Pois bem, galero, este é o último capítulo de SILENCIAR, lembrando que amanhã será postado o epílogo e domingo serão postados os agradecimentos. Espero que gostem deste final ;)


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Como Salvar Uma Vida

How To Save A Life - The Fray

            E aqui estamos nós, de volta ao inicio de tudo.
            Era dia doze - ironicamente, de todos os dozes possíveis, aquele era o dia dos namorados. Yago não queria levantar do sofá. A televisão estava ligada, mas ele não prestava atenção. Se o telefone tocasse, ignoraria. Não estava no humor para falar com ninguém. E, além do mais, poderia ser ela. Ela, que quebrou seu coração. Na verdade, pensou, ambos quebraram o coração um do outro.
            Ela. Nathalia.
            Ela. Que o amava mais que tudo no mundo.
            Ela. Inalcançável.

            Mas não poderia pedi-la para que ficasse, afinal. Seria egoísmo, não? Ela estava fugindo, estava sendo covarde, é verdade, porém ela tinha seus motivos: já não sofrera demais? No lugar dela, qualquer um não ficaria desesperado por paz?
            Afastar-se dos amigos, do maior amor de todos... por sofrimento? Isso era lá alguma coisa.
            E agora, a melancolia do dia parecia combinar com o coração de ambos: nublado, a ponto de começar um temporal.
            Como deveria se sentir? Deveria desejar-lhe felicidade e que encontrasse sorte em São Paulo? Deveria dar-lhe um abraço de despedida? Deveria ser feliz por ela, mesmo Nathalia estando a quilômetros e quilômetros de distancia?
            Pois era impossível. Simplesmente não dava para ser feliz sem tê-la a seu lado.
            E agora, parecia que os papéis iriam invertesse: Yago era quem sofreria. Yago sentiria na pele o que era não ter nada por dentro. O que era aquela frieza que dominava-lhe e nunca ia embora? E cada nova dor lembrava-lhe de Nathalia, pois era ela quem deveria aquecer seus lábios e dizer que tudo ficaria bem; agora, ele mesmo tinha de dizer isso.
            A luz faltou, e não fez diferença alguma, pois Yago continuava fitando o nada e sentindo o frio de um dia de outono, apesar de todos os agasalhos que vestia. Seria febre? Não. Tudo voltava ao inicio: era dor, pura.
            A escuridão era sua única amiga. A única que conseguia envolvê-lo completamente. Estava ficando louco? Bem que poderia, não é? Como uma criança, encolheu-se no sofá, abraçando suas próprias pernas. Deitou-se naquela patética posição fetal, como se assim pudesse impedir seu coração de pular para fora do peito.
            Seria ela feliz com outro, noutro lugar? Ela poderia esquecer de todas as boas lembranças que tiveram juntos? Todos os momentos lindos que passaram juntos? Se para ele, somente o ato de lembrar-se faziam os olhos encherem-se de lágrimas, como seria para ela? Não era para esquecer que ela estava fugindo?
            Para que se assombrar, então?
            Devia ligar para ela. Mas cadê coragem? Mesmo que o amor ainda existisse - e ele sabia disso melhor que qualquer um -, temia que ela dissesse “não”, como tanto dissera. Ela que fugisse com seus nãos. Ele não se renderia tão fácil assim. Ele não imploraria de joelhos novamente. Não adiantara da primeira vez, então de que adiantaria se humilhar novamente?
            Seu orgulho era bem mais forte do que seu coração, e decidiu se agarrar a ele.
            Mas então, o telefone de casa tocou.
            Um toque ridículo, que Yago queria saber mudar. Um trim-triiim irritante, talvez por que o telefone fosse do tempo de sua avó - uma herança de família que funcionava por motivo nenhum.
            O identificador de chamadas, instalado por fora, não dizia número nenhum, pois o nome estava salvo na agenda: ela.
            Ela ligara.
            De tudo o que poderia sentir, ele sentiu esperança. Uma tola esperança, uma pequena chama crescendo em seu peito. E, ao mesmo tempo, sentiu-se tão mais frio...
            Por que deveria atender?
            Por que deveria passar por aquilo de novo?
            Por que deveria ouvi-la dizendo as últimas palavras que ouviria daquela linda voz?
            E então, simplesmente pensou “não”.
            Então, por que, ainda assim, duas lágrimas escorreram ao último toque?
            Veio um bipe, seguido de outro. Uma mensagem:
            - Oiii, agora não podemos atender, deixe seu recado após o sinal. - Era a voz de Lucas, quando não passava de um guincho. Nada comparado com a voz grossa que formara agora. Yago de repente parou para pensar que nunca havia conhecido a namorada do irmão, e se arrependeu: quem sabe eles não se amavam? Quem sabe ele não verdadeiramente se amavam, e não teriam de passar por todas aquelas merdas?
            Mas tudo sumiu de sua mente. Qualquer pensamento, qualquer ideia... puf! Evaporou. Pois a mensagem veio numa respiração arfante, numa voz fraca, que dizia:
            - Oi - A respiração de Nathalia era audível, e demorou o que pareceu um século para falar - Eu... eu só liguei para falar que te amo.
            E o mundo parou.
            Ela desligou, ainda arfando, deixando Yago olhando para o nada, sozinho com suas lágrimas.
            Ele não viu, mas dez minutos se passaram. Dez minutos se passaram desde que ele decidira sucumbir. Dez minutos de nada além de lágrimas. O que ele fizera consigo mesmo? Por que causava tanta dor para si próprio? Por que não levantava, e tentava seguir com a vida, assim como Nathalia fazia?
            E ele sabia que era uma grande mentira, uma grande farsa: era impossível seguir em frente. Nenhum dos dois jamais teria sucesso. A vida era apenas uma grande morte quando se vive sozinho.
            Yago se pegou imaginando se ele deveria novamente sucumbir. Não às lágrimas, dessa vez, mas ao impulso. O impulso de sair correndo, o impulso de alcançá-la e tê-la para si. O mundo podia estar desmoronando a sua volta, porém, enquanto tivesse ela, estaria tudo bem.
            Mas teria coragem? Conseguiria aguentar a dor de outro não apenas para saber que tentou?
            Claro que não. Mas tentaria do mesmo jeito.
            Pois era isso o que sentia. Amor incondicional e irrevogável. Era daquele tipo que poderia ser pisoteado, esmagado, torturado, mas ainda estaria vivo: pois amava. E seu coração batia forte em seu peito. O sangue corria quente em suas veias. Ele? Ele não ficaria quieto. Não pararia, nem que tivesse que cruzar o mundo inteiro até ela.
            Ele não se deixaria silenciar.
            O seu telefone vibrou um seu bolso. Uma mensagem nova de um número conhecido: Gabriela. E apenas três palavras:

Vá atrás dela.

            Como se ele não tivesse chegado à essa conclusão sozinho.

***

            E como ele correu.
            Pegou o carro de sua mãe, que àquela hora ainda estava dormindo, e acelerou o mais rápido possível para Cabo Frio. Corria tanto que era obrigado a cantar pneus nas curvas, e o motor rugia alto.
            Chovia. Mas ele não se importava com a própria segurança. Não se importava com o corpo ainda um tanto debilitado. Apenas precisava chegar até ela o mais rápido possível.
            E, quando viu um engarrafamento no meio da estrada, menos de cinco minutos depois de ter saído de casa, xingou mentalmente o máximo que pôde. Quando não lhe pareceu o suficiente, passou a xingar baixinho, e então a bater no volante. Buzinou, como muitos faziam. Sua vontade era a de passar por cima de todos. Era a de fazer o belo Palio Weekend de sua mãe, cuja compra fora possível por causa do novo emprego, de um carrinho de bate-bate e sair abrindo caminho na marra.
            Mas, como qualquer ser humano que se preze, pensou um pouco. Ficou ali parado, lamentando. Tinha dez minutos. Dez minutos para sair daquele engarrafamento, percorrer mais uma boa distância e então achar o aeroporto que nunca se dera o trabalho de conhecer.
            Que Deus atrasasse aquele voo.
            Então, veio aquela sensação: urgência. Ele não tinha mais pressa, e sim desespero. O que lhe causava aquilo? O que o fazia querer correr? Nathalia no aeroporto já não importava mais: havia algo bem a sua frente, algo terrível, ele podia sentir...
            Estava gelado novamente, como se nunca mais fosse ser feliz na vida.
            Abriu a porta do carro, com o olhar vidrado na sua frente. Ignorou todos as buzinadas ao seu redor. Não tinha com o que se preocupar, o engarrafamento não iria a lugar nenhum. Apenas sabia que tinha que correr, e correr rápido - para todo lugar, para lugar nenhum. Alguma coisa o guiava, algo desconhecido para ele. Um sentimento, um desespero terrível...
            E então, ele estava lá, olhando para o carro retorcido.
            O teto estava no chão; parecia uma barata morta. Uma das rodas havia se soltado e estava fora de vista. Cacos de vidro haviam se espalhado pelo chão. O carro havia praticamente se rasgado ao meio. O metal retorcido estava espalhado pela estrada, e uma fita com algum escrito sobre alguma coisa sobre a policia cercava o local. Um guarda orientava os motoristas, um por um, a seguir pelo gramado natural e sem cuidado ao lado da estrada.
            Mas nada disso importava, pois Yago podia ver Nathalia.
            Podia vê-la, com a testa sangrando, e a roupa manchada em quase toda sua extensão. Olhos fechados, entrando na ambulância numa maca com os paramédicos...
            E então as portas se fecharam, e mais nada importou.
            Não importou que o pai dela estivesse ali, estirado, debaixo de um plástico preto. Não importou o sangue no chão, a chuva em sua cabeça, a multidão observando suas lágrimas.
            Pois ele sabia exatamente o que havia acontecido.
            Sabia como Nathalia havia brigado com o pai enquanto ele dirigia. Sabia o quanto ela havia implorado para ele voltar. Sabia que ela havia apanhado ali mesmo. E sabia como o pai perdera o controle do carro, capotando e morrendo, enquanto a filha também estava a beira da morte.
            Mas por que?
            Simples. Ela queria voltar. Ela decidira sofrer por ele. Ela o amava, e recusava-se a silenciar, também.
            E agora, por amor, estava morrendo.
            E Yago não pôde fazer nada além de cair e rezar. Nada além de sentir a chuva castigar seu rosto. Nada além de amá-la com cada célula de seu corpo.
            Nada além querer morrer junto com ela.
Reações: