Olá de novo galero ;) Este, como eu disse, é o último capítulo de 2011, e o capítulo 6 só será postado dia 13/01. Mas, quem quiser voltar aqui dia 10/01, meu aniversário, vai poder ler trechos de ECOS, o livro que eu estou escrevendo e será lançado em meados de 2012. Quem ainda não leu os primeiros trechos, é só clicar aqui. Bem, fiquem aí com o capítulo 5 ;)



5

Me faça querer morrer

Make me wanna die – The Pretty Reckless

1

            – Isso não é possível – disse Gabriela – Não é possível.
            Eles haviam levado Jéssica para fora – encontraram um pequeno beco entre as casas, grande o suficiente para se esconderem e cuidarem da menina, mas não o bastante para chamar a atenção de algum morto-vivo que passasse por ali.
            Ainda assim, não era motivo para comemorar. O ombro da garotinha estava dilacerado, como estaria após um animal de grande porte rasgar sua pele com os dentes. Ainda que o sangue vertesse para fora do ferimento de modo similar a um gêiser incessante, Jéssica não chorava.
            – Mamãe, eu vou morrer? – ela perguntou, com a mãozinha sobre o corte, como se um pouco de carinho fosse melhorar a dor.
            Natalie tirou forças detrás das lágrimas, de um lugar que ela não conhecia, para que pudesse responder:
            – N-n-não, m-meu amor, você-ê não vai...
            – Mas tem alguma coisa errada comigo, não é? – Jéssica continuou, sem se abalar; nem poderia, pois tinha 6 anos e não entendia a gravidade de suas palavras – Se eu morrer, você promete pra mim que me enterra com a minha boneca... pra eu brincar com ela no Céu até você chegar?
            Natalie engoliu em seco, e olhou, com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, para cada um dos ali presentes. E ninguém conseguia encará-la de volta.
            – Prometo, querida – ela sorriu, como quem dizia “está tudo bem”. Em seu coração, sua vontade era de desabar sobre a própria filha – como se a gravidade de seu corpo fosse suficiente para nunca deixa-la ir.
            – Mamãe – Jéssica disse – Você pode dar um beijinho no machucado? Tá doendo, e sempre que doi você dá um beijinho.
            Todos sabiam os riscos: num morto-vivo, o vírus é passado pela saliva ou mesmo pelo sangue, e é por isso que a mordida era mortal. Deveria se evitar qualquer contato com qualquer dos fluídos corporais de um possível infectado, senão, acabaria-se por infectar-se, também.
            Ainda assim, Natalie olhou para cima. Olhou para os olhos de cada um dos seus companheiros, e não ligou para o quanto eles imploravam para que não fizesse isso.
            – Claro, querida – disse ela, com as novas lágrimas descendo silenciosas – Eu faço tudo por você.
            Foi um beijinho rápido, no topo do ombro, no exato epicentro do ferimento – ainda assim, quando ela levantou o rosto novamente, seus lábios e o contorno deles haviam se tingido de vermelho-vivo. Natalie puxou a filha para um abraço apertado, e a garotinha envolveu o pescoço da mãe com os braços.
            Natalie olhou diretamente para os olhos de Kurt e de Gabriela, e estava implícito em seu olhar como ela implorava.
            – O que vamos fazer? – Gabriela sussurrou para Kurt, sem deixar que ninguém ouvisse.
            Pela primeira vez, ele parecia não saber o que fazer.
            – Nós... nós não temos certeza se ela é uma ameaça ou não – Kurt engoliu em seco – Pode ser que não seja nada... pode ser que ela sobreviva.
            Ele então olhou nos olhos de Gabriela.
            – Eu não vou matar uma criança baseado na crença estúpida de filmes estúpidos, quando ela pode muito bem sobreviver.
            Gabriela assentiu, quando o mesmo pensamento passava em sua cabeça.
            – Vamos estancar o sangramento – disse Kurt – Se ficarmos perdendo tempo discutindo se ela morre ou não, ela vai acabar morrendo mesmo por falta de sangue. – Então se virou para Gabriela, e disse: – Lá dentro... onde Danii está, eu deixei quase todo o material cair na hora de socorrer a menina. As gazes, o álcool... tudo o que achamos no Hotel. Você pode ir pegar lá, enquanto eu cuido disso aqui?
            Gabriela assentiu novamente, e saiu, enquanto Kurt tentava separar Natalie da menina.
            Quando entrou de volta naquela salinha, não houve espaço para dúvidas: havia quatro mochilas jogadas de qualquer jeito no centro do lugar; acendeu a lanterna, pois não confiava em mais nada que fizesse parte daquela cidade. Ao fundo, via-se o corpo de Danii estatelado na mesma posição de antes, e, se possível, o sangue que vertia de seu pescoço estraçalhado ainda parecia úmido, como se se recusasse a coagular. Os olhos acabavam com qualquer dúvida: fitavam o nada, como alguém que não via faria.
            Podia-se dizer, sem menor dúvida, que Gabriela odiava o garoto, mesmo nas poucas horas que passara em sua companhia. Ah, sim, era um merdinha irritante, que não merecia menos do que recebeu.
            Ainda assim, percebeu que sentia pena dele.
            Afinal, talvez ele não precisasse estar naquela cidade. Talvez fora apenas uma confusão do destino – poderia ser qualquer um no lugar dele? Será que realmente havia morrido em vão? Como fora sua vida antes do Reino dos Corações? E, afinal, quando fora... mordido? E será que realmente fora mordido, afinal? Talvez essa fosse a prova que precisavam para eliminar Jéssica. Para provar que a garotinha agora era uma ameaça... se Danii também houvesse sido mordido, claro.
            Mas não era bom pensar nisso – a esperança era necessária naquela cidade.
            Gabriela pretendia levar todas as quatro mochilas numa única viagem de ida para o beco onde os outros 8 (era estranho não se referir aos outros companheiros como 9) estavam, mas ela sentiu algo...
            Na porta, havia uma garota parada.
            Não era uma garota-garota – era uma moça, aproximadamente da mesma idade de Gabriela. Tinha quase a mesma altura, e era tão magra quanto. Tinha cabelos negros e ondulados – invejáveis, lindos. Nunca fora visto nada tão verde e brilhante quanto os olhos dela; a mais bela joia pareceria uma pedra feia e fosca em comparação. Mesmo as roupas que usava, camiseta e jeans, conseguiam ser fantásticas... simples, mas fantásticas. Parecia algo de outro mundo, apesar de ser exatamente a mesma coisa que Gabriela estava usando.
            Alguma coisa na garota atraia a atenção de Gabriela. Era a beleza estonteante? Era a aura de confiança ao seu redor? Ou era o fato de que ela existia numa cidade deserta?
            Gabriela deveria ter medo dela. E deveria combate-la. E deveria desconfiar para o caso dela ser mais um monstro...
            Mas não conseguia.
            Não conseguia tanto que o máximo que sentiu quando a garota deu o primeiro passo em sua direção foi prazer.
            Prazer, deleite, ansiedade... desejo.
            Se havia alguma parte racional dentro da cabecinha de Gabriela, ela estava desligada. Tudo que passava na sua mente era o quanto queria aquela desconhecida.
            Ela – a garota – não estava manchada de sangue. Não era pálida. Não era uma morta-viva, mas ainda era possível sentir o tesão no ar – enquanto os mortos-vivos repudiavam Gabriela com seus ataques sexuais, aquela garota, tão delicada, tão feminina e tão... tão... alguma coisa que palavras não podiam traduzir, provocava um sentimento tão...
            Mas o que estava havendo? Gabriela nunca jogara naquele time!, pelo amor de...
            Todo e qualquer pensamento evaporou – puf! – quando Gabriela sentiu a respiração quente e vívida da garota em seu rosto – ela estava bem à sua frente.
            Gabriela acabou por respirar pesadamente, também – mas, enquanto seu estomago revirava, suas pernas e mãos tremiam, e sua garganta parecia fechada, a garota não poderia se demonstrar mais controlada.
            Foi a garota, então, que deu o primeiro passo – sua mão, pequena, delicada e quente, se enterrou no cabelo de Gabriela. Ela olhou bem em seus olhos, sem dizer nada, enquanto os lábios de Gabriela gemiam.
            Coração acelerado, uma taquicardia eminente – ainda assim, uma taquicardia boa, deliciosa, e cheia de ânsia para que se acelerasse mais, e mais... assim como o ritmo dos dois corpos...
            A mão da garota fez uma delicada e perfeita força contra sua nuca – um sinal para seguir em frente. Um sinal que não parecia ser necessário – vamos ser sinceros, estava implícito na situação –, e ainda assim, quando chegou, anunciou o alivio de Gabriela – o alívio de que finalmente aconteceria...
            Suas bocas estavam se aproximando – mais perto, mais perto, tão perto quanto as batidas de seus corações...
            – Gabriela! – a voz de Kurt ecoou do lado de fora.
            E de repente, bum! Desapareceu! Não havia nada naquela sala senão a própria Gabriela, as quatro mochilas e o corpo sangrento de Danii.
            Kurt não fora uma ilusão, tanto que logo depois ele entrou pela porta.
            – Ei, por que está demorando tanto?
            Os lábios de Gabriela ainda tremiam, e sua garganta ainda estava fechada. Ela não conseguiu responder, e Kurt não pareceu perceber nada de errado.
            – Deixe pra lá – disse ele – Eu levo.
            E jogou as mochilas, não importa o quão pesadas fossem, nas costas.
            – Volte logo – disse ele – Precisamos de toda a ajuda possível lá... a situação não está bonita, com Natalie e tudo...
            Ele calou a boca e assentiu para si mesmo, antes de dar as costas e sair daquele lugar.
            Gabriela não entendia. Como aquilo acontecera? Onde estava a garota que estava ali meio minuto atrás? Suas mãos poderiam varrer o ar, como se procurassem encontrar partículas da existência da menina, de tão chocada que estava.
            Lá fora, a lua brilhava sobre o pequeno vilarejo, mas nada chamava a atenção de Gabriela.
            Então, ela sentiu duas pequenas mãos em sua cintura, que a viraram com força – a garota estava ali novamente, e queria terminar o que havia começado.
            Gabriela não exerceu força nenhuma, nem nenhum tipo de resistência, como teria feito com os mortos-vivos, quando sua boca tocou contra a da garota.
            Não foi como nada que houvesse experimentado antes: nem com humanos, mortos-vivos ou mortos-vivos decrépitos sem mandíbula. Era o paraíso, o paraíso personificado – a garota sabia os lugares certos, tanto com as mãos quanto com a língua...
            Gabriela jogou a cabeça para trás, e deixou que a garota beijasse seu pescoço, em linha, e, já que o decote em sua camiseta não era nada senão generoso, a garota também descreveu uma linha de beijos até seu peito, e então...
            Era uma garota muito forte. Tomou para si as pernas de Gabriela, e entrelaçou-as em sua cintura, erguendo-a no ar – como o ex-namorado de Gabriela sempre fazia – e pressionando-a contra a parede; mas era bom.
            A língua da garota estava novamente na boca de Gabriela, e beijava-a com mais paixão do que nunca – suas cinturas eram constantemente pressionadas uma contra a outra; as mãos delicadas da garota sem nome se entrelaçavam no cabelo de Gabriela, puxando-a ainda mais para si...
            Até que a garota decidiu, com uma das mãos, arrancar a camisa de Gabriela.
            Os beijos desciam... e desciam...
            Gabriela não sabia o que era...
            Ela nunca fora uma garota de mente pervertida...
            Mas tudo melhora quando o Sol se põe...
            Gabriela sabia que estava ficando mais fraca; sabia que a cada beijo, era arrancado um pouquinho mais de suas forças... Sabia que a garota tinha total controle sobre ela...
            Ela lhe fazia querer morrer, nunca seria boa o suficiente...
            Tudo que ela amava iria queimar na luz...
            Os olhos da garota brilhavam, e ela não sabia dizer se eram vermelhos ou azuis; só sentia que não nada mais via, nada mais veria... sentia sua força e sua vontade desvanecer nos braços daquela garota, enquanto ela pressionava boca contra boca... corpo contra corpo... cintura contra cintura...
            As mãos da menina massageavam seus seios, e ela não sentia nem calor, nem frio, mas o extremo de ambas as sensações subindo-lhe a barriga, e chegando ao coração...
            E toda vez que olhava em seus olhos, ela lhe fazia querer morrer...
            O tiro veio muito de repente, no momento em que o coração de Gabriela chegava no ápice da aceleração e começava a desacelerar e morrer aos poucos.
            Não houve grito nenhum, mas ela sentiu o corpo quente, delicado e apaixonante da garota desaparecer – e então, a língua dela não estava mais em sua boca, nem os braços dela a sustentavam no ar, muito menos a cintura se pressionava contra seu corpo. A parede ainda estava às suas costas, e ela caiu, enquanto um fluxo de fumaça negra envolvia suas pernas, braços e corpo, mas não a sufocava; era doce e deliciosa.
            Ela olhou para a porta, e Kurt empunhava uma arma.

2

            – O que... o que houve? – perguntou Gabriela, grogue.
            Kurt tinha a expressão mais feroz que ela já vira.
            – Você... – sua voz era carregada de desprezo, e a raiva controlada acabava por não se esconder tanto – Você estava se entregando para aquela garota.
            – O... o que? – mas Kurt já havia virado as costas.
            – Não... – continuou Gabriela, com a voz muito baixa – Espere...
            Ela tentou se levantar, mas não havia força nenhuma nas pernas; ela caiu de cara no chão, e foi o suficiente para que Kurt voltasse.
            – Ora, pelo amor de... – ele ajudava-a a se levantar.
            – Que... que garota? – Gabriela perguntou, como uma bêbada; seus sentidos estavam turvos, e seu coração ainda não voltara ao normal.
            – Você não se lembra de nada? – Kurt perguntou – Você estava se pegando com uma garota, nessa cidade!
            – Eu... eu me lembro... – As palavras de repente pareciam complicadas demais para Gabriela, como um bebê que ainda não havia aprendido a falar. Além disso, não fazia sentido algum: por que ela estava se pegando com uma garota? Ela realmente não jogava nesse time; mas, quando lembrava-se do momento em que ela aparecera, algo acontecia: um misto de excitação, raiva, desejo e... bem, medo. Como se ela soubesse exatamente que tipo de monstro a garota seria.
            – Ei! – a voz de algum homem ecoou ao longe, e ela tinha certeza que conhecia essa voz – O que aconteceu?
            – Gabriela foi atacada – respondeu Kurt.
            – Atacada por quem? – outra voz masculina disse, e Gabriela lembrou: este era Khaled, e o outro era Kuruno. Talvez devesse criar algum tipo de sistema para lembrar de nomes. Kurt, Khaled e Kuruno. KKK. Apesar de que isso talvez a lembrasse de Ku Klux Klan, e esse não era o melhor jeito de se lembrar de seus novos amigos.
            – Uma garota... a garota seduziu ela – Kurt respondeu.
            – Ela é lésbica? – Khaled perguntou, sem nenhum pudor.
            Gabriela desejou responder que não, ela não jogava naquele time! Mas, por algum motivo, ela ainda não tinha força alguma para abrir a boca; só estava cansada, e mais cansada...
            – Sabe – disse Kuruno – Talvez você pudesse gostar de ser um pouco mais sutil...
            – Por que todas as garotas que eu tenho que conhecer tem que ser lésbicas? – O sotaque de Khaled tornou-se aparente aqui, mesmo com o idioma estranho do Reino Dos Corações.
            – Você... você estava pensando em ficar com ela? Ela tem 17 anos e você tem barba na cara, seu doente!
            – Nós estamos num outro mundo! Outro universo, ou sei lá, e acho que as regras da moral não deveriam se pôr no caminho se ambas as partes desejarem!
            – Ah, é claro que haveria desejo da parte dela, pois você é tão gato... se eu tivesse ovários, eles estariam explodindo!
            Kurt de repente se demonstrou desconfortável com a discussão de quem ficaria ou não com Gabriela.
            – Nós não temos tempo para isso – disse ele – Vamos, me ajudem a levantá-la... vamos ter que cuidar dela também.
            – Mas o que... o que aconteceu? – Era Marieta quem se aproximava.
            – Gabriela foi atacada...
            – Santo Dios! – ela exclamou – O que houve?
                – Eu... eu não sei, ela estava se agarrando com alguma garota desconhecida, e quando eu atirei, a garota... a garota sumiu! E agora, a Gabriela não consegue se mexer, nem falar, nem...
            Eles estavam perto de onde os outros estavam agora, e, com cuidado, pousaram Gabriela no chão.
            A expressão no rosto de Marieta se tornara não só melancólica e preocupada, como também chocada na metade da história.
            – O que houve? – Luciani saiu do lado de Jéssica para perguntar.
            – Ela... ela foi atacada...
            Gabriela conseguiu virar a cabeça; estava acordada, mas tão acordada quanto estaria depois de uma maratona sem dormir. Nunca se sentira tão cansada na vida... mas havia gente pior; era possível que Jéssica houvesse perdido muito sangue enquanto ela estava fora, e talvez isso justificasse as olheiras profundas e a pele cinzenta, muito além do pálido. As lágrimas de sua mãe se misturavam ao suor que brotava de seu rosto; Natalie não parecia ver nada além de sua filha moribunda.
            – Succubus... – foi Marieta quem disse.
            O silêncio perdurou, até que Kurt se virasse de olhos arregalados e falasse:
            – O que foi que disse?
            – Succubus. Foi o que a atacou.
            Kurt então jogou a cabeça para trás, enquanto Gabriela se levantava; já havia entendido tudo.
            – O que... o que é isso? – Gabriela perguntou, com a voz fraca.
            – Sh, querida – Marieta se ajoelhou, fazendo-a deitar-se novamente – Deite-se, deite-se até recuperar suas forças...
            – Eu... eu estou bem!
            – Ah, não está não, meu amor... Se eu sei o que te atacou, eu sei que você não está bem...
            Ela então levantou o olhar desolado para Kurt.
            – O que é um succubus, afinal? – Kuruno perguntou.
            – UMA succubus – disse Marieta – É um demônio feminino.
            – Então... é um demônio?
            Marieta suspirou, e levantou-se, limpando as mãos na saia longa.
            – Sim – disse ela – É uma demônio. É claro, tem sua versão masculina também, o incubus... É basicamente a mesma coisa, muda-se apenas o sexo...
            – Demônios tem sexo?
            – Não – ela respondeu, suspirando – É apenas a forma que eles assumem.
            Todos esperaram que ela falasse, antes de perguntarem, então ela prosseguiu:
            – Um incubus, ou uma succubus... são demônios medievais, que fazem parte da mitologia cristã... por isso, talvez, nem você, Kuruno, nem Khaled soubessem. Eles... alimentam-se da energia, da própria vida do ser humano, e atacam geralmente a noite... apesar de que aqui sempre é noite...
            – E por que atacariam à noite? – Khaled perguntou.
            – Por que, além de ser a hora mais própria para as artes negras, também é a hora considerada pelos humanos mais própria para o sexo.
            A expressão de surpresa passou pelo rosto de todos, enquanto Khaled soltava um “Ah...” encabulado.
            – É assim que eles roubam energia – continuou Marieta – Com contato físico... sexual, é claro. Mesmo o beijo já é suficiente para que a energia seja roubada... Nas lendas, diz-se que as vítimas acabam por se tornar doentes, como uma virose que nunca sara... mas é óbvio que essa garota que atacou Gabriela pretendia suga-la até a morte.
            – Como um vampiro – disse Gabriela.
            – Sim, como um vampiro. E a origem da diferença de sexo é que um incubus aparece como um homem, e uma succubus apareceria como uma mulher, e ambos se transformariam no que sua vitima mais deseja... como um incubus realizando uma fantasia de uma mulher, ou uma succubus realizando a de um homem...
            “Mas o que me intriga mais é como uma succubus poderia atacar uma mulher... não há relatos disso, jamais. A não ser...
            – Você é lésbica? – Khaled perguntou para Gabriela.
            – O que? Não! Não! Eu não...
            – Eu acredito em você – disse Marieta – Mas, mesmo que fosse, isso iria contra todas as regras da demonologia...
            – Essa garota... – disse Gabriela – Essa garota... ela me seduziu...
            – É claro que sim, querida, senão não seria um demônio do sexo...
            – Não! Não desse jeito, mas... havia algo que ela fazia. Ela não se transformava na forma que mais... está bem, me excitava, mas... havia algo no ar, e mesmo no toque... ela, eu acho que ela estava conjurando algo coisa... e além disso, enquanto ela sugava minha, ahn, energia, os olhos dela... os olhos dela estavam brilhando.
            Os olhos de Marieta não pareceram focar nada em especial, senão uma grande questão diante de si.
            – Succubus... ou incubus... não costumam fazer algo assim... não está presente nas escrituras, eles não seduzem pelo controle mental, nem fazem os olhos brilhar! Eles enganam com o pecado da luxúria, e assumem o maior desejo da vítima, e então sugam a energia humana, até...
            – Talvez as escrituras estejam erradas – Kurt interrompeu-a.
            Marieta olhou-o, de olhos arregalados, claramente chocada – era uma coisa na qual não acreditava, não queria acreditar, nem esperava que outra pessoa acreditasse.
            – Então – Gabriela decidiu quebrar o gelo – Como fazemos para matar?
            – Bem – Marieta disse – Do mesmo jeito que fazemos com qualquer demônio: exorcizamos.
            – Como aquilo que você fez com o fantasma?
            – Oh, não... Oh não. Aquilo foi o simples caso de guiar uma alma para o caminho da Vida Eterna, seja ela boa ou ruim. Não, um demônio é outro caso: demônios não tem alma... eles não tem direito à Vida Eterna, pois são filhos do Mal. E não morrem: apenas podem ser mandados de volta para o Inferno, até que alguém os invoque de volta à Terra.
            – Então – Kurt disse, levantando-se – Como o mandamos de volta para Papai Satã?
            Marieta fuzilou-o com os olhos, mas continuou:
            – Eu já disse: exorcizando-o.
            – E você sabe como fazer?
            – Pode-se dizer que sim.
            – Então o que estamos esperando? – disse Kurt, olhando ao redor – Vamos nos livrar dessa demônio.

3

            – Eu tenho mesmo que fazer isso? – Gabriela perguntou.
            Natalie e Jéssica haviam sido movidas para um beco mais próximo do local, caso precisassem de ajuda, com Luciani e Tae as supervisionando, como para que impedir que qualquer acidente ocorresse – Natalie estava muito chocada para responder em socorro de qualquer um.
            Enquanto isso, Marieta, Kurt, Kuruno e Khaled se esconderam bem mais próximo de onde haviam preparado a armadilha. A armadilha em questão era um pentagrama – ao contrário do que muitos pensavam, não era um símbolo do satanismo, e sim um símbolo para se proteger de demônios; um pentagrama servia como uma cela de prisão para demônios, encarcerando-os para não deixa-los sair nunca mais, ou pelos menos não até que o desenho fosse desfeito ou que os próprios demônios fossem mortos.
            Ao redor do pentagrama, haviam velas negras improvisadas – que nada mais eram do que cigarros enfiados no meio de tiras de couro preto – e apenas uma vermelha. Todo o material havia sido colocado no meio da “rua”, bem sob a luz da lua – um local mais aberto, onde seria mais provável de se atrair um demônio; e, bem próximo ao desenho e às velas, estava Gabriela, de pé, abraçada ao próprio braço.
            – Você tem que ser a primeira que o demônio vai ver – disse Marieta – Assim, ela pode achar que vai estar terminando o que começou.
            – Vamos começar agora – Kurt disse, e fez um sinal positivo com o polegar. Logo depois, os 4 se esconderam novamente.
            Gabriela assentiu para a rua deserta e fez o que era necessário.
            Como Marieta lhe disse para fazer, colocou a vela vermelha bem coladinha com uma das velas pretas; o ideia era fazer isso com a cera derretida da vela, ela dissera, mas o couro deveria ser aderente o suficiente. Logo depois, tirou do bolso um pouco da canela que Tae havia lhe dado; para que uma pessoa andava por aí com canela, Gabriela não sabia, mas serviu direitinho para o ritual; como não havia nenhum incenso de canela por perto, deveria simplesmente espalhar a canela em pó pelo ar.
            Então, ela tirou do bolso um pedaço de papel e o desdobrou. Antes de coloca-lo no centro do pentagrama, leu:

“Eu, Gabriela, invoco e dou autorização a espíritos sexuais que assumam uma aparência cativante a meu gosto e apareçam diante de mim para proporcionar momentos de intenso prazer esta noite. Assim seja, assim se faça.”

            Inteligente, pensou Gabriela. Marieta havia editado um pouco os dizeres; ela mesmo havia dito que se deveria dar autorização para que succubus entrassem em seus sonhos; mas, se o demônio realmente entrasse em sua cabeça, ela estaria sozinha. Bem pensado. Ao mesmo tempo, Gabriela pensou que talvez fosse bom que eles aprendessem seu sobrenome de uma vez.
            Então, ela jogou o papel no meio do pentagrama, e torceu para que o vento não o tirasse dali. Por último, acendeu cada uma das velas de cigarro.
            Era chegada a hora da última parte: a de ler o que havia sido escrito no papel.
            Ela tentou observar de longe, ditando:
            – Eu, Gabriela, invoco e dou autorização a espíritos sexuais que assumam uma aparência cativante a meu gosto e apareçam diante de mim para proporcionar... proporcionar... – ela demorou alguns momentos para se lembrar, e logo depois se perguntou como poderia ter esquecido da parte mais infame – Proporcionar momentos de intenso prazer esta noite. Assim seja, assim se faça.
            Silêncio.
            Foi tudo o que houve.
            – Eu acho que não está... – Gabriela começou a dizer, e foi então que a ventania começou.
            O cabelo negro de Gabriela passou a chicotear suas costas, tão furioso o vento estava. Uma nuvem de poeira se levantava, como que dotada de vida. De repente, nada na rua estava parado – apenas a folha de papel, que não saía do meio do pentagrama, e as velas que não se apagavam.
            Em verdade, as chamas triplicaram de tamanho numa fração de segundo, fazendo o cigarro entrar em chamas, em vez de um mínimo pontinho brilhante, e tornando-se maiores que as próprias velas.
            Então, a fumaça negra na qual a succubus desapareceu mais cedo naquela noite surgiu de todos os cantos, reunindo-se num só lugar: o centro do pentagrama, como o centro de um furacão.
            Em uma fração de segundo, a fumaça ganhou uma forma humana, extremamente definida... e lá estava a succubus, parada no centro do pentagrama.
            Marieta e KKK – Kurt, Kuruno e Khaled – saíram detrás de seu esconderijo.
            – Ela está presa – disse Marieta – Ela não pode fazer mal algum.
            A religiosa então desentrelaçou de seus dedos o terço de carregava, que estava inegavelmente grudento.
            – Foi mergulhado em azeite de oliva – disse ela – É sagrado. Basta para exorcizar... você só tem que fazer tocar nela.
            – O que?!
            – Vamos logo acabar com isso.
            Gabriela pegou o terço de sua mão e olhou para a succubus. Mordeu o lábio inferior, de ansiedade, e parou assim que seus dentes começaram a machucar.
            Então deu o primeiro passo olhando diretamente nos olhos da demônio. E, para sua surpresa, eram tão impassíveis quanto um meio sorriso em seu rosto.
            Segundo passo. Nenhuma reação, como se a succubus não soubesse que estava prestes a ser mandada para o mundo inferior.
            Terceiro passo. Mas é claro que sabia!
            Quarto passo. E se fosse uma armadilha?
            Quinto passo. É claro que era uma armadilha, Gabriela estúpida!
            Sexto passo. E se fosse mais rápida que a armadilha?
            Sétimo passo. Pois é, tente e veja se consegue.
            Oitavo passo. Vamos lá, não custa muito mais do que está custando agora.
            Nono passo. Faça.
            Décimo. Faça agora!
            Décimo primeiro. Ela não está esperando!
            Décimo segundo. ATAQUE!
            Gabriela correu o resto do percurso.
            Correu olhando nos olhos dela.
            Correu sem nada que a impedisse.
            Um segundo, uma batida de coração...
            O terço tocava diretamente na pele quente e limpa da succubus.
            E foi nesse momento que Gabriela não soube o que deveria acontecer. Ela deveria queimar? Se desfazer em fumaça? Derreter, virar água? Se desfazer em animaizinhos da floresta?
            Em vez disso, ela olhou. E olhou. E olhou, olhou, olhou...
            Sua mão se estendeu, muito rápida, e agarrou a mão de Gabriela com tanta força que poderia ser esmigalhada.
            – Você acha que eu sou um demônio? – disse a succubus, com um sorriso misturado à um biquinho. Sua voz era linda. Deus, era tão linda!
             – Você acha que eu sou um demônio? – repetiu.
            As palavras se entalaram na garganta de Gabriela.
            – Você acha – disse a succubus – que eu sou um demônio, e que por isso um pentagrama pode me deter?
            Com força, a succubus empurrou-a, quase fazendo Gabriela perder o equilíbrio. E empurrava cada vez mais, a cada passo que dava... para fora do pentagrama...
            Ela podia sair do pentagrama. Ela podia!
            – Você acha que eu sou um demônio para um ritualzinho do Papai do Céu me invocar? – ela riu, zombeteira – Eu devo dizer, as velas foram um bom toque, e aquele texto? Momentos de intenso prazer?
            O riso da garota ecoou por todo o lugar.
            – Eu não apareço para ninguém, a não ser que eu queira – continuou ela – Um ritual para invocar demônios? Bem... – ela se aproximou da orelha de Gabriela, e sussurrou – Eu não sou um demônio.
            A succubus sorriu, e seu risinho agudo e cruel destruiu toda e qualquer força que se poderia exercer contra ela.
            – Já chega – Kurt levantou a arma na direção da garota, que não deixava o sorriso escapar de seu rosto.
            – Você acha que pode me matar?
            – Se você não é um demônio, devo presumir que não tenha tantas frescuras para morrer. Sem ofensas – completou a última parte para Marieta.
            – Mas você me mataria? – disse a succubus – Você mataria uma pobre criança, sem razão alguma?
            Kurt olhou bem diante dos olhos da garota, e eles... brilhavam...
            – Kurt, não! – Marieta tratou de sacudi-lo – Não caia no feitiço dela! Mate-a!
            – Você me mataria – repetiu a garota – Mataria... uma pobre... criança... indefesa?!
            A última palavra veio acompanhada do grito de dor de Gabriela – num único apertar de sua mão, a succubus conseguira torcer todos os seus dedos...
            – JÁ CHEGA! – Kurt gritou, e destravou a arma, preparando-se para apertar o gatilho certeiramente...
            – E além disso – a succubus continuou, se divertindo com um sorriso no rosto – Vocês tem coisa mais importante para se preocupar, não é? Diga-me... vocês não sentem seu amiguinho despertando?
            O dedo de Kurt hesitou no gatilho.
            – O que está esperando? – Marieta disse – Atire! Ela está blefando! Atire!
            – Vejam por vocês mesmos – a garota apontou seu belo e cuidado dedo para além de todos, atrás, muito atrás...
            Gabriela foi quem viu primeiro.
            Logo depois, Kurt, Kuruno e Khaled também viraram – Kurt abaixou a arma, tamanho o choque.
            Marieta foi a última, e deixou um gemido de surpresa escapar dos lábios.
            Do outro lado, Tae, Natalie, Luciani e Jéssica não sabiam o que estava acontecendo...
            ... mas havia alguém, em pé na escuridão, iluminado apenas pela luz da lua...
            ... alguém, mesmo à distância, facilmente reconhecido, com seu moicano, piercings gigantescos, tatuagens...
            Danii estava parado. Em pé. Longe. Vivo.
            E então, ele estava ali perto.
            – Você – disse ele, apontando para Kurt – Você me matou...
            Sua boca, ensanguentada, abriu um sorriso. Gabriela baixou o olhar para seu pescoço, e viu que estava intacto – não havia nenhum sinal do ferimento que o matara ali. Estava completamente curado...
            – Agora – Danii continuou, com o olhar ensandecido... e olhos intensamente vermelhos –, agora eu vou te matar também!
            A curta distância que havia entre eles foi diminuída pela velocidade sobrenatural de Danii – e, logo depois, ele estava mordendo o pescoço de Kurt, como um animal.
            O grito de Kurt ecoou ao longe... como um guerreiro ferido.
            – NÃO! – Marieta gritou, e arrancou o colar que havia no pescoço com um puxão; o pingente era uma cruz, que ela apontou diretamente para Danii – Padre, perdona esta alma perdida, cuyo frío corazón perecieron en el rosto de la oscuridad...
            A boca de Danii separou-se do pescoço de Kurt, e seus dentes afiados eram visíveis em meio a todo o sangue. Sua expressão era feroz, mas por uma fração de segundo – no segundo seguinte, ele estava longe, trepado no telhado de uma casa como uma aranha, gritando como um animal...
            Gabriela de repente percebeu.
            Percebeu o que Danii era.
            Percebeu o que todos os mortos-vivos eram.
            Danii era um vampiro. Gabriela lembrava-se de como as lendas ditavam que era o processo de transformação: o individuo deveria beber sangue de vampiro, e então morrer, e ser mantido num lugar escuro – de preferência, debaixo da terra – para completar a transformação... e então deveria beber sangue humano.
            Danii poderia ter bebido sangue dos outros mortos-vivos enquanto estavam no escuro.
            Ele sem dúvida havia morrido.
            E havia sido mantido num lugar escuro, que, apesar de não ser debaixo da terra, era a sala escura onde morrera... mas, qualquer que fosse o lugar, haveria o mesmo resultado, pois naquela cidade era sempre noite.
            E ele bebera sangue humano quando mordeu Jéssica, apesar de ter pulado algumas fases para fazer isso... mas o resultado deveria ser o mesmo.
            E esse pensamento lhe levava a três outros: o primeiro era que Jéssica estava bem! Ela não se tornaria uma morta-viva, ou uma vampira, por que não havia morrido, nem bebido sangue de vampiro: só havia sido mordida. A razão para que ela estivesse tão pálida deveria ter sido a hemorragia, ou mesmo a falta de ferro, já que seu sangue fora sugado. O segundo pensamento era que, se todos os outros mortos-vivos eram vampiros, provavelmente estavam na fase de transformação: bastava beberem sangue humano e se tornariam vampiros de verdade.
            No terceiro pensamento, ela se perguntou por que nenhum morto-vivo bebeu seu sangue quando teve a chance. E também, que ela fora a única que já esteve indefesa no meio dos mortos-vivos... a única que tivera mais contato com os monstros fora Marieta, e ela soube se defender bem para que não fosse mordida; mas Gabriela não: houve várias vezes em que ela esteve no chão, dominada, à mercê dos inimigos... e ainda assim, não fora mordida. Isso fazia o sangue dela... especial?
            Ela não pôde pensar muito mais: ao mesmo tempo que Danii partiu para um novo ataque, derrubando Marieta e cravando seus dentes nela... a succubus derrubou Gabriela também, e subiu, de quatro, sobre seu corpo.
            – Momentos de intenso prazer, hein? – disse ela – Não sou demônio para ser invocada, mas isso eu posso proporcionar.
            E então, a succubus beijou-a, e todas as defesas de Gabriela tornaram-se folhas de papel, prestes a serem rasgadas. Aquela língua, desbravando todos os sentidos de sua boca... as mãos da garota, tocando em todas as partes do corpo de Gabriela...
            Enquanto isso, Danii se afastou, num salto, deixando Marieta caída, levantando-se com pesar.
            – DEMONIO! – gritou ela, deixando o espanhol dominar sua fala, tamanha raiva – ARDA EM EL INFIERNO, HIJO DE LA OSCURIDAD!
            – Vocês acham que podem me derrotar? – disse ele – Sou um vampiro, meus amores. Um hijo de la oscuridad. Talvez queiram fugir; ainda estou descobrindo este mundo, então talvez, vocês escapem de mim... hoje. E quando eu acha-los, a brincadeira vai ficar muito mais divertida.
            Kuruno gritou, apontando a escopeta e atirando rapidamente... não demorou mais que meio segundo, e ainda assim, Danii conseguiu se desviar: a bala acabou estraçalhando quatro telhas de uma vez só.
            – É assim que vocês tratam velhos amigos? – Danii zombou – Eu poderia ensinar bons modos para vocês... afinal, criança tem que apanhar.
            Um sorriso se formou em seu lábios... antes que pulasse novamente, acertando um soco no peito de Kuruno que não só tirou-lhe o ar, como arremessou-o para o outro lado...
            Gabriela tocou o corpo da succubus, e deixou-a beijar seu pescoço... deixou que suas mãos abrissem o zíper de sua calça, e deixou arrancá-la... não se importou de ficar de lingerie em público – não era um grande público quando todos já a haviam visto de toalhas, de qualquer jeito. Deixou-a beijar suas pernas, massagear sua pele macia...
            Não se importou quando seus olhos brilharam.
            seus olhos, seus olhos, posso ver em seus olhos, seus olhos
            Não se importou quando ela rasgou sua camisa, deixando-a apenas de roupa de baixo.
            e sempre que olho em seus olhos, me faz querer morrer
            Não se importou quando a língua da succubus descreveu uma linha, partindo de seu umbigo... para o diafragma... para entre os seios... para sua boca...
            A pressão das cinturas e dos seios parecia espremer qualquer razão para fora do corpo de Gabriela.
            a succubus a estava provando, bebendo sua alma...
            Gabriela gemeu de prazer, deixando que ambas as mãos da garota agarrassem seus seios... as unhas se cravassem em sua barriga... Gabriela fez suas pernas envolverem a cintura da succubus, puxando-a ainda mais para si... a gravidade fazia o resto do trabalho...
            Gabriela gemeu novamente, sentindo os corpos tão quentes... tão próximos... tão...
            Ela sentiu dor.
            Pela primeira vez, não gemeu por prazer – gemeu por dor.
            Os olhos da succubus brilhavam mais e mais... o sorriso, ele crescia mais e mais... só agora percebia.
            Só agora voltava ao mundo real.
            A garota tocou novamente seus seios, mas não do mesmo jeito – dessa vez, os apertou e torceu até que a dor fosse insuportável. O grito ficou preso na garganta de Gabriela, assim como qualquer outra coisa – era a succubus que estava no controle; era ela que mandava ali.
            A demônio-não-demônio beijou-a novamente, mas dessa vez, não havia paixão: havia apenas repúdio.
            Gabriela sentiu a pior dor de sua vida, fugindo do fundo do peito... o sangue estava literalmente congelando em suas veias... como se não houvesse mais calor para correr... e não havia mais calor, pois a última parcela de energia e de vida estava sendo sugada...
            Dor, dor, dor.
            ela deveria saber ela havia mostrado todas as coisas que ela deveria saber... o céu estava escuro, a luz desaparecera, estava tudo escuro, uma LUA NOVA em ascensão...
            A succubus se levantava, enquanto o ato final se aproximava.
            Ninguém prestava atenção; ninguém a veria morrer. E os pensamentos da depressão, que agora voltavam a correr, eram orgulhosos: ela morreria sem ninguém, no chão, debaixo de alguém... muitas pessoas dizem que gostariam de morrer transando, e ela morreria... humilhada, deixada de lado, com a vida sugada até a última gota, era apenas uma refeição como qualquer outra...
            A succubus sorriu. Começou.
            Elas não estavam completamente nuas; ainda havia peças de roupa entre seus corpos. Ainda assim, quando a garota pressionou sua cintura, pela primeira vez de verdade... Gabriela sentiu.
            A dor.
            O corpo dela.
            O toque da Morte.
            Gabriela gemeu o mais alto que podia – de dor e paixão. Gemeu enquanto seus corpos continuavam ligados pela força – gemeu quando ela tocou seus seios mais uma vez – gemeu quando o corpo dela caiu sobre o seu... e suas bocas se tocaram...
            Gemeu fraquinho, de pura dor, quando suas pernas caíram de cima do corpo da garota.
            E o último suspiro deixou seu corpo infectado de dor, enquanto a succubus beijava sua boca morta uma última vez, para sugar o resto de energia como alguém procura restos de comida entre os dentes.

4

            Kuruno foi arremessado longe, mais uma vez, e um quarto filete de sangue escapou de sua boca; duas de suas costelas se quebraram, e ele estava acabado.
            Todos estavam caídos; Khaled e Marieta haviam sido desacordados antes. Agora, restava Kurt em pé – e o coitado mal conseguia segurar a arma a sua frente; ele caiu num único golpe, quando Danii jogou-se sobre seu pescoço.
            – Não é tão forte contra um vampiro, hein? – provocou ele.
                – Ah, mas você está adorando isso – disse Kurt – Parece uma criancinha com lápis de cor novos.
