Olá galero ;) Aqui segue o prólogo e primeiro capítulo de HURRICANE, o conto de três capítulos que será postado nas próximas semanas. Como eu já disse, é baseado no curta metragem de mesmo nome da banda 30 Seconds to Mars. Se quiserem, podem também participar da comunidade do orkut clicando aqui ou do grupo do facebook clicando aqui. Bem, espero que gostem ;)


H U R R I C A N E


Prólogo

            Você já deve ter sentido medo algum dia, não é? Oras, não se acanhe, é a mais comum e primitiva das sensações humanas! Afinal, se tristeza, ódio, amor e tantas outras emoções vieram de algum lugar, de certo é do medo; é ele que nos acompanha desde o gênesis de tudo, e, por mais cruel que seja, ele está a espreita bem neste momento, enquanto você lê isto. Mas não há motivos de preocupação!... Por enquanto, o medo está apenas em sua mente, apenas uma ilusão, e é por isso que você segue com sua vida, não é? Ah, imagine se o medo lhe revelasse sua cara feia a cada segundo, cada momentozinho vivenciado?! Seria uma bela de uma desgraça, uma desesperança contínua e absoluta, ah, seria o fim!
            Pois bem, esta é a parte em que seu medo se torna realidade.
            A história que irei contar não é real – ainda. Não se passa num futuro nem muito próximo, nem muito distante; é apenas o suficiente. Mas não se engane: só por que o tempo é eterno, não significa que a hora não chegará. E, se quiser parar, é melhor que pare aqui. Uma vez que começar, terá de ir até o fim, e isso nem sempre é uma coisa bonita.
            O mundo que irei lhe apresentar é real, ao mesmo tempo que não é... depende apenas do modo como sua mente o vê. Isso não é a realidade – isso é um sonho! Mas a sua consciência é real, e o fato de que ela pode ver e sentir é uma grande desgraça: isso significa que ela pode também morrer, tão humana que é. Este mundo, aquele do qual falo, não é um mundo perfeito – se acha que o nosso é uma poça de pecados, mal espera para adentrar no sonho!...
            A cidade onde o tudo e o nada acontecem – mais uma vez, digo isso assumindo que sua mente enxergará além das quatro paredes do mundo real – é bem conhecida a todos nós. Ela existe em nosso mundo, e existe por lá também; para que isto, não sei responder. Talvez você possa reconhecê-la pelos altos arranha-céus, as emaranhadas ruas e uma bela estátua numa ilha um tanto afastada da terra – um belo símbolo de liberdade. Aqui, é uma cidade que poderíamos considerar um bocado caótica – lá, são poucos os que ousam caminhar por suas ruas; em verdade, são poucos os que sequer estão vivos por lá, e deve ser bastante óbvio que estes querem preservar suas vidas, caso queiram ter a mínima esperança de sair dali.
            Que eu deixe bem claro para o leitor que eu não gosto das palavras que irei dizer – na verdade, considero-as injustas e cruéis demais –, mas essa é uma esperança muito vã para pouco fato real. Um conselho, eu digo, é que jamais adentre aquele mundo: a porta pela qual entrou se fecha às suas costas num piscar de olhos, e jamais se abre novamente para lhe dar uma saída.
            Como disse, o tempo para essa história se tornar real está mais que próximo, então devo lhes apresentar os personagens.
            Apesar de poucos viventes, seguiremos três homens numa única jornada – é um número consideravelmente alto para aquela cidade (para aquele mundo!), e foi uma grande sorte que eu tenha reunido relatos o suficiente para contar uma história completa. Volta e meia, talvez apareça um vislumbre de um ou outro acontecimento que não diga respeito às suas aventuras – são histórias incompletas de pessoas que não sei nem hei de saber o destino; se são boas ou más, se conseguiram passar daquela noite ou não, se estão vivas ou mortas.
