7

Bem-vindo a casa

Welcome Home – Coheed and Cambria

1

            – Pode me passar o sal, por favor? – Kurt pediu para Gabriela.
            Os 9 haviam encontrado o que seria a cozinha do castelo; lá, havia comida para alimentar um exército – ou apenas o suficiente para sustenta-los por dois anos. Comeriam toda noite lá, e sempre que precisavam, usavam a lanterna para achar o caminho.
            E sempre que Gabriela olhava nos olhos de Kurt, sabia que ele preferia ter puxado o gatilho quando teve a chance.
            – Claro – disse ela, e, com um raio, arremessou o sal para o outro lado da mesa.
            Kurt pegou-o em pleno ar, contra sua vontade.
            – Você sabe – disse ele – o quanto eu odeio isso.
            – Ah, me desculpe – ela respondeu – É uma coisa bem boba, afinal, nada que possa, por exemplo, salvar sua vida.
            – E estou grato, novamente.
            Os garfos se chocaram contra os pratos, com raiva, e todos se calaram mais uma vez.
            – Quer saber – disse Kurt, jogando os talheres na mesa – Não, não estou grato. Pelo que eu saiba, aquelas casas que voaram por causa de seu feitiço quase nos mataram também.
            – E isso foi depois de eu ter curado seus cortes, salvo suas vidas e espantado um vampiro que iria bebê-los até a morte, não é mesmo?
            Ela sorriu sob a luz das velas.
            – Mas você também não sabia o que estava fazendo, sabia? – Kurt retrucou.
            – Gente... – Natalie tentou intervir, mas foi ignorada.
            – Assim como você não sabe o que está fazendo desde o pequeno momento em que decidiu ser o presidente do Reino dos Corações?
            – Já chega! – ele se levantou – Você, pegue esse sua magia e mantenha ela longe de mim!
            – Ora, mas essa magia pode salvar sua vida, você não sabe das novidades?
            – Então não me salve, eu não ligo!
            Então talvez eu considere te deixar morrer, mesmo!
            Ninguém falou nada, mas os gritos dos dois ecoaram em seus ouvidos.
            – Você deveria ter puxado o gatilho, não é, Kurt?
            Gabriela então se levantou, e pegou uma das lanternas, saindo da cozinha.
            – Gabriela – Marieta disse – Espere!
            – Deixe ela – Kurt bradou – Ela vai voltar. Ela não tem para onde ir.
            Marieta voltou-se contra ele.
            – E nem você – disse ela, e foi atrás de Gabriela.

            Gabriela caminhava pelo corredor quando ouviu o primeiro ruído. Eram passos, vários passos numa corrida.
            – Se você for Kurt – disse ela –, me deixa em paz. Agora, se for um filho da puta de um vampiro, é bom fugir agora por que eu não estou no humor para esta merda.
            Ela virou para trás, direcionando a lanterna diretamente na altura do rosto...
            E ela viu a si mesma – outra Gabriela, vestida com as mesmas roupas, com o mesmo rosto, mesmo cabelo... mesmo tudo.
            Era uma cópia sua, à sua frente.
            – Quem é você? – Gabriela pergunta, e sua cópia imitou-a perfeitamente, tanto nos movimentos quanto na fala.
            Gabriela então sacou sua pistola, e apontou para frente – como uma criança, sua cópia fez uma pistola com os dedos, e também apontou para frente.
            – O que é você? – ela perguntou, e a cópia mais uma vez reproduziu perfeitamente sua fala.
            – Me deixe em paz! – disse Gabriela, deu-lhe as costas e começou a andar.
            Mas dessa vez, a cópia não havia lhe imitado, o que chamou sua atenção suficientemente para que se voltasse novamente.
            A cópia parecia a ponto de desabar, emocionalmente falando.
            – Você está me mandando embora? – disse ela, começando a soluçar – Você está terminando comigo?
            Então, ela caiu no chão, chorando.
            – Por que eles sempre vão embora?
            Gabriela – a Gabriela de verdade – soltou um grunhido.
            – Nojento – disse ela, e deu as costas, não vendo necessidade nenhuma em matar uma criatura tão patética.
            Mas então, ela sentiu duas mãos muito parecidas com as suas próprias agarrando-lhe o pescoço por trás e jogando-a no chão...
            Gabriela bateu a cabeça, tonta, enquanto sua cópia montava sobre seu corpo e acertava um soco – muito mais forte do que aquelas mãozinhas deveriam ser capazes de aguentar –, no meio de seu nariz, quebrando-o.
            A cópia ainda agarrou sua cabeça e fê-la chocar-se contra o chão, e foi então que Gabriela lançou um raio – e nem viu se acertou ou não: apenas devolveu o soco, saindo da guarda...
            Sua lanterna havia caído um pouco distante, mas servia para iluminar o caminho – sua pistola estava longe de ambas...
            A cópia acertou algo em sua cabeça, duro como pedra – algo como uma prancha... então virou-a, e fez Gabriela olhar bem em seus olhos quando disse:
            – Não é educado sair da mesa sem que seus companheiros tenham terminado o jantar.
            Então, um tiro ecoou pelo corredor, e uma vela iluminava o rosto de Marieta.
            – Saía daí, Trickster – disse ela.
            Então, a cópia desmontou de Gabriela e passou a atacar Marieta – e a vela caiu no chão, se apagando, enquanto o grito ecoava.

2

            – Eles estão com problemas – disse Khaled, correndo na frente de todos que saíam da cozinha – Eles estão com problemas!
            No meio de todos os corredores, eles ouviram um gemido – Gabriela, a vozinha de Gabriela distorcida num choro; e então, a própria surgiu no fundo do corredor.
            Estava usando apenas lingerie, e estava suja e coberta em sangue. Havia ainda alguns restos de seus trapos de sua camisa pendurados nos braços, mas não vestia nada além disso.
            – Marieta – gemeu ela – Marieta está morta.
            Ela caiu de joelhos, chorando e tremendo incontrolavelmente.
            – Fique aqui – disse Kurt para Natalie – Cuide dela, nós vamos procurar o...
            À menção da palavra “corpo”, Gabriela começou a chorar mais alto.
            Jéssica continuava na cozinha, e Tae tomava conta dela; Natalie abraçou Gabriela, sem se importar com a sujeira – não havia espaço para esses luxos naquele lugar –, mas não pôde deixar de notar...
            ... nos seios de Gabriela, como eram fartos e como o maldito sutiã escondia o jogo.
            – Você quer tocar? – Gabriela não chorava mais; na verdade, agora olhava bem profundamente em seus olhos – Quer pegar neles?
            – O... o que?
            – Eu posso sentir seu olhar – disse ela, lambendo os beiços; seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, porém secas: não parecia nem um pouco com a garota frágil e perturbada de apenas alguns segundos atrás – Eu vi... você olhando.
            Natalie se levantou, se afastando.
            – Aaah, não me comece com essa – disse ela – Não me... não me parece um daqueles pornôs baratos!
            – E como você saberia dos pornôs baratos, hein? – disse Gabriela, levantando-se e passando a mão pelo próprio corpo, sujo e sangrento – mas, acima de tudo, parecia elevar seus seios... como se chamasse por Natalie.
            – Vamos – continuou Gabriela – Não tem ninguém por perto... sua filha não vai ver nada... eu aposto como você gostaria que fosse rapidinho...
            – Fique longe de mim!
            – Por que ficar longe, se podemos ficar mais perto...?
            As mãos de Gabriela envolveram a cintura de Natalie, e não importava o quanto a mamãe esperneasse, ela não conseguia se livrar do abraço.
            – Você não quer realmente se livrar de mim, não é? – disse Gabriela – Você quer... tanto quanto eu...
            E então, seus lábios estavam tão próximos quanto uma batida de coração...
            E Natalie de repente derreteu nos braços de Gabriela...
            E, ao sentir algo se chocando contra sua cabeça, ela desacordou – e a cópia de Gabriela riu enquanto seu corpo caía.
            – Um último beijo para você, um último desejo para você – disse ela – Por favor garota, se decida... eu espero que você morra.

3

            – Onde está ela? – perguntou Khaled, alto – Onde está o corpo de Marieta?
            – Shhh – disse Kurt, levantando a mão – Você está ouvindo isso?
            Ninguém ouviu, a principio – então aos poucos, ouviram sussurros distantes; gemidos... até que a palavra se tornou bem audível:
            – Socorro! – dizia uma voz conhecida... – Alguém nos ajude!
            Era a voz de Marieta.
            Então, Gabriela surgiu do corredor – mas ela não era a própria Gabriela... estava de lingerie, e era um vampiro em transição.
           
