Pois é, galera, este é o penultimo capitulo de SILENCIAR: o ultimo virá semana que vem e no sabado, 07/10, será postado o epílogo, enquanto no domingo 08/10 será postado o comunicado sobre a próxima história a ser postada. Enquanto isso, espero que curtam ;)


62

Medo

Fear - OneRepublic

            - Então já está tudo preparado? - perguntou Nathalia.
            - Sim, terminamos de empacotar tudo ontem - disse Suzana, ao telefone.
            - Me desculpe por fazer vocês esperarem tanto, é só...
            - Ah, que nada, que amiga desnaturada eu seria se te deixasse aqui sozinha. E além do mais, como eu iria aguentar praia, shopping e cama sabendo que o namorado da minha melhor amiga, que por acaso é o mesmo garoto que eu conheço há três anos, está de cama após uma terrível luta contra as forças do mal?
            Nathalia riu, principalmente da ênfase em “cama”. Era só o que Suzana falava: a Lua De Mel que se aproximava. E todos sabiam no que isso implicava, mas ela parecia gostar de lembrar de vez em quando.
            E, também, queria se concentrar em qualquer palavra que não fosse “namorado”.

            - Ainda assim - continuou Nathalia - Seis meses são muita coisa, e eu nem sei como agradecer...
            - Continue respirando e continue forte - disse Suzana, com a voz já não tão brincalhona - O Yago precisa de você agora, assim como você precisou dele (e ainda precisa). Eu sugiro que veja ele pelo menos uma vez por dia...
            Nathalia pretendia ficar em silêncio, até ouvir um sussurro fraco e quase inaudível do outro lado da linha:
            - ... na cama.
            - Vocês são uns dois virgens - disse Nathalia, novamente rindo, pois agora sabia que Felipe havia se juntado à ligação.
            - Awn, que fofo - continuou ela - Estão completando as frases um do outro.
            - O que significa grande afinidade no amor...
            - ... ou na cama - disse Felipe, e os dois caíram na risada juntos.
            - Vocês combinam essas coisas? - perguntou Nathalia.
            - Precisamos repetir? - eles responderam em coro.
            Nathalia simplesmente revirou os olhos, e, lembrando-se de que eles não podiam vê-la, disse:
            - Bobos. - e então, mudou de assunto para o motivo de sua ligação, que a principio esquecera - Ah, vocês não vão querer que alguém pegue seus deveres de casa e tudo?
            - Já resolvemos isso - disse Suzana - Pedimos para a Alex, por que ela é mais organizada e tudo.
            - Ah, sei - Nathalia sentiu sua expressão caindo até o chão - Mas... não acha que vai sobrecarregar ela? É uma pessoa só, no terceiro ano e copiando para três, para depois ter de explicar... Não acham que é demais? Ainda acho que vocês deviam esperar até as férias...
            - Querida, não somos burros - Felipe disse - É claro que ela não precisa nos explicar, só as anotações já tá bom... e vamo tirar xerox, o que facilita tanto nossa vida quanto a dela.
            Apesar de tudo o que havia pensado, todas as contradições que poderia encontrar em qualquer plano, Nathalia se viu sem palavras. Fez um muxoxo, e só então percebeu novamente que não podiam vê-la - agradeceu, então, em silêncio.
            - Como vê...
            - ... temos tudo planejado.
            - Tá, caras, tem uma hora que isso passa a ser assustador - disse Nathalia, fingindo estar brincando. Não estava. Queria se prender a qualquer chance de ficar mais um tempo em Costa Valença.
            Não sabia por que, afinal. Tinha de partir, não é mesmo? Não era ela quem não aguentava mais sofrer?
            - Bem - disse Suzana - Nós só vamos amanhã, então... não quer dar uma passadinha aqui, antes?
            Nathalia sorriu, e tentou manter a voz calma enquanto dizia:
            - Parece até que a gente não vai se ver nunca mais.
            - Duas semanas, não é - disse Suzana, e soltou uma risadinha.
            Dois minutos depois, desligava o telefone e caminhava para a casa de Suzana. Faziam doze dias desde que terminara com Yago, e desde então, não falava com ele. Restringira seus contatos à Felipe, Suzana e Alex; a última muito mal, pois arranjara uma nova namorada, e parecia completamente apaixonada. E a nenhum deles contara a verdade. Imaginava que seria muito mais fácil arrancar o band-aid, rápido e sem dor. Virar as costas e nunca mais voltar. Logo esqueceriam dela, mas ela nunca esqueceria deles.

***

            Mal bateu à porta da casa e ela se abriu sozinha: estava escancarada. Empurrou-a mais um pouco e quase pulou: todos gritaram um “SURPRESA!”, e jogaram para o alto o que tinham na mão: confetes, balões e até balas ou sanduíches (o que imediatamente atraiu a cachorrinha que Suzana ganhara como presente de casamento, Kate). Apoiou-se na porta para não cair, e não conseguiu falar nada até o fluxo sanguineo se normalizar.
            - Mas... o que?
            Suzana saiu do meio dos vinte convidados, com um sorriso no rosto, que logo se converteu em uma careta indignada completamente falsa.
            -Aham - pigarreou ela - Pode me explicar essa história de fugir da cidade sem avisar ninguém?
            - Aaah... - disse Nathalia, corando.
            - Pois bem - continuou Suzana - Como infelizmente é um país livre, não podemos te impedir de nada. Mesmo que possamos te dar umas boas porradas - completou ela, sussurrando, antes de continuar em sua voz normal: - Mas podemos pelo menos te humilhar o suficiente com uma festa de despedida.
            Nathalia olhou em volta, e percebeu que estavam todos ali: seus amigos, nem tão amigos e colegas de sala. Todos que um dia já se importaram com ela estavam ali. E se sentiu horrível por jamais ter gastado mais do que cinco minutos pensando em cada um deles ali; se sentiu horrível por estar tão imersa nos seus próprios problemas que não dera a devida atenção a eles. E agora, não tinha tempo nenhum para consertar seus erros.
            E, lá no meio da multidão, estava Yago, com um sorriso no rosto. Ele ergueu de leve seu copo, e Nathalia sabia: fora ele. Ele que planejara tudo. Ele que contara (até por que, ela mesma não havia pedido que fosse um segredo).
            - Tem alguma coisa à dizer? - perguntou Felipe, abraçando-a pelos ombros.
            Ela simplesmente olhou para todos ali, cheia de lágrimas nos olhos, e disse:
            - Obrigada.

***

            Já havia até escurecido, e a festa continuava, porém, a homenageada saíra da casa. Olhava a lua, do quintal, sentada na sombra mais escura possível. Sozinha. Como logo estaria novamente, e por um bom tempo.
            - Oi.
            Ela se virou para ver quem chegara, e seu coração ainda subia até o pescoço: Yago. Queria tanto manter distancia, ao mesmo tempo que queria que ele chegasse mais perto, que a tocasse, beijasse como beijara tantas vezes antes...
            - Oi - ela respondeu, na voz mais desagradável possível, que acabou saindo triste e solitária.
            Como ela realmente estava.
            - Posso me sentar? - perguntou Yago.
            - Você ouviu o que a Suzana falou lá dentro: é um país livre.
            Por algum motivo, ela simplesmente não conseguiu falar “infelizmente”. Sua boca formaria as palavras, mas não sairia som nenhum, pois seu coração não lhe permitia.
            Yago então obedeceu, sentando-se, um tanto longe de Nathalia, porém um tanto perto também: podiam ouvir suas respectivas respirações, mas não podiam se tocar. Uma distancia infame, quase ignorante, que no entanto os privava de tudo. Como acontecia com muitos amores imperfeitos.
            Yago soltou uma risada seca.
            - Que foi? - Nathalia perguntou.
            - Eu só... - Fez uma pausa, como se pensasse se seria correto ou não continuar - Eu só lembrei de todas as festas que nós fomos juntos...
            Ah, lá vem, pensou Nathalia. Ela não iria aguentar, aquelas lembranças. Ela poderia levantar-se, ir embora, mas também... parecia presa entre as duas vontades, e nenhuma seria realizada.
            - Como nós sempre saímos para o quintal, ou o que quer que tivesse... lembra? - completou Yago, e não precisou dizer mais nada, pois Nathalia sabia.
            Sabia que sempre que eles saíam, procuravam o cantinho mais escuro possível e se escondiam, juntos, como estavam agora. Porém, naquelas vezes, estavam apaixonados e exerciam a paixão. Agora... estavam apaixonados, mas separados por aquele muro invisível.
            Nathalia assentiu, sem falar uma palavra, e sabia que Yago veria seu gesto.
            - Fizemos isso até mesmo naquela noite, depois do show, lembra? - ela soltou sem querer.
            Yago sorriu.
            - Ô se lembro.
            - Eu não devia...
            - Não, deixa - Yago disse, pondo a mão em seu ombro.
            O primeiro toque da noite.
            O primeiro toque em dias.
            - Tá bem - Nathalia disse, com a voz embargada.
            O primeiro sinal.
            Ela se sentou, um tanto mais perto de Yago. Ele não impediu-a - sequer tirou o olho dela. Ela parecia tão hipnotizada quanto.
            E de repente, estavam mais próximos. E mais, e mais...
            Agora não simplesmente se tocavam, mas sentiam suas respirações em suas peles: ambas quentes, vivas como nunca antes.
            - Nós... - Nathalia tentou dizer, mas sua língua enrolou-se e seus lábios crisparam: havia engasgado nas próprias palavras, não sendo capaz de formar nenhuma.
            - O que? - Yago perguntou, com a voz falhando também; porém, o que falhava não era a indecisão, e sim o momento em si: tudo aquilo.
            - Não devíamos fazer isso - ela completou, respirando fundo, sentindo muito mais do que conseguia administrar.
            - Não mesmo - concordou Yago.
            - Eu... eu vou embora.
            - Para São Paulo, não é?
            - Não, vou embora daqui.
            - Ah, eu consigo te seguir.
            - Não me siga, por favor, só...
            - O que?
            Ela não sabia. O que se seguiu foram muitas palavras cuspidas, nenhuma com sentido. Ela não tinha mais argumentos. Não tinha mais motivos. Não tinha mais nada em seu caminho.
            E, como se percebesse isso só então, puxou o rosto de Yago com tanta força que o beijo chegou a machucar. Mas nenhum dos dois ligou: seus lábios podiam estar queimando que não iriam parar aquele momento. Havia um quê de urgência, como se aquela fosse a última vez... e definitivamente, podia ser.
            Mas então, passados segundos, minutos, quem sabe horas, Nathalia se levantou. Estava vermelha, tanto pelo momento quanto de vergonha. E chorava. Há muito chorava. Sem dar o mínimo aviso, começou a correr.
            - Nathalia! - Yago gritou, mas ela não parou. Teve de correr atrás.
            Alcançou-a já muito longe da casa, numa rua deserta, bem próxima de sua casa.
            - Nathalia!
            - Me deixa em paz! - Sua voz estava esgarniçada, falha. Suas lágrimas já haviam molhado sua camisa, e Yago percebeu: ela havia caído. Estava mancando, e talvez a dor no pé ajudasse intensificar o choro.
            - Nathalia, me deixa te ajudar...
            - NÃO! - ela gritou - ME, DEIXA, EM, PAZ! Vai pra sua casa! SAI DAQUIII!
            A cada pausa, ela acertava um novo golpe em Yago, até que ele repetiu o mesmo ato que fizera doze dias antes: segurou-a pelos pulsos e a beijou novamente.
            Por um segundo, ela cedeu. Seus braços amoleceram, e toda a vontade sumiu de seu corpo. Então, ela escorregou dos braços de Yago, e caiu de joelhos no chão. Gemendo, gritando de dor. Não apenas física, mas emocional. Seu peito vomitava muito mais amor, confusão e ódio do que ela podia controlar.
            - Nathalia...
            - P-p-p-por q-q-quêee - ela choramingou, de quatro, olhando para o chão - P-por q-q-quê eu te amo...
            Yago apenas a observou, impotente. Nada podia fazê-la melhorar. Nada podia fazê-los melhorar. Sentia-se inútil, tão inútil... derramou uma lágrima, vendo o sofrimento da amada.
            - Eu tenho que ir - Nathalia gemeu - Mas eu te amo t-tanto! Mas e-e-eu n-não quero te amar... Mas eu te amo! Eu t-te am...
            Ela irrompeu em choro novamente.
            - Eu preciso... Eu n-não posso te amar...
            Ela levantou-se, e, chorando, correu para longe. Yago estava sozinho. Yago a amava. Nathalia o amava. Eles se amavam, e se amariam para todo o sempre.
            E, ainda assim, teriam que passar todo o sempre distantes, como meras lembranças destruídas.
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