Olá gente ;) Eu to escrevendo aqui pra dar dois recados: 1- eu terminei de escrever ECOS (sabe? o outro livro que eu estou escrevendo e vou lançar este ano?), e agora só faltam as revisões e é partir pra uma editora; 2- O REINO DOS CORAÇÕES fará novamente uma pausa, no dia 10/02, e voltará dia 24/02. O motivo dessa pausa é o carnaval, quando todo mundo viaja e não haveria motivo pra postar se ninguém vai ler né. Mas bem, curtam aí o capítulo 8 ;)



8

Florescendo

In Bloom – Nirvana

1

            – Eles estão entrando – disse alguém, e todos se afastaram.
            Além da porta pela qual haviam entrado no castelo, havia uma porta do outro lado – e essa porta dava para a estrada. Agora, ela se abria... e lentamente, as tiras de plástico que sinalizavam a quarentena se afastavam, revelando um túnel esterilizado; devia ser uma quarentena pesada, para tanto esforço do governo.
            Então, quatro sombras de alienígenas apareceram contra a luz, entrando no castelo – mas não eram E.T.s; eram apenas quatro homens com pesadas, amarelas e ridículos trajes de segurança contra elementos químicos no ar.
            Então, quando estavam dentro, as portas gigantescas se fecharam, e eles ficaram parados encarando os 9 sobreviventes.
            – Por favor, mantenham distância – disse um dos policiais, apesar de que ninguém tentasse se aproximar – Vamos coletar informações de vocês, e tirar um pouco de seu sangue, para fazermos exames... e dizermos se poderão ser liberados.
            – Vocês se importariam de nos dizer o nome de vocês? – Khaled perguntou.
            – Não será necessário...
            – Este é John – disse um deles, começando a falar na ordem, da direita para a esquerda – Este é Mike, eu sou Peter e esse com quem você estava falando é o Walter.
            – São americanos? – perguntou Khaled, com escárnio – Vocês realmente tem que meter o nariz em tudo, não é?
            Walter olhou para os outros 8 sobreviventes e, mesmo já sabendo a resposta, perguntou:
            – Ele é do Iraque? – e então, voltou-se para Khaled e soltou um risinho sarcástico por debaixo da máscara, fazendo-o corar – Vocês guardam muito rancor, sabia?
            Khaled tinha umas boas palavras na ponta língua – e Gabriela sabia que ele teria razão em todas –, mas no final, eles decidiram ficar calados.
            – Bem, agora é a vez de vocês – Peter disse, simpaticamente, porém claramente desconversando – Digam-nos seus nomes e poderemos fichá-los... e, se tudo correr bem, poderão sair em pouco mais de cinco dias, e só terão que fazer mais alguns exames lá fora; o CDC está dando prioridade ao caso de vocês.
            Depois das apresentações, os quatro homens pediram para ver o castelo.
            – É um castelo muito grande – disse Kurt – Nem mesmo nós visitamos todos os quartos, nas... não sei, acho que estamos aqui há pelo menos 24 horas...
            – Por onde vocês entraram? Por ali? – perguntou Walter, quando estavam no outro hall de entrada, de frente à porta que dava para o resto da cidade do Reino Dos Corações.
            – Sim, mas... eu não iria aí, se fosse você...
            Walter soltou outro riso de escárnio por debaixo da máscara e, sozinho, empurrou o portão – era mais leve do que qualquer um deles pensava. A rua tornou-se bem visível: a “tempestade” de casas voadoras havia terminado, mas os seus restos continuavam espalhados; telhados caídos e quebrados, janelas despedaçadas, tudo se confundia em imensas pilhas de entulho para todos os lados, como numa perfeita ilustração do fim do mundo.
            – Mas que porra! – exclamou ele, saindo dos castelo para a rua, a fim de ver melhor.
            – Senhor Walter, eu não...
            E foi então que algo, laranja e rápido, pulou de um ponto cego e atingiu o pescoço de Walter, jogando-o para o outro lado, onde ninguém poderia ver...
            E seus gritos começaram.
            – Walter! – Mike e Peter gritaram ao mesmo tempo.
            Antes que eles pudessem correr para socorrer o companheiro, uma manga e a máscara do uniforme voaram para a frente da porta – e, pela quantidade de sangue, era possível ver que um braço e a cabeça estavam dentro deles.
            Peter gritou, e acima de seus gritos, era possível ouvir grunhidos guturais vindos do lado de fora – provavelmente da mesma criatura que matara Walter.
                – Fechem o portão! – disse Gabriela – Corram, fechem!
            – Mas Walter! Walter!
            Gabriela foi lá, sozinha, e, com um pouco de sua magia de bruxa para ajudar, fechou rapidamente ambas as portas do portão.
            Os três homens restantes a encaravam, sem conseguir entender o que fora aquele brilho mágico que partira das mãos da garota.
            Peter foi o primeiro a falar, e sua voz estava destruída, enquanto ele levava as mãos à cabeça:
            – Walter....
            – Cara – John falou, com a voz mais juvenil, menos aterrorizada, porém mais surpresa de todas – Aquela coisa... aquela coisa que atacou o W... Tinha... Você viu? Tinha três caudas!
            – O que? – Mike respondeu – Pare com essa merda! Isso é impossível!
            – Ah, amigo – Kurt chegou perto o suficiente dele, e falou surpreendentemente calmo: – Nós vimos o suficiente para saber que não é não. Mas não se preocupe: você é novato aqui. Uma hora, o Reino Dos Corações vai te iniciar.

2

            – Walter... – Peter disse – Eu... eu não acredito...
            Eles haviam contado tudo para os três homens restantes, os quais ainda estavam processando todas as informações.
            – E essa... língua – disse Mike – Esse idioma... que estamos falando... o que é ele?
            – Eu não sei – Gabriela respondeu – É algo que veio com o Reino. Aqui, nós falamos essa língua diferente, fluentemente, como se tivéssemos sido criados com ela... mas em alguns momentos, nós mesmo conseguimos falar nossas línguas originais. Por exemplo, o Kurt pode falar inglês... ele é americano também, ou britânico, eu não sei... Natalie pode falar italiano, Marieta pode falar espanhol, e eu posso falar português...
            Enquanto isso, Kuruno, Khaled e Kurt discutiam o que haviam acabado de ver.
            – É um kitsune – disse Kuruno – Você ouviu o que eles disseram, eles viram três caudas... e era laranja.
            – O que é um kitsune?
            – Kitsune é a palavra japonesa para raposa, mas pode significar também um demônio raposa. As lendas... dizem que são dotados de inteligência superior, divina, e podem mudar para a forma humana; eles vivem até mil anos, e a medida que envelhecem, vão ficando mais sábios... e sua sabedoria é representada pela quantidade de caudas, que pode chegar até nove. São... divindades, yokais, bons presságios...
            – E por que um deles matou um ser humano?
            – Por que nem todos são bons... nem todas são Genko, ou seja, kitsunes boas. Algumas gostam de enganar pessoas... como as Nogitsune, gostam de enganar e matar... Temos sorte que esta não é uma Kyuubi, uma kitsune de nove caudas, apesar de que estas costumam ser pacíficas, pois tem a sabedoria eterna...
            Khaled disse:
            – Eu já ouvi falar destas, no livro do Diários do Vampiro. O quê? – ele completou, quando recebeu um olhar torto de Kurt – Eu gosto do Damon.
            – Ainda assim – disse Kurt – Temos que mata-la, a kitsune. Como fazemos isso?
            – Bem, apesar de kitsunes serem demônios, são também raposas... quanto a isso, basta mata-los como você mataria uma raposas: uma bala, uma faca... morrem normalmente, assim. Mas a parte demoníaca é que elas são quase impossíveis de se pegar... essa kitsune de três caudas tem a sabedoria de três séculos, e vai ser muito pegajosa de se pegar... Novamente, temos sorte que não é uma Kyuubi, por que, com nove caudas, vem também o tamanho de um prédio de trinta andares, e não é nada fácil matar algo desse tamanho...
            – Então temos que começar logo. Quanto antes matarmos ela, poderemos logo fazer o maldito exame de sangue e sair deste inferno.
            – Certo. Vamos pegar as armas na cozinha, e... acho que voltar para a cidade, é lá que o kitsune deve estar...
            Então, ouviram o barulho de algo de vidro quebrando – uma gigantesca janela. Todos olharam para o teto, como se conseguissem ver além dele, onde a janela quebrara.
            – Parece que não está mais – disse Kurt – Vamos nos dividir em grupos, e acabar com isso. E procurem onde está essa janela; vamos fechá-la logo para que nada mais entre aqui.

3

            Como agora haviam 12 pessoas, decidiram dividir-se em 5 duplas: Kuruno e Tae, Marieta e Kurt, Mike e John, Khaled e Luciani... Natalie e Jéssica ficaram na cozinha, pois seria difícil caçar um demônio-raposa com uma criança de 5 anos. Por fim, Gabriela ficara com Peter.
            Todos, até mesmo Natalie, estavam armados, para o caso de encontraram o kitsune – sendo isso sorte ou azar.
            – Vocês têm que enfrentar essa merda todos os dias? – perguntou Peter para Gabriela, quando andavam pelo corredor iluminado pela rede elétrica.
            – Considerando que estamos aqui há pouco mais de... cinco, ou seis dias. – Ela respondeu.
            Peter soltou uma risadinha seca.
            – Eu não consigo acreditar.
            – Cinco ou seis dias devem bastar para você mudar de ideia.
            – Quando nos recrutaram para essa missão... – continuou ele – Eu, eu estava dormindo... e me acordaram com um bipe. Eu tenho uma esposa, sabe... estamos tentando ter um filho.
                – Boa sorte para vocês... quando você sair daqui.
            – Eu espero que sim – Peter respondeu, e então voltou a olhar para frente; estavam virando para outro corredor, e olharam para os dois lados antes de decidir para qual seguir – Eles... meus superiores... bem, não são meus superiores de sempre, são apenas para esta missão... eles me recrutaram, por que acharam que meu histórico era bom, e... bem, me disseram apenas que era uma missão especial para o governo. Disseram que era questão de vida ou morte... uma infecção maligna... e que havia sobreviventes aqui dentro. Eu sou soldado, mas também fui instruído com enfermagem. Era para termos certeza, se vocês estariam vivos ou não, e... tirar vocês daqui, ou matar vocês de vez. Sem ofensa.
            – Tudo pela paz mundial – Gabriela respondeu, sem se ofender.
            – E... ninguém nunca me disse de nada disso... ninguém nunca me disse de, ahn, bruxas, demônios, vampiros, succubus... E eles sabiam. Eu tenho certeza que eles sabiam... lembra do helicóptero, que você disse que passou por aqui? Pois é, aposto que é o mesmo que está lá fora, esperando pela ordem para que possa encher este castelo de balas.
            Eles agora estavam num corredor largo, quase tão largo quanto o próprio castelo, e haviam janelas dos dois lados – a boca de Gabriela caiu quando ela percebeu que, do lado da estrada, fazia sol; era dia... e do lado do Reino Dos Corações, ainda se estava mergulhado naquela noite eterna.
            – É primavera – disse Peter, chocado também – O clima muda os humores, e a primavera está aqui novamente.
            Gabriela suspirou.
            – Deve ser apenas mais uma aberração da natureza – disse ela.
                A natureza é uma puta – respondeu Peter – É uma boa época para florescer...
            – Ainda assim, há ferimentos sobre as frutas lá fora, não é? – Gabriela suspirou – Tudo ao redor deste lugar morre...
            – Eu não sei o que isso significa.
            Ele então pensou em Walter. Ele era uma boa pessoa... ele morreu naquele lugar. Ele tinha família, filhos... Ele não merecia aquilo.
            Mas talvez merecesse. Era um bêbado, racista, sexista e homofobico. Amava a guerra. Ao inferno com o Iraque, dizia ele, pois os iraquianos só sabiam destruir Torres e atentar contra os EUA. Eles deviam todos morrer, ele sempre dizia. Todo e qualquer um que ficava no caminho de seu país deveria ser eliminado.
            Até parecia que ele era George Bush.
            E quanto a família? Ele batia nos filhos; venderia as crianças por comida. Ele odiava sua mulher, e a traía com as putas das enfermeiras do exército.
            Pensando bem, ele não era uma boa pessoa; nem um bom amigo, para Peter. Seria essa uma daquelas vezes em que, no momento em que uma pessoa morre, todos ficam de luto por ela, seja esse luto verdadeiro ou não?
            Então, ouviram o grito.
            – Vem de lá! – Gabriela disse, e passou a correr com a pistola apontada para frente, e a trava destravada.
            Peter seguiu-a; mesmo com os 9 sobreviventes estando lá há tempos mais que ele, achava que ninguém queria tanto sair do Reino dos Corações quanto ele mesmo.

4

            John tinha 19 anos; estava no exército por que seu pai queria. Era um novato, ainda, e por isso não sabia o por quê havia sido recrutado para uma missão tão importante quanto todos havia dito.
            – Abaixa isso, cara – Mike dizia, pois John estava tão tenso que parecia querer atirar em cada sombra – Cara, você gosta de atirar sua arma, não é?
            John era aquele que gostava de todas as músicas bonitas, e de cantar junto. Na verdade, ele fazia isso pelas garotas; no exército, não haviam muitas deles, então, só quando os caras saíam para beber uma cerveja que ele conseguia ficar com alguma. Ou então, tinha que seduzir alguma enfermeira, e leva-la para um armário ou algum lugar vazio...
            – Não enche – disse ele – Essa maldita raposa pode pular de qualquer lado.
            – É, tanto faz – Mike, que era só alguns anos mais velhos, tirou o capacete.
                – Ei, o que está fazendo?!
            – A infecção não é por ar, você ainda não percebeu? – Ele tirou um maço de cigarro de uma das dobras do uniforme – Se fosse, esses caras estariam mortos em dois ou três dias... como a maioria das infecções aéreas estranhas são.
            – Me dê um, por favor – ele estendeu a mão em direção aos cigarros, tirando sua máscara.
            – Ooora, decidiu deixar de usar fraudas? – Mike riu, e levou um soco de leve no braço, enquanto colocava seu próprio cigarro na boca e estendia um para John – Tem fogo?
            John negou.
            – Eu roubei da cozinha – disse Mike, tirando um fósforo de outra dobra – Por que eles teriam um fósforo num castelo?
            – Pelo mesmo motivo que teriam luz elétrica.
            Mike riu, e riscou o fósforo numa área rígida da parede; na primeira tentativa, o fósforo se acendeu, e seu fogo acendeu os dois cigarros, enchendo o corredor de nuvens de fumaça de tabaco.
            Então, houve um ruído.
            – Ouviu isso? – disse Mike, e John confirmou – Em guarda. Você vai para a direita, eu vou para a esquerda.
            Ele assentiu, e ambos colocaram o cigarro na boca, em stand-by, sem tragar; apenas para poderem segurar seus fuzis direito.
            A luz elétrica facilitava o trabalho – John tinha apenas que avançar, e averiguar se havia alguém nos corredores ou não...
            Como se Deus quisesse lhe castigar por ter percebido isso, depois de três corredores, já muito distante de Mike, a luz se apagou.
            – Você só pode estar de brincadeira comigo – e xingou duas vezes.
            Quando a luz voltou, poucos segundos depois, ele olhou para frente e não viu ninguém – mas ouviu a respiração ofegante vindo de trás...
            ... e quando se virou, viu a ruiva mais linda de todas – de quatro, no chão, com os olhos verdes encarando-o de baixo, e nua, completamente nua.
            Ela gemia baixinho – não, gania. Como um animal ferido...
            ... e era linda, linda de morrer – todo pensamento se perdia na mente de John.
            Ele só queria se aproximar...
            A ruiva tomou o primeiro passo, levantando-se do chão; ela estava ali, na sua frente, e enterrou a mão em seu cabelo... John não se movia, enquanto ela beijava sua boca...
            Deus, há quanto tempo não tocava numa mulher?
            Ela então descreveu uma linha, com a língua – primeiro seu queixo, então sua garganta... o lado direito de seu pescoço... enquanto suas mãozinhas femininas abriam o zíper de seu uniforme... era difícil como o inferno de fechar aquele uniforme, como ela conseguia tão facilmente?... revelando a camiseta que usava por baixo, quando deveria usar um equipamento oficial do exército... John sempre fora um rebelde...
            As unhas da ruiva eram muito afiadas e muito cuidadosas, de modo que cortaram a camiseta no meio... rasgando-a aos poucos... até que o peito magro de John estivesse exposto, e a ruiva pudesse beijá-lo também...
            Então, as mãos cuidadosas da ruiva brincaram com sua barriga, e, depois de descerem um pouco mais, decidiram tocar lá.
            Ah, Deus... Ah, DEUS...
            A doce ruiva beijava seu peito – o lado esquerdo, até...
            John sentiu algo agudo e frio onde antes havia a boca da ruiva.
            E então, sentiu seu peito sendo perfurado e o sangue jorrando...
            Ele olhou para baixo – o corpo continuava o de mulher nua, mas a cabeça... era uma raposa!
            Uma raposa...
            Uma raposa!...
            Uma raposa....
            O que ele deveria se lembrar sobre raposas?
            O QUE ELE NÃO CONSEGUIA PENSAR?
            O focinho da raposa abria o caminho pelo peito de John – ele sentiu, os gigantescos dentes rasgando a pele, então os músculos... chegando aos ossos, e, DEUS, ela estava mastigando seus ossos! Quebrando aos poucos, esfarelando-os...
            John gritava e gritava e gritava...
            Ela chegou em seus órgãos internos e...
            O ar fugiu de John, enquanto as veias e as artérias eram desconectadas de seu coração – a raposa havia cravado seus dentes nele, e esmagado-o aos poucos, para que o sangue fosse expulso do órgão como o suco era espremido para fora de uma laranja...
            Então, a raposa descravou o focinho de seu peito, mastigando o coração, deixando John cair, morto.
            E, aos poucos, a cabeça de raposa foi transmutada para a cabeça de mulher, e seus lábios estavam cheios de sangue – com as mãos, ela partiu o coração em dois, mordendo-o. Continuou a mastigar uma metade, com a boca aberta, sem educação alguma... e a outra metade, enfiou na boca de John, e agarrou sua mandíbula, fazendo-o mastigar o próprio coração.
            E Mike estava vendo tudo, lá de trás.
            A kitsune sentiu seu cheiro, e olhou para ele...
            Mike gritou, e saiu correndo, abandonando o corpo morto de John ali mesmo.

5

            Gabriela e Peter haviam ouvido o grito de Mike, mas só o encontraram perto do hall de entrada, aquele que dava para a estrada.
            – Morto! – gritava ele – John... John está morto!
            Não importava o quanto Peter tentava o controlar, Mike se desvencilhava e corria...
            – Me deixem sair! – ele bateu no portão, mas não conseguiu empurrar...
            Correu para o segundo andar, onde havia uma gigantesca janela logo de cara.
            – Me deixem sair! – ele bateu na janela, até quebra-la; as tiras de plástico que “separavam” a contaminação do resto do mundo eram a única coisa no caminho, e Mike cortou-as com uma faca.
            – Me deixem sair! – gritou ele, pulando e acenando para o resto do pequeno exercito lá embaixo – ME DEIXEM SAIIIR!
            – Mike, não...
            Ninguém esperava que o helicóptero atirasse – a bala acertou a cabeça de Mike, matando-o e fazendo-o cair de costas.
            Gabriela gritou de susto, e Peter recuou, vendo-o cair.
            – Procedimento padrão – ele disse, com a voz falhando e lágrimas nos olhos.
            – Vocês não vão nos deixar sair, não é?
            – Nós íamos... mas agora, eles não vão nos deixar sair.
            A janela do outro lado, que dava para o Reino Dos Corações, se quebrou, e uma gigantesca raposa de três caudas pulou por ela.
            – Cuidado! – disse Gabriela; a kitsune era maior do que ela mesma.
            Peter pulou para a direita enquanto ela pulava para esquerda – ele foi quem se recuperou mais rapidamente, e atirou três vezes... sem acertar nenhuma.
                Gabriela caiu, quando a kitsune pulou para cima dela, e sua grande mandíbula se fechou a centímetros de seu rosto, quase arrancando seu nariz...
                – Atira! – gritou ela, socando a kitsune como poderia sem perder sua mão – Atira agora!
            Se Peter atirasse, corria o risco de acertar Gabriela...
            Então, a kitsune foi arremessada no ar – afinal, Gabriela era uma bruxa – e caiu longe... com raiva. Ela havia pulado novamente para atacar – e a bala acertou uma de suas patas traseiras, aleijando-a.
            Com um ganido, ela caiu definitivamente – diante dos olhos de Gabriela, Peter, e todos os outros sobreviventes que chegavam aos poucos, ela se transformou numa ruiva linda e nua.
            Ela continuava ganindo.
            – Onde estão os outros soldados? – Khaled perguntou.
                – Mortos – Peter respondeu, e involuntariamente olhou para o corpo de Mike.
            Kuruno se pôs à frente, olhando diretamente para a kitsune caída.
            – Você, oni – disse ele – Você é dotada de sabedoria eterna.
            A kitsune riu – gargalhou, ensandecidamente.
            – Três séculos! – gritou ela, com uma voz sem emoção – 300 malditos anos de vida e chacina... coletando conhecimentos para chegar às 9 caudas, e então à vida eterna!... e eu acabo neste lugar!
            – Você tem a sabedoria dos deuses – continuou Kuruno – Como nós saímos deste lugar?
            A kitsune riu novamente.
            – Responda minha pergunta!
            – Eu não sei! – o riso cada vez mais parecia um choro – Você viu, garota Gabriela, é, eu sei seu nome! Você viu quando aquele idiota, o... Mike?, o Mike tentou pular pela janela! Ele não conseguiu, não é! POR QUE O REINO DOS CORAÇÕES NÃO DEIXA! O REINO NÃO DEIXA! A kitsune não sabe a resposta! E quando uma kitsune não sabe, você sabe o que quer dizer, não é? A RESPOSTA NÃO EXISTE!
            Então, um grunhido veio do outro lado do corredor – as luzes se apagaram, e quando viram, um segundo kitsune havia pulado no pescoço de Peter. O sangue jorrava, enquanto os dentes eram cravados ali, mas o kitsune não procurou se alimentar do soldado – simplesmente quebrou seu pescoço; estava morto.
            Kurt, tarde demais, atirou contra o kitsune – metade do impacto da bala desfigurou a cara da raposa, matando-a, e a outra metade do impacto rasgou a carne da mandíbula de Peter. Os dois caíram, e o kitsune lentamente se transformou num homem nu – não era possível ver suas feições completamente; toda a área do nariz para o olho direito estava rasgada, e no lugar do globo ocular, havia apenas um buraco sangrento. O lábio superior também fora danificado, e era possível ver completamente alguns dentes e os músculos que compunham a gengiva.
            A outra kitsune, a mulher, tomou seu derradeiro suspiro e caiu, também morta.
            – Fitzpatrick – o barulhinho veio de algum lugar no corpo de Peter – Fitzpatrick, faça um relatório, câmbio.
            Havia um rádio no uniforme de Peter, e Kurt tirou-o dali.
            – Fitzpatrick, responda, isto é uma ord...
            – Aqui é Kurt Rogers, senhor – disse ele – Seus soldados... estão mortos. Eles morreram aqui dentro... por favor, nos ajude, nos tire daqui, este lugar não é seguro...
            Então, Kurt foi interrompido pela interferência, um chiado contínuo vindo do rádio – quem quer que estivesse do outro lado, havia desligado.
            Kurt olhava continuamente para frente, sem acreditar.
            – O que foi? – perguntaram.
            – Eles acham que matamos os soldados – concluiu ele – Eles acham que a infecção matou os soldados. Eles não vão nos salvar; eles estão contra nós agora. 
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