4

            Kurt sentia falta de seus cigarros como nunca.
            Tudo o que ele queria era fumar um pouco e esquecer dos problemas, como ele sempre fazia... e talvez injetar um pouco, também. Um pouco de heroína seria bom para seu sangue, bom para sua cabeça.
            O que ele na verdade queria era que tivesse morrido quando seu braço infeccionou, alguns meses antes – o fim, aqui nós paramos... e então, nunca mais veria, essa era sua vida. Quem sabe, se tivesse morrido lá, com aquele buraco bem acima de sua veia, de tanto injetar... não tivesse que viver aquilo. Aquele maldito Reino dos Corações. Que corações, afinal? Era um inferno, isso sim.
            O inferno só estava completo com aquela Gabriela. Quem ela pensa que é? Uma bruxa, de onde diabos saiu isso? Já havia parado para pensar uma, duas, três vezes e ainda assim não conseguia deixar de se arrepender: por que não puxara o gatilho? Poderia ter facilmente fingido que ela era um vampiro em transição...
            Bem, se você é tudo o que eu pensei... uma PUTA vestida de cordeiro, fodendo tudo o que faço...
            E como ela fodia.
            E ele não sabia se o trocadilho era intencional ou não.
            E se fosse, como haveria de saber?
            Mas espera... vampiro em transição... isso deveria lembra-lo de alguma coisa...
            Gabriela! Os olhos vermelhos! O sangue em sua boca! Ela... ela deveria ter sido mordida? Não, bebido sangue de vampiros e então morrido! Morta!, estava morta! Ele adoraria que isso acontecesse! Aconteceu!
            E agora, bastava puxar o gatilho, e tudo estaria acabado; seriam 8... ou talvez 7, considerando que Natalie estava por perto... não, 6, pois Marieta estava morta...
            Bastava puxar o gatilho...
            E por que ele não conseguia?
            Não importava quantas vezes a Gabriela-vampira lhe socasse a cara, ele não conseguia puxar o gatilho.
            Vamos!
            Ela é uma bruxa!
            Ela não é humana!
            Mate!
            Vamos lá, mate a vadia!
            (Ela estava se esfregando muito em sua cintura...)
            É uma simples questão de puxar o dedo e estourar a cabeça dela!
            POR QUE VOCÊ NÃO A MATA LOGO?
            Ele gostava...
            Ele gostava da pélvis dela...
            Ela poderia ser tudo o que ele queria...
            Tinha 17 anos, mas Deus, ele queria ela como nunca quis nenhuma das mulheres que passaram por sua vida – e não foram poucas; não era possível imaginar a quantidade de mulheres traficantes que trocavam uma injeção por uma noite... mas Kurt era um homem bem bonito, e já deveria ser de se esperar...
            ... mas você não era honesta, agora fique no chão!
            Ela deveria saber que era uma bruxa, não deveria? Ela deveria saber dos malditos raiozinhos dela; e se queria tanto estar do lado dos sobreviventes, por que não contara logo? Por que tivera que esperar a maldita succubus ataca-la até quase a morte para que a verdade viesse a tona? Queria uma bala na cabeça, era isso? Pois bem, mais um desses segredinhos, e Kurt já estaria de saco cheio.
            ... fique no chão?...
            (Fique no chão, querida, vamos trocar de posição)
            Ela socava seu rosto até que seu nariz quebrasse, mas Deus, como a pélvis dela era deliciosa.
            Você estrangulou minha pequena lista de favores...
            (Tipo, você podia não ser uma bruxa, para que eu não tivesse que te matar, era só isso que eu lhe pedia?)
            ... mas se você realmente tivesse me amado, suportaria meu mundo!
            ... amado?...
            ... por que ela o amaria?...
            ... era uma daquelas ideias que se tinha quando se estava tão cego que se acreditava que a pessoa retribuía o sentimento?...
            ... cego pelo QUE?
            (Pendure-se à glória da minha mão direita, querida)
            Ele morreria sorrindo, apaixonado por aquela maldita; um vadio doente, morrendo ao ser espancado... E aqui descansaria o amor eterno...
            Com a verdade nos limites da confissão... seus dentes quebrados não permitiam que ele dissesse as palavras certas...
            Ao morrer por amor, um amor doente... Por uma vadia, uma bruxa vadia que ele adoraria meter uma bala na cabeça... Você parece privilegiado diante dessas almas... A vadia parecia privilegiada demais...
            Com amor e devoção, irei morrer enquanto você dorme...
            Então, eu condeno você, demônio, a roubar apaixonada...
            Roubar a vida...
            Então, Kurt sentiu algo tirando a vadia de cima dele – Gabriela; duas Gabrielas...
            E Marieta! Marieta estava viva!
            – Levante – disse ela – Você tem que ver isso.

5

            – Kurt! – gritou Gabriela; uma das duas Gabrielas... mas ele não sabia qual.
            – Kurt! – a outra também gritou.
            As duas estavam de lingerie, quase nuas; sujas, ensanguentadas. Ele levantou a arma, apontando para as duas Gabrielas – mas sem saber em quem atirar.
                – Qual das duas? – ele sussurrou para Marieta.
            – Eu não sei – disse ela, de modo cheio de significado.
            Ele encarou-a, e ela encarou-o de volta, com as sobrancelhas arqueadas. Ele xingou em pensamento...
            – Kurt! Por favor!
            – Kurt, seu filho de uma puta, não me venha acreditar nela...
            – Kurt, atire! Atire antes que ela ataque!
            – KUUUUURT! NÃO OUSE...
            – NÃO OUSE O CARALHO! ATIRA NA PUTA! ATIRA!
            Então, Kurt viu: nas mãos da Gabriela da direita, brilhava um mínimo raiozinho – um pequeno sinal. A Gabriela falsa não conseguiria imitar aquela magia, pois não era uma bruxa...
            Então, Kurt apontou a arma para a Gabriela verdadeira; seria fácil mata-la ali, pois todos poderiam entende que ele simplesmente se confundira... bastava puxar o gatilho, e matar ambas as vadias – a falsa e a bruxa...
            Mas, no último segundo, ele virou para a esquerda e atirou – a Gabriela falsa caiu, com um buraco na cabeça, morta.
            No segundo seguinte, ninguém fazia nada além de respirar; e no segundo além disso, Gabriela avançou e esbofeteou a cara de Kurt.
            – Você pode não gostar do que eu sou – disse ela – Você pode não gosta do fato de eu não ser uma mera humana, e pode querer me matar o quanto você quiser... Mas eu sou a razão pela qual você continua vivo. Eu posso e vou proteger vocês, por que vocês são meus amigos, e eu sei muito bem escolher meus amigos. Mas não me venha apontando uma arma pra minha cara só por que você não entende. Se quisermos todos sobreviver, você vai mandar seu orgulhozinho se foder e vai se comportar como um líder de verdade. Temos que ficar todos juntos, ou vamos morrer sozinhos.
            E então, seguiu pelo corredor de pedra do castelo, até que, de repente, as luzes se acenderam – luzes elétricas; e foi possível ver os quadros, as paredes, os pisos, tudo foi visível; e eles todos puderam se olhar nos olhos pela primeira vez, sem ter medo do escuro.

7

            O que havia atacado Gabriela era um Trickster; eles tinham o poder de assumir a forma que quisessem – ele era um monstro mitológico, e talvez isso estivesse interferindo na eletricidade; sua morte significou o fim da interferência –, e atacavam quem não cumpria as regras. A regra que Gabriela quebrara fora a de sair da mesa no meio do jantar – era uma falta de educação.
            – Ele deveria estar sozinho a muito tempo, o Trickster – disse Marieta – Devia estar só procurando uma desculpa para atacar alguém, e você foi a primeira a quebrar a regra dentro do castelo.
            – E qual seria a regra que nós quebramos? – disse Luciani, que apontava para Khaled, Kuruno e todos que estavam por perto quando a Gabriela falsa atacou-os, deixando-os caídos e sem ação.
            – Compactuar com Kurt, eu acho – Gabriela disse; agora estava limpa e, lentamente, com seus dons de bruxa, curava seus amigos. Fizera seu próprio nariz e o de Kurt se desquebrarem, enquanto fechava os cortes dos socos do Trickster.
            – E o que eu fiz? – Kurt perguntou.
            – Não amar ao próximo, talvez.
            Todos caíram na gargalhada, e Kurt abriu o sorrisinho.
            Mas você está errada, sua vadia. Como Jesus, está se fazendo de mártir, não é? Mas você não tem ideia. Não tem a mínima ideia.
            A pedra da maldição que você me rogou... Kurt sentia o peso daquela pedra: a obsessão. Como ele queria Gabriela, como!
            – Está tudo pronto – disse ela – Podem se levantar, e vamos terminar nosso jantar!
            Eles a obedeceram, e saíram do corredor; agora, com as luzes elétricas, não precisavam mais das lanternas – podiam andar livres...
            – Gabriela – Marieta sussurrou; as duas estavam sozinhas ali agora – Você percebe o que aconteceu, não é?
            – Sim – disse ela, fria e sem emoções.
            – Você... você morreu.
            Quando ela havia sido atacada pelo Trickster, Gabriela não simplesmente pulou para salvar Marieta; ela agarrou o Trickster, e caiu com ele no chão... e ele rasgou suas roupas, deixando-a apenas de lingerie, e espancou-a até o leito de morte – só então, antes de fugir, quebrou seu pescoço, encerrando sua vida para sempre...
            Até que, de algum modo, os ossos de Gabriela voltassem sozinhos a seu lugar, e ela se levantasse – viva.
            – Você morreu, e... voltou a vida!
            – Eu sei – disse ela – E espero que isso possa ser nosso segredo... a não ser que queira que Kurt meta uma bala na minha cabeça. Apesar de que eu acho que eu iria voltar, de qualquer jeito.
            – Você é uma vampira?...
            – Não – ela respondeu, seguindo pelo corredor – Mas preferia que fosse... pelo menos, eu saberia o que eu sou.

8

            – Ei – disse Natalie, enquanto ela e Gabriela lavavam os pratos. Aparentemente, naquele castelo Shakespeariano, havia encanamento bastante moderno, além de, claro, as luzes elétricas.
            – Sim? – Gabriela respondeu.
            – Eu... eu sei que foi uma hora difícil e tudo mais... mas você se importaria se deixássemos o que aconteceu... entre nós... como o que é, ahn, entre nós, sabe, um segredo?
            Gabriela pousou o prato sem fazer barulho.
            – Perdão, mas... o que aconteceu entre nós?
            – Não finja... não finja que não lembra de que você em agarrou e... – Natalie então pareceu cair na real.
            – Eu... te agarrei?... – e Gabriela subitamente entendeu.
            – O Trickster... que Marieta estava falando – Natalie disse bem devagar – Ele muda de forma, não é?
            Gabriela assentiu.
            – Então deixa para lá – Natalie tentou forçar uma risada, mas Gabriela agarrou seu pulso, com muita leveza, e olhou em seus olhos ao dizer:
            – Por que você iria querer que isso fosse um segredo...?
            No silêncio, uma encarando demoradamente a outra, Gabriela entendeu tudo. Engolindo em seco e olhando ao redor, ela baixou o tom de voz e tomou muito cuidado ao perguntar:
            – Você é lésb...
            – Por favor – Natalie implorou, soluçando; sua voz já estava fraca o suficiente para dar sinais de que começaria a chorar – Por favor, não conte a ninguém... principalmente para Jéssica.
            – Mas, Natalie... é quem você é. Você não pode mudar isso, nem ter vergonha.
            – Não ter vergonha? Como eu vou para a igreja todos os dias sabendo que estou condenada ao inferno? Você sabe o que é isso? Deus deve me odiar por ser o que eu sou. – ela derramou uma lágrima e seus olhos se tornaram vermelhos – Eu nunca deveria fantasiar de deitar com outra mulher. É pecado, Deus não gosta. E minha filha... minha Jéssica... ela não precisa dessa influência. Ela não precisa ter vergonha de mim. Quanto menos ela souber... melhor. Assim, ela não se torna o que eu sou.
                Ela falava de si mesmo como um monstro.
                Natalie então largou um prato meio lavado na pia, e limpou os olhos com a ponta do polegar. Ela saiu da cozinha, dando as costas para Gabriela e saindo para os corredores do castelo sozinha.
                Gabriela nunca entenderia a estupidez do ser humano; nunca entenderia como eles poderiam usar um ser de amor, como Deus, para justificar suas próprias distorções. Nunca entenderia como poderiam esmagar uma alma frágil, como a de Natalie, até que ela mesma se condenasse a não ter mais esperança.
                Então, ela viu Khaled correndo pelo mesmo corredor, na direção oposta, e largou os pratos sujos e a torneira aberta ali mesmo, seguindo-o.
                – O que foi? – perguntou ela.
            – Eu... eu não sei!
            Eles subiram um lance de escadas cobertas por um lustroso e bem cuidado tapete vermelho, para o recém-descoberto segundo andar, e ali, havia uma gigantesca janela, medindo talvez três metros de altura – como as de uma catedral. E todos os outros sobreviventes estavam ali na frente.
            – O que...
            Mas então, ela viu luzes do lado de fora, e um barulho conhecido...
            As hélices de um helicóptero – o mesmo helicóptero que havia matado o vampiro em transição no primeiro dia em que estiveram ali.
            Então, largas tiras de plástico transparente caíram sobre a janela, tornando o mundo exterior turvo – mas não o suficiente para impedir que vissem o que havia do lado de fora.
            Mais dois helicópteros sobrevoavam o prédio; no chão, haviam carros grandes, com luzes vermelhas e azuis piscando – a polícia estava ali...
            E, lá no fim, era possível ver uma estrada...
            – Eles estão nos pondo... em quarentena química – disse Kurt – E aquela... aquela é a saída do Reino Dos Corações.
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