Olá galero ;) Este é o capítulo dois ~o penúltimo capítulo~ de HURRICANE, e espero que gostem ;) Nem preciso dizer que, se quiserem, podem entrar na comunidade no orkut http://www.orkut.com.br/Community?cmm=118851983 ou no grupo no facebook http://www.facebook.com/groups/135341926565280/ E lembrando que, assim que for postado o último capítulo de HURRICANE, será postado também o link para a comunidade e o grupo de "I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love", conto de 10 capítulos baseado no primeiro cd da banda My Chemical Romance, banda que eu tenho certeza que muitos de vocês, Echelon, curtem ;) E também será postado alguns trechinhos de ECOS, o livro que estou escrevendo e que será lançado ano que vem. Mas bem, espero que por enquanto gostem deste novo capítulo de HURRICANE :)))


H U R R I C A N E


C a p í t u l o D o i s
Vida
life

1

Shannon acabara de virar numa esquina, e sua moto rugia mais alto que nunca quando finalmente avistou a mulher caída.
Num segundo de medo e surpresa, ele deixou-se tombar – caiu contra o chão irregular com violência, mas suas roupas impediram qualquer ferimento muito grave. Além disso, havia também a questão de que não poderia jamais se ferir com algo tão simples: o movimento mais pareceu uma brincadeira do que uma queda séria.
A moto também acabou por cair, e rolou pela rua numa velocidade tão alta e mortal quanto sempre – mas ao se aproximar da mulher caída, parou como que por vontade própria. Se fora Shannon que a salvara, o próprio não sabia: a magia em seu sangue era tão diluída (pelo menos esta era a versão conhecida de sua história) que seria mais fácil tirar um coelho da cartola do que salvar uma vida.
Ainda muito assustado, ele se levantou e tirou o capacete, mal processando o que acabara de acontecer.
(Neste momento, sua mente viajava para a longa ponte que conectava aquela cidade ao resto do mundo – o mundo que já não mais existia. Lá, havia três “Shannons”: três de suas personalidades, uma única bela música – não sabia, mas estava contribuindo para a melodia de Tomo, o homem que sequer conhecia.)
O capacete caiu ao seu lado – uma medida de proteção ridícula não era importante. Aquela mulher poderia estar morta! Qualquer um que ousasse desbravar as ruas a noite poderia facilmente ser morto, aprisionado na escuridão!
O próprio Shannon poderia ser o próximo.
No entanto, não poderia ignorar a chance de salvar aquela mulher – caso estivesse viva. Seria, no mínimo, uma memória maldita se a deixasse ali sem nem ao menos conferir se seu coração batia ou não.
Enquanto ele se preocupava com a vida daquela estranha, ela levantou – provando-se viva – e num movimento tão rápido que seu entendimento só foi possível quando estava feito, cravou uma faca que até então não se via na barriga de Shannon.
O olhar dele transmitia sua surpresa – mas não sua dor; a lâmina, grande e afiada, apesar de tão arduamente pressionada contra sua pele, não o feriu. Sequer abriu um buraco em sua roupa.
Como Jared, Shannon era imortal.
O olhar dela deveria transmitir ou a exaltação de seu golpe – uma assassina! –, ou o pavor de não vê-lo funcionar. No entanto, tudo o que havia ali era um pedido tão gentil e incomum do momento – me perdoe!... – e um desejo honesto: o de que sobrevivesse àquela noite.
Em verdade, o coração dessa moça estava inebriado pela escuridão que ela mesma escolhera – a magia verdadeiramente corria em suas veias; porém, por mais surpreendente que tal fato possa ser, tão irreal quanto se possa imaginar!... numa terra tão sombria e infértil quanto aquele coração, talvez se possa brotar uma rosa tão bela quanto as mais iluminadas terras não conseguem criar.
O amor.
O arrependimento.
            A luz, enfim.
            Ela ainda não era uma escrava, uma castigada, mas, se descobrissem que estava ali, poderia muito bem se tornar.
            Seus olhos, cobertos pela escuridão – era tudo o que deveria ver – permaneceram frios e calculistas enquanto tirava de seu pescoço o cordão vermelho, simples, com um pingente brilhante mesmo na mais profunda das noites.
            A chave!
            O cordão foi depositado no cordão de Shannon, e enquanto o mesmo ainda segurava a faca quase cravada em sua barriga, recebeu um imprudente beijo da mulher estranha.
            E tão logo quanto ela cedeu àquele luxo, se pôs a correr – fora um delicioso exagero, mas não chegava perto do tamanho do perigo que corria.
            Seus olhos sombrios reprimiram as lágrimas que brotavam daquela fuga eterna.
            Shannon, ao ver-se livre, afrouxou as mãos que seguravam a faca – arremessou-a, provando que ainda tinha forças. Seria aquilo um sonho? Estaria morto, e imaginara aquilo tudo? Oras, mas não era mais fácil imaginar que se metera num sonho do que encarar que aquela era sua realidade?
            Os sussurros da noite chegaram aos seus ouvidos – tinha toda a escuridão da cidade para procurar aquela mulher, e a chave era a resposta para tudo.
           
2

            No seu caminho, Tomo encontrou um beco melhor iluminado do que qualquer lugar que vira em todas suas noites naquela cidade.
            Lá, havia três homens – sozinhos. Três religiosos, de crenças há muito esquecidas. Oh!, era difícil de imaginar que alguém ainda se prendesse à qualquer modo de acreditar.
            No centro dos três havia uma fogueira, e, como se seus pensamentos fossem lidos, cada qual queimou os livros que carregavam – queimaram o coração de tudo em que acreditavam. Não era aquele o ritual para unir-se à escuridão? Adentrar a ignorância, esquecer tudo o que carrega a salvação em seu significado – esquecer a esperança!... começar uma nova vida no escuro, dominada pelo egoísmo, e esquecer todos os ensinamentos que seus deuses escreveram para guiá-los por um caminho melhor!...
            Mas onde Ele estava?
            Onde Eles estavam?
            Onde está seu Deus?
            Com a escuridão vem a desesperança, e com a desesperança vem a busca por uma saída. A saída que eles encontraram foi a mais fácil e mais simples: deixar seus verdadeiros eus morrerem. E com eles, morriam também a capacidade de acreditar.
            Talvez os ensinamentos quisessem novamente ensinar, mas, sem ninguém acreditar, que lição será essa?
            Tomo não queria vê-los se perderem mais ainda, então simplesmente continuou seu caminho.

3

            Jared via-se novamente mergulhado em sua loucura – e ela melhorava cada vez mais.
            Com o mesmo cuidado que amarrara o trapo aos olhos da amada, tapou-lhe a boca com algum tipo de instrumento – não a permitiria falar, senão por emitir alguns grunhidos primitivos demais para carregar qualquer significado; e essa não era a intenção?
            Deixar-se dominar pelos mais antigos instintos humanos também parecia ser uma boa opção.
            Sem esboçar nenhuma reação, ela aceitou a dominação de Jared como uma droga.
            Não importa quantas mortes eu morra, jamais me esquecerei.
            As carícias!... A paixão!... Quem realmente estava sendo dominado ali, senão Jared, pela beleza assustadoramente real daquela mulher!... A memória daquele corpo que sempre o assombraria!...
            Não importa quantas mentiras eu viva, jamais me arrependerei.
            O fogo que havia, naquele coração em guerra!, estavam ambos a ponto de explodirem em chamas. Não havia razão alguma para se impedirem – olhe em meus olhos!, praticamente imploravam um para o outro, está me matando!
            Tudo o que queriam era você.
            Os lábios de Jared acompanharam as costas, com tamanha proximidade que podiam sentir cada arrepio que provocavam... ele provocava arrepios naquele corpo inebriado! Sua língua saltou de dentro da boca, num lento carinho que descia mais e mais, traçando a linda da coluna – acompanhando-a, sem importar-se com os espasmos – o calor que causava!...
            Enquanto suas cinturas se pressionavam, uma contra a outra, as mãos de Jared se apertaram contra o braço de sua amante desconhecida... e logo passavam por seu corpo todo até chegar atrás – em gestos velozes, uma massagem – um toque – e um tapa. Não houve ofensa alguma – tudo o que queriam era mais e mais...
            Jared foi mais rápido.
            Num segundo, havia algemas em suas mãos – ele prendeu-a, ajoelhado diante dela. Podia sentir a respiração da amada em seu peito!... podia sentir aquele lufada quente e gélida ao mesmo tempo – aquela boca pedindo para ser dominada novamente. Outro segundo, estava na mesma posição que antes; cintura contra cintura, podia sentir aquelas costas contra seu peito...
            O gelo do toque parecia não acabar nunca mais.

4

            Em algum lugar no mesmo prédio onde Jared havia dormido naquele dia, havia duas mulheres: Shae e Sunisa. Eram dos poucos que tinham o direito de não estar lá, nem aqui – umas das poucas que não precisavam escolher entre luz e escuridão, magia ou morte. Como tal, simplesmente escolheram um quarto qualquer, desde que bonito e grande, e cederam aos impulsos e mistérios do sexo.
            Shae cuspiu contra Sunisa, e Sunisa não se importou.
           
5

            Ambas estavam ocupadas demais para perceber que a faca usada contra Shannon repousava num canto obscuro da cama que ocupavam.

6

            Alguém atendia um telefone.

7

            O verdadeiro Jared corria pelas ruas da cidade – talvez houvesse finalmente o despistado, talvez estivesse finalmente a salvo...
            Ainda não sabia que para ele era impossível dar-se o luxo de morrer.
            ... porém, havia algo – algo naquela rua em particular; algo que o fez parar e reconsiderar se deveria simplesmente correr.
            À sua direita, havia um grande portão – uma grande caixa negra, da época em que era necessário se preocupar se haveria luz elétrica à noite ou não; hoje, o fato de que qualquer um poderia ver, mesmo com o céu escuro, significava que qualquer um também poderia ser visto.
            Debaixo da porta, um fino cordão de tecido vermelho era visível.
            Jared parou, sem demonstrar o mínimo cansaço depois de atravessar meia cidade, e ouviu – estavam lhe chamando; a magia estava lhe chamando.
            Ajoelhou-se e puxou o cordão – a chave.
            O que era aquilo? Um truque, uma magia barata? Nos mais antigos encantos, nos mais impossíveis contos de fadas, aquela era a chave: aquele era o fim – a chave que abriria qualquer porta e salvaria qualquer vida estava em suas mãos.
            O olhar incrédulo e sério que dirigiu não atingiu ninguém em especial; estava sozinho na noite.
            A chave que segurava era idêntica a de Tomo e Shannon; e nenhum sabia da existência do outro.

8

            Jared não via aquele prédio há um bom tempo.
            A escuridão se acentuava ali; era ali que se concentrava tudo que havia de ruim – ali estava a própria personificação do Mal. As longas paredes refletiam a sinistra luz que deveria acalmar as almas daqueles que ali repousavam – mas não.
            Ali.
            Era impossível contar o número de caixões – impossível contar o número de bandeiras do país que já não existia, ironicamente estendidas sobre os corpos dos mortos.
            Era impossível entender o horror da situação para quem não a havia vivido.
            Como se perguntar qual fora o último pensamento antes de se tornarem vítimas do escuro? Como indagar como foi olhar em seus olhos e ver o brilho desaparecer? Como fora a última batida de coração, a última respiração? O derradeiro momento, onde haveria dor?
            Era impossível imaginar o simples ato de morrer.
            E todos que estavam ali haviam partido por um único motivo: por se recusarem a ceder à escuridão.
            E de todos os caixões, apenas um estava aberto. Apenas um não tinha bandeira alguma. Apenas um estava vazio, como se esperando por receber o morto.
            Jared foi até ele, e com olhos ornados observou.
            Era o que realmente queriam?
            Realmente o queriam?
            Realmente o queriam morto...
            O homem de máscara e martelo saiu do nada, tão rápido quanto o impossível ditava.
 ... ou vivo, para torturar por seus pecados?
Jared virou-se, mas era tarde demais: recebeu o golpe com força total em seu queixo – sentiu o pescoço quebrar...
Você realmente quer?
A cabeça por pouco não saltara do pescoço – ele sentiu a escuridão lhe tocar. Ele sentiu o medo. Ele sentiu a vida deixando o seu corpo – e o homem que quase o matara sorria por debaixo da máscara.
Você realmente me quer?
Jared caiu de costas, sentindo a dor dominar-lhe mais do que a loucura – seu coração batia, seu corpo estava quente... mas estava morto. Morto pela escuridão que tocara sua alma.
Você realmente me quer morto, ou vivo, para viver uma mentira?
O homem de máscara selava o caixão com um Jared semi-vivo dentro. O furacão lhe perseguira até os limites da terra.

9

“Abandone seus sentidos ao prazer
Que ele seja o único Deus a governar sua existência
Somente a ele uma jovem deve sacrificar tudo
E que ela não julgue nada mais sagrado que o prazer.”

10

As duas gêmeas eram as únicas nos corredores – e mesmo se não estivessem sozinhas, não se importariam pelo fato de estarem quase completamente nuas. Não tinham nada a temer: assim como Shae e Sunisa, não estavam lá, nem aqui. Podiam fazer o que bem entendessem.
A porta que guardavam era como um nada para elas; apenas não podiam permitir que o desespero da luz e a curiosidade da escuridão descobrissem o que havia detrás.
O que faziam era dançar – juntas, descreviam os mais belos e assustadores movimentos que foram impossibilitados para meros humanos.
Não se engane ao achar que, por serem irmãs, tinha a capacidade de amar uma a outra; logo, quando uma viu a necessidade do prazer, a outra se pôs a disposição, mais do que satisfeita.
            Nenhuma das duas pôde respirar na presença hipnótica da outra.

11

            Havia um lugar consideravelmente escuro na cidade, principalmente àquela hora; um tal de “parque central” ou coisa assim. As árvores cercavam o lugar, e era ali que Shannon sabia que encontraria.
            Porém, todo o cuidado era pouco – era a hora da procissão. De longe, podia-se ver os homens mascarados que caminhavam com suas tochas e bandeiras e a escuridão que os iludia – seus passos eram a única coisa que se escutava na noite. Os animaizinhos todos calaram-se, como se mesmo suas vidas estivessem ameaçadas por aquela presença.
            Shannon silenciosamente pulou um muro, esperando não ter chamado atenção nenhuma.
            Ela estava lá.
            A mulher que o esfaqueara inutilmente estava sentada, muito próxima a um dos poucos lampiões que iluminava o caminho.
            Exatamente como ele se lembrava.
            Ela não o encarou até que estivesse próximo o suficiente.
            Bastou apenas mais alguns passos pra que estivesse frente a frente com ela, tão perto que pôde se sentar a seu lado. Seus olhares mal duraram um segundo, pois logo seus olhos estavam fechados e as bocas unidas.
            De mãos dadas, Shannon não se perguntou o porquê daquela repentina mudança de comportamento – talvez deixasse de temer a escuridão que a hipnotizara; talvez estivesse determinada a seguir por seu lado, a fugir de volta ao esconderijo...
            Então, antes que pudesse ver, a mulher o algemou ao banco e separou-se de seu corpo – em sua boca, antes ocupada pela de Shannon, havia um sorriso.
            Seus olhos não diziam mais nada; ao contrário de Shannon, ou mesmo Tomo, não havia outras personalidades que pudessem dominá-la: aquela era ela. Tanto o coração iluminado quanto o sombrio já lhe faziam parte.
            O sorriso crescia cada vez mais, enquanto dois homens mascarados saíam da escuridão das árvores – máscara de coelho e de pássaro, ambas impedindo que os olhos fossem vistos: que a alma fosse alcançada.
            O olhar da mulher tinha apenas um significado.
            Matar.
            A chave tremeluziu no peito de Shannon, e ele arrancou-a de seu pescoço, ação-reação. Girou na algema, sem esperar qualquer resultado – mas liberdade! Jamais saberia o significado daquela chave – a força que ela carregava – mas sabia que ela comprara sua liberdade!
            A mulher tinha lhe dado a chave ou por que sabia que isto iria acontecer, ou por que outrora o amava e agora o queria morto.
            Shannon despiu-se de seu casaco de motoqueiro, revelando uma regata – estava frio, mas o casaco lhe aquecia demais. A luta que se aproximava seria como um aquecedor natural.
            Aquela era a noite do caçador!
            O homem de máscara de pássaro tomou o primeiro passo.
            Ao agarrá-lo pelo pescoço, tinha a intenção de sufocar Shannon – mas este usou seu corpo como apoio para acertar um chute contra o outro mascarado. Com um caído, mesmo que momentaneamente, Shannon livrou-se do abraço do inimigo mascarado, mirando o cotovelo em suas costelas.
            Suas três personalidades estavam inquietas, tamanha adrenalina.
            Mais um golpe na nuca e o homem de máscara de pássaro estava caído – um a menos.
            O mascarado de coelho não foi tão simples: foi a vez de Shannon receber um golpe na costela, um chute; sua dor arrancou um riso da mulher. Mais um chute, dessa vez em seu rosto: seus dentes poderiam estar quebrados.
            Um golpe daquela intensidade, mirado em seu peito, poderia tirar-lhe o ar por tempo suficiente para...
            Shannon não esperou para descobrir: puxou o pé do mascarado numa armadilha, e fê-lo cair também; agora eram dois homens ao chão.
            Só não esperava receber outro chute na cara.
            Dessa vez, ele caiu e não se levantou tão cedo – demorou tempo suficiente para que o mascarado montasse em seu peito, e apertasse seu pescoço... iria estrangular-lo, obstruir sua respiração... o ar jamais chegaria a seu peito frio, e o coração morto logo pararia...
            Shannon golpeou a máscara com toda a força que tinha, e puxou-a para ver o que havia por baixo.
            Horror.
            Era isso o que acontecia àqueles dominados pela escuridão.
            A máscara caiu novamente, e Shannon empurrou-o: ambos levantaram, e outro chute foi desferido. O homem caiu contra a grade que delimitava o pequeno caminho de terra, e Shannon acertou o golpe final contra seu adversário: ele caiu desacordado, e a batalha estava terminada.
            Antes que pudesse dar conta, a mulher que armara tudo aquilo fugia.
            Shannon não foi atrás num primeiro momento. Ela era linda!, e traiçoeira!... E tão linda quanto era, não podia ter cedido à escuridão! Seu rosto não transfigurara-se na visão do homem de máscara – talvez todos os homens de máscara tivessem encontrado o mesmo destino.
            Como era possível manter aquela beleza sobrenatural e ao mesmo tempo ter um coração tão duro e sombrio?
            Era nisso que Shannon pensava enquanto seguia pelo mesmo caminho que seu mais novo mistério.

12

            O céu da cidade tornava-se cada vez mais claro – a noite logo acabaria, mas não o pesadelo. Os raios faziam questão de deixar isso bem claro.

13

            Estava escuro quando Jared acordou. Não bastou um segundo para se lembrar: o homem de máscara... o martelo... o golpe... o caixão.
            Acima de tudo, Jared não conseguia respirar. Havia pouco ar ali dentro, e havia pouco tempo... e estava tão escuro!
            Em seu bolso, havia um isqueiro – não sabia como. Mas tratou de acendê-lo.
            O caixão era menor ainda do que pensava – entre seu nariz e o “teto”, não havia um palmo. Mal havia espaço para além dos ombros. Estender os braços era um ato extremamente complicado – e quando conseguiu, não encontrou mais do que esperava: não havia saída alguma. Apenas madeira para todos os lados.
            Estava selado para sempre naquela escuridão, e mesmo a chama que acendera não duraria para sempre – nem o ar.
            Foi então que viu a fechadura – isso.
            Talvez pessoas normais demorassem mais para encontrar uma solução baseado nisso. Talvez mesmo as pessoas daquele mundo precisassem pensar um pouco – mas Jared sabia. O rei da promessa tinha de saber.
            Não levava a chave em seu pescoço, como certamente deveria ser feito, pelo perigo que isso implicava – qualquer poderia vê-la. Qualquer um mataria por ela. Em vez disso, teve de tirá-la de seu bolso – enfiou-a na fechadura, e girou o segredo.
            Ofegava e tremia – se não funcionasse, nada mais iria.
            O simples fato de haver girado era suficiente.
            Estava livre! O ar acabara – mas estava livre! Poderia sair, deixar aquela magia, voltar para casa! Finalmente, o homem de máscara achava que estava morto! Bastava empurrar a tampa do caixão e...

14

            A chama se apagou, e o isqueiro se perdeu no ar; sim, no ar – pois Jared caiu.
            Não havia mais chão debaixo de si – não havia mais limites; simplesmente caía pelo simples fato de cair.
            Nenhum grito escapou de sua garganta; não houve tempo para isso.
            Caía do céu...
            A cidade era bem visível dali de cima. As luzes! Os prédios! Mas as ruas desertas – tristemente desertas! Não haviam sido feitas para isto. Aquele mundo pertencia à vida – e a escuridão o entregara à morte. Aquilo não estava certo – as ruas não deveriam temer pela noite.
            Os raios ribombavam bem ao seu lado, e o envolviam como se fosse um novo amigo.
            A queda teve fim quando chegou ao chão – dali não passaria; não precisava: todo o inferno já estava à sua volta.
            O ar limpo adentrou seu peito, e não sentiu dor alguma. Não saberia responder o que acabara de acontecer, e aquele mistério o assombraria para todo sempre. Ao olhar para o céu, viu que, tão sábio que era o rei, não sabia de nada.

15

            “Essas alegrias violentas têm fins violentos
            Falecendo no triunfo
            Como fogo e pólvora
            Que num beijo se consomem.”

16

            Shae havia acabado de derramar a cera quente de uma vela sobre Sunisa, e a excitação envolveu-lhes o sangue e a carne.
            A respiração de Sunisa tornou-se cada vez mais entrecortada – e então era impossível quando sua boca encontrou a de Shae. Ela levantou seus pés – estava frágil agora, facilmente à deriva dos acontecimentos...
            Shae tocou em suas costas e descreveu uma linha com suas longas unhas – com ela veio o calor que tomou conta de Sunisa – e sua mão chegou até o fim; o dedo escorregou pela lingerie de sua amada – suavemente, e o arrepio instalou-se ali mesmo, na base de sua coluna.
            Sunisa, antes tão linda, agora era a imagem do caos: recebeu em sua boca suja um novo beijo, enquanto Shae puxava-a pela coleira que instalara em seu pescoço – prazer. Recebeu uma carícia no pescoço, e sentiu uma mão sobre seu seio; o resto da roupa que tinha havia acabado de desaparecer, e o jogo começara.

17

            Tomo encontrou um livro no meio do caminho – um livro que não fora queimado por ninguém que perdera sua fé.
            Com a chave em seu pescoço – a chave que ganhara da escrava que salvara –, abriu a fechadura que o guardava – seria um diário?
         Mas, ao folhear a capa, não viu mais nada que importasse senão um bilhete – uma mensagem, enrolada e ornada com um laço. O livro em si parecia insignificante; se procurava por alguma coisa, era aquilo.
            Havia apenas uma frase escrita.
            Encontre o Argus Apocraphex.
            O gigante de mil olhos. O gigante escondido.
            E Tomo sabia o que tinha de fazer.

18

            Shannon preferia seguir pelo caminho que escolhera, mas havia algo impedindo-o; na rua, as mesmas gêmeas que guardavam a porta guardavam a rua, também. Elas haviam deixado de se divertir, e estavam nuas. A única coisa que precisam fazer era seus deveres – alguns segredos jamais devem serem descobertos. Shannon teria de encontrar outra rua.

19

            Uma mulher dançava no prédio da escuridão, o mais alto da cidade.
           Ela adoraria ter a sensação do que era escolher. Adoraria poder provar como era a tola humanidade, a simples questão de errar.
            Mas não.
            Enquanto ainda há tempo antes que esse mundo exista, essa mulher jamais deveria existir.
            Seu rosto severo foi escondido pelas penas que carregava, assim como seu corpo, e ela teve certeza de que tudo estava muito próximo de chegar a um fim – e essa era uma escolha que não dependia de ninguém.

            “A virtude nem sempre é segura
            E, em certas circunstâncias,
            O cúmplice de um crime é preferível à delegação.”
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