Olá galera ;) Quem aí curtiu o primeiro capítulo de O REINO DOS CORAÇÕES? Bem, eu espero que ovcês gostem do segundo tanto quanto do primeiro. E obrigado a vocês que têm me mandado mentions no twitter elogiando a história, é tudo muito importante para espantar o "bloqueio de escritor".


E, como vocês devem ter percebido, O REINO DOS CORAÇÕES será uma série baseada em lendas urbanas, então, se houver alguma lenda urbana que vocês gostariam de ver, mandem sugestões, estou aberto à todas elas ;) Bem, espero que curtam este capítulo, e não se esqueçam de entrar no grupo do facebook http://www.facebook.com/groups/272109969497650/ e na comunidade do orkut! http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=119372991

2
Meu Coração Está Quebrado

My heart is broken – Evanescence

1

O Reino dos Corações? – leu Kurt, abraçando o corpo gelado e trêmulo de Gabriela – Mas que diabos é isso?
Khaled apontou sua arma para o espelho, como que para se defender, antes de avançar e, com muito cuidado, tocá-lo.
- Acho – disse Tae – Acho que é este lugar.

Mesmo que todos parecessem saber, nenhum deles deixou de engolir em seco com a súbita noção da realidade.
            - Mas... - Kuruno sussurrou, com a voz voltando à medida que o choque se transformava em ira - Mas que merda é essa?! O que diabos estão fazendo conosco?
            - Quem diabos está fazendo isso conosco - Natalie chegou à conclusão, melancólica e assustada.
            - Você acha... - Tae gaguejou - Você acha que estão nos usando como cobaias?
            - Não sei para o que estão nos usando, mas olhe para isso. Eles não vão parar... mas não vão parar mesmo até conseguirem o que querem.
            - E o que diabos eles podem querer?!
            - Nós – Danii respondeu, numa voz baixa e ao mesmo tempo tão monótona, que parecia o tom que alguém usaria ao pedir café-da-manhã – Eles querem a todos nós.
            – Gabriela – Kurt ignorava todo o falatório ao redor, limpando as lágrimas de Gabriela com os dedos (tentava parecer calmo, mas a verdade era que apertava demais as bochechas dela) e afastando a franja de sua testa para que pudesse ver seu rosto – Gabriela, querida, fique calma, shhh... Se acalme, shhh, estou aqui, estamos aqui...
            O choro foi reduzido a alguns poucos soluços após alguns minutos.
            – Agora, me conte, o que aconteceu?
            Ela respirou fundo.
            – Eu... eu ouvi um grito – disse ela – Quando estávamos lá, com aquele homem... Com aquele morto-vivo... e saí correndo, eu tentei, ahn, ajudar quem quer que estivesse gritando...
            (No momento em que ela mencionou o homem, morto pelo helicóptero, Luciani olhou para Khaled com um olhar apreensivo. Ele simplesmente fez que não com a cabeça, e ela concordou; já havia loucura o suficiente no ar para ela jogar mais lenha na fogueira).
            – Que grito? – Jéssica perguntou; sua voz estava muito mais firme agora que também havia parado de chorar.
            – Vocês não ouviram?
            – Não houve nenhum grito – ela continuou, tirando o polegar da boca – Mamãe, você ouviu alguém gritando?
            – Querida, deixe a moça continuar a história – Mas o olhar de Natalie bastava para denunciar.
            Gabriela engoliu em seco e então cuspiu tudo de uma vez. Como ela foi arrastada para dentro daquela sala, como os espelhos pareciam janelas (para outro mundo?, sua mente viajou, lembrando de mais alguns filmes de terror), como milhares de mortas-vivas como aquela do corredor de Hotel saíram de dentro dos espelhos... mas procurou deixar de fora alguns dos detalhes mais grotescos, dos quais nem mesmo ela se lembrava direito... não vira, mas sentira a maioria deles.
            – Estão brincando com a nossa cara – Kurt repetiu – Isso foi só um teste. Gabriela, eles estão só aterrorizando você, tentando fazer você desistir...
            – Desistir do quê?
            – Eu não sei – Kurt chegou à conclusão com um suspiro – Mas...
            As palavras não precisaram ser ditas. Ela suspirou também, indicando que sofria da mesma epifania.
            Kurt levantou-se, confortando Gabriela ao massagear rapidamente seu braço e ajudá-la a levantar também, e então os dois se uniram ao grupo, certos que o pior já passara.
            – E então, o que fazemos agora? – Natalie tomou a frente.
            Kurt olhou para o teto, num gesto pensativo.
            – Precisamos de um lugar para ficar – disse ele – Para dormir, até que amanheça.
            – E no que isso vai nos ajudar?
            – À luz do dia, teremos mais chances de nos defender se alguém nos atacar. Além disso, talvez até encontremos uma saída.
            – E presumo que o “lugar para ficar” queira dizer um lugar seguro para todos nós.
            Kurt assentiu.
