Olá novamente ;) Bem, esse é o último capítulo de HURRICANE. Foi bom ter vocês, ECHELON, aqui conosco e vocês, novos leitores, também. Como eu disse, AMANHÃ, sábado, haverá uma postagem sobre a próxima história a ser postada no blog, então espero vê-los aqui novamente. Bem, deixando isso de lado, espero que curtam o final de HURRICANE! :)


H U R R I C A N E


C a p í t u l o T r ê s
Morte
death

1

Jared encontrou uma rua em especial, onde havia três crianças. Ele deveria conhecê-las, afinal, era sua obrigação conhecer a todos no reino. Mas não – nunca as vira na vida. Na verdade, fazia muito tempo que vira crianças trajadas de vestes tão limpas e de rostos tão bem cuidados; a beleza era um luxo que os pequenos haviam desistido há muito.
Mais curioso que sua aparência era o que faziam: no chão, nas paredes, em tudo, haviam desenhos – inúmeros desenhos. Sóis, luas, pessoas – como uma sinistra previsão. Palavras escritas, uma tão sem sentido quanto a outra. Nada parecia conectado.
Ao fundo, era possível ver o triângulo conhecido como Triad: o símbolo da magia e da força.
Logo que as crianças notaram sua presença, pararam o que estavam fazendo. Levantaram-se, e encararam-no com dúvida no olhar. Eram uma menina e dois meninos – todos loiros, de olhos azuis, assim como o próprio Jared. Pareciam irmãos, ou pelo menos dividiam do mesmo sangue.
E, apesar de Jared encará-los com tanta admiração quanto, as crianças sentiam medo daquele estranho. E puseram-se a correr sem deixar nenhuma explicação no ar.
Antes que Jared pudesse esboçar qualquer reação, ele sentiu: seu peito queimava, por que todos os desenhos das crianças haviam sido tatuados em seu corpo naquela fração de segundo dominada pela distração.
Abriu os braços, como se não acreditasse e ainda assim quisesse ver.
A Triad.
“Mate”.
            “Queime”.
            “Mars”.
            “Furacão”.
           
2

            Na alucinação, Jared aproximou-se engatinhando de sua amada, cujos olhos estavam vendados e a boca calada.
            As promessas que fizemos não foram suficientes, ele dizia, quase numa reza por perdão. Quase como se se desculpasse pelo fato daquilo não ser real.
            A oração que oramos foi como uma droga.
            Seu rosto aproximava-se cada vez mais do dela, e apesar dela não poder vê-lo, podia senti-lo: sua respiração quente, suas palavras doces. Ele sentia igualmente.
            Quando estavam tão perto que suas bocas quase se tocavam, Jared removeu o instrumento que a impedia de falar.
            Os segredos que vendemos nunca foram descobertos, disse ele, como se cantasse para ela, acariciando sua garganta.
            Finalmente livres.
            Ele aproximou-se por trás, sussurrando em sua orelha. Jogou-a deitada na cama, e tomou suas pernas para si – puxou-a, e logo as mãos de Jared percorreram por suas coxas, lentamente, suavemente... Quando as mãos chegaram a seus seios, ela não pôde ver, mas ele estava se deitando sobre seu corpo.
            Enfim, começara.
            O peito de Jared contra os seios da moça – a barriga de Jared contra a dela – a boca de Jared contra a sua.
            As mãos de Jared novamente acariciaram seus seios, e lentamente abriram caminho até o seu pescoço. Ali, agarraram-se com paixão – não pretendia machucá-la, e não o fez. Apenas sabia o que era queria – o que ambos precisavam.
            O último sussurro.
            O amor que tínhamos, o amor que tínhamos, tivemos de abandoná-lo.
            A súplica, o arrependimento – era tão cruel que uma coisa tão boa estivesse presa às quatro paredes da mente!
            Mas não.
            Nunca.
            Jamais.
            Um amor inexistente, mas tão presente quanto as batidas de seus corações.
            O amor pelo qual matariam.
            O amor que os salvaria do furacão.
            Mesmo tão próximos, seus corpos ainda estavam tão distantes... a amada de Jared tratou de cuidar disso: sua cintura elevou-se, tocando-se à dele, e suas pernas o envolveram... enquanto ele descrevia uma linha de beijos.
            Sua boca – seu pescoço – seus seios.
            Mais e mais.
            Haviam criado um mito moderno?
            Haviam imaginado metade daquilo?
            Logo, não havia mais nada no caminho – o espetáculo de seus amores havia começado, eternamente...
            Novamente, e novamente. Sem começo, nem fim.

3

            Quando ela abaixou sua cabeça, Jared fez questão de levantá-la.

4

            Tomo subiu as escadas de um grande prédio, onde outrora fora o congresso – o núcleo do governo. Lá dentro estaria a resposta de tudo... sempre esteve, mas só agora sabia. Só agora sabia o que procurava.
            Ao mesmo tempo em que uma de suas quatro alucinações tornava-se vitoriosa sobre as outras.
            Lá dentro, estava a escuridão que todos tanto temiam, e que só agora sabiam que devia ser enfrentada.
            Uma mulher de máscara de chifres virou-se para ele – parecia um demônio.
            Nos corredores, um dos mascarados puxava sua consorte com força pelas longas tranças loiras – por pouco, não arrancava o cabelo de sua cabeça – mas ela não parecia se importar. Só então, ambos livraram-se das roupas, como se estivessem sozinhos ali, e ao mesmo tempo como se estivessem em cima de um palco.
            Enquanto um homem e duas mulheres, vestindo quase nada e fazendo pose, expunham suas línguas negras e exibiam as unhas podres em carne viva, algo como um turista tirava uma foto – era um turista muito limpo, vestido com roupas quase normais, de um modo que já não se via nem no lado da luz, nem no da escuridão.
            As mais incríveis, sórdidas e asquerosas cenas – as que não poderia imaginar nem em seus pesadelos – bem ali, na sua frente.
            Enquanto, em uma porta aberta, um homem era espancado repetidas vezes na cabeça – sua torturadora sabia prolongar a dor, e a misturava com o prazer!... de modo que a morte chegaria a ele enquanto o sangue fervia pela paixão –, Tomo entrou no salão principal.
            Ali.
            As luzes piscavam.
            A escuridão estava em festa.
            Os corpos comprimiam-se um contra o outro, numa dança sem música alguma, patrocinada pela pura loucura.
            Os beijos, o suor, tudo era compartilhado – e a dor era mais que bem-vinda.
            Tomo deitou-se no meio da pista de dança – ninguém o via, ninguém ligava para ele. Estavam todos muito ocupados na luxúria que era ser humano. Seus óculos escuros abafavam a luz, sua mente abafava os gritos.
            Era aquilo o que procurava.
            A loucura!...
            A inquietação.
            Tudo num lugar só.
            Todas as respostas apareciam diante de seus olhos – e Tomo se perdeu nelas. Perdido na noite, na noite do caçador.

5

            Jared mordeu a barriga de sua amada, e apertou seus seios.

6

            Shae cuspiu novamente em Sunisa, e depois deu-lhe um tapa no rosto. Puxou-a para si, e o grito de sua amante reverberou na noite – um grito de amor.

7

            Foi a vez de Shannon: ele subia as mesmas escadas que Tomo subira, e a mulher de olhos negros também havia passado por ali, poucos antes.
            A festança ribombava lá dentro.
            Como num ato de desespero, Shannon correu – e correu, correu... estava no prédio da escuridão, estava em perigo, e ainda assim estava atrás de algo...
            A mulher também corria, pois, além de falhar, era uma traidora – e não havia perdão para ela.
            Os dois se encontraram no andar superior de uma das salas vazias, um tão espantado quanto o outro – a ânsia por se encontrarem era tanta que o simples fato de terem realmente se encontrado era uma imensa vitória.
            Mas ela tentou fugir.
            Ela não podia render-se à luz.
            Não podia.
            A escuridão dominava seu coração – não tinha coração!...
            E ainda assim, quando Shannon dominou seus braços e os dois tropeçaram desastradamente até a porta mais próxima – a que levaria à qualquer saída –, ela não resistiu enquanto suas bocas se uniam.
            Ela não resistiu enquanto seu coração fazia sua escolha.
            Não se importou quando percebeu que, ao invés de encontrarem uma saída, acabaram presos num quarto.
            Não resistiu a mais nada.

8

            No prédio, havia um escritório, e nele trabalhava um homem. Era velho e tinha o cabelo muito ralo – vestia apenas um terno remendado. Era como se, mesmo com toda aquela loucura acontecendo todos os dias, ele seguisse a vida normalmente.
            Mas não era normal.
            Sabia disso quando levantou-se e seguiu até o banheiro.
            Teve certeza ao se olhar no espelho.
            E uma noite mais, um bolo formava-se em sua garganta ao sentir a aberração que era, num mundo de aberrações.
            Ele desabotoou seu terno, revelando para si mesmo que, no lugar de um peito de homem em sua pele nua, havia seios.

9

            Enquanto os convidados da festa haviam decidido tirar suas roupas, as gêmeas caminhavam sozinhas num corredor superior – muito certas de que logo tudo chegaria a um fim.

10

            Jared sabia.
            Enfim ele sabia.
            Ele poderia fugir. Poderia esperar a noite acabar. Poderia voltar ao refúgio. Poderia se esconder.
            Mas não – nunca mais fugiria.
            Toda a escuridão que houvesse – ele enfrentaria.
            Todo o mal em seu caminho – ele enfrentaria.
            Podia ser apenas um estranho numa terra estranha – perdido num devaneio –, mas era o rei. Aquele era um chamado à guerra, e era hora de reunir soldados.
            Ele adentrou no mais alto salão, do mesmo prédio onde Tomo e Shannon se encontravam em suas respostas. O maior de todos, o mais impregnado pela escuridão...
            E o homem mascarado não parecia exatamente surpreso por vê-lo ali – mas talvez por que seus olhos haviam sido consumidos demais para que pudessem sentir alguma coisa.
            E nenhum dos dois esperou pelo inimigo: simplesmente partiram para o ataque.
            Jared acertou o primeiro soco – a máscara de ferro não foi o suficiente para absorver o impacto, e o mascarado levou sua cabeça atrás. Quando ele tentou contra-atacar, errou – e Jared simplesmente acertou-lhe outro golpe. O homem mais uma vez tentou se defender ao tentar enforcar Jared, e este retribuiu com um chute na barriga e outro soco – ainda assim, a dor não parecia o suficiente para que tudo acabasse...

11

            Shae acertou Sunisa tão violentamente que quase quebrou sua mandíbula – ambas nuas, ela puxou sua amada para si, ambas desfrutando da dor.
            Na festa, as mulheres, sem saber se gostavam dos homens ou de si próprias, não se importavam em fazer sexo uma com as outras – a beleza que era a mulher! Não havia amor algum, e restava apenas o prazer.
            Nos banheiros, havia dois encapuzados ou encapuzadas: os pulsos de um(a) estavam amarrados ao outro; quando foi puxado(a), os dois se juntaram num só.
            Nos corredores, uma mulher dançava como louca.
            Todos aproveitavam tudo tão desesperadamente como se soubessem o que estava chegando...
            No fim, Shae puxava Sunisa pelos cabelos.

12

            O mascarado acertou o primeiro soco contra Jared.
            Ele não se deixou intimidar e tratou de estapear ao mesmo tempo os dois lados de sua cabeça – o mascarado estava prestes a cair. Um chute contra sua barriga, que o fez quase voar... seguido de um outro chute, que o pôs em equilíbrio à dor.
            Então, ele finalmente caiu, e como todos os consumidos pela escuridão, desapareceu de um jeito que não deve ser escrito, falado, nem conhecido.
            Finalmente, tudo acabara – e as respostas haviam sido encontradas.

13

            E a cidade desapareceu em suas próprias nuvens escuras, enquanto o sol brotava no horizonte. Tão igual quanto começara, e tão diferente... As memórias voltavam como balas.
            Diga-me, você mataria para salvar uma vida?
Todas as lutas, todas as tormentas...
Diga-me, você mataria para provar que está certo?
... o fim de tudo, o fim de uma noite...
Destrua, destrua, queime! Deixe tudo queimar...
... e a certeza de que outra viria – e outra, e outra, eternamente, num pesadelo sem fim.
... este furacão está nos perseguindo além da terra.

O FURACÃO É ETERNO!

14

A noite acaba aqui. Não saberia dizer o que aconteceu no dia (ou noite) seguinte, e na além. Não saberia dizer o que aconteceu a esse mundo, o que aconteceu às mulheres no prédio – mas nada foi como antes, ou pelo menos não deveria ter sido.
Uma das coisas que eu mesmo percebi foi que Jared jamais teve uma segunda (ou mesmo terceira e quarta) personalidade, como Tomo ou Shannon – e para isso, não deve haver outra resposta além de que, num mundo de loucos, uma personalidade já houvesse saído vitoriosa. Como Jared havia sido tomado pela loucura, talvez fosse, na verdade, o mais são de todos.
E, mesmo que o futuro seja de sombras, não deve-se perder a esperança. Afinal, a jovem escrava que Tomo encontrara no metrô acabara por fugir, não é mesmo? Talvez a resistência a tenha encontrado. Talvez ela houvesse dividido os segredos com a luz. Talvez, houvesse realmente uma chance de que a escuridão acabasse sufocada em si própria.
Pois estejam avisados: esse mundo que lhes apresentei não passa de um sonho... O pesadelo que assombra a todos nós. O mundo irá existir, mas somente por que já existe em nós – o que o medo não faz! Mas é apenas o medo que permite que a esperança exista – e ah, como existe esperança! Pois, no fim, quem sabe o furacão não se aquiete onde está e pare de nos perseguir?

“Espreitando nas profundezas da noite,
Ali fiquei,
Pensando, tremendo, duvidando,
Sonhando coisas que nenhum mortal jamais ousou sonhar.”
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