            – Se a gente tem, é para usar – Danii expôs os caninos, e forçou Kurt a mostrar o pescoço.
            Mas antes, ele riu.
            – Você consegue sentir? – disse Danii – Consegue, hein?
            Kurt não respondeu; queria cuspir na cara dele, mas tinha medo de que a gravidade mandasse o cuspe de volta para a sua.
            – Consegue sentir? – repetiu Danii – Uma energia vital acabou de desaparecer...
            Kurt não precisou perguntar; sabia muito bem o que isso queria dizer.
             – Não...
            – E vou te dar uma dica: não é nenhum dos seus amigos caídos, nem nenhuma das vadias que estão cuidando da garotinha... Já sabe quem é?
            Um único pensamento passou pela mente de Kurt: Gabriela...
            E então, os dentes foram cravados em seu pescoço, e ele gritou, sentindo o sangue se esvair de suas veias, sendo puxado... e doía, o ato do sangue correr contra a correnteza causava uma dor inimaginável, e Kurt não sabia se ficava aliviado ou não por saber que logo tudo acabaria...
            Então, os dentes descravaram-se de seu pescoço – apesar de que não muito gentilmente, mas mesmo assim o sangue voltou a correr em suas veias sem nenhuma obstrução. Kurt se pegou perguntando por que Danii pararia, e então viu.
            A expressão do vampiro punk era de puro medo quando ele olhou para trás e viu a succubus correndo, passando por ele... ao mesmo tempo que ela tinha um sorriso no rosto, ela parecia alarmada, fugindo de algo...
            – Se eu fosse você, eu deixava para lanchar depois e dava o fora daqui – disse ela, sem parar.
            Danii disse algo que parecia um xingamento, e então...
            Ele tremeu de medo.
            Levantou-se e fugiu, no máximo que sua velocidade vampiresca permitia, sem olhar para trás.
            Kurt massageou o pescoço, sentindo o sangue quente jorrando em sua mão. Ele tinha de estancar o ferimento... tinha de estancar o ferimento, e sair dali... se um vampiro tinha motivos para fugir, ele devia ter mais do que medo...
            Foi então que ele viu também.
            Um raio mantinha céu e terra unidos, sem se extinguir; pelo contrário: parecia jamais desaparecer. Pequenas ramificações branco azuladas atingiam ao redor, criando crateras nas ruas...
            ... e o raio havia caído bem no centro do pentagrama, bem sobre o corpo de Gabriela.
            Para sua surpresa, ela não estava morta: estava de pé, recebendo toda a força do raio... e brilhava, azul, com os cabelos erguidos no ar, como se estivesse mergulhada num lago.
            No lugar dos olhos, das narinas e da boca, haviam apenas feixes de luz, muito brancos.
            Com os braços abertos, ela foi erguida na ar: seus pés deixaram de tocar a terra. Ela dizia algo... algo numa língua diferente, impossível de ser entendida, mesmo se não houvesse tanta estática no ar. Então, de suas mãos, partiram raios descontrolados que rasgaram no meio as seis casas mais próximas, que logo depois explodiram em chamas.
            A luz que se seguiu foi forte demais para os olhos de qualquer humano acompanharem: uma onda de luz envolveu Gabriela, que soltou um grito tão ensurdecedor quanto de uma harpia, fazendo quase todo o lugar desmoronar em rachaduras e concreto. Uma onda de energia levantou o chão, criando literalmente uma onda de destruição... e arremessando os gigantescos pedregulhos no ar.
            Uma das pedras voou na direção de Kurt... ele caiu, fraco demais para poder correr, e sendo capaz apenas de esperar ser esmagado...
            No entanto, a pedra foi pulverizada em pleno ar, assim que chegou perto demais de Kurt. E assim aconteceu com todas as outras, que ameaçaram ferir Marieta, Kuruno e Khaled...
            Kurt só pôde observar o ato final.
            O concreto, destruído, ergueu-se no ar e voou em círculos aos redor de Gabriela; todas as pedras pareciam atraídas pela garota, que continuava a planar sobrenaturalmente, com o corpo brilhando. Ela estava apenas de roupa de baixo, e estava suja; e um furacão de pedras formava-se a seu redor.
            A tempestade voltou, e nuvens negras formaram-se no céu.
            A mesma fumaça negra na qual a succubus aparecia e desaparecia surgiu do nada, e entrou no meio do furacão.
            As pedras foram aos poucos sendo pulverizadas, chocando-se umas contra as outras...
            E o riso de Gabriela ecoava pela noite, enquanto a nuvem de destruição foi arremessada em todas as direções, destruindo tudo no caminho... exceto seus amigos.
            Então, os raios desapareceram. Seus cabelos voltaram à obedecer a gravidade, e ela lentamente foi se aproximando do chão... primeiro seus pés o tocaram, e depois, estava ajoelhada... sua cabeça se abaixou, e, com o rosto coberto pelas mechas de cabelo, as luzes em seus olhos, nariz e boca se apagaram.
            Ela levantou o rosto, com os olhos negros de sempre. Assustada. Viva.
            Eu morreria por ti, meu amor...
            Meu amor...
            Ela olhou para Kurt, suplicante.
            Eu mentiria por ti, meu amor...
            Ele devolveu o olhar, com algo mais: medo.
            Eu roubaria por ti, meu amor...
            Ela ergueu as mãos, olhando para elas, e um raio envolveu-as em forma de circulo, brilhando para a noite de Lua Nova.
            Eu morreria por ti, meu amor...
            Meu amor...
            VAMOS QUEIMAR NA LUZ!
            O raio envolveu seu corpo todo, enquanto, temerosa, levantava-se, com todas suas forças. Estava viva. Mais viva do que nunca.
            E tinha poder.
            O raio dançou em suas mãos mais uma vez, enquanto ela olhava para a noite, e a luz iluminou o rastro da destruição, e o olhar desolado de Kurt. As portas para o futuro estavam abertas, e a escuridão do Reino dos Corações os esperava para sempre.

PRÓXIMO CAPÍTULO: DIA 13/01
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