            – Será difícil, mas não podemos gastar muito tempo pensando nisso. Talvez possamos dormir hoje num lugar em que já estivemos, e amanhã procuramos um lugar melhor... Talvez até mesmo em nossos quartos no hotel. Vamos precisar definir turnos para que alguém fique acordado, de vigia...
            Gabriela subitamente percebeu que os remédios que tomara não foram suficientes.
            Nunca eram suficientes.
            Ela sentiu a falta de ar que sempre sentia – mas quando respirou fundo, ninguém pareceu notar. Ninguém nunca notava.
            Seu olhar baixou quando sentiu os olhos queimarem de leve. Era algo simples, uma dor mundana e comum – mais comum que tudo. Mas não era essa dorzinha que lhe incomodava – era a vergonha e o acanho. Nenhum deles merecia ver aquilo. Nenhum deles merecia suas lágrimas.
            Não as lágrimas de medo, de momentos antes, mas as lágrimas que mostravam quem ela realmente era.
            Ela queria se afastar.
            Queria se afastar para enfrentar a dor.
            Ninguém a impediria. Ninguém ali ligava para ela de verdade. O sangue borbulhava em suas veias, mas não de raiva – não, eles não haviam feito nada para enraivecê-la. Era apenas por pena, pena de si mesma. Pena do quão era patética. Pena do quanto seus problemas eram pequenos. Pena do quão estúpida precisava ser para ter pena de sua dor.
            Eu fecho meus olhos e me afasto...
            Ninguém viu quando ela deu meia volta e caminhou para o fundo da sala. Ninguém viu quando ela se abaixou, quietinha, e se sentou abraçando as próprias pernas, encostada nos espelhos frios que há poucos momentos tanto temera. Ninguém viu nada. Ela não sabia se ficava feliz – eu só quero ficar sozinha! – ou se alimentava sua tristeza – eles não me veem, não ligam para mim, oh, eu poderia estar morta e eles não ligariam...
            Ela queria se afastar do medo de que nunca encontraria a maneira de curar sua alma.
            – ... certo, Gabriela? – Kurt estava a ponto de iniciar uma briga. Danii era o único que não concordava com o plano; como o babaquinha punk que devia ser, sempre iria se opor a tudo. Se ele abrisse aquela boca mais uma vez... iria arrancar todos os piercings dele e enfiar nela, e quebrar seus dentes obrigando-o a mastigar. Então, notou que Gabriela não respondia.
            – Gabriela?
            A lanterna iluminou o corpinho encolhido da garota, num canto escuro da sala. Ela não reagiu.
            – Gabriela...
            Kurt ignorou todo o resto, e correu para o lado da garota.
            – Gabriela – disse ele – Está tudo bem, lembra? Elas já foram embora. Elas não podem machucar você. Ninguém vai deixar elas machucarem você.
            Ela engasgou, e quando levantou os olhos, estavam vermelhos e adornados de sombras de olheiras. O rosto que fora tão belo até poucos momentos atrás agora parecia carregar o peso do mundo nos ombros.
            – Você não entende – ela cuspiu amargamente as palavras, e voltou a chorar.

2

            Gabriela acordou ofegante, e quando se virou para sua direita, Kurt estava encarando-a.
            Ela havia fingido que estava tudo bem. Ela havia se levantado e parado de chorar, engolindo as lágrimas como alguém engole o orgulho. Havia seguido eles, os outros 9, enquanto abriam caminho de volta para o Hotel. Todos eles levantavam as armas, mirando em ameaças invisíveis que poderiam pular das sombras, mas nada aconteceu.
            Quando chegaram ao Hotel, a porta estava aberta, é claro. O hall de entrada continuava tão escuro quanto antes. O plano original fora voltar ao quarto e esperar amanhecer, mas todos decidiram que seria melhor dormir ali no saguão mesmo – afinal, não queriam encontrar a garota do corredor novamente, e, principalmente, não queriam que ela encontrasse Gabriela. Então, arrumaram toalhas numa salinha anexa e usavam-nas de cobertor, e as almofadas dos sofás e poltronas serviam de travesseiro. Os tapetes felpudos não amaciavam muito o chão, mas bastavam para não deixá-los com dor nas costas.
            Agora, ela havia acordado por aparentemente motivo nenhum, já que não se lembrava de nenhum sonho ruim, e Kurt parecia interrogá-la com aqueles grandes olhos azuis.
            – Eu... eu acordei você? – ela perguntou, e olhou ao redor, vendo que todos os outros ainda estavam dormindo. Fez uma nota mental para sussurrar a partir dali.
            Kurt meneou a cabeça negativamente.
            – Quer dizer... – disse ele – Eu acho que sim. Não era para este ser o seu turno de vigia? Não importa – ele completou rapidamente quando viu Gabriela corando no escuro, apenas com a luz fraca de uma das lanternas – Você... você estava falando sozinha.
            Ela soltou um “ah” de entendimento, e baixou os olhos.
            – Falando... sobre o que?
            – Algo sobre sua mãe, e...
            Kurt deu de ombros, e o silêncio perdurou até que ele criasse coragem o suficiente para dizer:
            – Você se importaria se eu perguntasse o que foi aquilo na sala de espelhos?
            Muitas coisas aconteceram naquela sala de espelhos, Gabriela pensou. Mas ela sabia exatamente do que ele estava falando.
            – Me importaria – respondeu ela, e Kurt desviou o olhar, decepcionado. Ela suspirou, e então começou:
            – Quando eu tinha 5 anos... – Sua voz recuperou a atenção de Kurt – Minha mãe e meu pai me levaram para uma cidade, no interior do Rio de Janeiro... você é americano, não é? Deve conhecer algo do Rio de Janeiro. Então, eles me levaram para essa cidade... Cabo Frio, se não me engano. É, demorou um tempo para chegar lá. Eu moro em São Paulo, sabia? Bem no centro. Nós fomos de carro, e meu pai não sabia nada sobre essas estradas... eu lembro que na época ele me disse que o lugar mais longe que tinha ido em sua vida toda foi Sorocaba. Você não deve conhecer, mas é meio que na direção contrária ao Rio... mais para o interior do estado. Na viagem, nós nos perdemos umas três vezes. Ele sempre dizia que sabia o caminho, que bastava mais uma curva, e chegaríamos lá... acabou que demorou quase oito horas para chegarmos lá, e não deveríamos ter levado nem metade disso.
            – Foi nas férias de verão – ela continuou –, bem depois do Natal... a gente ia passar o Ano Novo lá, e eu vivia perguntando se dava para ver os fogos de artifício de tão longe, e mamãe respondia que eles deviam ter os próprios fogos de artifício. Então, passamos uns quatro dias lá, e nos queimamos pra valer, por que não sabíamos que o sol era tão forte por lá.  Nós... compramos um colar de coquinho, um para cada um, e compramos mais uns 10 para o resto da família. Eu lembro que o meu arrebentou quando entrei na água, e eu chorei para comprar outro, e então, quando estávamos indo comprar, eu chorei de novo por que não queria que meus pais gastassem todo o dinheiro por minha causa, e então eles me disseram que custava só 50 centavos...
            Ela riu sozinha, mas o riso pareceu um choro engasgado.
            – E então, no quinto dia, 30 de dezembro, meu pai recebe essa ligação... dizendo que vovô tinha caído e batido e cabeça... eu ouvi tudo. Ouvi ele falando como o osso poderia estar quebrado, quanto sangue ele perdeu, como entrou em coma... como poderia morrer... E papai nos obrigou a empacotar tudo de novo, fechar a conta na pousada e saímos correndo de volta para São Paulo, como se pudéssemos de alguma forma salvar meu avô... e eu não entendia nada. Eu não entendi por que ele e mamãe estavam gritando, não entendi por que ele me mandou calar a boca tantas vezes. Eu... eu dormi no carro, por que não havia conseguido dormir direito naquela noite, e também por que não queria mais ouvir nada.
            “E aí eu acordei no hospital, mas eu não estava visitando meu avô. Vovô tinha morrido fazia 6 dias. Eu acordei com o braço e as duas pernas enfaixadas, sem conseguir respirar direito, por que algumas costelas estavam quebradas, e sem uns dois dentes. Daí, me dizem que eu havia sofrido um acidente no meio da estrada, quando um caminhão entrou na nossa frente... e que, se eu estivesse do lado esquerdo do carro, eu estaria morta. Mamãe também estava viva e toda quebrada, por que o lado do passageiro também é o lado direito.
            “Mas o lado do motorista – o lado de papai – era o lado esquerdo... para ele dirigir, ele tinha que ficar do lado esquerdo, entende? Senão não tinha como o carro andar. Ele tinha que estar do lado esquerdo, ele tinha...”
            Kurt de repente percebeu que ela estava citando não suas próprias palavras, mas sim àquelas com que sua mãe tentara lhe confortar. E não dera certo.
            – No acidente, eu perdi o colar de coquinho novamente. E eu sabia que nunca mais iria ter outro.
“E, daí, mamãe e eu ficamos sozinhas. Uns dois anos depois, ela arranjou um namorado. Eu lembro que eu avisei a ela que... ele não era bom, sabe? Eu tinha quase 8 anos, mas eu via. Eu via nos olhos do filho da mãe... daquele filho da puta... mas mamãe dizia que estava tudo bem. Que tudo estava sempre bem. E quando minha mãe, dois meses depois, tentou terminar com ele, ele tentou matar ela. Quando eu entrei no meio para defender ela, ele me arremessou do outro lado da sala com um tapa. Um tapa. Por que eu tentei defender ela. E então ele tentou me matar. Mas algum dos vizinhos chamou a polícia, e eles chegaram rápido... conseguiram prender ele quando ele tinha quebrado só o meu braço.
            “Dois dias depois, ele estava solto, e, quatro horas depois disso, o corpo morto dele havia sido despejado num beco qualquer.
            “Desconfiaram primeiro da minha mãe, e ameaçaram tirar ela de mim. Queriam prender ela, foi a primeira coisa que pensaram. Mas então, descobriram que foi uma briga de bar. Ele tentou roubar a arma de um bêbado qualquer, e acabou morto. Simples assim. E, ninguém nunca disse em voz alta, mas todos sabíamos por que ele queria aquela arma. Ele queria voltar para nós, é. Queria voltar e terminar o que começou.
            “E... a minha vida foi todas essas merdas seguidas e repetidas, como num clichê. Há seis anos, minha mãe foi diagnosticada com aquela síndrome... medo de bactérias. E ela não vive sem mim. Eu tenho que fazer tudo para ela, senão ela morre, por que ela tem medo. Ela tem medo de tudo.”
            Ela suspirou, entrecortada; como se as próprias batidas de seu coração a impedissem de respirar.
            – Um dia – continuou –, eu estava na escola e matei aula pela primeira vez. Mas eu não... não fui para boates de strip, não fiquei bêbada, não vi filmes pornôs nem dormi com meus amigos. Eu matei aula sozinha, e passei as cinco horas da carga horária diária trancada no banheiro, chorando baixinho... do exato mesmo jeito que fiz naquela sala de espelhos. No dia, eu achei que chorar me faria bem. Eu não chorei por uma vida toda. Cinco horas seriam lágrimas para todos aqueles anos de merda, não é? Quando terminasse, por que eu não me sentiria melhor? Mas eu não me senti. Eu não achava possível, mas me senti mais vazia do que nunca. Como se ninguém houvesse percebido que eu estava ali, sozinha. Como se ninguém nunca fosse me ajudar.
            Eu me afasto para enfrentar a dor.
            – E eu pensei que fosse passar, que fosse apenas um caso isolado... uma merda isolada... mas não foi, por que todo dia, todo maldito dia, eu voltava para aquele banheiro e chorava de novo, e de novo, e de novo...
            Eu fecho os olhos e me afasto...
            – E então, já não era só o banheiro... era o quarto, a sala, a escola toda, minha casa toda... em qualquer lugar, em qualquer hora...
            ... o medo de que nunca vou encontrar um jeito de curar minha alma ...
            – Eu... – ela suspirou – Alguns meses depois, eu fui para... para um médico. Era um bom médico. O escritório era vagabundo, e não havia secretária... não havia mais ninguém senão eu e o médico. E, uma hora depois, eu saí de lá, com a receita nas mãos, e eu fui direto pra a farmácia comprar os remédios, e...
            Ela sorriu tristemente, e olhou nos profundos e vazios olhos azuis de Kurt.
            – Você não sabe como é patético o olhar do farmacêutico quando nos dá um desconto em remédios para depressão.
            Não houve surpresa alguma no olhar dele. De algum modo, ele parecia ter chegado àquela conclusão fazia algum tempo.
            Gabriela deu de ombros.
            – Depressão – disse ela –, não é a palavra certa. Depressão é eufemismo. A verdade é um verdadeiro abismo, que não parece acabar nunca mais... como uma cova que cavamos para nós mesmos, e que nos leva direto para o inferno.
            Ela continuou:
            – E o mais divertido é que eles não adiantam de nada. Eu continuo chorando, eu continuo sentindo... sentindo como se eu não existisse para ninguém, nem mesmo para minha mãe. – O sorriso triste voltou – É como se eu tomasse apenas para dizer que estou fazendo alguma coisa. O que é mais patético? Eu ou o farmacêutico babaca e seus 25% de desconto?
            Kurt não respondeu, apenas engolindo em seco amargurado. Próximo à poltrona da sala, Jéssica chutava de leve sua mãe, como se estivesse tendo um pesadelo.
            – O que é que você estava fazendo naquele banheiro – Kurt perguntou enfim –, com aquela faca?
            Ela não respondeu. Ambos sabiam a resposta.
            – Eu acho – disse ele – Acho só que você não conheceu as pessoas certas.
            – Como assim?
            – Eu, ahn... veja bem... eu acho que você só conheceu as pessoas erradas, entende? Você deveria ter... bem... conhecido alguém que te enxergasse por quem você é, e não por essa fachada que você adotou... certo? Talvez, se você tivesse apenas conhecido alguém que... pudesse te salvar, e te mostrar como você é linda do jeito que é...
            Alguns segundos de silêncio incrédulo se passaram. Então, Gabriela explodiu em risos, que só não foram mais altos por que ela não queria acordar os outros... como deveria chamá-los? Conhecidos? Amigos?... Sobreviventes?
            – Você é péssimo nisso, sabia – disse ela, quando os risos acabaram.
            Ele soltou uma risadinha de escárnio, e um meio-sorriso se formou em seus lábios, como uma meia-lua.
            – Talvez – disse ele – Talvez depressão não seja algo tão ruim assim.
            Ela estava ouvindo.
            – Talvez – continuou ele –, seja um sinal de que você é humana.
            – E como poderia ser?
            – Bem... é um sinal de que você sente. E de que você se importa.
            Ela sorriu de volta.
            – Isso não te torna menos péssimo nisso – disse ela, arrancando uma risadinha de Kurt.
            – É, bem... você não pode dizer que nunca te disse alguma coisa legal.
            O meio sorriso se formou nos lábios dela dessa vez.
            – É, acho que não. – Ela abraçou as próprias pernas por um momento, e então largou-as – Eu acho... acho que deveria continuar a vigia.
            – Pode deixar – disse Kurt – Eu faço.
            Ela encarou-o agradecida.
            – Então eu acho que é “boa noite”. – disse ela, cobrindo-se com uma toalha infantil, pequena demais para enxugar seu corpo e mínima demais para se cobrir.
            – É... boa noite.
            Ela se deitou, e virou para o outro lado, enquanto Kurt ligava sua lanterna e apontava para qualquer lugar que não fosse seu rosto. Gabriela lembrou-se de seus olhos azuis, profundos e cheios de um entendimento ancestral daqueles tão complexos sentimentos, e achou que, talvez, os dois não fossem tão diferentes assim.


3

            O garoto de cabelos loiros e aparência suja – Kurt, fora esse o nome que ouvira chamá-lo – havia finalmente se rendido ao sono. Não fora fácil – da mesma maneira que fazer Gabriela adormecer não fora. Mas agora que todos estavam dormindo, ninguém poderia vê-lo.
            O homem não tinha nome – ninguém havia se dado o trabalho de dar algum para ele. No entanto, suas grandes asas negras haviam lhe rendido o apelido de Anjo. Ele nunca fora chamado de qualquer outra forma, nem mais amorosa, nem mais pessoal. Seu rosto bonito e cachos cor de cobre não bastavam para seduzir seus mestres – era belo e, bem, angelical, mas se sentia como um mendigo pois fora criado como um.
            Ele se aproximou a passos pequenos; nenhum dos outros 9 lhe dizia respeito. Apenas aquela garota, coberta com uma toalha pequena demais, chamava sua atenção.
            Gabriela.
            Seu nome era Gabriela, mas não era à ele que queria se prender; o Anjo não tinha motivos para se prender ao nome, pois era uma coisa que apenas os humanos tolos faziam. Preferia se prender ao coração; isso sim lhe dizia respeito.
            Meu coração está quebrado.
            Ele se ajoelhou do lado da menina, e tudo que podia fazer era observar – não queria tocá-la, não queria correr o risco de que ela acordasse e aquele belo momento acabasse. Era uma bela mentira, os sonhos da menina; uma bela mentira que permitia que a verdade que palpitava em seu coração acontecesse.
            Ele vagaria até os fins dos tempos, para sempre longe de VOCÊ.
            Ele a havia observado desde que ela havia chegado, e havia estudado sua história antes mesmo disso. Tudo o que ela havia dito para o garoto de cabelos loiros, o Anho havia descoberto muito antes. Havia descoberto outras coisas também – suas flores favoritas eram lírios – ela não gostava de suco de goiaba – tentara ser vegetariana aos onze anos, e aquelas foram as piores 48 horas de sua vida. Ele também não se importaria de descobrir um pouco mais.
            Ele tinha uma missão, era verdade – mas o insensato coração havia se posto no meio da linha de perigo.
            Ele tinha medo de que nunca encontraria a maneira de curar sua alma.
            Ele tinha medo de que nunca encontraria a maneira de curar a alma dela.
            Ele se permitiu desenhar uma linha de carícias na testa e no pescoço de Gabriela – não pelo puro erotismo, mas também para afastar as belas mechas escuras de seu cabelo, para que assim pudesse vê-la melhor. Ela havia tentado ser loira quando mais jovem, sabia, meu senhor? Dois anos atrás. Não gostara do resultado, então voltara a ser morena. Mas o prejuízo da tintura nunca mais saiu, e seu cabelo ficou inegavelmente mais claro, porém ainda preto.
            Meu coração está quebrado...
            O Anjo imaginou o que passava em sua cabeça. Imaginou se ela sabia o que a esperava. E, no entanto, mesmo com um profundo temor quanto à sua segurança, tinha apenas um desejo...
            ... Bons sonhos, meu anjo sombrio ...
            Ele não poderia continuar vivendo dessa maneira. Era loucura. Era suicídio. Como um ser sem coração poderia sentir o sangue pulsar quente em suas veias?... Estava na hora de parar e se afastar. Mas ele não poderia voltar pelo mesmo caminho que viera. Não havia volta. Não havia estrada, nem era possível dar as costas e refazer o caminho.
            Tinha vergonha do medo de que nunca encontraria um jeito de curar sua alma.
            Ele vagaria até os fins dos tempo, meio vivo sem VOCÊ.
            Sem ELA.
            Até hoje, se perguntara como conseguira viver sem sentir aquilo. Era péssimo, era ruim, era a morte – mas era a esperança.
            A oração que jazia em seus lábios valia para ambos.
            Livrai-nos das mãos da tristeza.
            Ele havia negado por tanto tempo... Mas abrira os olhos para a luz.
            Diga adeus...
            ... me liberte, não consigo me segurar ...
            Poderia não haver Deus algum ouvindo, mas bastava como um pedido de desculpas para seu coração.
            ... bons sonhos, meu anjo sombrio ...
            Tão envolvido estava com o próprio coração e a própria melancolia, só tarde demais foi perceber que os olhos de Gabriela estavam abertos – e encaravam bem além de sua alma.

4

            Gabriela não gritou quando viu o estranho de mãos gélidas ajoelhado a seu lado, muito menos quando percebeu que ele tinha asas. Asas escuras, que confundiam-se à escuridão.
            Ele, no entanto, pareceu sufocar por um momento, e as palavras atravessaram muito claramente seus olhos, tão belos e possíveis de se ver até no escuro – não era para isso acontecer. Então, no momento seguinte, não havia mais ninguém do seu lado – apenas um borrão negro que dirigia-se à saída e, num milésimo de segundo, a porta estava aberta para a noite. Ele havia fugido.
            – Espere – ela sussurrou, com a voz fraca, e, sem pensar duas vezes, pegou a lanterna que estava a seu lado e correu atrás.
            Quando ela chegou do lado de fora, viu ele lá, no pátio da frente. À luz do luar, era possível notar como era pálido, em contraste com as asas profundamente negras que brotavam de suas costas. Quando ele se virou, seus olhos verdes brilharam, antes que ele voltasse a correr.
            – Espere! – dessa vez ela gritou, e o seguiu mais uma vez.
            Eles correram juntos, passando novamente pelo pátio onde o morto-vivo fora atingido na cabeça e pelo vão em formato de porta. Gabriela mais uma vez adentrava aquele lugar sem saber para onde ia.
            – Pare! – ela tentava gritar – Por favor... pare!...
            Enquanto o homem de asas negras não parecia perder o fôlego, ela perdia. Quando começou a sentir pontadas em seu estomago, decidiu parar de correr, e simplesmente viu-o desaparecer ao longe.
            Gabriela sentia seu corpo queimar; a temperatura deveria ter aumentado na corrida. O suor pingava de sua testa, e seus pulmões doíam com a falta de ar. Ela apoiou suas mãos em suas coxas, como uma corredora faria, mas isso não pareceu aplacar a dor muscular.
            Então, notou que estava perdida.
            Não sabia para onde tinha ido, nem o quão longe havia corrido – sabia apenas que havia passado muito do ponto onde havia sido arrastada para dentro da sala de espelhos. Talvez, se somente voltasse em linha reta...
            Então, ela ouviu gemidos.
            Tão atormentados e cruéis quanto àqueles do corredor... quanto àqueles da sala dos espelhos...
            A pistola, ela pensou. Onde está a pistola?
            Bem em sua cintura, como na última vez que vira. Mas estava descarregada.
            Havia um pente reserva comigo, não havia?
            Ela gostaria de ter pensado nisso na sala de espelhos.
            Ele recarregou, esperando que houvesse feito da maneira certa – então, como via nos seriados policiais da TV, entrelaçou os braços numa única direção: um apontava a pistola, e o outro, a lanterna.
            – Quem está aí? – ela gritou, estufando o peito com a coragem que não tinha.
            A resposta veio de trás.
            O gemido evoluiu para um pequeno grito, e passos – Gabriela virou-se rapidamente, e, depois de um segundo de identificação, atirou. O impacto da bala fez o morto-vivo cair de costas, atingido no olho e com a bala saindo pela nuca. Ele não estava sozinho: mais dois vieram do mesmo cantinho escuro que ele, e Gabriela gastou três balas para matá-los.
            Teria de poupar o pente de 15, agora 11 balas, pois era sua única chance.
            Justamente quando esse pensamento lhe ocorreu, mais ou menos trinta mortos-vivos saíram daquele cantinho, e havia pouco tempo para pensar no que fazer a seguir.
            Ela atirou uma única vez, e a bala atingiu três das criaturas em fileira, fazendo as três caírem, definitivamente mortas. Outros de seus irmãos acabaram por tropeçar neles, e caíram também.
            Gabriela não teve tempo para contar vitória, e saiu correndo.
            Por duas vezes, ela se voltou e atirou a esmo, esperando que tivesse acertado.
            O que ela não faria para ter Kurt aqui. Kurt, Khaled, Kuruno, até Natalie, qualquer um que pudesse ajudá-la.
            Com pavor, ela se deu conta que os mortos-vivos corriam rápido.
            Ela dobrou numa das esquinas – aparentemente, aquilo eram pequenas ruas, onde carros não passavam –, se lembrando da sala dos espelhos... aquilo não aconteceria novamente. Não podia.
            Ela gritou por ajuda, fosse de Deus, fosse do homem de asas, de qualquer um.
            Um dos zumbis agarrou sua perna e fê-la cair – foi recompensado com um tiro na cabeça, ação-reação, e pedaços de seu tecido cerebral se espalharam pela rua. Outro dos mortos que estava próximo levou um tiro no peito – aparentemente, a carne daquelas criaturas era muito frágil, pois a bala criou um buraco de cinco centímetros de diâmetro onde o atingiu, tão grande que podia-se ver através dele. O sangue esguichou e atingiu o de trás.
            Ela queria se levantar, mas não havia tempo – arrastou-se, de costas para o chão, atirando no que estivesse mais próximo. Aos poucos, os mortos caíam a seus pés, como soldados numa marcha sendo atingidos.
            A última bala matou dois de uma vez e fez seus corpos caírem sob um terceiro, que ficou por alguns momentos “soterrado”, antes que pudesse se livrar do peso e voltar à perseguição.
            Gabriela deixou a pistola, inútil, cair enquanto se levantava. Sentia o sangue expelido de pequenos arranhões em suas costas, e fragmentos do cimento sujo do chão da rua entrando nos ferimentos, causando uma ardência pior do que o normal. Suas pernas queimavam de dor e cansaço – em algum momento, lembrou de seu professor de biologia explicando como o acúmulo de ácido láctico nos músculo poderia causar câimbras –, mas ela forçou-as a funcionarem.
            Mal estava de pé e algo pulou em suas costas – um morto-vivo muito mais rápido que o normal –, derrubando-a e abrindo novos arranhões em seu rosto, peito e ombros.
            Ela obrigou-se a virar para encarar a criatura, e sufocou um grito – enquanto todas as outras pelo menos pareciam que outrora haviam sido humanos, essa era uma mistura de um feto abortado com uma tromba de elefante feita de vísceras e sangue. Os olhos eram completamente negros, e não havia orelhas; da tromba, brotava uma língua bifurcada que tentou massagear seu rosto.
            A lembrança da sala de espelhos voltou com força total.
            Ah, mas não vai MESMO.
            Ela acertou um soco com toda a força possível – e, como todos os outros mortos-vivos, essa criatura tinha pele e ossos debilitados; algo estalou alto dentro da tromba quando a mão de Gabriela desferiu o golpe. A criatura irritou-se e a tromba revelou-se nada mais que uma boca, que abriu-se, circular, exibindo seis fileiras de dentes pequenos e grandes, todos afiados e pontudos. Gabriela não arriscou outro soco; em vez disso, o joelho acertou o que seriam as partes íntimas da criatura, caso ela fosse macho – em vez disso, sua coxa afundou no vão entre as pernas do bicho, quebrando todos os ossos até provavelmente a altura do peito. Ela sentiu algo quente molhando seu peito, e só pôde concluir que uma das costelas quebradas havia rasgado a criatura, fazendo o sangue jorrar.
            Mal se viu livre daquela, e outro morto estava puxando seus cabelos.
            O soco atingiu a perna do zumbi, fazendo-o perder o equilibrio, mas outro deles agarrou o pé de Gabriela, puxando-a.
            Os mortos remanescentes todos tentaram montar sobre Gabriela – e logo, os zumbis estavam brigando por ela. Os que conseguiam alcançá-la apalpavam sua barriga e seus seios, descreviam uma linha de beijos grotescos em seu pescoço, tentavam abrir o zíper de sua calça...
            Como na sala de espelhos.
            Um dos zumbis enfiou a cara no decote mínimo da camisa que Gabriela usava, e sua língua deformada e gosmenta alongou-se até os seios, acariciando como se quisesse vê-los sem roupa alguma...
            Os outros zumbis todos faziam o mesmo, rasgando a bainha do jeans que ela usava para beijar cada vez mais acima...
            De repente, Gabriela nem teve tempo de gritar – mal haviam passado três segundos desde que fora capturada –, e sentiu novamente o sangue quente de um zumbi jorrando sobre seu corpo: aquele morto-vivo que lambia dentro de seu decote fora decapitado, e sua cabeça rolava para um lado, enquanto o corpo caía para outro. A gigantesca e definitivamente não-humana língua caía para fora do decote também, como uma linha de pipa cairia do céu.
            Os outros zumbis nem tiveram tempo de reagir: um foi chutado para o outro lado da rua, chocando-se contra a parede e quebrando todos os ossos, caindo no chão molenga como gelatina; outro teve a cabeça esmagada contra o chão, e tudo que restou foi o cotoco de seu pescoço e o corpo morto e inanimado caído. Um a um, todos da horda foram mutilados e mortos, e seu sangue espalhava-se pela rua; logo, estava tudo tão ensanguentado quanto o corredor e a sala dos espelhos, e Gabriela não sabia se isso era um alivio ou não.
            Quem havia acabado de matar tantas criaturas fora o homem de asas negras, que as esmagava com as próprias mãos, e naquele momento havia acabado de arrancar a cabeça de um zumbi na base da força bruta, ao puxá-la pelos cabelos. O último zumbi foi morto ao ser abraçado com tanta força que os olhos pularam para fora das órbitas, e o sangue jorrou do nariz, boca, ouvidos e todos os outros oríficios de seu corpo.
            Gabriela olhou, apavorada e agradecida, para a carnificina em sua volta, e inspirou o ar fresco com alivio – todo alivio que se podia ter quando o oxigênio adentrava os pulmões junto com o cheio pútrido de sangue e restos mortais.
            Quando ela olhou para o homem, gritou em ação-reação:
            – Cuidado!
            Atrás dele, vinha um zumbi que ninguém havia notado.
            O homem de asas negras nem precisou de muito esforço: apenas se virou e, quando Gabriela viu, o corpo do morto-vivo havia explodido. Seu sangue e órgãos internos voavam em todas as direções, como uma chuva rubra. Gabriela foi atingida por algumas gotas, e o coração da criatura caiu à seus pés. Os braços e pernas decepados rolaram pela cena, enquanto o estomago se arrebentava ao se chocar contra o chão, explodindo em ácido gástrico de cor negra e cheiro fétido.
            O coração do morto-vivo ainda batia, e quando parou de bater, desfez-se em uma substância negra de aparência ácida.
            Gabriela voltou seus olhos para o homem. Não havia nenhum indicio de que estava ferido, apesar de não ter usado nenhuma arma senão os próprios punhos para cuidar de todos os mortos. O sangue que manchava seu peito nu, seu rosto e suas calças não era dele, e sim de suas vítimas.
            – Quem é você? – Gabriela perguntou, e então se lembrou de agradecer – Obrigado, mas quem diabos é você?
            Ele não respondeu nada. Apenas se aproximou, e Gabriela não se afastou; observou-o tocar seu rosto com leveza, bem na altura dos arranhões recém-adquiridos.
            Ela não conseguiu se controlar, e sua expressão deixou transparecer momentaneamente sua dor.
            – Perdão – disse ele, pela primeira vez; sua voz era doce, grave, clara e bela, tudo ao mesmo tempo. Não lembrava a de ninguém que já havia conhecido; com certeza, era a voz mais bonita que já havia ouvido na vida – Eles te machucaram. – Não era uma pergunta.
            – Nem... nem tanto. Isso cura rápido.
            – Eles machucaram seu rosto – ele repetiu, sem demonstrar raiva; apenas melancolia – Vai deixar cicatriz.
            – Eu gosto de cicatrizes – Gabriela disse.
            O homem riu.
            – Eu também.
            Só então, Gabriela baixou o olhar e viu pelo menos três grandes e despadronizadas cicatrizes no abdomen do homem. Quando levantou os olhos, pôde contar mais duas no peito, pelo menos cinco em ambos os ombros, e uma que ia do biceps direito até metade do antebraço.
            Então, ambos ouviram.
            – Gabriela! – era Kurt gritando – Gabriela!
            Os olhos dele pararam naquele estranho de asas negras, e então ele levantou a espingarda que Gabriela nem o tinha visto carregando.
            – LARGUE ELA, CARALHO! – A voz de Kurt não deixava crer que haveria alguma negociação, e soou muito mais como um rosnado gutural do que como uma ordem impassível. Naquele momento, a raiva que estampou seu rosto foi muito maior do que qualquer uma que Gabriela já havia visto na vida; talvez por que o homem que acariciava seu rosto demonstrava um pouco de humanidade.
            Gabriela viu, numa fração de segundo, o que aconteceria a seguir.
            – NÃO! ELE NÃO!
            O homem atirou-se sobre Kurt, numa velocidade que olhos humanos não conseguiriam acompanhar, e a próxima coisa que Gabriela viu foi ele montado em cima de um Kurt desacordado. O punho musculoso do homem estava retraído no ar, como se se preparasse para mais um golpe, e o rosto de Kurt estava virado de lado. Era possível ver a bochecha onde fora atingido já ficando vermelha, e, de longe era difícil de ver, mas uma pequena poça de sangue era expelida de sua boca, junto com dois dentes quebrados.
            O homem se virou para Gabriela, com o rosto novamente sem raiva expressada.
            – Ele é seu amigo – não era uma pergunta, mas da mesma forma Gabriela asssentiu.
            Ele se levantou, pousando o corpo desacordado de Kurt no chão como que num pedido de desculpas.
            – Cuide dele – ordenou o homem, mas numa voz tão doce que mais parecia um pedido sôfrego.
            Gabriela assentiu novamente.
            Então, como uma televisão cuja imagem aos poucos saía do ar, as linhas que definiam o corpo do homem começaram a tremer, e uma a uma, foram tornando-se cada vez mais transparentes e...
            – Não! – Gabriela exclamou, mas o homem já havia desaparecido.
            Ela suspirou, decepcionada, ao mesmo tempo que grata por ter sua vida salva. Decidiu que não poderia ficar ali por muito tempo – tivera sorte daquela vez, mas e se novos zumbis chegassem? Além disso, ainda tinha que carregar Kurt de volta ao Hotel...
            Quando virou-se 180 graus de costas, deu de cara com o homem novamente, sem levar susto nem precisar sufocar um grito.
            – Pode me chamar de Anjo – disse ele – E eu tenho uma coisa para você.
            Ele deixou cair algo áspero e barulhento nas mãos de Gabriela, e fechou-as ambas para poder beijá-las. E então desapareceu novamente.
            Quando Gabriela, desnorteada, abriu as mãos, viu, sobre suas palmas, o colar de coquinho que seu pai lhe dera em Cabo Frio. O colar que achou que nunca mais veria na vida.
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