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Toda Vez Que Você Vai Embora

Every Time You Go - 3 Doors Down

            Tentava abrir os olhos, mas era difícil; o máximo que podia fazer era gemer de dor. De repente, havia uma sensação quente, ao mesmo tempo que gélida, se espalhando por sua barriga, subindo até seu peito - algo inexplicavelmente desconfortável. Aos poucos, sentia que podia mexer seus dedos - com grande esforço, fê-los tremer de leve, e já estava cansado demais para qualquer outra coisa. Queria poder voltar a dormir, sonhar com algo novo...

            - Ah meu Deus! - Yago ouviu uma voz feminina; parecia distante demais, a duzentos metros de distância, porém, pelo timbre, era possível identificar que gritava:
            - NATHA-LIII-AAA! NATHALIA! ACORDA! ACORDA AGORA!
            Yago então ouviu um suspiro baixinho, que no entanto inundou seus ouvidos: um adorável “hm”, que ecoou em sua cabeça, repetidas vezes...
            - O que foi? - Nathalia disse, e sua voz era clara: linda, perfeita, cansada. Todo o mundo parecia se calar, pois apenas ela existia.
            - ELE ACORODOU! ELHEACORODU!
            - O-o que? - Nathalia indagou, parecendo confusa, e Yago teve certeza de que ela esfregava os olhos daquela linda maneira que apenas ela sabia fazer.
            - Yago acordou! - disse a voz feminina, ainda parecendo distante comparada à de Nathalia: mais uma vez, tudo, menos o amor de sua vida, estava longe dele; se fosse por ele, apenas os dois existiriam no mundo e de bom grado - Yago acordou!
            Fez-se silêncio; ouvia-se apenas a respiração entrecortada de Nathalia, a própria respiração fraca de Yago e sua calma pulsação, lenta, parecendo ter acordado no mesmo momento que ele.
            - O... o que? - Nathalia sibilou, desacreditada, com a voz fraca, como da última vez que Yago a ouvira.
            Aquele terrível dia, naquela terrível floresta... tudo aquilo realmente acontecera... ele estava à beira da morte...
            - Yago... - a outra garota tentou dizer, mas foi interrompida: ouviu-se um arrastar de cadeira (provavelmente Nathalia se levantando), e ele logo sentiu duas pequenas mãos em seu rosto, geladas, como se há muito não conhecessem um agasalho.
            - Yago - Nathalia disse simplesmente em seu ouvido; a sensação gelada desapareceu de seu corpo no momento em que os lábios da amada tocaram sua orelha.
            - Hm - foi o que ele conseguiu dizer.
            - Abra os olhos - Nathalia disse, com a voz ainda mais fraca e embargada - Por favor, abra os olhos.
            Então, Yago tinha forças. Aquela doce voz era tudo o que precisava. Ela lhe pediu, e ele, apaixonado, obedeceu.
            A primeira coisa que viu foi luz. Um gigantesco branco, universal, onipotente... e silêncio. Tudo calou-se. Um chiado, digno de tamanha quietude, tomou conta, e só então viu cor: traços pretos, pontos roxos e vermelhos... tomando forma. Logo eram cadeiras, uma televisão, e uma parede de cor enjoativa. Um quarto, um horroroso quarto.
            E, virando a cabeça para sua esquerda, lá estava ela: a razão de seu ser; o motivo de sua morte, bem como o motivo pelo qual viveria.
            - Na-tha-li-a - ele sussurrou, fraco, pateticamente babando.
            Mas nada importava; nenhum detalhe, apenas aquilo: aquele toque de mãos, aquelas respirações no mesmo ritmo, tudo. E o que bastou não foram palavras, mas um beijo: um doce beijo, leve, calmo, e ainda assim tão cheio de paixão! E, fracas à principio, as respirações aceleraram... como se simplesmente o amor lhes soprasse vida.
            - Nathalia, você vai acabar matando ele - disse a voz da outra garota, agora mais clara, já que Yago estava completamente acordado. Ao fim, ela deu uma risadinha, sem graça, como se arrependesse-se de ter dito isso.
            Yago desviou o olhar, por um instante, e viu a outra presente no quarto.
            - Ga-bri-e-la? - ele exclamou, e seus olhos baixaram para suas pernas: uma estava um tanto mais atrofiada que a outra, e ela usava muletas para se manter em pé.
            - Oi - ela disse, sem jeito, com um sorriso amistoso - Ah, não ligue para isso, é temporário. Vê? Só fisioterapia e estou nova em folha.
            - Hm. - disse ele, sem vontade, e voltou seu olhar para Nathalia.
            - O que... o que aconteceu?
            Ela suspirou, olhando para todos os lados, menos para ele.
            - Você não se lembra? - ela dizia, quase chorando.
            - Lembro, eu quase morri por você - respondeu ele, simplesmente, com a voz muito mais forte - Mas... ah, não, Nathalia, não estou ralhando! Pare de chorar, eu não me arrependo, ah, eu não devia ter dito isso...
            - Mas é a verdade! - ela respondeu, tornando suas lágrimas visíveis - Vocês dois arriscaram tudo por mim! Eu...
            Ela calou-se, com a voz tão fraca que acabara por desaparecer.
            - O que foi que eu perdi? - Yago perguntou, com a voz calma, receando pela resposta.
            Nathalia fungou, antes de responder.
            - Você... já perdeu o ano, faltou demais, só vai poder estudar direito ano que vem... sua mãe ia ser demitida, mas passou a trabalhar mais para te manter vivo, e foi promovida... Lucas, o Lucas arranjou uma namorada, olha!...
            A voz dela sumiu por um instante, e soluçou mais alto com a última parte:
            - Você perdeu seu aniversário... de dezessete anos, você passou aí dormindo... perdeu nosso aniversário, de um ano, foi semana passada, você estava...
            Ela não conseguiu continuar. Enfiou o rosto entre as mãos, e chorou baixinho, soluçando e suspirando.
            - Sh, sh - Yago dizia vez ou outra, tentando acalmá-la, porém não conseguia. Passou-se um bom tempo antes que Nathalia, de olhos vermelhos e rosto molhado, pudesse fugir de seu universo particular e falasse:
            - Eu... eu nunca agradeci...
            - Bem, você não teve a chance - disse Gabriela - E está desperdiçando-a agora mesmo, com esse choro bobo... vai em frente, ele salvou sua vida.
            Nathalia sorriu - Yago percebeu que era o primeiro sorriso em muito tempo. Aproximou-se novamente da orelha de Yago, e sussurrou:
            - Obrigado.
            Então levantou-se, caminhou até Gabriela, e repetiu:
            - Obrigado. Você também me salvou - E abraçou-a. Deixando cair as muletas, Gabriela abraçou-a também, fechando os olhos e deixando lágrimas caírem.
            Yago pensou que havia definitivamente perdido muita coisa.
            - Eu... - Gabriela começou, abaixando-se com esforço para pegar suas muletas do chão - Eu vou ligar para Felipe e Suzana. Eles devem querer saber que ele acordou. E a mãe dele, e o Lucas, e...
            Nathalia assentiu, e os dois assistiram Gabriela mancar até a porta e sair, sorrindo para eles.
            Agora estavam sozinhos no quarto: ambos destruídos por dentro, porém apaixonados o suficiente para ignorar tal fato.
            Nathalia aproximou-se novamente de Yago, agachando-se mais uma vez a seu lado.
            - Me desculpe - ela disse - Por tudo.
            - Aaah... que nada - Yago desconversou - É só mais uma para minha lista de “quase mortes”.
            Nathalia riu, mesmo daquela piada sem graça.
            - E Gustavo? - Yago perguntou - O que aconteceu com ele?
            O sorriso de Nathalia desapareceu no mesmo momento; Yago já sabia a resposta, mas ainda assim estremeceu ao ouvir a resposta numa voz fria:
            - Morto.
            Yago demorou um tempo, porém assentiu.
            - Essa polícia inútil só chega depois que eu quase morro, não é? - disse ele.
            - N-não - Nathalia disse - V-você não lembra?
            Yago fez que não com a cabeça.
            - Eu... não lembro de muita coisa de antes, ou durante... e, bem, depois, eu obviamente não tenho como lembrar...
            - Ele está morto. Você viu. - Nathalia forçou as palavras, praticamente cuspindo-as - Eu matei.
            Yago engoliu em seco, e piscou. Em seu rosto, havia uma expressão indecifrável - era impossível saber o que pensava. Apenas encarava os olhos molhados de Nathalia, que ansiava por uma resposta, algum sinal de perdão ou de julgamento...
            - Se... se você não conseguir mais olhar pra mim eu entendo, Yago, é horrível, eu...
            - Não foi sua culpa - ele interrompeu, com a voz doce - Ele não deixou escolha. Se tivesse, eu sei que você teria feito tudo diferente.
            Primeiro, Nathalia encarou-o. Não era o que estava esperando; queria que ele ralhasse com ela, tivesse nojo dela, a odiasse. Segundo, ela acertou um tapa forte demais em seu peito, tanto que lhe tirou o ar.
            - AI! - Ele gemeu.
            - Por que, você, tem, que, ser, tão, perfeito?! - Ela dizia, acertando um novo golpe a cada palavra.
            Seus tapas iam perdendo a força, bem como o efeito que tinha sobre Yago. No fim, ele simplesmente agarrou seus pulsos, e puxou-a para um novo beijo. Dessa vez, foi longo, ininterrupto... o amor em sua mais pura forma.
            Quando se separaram, Yago caiu na cama novamente.
            - Eu to cansado... - ele disse.
            - Eu sei, meu amor, eu sei...
            Yago olhou para ela, uma última vez.
            - Se eu dormir agora... você fica brava?
            Ela riu.
            - Yago, você dormiu por três meses... acho que posso esperar mais um pouco.
            Ele sorriu. Não estava surpreso pelo gigantesco coma, até já esperava.
            - Eu vou deixar você dor...
            - Espere - Yago disse, engolindo em seco. A dor parecia voltar, devido ao esforço, mas ele quase esquecera: ainda tinha algo para falar.
            - Que foi? - Nathalia perguntou, docemente - Tem algo errado?
            - Tem pelo menos doze analgésicos errados, mas isso não importa - ele disse, gemendo - Nathalia...
            Ele foi interrompido pelo próprio gemido, fazendo-a se aproximar ainda mais preocupada.
            - Sabe... o sótão da sua casa? - ele perguntou, e Nathalia assentiu prontamente.
            - Então... tem um baú... azul, um baú azul, você tem que olhar lá dentro.
            Nathalia estava confusa.
            - O-o que? - disse, com a voz uma oitava mais alta.
            - Olhe dentro do baú azul que tem dentro do sótão de sua mãe, eu não sei o que tem lá, mas você tem que olhar...
            - Mas...
            Nesse momento, um enfermeira entrou pela porta.
            - Ei! - ela disse - O garoto mal acordou e você já quer dar uma boa noite pra ele? Sai de cima dele, agora! Controle seus hormônios! E, ah, olha, ele já está dormindo, então saia dessa sala!

***

            Nathalia obedeceu o que Yago havia lhe dito: subiu ao sótão. Não fazia aquilo há... bem, três meses. Seria muito doloroso, ela não aguentaria... nem sabia o por que daquilo, mas confiava em Yago.
            Simplesmente o ato de subir aquelas escadas lhe causava desconforto. Abrir a portinhola, lhe causou receio. Mas simplesmente ver todas aquelas lembranças, que sequer eram suas... de sua memória, veio a visão de sua mãe, feliz, e logo depois de sua mãe, morta. E agora, sabia quem a havia matado. Mesmo que não quisesse, não podia se impedir de imaginar a cena... de imaginar Gustavo matando sua mãe.
            Mas ela ignorou. Ignorou tudo, todas as fotos espalhadas, toda a poeira da sala: seguiu direto para os baús, e levantou os lençóis de cada um: revelaram-se dois amarelos, um vermelho, muitos cor-de-tabaco, mas somente um azul: o último, o mais próximo da mesinha onde Nathalia encontrara o álbum de fotos da última vez que fora ali.
            Abriu-o, pois não estava lacrado à chave, revelando um baú completamente vazio, exceto por algumas folhas de papéis. Assim que as retirou, contou dez: todas cheias de belos desenho e molhadas em lágrimas. Uma mulher debaixo de uma árvore, alguém lendo um livro... os mais belos clichês que já vira.
            Nathalia nem folheou-os todos e largou-os de lado; não aguentava aquilo. Doía demais - passava e muito da linha do insuportável. Nunca soube que sua mãe desenhava; ela nunca perguntara. Nunca soube muito do passado de sua mãe, dos tempos Antes de Nathalia. E sentia tanto por não ouvir esses segredos direto da boca dela! Sentia tanto por não poder voltar no tempo, por não poder viver sequer um segundinho a mais com ela!
            Já ia fechar o baú, quando viu apenas mais um conteúdo: um vinil, velhíssimo, outrora preto, agora cinza. Não era um vinil qualquer: era um 78 rpm, que existia antes mesmo da criação dos vinis modernos - Nathalia sabia reconhecê-lo pois sua mãe lhe dissera tudo sobre história das artes. Tirou-o dali, e soprou. Parte da poeira voou, e foi o suficiente para criar uma nuvem. Tossiu e espirrou, até que decidiu que seria melhor limpar com um pano. Imediatamente, viu o lençol que escolhera ficar ainda mais cinza, de tanta poeira que ali tinha, mas não importava: logo, o vinil estava limpo, quase brilhando... apenas não o fazia por ser indiscutivelmente velho, antes até do tempo de sua mãe. Deveria estar na família há gerações...
            Viu, próximo ao centro do disco, uma inscrição em francês. Nada pôde decifrar, apenas uma data ali escrita: 1913. Devia pertencer ao trisavô de Nathalia.
            Ela abriu então um dos baús amarelos, e tirou dali o tocador de discos que havia visto meses antes. Fez o que sua mãe lhe ensinou, e colocou o disco para tocar...
            Sem ter onde segurar, suas pernas acabaram por ceder, e ela caiu no chão; sem dor, sem surpresa, apenas a queda. Todo o ar pareceu fugir, tudo não passava de apenas mais um detalhe, pois aquela era a música do sonho que teve com sua mãe, na primeira e última vez que subira ali. Um lindo e contínuo solo de piano, puro, tocado em sabe-se lá quais notas. Uma música que Nathalia tinha certeza de nunca ter ouvido antes, nem mesmo como bebê... uma música que deveria existir apenas em sua cabeça.
            E, antes que percebesse, estava chorando. Estava chorando, ao lembrar-se de que sua mãe partira; ao lembrar-se de que ela existira, ao lembrar-se que o sonho existira.
            E a maior verdade era que não sabia o que fazer a partir dali.
            A ideia brotou em sua cabeça, simples, porém complicada.
            Ela olhou para cima e orou. Orou pelo Deus que antes odiava, mas que agora queria apenas conhecer. Orou pois sabia que Ele estava lá, que estava escutando... orou pois recebera um sinal. Orou pois sabia que, mais anos, menos anos, veria sua mãe novamente.
            Ela pediu por uma luz - algo que lhe mostrasse o caminho. Algo que lhe tirasse daquela escuridão, que novamente aquecesse seu coração. Algo que finalmente a fizesse parar de sofrer. Pois aquela era a verdade: não aguentava mais sofrer. Se houvesse um limite, já havia o ultrapassado demais. Faltava pouquíssimo para desmoronar... para perder tudo, todos. Perder a vontade de viver.
            Ela pediu por um fim, afinal. E então, soube exatamente o que teria de fazer.

***
            Nesses três meses, foi feita uma análise psicológica completa de Gustavo: ele era louco. Realmente louco. Nathalia não havia gravado o termo correto, mas era síndrome de alguma coisa - algo que o levara a se comportar assim... foi descoberto que havia contraído isso na infância: com a morte do pai, a mãe passou a beber e espancá-lo diariamente. O resultado: ela mesma se tornara a primeira vitima.
            Felipe e Suzana desistiram da lua de mel, pelo menos por enquanto. Juraram que esperariam Yago acordar e se recuperar, e só então partiriam - por mais que ambos haviam concordado que, estando no terceiro ano, deveriam esperar pelo menos pelas férias.
A depressão de Nathalia foi agravada por um bom tempo depois de Yago entrar em coma - mais exatamente, três meses. Outro motivo foi também a morte de Gustavo; apesar de nutrir apenas nojo por ele, foi difícil superar o fato de que ele havia morrido em suas mãos, que ela mesma o matara.
            Yago fora ferido em dezembro, e acordara em março de 2011. Foi-lhe permitido sair do hospital apenas no final de maio, e ele esperava que sua vida voltasse à normalidade, que pudesse ser feliz com Nathalia... até aquele momento.
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