Olá galera :) Bem, este é o capítulo 1 de O Reino dos Corações. Quem ainda não entrou na comunidade no orkut, ou no grupo do facebook, pode entrar por aqui: http://www.facebook.com/groups/272109969497650/ e  http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=119372991 Enfim, espero que gostem :)


PRÓLOGO

            O ano era 1940, e a Inglaterra fora novamente bombardeada pelo inimigo. Uma jovem mulher caminhava pela rua em pedaços. Ah, era um dia terrível, aquele. Uma pequena cidadezinha inteira acabara de ser destruída! Ela adoraria ver como os políticos explicariam aquilo. O programa das 6h do dia seguinte com certeza seria dedicado a um discurso, ah, como o senhor vai fazer para levantar a moral deste país, hein?
            A mulher era a única que usava roupas limpas naquela rua. Para falar a verdade, poderia muito bem ser a única viva na rua. Volta e meia, algum pobre coitado passava correndo, mas não prestava atenção nela: estava muito ocupado com a perna em carne viva, ou com o braço ensanguentado. A mulher poderia muito bem estar vestida de elefante e ninguém perceberia.
            Ela entrou numa das inúmeras casas em destroços, como se soubesse que era ali que queria estar. Olhou ao redor, mas tudo que havia na sala de cozinha eram destroços e os corpos destroçados de um casal de adolescentes idiotas que com certeza haviam esperado os pais saírem para ter a casa só para eles, pois assim poderiam transar. Nem deviam ter visto as bombas chegando.
            - Deplorável - disse a mulher, sem mostrar real lamento.
            Então, ela subiu aos quartos. E para a cozinha, para os banheiros... fez isso com cada uma das casas, e achou mais e mais corpos, sem demonstrar o mínimo de piedade; nem mesmo com o cachorrinho.
            Ela saiu na rua, com um sorrisinho, e encontrou um garoto, de no máximo 9 anos. O que ele iria querer? Doces, roupas? Talvez uma mamãe nova?
            O sorriso não saiu do rosto da mulher enquanto o garoto corria para longe.
            Olhando a destruição e a morte ao redor, ela pensou em como tudo era perfeito.




1
Medo do Escuro

Fear of the dark – Iron Maiden

1

Tudo o que Gabriela queria fazer era morrer.
            Foi com esse pensamento que entrou no banheiro de seu pequeno apartamento. Àquela hora, sua mãe já deveria estar dormindo... e mesmo que não estivesse, não conseguiria entrar no banheiro. Tinha medo. Gabriela, vá pegar os algodões limpos no banheiro, não ouse me trazer os que estão sujos. O banheiro está limpo, Gabriela?, eu adoraria tomar um banho.
            Talvez, agora, sua mãe contratasse alguém para limpar o banheiro. Com certeza sobraria um bocado de dinheiro; por mais que a própria Gabriela não gastasse muito, manter uma filha tinha seus custos.
            A banheira já estava cheia. A faca já estava pronta. A morte estava lhe esperando.
            Então, seria adeus às dores. Adeus às horríveis noites. Adeus aos sonhos que não existiam.
            Tudo em simples trinta segundos.
            Seria como se nada tivesse existido – para ela. Quem ficasse, ah, se lembraria dela, se lembraria de quem Gabriela fora como nunca se lembravam agora. Nada de “quem é aquela garota”. Aquela garota é a Gabriela, oh, acho que devo usar o verbo no passado agora, foi a Gabriela. Podia ver a falsidade, os pêsames forçados, as garotas de sua turma derramando lágrimas sem sentimento algum: não éramos próximas, mas volta e meia ela me pedia a borracha emprestada, eu nunca podia imaginar, ela parecia tão feliz!
            Felicidade, era algo que sabia fingir. É, quem visse, poderia achar que era feliz. VER. Eles podiam ver, mas não podiam VER. Jamais VERIAM quem ela realmente era. Jamais VERIAM atrás da fachada, pois não havia interesse em VER atrás da fachada.
            Pronto. Submergira na banheira. Água. O último banho de sua vida. Sua mãe teria orgulho de vê-la morrendo limpinha.
            A água fria queimava contra sua pele quente. Seu sangue palpitava tanto, e tanto a fazia corar, por que tinha vergonha? É, talvez. Tinha desistido, não tinha? Não preferia acabar com tudo por que não suportava continuar?
            Aquilo era hora de auto piedade? Bem, se não tivesse piedade por si mesma, quem teria?
            Bem, não. Aquilo era hora do fim. O ponto final. O fim do contrato, com sua assinatura concordando com todos os termos. A faca lhe chamava.
            Guardara os pulsos pro final. Aquela era sua saída de emergência.
            A lâmina, tão reluzente... e afiada, brilhava em suas mãos. Bastava um momento em seu braço direito, e, com cuidado para não doer, outro momento em seu braço esquerdo. Um deslize, um cortezinho, e tudo estaria vermelho...
            Faria sujeira. Não o tipo de sujeira que sua mãe se importaria, mas o tipo de sujeira que te matava por dentro. Matava quem olhava.
            Ela mergulhou. Podia morrer assim? Podia morrer afogada? Uma hora ou outra, seus pulmões inspirariam, procurando por ar, e encontrariam apenas água. Água não servia. Água mataria o pulmão. Em três segundos, não haveria volta... será que, mesmo debaixo d’água, seu nariz arderia? Não queria morrer com o nariz ardendo. Não queria dor, queria morte, fazendo isso sentido ou não.
            Olhos abertos. Podia ver as ondinhas que a água da banheira formava, e eram lindas... como a vida deveria ser.
            Respire. RESPIRE. Queria respirar. Queria água em seu peito. O mais rápido possível...
            Ela voltou à superfície, fazendo barulho ao respirar ar, e não água.
            Ah, tinha mais uma vez desistido – primeiro da vida, e agora da morte. Deveria ganhar uma medalha. Deveria rir de si mesma, era patética. Nem conseguia morrer direito.
            Ainda tinha a faca, mas faria sujeira, e não queria fazer sujeira.
            Ela odiava como soava como uma criança mimada. Odiava todas aquelas regras que impunha para si mesma. Odiava a si mesma, por que não?
            Então, bem, talvez continuassem a não se lembrar dela por algum tempo. Para sempre? Era uma covarde, seria para sempre? Morreria em silêncio, com oitenta anos, como qualquer uma? Era só mais qualquer uma?
            Não importava. Não conseguira. Tinha medo, como quando tinha medo do escuro. Poderia tentar de novo mais tarde... se tivesse coragem.
            Ela se levantou, puxou a toalha e enrolou-a em seu corpo. Era burra, estúpida, fraca e viva, no final das contas. Não sabia se era motivo de comemoração – sua mãe com certeza compraria um bolo e a faria assoprar velinhas.
            Oito horas, talvez oito e dez. Já passava da hora de seu remédio, que ficava no armarinho debaixo da pia. O médico havia receitado dois comprimidos por noite, e, como sempre, engoliu sete de uma vez.
            Mas, antes que pudesse ficar remotamente tonta, como era comum dos primeiros minutos após a medicação, viu uma chave do lado de sua escova de dente. Uma chave. Sem chaveiro ou qualquer coisa que a prendesse, sozinha e solta. O que uma chave estaria fazendo no banheiro? Não fora Gabriela quem a colocara ali, e sabia que sua mãe também não. Então, a menos que o bicho papão quisesse lhe dar um nó na cabeça, não havia possibilidade alguma de haver uma chave ali.
            Foi então que ouviu.

2

            Seu corpo pingava a água fria quando pôde ouvir aquelas vozes estranhas do outro lado da porta. Passos também. Mesmo se sua mãe estivesse acordada, por que veria um filme no volume máximo? A velha TV Toshiba de no máximo 14 polegadas também não chegaria num volume tão alto. Seria Tomas, o vizinho, se gabando novamente do seu próprio jeito do Home Theater que comprou com o dinheiro do papai? Ou Anita estaria dando outra festa no andar de cima?
            Seja como for, nenhuma das vozes parecia estar num clima muito alegre.
            Ela deu alguns passos, abrindo a porta sem pensar duas vezes... podia haver um assassino, um ladrão em sua casa, mas não se lembrou desse detalhe. De toalha enrolada no corpo, saiu para o corredor... um corredor estranho, paredes amareladas, sua casa deveria ter paredes brancas, descascando, não amareladas e tão bem cuidadas, deveria ter... As vozes estavam ali, estavam perto. Estavam...
            Uma voz desconhecida pediu silêncio, então o rosto de seu dono apareceu no corredor num pulo.
            Assassino ladrão estuprador matador de criancinhas
            Gabriela gritou.
            – Não!
            – Ei! – o estranho gritou de volta, enquanto Gabriela trancava-se novamente no banheiro.
            Girou a chave uma, duas vezes, e não parou de tentar uma terceira antes que percebesse que não era possível girar mais ainda. Assustou-se mais uma vez quando ouviu batidas fortes do outro lado da porta, tão fortes que faziam a madeira tremer.
            – Ei! – a voz era abafada pela porta e pelas quatro paredes – Ei! Guria! Guria! Abra a porta! Não vou te machucar! Nenhum de nós vai!
            É exatamente o que um assassino ladrão matador de criancinhas diria.
            Gabriela enfiou o rosto entre as mãos, em concha. Então não era só ele? Havia mais gente? O que faziam em seu apartamento?... E sua mãe? O que haviam feito com ela? Ela não conseguiria se defender, ah, o que haviam feito com ela?
            Gabriela lembrou-se da faca que esquecera ao lado da banheira, e, enquanto não tivera coragem para matar a si própria, pelo menos deveria ter coragem o suficiente para se defender.
            – Ei! Guria! Abra a porta!
            – O que vocês fizeram com minha mãe? – ela perguntou, com a voz embargada tanto de raiva, quanto de medo, ânsia e tantas outras emoções que não saberia identificar.
            Houve silêncio, e quando Gabriela pensou em perguntar novamente, a resposta veio num sussurro espantado:
            – Sua... mãe?
            Passos e mais passos.
            – Não tem nenhuma mãe aqui... ahn, senhora Nataly... Natalie, isso, perdão, você tem alguma outra filha?
            Do outro lado, Gabriela ouviu um “não” baixinho. De qualquer forma, sabia que o nome de sua mãe não era Nataly nem Natalie.
            – Vocês acham que eu tenho cara de trouxa? – Gabriela gritou, assim saberia que eles haviam muito bem entendido a mensagem; tanto verbal quanto sentimental.
            – Eu poderia te dar alguma resposta, se você abrisse a porta e me deixasse dar uma olhada na sua cara – respondeu o homem, no mesmo tom malcriado.
            – Aaah, vocês adorariam isso, não? Bem, o que vocês querem? Dinheiro, as jóias da família, a prataria? Não temos nada disso. Não temos nada! Deixem mamãe em paz! Nos deixem em paz! Podem levar a TV, mas saiam daqui!
            Ela acha que somos ladrões, ouviu o sussurro do outro lado.
            – Vamos... começar de novo – disse ele – Eu sou Kurt. É... meu nome. Aqui fora, temos umas quinze pessoas, e nenhum de nós vai te machucar. Nós não queremos suas coisas, não queremos machucar sua mãe... Sua mãe não está aqui.
            – Como ela não pode estar? – Se pudesse, Gabriela cuspiria na cara do sujeito mentiroso – É nosso apartamento.
            – Bem... não é mais.
            – Você está dizendo que está reivindicando minha casa?
            – Não! Não... Ah, que bagunça... qual o seu nome novamente, guria?
            – Eu não havia dito... é... Mariana.
            Ela achou que seria de alguma utilidade usar um nome falso.
            – Muito bem, ahn, Mariana, eu vou pedir mais uma vez que abra a porta. Só há amigos aqui... e creio que tenha percebido que não está em seu apartamento. Quer dizer, quando saiu para o corredor, você viu algum indicio de que estava no apartamento da sua mãe?
            Gabriela corou. Era verdade. As paredes amareladas e bem cuidadas deveriam ser brancas e descascadas. Mas, na mesma medida em que seus olhos confirmavam o que vira, não entendia como algo assim poderia ser possível. Além do mais, o fato de estar trancada no banheiro de seu apartamento – ou pelo menos num banheiro exatamente igual – não ajudava muito para diminuir sua confusão:
            – E você sabe disso por que...
            – Por que foi o que aconteceu a cada um de nós – Kurt respondeu – Todos nós... estávamos em nossa casa, ou vendo o jornal das sete, ou preparando a comida do bebê, e a próxima coisa que vemos... Bem, eu particularmente estava vendo o jornal das sete... e a próxima coisa que vi foi essa luz, essa grande luz, e um barulho muito alto... como uma buzina de caminhão, e vinha da TV, mas não havia como... não havia como... E então, ouço alguém bater na porta do quarto, o que não é possível, eu moro sozinho. E quando eu saio... não é o corredor da minha casa, mas esse maldito corredor que você viu, quase agora... E não havia ninguém. Ninguém para bater na porta, nem sequer um maldito fedelho que eu pudesse meter a culpa. E quando eu pensei, estou vendo coisas, e depois achei que deveria voltar a dormir, aparece mais um pela porta... sim, era você, Tae, mais uma, então... e me pergunta se fui eu que bati na porta! Mariana, eu sei exatamente o que você está sentindo, mas por favor, saía desse quarto, ou sala, ou cozinha, ou seja lá onde está trancada. Eu lhe imploro, pelo seu bem... eu não sei onde estamos, mas temos de ficar juntos.
            – E de onde surgiu essa história?
            – Oras bolas, abra a porta e veja se estou mentindo ou não!
            Depois de algo mais que um minuto, Gabriela girou a chave, muito lentamente. Havia um plano em sua mente... caso estivessem mentindo. Mas não era possível que fosse verdade, certo? Talvez a parede amarelada fosse um truque de luz. É, fora isso, um ângulo ruim, talvez uma lâmpada mal colocada... talvez houvessem derrubado o abajur, e achado que ficaria bom em qualquer mesa... e, se houvessem derrubado o abajur, seria por que haviam arrumado uma bagunça no apartamento, para roubar, e ah, se tivessem machucado sua mãe!, veriam só...
            A porta se abriu lentamente, e Gabriela enfim viu o rosto de Kurt. Não gostaria de admitir isso num ladrão, mas era um homem bem bonito. Os longos cabelos, num meio termo entre lisos e cacheados, caíam em fios louros cobrindo o que deveria ser uma testa muito grande. Com eles na frente, quase não se podiam ver os olhos azuis, tão claros que parecia que a cor havia sido sugada para fora deles. Ele se vestia de modo horrivelmente normal para um ladrão: uma camisa de alguma banda da moda por baixo de um sobretudo xadrez, calças jeans desbotadas e rasgadas no joelho... parecia um adolescente tão jovem quanto a própria Gabriela, mas as feições denunciavam que já passara um bocado dos vinte anos.
            Foi feito um pequeno silêncio, onde Gabriela não ousou expressar nem dizer nada – mas a cara de surpresa de Kurt fez questão de lembrá-la que ela vestia nada além de uma toalha molhada e muito mais curta do que seria agradável. Ela tentou não corar, nem demonstrar que sentia qualquer tipo de vergonha.
            Não foi fácil, pois, atrás de Kurt, ela percebeu que realmente havia mais pessoas olhando para ela com grande interesse – e não saberia dizer se era por qualquer outra coisa além de sua semi-nudez.
            – Bem – Kurt forçou as palavras, com o rosto Ito vermelho – Eu fico feliz que tenha decidido sair, eu sei que não foi um decisão fá...
            Ele nem teve tempo de completar; se tivesse previsto o movimento, ah, claro que a teria parado! Era um homem bem forte. Mas, sendo pego de surpresa, a primeira coisa que viu foi a mãozinha delicada de Gabriela acertando-lhe um soco tão forte que quase arrancou seus olhos das órbitas, e logo depois, ela havia agarrado seu pescoço: usava-o como escudo contra alguma ameaça invisível. Na pele de sua garganta, podia sentir a lâmina fria de uma faca.
            Os outros presentes gemeram, surpresos, e uma vozinha irritante não parava de indagar o que acontecera.
            – Mas o que...
            – Onde está minha mãe? – Gabriela sussurrou – Ahn?! O que vocês fizeram com ela?
            – Ah, merda, você ainda...
            – Não ousem se aproximar! – ela gritou, puxando Kurt pelos cabelos da nuca para deixar sua garganta bem exposta – Senão eu arranco a cabeça dela!
            Fisicamente impossível, uma ameaça boa mas fisicamente impossível
            – Mariana... – Kurt parecia engasgar-se com a própria saliva – Gabriela, nós não fizemos nada com sua...
            – Não minta para mim! Eu... eu te mato!
            – Então veja por si própria!
            Ela lembrou-se de como o corredor deveria parecer apenas uma peça que seus olhos lhe pregavam... então por que parecia tão real?
            A voz de Kurt parecia incitá-la a perceber isso.
            – Não... – disse ela.
            – Saiam da frente! – gritou, sem querer apertando ainda mais a lâmina contra o pescoço de Kurt... mas não o suficiente para abrir um corte – Me deixem passar!
            Um por um, ora olhando para baixo, ora engolindo em seco, ora segurando as próprias lágrimas com gemidos de desespero, aqueles rostos estranhos foram se afastando do corredor, abrindo caminho... revelando a visão de uma sala que não se parecia nem um pouco com a sala de seu apartamento.
            Não era um truque de luz. Era real.
            – Não... – ela gemeu novamente, baixinho, mas a voz engasgou-se no meio da caminho.
            Sem cuidado algum, ela desencostou a faca do pescoço de Kurt num puxão. Poderia muito bem tê-lo matado, aberto um corte na frágil garganta, que esmagaria sua traquéia, impediria o sangue de passar... mas por pouco, não o matou. Deixou-o cair, sem ar massageando do pescoço à nuca, enquanto caminhava a passos largos para a sala que deveria ser de seu apartamento...
            Os outros afastaram-se novamente, com medo do que aquela louca Gabriela/Mariana poderia fazer.
            Não era a sala.
            Novamente.
            Não havia como ser, se não havia sofá, nem mesa, nem abajur, nem a TV Toshiba de no máximo 14 polegadas. Era uma sala vazia – apenas piso, parede e teto. E as portas. Várias portas. Uma porta para cada uma daquelas pessoas, apostava, se a história de Kurt fosse verdade. E ela mesma havia saído de mais uma das portas.
            Ela então se deu o luxo de transparecer o que realmente estava sentindo, e, se pudesse corar mais, acabaria por virar um tomate vivo.
            – Fique calma – ela ouviu a voz de Kurt às suas costas; ele deveria ser algum tipo de líder ali – Fique calma, quietinha...
            Ela se virou, com os olhos molhados e orgulhosos clamando por desculpas... mesmo que não quisessem. Me desculpe por ter colocado uma faca em seu pescoço. Me desculpe, eu lhe ameacei de morte. Me desculpe, eu não devia ter tentado te matar.
            – Agora me dê essa faca, está tudo bem? – ele disse, e tomou a faca de suas mãos, sem Gabriela oferecer nenhuma resistência – Isso, isso...
            – Agora, você está mais calma?
            Gabriela assentiu.
            – Eu estava falando sério, viu?
            Assentiu novamente.
            – Eu disse que todos aqui somos amigos; essa é Marieta, aquele é Khaled, a Natalie e a Jéssica, Luciani, Danni, Tae e seu marido, Kuruno – disse ele, apontando, respectivamente, para a mulher de meia idade com longos cabelos negros, o homem de pele parda com olhos cerrados, uma jovem mãe de roupas fechadas e sua filha de no máximo sete anos, a outra mulher de meia idade que porém aparentava uns vinte anos a menos, o adolescente de percing e tatuagens com expressão vazia e o casal de orientais vestidos não com os tradicionais kimonos, como Gabriela sempre imaginava, mas com calça jeans e camiseta, como se não esperassem uma saideira de casa – Ninguém vai te machucar, ninguém aqui vai querer te roubar nada, Mariana...
            – Gabriela.
            – Perdão?
            – Meu nome é Gabriela. Não como um sobrenome, mas nome mesmo. Mariana não existe.
            – Certo... – Kurt não procurou cerrar os olhos, de modo que aquele momento não foi mais desconfortável do que o necessário – Ahn, vamos, você tem alguma... roupa, de onde você saiu?
            – Não – disse ela – Eu estava no banheiro, entrando no banho, e não achei que fosse precisar de roupa por que...
            Por que a agência funerária poderia achar roupas mais bonitas que as minhas, ela pensou sem dizer.
            – Certo – Kurt tratou de minimizar o silêncio – Acho que alguma das meninas que saiu de um quarto deva ter alguma roupa de seu tamanho...
            – Eu tenho – Tae se manifestou – Eu acho que ela tem minha altura, certo? Ela parece ter minha altura.
            Kurt assentiu e, num gesto de cabeça, fez sinal para que Gabriela a acompanhasse.
            Cinco minutos depois, Gabriela estava de volta à sala, com uma camiseta branca com alguma frase qualquer em inglês – era óbvio que a globalização atingia até mesmo ao Japão –, calça jeans e chinelos de borracha, enquanto seus novos companheiros tentavam arrombar a única porta branca que havia.
            – Não abre – Kurt explicou – Nós pensamos em esperar todos saírem, já que parecia que uma nova pessoa saía de cada porta... assim, quando estivéssemos todos juntos, poderíamos dar o fora daqui juntos.
            – E o que te faz pensar que ninguém sairá dessa porta, também?
            – Bem, é a última porta, já que você foi a última a sair... e, seja o que for que está acontecendo, ou quem nos botou aqui, qual seria o propósito de nos trancar num lugar sem saída? E, se não há saída, como nos colocaram aqui, para começar?
            Houve um estrondo, e Gabriela quase pulou em seu lugar: Khaled havia tentado esmagar a maçaneta com um martelo, e agora o martelo estava quebrado no meio, enquanto a maçaneta continuava intacta.
            – Como diabos... – ele reclamou, com sua voz grossa e falha.
            – Precisamos de uma chave – Natalie concluiu, nanando a filha que, em seu colo, chupava o polegar – Essa... bobagem, é indestrutível, e se não quer abrir por mal, vamos ter de tentar do jeito convencional... e se não conseguirmos, vamos ficar presos aqui para sempre...
            Dizendo isso, ela abaixou a cabeça, como que numa prece.
            – Então? – Kurt indagou – Alguém tem uma chave?
            – As de casa – Kurono disse, e, do bolso do jeans, arrancou um molho com doze ou treze chaves.
            – Vocês não costumam viver em tendas de palha? – Khaled debochou, com um risinho escapando por entre os dentes.
            – Vocês não costumam esconder bombas debaixo da barba? – Kurono retrucou, fazendo Khaled fechar a cara e se calar por um bom tempo.
            – Eu tenho as da loja... – Marieta disse, puxando da bolsa duas chavezinhas mínimas – Eu estava saindo de lá, sabe, quando parei no escritório para reorganizar as contas, e então quando abri a porta...
            Ela se calou, e entregou o pequeno molho direto nas mãos de Kurt.
            – Alguém mais? Muito bem... – Testou então chave por chave – Merda! Não, nenhuma serve...
            – Estamos encrencados? – Jéssica perguntou, logo depois voltando a chupar o polegar.
            – Não, querida, oh, não, só estamos passando por uma dificuldade... – Natalie tentou tranquiliza-la, mas ela mesma parecia mais que nervosa, com um olhar de desespero.
            Gabriela olhou para o garoto punk, com seus percings reluzindo – Danni, era seu nome? – e de repente, uma ideia correu em sua cabeça. Antes que pudesse pensar duas vezes já estava falando:
            – Eu tenho uma chave.
            Os olhares todos caíram sobre ela – a expressão de Natalie era um misto do desespero já conhecido e de surpresa, enquanto sua filha tentava dormir em seu colo, claramente não entendendo o que acontecia a seu redor. Nem mesmo os adultos entendiam.
            – Você tem? – Kurt tomou a voz para perguntar.
            – Sim – respondeu – No banheiro... de onde eu saí, sabe. Eu estranhei, por que minha mãe nunca deixaria nada estritamente além do necessário num banheiro... ela tem aquela coisa, aquela fobia com germes, sabe... e não suporta banheiros. Ela guarda as chaves numa solução de cloro, perto da porta, para matar todas as impurezas que se acumulam no metal...
            – E essa chave ainda está no banheiro?
            – Está sim.
            – Então o que estamos esperando? Vamos pegá-la.
            Deixaram todos para trás e seguiram pelo corredor, até a última porta, que seria o quarto de Gabriela.
            – É, sabe... – disse ela – Eu não tenho certeza se ficaria confortável, com você... sabe, entrando no banheiro comigo.
            – Nós estamos juntos nessa – Kurt retrucou, impaciente e ao mesmo tempo sabendo que um discurso era necessário – Eu já disse que pode confiar em mim.
            – É, eu sei, mas... esse banheiro foi tudo que me restou. É meu, e eu sei que é bobagem, mas eu gostaria que fosse meu.
            – Então talvez devesse ter pensado se Tae gostaria que o quarto e as roupas fossem dela também.
            – Eu... me perdoe, mas eu apenas... se puder ficar simplesmente na porta, já é o suficiente.
            Ele respondeu com um muxoxo, e Gabriela soube que era seu sinal.
            – Pode olhar, mas não pode tocar, eh? – Kurt disse, azedo e sarcástico.
            – Olhe – Gabriela retrucou, cortando o monólogo pela raiz –, você pode muito bem ter chegado antes de mim, antes de todo mundo, mas não acho que tenha entendido a gravidade da situação.
            – Ah, é?
            – É, sim. Para começar, eu não acho que tenha percebido que estamos falando outra língua.
            Kurt não escondeu que fora pego de surpresa.
            – Outra língua? Idioma?
            – É óbvio – respondeu ela – Você não pode ouvir? Não é bem inglês, nem português que estamos falando; eu saberia se fosse, é só ouvir a si próprio! E, mesmo que você não consiga perceber, eu acho que já notou que você é americano, ou britânico, ou sei lá. E, se você olhar bem, pode ver que eu sou brasileira. E, naquela sala, temos uma espanhola, dois japoneses ou chineses, um afegão ou coisa assim, e talvez outras nacionalidades que eu nem posso imaginar. Você pode perceber isso ou por nossa etnia, ou por nossos nomes, que são típicos de cada país. Você não acha estranho que, mesmo vindo de países, continentes diferentes, estejamos nos entendendo como que em nossa língua nativa? Como você explica isso?
            Kurt permaneceu em silêncio, procurando uma resposta que sabia que jamais acharia.
            – E aqui está sua chave – Gabriela finalizou, depositando-a nas mãos do homem.
            Na sala, todos observavam apreensivos a volta dos dois. Kurt demonstrou-se um ator melhor do que o esperado, sem demonstrar em momento algum à conclusão que Gabriela chegara. Ator talvez não fosse a palavra certa; político seria mais adequado.
            – Você acha que vai abrir? – Tae perguntou, passando a mão nos cabelos oleosos presos num rabo de cavalo, num gesto de preocupação.
            – Não tem nenhum motivo para funcionar – ele admitiu, observando a minúscula chave que segurava na ponta dos dedos – Mas, considerando a situação, não há nenhum motivo para não funcionar...
            Assim que enfiou a chave, ela girou e um grande estrondo destrancou a porta, como acontecia nas casas antigas de mobília pesada. Uma pontada de alivio invadiu cada um dos presentes, mas foi logo substituída pelo pensamento em uníssono: por que a porta abriria com uma chave qualquer? E, obviamente não se tratando de uma chave qualquer, por que a chave certa estaria num quarto qualquer?
            – Está escuro – disse Kurt – Muito... muito escuro.
            Ele abriu a porta, comprovando o que dizia. A luz do apartamento mal adentrava na teia da escuridão.
            – Alguém trouxe uma lanterna? – Gabriela perguntou, sendo prática.
            – No meu quarto – disse Natalie – Havia duas... eu deixava embaixo da cama por que sempre faltava luz onde eu moro... morava...
            – Vá buscar – ordenou Kurt – Não vamos conseguir passar por aqui... isso, são grandes, tem pilhas?, ótimo...
            A luz fluorescente de ambas as lanternas invadiu o corredor, conseguindo arrancar um clarão de visão. A parede era mais azulada que a do quarto, e não havia janelas algumas. Poderia se passar muito bem como o prédio de sua vizinha.
            Num silencioso aceno, Kurt e Kuruno decidiram que eles deveriam carregar as lanternas, um à frente e outro à retaguarda, e ninguém se opôs.
            – Vamos ver... Estamos no apartamento... 432, o que quer dizer que provavelmente estamos no quarto andar, então basta andarmos para aquela direção e...
            Eles obedeceram, caminhando para a direita e observando os números diminuírem aos poucos... 418, 416, 414... no fim haveria uma escada, então sairiam, e pediriam ajuda, e entenderiam o que estava acontecendo ali...
            402, 400, 398, 396...
            – Mas que droga... – Kurt se espantou, e percebeu que não acabava. 382, 380, 378...
            Apontaram ambos a luz para o fim do corredor, mas ela se perdia em algum momento em que não conseguia mais decifrar as trevas da noite.
            – Tem... tem que ser um prédio muito grande – Kurono disse, e foi então que ouviram um novo passo às suas costas... uma 11ª pessoa.
            Gabriela gemeu baixinho, assemelhando-se a um grito, e levantou as mãos ao rosto como um boxeador esperando mais um golpe do adversário.
            – Calma – Kurt disse – Alguém deve ter pisado em falso... Quem pisou em falso?...
            As luzes direcionaram-se para o outro lado, e mesmo se elas não existissem, todos saberiam que ninguém pisara em falso.
            Uma senhora, uma doce senhorinha estava de costas. Podia-se dizer sua idade pela curvatura da coluna e pelos fios de cabelo brancos e ralos que não desciam muito além de seu pescoço. Vestia um vestido renascentista, ou algo tão antigo quanto. Azul, parecia ser feito de jeans. Uma fantasia.
            – Senh...
            – Cale a boca – sussurrou Gabriela – Talvez ela não tenha nos percebid...
            A senhorinha deu outro passo pesado, que ribombou por todo corredor.
            Todos prenderam a respiração enquanto ela se virava, mais... e mais... revelando seu rosto enrugado, adoecido pela idade e maltratado pelo tempo, e seus olhos cinzentos, infectados com catarata. Próximo à íris, porém, era possível ver um castanho muito profundo.
            Kurt tentou outra vez.
            – Senhor...
            Ela gritou – gutural, como um animal –, revelando os dentes podres e vermelhos – havia carne viva neles. Então, como se fosse 50 anos mais jovem, ela correu, e pulou em cima dos 10 desconhecidos, com as unhas quebradas e apodrecidas ameaçando rasgar-lhes a carne...
            Tudo em pouco mais de 3 segundos.
            Então, as luzes apagaram, e tudo o que restou foram os gritos dos 10. Tamanho era o barulho que não poderiam perceber que a velha sumira.
            – Calem a boca! – Kurt, Kuruno e talvez Khaled gritavam, o terceiro com mais força do que todos. Ainda assim, precisaram repetir umas 5 vezes antes que houvesse silêncio.
            – O que houve... – Gabriela sussurrava – O que houve com as lanternas?
            – As pilhas... devem ter acabado...
            Mas não haviam, tanto que ligaram-se de novo. Eles não estavam mais no mesmo prédio.
            As paredes azuladas talvez estivessem em algum lugar debaixo do sangue e das lascas de ossos que cobriam a parede. Gabriela não sabia o que eram aqueles coágulos vermelhos e molengas, mas de algum modo lhe lembrou um pedaço de coração. Era carne, talvez humana. Um coração, um rim, um pâncreas... poderia ser qualquer coisa. Pela quantidade de vermelho, talvez mais de dez corpos humanos inteiros estivessem ali.
            O piso, do qual ninguém tomara ciência da cor original, era um rastro vermelho com cheiro de ferro. Em algum ponto, próximo a um dos tantos apartamentos dos quais já haviam passado, havia um pequeno monte de ratos mortos. O pelo dos animaizinhos estava coberto de vermelho, mas ninguém saberia dizer se fora do corredor ou deles próprios.
            – O... o que... – Kurt apontou a lanterna para a porta a seu lado, e, enquanto ainda era possível ver a madeira, uma grande mancha de sangue tingia grande parte, bem como se acumulava numa poça a seus pés. Seu formato lembrava o de uma criança quando arremessava tinta na parede, esperando que isso a pintasse por completo, ou de um copo de água que fora desastradamente derrubado.
            – Aaah, que cheiro – reclamava Natalie, e sua filha tossia como se estivesse respirando fumaça de cigarro. Todos tinham sua própria reclamação.
            – Como... como isso...
            Kurt avançou na frente de todos, voltando pelo caminho que já haviam percorrido, mas teve que voltar diante do grito de Kuruno:
            – Ei! Volte aqui!
            – O que foi?
            Na direção por onde haviam prosseguido procurando uma escadaria, havia uma parede que não estava ali antes.
            Kurt caminhou, em passos lentos e pequenos, porém nem um pouco calmos, de volta para o grupo, sem tirar os olhos da parede nova. Seus pés, em contato com o sangue ainda fresco no chão, produziam um barulho semelhante ao de sopa fervendo.
            Ele tocou a parede.
            – Como isso...
            – Se afaste! – Gabriela puxou-o de volta.
            – Mas que diabos...
            – Não toque nisso! Pode... pode ser uma armadilha.
            – Minha querida, nós estamos numa armadilha.
            Ele desvencilhou-se, mas não voltou a tatear. Suas narinas inflavam-se num sinal de desgosto, tanto do que acontecia quanto do fedor dos fluídos humanos.
            – O que é isso? – ele apontou para algo que parecia um desenho no papel de parede. Curiosamente, era o único não tão manchado pela sangue, à exceção de algumas poucas gotas e respingos; ainda assim, era tingida num padrão vermelho e dourado, como numa antiga realeza. Gabriela imaginou se o sangue não respingara por que, bem, uma parede acabara de aterrissar num corredor.
            – Um... quadro?
            A moldura era quase invisível, misturando-se ao padrão da parede, mas estava ali: o quadro tornava-se cada vez mais visível... tanto que chegaram a se perguntar por que não fora tão visível, em primeiro lugar, já que tratava-se de uma pintura meio azulada; em cores frias, com diria a professora de Artes de Gabriela, contrastando com as cores quentes da parede.
            O quadro era uma mulher, com um sorriso quase imperceptível, olhando sem expressão nenhuma para eles. Uma mulher normal, sem nada demais. Um retrato falado. Uma única mancha de sangue, uma única gota, atingira o que seria os ombros de seu vestido.
            Parece a Monalisa.
            Estampido.
            Luzes para trás – o quadro e a parede não importavam tanto.
            Quem vinha lá?
            Não parecia ter mais do que 15 anos, a garota. Os cabelos negros estavam molhados, e cobriam-lhe a face. Sua camisola também estava meio molhada. Não era curta o suficiente para mostrar o que não devia, nem longa o suficiente para esconder as pernas; as pernas magras, esqueléticas, e brancas...
            Seriam brancas se não fossem tão vermelhas.
            Ela levantava-se, muito lentamente, como uma bêbada que acabara de cair. Ninguém ousou dizer uma palavra. Ninguém ousou pensar em ajudar a garota.
            Nos filmes de terror, quem acredita em humanidade morre cedo.
            Mesmo parecendo tão debilitada, quando chegou a hora de atacar, ela correu tanto quanto a senhora. Sua expressão foi visível por um segundo: os olhos haviam sido completamente tomados pela catarata, mesmo em sua idade, e os contornos da boca estavam
            manchados em carne viva podres necrosando.
            Kuruno e Kurt levantaram as lanternas, suas únicas armas, acima de suas cabeças, e Khaled ergueu um punho...
            Tae gritava e todos os outros mantinham-se paralisados quando a garota estava muito próxima e as luzes apagaram novamente.
            Gritos.
            Gemidos.
            Medo do escuro.
            Começaram a mudar estavam um pouco ansiosos estava escuro estavam sozinhos medo só medo apenas medo medo do escuro
            Havia alguém ali.
            A garota gemia incessantemente quando a luz voltou. Ela havia sumido.
            Kurt estava de quatro no chão, Kuruno segurava a lanterna como um bastão de beisebol e Khaled levantava-se apoiado na parede.
            – Estão todos bem?
            Ninguém respondeu, quando diante do corredor iluminado, a garota surgiu da escuridão correndo.
            Luzes desligadas.
            Gritos.
            Dedos corriam por suas peles sentiam a nuca arrepiar luz oh onde está a luz onde você foi luz ONDE ESTÁ A LUZ ESTÁ ESCURO está escuro está escuro está escuro escuro escuro escuro
            Havia alguma coisa observando-os.
            Os gritos guturais da menina foram interrompidos, por um golpe talvez. Khaled gritou, num urro de dor, e a voz de Gabriela uniu-se à dele, com medo. Não enxergavam nada.
            Algo tocou Gabriela. Estava escuro.
            Eu tenho um medo constante de que alguém está sempre por perto.
            Alguém está perto.
            PERTO.
            As unhas rasgaram sua carne, e ela sentiu o bafo podre da criatura.
            Um soco afastou-a, e, quando as luzes piscaram momentaneamente, a garota de camisola estava a ponto de mordê-la... e sua mandíbula pendia solta, como se não houvessem ossos. Estava quebrada, e tudo o que a unia ao resto do rosto era a pele, que parecia se rasgar e esguinchava mais e mais sangue...
            Gabriela não se lembrava de ter socado tão forte.
            Uma das lanternas acertou a cabeça da menina no exato momento em que a dentição superior se aproximava da pele, e o que restava da mandíbula desprendeu-se e acertou o chão com um baque.
            O grito veio acompanhado de um rio de sangue, que parecia vomitado do fundo da garganta.
            As luzes apagaram mais uma vez.
            As paredes vibravam – não somente com os gritos, mas por que alguém fora arremessado contra elas. Duas vezes. Três vezes. Passos, passos e mais passos. Gabriela esperneava, como se alguém agarrasse ela...
            Luzes acesas.
            Gabriela parou apenas poucos segundos depois, mas ninguém ousava se aproximar dela.
            – Ela te mordeu? – Kurt perguntou. Havia sangue trespassado em seu rosto, como se tivessem derramado de dentro de um copo para cima dele; não era dele.
            Gabriela fez que não com a cabeça, quando estava de pé. Suas pernas tremiam, e havia uma nova poça de sangue no chão. A mandíbula sumira.
            Da poça de sangue, uma mão saiu, branca, rápida e manchada do sangue do qual emergira, e agarrou-se à perna de Gabriela. O rosto também emergiu, sorrindo do modo que se podia sem a mandíbula.
            Kurt tentou ser rápido, mas a garota arrancou a outra mão de dentro do sangue e atirou a mandíbula contra ele, acertando-o em sua cabeça e abrindo um corte.
            Ela se erguia da poça quando as luzes apagaram.
            Os gritos de Gabriela se sobrepunham aos de todos os outros. Ela chutava, e sentia o corpo da garota sendo atingido – mas não adiantava. Ela escalava por suas pernas, acariciando suas coxas... apertou suas nádegas, e lambeu sua barriga, como se fosse uma amante.
            O medo constante de que alguém estava sempre ali.
            Gabriela socou e se sacudiu, mas as mãos mortas e sangrentas da garota entravam no sutiã que Tae lhe emprestara.
            Quantas vezes estivera sozinha à noite e pensou ouvir passos atrás e quando virou atrás não havia ninguém ali???!!! mas havia, havia alguém ali, o medo constante de que alguém estava sempre ali.
            Sua mente estava lhe pregando truques, mas aquelas mãos frias estavam definitivamente apalpando sua bunda.
            A língua da criatura abriu espaço na boca de Gabriela, e ela sentiu o gosto do sangue, da carne, das vísceras, dos músculos e tendões que pendiam do lugar onde antes estava a mandíbula.
            As luzes acenderam, e Gabriela caiu.
            O corredor voltara a ter as paredes azuis e sem sangue de sempre, e a garota sumira. Até mesmo a mancha de sangue no rosto de Kurt sumira.
            O gosto podre e a queimação na garganta de Gabriela persistiam.
            Ela não chorava, mas cuspia. O que saía era a saliva branquinha e espumenta de sempre, e não o sangue que fora forçado contra sua boca.
            Mas o gosto estava ali!!!
            Ninguém sabia o que dizer. Estava escuro, então ninguém vira os últimos momentos. Ninguém sabia o que ela fizera a Gabriela. Apenas sabiam que ela havia tocado em Gabriela.
            – Você está bem? – Natalie perguntou, deixando Jéssica pela primeira vez nos braços de outra pessoa. A garotinha chorava alto enquanto Tae tentava acalmá-la.
            Gabriela assentiu.
            – Ela te machucou querida?
            Não, fez com a cabeça, mentindo.
            – Te mordeu? – o garoto punk falava pela primeira vez.
            Tae lançou um olhar acusador para aquele garoto de piercings, mas ninguém podia negar que aquela pergunta lhes passara pela cabeça.
            Gabriela negou. Duas vezes com a cabeça, e então disse:
            – Não.
            – O que estamos esperando então? – Kurt disse, e levantou-se, sacudindo o pó das roupas...
            ... quando poderia estar sacudindo sangue.
            – Temos que continuar – disse ele – Não podemos ficar aqui a noite toda.
            E começou a caminhar.
            – Com licença – a mulher chamada Marieta, que também consolava mais silenciosamente a Gabriela, levantou-se e disse – Você não percebe o que acabou de acontecer?
            – Percebo. Até demais. E é por isso que não quero continuar aqui.
            Às costas de Marieta, ele via o número 432.
            – As escadas ficam para lá – disse ele, apontando para a direção que haviam caminhado da primeira vez.
            – Nós fomos para lá e olha o que aconteceu!
            – Eu tenho certeza.
            A firmeza em sua voz fez todos obedecerem, e, depois de alguns momentos, descobriram que ele tinha razão.

