Olá galera ;) Este é o capítulo 3 de O Reino dos Corações (dã), e eu deixo com vocês também um comunicado: O capítulo 5, que será postado no dia 16/12, será o último do ano. Depois disso, o capítulo 6 só será postado em janeiro. A data de postagem do capítulo 6 ainda está sendo decidida. Enquanto isso, curtam o capítulo 3 ;)


3

Corte de papel

Papercut – Linkin Park

1

            Gabriela estava arrastando Kurt de volta para o Hotel, e já estava bem próxima, quando ouviu o grito estridente:
            – OH MEU DEUS!!! – era Marieta – O que aconteceu com ele? Ele está morto?! OH MEU DEUS!!!, ELE ESTÁ MORTO!
            – Não, ele não está morto, shiu – Gabriela fez biquinho, num sinal para fazer silêncio – Você vai acordar todo mundo.
            – Já acordou – Kuruno esfregava os olhos, saindo do Hotel, e pareceu despertar completamente quando viu Kurt estatelado, de braços e pernas abertas, sendo sofregamente arrastado por Gabriela; ainda assim, teve calma quando correu para ajudá-los e perguntar: – O que houve?
            – Eu... eu ouvi um barulho, e fui investigar.
            – Sozinha? Ah, francamente, quantas vezes você vai ter que ser atacada?
            Gabriela corou, mas achou isso era melhor do que dizer a verdade: a de que havia encontrado um anjo chamado Anjo.
            – O que houve com ele? – Kuruno perguntou novamente.
            – Eu... eu acho que bati nele – Gabriela mentiu, e logo se deu conta do quão idiota era aquela desculpa.
            – Você bateu nele? – Kuruno também parecia desacreditar.
            – O que foi? – sua voz era carregada de uma revolta exageradamente fingida – Uma menina não pode fazer um menino desmaiar? Isso é puro machismo. Você...
            – Está bem, está bem – Kuruno disse, e Gabriela soube que havia funcionado – Eu acredito em você.
            Ela suspirou aliviada.
            – Vamos levar ele para dentro, certo? E esperar que ele acorde...
            Neste momento, ouviu-se passos vindos da porta do Hotel. Aparentemente, mais alguém havia acordado, o que não era problema, pois mais ajuda era sempre bom... A não ser que a pessoa em questão fosse Danii, é claro, ele não parecia fazer nada...
            De todos que poderiam sair de lá dentro, quem saiu foi uma garota. Vestido rosa, um laço vermelho na cabeça, pouco menos de 1,50 metros e 9 anos. E era absolutamente desconhecida.
            Ela passava saltitando, como Chapeuzinho Vermelho faria na floresta, e quando avistou os quatro – Marieta, Kuruno, Gabriela e um Kurt caído –, acenou para eles, com um sorriso na cara, como se fossem conhecidos de longo de tempo.
            A garotinha então enfiou um pirulito redondo e maior do que sua própria mão na boca, e continuou saltitando até desaparecer.
            – Mas o que... – Kuruno exclamou, com seus pequenos olhos orientais se arregalando.
            – Fique aqui com ele – Gabriela ordenou à Marieta, que dispôs-se de cuidar de Kurt, enquanto ela e Kuruno seguiam pelo mesmo caminho que a garota saltitante fora.
            – Ei, garotinha! – Foi Kuruno quem gritou, enquanto corria – Volte aqui!
            Mas quando eles voltaram àquele grande pátio, do qual haviam ido e vindo tantas vezes naquela mesma noite, viram balões e confete. Serpentina por todos os lados. Chapéus pontudos e em forma de cone jogados no chão. Garrafas de cerveja, vinho, whisky e outras bebidas, algumas quebradas e estilhaçadas e outras completamente inteiras; porém, todas pareciam vazias.
            – Parece que houve... uma festa aqui – Kuruno engoliu em seco, certo de que nada daquilo estava ali antes.
            Acima do vão em forma de porta, havia uma grande faixa, escrito: “Bem-vindos ao Baile do Reino dos Corações”.

2

            Kurt acordou com a cara no chão feito de cimento, completamente sozinho.
            Sua cabeça girava e martelava, como se alguém a estivesse arrancando do pescoço e esmagando ao mesmo tempo. Seus olhos custavam a focalizar alguma coisa. Ele estava num lugar... castelo alguma coisa, rei do alguma coisa... Reino dos Corações. Era um lugar estranho... mais estranho do que qualquer coisa que via quando fumava alguma coisa nova, no ensino médio. E estava com uma garota... bonitinha, até. O rosto foi se formando em sua cabeça, e era uma criança. Gabriela, seu nome. Não devia ter mais de 17 anos... a palavra pedofilia cruzou sua cabeça. Pedofilia é caracterizada por relações entre indivíduos com idade maior que 4 anos de diferença... Era uma pena que tivesse 22 anos. Um aninho a mais.
            Então, lembrou-se de que naquele lugar, ninguém deveria se importar com as leis dos reles mortais.
            A lembrança de um homem surgiu em sua cabeça... havia algo de estranho nele. Algo que não conseguia lembrar... algo que deveria sair de suas costas, das costas do homem; desse detalhe lembrava, mas não lembrava o que exatamente. Como quando se lembrava que tinha dever de casa para segunda-feira, mas não lembrava qual dever de qual matéria...
            Asas.
            O que havia nas costas do homem estranho eram asas.
            E isso era completamente impossível.
            Estava realmente ficando paranoico. Talvez algo o tivesse estressado primeiro, ou a pressão crescente à sua volta.
            Mas cara, eu sei exatamente como é ter uma voz no fundo da cabeça.
            Ele se levantou, e, tonto, quase caiu. Sua visão ficou negra e viu estrelinhas, antes que o sangue voltasse a pulsar direito. Mesmo estando um pouco melhor, a dor de cabeça era incessante.
            Olhando ao redor, viu que não estava tão longe do Hotel – para falar a verdade, não estava nada longe. A porta sorria para a sua cara, convidando-o a adentrar no escuro novamente.
            E quando o fez, viu uma lanterna jogada no chão, iluminando fracamente o contorno dos corpos de seus colegas. Todos eles pareciam fazer alguma coisa muito importante, e de suas bocas saíam sussurros.
            Ele logo notou que Marieta estava no centro de todos, e ela chorava baixinho. A expressão em seu rosto, no entanto, deixava claro que preferia muito mais estar gritando.
            – O... o que houve? – ele perguntou, e demorou mais alguns momentos antes que Natalie se virasse para responder:
            – Ela foi atacada.
            – O quê? Pelo quê?
            Natalie se levantou, e fez sinal para que se afastassem. Kurt assentiu, e, lá trás, viu os contornos de Danii. Ele, mais uma vez, parecia não fazer nada.
            – Ela diz... – Natalie começou, e então suspirou – Ela diz que foi... ah!, não sei explicar. Algo gelado, magro e...
            – Um morto-vivo?
            – Não, ela disse que não. Ela soube discernir isso. Mas ela... ela disse que simplesmente sentiu o pior medo de toda sua vida.
            Kurt suspirou, e não teve como se impedir de sentir compaixão pela pobre mulher.
            – E o que essa tal criatura fez com ela? – perguntou ele, por fim.
            – Essa é a parte estranha – Natalie, que até ali cruzara os braços na altura do peito, se remexeu desconfortável; o biquinho que sua boca formou foi suficiente para demonstrar sua preocupação – Ele... a criatura... simplesmente tocou ela.
            – Tocou?...
            – O ombro. Veja lá, tem uma marca de queimadura.
            Nesse momento, ouviram-se gritos vindos do lado de fora, e passos. Apesar do coração de Kurt ter pulado no peito, ele não se preocupou por sua vida – os gritos eram aparentemente humanos; pelo contrário, ele se preocupou pela vida dos tais humanos.
            Gabriela e Kuruno entraram correndo pela porta do Hotel, e a lanterna em suas mãos não parecia iluminar nada em especial; o desespero era grande demais para qualquer atitude racional.
            – O que houve? – Kurt perguntou mais uma vez, e Gabriela foi a primeira a engolir em seco para poder falar (apesar de tê-lo feito apenas uns bons 10 minutos depois):
            – Lá... pátio... alguma coisa...
            – Ora, essa coisa ridícula de novo? – Danii desacostou-se da parede, e caminhou lentamente até ela – Que monte de merda. Aposto que está com medo dos zumbis te pegarem novamente.
            – Claro que estou! Todos nós estamos!
            – Eu não disse “pegar” nesse sentido – Danii sorriu maliciosamente.
            Kurt empurrou-o contra a parede.
            – Gabriela – disse ele, voltando-se para a garota – Me diz, o que você viu lá?
            Ela engoliu em seco novamente.
            – Eu não sei – ela parecia estar prestes a chorar novamente.
            Danii soltou um grunhido sarcástico.
            – Eu mesmo vou ver.
            – Espere – Kurt levantou-se e puxou-o pelo pulso. O garoto punk podia parecer ser bastante forte, mas Kurt, mesmo magrelo, conseguia ser mais – Você ouviu ela? Você não pode ir para lá sozinho.
            Danii abriu um meio sorriso.
            – Então sinta-se livre para me fazer companhia.
            O garoto se livrou do aperto da mão de Kurt, e saiu do Hotel, a passos grandes e rápidos. Ele andava de maneira ridícula, com os braços de movendo mais do que precisavam.
            Kurt lançou um olhar preocupado para Gabriela, que lhe olhou da mesma forma. Ele então desculpou-se, dando de ombros, e foi atrás do garoto.
            – Você poderia experimentar um pouco de gentileza – Kurt disse para Danii, quando estavam caminhando pelo pátio menor.
            – E o que isso diria sobre mim?
            – Algo melhor do que diz agora.
            Danii bufou.
            – Existe uma coisa chamada personalidade, e eu gosto de dizer que tenho a minha.
            – É, bem, existe uma coisa chamada paciência. Eu também gosto de dizer que tenho a minha, mas veja, ela tem limite.
            – E o que vai acontecer quando ela acabar?
            – Quando ela acabar, eu vou descobrir o limite da sua personalidade – Kurt lançou-lhe um sorriso sarcástico.
            – Sinto-me ameaçado – Danii devolveu-o o sorriso.
            – Não é uma ameaça; é uma coisa que eu gosto de chamar de personalidade.
            Danii riu, entretido.
            – Touché – disse ele.
            Chegaram então ao pátio maior, e estava vazio.
            – Como eu pensei – Danii disse, cruelmente – Estão todos enlouquecendo. Deixe para lá, eles devem estar mijando nas calças por algo que não existe. Vamos voltar e botar eles no lugar...
            Quando Danii deu meia volta, Kurt pôde ouvir algo que parecia com um soco, e o corpo desacordado do garoto caindo com um baque surdo no chão. Quando Kurt se virou, o grito ficou entalado em sua garganta; e então, ele recebeu o golpe de uma mão gélida, que quase quebrou seu nariz, e caiu no chão, desacordado ao lado de Danii.

3

            Havia algo no ar que não estava certo hoje.
            Quando Gabriela, Kuruno e Marieta pareciam enfim terem se acalmado, ouviram a gritaria e a música vindos do pátio pequeno.
            Assim que saíram, deram de cara com tudo o que menos esperavam: pessoas. Que ainda por cima estavam vivas e felizes.
            Todos estavam vestidos com algum tipo de roupa social – ternos, vestidos do século XIX, e até as crianças pareciam estar bem vestidas demais. E, acima das cabeças de todos, desbravando o vento gélido da noite, haviam gigantescos balões de personagens de desenho animado. No chão, onde não havia pessoas, haviam carros alegóricos do tamanho do segundo andar do Hotel.
            – Isso... – Gabriela encontrou-se com as palavras entaladas na garganta – Isso é um desfile.
            Aquilo era uma ilusão. Só podia ser.
            Era a cidade tentando controlar sua mente.
            Como um furacão dentro de sua cabeça.
            Como se estivessem olhando de dentro da sua pele.
            – De onde isso saiu? – Natalie perguntou. Todos os outros não sabiam para onde olhar.
            Um garoto sorriu para Gabriela, e lhe deu uma bala de cereja. Ela agradeceu, encabulada, sem saber o que deveria fazer.
            – Não coma – disse Natalie, tomando sua filha nos braços.
            – Eu não sou burra – Gabriela jogou a bala no chão e pisou nela, e tudo que sentiu foi o inocente cheio do suco de cereja sendo esmagado para fora da bala. O garoto já estava à uma certa distância, mas mesmo assim viu, e começou a chorar, magoado, correndo para longe.
            Gabriela viu-se sentindo pena dele.
            Então, algo estourou ao longe. Não só Gabriela se virou, como todas as pessoas daquela rua – as pessoas que não deveriam estar ali. Então, mais surpreendente ainda, todas correram.
            Foi feito um pandemônio: as mães largavam suas crianças à conta própria, as crianças tentavam correr com suas perninhas. Os carros alegóricos pararam no meio do trajeto, e seus dirigentes saíram correndo das cabines. Os balões foram largados, e voaram para longe.
            Todos corriam com medo de alguma coisa.
            Gabriela foi arrastada pela multidão, assim como todos os outros. O único problema é que cada um ia para um lado diferente.
            – Gabriela!
            – Natalie!
            – Khaled!
            Gritar nomes não ajudava em nada.
            E quando viu, o que mais tinha era medo.
            É hora de nadar ou afundar.
            O rosto está me ouvindo, bem debaixo de minha pele.
            Quando estava bem no pátio grande, ela viu.
            Danii e Kurt haviam sido pendurados pelos pulsos, um de cada lado do vão em forma de porta. Estavam desacordados, e havia ferimentos na cabeça de cada um – o sangue escorria da testa e se misturava ao suor, descendo pelo pescoço, manchando a camisa.
            E, bem no meio dos dois, alguém pisava no chão.
            Alguém cujo rosto bonito era manchado pelo sangue escorrendo dos olhos – ou melhor, das órbitas dos olhos. Os globos oculares não estavam ali.
            Tão rapidamente quanto Gabriela percebeu isso, o resto da multidão pareceu perceber também.
            Fez-se um silêncio impenetrável.
            Então, os gritos refizeram-se, e a multidão tentou voltar o mais rápido possível.
            Gabriela ficou feliz de ter recarregado sua arma antes de sair do Hotel; ela sacou a pistola e atirou três vezes – dois erros e um acerto, bem no meio da cabeça, enquanto a criatura avançava para ataca-los.
            Porém, o monstro não caiu, morto: sua cabeça se desfez num monte de fumaça, que logo voltou a se reunir. Ele estava tão vivo quanto antes.
            Gabriela decidiu que seria melhor correr com a multidão, quando foi arrancada dela por algo maior e mais forte: a garota foi arremessada no ar, e caiu no chão duro de cimento. Ela não sentia nada agarrando-a – nenhuma mão, nenhuma corda – e ainda assim era arrastada por algum tipo de força...
            – NÃO! – ela gritou, tentando se agarrar à alguma coisa, mas tudo o que havia era cimento, duro e liso.
            A criatura estava simplesmente com o braço estendido em sua direção, como se assim a atraísse.
            Quando os braços da criatura finalmente estavam ao redor de seu pescoço, ela sentiu-se sendo enforcada – e então, um novo tiro desfez a cabeça do monstro. Não somente um – uma incontável descarregada de uma metralhadora, o suficiente para acabar com o ego de qualquer criatura sobrenatural.
            A criatura largou Gabriela e esperou a cabeça ser refeita para avançar contra Khaled, que havia atirado.
            Gabriela, vendo-se livre, levantou-se: o melhor a fazer era libertar Danii e Kurt. Ele foi ao menino punk primeiro.
            – Ei, psiu! – ela sussurrou, e então atirou para cima, sem mirar em nada; pretendia apenas fazer barulho.
            Danii abriu os olhos lentamente, apertando-os, como se tivesse dificuldade para acordar.
            – Mas que diabos...
            – Ei, deixe de moleza! – Gabriela disse – Vamos, saia daí!
            – Eu não consigo...
            Gabriela revirou os olhos, e subiu num monte de caixas que havia ao seu lado. Logo, trepava no telhado de uma das casas. Ainda estava um pouco distante de Danii, mas já era alguma coisa.
            – E agora, o que vai fazer, gênio? – o garoto debochou, engasgando-se com a saliva.
            – Estou cada vez mais achando que devia te pôr para sacrificar; leve uma pelo time. – disse ela, e então tirou o facão da bainha improvisada que fizera – Ok, então é isso que vamos fazer, eu vou cortar a corda e você segura a minha mão, certo?
            – Tanto faz, só vamos seguir logo com isso.
            Gabriela revirou os olhos mais uma vez, e simplesmente golpeou a corda. Danii jogou-se contra sua mão, mas escorregou e caiu de costas.
            – Argh – ele gemeu.
            – Opa – Gabriela disse; apesar de ter sido um acidente, não estava exatamente se sentindo mal.
            – Não espere que eu sinta algum tipo de gratidão – Danii disse quando estavam ambos no chão.
            Nesse momento, um morto-vivo pulou o muro e iria cair bem em cima do garoto, quando Gabriela atirou bem em sua cabeça, tornando o zumbi um morto de verdade.
            – Não vou – ela respondeu, confiante – Vamos, me ajude a tirar Kurt dali antes que mais algum deles apareça.
            Como num timing perfeito, os mortos-vivos saíram detrás de algumas casas em disparada, seguindo em horda na direção deles.
            Neste momento, Khaled foi arremessado para o outro lado e a criatura sem olhos apareceu bem atrás de Gabriela, agarrando-a pelo pescoço novamente.
            Dessa vez, não houve chance de defesa, e os dois levantaram voo.
            Os braços de Gabriela estavam presos contra o corpo, de modo que ela não podia se mexer. Lá de cima, podia ver Danii correndo, desarmado, fugindo dos mortos-vivos.
            – O que você quer? – Gabriela perguntou, sem medo; apenas raiva e cansaço.
            A criatura riu, e, mesmo não conseguindo falar, emitiu um ruído muito parecido com “Você”.
            Então, Gabriela soube exatamente o que Marieta queria dizer.
            Ela sentia medo.
            Eu sei exatamente como é ter uma voz no fundo da cabeça.
            Medo supremo.
            Paranoia é tudo o que me restou.
            Maior do que tudo que já experimentara na vida.
            Mas todos tem um rosto dentro de si um rosto que acorda quando se fecha os olhos um rosto que SABE quando você mente um rosto que RI toda vez que você CAI um rosto que observa TUDO
            Ela sentia a dor subindo seu pescoço, a cor fugindo de seu rosto... era possível morrer de medo? Bem, descobriria naquele momento.
            Por que sempre parece NOITE? tem alguma coisa errada HOJE
            O SOL SE PÕE EU SINTO A LUZ ME TRAIR
            Ela caiu.
            A criatura deixou ela cair mais de 20 metros.
            Ela se chocaria contra o chão de cimento e morreria.
            Como se estivessem observando ATÉ AQUILO de dentro da sua pele.
            Os ossos se quebrariam, os órgãos seriam esmagados, a vida seria pressionada até ser completamente expulsa do corpo...
            Onde a criatura havia tocado, sua pele queimava.
            No último momento, a criatura tomou-a novamente, e ia levantando-se no ar – repetindo novamente e novamente aquele ritual, até que Gabriela desistisse de sentir medo e passasse a não sentir nada – quando Kurt golpeou a cabeça da criatura com algo que parecia um pé de cabra. Dessa vez, não só a cabeça se desfez em fumaça, mas o corpo todo. E não se reuniu mais.
            Gabriela caiu no chão de uma altura pequena, sem sofrer muitos danos. Ela tremia.
            – O q-q-q-que v-v-voc-c-cê fe-fez-z-z?
            – Ele é um fantasma, Gabriela! Você não viu a pele dele? É translúcida. E fantasmas são espantados por objetos de ferro – ele balançou o pé de cabra, e Gabriela viu que era feito de ferro.
            O fantasma então surgiu atrás de Kurt, e torceu sua mão. Ele gritou, e deixou o pé de cabra cair. Gabriela logo percebeu que “espantar” fantasma não é o mesmo que mata-los de vez.
            Gabriela gritou, o medo incessante dominando-a completamente.
            Como um furacão no fundo de minha cabeça.
            Mas o fantasma não fez mais nada. Ele parou, naquela mesmo posição na qual havia torcido a mão de Kurt.
            Gabriela viu Marieta surgindo detrás, e ela falava alguma coisa numa outra língua – espanhol, que deveria ser sua língua nativa antes de chegar naquela cidade.
            – ... la paz del Señor... – ela ditava, com a expressão feroz – Que guarda el alma atormentada de su pobre hijo, andador de las criaturas de la oscuridad...
            O vento aumentava, bagunçando as roupas e cabelos dos três. O fantasma virou-se para Marieta, sem expressão alguma, largando o pulso de Kurt.
            – Señor, guia a este hijo de la perdición el camino para las puertas del Paraíso, com la gracia y el poder divino que lleva em sus santas manos, SANTAS MANOS que derramaran sangre por nosotros, sangre derramada em pro de NUESTRA salvación, la salvación de sus hijos pecadores. Y que su sagrado corazón de esta pobre alma ten piedad!
            Com um gesto de mãos, Marieta mandou que o fantasma se ajoelhasse, e ele obedeceu, hipnotizado.
            – Em nombre do Padre – ela tocou a testa do fantasma, sem medo nenhum de ser queimada – y del Hijo – seu dedo tocou o lugar entre a barriga e o peito do fantasma – y del Espiritu Santo... Amén.
            O fantasma fechou os olhos, então sua imagem tremeu. Por fim, ele explodiu em fumaça, e dessa vez, Gabriela sabia que ele não iria voltar.
            Marieta havia acabado de exorcizá-lo.
            – Que o filhinho da puta descanse em paz – disse ela, com desprezo no olhar e voltando a falar aquela língua estranha que falavam desde que chegaram no Reino Dos Corações – Oh, bem, eu acho que o Senhor não vai se importar se eu falar um palavrãozinho.

4

            – Você está bem? – Gabriela perguntou a Kurt, quando estavam sozinhos no pátio.
            Khaled e Kuruno haviam o ajudado a pôr sua mão no lugar. Ainda doía, mas logo estaria bem. Além disso, ninguém soube para onde fora o desfile que todos haviam visto antes.
            Kurt confirmou com a cabeça.
            – Você não pode assumir a frente de tudo sozinho, sabe – Gabriela disse – É bom que tenhamos um líder, mas não um mártir.
            Kurt assentiu novamente.
            – Acabei de descobrir isso. Bem, vivendo e aprendendo.
            Gabriela se sentou ao seu lado.
            – Ei – Kurt lhe disse – Eu sei o que o fantasma lhe disse, quando estava lá em cima.
            – Então você já estava acordado.
            – Estava, mas isso não vem ao caso – ele se aproximou – Eu sei o que ele disse. E você não deve acreditar nele.
            – Como você sabe?
            – Por que ele tentou me enganar com isso também – Kurt suspirou – Gabriela, eles vão tentar de tudo para nós botar um contra o outro. Eu não sei quem são eles, mas sei que não estão exatamente do nosso lado. Estamos aqui por um motivo, eu não discordo, mas não é esse.
            – Como pode saber? – Gabriela repetiu – Como pode saber que não sou eu que eles querem?
            Kurt sorriu, docemente.
            – Não é disso que você está com medo. Você está com medo que, além de isso ser verdade, eles consigam te pegar.
            Gabriela desviou o olhar, encabulada.
            – Ei – Kurt disse, atraindo sua atenção novamente – Seja o que for, nem eu nem ninguém vai deixar que eles toquem em você. Isso é uma promessa.
            Gabriela abriu um sorriso triste.
            – Eu não teria tanta certeza quanto a Danii concordar com isso.
            – Oras, Danii é um babaca. Você não pode esperar que as ações de babacas façam algum sentido.
            Ela riu, mas depois de alguns momentos, suspirou.
            – Acho – disse ela, mudando de assunto – que não sou apenas eu que percebi que já estamos há bem mais que 24 horas nessa cidade.
            Kurt assentiu, triste.
            – E sempre é noite...
            – E aparentemente, sempre vai ser.
            O suspiro dos dois ecoou pelo pátio ao mesmo tempo.
            – Não deveríamos ficar aqui, parados, esperando o dia que não vai vir. – Gabriela disse.
            – Se aquelas pessoas do desfile, sejam elas o que fossem, tinham medo de alguma coisa... elas, os residentes desta cidade... bem, talvez seja a hora de nós termos medo também – completou Kurt.
            Os dois concordaram silenciosamente, sabendo que, daquele momento em diante, nada mais seria o mesmo. 
Reações: