ela quem recrutou seu amigo Danii assim que ele tornou-se um vampiro... ele foi o primeiro a completar a transição em todo o Reino. Os outros, que ainda não completaram, foram deixados aqui por ela para atormentar vocês. E não foi por mero acaso: vocês têm algo que ela quer, e que eu não posso deixar que ela tenha.
            – Mas quem é ela? E o que ela quer?
            O Anjo, inexpressivo, demorou a responder.
            – Isso é algo que você terá de ver assim que eu estiver recuperado.
            Ambos suspiraram juntos.
            – Você e Kurt – disse o Anjo. – Vocês parecem próximos.
            – Ele me irrita – respondeu Gabriela. – Com todas as ordens deles.
            – Não é para menos... desde que você foi curada de sua depressão, vejo que voltou ao que era antes... o que realmente era, e não a garota que tentava ser diante de seus colegas. – Ele não ousou encará-la. – Você beijou-o... e não tentou se afastar.
            Gabriela corou, mas ninguém via.
            – Eu esqueci que você podia ouvir.
            – Claramente posso. E você, parece que se esqueceu de mim.
            Então, ela lembrou: durante as lembranças, a viagem pela qual o Anjo a levara momentos antes de chegar ao castelo... o beijo que lhe fora roubado, o qual ela também não tentara se afastar...
            – Ah, Anjo...
            – Não tente. Eu não poderia sentir, mesmo que tentasse. Não é de minha natureza. E eu não deveria tentar muda-la.
            Então, ele não disse mais nada, deixando que o silêncio durasse pelos longos momentos em que Gabriela encarava seu rosto desprovido de expressão... e de esperança.

8

            – Eles não estavam atrás de Gabriela – Luciani sussurrou. – Estavam atrás de mim e de Tae.
            – Não foi a primeira vez – disse Tae, então. – A succubus... ela disse que nos levaria à Rainha.
            – Aquela que comanda o Reino? – Khaled perguntou.
            – Exatamente... e disse que estava faltando mais uma. Mas quem seria?
            – Marieta? – Kurt perguntou-se em voz alta.
            – Eles não me atacaram na destruição do castelo – a exorcista respondeu – Mas eu mesma não os vi. Eles poderiam estar se espreitando... podem não ter conseguido chegar a mim.
            – Não importa – Kuruno disse, desesperado. – Em algum momento, eles queriam Gabriela... ou talvez, nunca houvessem querido... e se só pretendessem ativar o lado bruxa dela?
            – É possível.
            – Mas então... agora que eles tem o que querem de Gabriela...
            – Eles estão atrás de nós – Luciani concluiu. – Tae e a mim. Eles querem nossas almas.



Nota do autor: eu declaro a guerra entre Time Anjo e Time Kurt.
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