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vienna

The Fray

            - Você consegue ficar de pé? - perguntou Nathalia.
            - Eu fui esfaqueado na barriga, querida, não nas pernas - Yago respondeu, com um sorriso no rosto para quebrar a amargura das palavras.
            Levantou-se então, e, apesar do que tinha dito, não pôde deixar de escapar um gemido. Seu rosto contorceu-se um pouco; apesar de ter feito aquilo diversas vezes já há dias, ainda não havia se acostumado completamente àquele ato. Passara três meses em coma e mais um tanto em recuperação, antes de começar a fisioterapia. Agora, podia andar, mas com esforço: o tratamento não acabaria tão cedo.

            - Pegou tudo? - perguntou Nathalia, olhando para os lados, evitando, de qualquer modo, olhar para Yago.
            - Se esqueci de algo, deixa aí - ele respondeu - Não aguento mais esse quarto.
            Nathalia sorriu, e fez menção de pegar a mala, bem como os remédios. No entanto, Yago foi mais rápido, mesmo em sua condição debilitada, e ergueu tudo numa só mão. Mal se passou um segundo e passou a usar ambas as mãos. Logo, havia deixado tudo cair.
            Nathalia riu.
            - Acho melhor você carregar isso aí mesmo - disse Yago, com um sorriso também, e tentou se abaixar para ajudar a juntar suas tralhas, agora espalhadas no chão. Mal começou e já soltou um gemido:
            - Ai.
            - Deixa que eu pego - Nathalia tranquilizou-o, e em questão de segundos estava tudo arrumado; de leve, é claro, pois tudo o que ela fez foi jogar tudo no saco e deixar assim. E era por isso que Yago a amava.
            - Vamos - ela disse -, deve ter alguém querendo te ver.
            Yago olhou para ela, que mantinha um sorriso no rosto, enquanto ambos caminhavam porta afora. Mal saíram do quarto, e Yago já soltou um “ah, não”, abaixando o olhar com um sorriso encabulado no rosto.
            Toda a equipe do hospital - ou pelo menos uma boa parte - estava ali, esperando-o, e assim que o viram abriram uma salva de palmas. Tinham verdadeiros sorrisos na cara, muito diferente das caras emburradas que geralmente expressavam quando o estavam tratando; podia tanto significar imensa falsidade ou simplesmente felicidade por não estarem trabalhando. De qualquer modo, uma ou outra enfermeira o abraçaram, fazendo-o corar, pois chamava a atenção de todos no corredor.
            - Foi você que arranjou isso? - perguntou para Nathalia.
            - Não - ela respondeu - Eles estão realmente felizes de se livrarem de você.
            Yago riu, e depois de muitos abraços e “parabéns”, conseguiu se livrar de todos, e, com alguma ajuda, desceu as escadas (no prédio não havia elevador), chegando ao carro de Nathalia.
            - Belas flores - ela disse, apontando para o buquê que Yago ganhara do cirurgião que cuidara de seu ferimento.
            Yago sorriu, e uma ideia passou por sua cabeça: não eram as favoritas de Nathalia, como ele havia planejado para a ocasião, mas serviriam.
            Antes que Nathalia pudesse enfiar a chave na ignição, passou para eles as flores, dizendo:
            - Feliz um ano.
            O olhar de Nathalia alternava entre ele e o buquê, até que por fim, só conseguiu olhar para o nada.
            - Eu sei que não é lá um grande presente - continuou ele - E que está super atrasado... mas é um começo. Logo vamos poder comemorar como se deve, eu... eu prometo!
            Nathalia, derramando apenas uma lágrima, tomou as flores para si. Cheirou-as, e depositou-as no banco traseiro, e só então beijou Yago, como não havia conseguido fazer há quase seis meses. Naquele beijo, estavam depositados todas as aflições, todos os medos, todos os sofrimentos, tudo: havia muito tempo que não tinham algo daquele tipo. Ambos precisavam daquilo como nunca.
            Somente quando o ar acabara no peito de ambos, se separaram. Aquilo tornava tudo ainda mais difícil... tanto a noticia que Nathalia tinha que dar quanto o ato que devia cometer...
            - Vamos pra casa? - perguntou Yago, como se quisesse continuar o que começaram.
            - Não - Nathalia disse - Sua mãe está trabalhando no novo emprego e só vai voltar de noite, e Lucas está estudando. Não posso te deixar lá sozinho.
            - Então vamos para a sua?
            - Também não - Sua voz tremeu. - Tem algo que você tem que ver.
            - O que?
            Nathalia não lhe respondeu. Continuou apenas olhando para a frente, engolindo em seco, preocupando Yago.
            - Nathalia... - ele começou - Está tudo bem?
            Ela assentiu, ainda sem olhar para ele.
            - Então o que foi?
            Novamente, não respondeu. Apenas ligou o motor, e, com a voz embargada, ainda sem olhar para Yago, disse:
            - Enquanto você estava em coma, sua tia, Ághata, faleceu. Achei que você gostaria de lhe prestar as homenagens.

***

            Yago caminhou, lentamente, com Nathalia logo atrás, através do cemitério. O túmulo de Ághata estava um pouco mais à frente, mais na parte de trás. Passou por túmulos cinzentos, cobertos de poeira e limo, alguns já gastos pelos anos. Flores haviam crescido sobre alguns, e em outros, a grama estava alta demais. Yago se perguntou se era assim que acabaria. Num túmulo esquecido, mal cuidado, apenas uma lembrança de que existira.
            Além deles, não havia ninguém no cemitério. Estavam completa e melancolicamente sozinhos.
            O caminho de terra continuava por mais alguns metros, mas Yago saiu dele, pois já havia chegado na fileira correta. Passou por seis, sete túmulos, até achar, próximo ao limite do cemitério e começo da floresta, um túmulo alto e destacado, com diversas flores, velhas, mortas, novas e vivas ao redor.
            Haviam três fotos no centro superior, uma ao lado da outra: uma criança, uma jovem e uma senhora. A última reconheceu como sua tia, enquanto as outras duas, apesar de saber que eram a mesma pessoa, lhe pareciam completas estranhas. Fotos gastas e não-familiares, totalmente desconhecidas - como se o fato de sua tia ter sido jovem fosse algo absurdo.
            Logo abaixo, vinha a inscrição:

“Ághata Costa Felipe
1947 - 2011
Amada filha, irmã, amiga e tia.”

            Mas nada lhe chamou tanta atenção quanto a frase abaixo:

“Viveu os melhores últimos dias de vida que alguém poderia ter.”

            E então soube que sua tia tinha acordado. Pelo menos uma vez antes de morrer, havia acordado, e falado. Havia conversado por uma última vez, talvez até visto seu sobrinho numa cama de hospital, à beira da morte. E ele havia perdido tudo isso.
            Estava chorando, com as mãos de Nathalia sobre o ombro.
            - Eu sei - ele disse - Eu sei que ela viveu bem... Eu sei que ela viveu a melhor vida possível, e que partiu feliz... mas Deus, Deus... dói tanto...
            Então sucumbiu às lágrimas, abraçando Nathalia, que o confortava sem dizer uma palavra.

***

            Nathalia estacionou seu carro em frente à casa de Yago, que continuava vazia. Nathalia teve de levá-lo até dentro, e ajudá-lo a subir as escadas. Já era noite; não tão tarde, mas podia-se dormir de bom grado.
            Fê-lo deitar, suavemente, em sua cama. Preparava-se para sair, mas Yago mostrou-se mais preparado: puxou-a pelo pulso, forçando um beijo que Nathalia não foi capaz de negar: deixou-se envolver com vontade, até quase cair na cama, também.
            Quando Nathalia viu que era demais, e forçou o fim do beijo, Yago a segurou pela nuca; ainda estavam próximos, mas afastados o suficiente para não haver contato nenhum.
            - Fica - Yago pediu num sussurro - Passa a noite aqui.
            Nathalia meneou a cabeça, num gesto de “não”.
            - Não posso. E a sua mãe vai voltar logo, logo...
            - Eu não ligo - retrucou, tocando os lábios da amada mais um vez, porém brevemente - Ela pode chega a hora que quiser, pode nos encontrar como quiser... Eu não ligo. Eu quero você. Aqui, agora, para todo o sempre. Eu perdi seis meses, Nathalia, seis meses de nossas vidas. Você não sabe como eu estou me sentindo... eu preciso disso, não, eu preciso de você...
            Nathalia o interrompeu ao segurar firmemente suas mãos e tirá-las de sua nuca, assim desvencilhando-se dele. Não conseguia mais olhar para aqueles olhos. Não suportava mais adiar - não era justo privá-lo da verdade. Seria pior ainda, mais doloroso para ambos. Por mais bonito e nobre que fosse, era errado: dar esperanças para acabar com elas logo depois.
            - Nathalia - Yago disse, sentando-se - Você tem estado estranha desde de manhã.
            Ela se afastou, de costas para ele, com o rosto escondido nas mãos. Como seria finalmente falar? Qual seria sua expressão? Como ele reagiria?
            - E, bem, eu sei quando tem alguma coisa errada - Ele continuou - Eu sempre sei. Te conheço bem demais. Então me fala o que que foi, eu posso, sei lá, te ajudar...
            Ele deixou a frase morrer, esperando uma resposta. Essa mesma veio na voz embargada, com lágrimas secas de Nathalia; uma frase direta, curta e grossa, que fez tudo desmoronar.
            - Meu pai é meu guardião legal agora - disse ela - Ele estava só esperando, ao meu pedido, você acordar e poder se virar sozinho.
            Yago congelou, e nada mais parecia existir. O tempo, literalmente, parou: nada se movia. Seus pensamentos eram tão rápidos que tornavam-se de impossível entendimento. Seus ouvidos zumbiam. Não podia acreditar, não podia ser verdade... aquilo poderia ser o fim de tudo...
            E então, como se nada houvesse ocorrido, ele perguntou, automaticamente, apesar de já saber a resposta:
            - Me esperando acordar para o que?
            Nathalia fechou os olhos, como se houvesse levado uma facada no coração. Era agora, afinal. Era agora que tinha de manter a força, e seguir o cronograma gélido e cruel que preparara - a melhor forma de amarrar todas as pontas.
            - Para me levar embora de volta para São Paulo - disse ela - Para sempre. Vamos de avião dessa vez, pelo aeroporto de Cabo Frio. O mais rápido que for possível.
            Ela percebeu que havia acabado de citar cada palavra de seu pai. O tom de voz também fora o mesmo: frio, imparcial, individual. Não estava aberto à discussões - e, pela primeira vez, não soara ela mesma.
            Yago a encarava, de boca entreaberta, sem falar nada. Pareceu-se passar horas, em que os dois encaravam-se em silêncio - um tempo arrastado, irreal. Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio:
            - E você não fez nada? - Sua voz soou distante, rouca, seca: ele não acreditava, realmente não acreditava.
            Nathalia, sentindo o peito vazio de um coração morto, fez que não com a cabeça, tentando conter as lágrimas.
            - Não há nada que eu possa fazer.
            - Mas é claro que há! - Yago urrou, socando o colchão da cama, sem ousar olhar para Nathalia mais uma vez - É claro que há! Sempre houve! Havia da primeira vez, e de todas as outras! Nós podemos contornar isso, sempre podemos...
            - Mas eu não quero - sibilou ela, fazendo Yago calar-se de olhos molhados no mesmo instante - Eu não quero mais esse lugar. Eu cansei. Eu não quero mais nada disso, eu quero uma vida normal. Sem assassinos, sem vadias tentando estragar minha vida, sem nada. Normal. Eu não aguento mais sofrer apenas para acabar em mais sofrimento.
            Yago não ousou piscar, enquanto uma maldita lágrima rolava por seu rosto. E ele não pôde impedir: já não havia controle nenhum.
            - E você acha que com seu pai você vai deixar de sofrer? Como, Nathalia, me explique como você vai ser feliz voltando que nem um cachorrinho para o homem que tornou sua vida um nojo, como você vai ser feliz deixando tudo isso para trás?
            - Eu cansei - repetiu Nathalia, ignorando-o - Tudo o que eu peço, é para, por favor, tudo isso me deixar em paz!
            Mas sua voz lhe traía: estava embargando-se, perdendo a frieza. Mentia, e muito. Aceitara aquele destino, realmente por que não aguentava mais sofrer: se afastaria de Yago. Procuraria felicidade. Tudo aquilo só trouxera sofrimento para ela, e para todos a seu redor. Sua mãe morrera, quando ela devia ter morrido; Suzana fora estuprada e engravidara, e, apesar de que não era realmente sua culpa, quem sabe as coisas não teriam sido diferentes se Yago continuasse aquele quebrador de corações? Quem sabe eles nunca tivessem tido a ideia de passar um feriado em Cabo Frio?
            Quem sabe, se ela nunca tivesse se mudado para Costa Valença, tudo poderia estar bem?
            E quem sabe, agora, fugindo - pois era o que estava fazendo, fugindo - ela não poderia ser realmente feliz? Ela atraía azar, mas e os outros? Eles não tinham a chance de ser felizes, também?
            Mas a maior verdade era que tudo era simplesmente difícil demais: aquele lugar, aquelas pessoas... não conseguiria viver ali; aquele lugar fora sua ruína.
            - E de mim? - perguntou Yago - Quer que eu te deixe em paz também?
            Nathala se aproximou, com os olhos marejados, e forçou-se a encarar aqueles belos olhos azuis. Não queria ver a dor, o estrago que iria causar, mas precisava. Era necessário.
            - Quero que principalmente você me deixe em paz.
            E reinou o silêncio. Os dois presos pela dor, os dois sofrendo desesperadamente calados pelo peso de apenas umas poucas palavras.
            - Como pode dizer isso para quem te ama mais do que tudo? - Yago indagou, derramando mais lágrimas do que fizera na vida inteira.
            - Aí é que está - Nathalia disse, com a voz fraca, chorando também - Você pode me amar o quanto quiser, mas eu não te quero mais. Eu não te amo.
            E, sabendo da gigantesca mentira que acabara de contar, e sabendo que Yago também sabia disso, deu as costas e correu, chorando, deixando suas palavras ecoarem como uma sentença de morte para sempre.
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