3

                A escada acabou levando diretamente ao que seria a recepção. As luzes das duas lanternas revelaram poltronas, sofás, televisões de tela plana, algumas mesas e um balcão, que provavelmente também serviria de bar. Era um grande salão, mas, como no corredor, todas as luzes estavam apagadas.
            - Talvez haja uma caixa de luz para que possamos resolver isso... - Khaled sugeriu.
            - Esqueça - disse Kurt - Não vamos perder tempo com isso quando podemos dar o fora daqui o mais rápido possível.
            Com o queixo, ele apontou para a porta dupla de madeira, bem no centro da parede oposta. Pelas janelas da porta, podia-se ver a luz do luar e um grande pátio recebendo-a. Não havia outras janelas, logo, não saberiam dizer muito mais.
            Havia um pé de cabra encostado do outro lado do balcão, muito próximo de onde ficavam as bebidas importadas.
            - Esqueça - Kuruno disse, sem falsete nem deboche na voz para indicar que estava imitando Kurt - Se a porta lá de cima não abriu com um martelo, não vai abrir com isso.
            - Precisamos de uma chave - Gabriela pensou por todos.
            - E o que estamos esperando? - Marieta pôs-se à frente - Vamos, revirem este lugar! Deus é bom e vai nos dar uma chance de sairmos...
            - Parem - disse Kurt novamente - Parem todos.
            Mesmo que sua voz estivesse distante e pensativa em vez de autoritária, todos obedeceram (menos Danii, que não havia sequer se movido para muito além de seguir os outros). Kurt parecia ser daquele tipo de gente que nasceu para liderar. Seus olhos azuis estavam muito vazios quando a lanterna iluminou levemente seu rosto. Ele nem piscou ao encarar a luz.
            Pouco mais de dois segundos se passaram antes que ele desse a volta pelo sofá e puxasse de uma vez só as duas gavetas de uma mesa de cabeceira à sua direita - as duas gavetas que deveriam estar trancadas. Mesmo não tendo empregado tanta força, ambos os trincos caíram e saíram rolando pelo piso de granito da sala, com a lanterna acompanhando seu trajeto até que parasse.
            Da primeira gaveta, Kurt tirou uma chave no mesmo formato e tamanho que aquela que haviam achado no banheiro de Gabriela.
            Ele olhou sem expressão nenhuma para os outros, e todos devolveram o olhar.
            - Como você sabia que a chave estava aí?
            - Meu pai tinha um hotel - respondeu ele, baixando o olhar para a chave em sua mão - Não era nem um pouco parecido com este, obvio... se é que isto é um hotel... e ele nunca se lembrava de onde guardava seus papéis, suas coisas... um dia, logo no fim da temporada, ele esqueceu a chave da porta da frente do hotel dentro do hotel, e quando percebeu, teve de chamar alguém para arrombar, trocar a fechadura... alguns meses depois, uma camareira nova estava fazendo uma faxina geral no hall de entrada e encontrou a chave dentro de uma das gavetas da mesa de cabeceira que ficava bem perto do sofá. Mesas de cabeceira são para quartos, são para quartos.
            A voz dele distorceu-se numa imitação do que poderia ser seu pai ou sua mãe, e ninguém tentou perguntar.
            - Foi isso o que você pensou? - Danii voltou a abrir a boca, e sua voz fora tão incomum naqueles poucos minutos que se passaram que talvez ele fosse o maior estranho do grupo - Ou você sabia que a chave estava ali?
            Todos encararam Danii - ora com repulsa, ora com espanto -, mas Kurt apenas levantou a sobrancelha.
            - O que está sugerindo?
            Não houve resposta, logo Kurt continuou:
            - Eu pensei que poderia estar numa das gavetas, por que eu pensei no quarto, aquele do qual acabamos de sair. Nós achamos a chave, a primeira chave, num lugar onde, ela nunca poderia estar... segundo Gabriela e a vida dela. Então, já que estamos levando em consideração o quesito “segundo nossas vidas”, por que eu não poderia pensar em algo que aconteceu na minha?
            - E ainda assim, essa ideia passou do nada em sua cabeça?
            - Você está fazendo perguntas demais para quem não fez nada até agora.
            Com isso, Danii se calou e amarrou a cara.
            Kurt fechou a primeira gaveta, deixando apenas a segunda aberta, e então fez uma careta de aprovação ao tirar uma pistola de dentro dela.
            - Que surpresa agradável - disse ele, então tirou outra pistola e arremessou uma delas no ar, fazendo-a cair exatamente sobre a mão de Kuruno. Dividiu a munição que também encontrara lá dentro e carregou ambas as armas, guardando uma em sua cintura.
            - Aqui atrás tem mais - disse Khaled, detrás do balcão, e então tirou, na ordem, uma escopeta, duas espingardas, uma AR-10 estilo Knight SR-25, uma Ithaca M37, uma Springfield M1A1, uma Bodyguard 380 automática da Smith & Wesson, uma Luger P08, uma SIG P226, uma pistola FN Browing M1910, um rifle Howa 89 com coronha rebatível, uma H&K MP5F, um CZE Vz83, todo o equipamento de montagem de uma Breda M37 e suas respectivas munições.
            - Minha... minha... - Marieta nem teve forças para expressar sua surpresa.
            - Todas essas armas - Kuruno exclamou - Tem algumas que eu nunca vi na vida, e outras que nem produzem mais! Essa Breda era da Segunda Guerra Mundial, para derrubar aviões... tem que ser montada no chão, num ponto estratégico e protegido...
            - Isso é armamento para uma guerra! - Gabriela disse, pegando a Bodyguard.
            - Sim - Kurt concordou - É mesmo...
            - Espere, ainda tem mais! - Khaled disse, ainda atrás do balcão, e foi tirando machadinhas, facões, e até mesmo uma katana.
            - Que horror - disse Natalie, e tapou os olhos de sua filha antes mesmo que ela pudesse exclamar “Isso é pra matar gente, mamãe?” - Não olhe, querida...
            - Você não está pensando em carregar isso tudo, está? - Tae indagou Kuruno, que admirava-se com uma das escopetas, aparentemente modificada.
            - Acho que todos nós estamos pensando - disse Gabriela.
            - Lembrem-se daquela... daquela coisa lá de cima - Kurt argumentou - E se houver mais de onde aquela saiu?
            O silêncio foi suficiente para saber que todos haviam concordado.
            - Só mantenha isso longe da minha filha - disse Natalie, se afastando enquanto Khaled tomava nas mãos um dos facões, como se ele a estivesse ameaçando. Um pouco mais distante, Marieta fazia o sinal da cruz.
            - Mas como vamos carregar tudo isso? - Gabriela pôs-se a frente, sendo a única das mulheres (mesmo sendo uma garota) a não ter frescura com as armas; lembrou-se do que sua avó sempre falava sobre suas atitudes de menino - Quer dizer, mesmo dez de nós... nove, considerando que temos uma criança, não seriam suficientes para carregar tudo isso.
            Poucos minutos mais tarde, o estofado de couro dos sofás e as toalhas de estampa quadriculada que cobriam as mesas haviam sido transformada numa mochila em forma de cilindro, muito parecida com aquelas que carregavam tacos de golfe, e todas a artilharia pesada havia sido guardada dentro dela - todas as armas estavam carregadas com pelo menos um pente completo, no caso de uma emergência, onde não haveria tempo para carregar. Os pentes restantes estavam jogados no fundo da mochila, e por pouco não tiveram que montar outra mochila para carregar somente a Breda. Já as quatro pistolas - seis, se forem consideradas aquelas achadas na mesa de cabeceira - passariam a ficar na cintura de Khaled, Kuruno, Kurt, Gabriela e Natalie, que concordou que poderia precisar se proteger, apesar de desejar que não. A sexta pistola, como era modificada, ficaria junto com a artilharia pesada. Os facões foram distribuídos para os restantes, enquanto as machadinhas e a katana foram guardados, também.
            A pergunta que passou pela cabeça de Kurt pareceu reverberar na mente de Gabriela: quem carregaria a mochila, cheia de armas de guerra? Poderiam pedir para Danii, claro, mas por algum motivo, não confiavam nele. Talvez fosse o jeito punk forçado, ou simplesmente pela vontade de arranjar confusão que brilhava em seus olhos.
            - Luciani - Kurt disse, e a mulher de meia idade, porém de aparência juvenil, saiu do fundo do grupo, calada e tímida como estivera até agora - Você poderia carregar a artilharia?
            - Claro - ela concordou, depois de um momento pensando, com a expressão tão decifrável quanto um livro aberto - Nem pesa tanto.
            - Ótimo... então vamos sair.
            Por algum motivo, assim que a porta foi aberta - a chave funcionara novamente -, ele sacou a pistola, como que por precaução. Parecia um policial daquelas séries de TV.
            O pátio estava vazio, senão, obviamente, pelo luar. Haviam apenas casas e mais casas, e a fachada do prédio onde estavam presos agora era visível.
            - Hotel Overlook - leu Kurt, dando uma risadinha sarcástica - Estão brincando com nossa cara.
            Gabriela não entendeu, mas Kuruno concordou. Então, para não parecer ignorante, decidiu deixar para lá.
            Aquele era apenas o pátio frontal; havia muito mais se seguissem para a esquerda. O teto de todas as casas cobria pouco mais de um metro da rua, também, proporcionando ao lugar a aparência de uma galeria ou de um shopping ao céu aberto.
            Kurt foi na frente, e todos seguiram; mas quando Kurt parou, e levantou a pistola para sua frente, todos pararam também, e recuaram um pouco.
            Gabriela foi a única que seguiu o suficiente para ver.
            O outro pátio era muito maior que o primeiro. A luz do luar inundava quase que sua totalidade. Um grande muro envolvia quase todo o lugar, por trás de mais casas, à exceção de um grande vão no formato de porta, que provavelmente daria caminho para outro lugar.
            E no centro do pátio, caminhava um homem.
            Estava distante demais para mesmo a visão perfeita de Gabriela discernir os detalhes. Apenas podia notar em suas roupas esfarrapadas, seu caminhar bêbado... e em algo que parecia ser uma grande mancha vermelha onde seria sua boca.
            Gabriela decidiu que também sacaria a arma.
            - O que está fazendo? - Kurt sussurrou quando Gabriela decidi caminhar lentamente em direção ao homem, ainda que com a arma empunhada.
            - Senhor? - ela gritou, e o homem parou por um segundo. Um segundo onde ninguém poderia saber o que ele estava pensando, ou no que faria em seguida.
            Terminado esse segundo, o barulho das hélices de um helicóptero tornou-se primeiro audível, depois alto e então absurdamente ensurdecedor.
            - A polícia? - Gabriela tentou gritar acima do som das hélices, esperando que Kurt a ouvisse. Ele deu de ombros, num gesto de “sei lá”, enquanto ambos protegiam os olhos da poeira.
            O helicóptero apareceu acima de suas cabeças, numa altitude “de vigília” - não mais que aproximadamente trinta metros acima do chão, e muito abaixo do nível das nuvens. Ele avançou na direção do horizonte - bem para onde o homem estava -, mantendo sua altura, e...
            A próxima coisa que ouviram fora um estalar alto, vindo do helicóptero - tão alto que se sobrepôs ao barulho das hélices. Ao mesmo tempo, um clarão veio do que seria a janela do helicóptero, e logo depois, a cor vermelha tingiu o piso de concreto, saindo da nuca e do topo da cabeça do homem de roupas esfarrapadas. Ele caiu, morto, acabando de levar um tiro na cabeça.

4

            Gabriela gritou de surpresa, e tapou as mãos com a boca. Kurt surgiu, agarrando seus ombros com uma única mão.
            - Pra debaixo dos telhados! - gritava ele, o cabelo chicoteando-lhe o rosto pela enorme ventania que o helicóptero causava, mesmo à distância.
            Gabriela obedeceu, e os dois correram desengonçados de volta ao grupo, que olhava aterrorizado. Kurt fez um sinal com a mão que segurava a arma, para que eles corressem também para debaixo dos telhados. Então a gritaria começou:
            - Você matou ele!
            - Abaixa essa arma!
            - Pelo amor de Deus, não atire! Não atire!
            - Foi o helicóptero! - gritou Kurt - Foi o helicóptero! Corram pra debaixo dos telhados, lá estamos...
            Ele precisou respirar correndo, mas todos pareciam ter entendido a mensagem. Gabriela imaginou como fora grande a sorte que eles tiveram de que ninguém tivesse apontado as pistolas ou mesmo os rifles contra eles; poderiam muito bem terem matado ambos ela e Kurt, se realmente achassem que eles eram assassinos.
            - O que houve? - Luciani choramingava, achando que não havia mais espaço para a timidez.
            - Esse helicóptero - disse Kurt, ofegando - Surgiu do nada, e nós pensamos que era a polícia, o exército, alguma dessas porras... e a próxima coisa que eu vejo, eles estouraram a cabeça daquele cara!... Gabriela, não guarde sua arma, podemos precisar dela... Todo mundo! Fique armado!... Kuruno, tem como montarmos a Breda agora?
            - Eu... acho que sim... mas não faço a mínima ideia de como, eu nunca usei uma dessas... para falar a verdade, nunca usei nenhuma arma...
            - Pois bem, pegue um rifle, fique preparado, e se aquele helicóptero voltar, puxe o gatilho!
            Passaram bons minutos apenas ofegando, em silêncio. Natalie nanava Jéssica, por mais que a garota não parecia tão desesperada quanto deveria estar.
            - Acho... acho que ele já foi...
            - Mas ele pode voltar!
            Mesmo assim, não demorou muito para que Kurt voltasse lá para observar. O céu estava limpo e silencioso, e em nenhuma direção havia sinal do helicóptero.
            Ele fez sinal para que todos o acompanhassem, e seguiu até o corpo.
            O homem estava num estado depreciável: era possível ver ferimentos infligidos antes de sua morte, como um grande corte em sua perna e algo que parecia um buraco em sua barriga. O sangue ali estava seco há tempos, e escurecera. Parte de sua cabeça, no entanto, explodira: não havia mais testa, e a única indicação de que seu cabelo um dia fora castanho eram os poucos fios que restavam na nuca; e estes mesmo estavam ensopados de sangue. No vão que restava da cabeça, parte do cérebro também explodira, restando apenas uma massa molenga e avermelhada que mais lembrava um intestino. Alguns dentes haviam saído do lugar, talvez pelo impacto da bala. Os ossos do crânio eram bastante visíveis, formando algo como uma casca de ovo vermelha ao redor da pele dilacerada; algumas lascas de ossos haviam se espalhado até a dez metros de distância. Ambos os globos oculares continuavam intactos - apenas manchados de sangue; ambos demonstravam sinais de catarata, bem como os da velha e da menina do corredor. O olho esquerdo estava muito levemente preso ao resto do resto.
            Gabriela foi, novamente, a única das mulheres a não fazer cara de nojo. Natalie, que era a última da fila, deu uma espiada acima da cabeça de todos e pôs a filha no chão, enjoada, caminhando com ela para longe do corpo.
            - Por que mataram ele? - Kuruno se perguntou - O que foi que ele fez?
            Kurt e Gabriela se entreolharam.
            - Pode ser um zumbi - disse ela, e quase todos a encararam com escárnio, espanto e falta de fé - Quer dizer, olha o estado no qual ele estava vivo! Além disso, olhe nos olhos dele, olhe a pele dele... e se lembre da garota do corredor! Ela não tinha mandíbula, e estava viva. Eu acho que estava...
            Ela se sentiu estúpida, pois os olhares persistiam. Sempre se irritara com os mocinhos de filmes de terror que não chegavam logo à conclusão de que monstros estavam atrás deles. Agora os entendia: enquanto um não quer acreditar, aquele que acredita é louco.
            - É uma teoria - Kurt disse, muito cuidadoso; apesar de totalmente adepto à ideia, tinha de bajular um pouco a mente dos companheiros para que eles aceitassem, também - Mas isso não importa agora. Só temos mais uma preocupação, que é olhar o céu até sairmos daqui... não toque no sangue! Se for um... morto-vivo, é melhor que tenhamos cuidado...
            Com o rifle que estava segurando, apenas pelo caso, Khaled cutucou o corpo com todo o cuidado. O olho esquerdo desprendeu-se do resto do rosto e caiu boiando na poça de sangue; sua única ligação ao corpo eram o nervo óptico e a artéria da retina.
            Então, um grito tomou a noite. Não vinha de nenhum lugar próximo ao grupo... mas na direção de muito além do vão no formato de porta.
            Mais tarde, Gabriela não saberia explicar, mas ela foi a única a sentir algo diferente com aquele grito. E correu naquela direção.
            - Gabriela! - Kurt gritou, mas ela já estava longe. Então, um por um, todos foram atrás dela.
            Luciani, algo como a oitava da fila, caiu de peito, sem se machucar. Olhou sem querer para trás, e soltou um gritinho.
            - O que foi? - Khaled perguntou, virando-se também.
            - O... o corpo... - ela gaguejava, apontando para onde o morto-vivo fora derrubado - O corpo do homem sumiu!

5

            Gabriela correu. Não prestava atenção nas casas, nem nos prédios ou nas ruas em que passava. Apenas precisava chegar à fonte daquele grito incessante e atormentado...
            Então, o grito acabou, e ela se viu novamente diante de um pátio. Mas não um pátio qualquer.
            À sua frente, pouco mais de dez minutos de distância, havia um gigantesco castelo.
            - Gabriela! - Kurt gritava seu nome, e ela se virou, livre da hipnose que a levara até ali.
            Nesse momento, algo gosmento no formato de uma corda saiu de uma das portas e envolveu seu pescoço, puxando-a para dentro de uma das casas, ao mesmo tempo que a estrangulava.
            Um grito saiu esfarelando sua garganta, enquanto Kurt e todos os outros gritavam também.
            A porta se fechou quando estava dentro da casa, condenando-a à escuridão. Ela ainda gritava, mas a sensação da corda gosmenta desaparecera de sua garganta, e ela podia respirar em paz. Não tardou para que Kurt batesse com força contra porta.
            - Gabriela! Abra, Gabriela! Abra essa porta!
            Mas ela não via nada. Seus gritos haviam cessado, mas a escuridão, não. De sua garganta, saíam gemidinhos ofegantes, e ela tateava ao redor, para arranjar alguma maneira de fugir...
            As luzes acederam, revelando não quatro paredes, mas quatro espelhos gigantescos. Apenas Gabriela se via, sozinha, suja, suada e ensanguentada. Havia um corte em sua perna e outro em seu rosto, e algumas manchas em sua camisa. Seu cabelo caía em seu rosto, bagunçado e molhado.
            Como isso acontecera?
            Então, as luzes apagaram, e ela gritou novamente, sacando a arma e atirando a esmo no escuro.
            Lá fora, os gritos continuavam.
            Então, apenas uma luz voltou a acender na sala, e não era da fiação: uma lanterna no espelho. Não era o reflexo de Gabriela...
            Os espelhos deixaram de refletir a realidade. Era como se não fossem mais espelhos, e sim janelas; e por trás delas, havia paredes azuladas manchadas de sangue, como no corredor. E, bem de sua frente, vinha a luz, e alguém segurava ela...
            - Gabriela!
            O constante medo de que alguém estava sempre ali.
            A luz se aproximava, e a forma por trás dela se discernia como humana... mas apenas na forma.
            - Gabriela, abre essa porta!
            Havia alguém ali mas ela não podia olhar por que tinha certeza de que tinha alguém ali e estava com medo que tivesse alguém ali.
            - GABRIELA!!!
            Quando a mão humana, em carne viva e mergulhada em sangue, saiu do espelho, o terremoto começou.
            Gabriela gritou, enquanto a imagem no espelho tremia como a de uma TV fora de sintonia. A lanterna caiu no chão, fora do espelho, rolando e iluminando o chão da sala...
            As luzes da fiação piscavam, e o sangue espirrava para fora dos espelhos.
            Uma mulher de quatro, nua e sem mandíbula, saía do espelho, cravando as unhas na própria pele e gritando - juntos com seus gritos, vinham um vômito de sangue.
            Gabriela recolheu-se o mais distante possível, sacou a pistola novamente e atirou. A cabeça da mulher explodiu, espalhando ossos, tecido cerebral e o que restara dos olhos para todos os lados. O pescoço decapitado assemelhou-se a um chafariz, expelindo sangue num jato.
            Não passou um segundo antes que a próxima mão saísse do espelho.
            Ela retorceu-se para encontrar o chão, e Gabriela, rendida ao desespero, atirou novamente, explodindo a mão. Os pedaços dos cinco dedos sangrentos rolaram pela sala, e o sangue manchou as paredes por trás dos espelhos. A cabeça da mesma mulher sem mandíbula saiu pelo espelho - porém dessa vez havia mandíbula, e ela estava bem aberto num grito de dor e pavor.
            Gabriela acertou um tiro bem no meio de sua boca, estourando a nuca da mulher e fazendo seu corpo morto pender, metade dentro do espelho, metade fora.
            O terremoto continuava.
            Dois rostos saíram de uma vez só do espelho, e Gabriela acertou os dois. Logo, eram três, quatro, dez. Uma delas correu na direção de Gabriela e agarrou-a, logo depois levando um tiro no queixo.
            Gabriela gritava desesperada, e lá fora, Kurt e os outros tentavam arrombar a porta.
            A munição de Gabriela acabou quando três mulheres de uma vez só saíam do espelho. Ela sacou o facão e decapitou os braços das mortas-vivas, as pernas, as cabeças...
            A sala enchia-se aos poucos de mulheres, e todas elas queriam apenas tocar em Gabriela. O facão não foi suficiente, e uma delas agarrou suas calças, pondo as mãos por dentro. Gabriela arrancou metade do rosto dela.
            Logo, eram cem mulheres numa sala só - todas tocavam Gabriela, beijavam sua boca, apalpavam seus seios e suas calças, e...
            A cópia da mulher que levara um tiro na boca e tivera a nuca explodida foi arrancada do espelho pelas outras, e Gabriela foi forçada a beijar sua boca ensanguentada e infestada de vísceras.
            Ela gritou, e chorou, e esperneou, enquanto as línguas frias das mortas-vivas traçavam desenhos em sua pele, e suas mãos arrancavam a camisa...
            O facão abria a cabeça de uma ou outra, mas não era suficiente...
            As sombras dançavam no escuro.
            Lá fora, Kurt sacara a metralhadora e atirava contra a fechadura da porta, que não rompia.
            As unhas de Gabriela arrancavam pele das zumbis, suas mãos socavam os corpos mortos delas, mas elas não sentiam nada senão o corpo de Gabriela...
            Sua camisa foi rasgada, e mãos pequenas e frias massagearam suas costas e barriga...
            O medo constante de que alguém está sempre ali MAS ALGUÉM ESTÁ ALI ESTÁ ALI ESTÁ ALI!!!
            Gabriela olhou no espelho, e viu a coisa de três metros de altura e uma tonelada de músculos correndo na direção dela... encharcada de sangue e de punhos grandes, prontos para esmagá-la, e a boca de dentes podres, pronta para devorá-la... E ela estava próxima, estava próxima, e...
            A coisa ia atravessar o espelho...
            A porta foi aberta, e Kurt entrou correndo. A luz da lua inundou o quarto, iluminando o corpo intacto de Gabriela. Ela tremia e chorava, abraçando a si mesma. Estava sozinha.
            - Gabriela! - ele gritou, e sacudiu-a, tirando-a do transe - Gabriela!
            A garota virou para o lado e vomitou por dois minutos seguidos.
            - Gabriela, o que houve?
            Ela não respondeu nada; apenas aninhou-se em seu peito e chorou sem parar.
            Kurt olhou para trás, e viu o rosto pasmo dos outros oito. Voltou-se então para sua frente, e havia uma mensagem escrita em vermelho no espelho:

Parabéns!
Você acaba de passar no primeiro teste.
Estejam preparados, pois haverão muitos outro durante o tempo em que ficarem aqui!
Afinal, QUEM TEM MEDO DO ESCURO?

Sejam bem-vindos ao Reino dos Corações,
e aproveitem a estadia.
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