Olá novamente galero ;) Então, este é o último capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES antes do carnaval. Quem não sabe, o capítulo 11 só será postado dia 24/02. Até lá, curtam este capítulo ;)


10

L490

L490 – 30 Seconds to Mars

1

            A porta sacudia aos poucos, dando sinais de que ia ceder... até abrir.
            Era Danii.

            – Vocês fizeram uma festa sem mim? – disse ele, num tom de mágoa fingida.
            Ninguém respondeu nada – não por medo, mas por não ter uma resposta inteligente formulada.
            – O que há com essas caras assustadas? – disse Danii, e então apoiou os braços no ar – como se houvesse uma parede invisível ali.
            – Ah – continuou ele –, devem estar se perguntando com isso é possível, ou se são apenas meus músculos salientes e muito bem treinados.
            – Poderia ser – Kuruno respondeu –, mas você não foi convidado a entrar... vampiro.
            Danii sorriu de volta.
            – Amável – disse ele – E você fala como se fosse uma ofensa.
            – Que bom que chega sangue o suficiente ao seu cérebro pra me interpretar direito.
            Danii se desacostou, e passou a encarar cada um nos olhos.
            – Oras, vocês não vão ser educados e me convidar para conhecer o castelo? Não é exatamente justo que dentre os 10, seja justamente eu que não vá conhecer essa fabulosa obra da arquitetura...
            – Não olhem em seus olhos! – Kurt disse, se postando à frente do grupo bem próximo à porta, porém ainda à uma distancia segura, e apontando o cano de uma pistola para a testa de Danii – o tiro seria a queima roupa.
            – O que você vai fazer? – zombou o vampiro – Matar o morto?
            – Não – disse ele – Mas aposto que vai doer um bocado se eu estourar seus miolos.
            – Vai realmente querer gastar uma preciosa bala com isso?
            – Seria uma bala bem gasta.
            Danii riu baixinho, com um sorriso – um riso que mais pareceu um grunhido. Ele não usava mais um moicano alto e arrepiado como antes; agora, seu cabelo extremamente liso parecia penteado na área onde não fora raspado, e caía em mechas finas para a direita.
            – Mas de onde saiu tanto ódio? – disse ele.
            – Das minhas duas costelas quebradas, foi de lá que saiu.
            – Mas eu vejo que alguém deu um jeito – ele olhou diretamente para Gabriela, e então disse – Bruxa.
            – Você fala como se fosse uma ofensa – retrucou ela.
            Ele riu, apontando o indicador para ela como se dissesse “Essa foi boa”.
            – É bom estar com vocês novamente, amigos... principalmente você que me matou, Kurt – disse ele – Mas chega de jogar conversa fora.
            Ele fez um sinal com a cabeça, como se chamasse alguém – e, de repente, a succubus estava ali.
            – Vocês fizeram uma festa sem mim? – disse ela, no mesmo tom de mágoa fingida de Danii.
            – O que você quer? – dessa vez foi Gabriela que se pôs à frente, com os raios já preparados nas mãos.
            – Eu, na verdade, gostaria de entrar no castelo – respondeu ela – Mas, como eu vivo de sugar a energia dos outros, eu sou tecnicamente uma vampira, e como vocês estão vivendo aí dentro... eu teria que ser convidada a entrar.
            – Que pena que você precisa nos tocar para nos hipnotizar; pelo menos Danii tem isso ao lado dele, ele só precisa que olhemos nos olhos dele.
            – Hum – riu a succubus.
            – Glória, deveríamos ser mais rápidos – disse Danii.
            – Glória? – zombou Marieta – Não é um nome um pouco irônico para uma demônia?
            – Não sou demônia alguma – respondeu Glória – Existem sim, demônios incubus e demônias succubus... mas eu não sou uma delas. Eu apenas tenho suas... habilidades exóticas.
            – Mas não é para isto que estamos aqui – continuou ela.
            – Certo, estão aqui para tentar entrar no castelo.
            – Muito menos – disse Glória – É claro que adoraríamos ficar em paz aí dentro, livres dos fantasmas, vampiro em processo de transformação, demônios de verdade e todos os outros tipos de criaturas que existem no Reino Dos Corações... mas não. Nós queremos que vocês saíam.
            – Sabe – Kurt disse –, nós, meros humanos, não somos tão idiotas quanto pensa. Nós não vamos sair para que vocês possam nos matar.
            – Tampouco queremos matar; pelo contrário: estamos salvando suas vidas.
            – É, claro. E quem vai nos obrigar a sair?
            – Aquilo vai.
            Glória apontou para a janela do segundo andar, logo além da escada – era bem visível dali debaixo.
            Quando os 9 se viraram, também, ouviram gritos, sirenes e carros acelerados – subiram as escadas para ver melhor, e se depararam com uma visão completamente diferente da estrada, que havia desaparecido; agora, eles estavam diante de uma Paris sitiada, com pessoas correndo em todas as direções...
            ... por que a Torre Eiffeil estava caindo... na direção do castelo.
            Dos corredores, todas as pessoas que estavam na festa de antes surgiram correndo e gritando – e saindo do castelo.
            A Torre cada vez mais se envergava... ia cair em cima do castelo...
            – CORRAM! – Gabriela gritou a plenos pulmões, e seguiu a multidão.
            Lá embaixo, Danii mostrava as presas para todos que passavam, ameaçadoramente, mas não atacava ninguém.
            Gabriela saiu correndo de dentro do castelo, adentrando o Reino Dos Corações novamente, seguida pelos outros 8 – mas então, Glória tomou sua mão com força.
            – Temos assuntos a terminar, não é? – disse ela, e então foi arremessada por um dos raios já prontos nas mãos de Gabriela.
            – Tente sobreviver antes – respondeu ela, e saiu correndo.
            A Torre Eiffeil caiu em cima do castelo, partindo-o ao meio – o barulho do ferro se retorcendo e do concreto sendo esmagado foi imenso, e se sobrepôs aos gritos dos convidados formalmente vestidos e dos 9 sobreviventes, mais Danii, o vampiro, e Glória.
            Então, vampiros em transição saíram detrás dos destroços das casas que foram destruídas no primeiro encontro com a succubus, e alguns deles morderam os convidados e arrancaram-lhes a carne...
            Mas então, no horizonte oposto àquele de onde caíra a Torre Eiffeil, via-se o Cristo Redentor – e ele caía também...
            Era mínimo o espaço que não fora atingido pela Torre Eiffeil e que não seria atingido pelo Cristo – quem estava fora desse espaço, o que significava muita gente, fora esmagado.
            O sangue levantou voo.
            Gabriela ficou observando, boquiaberta, enquanto as pessoas morriam e seus ossos estalavam debaixo daquela obra de arte gigantesca.
            Então, de ambos os lados, tudo explodiu.

2

            Todos os 9 sobreviveram, e cada um correu para um lado.
            Marieta agarrou na mão de Kurt, e correu Reino adentro.
            – ATIRE! – gritou ela, olhando para a horda de vampiros em transição que chegava – MATE TODOS ELES!
            Kurt estourou a cabeça de cada um, decapitando-os com sua espingarda... mas a cada um que caia, surgia outro... como era comum.
            – En nome del padre, y del hijo, y del del Espiritu Santo, AMÉN!
            Os vampiros todos explodiram, e tudo o que restou deles foi sangue e tripas para contar história.
            – Corra! – gritou Marieta, com a voz instável e em frangalhos.
            Então, eles olharam para cima e viram estrelas.
            O céu da noite, sempre escuro, finalmente havia revelado estrelas.
            E as estrelas pareciam crescer mais, e mais...
            Pareciam ficar cada vez mais próximas...
            – As estrelas estão caindo! O céu está caindo!
            Eles se puseram a correr novamente.

3

            Luciani, Tae, Kuruno e Khaled estavam juntos, e as estrelas caíam para eles também.
            – Sigam em frente! – Khaled gritava, assumindo a liderança e atirando a esmo, torcendo para acertar alguns vampiros – Sigam em frente, corram!
            Mas então, Glória, a succubus, foi mais rápida e se pôs entre os sobreviventes – com um golpe, arremessou Khaled no ar... e uma estrela caía em sua direção...
            – KHALE...
            Kuruno não conseguiu gritar, pois foi arremessado contra o outro lado – e não pôde ver o que aconteceria com Khaled...
            Mas Tae gritou, e levou um tapa na cara.
            – CALE A BOCA! – a succubus gritou – Você vem comigo!
            – Deixe ela em paz! – Luciani gritou, e sacou um facão, mas Glória a desarmou tão facilmente quanto.
            – Do que você está gritando? Você vem também!
            A succubus tinha uma enorme força para uma mulher daquele tamanho, proveniente da energia que provavelmente havia sugado de suas vítimas.
            – Me solta!
            – Me larga!
            – CALEM A BOCA AS DUAS! – então a succubus jogou Tae contra o chão, chutando-a com tanta força que quebrou uma costela e a imobilizou permanentemente, tornando seu respirar um barulho surdo.
            Então, ela beijou Luciani, sugando a energia de suas pernas e impedindo-a de resistir.
            – Não! – Luciani sussurrou entre os lábios de Glória, mas por fim caiu.
            – Você sabe o que você é? – a succubus sussurrou entredentes, olhando nos olhos fracos de Luciani – Vocês duas tem a mínima ideia do quanto são importantes?
            Ela olhou ao redor.
            – Está faltando uma... não importa. Vou levar vocês duas para a Rainha... Vocês duas vão ver só... E eu volto pela terceir...
            Então, houve um estouro e algo quente pingou no rosto de Luciani – logo depois, ela sentiu a succubus caindo com todo seu peso contra seu corpo; Glória estava morta, com um tiro certeiro na cabeça – como não era uma succubus demônia, não precisava de ritual nenhum para morrer... bastava morrer como humana.
            E quem atirara fora Khaled.
            – Que vadia – disse ele.
            Ele ajudou as duas a levantar, mas Tae tinha dificuldades até para respirar.
            – Kuruno! Me ajude!
            Ele levantou e foi com ele, e então avistaram Kurt e Marieta.
            As estrelas continuavam a cair.

4

            – Corre! – Gabriela gritou, para Natalie segurando Jéssica nos braços – Eles estão ali!
            Ela acabara de ver o resto do grupo.
            – Corre! Danii ainda está vivo, ele não pode nos pegar... EI! KURT! AQUI! KUUURT!
            Então, houve um tremor de terra, e Natalie caiu gritando – Jéssica rolou para longe dela, e se levantou sozinha...
            – JÉSSICA! – Natalie gritou – VOLTA PARA A MAMÃE, VOLT...
            Então, algo atingiu Jéssica na cabeça – um destroço de concreto, que perfurou seu crânio como uma bala –, e ela caiu, com o sangue vertendo da testa.
            O grito de Natalie não fez sentido algum – era puro desespero.
            – O que... – Kurt chegou mais perto de Gabriela – O que aconteceu?
            Gabriela também não conseguia encontrar suas palavras.
            Natalie se aproximou do corpo morto e caído de sua filha, e olhou nos olhos bem abertos de Jéssica – eles já não enxergavam nada.

5

            – Eu vou trazer ela! – Gabriela disse – Eu vou curar ela! Eu... Eu posso!
            Mas ela não tinha certeza.
            – SAIA! – Natalie gritou – SAIA, ME DEIXE... ME DEIXE COM EL...
            Ela continuou a chorar abraçada com o corpo de Jéssica.
            – O que nós faremos? – Luciani sussurrou para ninguém, sem desviar os olhos, enquanto as estrelas caíam ao redor.
            Então, Natalie gemeu – de felicidade.
            Lentamente, Jéssica começava a se mover entre seus braços... estava viva.
            – JÉSSICA! – Natalie quase sufocou-a de tanto abraçar.
            – Mas... como é possível? – Gabriela se perguntou.
            – Natalie – Kurt disse, com a voz pesada – Se afaste dela... ela pode não ser segura...
            Mas Natalie não ouvia nada. Apenas dançava, com sua filha nos braços, bêbada de felicidade.
            Então, seu rosto se retorceu em dor, e ela gritou – Jéssica estava mordendo seu pescoço, como um animal, e arrancando os músculos e vasos sanguíneos, um por um.
            – Natalie!
            Jéssica devorou o pescoço da mãe até os ossos, então as duas caíram – Natalie estava morta, e Jéssica se alimentava de sua carne.
            Então, a garotinha se levantou, e olhou para os outros sobreviventes – agora, eram 7 –, e os olhos dela brilhavam vermelhos.
            – ATIRE NELA! – Marieta gritou.
            – Não! – Gabriela tentou impedir, mas então, Jéssica sumiu por um instante – e no segundo seguinte, estava atrás deles, pulando em Khaled.
            – Sai! – ele arremessou-a, mas Jéssica planou no ar e voltou a atacar.
            – CORRAM!
            Eles seguiam para qualquer direção, enquanto Jéssica continuava a correr, numa velocidade sobre-humana e sem parecer ter noção de nada – ela só sabia atacar, e nem as balas das armas nem os raios de Gabriela pareciam acertá-la.
            Ao redor, as estrelas lentamente pararam de cair, e as pessoas estranhas do baile desapareceram, assim como o Cristo Redentor e a Torre Eiffel. A destruição se consertava sozinha, e foi como se nada daquilo tivesse acontecido – mas Natalie continuava morta, e Jéssica continuava a ser... aquilo.

6

            – O que foi... o que foi aquilo? – a cabeça de Gabriela dava voltas.
            – Natalie... – Luciani também não acreditava.
            Eles agora estavam num lugar seguro, escondidos numa das ruas desertas do Reino dos Corações.
            – O que vamos fazer com Jéssica? – perguntou Gabriela.
            – O que sempre fazemos – Kurt respondeu – Se a encontrarmos, vamos mata-la.
            – Ela é só uma criança.
            – Não é mais – Kurt retrucou entredentes, como se fosse difícil – Ela agora é um vampiro em transição, e temos de mata-la.
            – Não, ela não é.
            A voz veio de lugar nenhum, e, no momento seguinte, o Anjo estava dentre eles.
            Gabriela quase pulou e abraçou-o, mas Kurt levantou a arma contra ele.
            – Você! – disse.
            – Abaixe essa arma – disse o Anjo – Não conseguiria me matar, de qualquer forma.
            – O que você está fazendo aqui? – Gabriela perguntou.
            – Sua garota não é um vampiro – disse ele – É um demônio, de verdade. Ela matou a mãe para se alimentar, não somente do sangue, como da vida dela.
            – Mais um motivo para matarmos – Kurt retrucou.
            – Creio que sim... mas não acho que haverá tempo para isso.
            – O que você quer dizer? – Gabriela perguntou.
          – Eu tenho todas as respostas para todas suas perguntas – disse ele – No entanto, não tenho permissão para revelar todas. Mas eu sei da saída do Reino dos Corações.
            Gabriela se aproximou.
            – Existe uma saída?
            – Existe. E sou eu que vou leva-los até ela.
            O Anjo então olhou para a face de cada um deles.
            – A hora chegou – disse ele – Vocês todos vão sair daqui. 
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