Olá galera ;) Então, como eu disse semana passada, o capítulo 5 (o de semana que vem) será o último de 2011, e o capítulo 6 será postado somente dia 13/01. Mas, no dia 10/01 (meu aniversário rere), vocês podem passar aqui para mais trechos de ECOS, o livro que eu lançarei ano que vem nas livrarias (se você ainda não leu os primeiros trechos, clique aqui). Bem, enquanto isso, curtam o capítulo 4 de O REINO DOS CORAÇÕES!



4

PequeNA Casa

Little House – The Fray

1

            – Já pegaram tudo? – era Khaled quem perguntava, com uma mochila improvisada, feita de tiras do tecido de sofá, jogada nas costas.
            – Pegamos sim – Jéssica disse, em sua vozinha de criança, trazendo uma das caixas nas mãos como se estivesse ajudando a mudar o mundo. Ela parecia muito alegre em estar ajudando, apesar da situação geral.
            – Heeei, você acha que devemos levar isso? – Khaled perguntou, sorrindo, num tom brincalhão que não soava forçada.
            Jéssica assentiu com a cabeça.
            – Tudo bem – disse ele então, abrindo a mochila remendada novamente –, então vamos levar.
            – Natalie – chamou Kurt, com duas garrafas nas mãos, fazendo a mãe parar de conseguir algum espaço extra na própria mochila – Leve isso também.
            – Vinho? – ela abriu a tampa e posicionou o nariz um pouco acima do bocal – Mas está com um cheiro tão estranho!
            – É, bem – Kurt deu de ombros – É álcool do mesmo jeito.
            Natalie fez uma cara de desagrado.
            – Eu vou manter isso longe de Jéssica.
            – Ei, Kurt – Gabriela disse, surgindo detrás do balcão – Você não acha que seria melhor levarmos estas toalhas, também? Poderiam servir para curativos e...
            – É, é sim uma boa ideia. Espere – ele disse quando deu uma segunda olhada –, volte aqui.
            – O que foi? – ela riu – Estou encrencada?
            Kurt tocou, com uma das mãos, uma única mecha da franja de Gabriela. Como que para examiná-la melhor, puxou de leve essa mesma mecha, sem machucar Gabriela.
            – O que foi? – ela perguntou novamente.
            – Você já pintou o cabelo alguma vez na vida... ou fez luzes, ou sei lá?
            Ela meneou a cabeça negativamente, e Kurt apontou o espelho atrás dela, dando-lhe a lanterna para que pudesse se ver. Gabriela obedeceu, e quando se aproximou, viu que...
            – Meu cabelo...
            – Está branco – Kurt completou por ela – Bem, só uma parte.
            – Mas como isso é possível?
            Kurt sorriu, engolindo em seco, como se não fosse nada demais para se preocupar.
            – Existe uma teoria... – disse ele, limpando a garganta –, que diz que, a adrenalina combinada com a sensação do medo, pode matar uma pessoa... morrer de medo, literalmente. Albinismo seria apenas um dos sintomas... não tenho como dizer, mas talvez até sua pele esteja um pouco mais branca.
            – Você acha que isso aconteceu comigo?
            Kurt suspirou.
            – Se for verdade, pode acabar acontecendo com cada um de nós.
            – Ei – Khaled chamou mais uma vez – Vocês estão prontos?
            – Estamos – Gabriela respondeu – Estamos indo agora. – E então olhou mais uma vez com preocupação para Kurt, mas ele já estava jogando as duas mochilas nas costas.
            – Vamos – disse ele – Vamos dar o fora daqui.

2

            Já caminhavam há mais que dez minutos, e no entanto pareciam perdidos na eternidade. Há muito haviam passado de ambos os pátios, e também do vão em forma de porta; as manchas do sangue de Kurt e Danii ainda estavam ali, mas, assim como pouco tempo antes, todos os indícios do baile ou do desfile haviam desaparecido.
            Já haviam adentrado na cidade, e todos agora podiam ver o grande castelo ao longe.
            Estavam todos um pouco aflitos, e a causa principal disso era que essa mesma cidade não parecia ter fim, e todas suas casas pareciam iguais sob apenas a luz do luar.
            – Ei, Marieta – Gabriela aproximou-se, sendo a mais calma de todas. Havia ido e voltado daquela cidadezinha mais vezes que qualquer um no grupo, por isso já não tinha tanto medo.
            – Diga, querida – a espanhola respondeu, ofegando um pouco por causa do peso de sua mochila. Todos carregavam alguma coisa, e ela não havia ficado de fora.
            – Eu só estava pensando... naquele fantasma, e, bem, em como você fez aquilo.
            Marieta sorriu, sem orgulho nenhum – apenas entendimento.
            – Como eu exorcizei ele?
            – Bem, sim.
            Marieta ajeitou a mochila, e Gabriela escondeu novamente sua mecha grisalha, que não era nem um pouco grisalha: como ela mesma percebeu, era completamente branca, sem cor ou brilho algum.
            – É simples, querida: eu sou uma serva do Senhor. Eu escuto Sua Palavra, e ele me retorna com Sua Graça.
            – Você é cristã...
            – Sim, mas não vejo como uma religião. É mais como... bem, minha vida. O Senhor meu deu ela, e eu a doo para Ele, como forma de agradecimento.
                – E onde você aprendeu exorcismo?
            Marieta franziu a testa.
            – Perdão?
            – Onde você aprendeu a fazer aquilo... com o fantasma, fazê-lo obedecer, e então... desaparecer... para onde quer que a alma vá?
            Por um mínimo segundo, Marieta desviou o olhar, interrompendo contato visual com Gabriela – um único segundo que bastou para se fazer notar: ela estava perturbada. Então, Marieta voltou a olhá-la nos olhos, e disse:
                – Eu... eu não aprendi... mas, bem, o Senhor vem a Seus filhos quando estes precisam de ajuda. Aposto... aposto que Ele estava simplesmente ouvindo minhas preces, nestes tempos tão difíceis... Oh, com certeza, o Amor é algo com que nascemos... e, além disso, Ele estava me guiando para salvar outro de Seus filhos. Afinal, todas as almas não merecem um pouco de paz? O Senhor me guiou para salvar aquele pobre atormentado de sua tempestade, não duvide disso...
            Foi nesse momento em que ambas ouviram o estrondo. Logo depois, sentiram algo pegajoso envolvendo seus pescoços... Gabriela se lembrava daquela sensação, do momento em que havia sido arrastada para a sala de espelhos...
            Algo gosmento, no formato de corda, que arrastava as duas, estrangulando-as ao mesmo tempo.
            Gabriela foi a única que encontrou forças para gritar – era a única que sabia que tinha motivos para isso. Marieta ainda estava em choque; nada pôde fazer.
            Todos viraram ao mesmo tempo, mas foi Danii quem reagiu mais rapidamente.
            – NÃO VAI, NÃO! – gritou ele, agarrando o tornozelo de Marieta. Outra das cordas saiu de onde quer que fosse – mais tarde, descobririam uma porta –, e envolveu-se no pescoço do garoto, fazendo-o imediatamente soltar Marieta e cair, arrastado e estrangulado.
            Os outros, finalmente observando o que era aquilo, em choque, descobriram que não eram cordas: eram imensas línguas.
            Jéssica começou a gritar, e, quando viu, uma quarta língua envolvia seu pescoço e arrancava-a dos braços de sua mãe...
            – NÃO! – Natalie gritou, e tentou correr atrás. Uma nova língua surgiu, mas em vez de arrastá-la junto, golpeou seu rosto como um soco, levantando-a no ar por dois segundos.
            – NÃO, NÃO, NÃO! – Kurt repetia, sacando uma metralhadora e atirando a esmo, esperando impedir o inevitável.
            A porta se fechou com os quatro lá dentro.
            Havia algo rasgando uma saída com as próprias unhas; algo que queriam esquecer.

3

            – Merda! – Danii gritou, chutando a parede.
            Estavam presos, e as línguas haviam desaparecido – bem como fizeram na sala de espelhos; mas naquela vez, Gabriela estava sozinha, e ela lembrava muito bem o que acontecera... e se acontecesse de novo, haveriam agora meramente mais três vítimas.
            Jéssica chorava muito alto.
            – CALA A BOCA! – Danii gritou, bradando um facão na direção dela – CALA, A BOCA!
            – VAI SE FERRAR! – Gabriela disse, empurrando o garoto punk e protegendo Jéssica com um abraço – O que há de errado com você?!
            Danii novamente chutou a parede, com um grunhido.
            – Eu quero minha mãe – Jéssica disse, entre lágrimas.
            Gabriela já tinha uma palavra doce na ponta da língua, mas Danii novamente interrompeu:
            – FODA-SE SUA MÃE! FODA-SE SUA MAMÃE! – Gabriela levantou-se e apontou seu revolver para ele, que debochou: – O que você vai fazer? Atirar em mim? Vamos logo, querida, me mate antes que algum monstro faça isso no seu lugar.
            – O que te faz pensar que um monstro vai fazer isso no meu lugar?
            – OLHA ONDE ESTAMOS, PORRA! – ele gritou, mas o estalar da trave da arma foi o suficiente para que ele se controlasse um pouco mais – Estamos todos mortos, de um jeito ou de outro. É só uma questão de tempo. Sua mamãezinha – ele olhou com malicia para Jéssica, que se escondeu, chorando quietinha, atrás de Gabriela –, você, eu... Vai chegar a hora de todo mundo. A minha está chegando mais cedo por causa de vocês.
            – Ninguém te obrigou a tentar nos salvar – Gabriela disse, e então se deu conta do que falava. Ele realmente tentou salvá-las. Arriscara a própria vida – coisa que não havia feito nem por si mesmo – para tentar salvar a delas... não que salvação fosse necessária. Depois de algumas horas saindo intacta daquele lugar, Gabriela havia adotado um pouco mais de confiança; tanto que, até ali, a depressão não havia atacado novamente.
            Ela abaixou a arma, pretendendo agradecer, mas Danii foi mais rápido:
            – Salvar vocês? – disse ele, com crueldade e sarcasmo – Salvar vocês? Quem vocês acham que eu sou? Jesus Cristo? Eu não morreria na cruz por nem um décimo de cada um de vocês. Mas vocês carregavam as armas, não é? Carregavam nossa única chance de sairmos vivos daqui. E foram burras de serem pegas. Novamente. Vocês são o elo fraco desse grupo. Por mim, estariam mortas desde o primeiro ataque. Todas vocês! São peso morto, e deviam ter sido deixadas para trás.
            Ele sorriu a cada palavra que dizia, e quando terminou, só restou a raiva. Danii mais uma vez chutou a parede, e se sentou sozinho, longe das três. Jéssica ainda chorava quando Gabriela pensou que, afinal, preferia ter ouvido aquilo tudo à ter que agradecer a ele.

4

            – MINHA FILHA! – Natalie gritava, do lado de fora, assim que a porta se fechou – MINHA FILHA NÃO!
            Ela foi a primeira a correr, e a bater na porta – desesperada, com os punhos. As lágrimas desciam quentes por seu rosto, e se misturavam ao sangue e ao catarro que escorriam do nariz fraturado.
            – NÃO! NÃO! NÃO!... – sua voz ficava mais fraca, mais próxima de sucumbir ao choro a cada vez que gritava; até que uma hora desapareceu, e restaram apenas grunhidos e soluços.
            Kurt a dominou por trás, fazendo-a se afastar da porta.
            – NÃÃÃÃÃÃO! – Ela gritou mais alto, se distanciando de seu bebê...
            – Ei, calma, calma! – Kurt dizia em seu ouvido, tentando se sobrepor aos gritos – Tudo vai dar certo, tudo vai...
            Natalie se debatia demais para  que ele pudesse falar.
            Todos os que restaram do lado de fora correram para ajuda-los, e, depois de alguns momentos, o desespero de Natalie havia sido reduzido a alguns poucos sussurros como “Meu bebê” ou “Meu anjinho, meu doce anjinho”.
            – Temos que tirar eles de lá – Kurt disse para Kuruno e Khaled, que já se levantavam para acompanha-lo.
            – Como? – foi Kuruno quem disse – Nós levamos quase meia hora para abrir a porta da última vez, e eles tem uma criança lá dentro... Além daquele, daquele garoto que parece um búfalo com aquele piercing – Kuruno fez uma cara de desagrado – Você realmente acha que vamos chegar em tempo?
            – Temos que chegar – Kurt disse – Nós temos. Não apenas pela sobrevivência do grupo, por que nem preciso explicar como quatro mortes desestabilizam o grupo, pratica e emocionalmente... mas por eles. São 4 vidas, e nós podemos salvá-los!
            Kurt fez menção de arrombar a porta, quando Khaled pôs a mão em seu ombro.
            – Você sabe – disse ele – Não temos ideia do que está acontecendo lá dentro.
            – Sei...
            – Eles podem ser atacado a qualquer momento, e, se Gabriela estiver certa sobre os mortos-vivos, eles não podem ser... ser...
            – Mordidos. Certo, mordidos. É esse o seu ponto?
            – Sim! Sim! Esse é o meu ponto, é com isso que estou preocupado! –Khaled se aproximou, aflito – Se eles forem mordidos, e virarem... um dos outros... não poderemos fazer nada.
            Kurt assentiu, com uma mecha loira em sua testa.
            – Estou disposto a assumir o risco para salvá-los por hora.
            – Não – Khaled o impediu novamente –, nós vamos abrir esta porta, sim, nós vamos, mas pode ser tarde demais. Você tem que estar preparado para esta ocasião. E se for tarde demais...
            Foi feito silêncio entre os três – um silêncio que teve mais significado do que qualquer palavra poderia ter.
            – Ele tem razão – Kuruno disse – Se eles forem mordidos, não poderemos fazer nada...
            Kurt fechou os olhos, como se a ideia lhe atingisse. Sua mente estava a mil.
            Havia algo rasgando sua saída com as próprias unhas; algo que ele queria esquecer.
            Era necessária uma decisão. Ele sabia disso. Mas apenas de imaginar os pobres corpos mortos de Marieta, até de Danii... e então de Gabriela e Jéssica. Jéssica era só uma criança! E Gabriela... podia não estar há muito tempo com ela, mas sentia como se ela fosse a sua mais próxima companheira dali... talvez até sua amiga. E todos poderiam morrer...
            Ninguém espera que você se levante... você está sozinho, e não há ninguém ao redor.
            – Certo – disse ele – Se o pior acontecer, vamos mata-los. Todos os quatro, para poupá-los da dor.
            De longe, Natalie havia ouvido; e então, ela gritou como nunca antes, e seu choro foi mais forte do que tudo.
            – MEU BEBÊ! MEU BEBÊ! MINHA JÉSSICA, NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!
            – Você não está falando sério – Kuruno disse, caminhando a passos firmes para a porta.
            – Eu preferia não estar – Kurt respondeu, e todo o barulho que restou foram os tiros da metralhadora e de tantas outras armas pesadas, usadas para enfraquecer a fechadura, como da última vez, e os gritos atormentados de Natalie.

5

            Do lado de fora, podia se estar fazendo muito barulho, mas do lado de dentro, o silêncio era profundo.
            – Não aconteceu nada até agora – Gabriela disse, tentando ser otimista, mas com a garganta fechada.
            – Se acontecer, você vai virar isca, mocinha – Danii disse, brandindo o facão; Gabriela mais uma vez apontou a arma para ele.
            – Sabe, eu não aguento mais você – disse ela, destravando a pistola e brincando com o gatilho – Com todo esse seu jeito punk e todas essas merdas saindo pela sua boca... eu consigo ver ela se movendo, mas eu não escuto nada; se você tentar ser um pouquinho mais agradável, talvez você não vire isca.
            – Gabriela, o que está fazendo? – Marieta sussurrou em seu ouvido – Temos uma criança aqui!
            – Bem, se ele der mais uma de engraçadinho, tape os olhos da menina.
            – Mas, querida, o menino Jesus está te vendo!
            – Ele está vendo Danii também, oras!
            As luzes da lanterna então falharam, e todos sabiam que não era um bom sinal.
            – O que foi? – Marieta perguntou, e Gabriela abraçou-a pelos ombros.
            – Todo mundo fica junto! – disse ela, apesar de só haver 4 pessoas ali dentro.
            Elas logo sentiram o corpinho de Jéssica abraçando suas pernas, e Gabriela sacou sua pistola, apontando para qualquer ameaça que pudesse vir da frente.
            – O que está acontecendo?! – Na voz de Danii não havia medo; apenas ira.
            A luz voltou, revelando um corredor à frente, onde antes não havia saída. Era um corredor idêntico àquele onde encontraram a garota sem mandíbula, e também parecia interminável.
            Gabriela estava esperando que algum morto-vivo viesse de lá da frente – em vez disso, ela sentiu as mãos frias e pegajosas por trás, fazendo-a cair de costas. Marieta e Jéssica gritaram, se afastando, enquanto Danii ficou onde estava – do outro lado da sala –, levantando seu facão apenas para defender a si mesmo.
            Assim que Gabriela caiu, ela olhou nos olhos do morto – quando atingiu ao chão, o zumbi fez questão de exibir sua boca cheia de dentes amarelos num grito. Gabriela acertou uma coronhada em sua cara, e foi a vez do morto-vivo cair de costas.
            – Corram! – ela disse, pegando a lanterna do chão e apontando para o corredor.
            Mas então, quando os três – até mesmo Danii – obedeceram, eles deram um encontrão com algo sólido e invisível, no meio do corredor. Gabriela disse:
            – É uma ilusão...
            E então, quando olharam para trás, havia outro corredor, no lugar onde antes havia a porta. Olharam para os lados, e mais corredores... 4, 8, 16... Logo, se encontravam numa sala circular, sem janelas, sem saídas e sem fim. E no entanto, não podiam se locomover muito além dos limites impostos pela pequena casa onde estavam presos, antes de se transformar naquela sala.
            – É uma ilusão! – Gabriela repetiu – Continua sendo uma ilusão! A porta está em algum lugar aqui, só temos que procurar!
            Mas não houve tempo de tatear as paredes: a lanterna apagou e acendeu numa fração de segundo, e nesse mísero tempo, outro morto-vivo apareceu e pulou bem em cima de Gabriela. Ela gritou, e atirou em seu queixo, explodindo-o em sangue que respingou em todos os quatro – talvez mais em Jéssica, já que era a mais baixinha dali.
            A luz piscou novamente, e quando se acendeu, um novo morto-vivo puxava Gabriela pelas costas. A luz voltou a piscar, e Gabriela sentiu as mãos do zumbi se evaporarem; em compensação, assim que voltou a ver, levou um tapa na cara de um outro morto que surgiu do nada à sua frente.
            Lá fora, a munição da metralhadora havia acabado, e Kurt passou a empunhar um fuzil com alta precisão.
            A luz piscava mais e mais, e a cada vez, um morto surgia num lugar diferente – à frente, atrás, nos flancos, ou mesmo longe. Danii havia decapitado um, mas o corpo e o sangue desaparecia – não restava nenhum vestígio da existência daqueles monstros...
            Apareciam e desapareciam, como fantasmas – porém, podiam machucar e serem machucados. A luz piscava, e Gabriela era mais uma vez a vítima.
            Quando ela terminou de atirar a esmo, não restavam mais balas – tudo que podia fazer era esperar que não caísse. Pelo menos Marieta e Jéssica estavam bem; não eram elas que os zumbis queriam.
            Então, Gabriela puxou o próprio facão e esperou a horda chegar.
            Em vez disso, um único zumbi deu as caras – Gabriela desceu o facão em seu ombro antes que ele pudesse ataca-la; não matou, mas segurou-o até que a luz piscasse e ele desaparecesse, como ela sabia que faria – já havia entendido o jogo. Logo depois, um outro zumbi apareceu às suas costas, e, antes mesmo que pudesse tocá-la, tombava no chão, devido à força do impacto da faca contra seu pescoço, que agora esguichava o líquido rubro.
            Jéssica gritava em seu cantinho quando as luzes apagaram de vez.
            – O que...
            – NÃO!
            Não poderia ficar escuro agora, não poderia...
            O escuro era a morte.
            Ela não olha, ela não vê, ela não olha, ela não vê, ela não
            Depressão.
            A palavra golpeava seus olhos, e esmagava sua garganta para que ar nenhum entrasse.
            Agora não, agora não...
            não se abre para ninguém
            Era a pior hora possível... mas Gabriela não podia deixar de imaginar se não havia um dedo de quem quer que estivesse controlando aquilo tudo na história...
            ELA DESCOBRE ELA DESCOBRE
            A linha estreita, não consegue decidir...
            Gabriela estava vulnerável, como nunca estivera. Duas mãos tocaram suas costas... e ela deixou.
            tudo se resume ao suicídio mas nunca machuca quase funciona
            Vergonha, era o que ela sentia – de ser fraca, de querer tão facilmente desistir da vida... de estar chorando naquele exato momento. Lágrimas quentes e salgadas, que desciam seu rosto fino e delicado, fraco como tudo mais, e...
            Lágrimas quentes demais.
            E se estivesse chorando sangue?
            Oh meu Deus, estava chorando sangue!
            Sangue rubro que descia por seu rosto fino e delicado, fraco, cada vez mais fraco...
            SANGUE.
            Gabriela!
            As vozes a chamavam de longe, muito longe...
            GABRIELA NOS AJUDE
            Marieta? Jéssica? Eram vozes muito diferentes para pertencer a qualquer uma.
            GABRIEEEEELAAAAA!!!
            – Gabriela, nos ajude! – Marieta gritou.
            Não era depressão – era hipnotismo. Gabriela fora hipnotizada por um momento, e estava caída – o morto estava em cima dela, acariciando seu pescoço, e...
            A ponta afiadíssima da faca penetrou no olho do zumbi, fazendo-o gritar, e expelindo sangue misturado com algo ainda mais gosmento – se Gabriela pudesse ver, veria a matéria branca sendo tingida de vermelha e se tornando rosada. Era o material com que o globo ocular era feito.
                Gabriela arrancou a faca rasgando o resto do rosto do morto, que caiu em cima dela; como estava tudo escuro, ele não poderia desaparecer até que a luz piscasse, não é?
                – Marieta! – ela gritou – Onde está você?!
            – Aquiii! – O grito veio de sua direita.
            Antes que pudesse se levantar, outro morto caiu sobre Gabriela, e este teve sua cabeça perfurada pelo facão na altura da nuca; de pé, Gabriela recebeu no escuro a horda pela qual havia esperado – sentia pelo menos 12 mãos, todas tateando-lhe...
            O pescoço de um foi cortado, o braço de outro foi amputado...
            Gabriela chutou quando agarraram sua perna, e arrancou, num golpe só, quatro dedos da mão que tentava abrir o zíper de sua calça. Um por um, os zumbis caíram...
            Gabriela caiu junto, e o facão caiu longe, quando um morto-vivo cujas pernas haviam sido arrancadas – não pro Gabriela, claro –, dominou seus braços, impedindo-a de se defender, e tentou abrir caminho para dentro de sua boca...
            Houve um barulho, e Gabriela sentiu umas poucas gotas de sangue respingando em seu rosto; as mãos do morto de repente não eram tão fortes, e seu corpo caiu, sem vida, sobre o de Gabriela. Ela jogou-o para o lado, conseguindo se levantar.
            – Oh, por favor – Marieta dizia, e Gabriela percebeu que ela estava bem a seu lado – Por favor, Gabriela, me diga que eu não acertei você...
            – Eu estou bem! – Gabriela tranquilizou-a, sussurrando – E você?
            Marieta assentiu, antes que se lembrasse de que estava escuro e falasse:
            – Estou.
            – Onde estão Danii e Jéssica? – Gabriela perguntou, e nesse momento a lanterna voltou a se acender.
            A luz voltou acompanhada do grito horrorizado de Marieta, que apontava para algo atrás de Gabriela.
            Ela se virou, e viu Jéssica nos braços de Danii – a garotinha se debatia, e era desajeitadamente suspensa por um abraço violento. Ela gemia, tentando se libertar do garoto punk.
            Danii sorria, com sangue manchando seus lábios.
            – Danii? – Gabriela perguntou.
            – CALE A BOCA! – ele gritou, ainda com o sorriso – CALE A BOCA, SUA PUTINHA DE MERDA!
            Gabriela recuou, e foi então que percebeu que o garoto não estava falando com ela, e sim com Jéssica.
            – Danii?
            – Você me acha engraçado, garotinha? Você me acha engraçado?
            Os olhos de Jéssica e Gabriela se encontraram, e quando Gabriela olhou novamente, viu mínimos círculos cinzentos nas íris dos olhos de Danii – um pequeno, mas óbvio sinal de catarata.
                Assim que ela percebeu o que Danii se tornara, uma lágrima de sangue desceu dos olhos do menino punk – e, tão vermelho quanto o sangue era, Gabriela percebeu que a pele do garoto já assumia um tom cadavérico.
            – Danii... – Gabriela tentou mais uma vez, mas foi tarde.
            Jéssica gritou enquanto os dentes de Danii se enterravam em seu ombro.
            – NÃO!
            Uma parte de você que nunca irá se mostrar, você é a única que sempre saberá...
            A porta foi arrombada naquele exato, e Kurt olhou uma última vez nos olhos de Danii antes que o entendimento passasse por sua cabeça; então, sem hesitar, atirou certeiramente no lado exposto do pescoço de Danii, abrindo um buraco que consumiu metade da garganta e fazendo o sangue esguichar por toda a parede – e manchar um pouco do rosto de Jéssica, também.
            – JÉSSICA! – Natalie foi a primeira a entrar, gritando, e correu para abraçar a filha ao vê-la coberta de sangue – Jéssica, meu amor, o-o-o q-que aconteceu?
            – Mamãe – disse a garotinha, e estendeu o braço dilacerado – Ele me mordeu, mamãe.
            Natalie olhou para o corpo morto de Danii, e abraçou a filha, deixando as lágrimas rolarem. Como se suplicasse, encarou Kurt, mas nem isso conseguia fazer direito, em meio à dor em seu coração.
            Algo rasgando sua saída com as próprias unhas; algo que ela queria esquecer.
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