            O primeiro dos homens se chama Jared L. – o sobrenome ainda me é um mistério, pois nenhum dos escritos que encontrei esclarecia muito mais do que a primeira letra, como podem ver. Este talvez seja o mais instável de todos – e o mais atormentado. Se por algum motivo houver qualquer descontinuidade em sua história, tenham certeza que não passa de uma alucinação.
Pois sim, Jared é louco!... mas, como muitos de nós, recusasse a acreditar na loucura. Ninguém pode culpar-lhe, afinal – não são as mais belas alucinações que muitos podem imaginar, e sim um verdadeiro pesadelo, muito pior do que todos o que você mesmo já sofreu. Se no sonho ele não passa de um homem, na alucinação, ele é um belo de um demônio! Os detalhes não são fáceis de explicar, então acho que será melhor se vocês descobrirem por si próprios.
A aparência dele não importa – e isso vale para os próximos dois homens, também. Aqui, nosso mundo simples e fútil pode dar-se o luxo de olhar-se num espelho e fazer o que quiser com a própria cara – mas lá, a beleza atrai fantasmas e monstros... mais cruéis que memórias! Além disso, quando o perigo espreita cada esquina escura, não se pode perder tempo com penteados e maquiagens – isso que quiser sobreviver!
O segundo homem é Shannon L. – novamente, não tenho informação alguma sobre seu sobrenome, mas, já que é um mundo muito pequeno, talvez poderia ter algum laço de sangue com Jared. Poderia ser um parente, um irmão ou coisa do tipo. De qualquer forma, tenha em mente que Shannon é o mais são dos três – sua história não envolve loucura alguma, a não ser, talvez, a da obsessão!... ou amor, seja um melhor nome. Pois não importa o quão sombrio seja aquele lugar – em cada canto escuro, pode haver esperança de brotar uma luz, e que luz melhor do que o amor!
O terceiro e último, mas não menos importante, se chama Tomo M. Este talvez seja o mais jovem de todos – é, pelo menos, o que parece explicito em quase todas as anotações, mas não irei afirmar nada. O que ele parece estar fazendo naquela cidade não passa de uma busca... porém, o que procurava e se sequer achou, é um mistério! Você entenderá melhor quando ler a Morte.
Esses três homens não existem – mas apenas por que ainda não foi lhes dada a chance de existir. O que permite-os respirar e mesmo ter uma história é o simples fato de que acreditam que existem, assim como acreditam que o mundo em que vivem existe – e é apenas àquela realidade que estão acostumados. Eu avisei para tomarem o cuidado de jamais entrarem neste mundo, mas um dia, todos acabaremos lá – é inevitável.
Você pode me achar louco. Pode prender-se ao mundo real. Mas o fato é que o mundo real não existe! Nós somos o sonho – aquela é a realidade, e a realidade não existe!
O que tenho a dizer é que basta acreditar; enquanto nossa ignorância permitir, poderemos chamar nosso mundo de “nosso”. Mas o tempo está próximo, e eis que o destino também está.
E não importa quantas vezes você queira partir; não importa quantas vezes respirar, sempre estará sufocado! Não importa quantas noites você se deitar acordado ao som de uma chuva venenosa, onde você irá? Se enquanto os dias passam, as noites estão em chamas! Destrua, queime e deixe tudo queimar!
E é aqui que entra o seu medo. Esta é a verdade, e esse furacão nos perseguirá até os limites da terra. 

C a p í t u l o U m
Nascimento
birth

1

É hora de escapar – das garras de um nome... não, isto não é um jogo, é apenas um novo começo. Eu não acredito no destino, mas no fim de tudo, é hora de pagar, e você sabe o que te espera...
Isto é guerra.

2

No céu, os trovões ribombavam enquanto a noite se aproximava. O sol se punha mais uma vez, e o terror deixava seu esconderijo.
Quando enfim a escuridão caiu, os prédios desertos ganharam lugar com suas luzes – mas não eram suficientes para se sobrepor aos imensos e explícitos raios, que exerciam sua dominação junto às escuras e pesadas nuvens, carregadas de uma chuva que jamais caía.
Apesar de todos já haverem se recolhido às suas casas – não eram bem moradias, mas eram seguras, e isto bastava –, um homem desafiava a noite. Se fosse qualquer um, este estaria perdido!... Mas era apenas o louco do Shannon, com seu ridículo capacete – quem se submeteria a usar uma coisa daquelas? – e sua moto escandalosa. Talvez ele achasse que essa era a maneira mais rápida de chegar em casa; era a maneira mais rápida de ser morto, isso sim! Ah, ele atraía o medo! Que não ousasse chegar perto do esconderijo! Ninguém temia por sua vida, já que era apenas o louco do Shannon, mas temiam por si próprios.
Seria um ato egoísta, se já não fosse tão rotineiro.
O metrô também já havia se esvaziado; as cabines estavam vazias já há bem mais do que uma hora – ninguém arriscava ficar preso num trem qualquer que poderia levar a qualquer lugar àquela hora –, e as estações estavam completamente desertas; exceto uma, e era lá que um outro homem vagava.
Ninguém sabia seu nome, no fim das contas. Corriam rumores de que se chamava Tomas, Tomate lá das contas ou algo assim, mas apenas ele próprio saberia a sentença que carregava desde seu nascimento – seu nome era Tomo.
Eram poucos os que se aproximavam daquele homem estranho – ninguém o conhecia, e a maior parte do tempo ele parecia perdido consigo próprio... era jovem, mas aparentava ser bem mais velho; talvez houvesse visto algo que não devia, alguma maldição que tornara aqueles olhos tão dignos de um ancião. Não seria algo incomum naquele mundo, afinal, todo dia uma nova desgraça acontecia.
Não importa o quão bom e iluminado pudesse ser, ou o quão quente seu coração seria – nenhuma mãe deixaria seus filhos brincarem perto de um estranho qualquer.

3

A noite avançava, e com ela vinham novos raios; um deles atingiu a bandeira do país onde outrora a cidade se localizava – hoje esse país não existe mais; o próprio símbolo da cidade, a Estátua da Liberdade, parecia apenas uma triste imagem de uma vida que jamais voltaria.

4

O mais alto dos prédios era dominado pelo Mal – ali, viviam apenas aqueles que pertenciam à cruel sociedade que saía apenas à noite. Ali, estavam os únicos dotados da magia que tomou conta do mundo – os que tinham bondade demais no coração para curvarem-se à escuridão foram rapidamente eliminados.
No quarto mais belo do andar mais alto, deveria viver o mestre dos poderes – um verdadeiro rei. E, realmente, um rei vivia lá, mas não o rei certo: Jared. Nos tempos antigos, ah, podia se gabar de sua nobreza! Quando ainda havia luz, e as noites eram um belo espetáculo no escuro, aquela cidade pertencia a ele; Jared era o rei e a rainha da promessa, uma vítima de si próprio, o filho de um Deus entre o céu e o inferno! Mas a escuridão veio, e a única coisa que pôde fazer foi ver seu reinado vir abaixo.
É verdade que o rei é aquele que mais deveria dominar a magia; Jared era um dos últimos vivos da realeza, e sua impunidade logo deveria acabar.
Era uma imprudência estar fora de seu esconderijo, mas ele seria um eterno rebelde: decidira deitar-se à cama do Mal, no prédio do Mal! Os avisos não seriam suficientes: ele havia tomado sua decisão.
Porém, o desafio fora maior do que o imaginado, e Jared não viu a noite chegar.
Ao derradeiro momento de luz, ouviu-se um pesado bater na porta. Tam, tam, tam. Jared acordou sem muito se lembrar, como se achasse que estivesse seguro. Sua mente disparava uma série de palavrões, insultando quem tivera a ousadia de acordar-lhe...
Ele sonhava com seu reino, a bela época em que era o dono da verdade.
Ele não percebeu no pequeno rato enjaulado, num canto sombrio do quarto. Aquele era o animal de estimação do verdadeiro rei, o Rei da Escuridão; e, Jared não sabia, mas tinha uma habilidade tão singular que acabara denunciando sua presença: a habilidade de sentir a magia. Até agora, o rato dormira com Jared – mas no momento em que o homem acordou, o animalzinho também se pôs de pé! Pois a mente de Jared acordou para trabalhar – e sua magia também.
(No quarto ao lado, uma das servas da escuridão havia capturado um senhor – gordo, feio e bom. Mas não por muito tempo: a tortura uma hora acabaria por matar-lhe.)
Jared abriu a porta para o corredor, que estava deserto. Oras, pregaram-lhe uma peça. Certificou-se de que estava sozinho, olhando para ambos os lados. Tudo o que havia ali era o silêncio (os gritos dos torturados deliciavam apenas aos ouvidos dos servos do Mal).
Então, ele finalmente viu: alguém deixara um número considerável de fotos ao pé da porta. Eram incontáveis e pequenas demais – além de não parecerem significar nada.
Pegar apenas uma foi o que bastou: era uma foto dele mesmo, deitado à mesma cama, naquele mesmo quarto. Uma foto recente, de um ângulo muito mais próximo do que ele mesmo desejaria.
O rato de estimação do verdadeiro rei se escondeu como podia em sua gaiola – ao sentir a magia de Jared, sentia também seu medo.
E de repente, o corredor não estava mais tão vazio: à direita, um homem de máscara caminhava em sua direção – com um martelo maior que ele mesmo em suas mãos.
Apesar de não servir para muita coisa, o instinto de Jared mandou-lhe fechar a porta, e assim o fez. Mas não importava a magia – muito menos a força – o homem de máscara pressionava a fraca porta; um rei não deveria estar seguro num quarto daqueles. E foi então que Jared percebeu a armadilha em que havia caído – o quarto era apenas e unicamente do legitimo rei da escuridão.
Talvez a hora de pagar houvesse chegado.
Quando a escuridão parecia silenciosamente atacar-lhe, Jared nada mais pôde fazer do que recuar – e a porta foi aberta. Não havia escapatória. O homem estava ali para lhe matar. O que restaria de esperança, se Jared fosse morto? Ele tinha o verdadeiro sangue real nas veias, e se não o verdadeiro rei, quem iria salvar aquele mundo?
A ideia lhe passou pela cabeça, tão louca quanto jamais parecera. Se achara que ficar para o homem de máscara seria morte certa, não perdia por esperar! Mas, ao mesmo tempo que era apenas uma outra maneira de chegar ao fim, era também sua única esperança.
Olhou uma vez para a esquerda – tinha um segundo para se decidir, e então fez.
Correu para a janela e pulou.
A noite estava fria.
Cento e seis andares em um segundo.
Todos podiam vê-lo, e qualquer raio poderia atingi-lo.
E quanto mais caía, mais pensava e repensava... mais tinha noção do quanto temia a morte...
Até que...
Braços abertos, pernas firmes – caiu de pé, tomando apenas um segundo para equilibrar-se. Uma respiração entrecortada – podia estar apenas imaginando tudo. Podia apenas ser uma fantasia...
O mundo pareceu um lugar muito estranho para quem sobrevivera de uma queda de mais de cem metros e se sentia como se houvesse recebido cinquenta barras de ouro maciço.
Nem o próprio Jared sabia, mas ele era imortal.
Sua fuga foi sentida em cada torturado – uma nova esperança, seguido de um golpe tão doloroso quanto o anterior para lembrar-lhes da posição em que se encontravam. Mas a verdade é que os torturadores temiam mais do que tudo o que poderia acontecer.
Mas ninguém teve tempo para um piscar de olhos sequer: à esquerda de Jared, estava o homem de máscara. Como a única outra opção era esperar para morrer, Jared correu, determinado a maravilhar-se cada vez mais com seus novos poderes.

5

Enquanto Shannon continuava a imprudentemente rugir sua moto pelas ruas desertas, Tomo ouviu alguma coisa, na sexta ou sétima estação de metrô que visitava. Já não caminhava mais pelos trilhos – procurou ardentemente por uma escada. Quando encontrou-a, procurou subir o mais rápido que podia – ao mesmo tempo que procurava captar todo e qualquer sinal. O que era aquilo? O que estava acontecendo?
O andar superior, dos cachês, bilhetes, lanchonetes e empregados, estava completamente deserto, e ainda assim impecavelmente limpo.
Ao mesmo tempo, de outra estação e outras escadas, subiam um homem e uma mulher – uma bela mulher. Uma das poucas que adentrara às forças da escuridão, se arrependera e sobrevivera; mas não sem um castigo: ele carregaria o segredo, ah, o segredo eterno!
Naquela noite, porém, não era nenhuma castigada com as memórias das atrocidades do Mal – era apenas uma escrava sexual que fora encomendada por um dos quartéis da cidade. E seu acompanhante mascarado nada mais deveria fazer do que escoltá-la, entregá-la e levá-la de volta para sua prisão.
Sua má vontade – de ambos os lados – era compreensível: para ela, o que poderia ser pior do que mais uma noite de abusos e violência?; para ele, o que poderia ser pior do que todo o monólogo de soldados infantis e libidinosos, apenas esperando pela única mulher com que conseguiriam dormir – uma prisioneira?
A mulher estava fantasiada de coelho negro, com máscara e roupas muito curtas e grudadas ao corpo – um feitiche adoravelmente repugnante.
Ela volta e meia tinha de ser empurrada – queria fugir, e seu guarda podia sentir isso. Um segundo, e ela correria para longe...
Ele impediu-a antes mesmo que a ideia estivesse formada em sua cabeça.
Puxou seu cabelo com violência, quase derrubando-a – fê-la ajoelhar-se. Não só estava imobilizada, como estava perfeita; soldado nenhum se importaria se o trabalho começasse ali mesmo. Ah, bastava alguns minutos de atraso...
O medo que a escrava sentiu nem chegou perto do tamanho de sua surpresa ao notar que havia uma terceira pessoa na plataforma.
Tomo caminhava, muito lentamente, observando a cena; o homem de máscara viu-o como outra diversão: assim que acabasse com ele, começaria com ela.
Imobilizada numa posição de medo, e ao mesmo tempo tão fria, a escrava apenas observou o que se desenrolava.
Tomo recuou enquanto o homem se aproximava: foi ele quem desferiu o primeiro soco, bem na barriga – mas Tomo conseguiu desviar-lo com o braço. Um segundo golpe, e este acertou: Tomo se contorceu de dor, o suficiente para levar um chute nas altura das pernas. Tão distraído o mascarado estava, não percebeu a rápida recuperação e contraataque de seu adversário: sentiu o soco na boca do estomago, seguido por outro em seu pescoço – sentiu sua garganta em pedaços, e a dor!
O pequeno momento de vitória de Tomo foi compensado quando sentiu um joelho duro e agressivo em suas costelas e um golpe com tanta força em sua face direita que quase desmoronou.
O que bastou para acabar com aquela luta foi um movimento rápido, que atingiu o mascarado no coração – Tomo tremia de dor, fúria, ânsia, tudo ao mesmo tempo. O que acontecia quando se atingia o coração de um servo da escuridão? Ninguém sabe; mas desde então, não se ouviu mais falar naquele servo em particular.
A escrava observou tudo de pé, finalmente livre do monstro que a obrigava a se ajoelhar.
Tomo se aproximou; era realmente uma linda mulher – uma linda mulher que se ajoelhava para ele. Sem ser obrigada: pro vontade própria. Uma linda mulher que não o julgava por sua fama, nem por seu sórdido silêncio: uma linda mulher que estava apenas agradecida pelo fato de ter sido salva.
E essa linda mulher carregava o segredo.
Quando ambos estavam próximos o suficiente, souberam o que deveriam fazer: em um consentimento silencioso, seus lábios se tocaram como um procedimento qualquer – um beijo que deveria ser feito. Foi rápido, porém belo – o necessário para que tudo enfim estivesse completo.
Quando Tomo se levantou, sentiu algo em sua boca, e quando lentamente puxou, viu uma chave.
A chave.
E quando olhou ao redor, não havia mais ninguém: apenas ele e a chave.
A escrava havia fugido, e a julgar pela rapidez, era dotada da magia tão cobiçada pela escuridão. Ela havia lhe confiado parte do segredo, senão todo ele...
Tomo vestiu a chave pelo longo cordão vermelho que com ela vinha, e caminhou para longe da estação – na direção que agora sabia que deveria seguir.

6

O que Tomo sentia não podia ser traduzido em sentimento nenhum: em sua mente, havia um turbilhão de sensações. O que acabou por formar-se foram quatro “Tomos”, quatro personalidades diferentes – todas elas tão calmas a ponto de tocar uma bela música; qual delas acabaria por dominar-lhe, era algo que acabaria por descobrir-se no resto da noite.
Neste coração, que está a ponto de converter-se em chamas.

7

Jared alucinava.
Ele não estava sozinho em seu quarto escuro: havia uma mulher em sua cama, esperando-o, quase sem roupa alguma. Sua boca estava calma, seus olhos transmitiam puramente admiração – não precisa muito mais do que isso para seduzir até o mais forte dos homens.
Jared simplesmente abaixou-se diante da mulher ajoelhada e acariciou-lhe o rosto, apenas uma única vez beijando-lhe – e essa vez fora o suficiente. Ambos estavam muito envoltos no próprio ato, na presença um do outro, para dar a mínima para o que acontecia lá fora. A guerra poderia estar explodindo, mas desde que continuassem juntos, nada mais teria importância.
As mãos de Jared desceram por suas costas e barriga nuas, numa carícia infinita que lhe tocava mais profundamente do que poderia imaginar.
Jared não fazia ideia, mas aquela mulher não era uma simples alucinação – era seu destino. A mulher com que sonhava todas as noites, com que alucinava todos os dias, que sempre lhe fazia transmutar-se nessa coisa que ele tanto odiava... realmente existia, e só queria fazê-lo amar.
Todas as respirações não foram o suficiente para encher o peito com algo além do calor que sentiam um pelo outro.
Uma venda tapou os olhos da moça – as mãos de Jared trabalhavam lentamente para cegá-la com um trapo negro, a fim de fazer aquilo direito, do modo certo. Não houve nenhum erro, tamanha perfeição.
Quando estava pronto, ele suavemente tomou os longos cabelos negros da mulher com uma única mão – e com força, porém leveza e refinação, puxou-os, trazendo-a para si. As costas femininas e nuas encontraram seu peito, também nu, e toda a dor que sentia não era nada em relação ao prazer.
Jared acariciou sua garganta frágil com tanto cuidado que fez um arrepio percorrer em ambos, enquanto sussurrava com leveza em seus ouvidos:
Diga-me, você mataria para salvar uma vida?
Sua orelha foi mordiscada, e um beijo percorreu toda a parte detrás do pescoço... Jared abraçava-a, e descia mais e mais, sempre com a boca unida ao seu corpo... Ele chegou lentamente à sua boca, num movimento tão calmo e confiante como nunca sentira antes...
Diga-me, você mataria para provar que está certa?
Carícias, como um amor que nunca existiria, porém tão real que ele sentia além de sua própria mente... Apenas esperava pelo movimento dela, envolvendo-a com os braços e esperando que ela o envolvesse também...
Destrua, destrua, queime! Deixe tudo queimar...
Ele a queria. Se soubesse que ela existia, era atrás dela que iria. O que o destino reservava para eles? Um dia, quando se conhecessem, o sonho deixaria de ser tão cruel; Jared talvez não se visse mais como um demônio, e abraçaria a natureza que é sua – que sempre fora sua... a natureza de amar...
Um outro beijo, um outro estalar de bocas, tão belo quanto o anterior, enquanto ele sentia as pernas de sua amada envolvendo sua cintura e fechando-se em suas costas...
... este furacão está nos perseguindo além da terra...
Pois afinal, a noite estava apenas começando.
Reações: