Lembrem-se que amanhã tem os agradecimentos e o comunicado sobre a próxima história do blog! Espero que curtam o fim de SILENCIAR!


EPÍLOGO

Sinto Sua Falta

I Miss You - Blink-182

2016

            Cinco anos haviam se passado desde aquele dia.

            De algum modo, Costa Valença conseguiu permanecer a mesma por todo aquele tempo: pequena e pacata, além de extremamente fria. A menor cidade do país, fechada para visitas. As casas continuaram as mesmas, por mais que as famílias tivessem mudado: algumas foram, outras chegaram, e algumas cresceram. As árvores continuaram a crescer desordenadamente, mas isso só fazia das ruas mais bonitas ainda. O parque continuava deserto - um paraíso para quem se aventurasse a encontrá-lo. E a floresta tornara-se assombrada para os mais novos: dizia-se por aí que um velho assassino morrera naquelas árvores, e que seu espírito vingativo não deixara de vagar pela Terra.
            Suzana e Felipe mudaram-se assim que terminaram o ensino médio. Passaram a morar no centro do Rio de Janeiro, onde fizeram faculdade e trabalharam até a velhice. Até lá, tiveram mais três pirralhinhos: uma garota e dois gêmeos garotos, idênticos, completando assim a família. Quando terminaram de despachar todos para a faculdade, decidiram que tinham dinheiro suficiente para fazer uma loucura: viajar pelo mundo. E assim fizeram, voltando para o Brasil apenas uma ou outra vez no ano...
            Eles não sabiam, mas o criminoso que quase destruíra a vida de Suzana fora preso em São Paulo, depois de abusar de uma garota de dezessete anos. Não sobreviveu por muito tempo na cadeia: a vida na prisão não permitia que estupradores de garotinhas passassem muito tempo vivos.
            Alex demorou muito até achar o amor verdadeiro: só o conseguiu quando atingiu a vida adulta. Conheceu a mulher perfeita logo depois de descobrir sua paixão profissional: ser modelo. Sua parceira, Mariana, também era modelo, e as duas viveram juntas na passarela. Tiveram de enfrentar muitos problemas: os pais de Mariana não aceitavam o namoro, muito menos o noivado. Acabaram por deserdá-la, e isso destruiu seu coração - mas Alex tratou de ajudá-la a remontá-lo. Casaram-se por volta dos trinta, trinta e cinco anos, depois de mais complicações, pois ainda naquela época o casamento homossexual não era bem visto; muitos padres e cartórios ainda se recusavam a realizá-lo, apesar do que a lei ditava. Mas, no fim de tudo, conseguiram viver felizes, juntas.
            Com quarenta anos, Alex decidiu adotar um bebê. Mas tanto ela quanto Mariana viram que era impossível escolher um só, de qualquer idade; e, como tinha vida financeira estabilizada, acabaram por adotar oito crianças, de idades, cores, etnias, sexos e opções sexuais diferentes. Deram a eles muito mais amor que alguns pais, dotados de preconceitos, dão para seus filhos. Não pode-se dizer que foi fácil o tempo todo, mas, no fim de tudo, foi bom e feliz.
            E Gabriela? Ela jamais teve a receita para remendar seu coração partido. Nunca mais se apaixonou, mas isso também não quer dizer que foi infeliz. Arranjou um pequeno emprego, em Costa Valença mesmo, e viveu lá a vida inteira. Quando atingiu a maioridade, tentou reaver a guarda de seu filho, Marcos, porém perdeu as primeiras tentativas. E, quando finalmente conseguiu chegar num acordo com seus pais, foi um choque para a criança: ela se recusava a acreditar. Tinha cinco anos, logo não conseguia processar exatamente o que acontecia a sua volta. Mas, com o passar do tempo, ele conseguiu entender. Com treze anos, foi capaz de chamá-la de mãe. Gabriela teve um lugar de honra em seu casamento, e Marcos chorou sua morte, quando ela já havia atingido uma idade avançada. Mas morreu feliz - encontrara a redenção e encontrara a verdadeira amizade, como poderia permanecer deprimida? A morte foi-lhe apenas uma pedra no caminho, e, apesar desse autor não saber dizer se realmente há um Céu ou um Inferno, Gabriela acreditava. E acreditava que logo veria seus amigos, seu filho, seus amados novamente. Afinal, era tudo apenas uma questão de tempo.
            Você, leitor, talvez não se lembre delas, mas havia um final escrito para Cristina e sua filha, Daniela, também. Ambas viveram em Costa Valença, encontrado amor e amizade ali, também. Continuaram com suas palestras, e uma hora Cristina decidiu que não valia mais apenas esconder as origens de Daniela para o mundo. Não tinha orgulho de como ela fora concebida, porém tinha orgulho de como ela vivia: como dera a volta por cima, como permitia-se ser feliz, mesmo com um passado tão trágico...
            Pode parecer um final morno, feliz demais, mas você consegue imaginar algo mais justo para gente que passou por tanta coisa?
            Mas talvez, o que lhes interesse mais ainda seja o final de Yago.
            Nesse exato momento, no dia doze de junho de 2016, Yago entrava no cemitério de Costa Valença. Naquele dia, completava-se cinco anos desde o acidente de Nathalia. Em seus braços, levava um buquê de flores diversas - rosas, flores do campo, lírios... não conseguira decidir apenas por um, e usou como desculpa que ela merecia todas.
            Quatro anos antes, em 2012, havia gravado seu primeiro CD. Não pode-se dizer que havia alcançado fama internacional, mas era um ídolo em sua cidade - de certa forma, até em seu estado. Enquanto não se via suas músicas tocando nas rádios de cinco em cinco minutos, ele era feliz com o que fazia. Agora, já tinha lançado mais um CD, e o terceiro estava a caminho. Quem sabe, não seria aquela a hora de se tornar famoso para cada pessoa existente?
            Ele atravessou o cemitério, em silêncio. Estava vazio - ninguém prestava suas homenagens a não ser ele. O túmulo que procurava estava muito lá atrás, e era um túmulo que já havia visitado diversas e diversas vezes, apesar do pouco tempo que tinha para passar em sua cidade natal. Quando podia, tentava mais viver entre os vivos: ajudava Lucas a estudar e ajudava-o com o namoro, que logo completaria seis anos; ajudava sua mãe com o emprego, já que ela era incessantemente promovida por méritos próprios. Mas sempre, uma vez ou outra, dava-se o trabalho de dirigir até ali e depositar flores num dos últimos túmulos daquele lugar.
            Quando finalmente chegou, pousou o buquê em frente à pedra cheia de mensagens, e sentou-se na relva bem cuidada, bem de frente para o túmulo.
            - Olá - ele disse - Eu de novo.
            Passou alguns segundos em silêncio, apenas olhando para as fotos estampadas na pedra.
            - Já faz um bom tempo, não é? - continuou ele - Não da última vez que eu vim, por que eu venho quase todo mês, e eu sei que devo estar te impedindo de viver sua morte, ou sei lá, só pra me fazer companhia - riu - Mas... da última vez que a gente realmente se viu.
            Ele riu sozinho, com um sorriso tímido e cauteloso. Sabia que não viria resposta alguma, porém desejava que viesse.
            - Eu sei que tenho estado muito sentimental esses dias, mas... ah, deixa - ele decidiu-se - Aposto que não é nisso que você está interessada.
            “Sabe, meu terceiro CD já está quase pronto. Dessa vez, tem treze músicas... É, são muitas, eu estava realmente inspirado dessa vez - Riu sozinho, relembrando-se das noites em claro que passou a fim de compor cada música - E eu sem querer acabei fazendo mais uma música para você. Eu sei que você já tem muitas, mas mesmo eu me controlando eu acabo fazendo mais uma. Eu perguntaria se você gostaria de ouvir, mas eu pareceria ainda mais louco do que pareço conversando com uma pedra, e além disso, eu esqueci a fita demo... e é difícil carregar um teclado até aqui. E eu não sei tocá-la no vilão, então...
            Ele novamente sorriu sozinho, coçando a testa, como se estivesse conversando com uma velha amiga. E realmente estava.
            - Eu já devo estar enchendo o seu saco, não é? - disse - Pois bem, é só uma visitinha rápida mesmo... Vai lá com seus amigos, aposto que você fez muitos aí no Céu... só não se esqueça que eu te amo, viu?
            Ele ficou ali parado por um tempo, descansando as pernas. Queria poder dizer que ficou esperando o espírito partir, mas ele não sentia essas coisas: não tinha magia nenhuma no sangue. Mas conversar fazia-lhe bem - meio que matava a saudade. Não completamente, pois era impossível, mas em boa parte.
            Era muito difícil dizer adeus a uma pessoa que se ama.
            Mas alguns adeuses não são necessários.
            Yago tentou se levantar, mas não conseguiu: um peso conhecido se jogava contra suas costas, fazendo-o rolar de lado.
            - Olá - ele disse, rindo, com o cabelo cheio de folhas.
            - Conversando com o túmulo de novo? - perguntou Nathalia - Eu já disse, uma hora vão te ver e vão acabar te internando.
            Ele riu, e puxou a boca de sua amada para um beijo - um beijo que parecia nunca acabar, cheio de paixão. Olhou então para o túmulo de sua tia, com as flores novas depositadas em sua base, e sorriu.
            - Às vezes os mortos são beeem mais agradáveis que os vivos - retrucou ele, e levantou as sobrancelhas.
            Nathalia soltou um gemidinho de indignação, e começou a desferir uma enxurrada de tapas no peito dele. Exatamente como ele fizera cinco anos antes, Yago segurou-a pelos pulsos, e roubou-lhe mais um beijo.
            Nathalia demorou muito tempo para recuperar-se daquele fatídico acidente, e quase fora para adoção - afinal, na época ainda era menor de idade. Mas tudo conseguiu-se resolver: a mãe de Suzana acabara por adotá-la, e assim, elas deixaram de ser apenas irmãs de consideração: eram irmãs de verdade, por mais que sempre haviam se sentido como tal.
            E Yago? Yago sempre estivera ao lado dela. Quando ela decidiu fazer faculdade de medicina, ele estava lá. Quando ela decidiu que deveria fazê-la no Rio, ele estava lá. Ele sempre esteve, e sempre estaria.
            O brilho de suas alianças de casamento era refletido nas escuras árvores da floresta logo ao lado, mas eles não prendiam-se a detalhes. Apenas beijavam-se na relva, como faziam quando adolescentes... como fariam pela vida inteira.
            Foi Nathalia quem interrompeu o beijo.
            - Nós não tínhamos que voltar para casa?
            - Aham.
            - Nós devíamos voltar para casa.
            - Aham - Yago repetiu, sorrindo.
            Nathalia retribuiu o sorriso, e roubou-lhe um selinho.
            - Quer dar o fora daqui? - perguntou ela.
            - Aham - Yago respondeu, e riu.
            Levantaram-se, beijando-se mais uma vez, entrelaçados num abraço.
            No fim, tanto Yago quanto Nathalia eram felizes juntos. Não importando quantas complicações, um sempre corria atrás do outro. Eram duas partes de um só, e mesmo quando tudo parecia desmoronar, uma parte levantava a outra.
            Eles envelheceram juntos: Nathalia como uma médica de sucesso e Yago como um grande músico. Tiveram três filhos juntos, dois meninos e uma menina: Pedro, Helena e Gabriel. Enquanto Helena e Gabriel nasceram ruivos, a primeira com cabelos crespos e o segundo com cabelos insuportavelmente lisos, Pedro nascera extremamente parecido com o pai. Cabelos pretos e indomáveis - um pente era inútil -, magro e sem respeito nenhum por regras. Já Helena era mais quieta e estudiosa, enquanto Gabriel fazia do tipo sarcástico. Os três, além de irmãos, eram melhores amigos, e faziam tudo juntos.
            Para a tristeza de Nathalia, nenhum deles nascera naturalmente loiro como ela.
            Os três cresceram e se tornaram grandes homens e mulheres, dando orgulho a seus pais. Yago e Nathalia nunca deixaram de ser amar por todo o tempo - se fosse possível, pareciam se amar mais e mais a cada dia. Mas mesmo o amor não era capaz de domar a morte: Yago faleceu com setenta e tantos anos, de causas naturais. Mas Nathalia não derramou uma lágrima sequer, pois sabia que logo veria o amor de sua vida - de sua existência, de sua alma. Foi a vez dela partir dois anos depois. Ela morreu com um sorriso no rosto e com o coração aquecido, pois sabia que dirigia-se a sua mãe, sua avó, seus queridos... e a um “para sempre” com a homem que mais amou em sua vida.
            E é aqui que a história termina. Um fim é necessário, e este é ele. Não faz sentido escrever sobre o que acontece daqui para frente, pois já não seria uma história sobre dois adolescentes apaixonados, e sim uma história sobre dois adultos apaixonados. Para mim, é aqui que eu dou um basta. Talvez nunca mais ouçamos de Yago, Nathalia, Felipe, Suzana, Alex, Gabriela, e todos os outros, mas basta saber que foram felizes até o último dia de suas vidas - como sempre deveriam ter sido.
            Caminharam até a saída do cemitério, juntos, dividindo mais um beijo; apenas mais um entre tantos, que no entanto ainda fazia o sangue pulsar mais rápido.
E juntos, atravessaram o portão e entraram no carro, partindo assim, para seus felizes para sempre - por toda a eternidade.
Reações: