59

Morto!

Dead! - My Chemical Romance

            Dor.
            Via nada além de uma imensa escuridão... Silêncio, o mais completo silêncio dominava aquele lugar. Sua cabeça girava, e havia uma sensação estranha em seus pés... como se não tocassem o chão... E aquele toque gélido, em todas as partes de seu corpo...
            E é claro, a dor que lentamente se espalhava de seu peito para seus dedos.

            Então, a sensação dormente em suas pernas foi substituída por um leve e doce impacto, que pareceu espantar todas as preocupações... por mais que ainda estivesse mergulhado em escuridão. De algum modo, sabia que não havia nada ali: apenas um vácuo negro. Poderia caminhar para onde quisesse, estava livre: o escuro não tinha limites.
            Pulou, para ver se voava, e, para sua surpresa, realmente pairou no ar; não por muito tempo, claro - a sua surpresa atrapalhou sua concentração, logo fazendo-o cair.
            Tinha a sensação de que se esquecia de alguma coisa. Pareceu-lhe importantíssimo, questão de vida ou morte, mas não conseguiu se lembrar. Contrariado, deu de ombros, não sabendo muito bem se essa era a coisa mais sensata a se fazer.
            Para espantar os incômodos pensamentos, decidiu continuar a brincar: pulou novamente, e planou mais uma vez no ar, dessa vez por trinta segundos. Desejou ter asas, e, para sua decepção, não conseguiu materializá-las. No entanto, quando estalou os dedos, uma chama surgiu no lugar de sua falange. Sem muito se surpreender, não sentiu dor nem queimação ou calor algum, assim como a chama parecia iluminar apenas seu próprio corpo; o resto do lugar continuava puro breu. Sem muito pensar, enfiou o dedo em chamas na boca, e descobriu que o fogo tinha gosto de - incrivelmente - alcaçuz. Nunca havia provado alcaçuz na vida, mas reconheceu imediatamente aquele estranho gosto, que muitos odiavam e outros amavam.
            Tirou instantaneamente o dedo da boca, e viu que a chama ainda queimava. Imaginou então o fogo espalhando-se por toda sua mão, e, assim que tornou-se realidade, assoprou: sua mão apagou-se, deixando apenas um rastro de densa fumaça, e, em sua palma fechada, haviam três barrinhas vermelhas - alcaçuz. Sem muito esperar, enfiou-as na boca de uma vez só. Mal couberam, mas Yago conseguiu-as mastigá-las. Não havia imaginado mais nada, e mesmo assim viu uma grande caixa à sua frente, perfeitamente visível no escuro. Abriu-a, e encontrou barrinhas e mais barrinhas de alcaçuz.
            Perdeu não sabia quanto tempo ali, e teve a impressão de que esvaziara a caixa pelo menos três vezes - e ainda assim, ela estava cheia até a boca. Quando finalmente sentiu-se enjoado, a caixa queimou num fogo azulado e branco ao mesmo tempo, sumindo e deixando apenas um rastro de fumaça cinzenta.
            Viu-se com sede, e desejou um copo d’água. Assim o recebeu, e depois de esvaziá-lo umas sete vezes, desejou que desaparecesse, e novamente queimou no mesmo fogo branco-azulado.
            Abriu um sorriso, que logo desapareceu ao ouvir uma risada conhecida às suas costas... e subitamente lembrou-se do que era tão importante.
            - Divertido, não é? - disse Gustavo. - Seu fogo é azul... o meu é preto. Não sei por que, deve ser algo de cor favorita, ou sei lá...
            Yago duvidou muito, pois sua cor preferida era vermelha. Voltou-se para de onde a voz vinha, e se deparou ali com um garotinho de oito anos no máximo... nada parecido com o Gustavo que vira algumas horas antes. Tinha a cabeça raspada, e orelhas bastante pontudas - Yago não as reconheceu, mas logo percebeu que deviam ficar sempre escondidas debaixo de sua longa cabeleira. Gustavo tinha olhos verdes tão profundos, tão diferentes dos olhos irritados que sempre vira...
            Gustavo vestia ainda uma túnica branca, que descia até seus pés. Estava sentado no breu, brincando com o que parecia um boneco... poderia até parecer inocente, se o boneco não tivesse perdido a cabeça e apresentasse vários cortes ao longo de seu pequeno corpo.
            - Eu era fofo, não era? - disse ele, em coro com uma outra voz mais velha, porém não tão grossa quanto à do Gustavo atual - Eu gostava de brincar... Eu tinha um pai e uma mãe... - Nesse momento, surgiram um homem e uma mulher bem mais velhos, aparentando quarenta anos ou mais, ao lado do Gustavinho, ambos com grandes sorrisos nos rostos. - Eles me amavam, e eu amava eles... será que isso não bastava? Será que eu não podia ter só um pouco mais dessa paz?
            “E então...
            Assim que terminou de falar, quebrou o boneco ao meio, e os pais se foram, queimando num fogo negro-arroxeado, como Gustavo havia dito. Deixaram para trás não uma fumaça cinzenta, mas sim vermelho-sangue.
            O Gustavo de oito anos também sumiu, e, às costas de Yago, um bebê chorava. Ele se virou, e encontrou ali um Gustavo crescido, de trinta anos, com o dito bebê nas mãos. Fitava ele, balançando-o de um lado para o outro, mas nada parecia acalmá-lo.
            - Eu poderia ter sido assim - Um outro Gustavo apareceu a seu lado, dessa vez o Gustavo atual. Seu rosto nada aparentava: apenas dor, porém nenhum arrependimento.
            - Eu poderia ter sido assim - repetiu ele, apontando para o velho Gustavo - Normal. Eu poderia crescer, e ter filhos... poderia amar alguém... Vocês tiraram isso de mim. Vocês sabiam? Vocês sabiam? Nathalia era a última. A vigésima oitava. A última de todas. Só faltava ela, e então acabaria para sempre. Era apenas ela que eu queria, e então estaria livre. - Para o espanto de Yago, Gustavo derramou uma lágrima. - Você sabe o que o número vinte e oito significa? Sabe? É claro que não. Você teve sua vidinha perfeita...
            Gustavo bufou.
            - Ele não parece nada comigo, não é? - perguntou-se - Óculos de grau, barba malfeita, cabelo arrepiado, camisa xadrez... e tão calmo... ah, se eu tivesse sido assim...
            Então tudo desapareceu, deixando apenas o verdadeiro Gustavo e Yago sozinhos.
            - E vocês me tiraram isso - repetiu ele. Agora sim parecia o Gustavo que conhecia: feição furiosa, menção de ataque, vontade de matar...
            - ME TIRARAM ISSO! - Ele gritou - VOCÊS ME MATARAM! ME TROUXERAM PARA CÁ! AH, MAS EU MATEI VOCÊ TAMBÉM! HÁ HÁ! VOCÊ ESTÁ MORTO, YAGO, MORTO! E EU TENHO TODA A ETERNIDADE PARA...
            Não terminou sua frase; simplesmente pulou para o ataque.
            Yago tentou recuar, mas desastrosamente caiu. Não machucou-se com o impacto, porém: apenas sentiu um toque frio, que deveria corresponder àquele breu. Gustavo não sentiu-se compadecido, e continuou a avançar...
            No último momento, porém, independente da vontade de Yago, o fogo azulado formou um gigantesco círculo de altas chamas ao redor de seu corpo, e, para sua surpresa, pela primeira vez sentiu-se quente. Gustavo não amedrontou-se; aparentemente sentia que ali podia qualquer coisa. No entanto, assim que tocou na barreira de fogo, algo aconteceu: primeiro ele gritou de dor, e logo depois irrompeu nas mesmas chamas azuis que envolviam Yago. Porém, ele parecia realmente queimar, realmente se ferir - tanto que recuou e caiu, rolando ensandecido, tentando apagar-se. Somente quando estava a bons cinco metros de Yago, o fogo apagou-se sozinho, deixando para trás a característica fumaça.
            Gustavo não aparentava nenhum ferimento físico: apenas dor, espanto e surpresa por sair ileso, e - se assim pode-se dizer - vivo.
            - Interessante - ele disse simplesmente, mais calmo, e então fez suas chamas negras queimarem em seu corpo; as mesmas se apagaram quase imediatamente, e Gustavo não aparentava nenhuma dor ou sequela. - Muito interessante.
            - Então - ele continuou - Poderíamos passar o tempo aqui para sempre, não acha? Se essa é a outra vida de que tanto falavam, podemos esperar Nathalia aqui... por mais que, quando ela chegar, provavelmente será uma velha caquética... menos divertida ainda do que já é...
            Gustavo provavelmente não viu, dado ao breu que estavam, o que aconteceu. Yago mesmo perguntou-se se seus olhos haviam enganado-lhe...
            Uma mínima mão de bebê, feita apenas de fumaça negra, similar ao fogo que Gustavo produzia, agarrou sua barriga. De primeira, Gustavo pareceu não sentir nada, mas logo seu rosto perdeu a expressão, e seu corpo se contorceu; de algum modo, Yago sabia o que ele sentia: dor - frio - dor novamente - violentas borboletas no estomago - mais dor...
            Uma segunda mão, muito maior que qualquer mão humana, surgiu, imediatamente agarrando o pescoço e parte do queixo de Gustavo...
            Quebrou seu pescoço na hora, o que não significava muita coisa, pois já estava morto mesmo. Ainda assim, arrancou-lhe um grito de dor, e uma terceira mão, um pouco mais clara, golpeou suas pernas, fazendo-o cair.
            E como ele caiu...
            O breu já não havia limite, pois ele caía, e caía...
            Desapareceu da vista de Yago, porém seu grito ainda ecoava pelo breu, e parecia que iria para sempre ecoar.
            - Bem - uma nova voz falou a seu lado, e era estranhamente conhecida - Isso foi desagradável.
            Yago voltou o olhar para sua nova companhia, e viu um homem alto, de jeans e camisa de botão aberta, com uma camisa branca por baixo. Estranhamente, ele usava uma máscara de gás, como que para impedir-se de respirar algo tóxico ou simplesmente mal-cheiroso - e no entanto, parecia simplesmente uma mosca.
            Yago sentiu-se um idiota, mas mesmo assim perguntou, debilmente:
            - Quem é você?
            O homem riu.
            - Aqui, eu não sou ninguém. Não é lá muito bom se identificar aqui, no escuro.
            Yago não perguntou mais nada, pois, por algum motivo, entendia perfeitamente o que o homem dizia.
            - Venha - disse, simplesmente - Vamos sair daqui.
            Yago pretendia obedecer, mas não teve essa escolha: o homem simplesmente agarrou seu pulso, e a próxima coisa que percebia era algo inexplicável: todas as células de seu corpo pareciam ter se desconectado, e se sentiu como um grande nada. Ainda assim, sentiu uma inexplicável vontade de vomitar, e uma mais inexplicável ainda incapacidade de fazê-lo. O que via era apenas uma luz branca, e seu fogo azulado ocasionalmente correndo por debaixo de seus olhos e envolvendo-o completamente. Ouvia um longo zuuuuum, como milhares de carros de corrida juntos e acelerados, passando e repassando por cima das suas orelhas.
            O homem ainda agarrava seu pulso, porém Yago não o via: estava oculto na luz, formando apenas uma grande sombra.
            E então, tudo parou.
            Só então Yago percebeu seus olhos fechados. Logo abriu-os, viu uma grande prédio branco à sua frente. Na verdade, se olhasse para os lados e para trás, veria vários prédios brancos, todos iguais - tudo ali era branco, com exceção do céu azul e do chão colorido. O ar dali era mais fresco do que tudo que Yago experimentara, e tinha um gostoso cheiro de mar.
            Não sentia dor alguma. Nem medo, nem aflição. Parecia tudo bem. Pela primeira vez em um bom tempo, se sentia alegre.
            Estava tudo tão silencioso que se espantou com o canto dos pássaros. Assustou-se ainda mais com um som que parecia um gigantesco elástico se arrebentando. Olhou para seu lado, e percebeu que era apenas o estranho destravando a máscara.
            Graciosamente, ele arrancou a incômoda máscara de sua cabeça, balançando a cabeça para bagunçar seu cabelo, dando-lhe um belo ar rebelde. Tirou dos bolsos um par de óculos e encaixou-os em seu nariz. Foi impossível para Yago não reconhecê-lo imediatamente.
            - PAI! - ele praticamente berrou, e atirou-se no pescoço do velho.
            Podiam estar na outra vida ou o que quer que fosse, mas ainda assim, o senhor Marcelo não pôde se manter em pé: ambos caíram no chão, porém não se machucaram; a dura calçada de cimento pareceu momentaneamente se transformar em travesseiros.
            Marcelo devolveu o abraço ao filho, e, sem o menor esforço (apesar de Yago ter quase 1,85 metros e pesar uns bons sessenta quilos), levantou-o, pondo-se de pé, também.
            Novamente levantados, ambos abraçaram-se mais uma vez, e só então Yago percebeu que estava chorando.
            - Eu senti tanto sua falta...
            - Eu sei, filho, eu sei - disse ele docemente - Agora seria a hora de uma conversa de pai para filho, porém, você não tem muito tempo. Tem que entrar aí - e, com a cabeça, apontou para o prédio.
            - Para que? - perguntou Yago, ainda chorando, porém com a voz firme e sem soltar sequer um soluço.
            - Ora, vai ter que entrar aí - disse ele - Espera, será que esse é o prédio certo... não, esse é o 66789, o certo é o 76789... vamos ter que andar uns cinquenta quilômetros...
            Na verdade, não foi necessário; nem tiraram os pés do chão: enquanto a calçada e a rua permaneciam paradas, os prédios se moveram como uma roleta. Logo, havia apenas uma mancha branca, de tão rápido que rodavam. Alguns segundos depois, enfim, começaram e desacelerar, até o prédio número 76789 parar exatamente à frente de Yago.
            - Bem, é aí - disse Marcelo, e antes que Yago pudesse perguntar qualquer coisa, completou: - Vamos, entre logo, você já está atrasado!
            E, dizendo isso, queimou em um fogo branco-esverdeado, e desapareceu.
            Yago tentou limpar as lágrimas, e percebeu que eram grudentas e vermelhas. Assustado, limpou um tantinho com o indicador e levou o líquido a boca: riu, pois tinha gosto de alcaçuz.
            Sem muito o que fazer, Yago, depois de se deliciar com seu choro (Falando assim, até parece masoquismo, pensou), obedeceu: caminhou, primeiro temeroso, depois com urgência para dentro do prédio.
            Assim que atravessou o portão exageradamente grande, deixou sua boca cair: o corredor, apesar de estreito, devia abrigar umas quinhentas pessoas; não havia portas em seu comprimento, apenas uma, quase invisível, no fim. As pessoas empurravam umas às outras, e havia muito falatório ali; todas pareciam estar se dirigindo àquela mesma sala, e Yago não viu outra alternativa a não ser fazer o mesmo.
            Porém, desistiu de tentar adentrar no empurra-empurra. Era quase impossível furar a caótica fila, então teria de esperar sua vez. O ritmo de entrada era tão lento que pareceu passar-se uma hora até que Yago se visse um tantinho perto da porta. Para sua sorte, fora o último a chegar; assim, não haveria uma segunda multidão às suas costas para empurrar-lhe.
            Ainda assim, algum estranho conseguiu tropeçar e cair para trás, bem em cima do corpo de Yago. Novamente, o chão amoleceu ao seu toque, mas o corpo do desconhecido, não. Para seu azar, o homem parecia pesar uns cem quilos... só percebeu que tinha-o arremessado para o lado, como se tivesse o peso de uma pena, quando pôde respirar novamente.
            O homem levantou-se, de olhar indignado, como se fosse a culpa de Yago que ele tivesse caído. Ajeitando suas roupas, murmurou algo que parecia um palavrão, e instantaneamente um trovão ribombou. Murmurou suas desculpas, e, ainda olhando feio para Yago, atravessou a porta, que se fechou com a multidão espremida lá dentro.
            Em poucos segundos, Yago estava de pé, desesperado, frente à porta. Será que ainda dava tempo para o que quer que fosse? Abriu-a sem dificuldade, e adentrou.
            Para sua surpresa, a imensa sala - a mesma que vira quando a porta outrora estivera aberta - estava completamente vazia. Havia uma única cadeirinha à frente, bem no centro da sala, e, ao fundo, havia um quadro negro e uma mesinha de madeira, com um senhor sentado nela. Vestia calças e camisa sociais, e, assim que Yago entrou, levantou-se. Estava à aproximadamente cem metros da cadeira, de modo que simplesmente gesticulou para Yago sentar-se.
            Apesar de estar à uma distância parecida, Yago chegou antes, e sentou-se imediatamente. O senhor deixou uma folha em cima da mesa - Yago tinha certeza de que o tinha visto de mãos vazias desde que começara a caminhar - e fez menção de voltar à sua mesa.
            - Ahn, desculpe, senhor - começou Yago - Mas... o que devo fazer com isto?
            - Faça o teste - o velho disse, amável porém firmemente, sem se virar.
            Com uma grande interrogação na cabeça, Yago abriu a primeira folha, e a primeira coisa que viu foi:

1)    Qual foi sua última boa ação?

A princípio, ficou em dúvida, porém, ao ver as linhas abaixo do enunciado, viu que era realmente um teste. Até no céu temos prova?, reclamou mentalmente. Sentiu então algo pequeno e cilíndrico no bolso, e dali tirou uma caneta que com certeza não estava ali antes. Sem muito pensar, escreveu: Morri para salvar uma vida. E, depois de examinar novamente a pergunta, decidiu completar: (a de minha namorada).
Estava bom, pensou, então partiu para a segunda questão:

2)    Você se arrepende?

Imediatamente, escreveu “não”. A terceira pergunta enunciava Por que?, e logo percebeu que cada resposta dependia da anterior; não somente isso: cada pergunta se formava a partir da resposta anterior. A nona pergunta finalmente pareceu ter saído daquele assunto: Você ora regularmente? Na vigésima segunda, corou: Você é virgem? Pior foi a vigésima terceira: Se não, é casado? Virou a página, e finalmente percebeu que todas as perguntas estavam pré-formuladas, e eram bem curtas; com pressa, virou até a última folha, e leu:

369) Em algum momento desse teste, você mentiu?

Primeiro, sua mente enrubesceu - havia considerado dizer que ainda era virgem. Depois, decidiu não mentir e reclamou em silêncio: tinha ainda trezentas e quarenta e oito perguntas para responder, o que dava umas cinquenta páginas.
Embaixo da última pergunta, havia escrito:

Extra) Quer nos perguntar alguma coisa?

Olhou para a questão. Leu e releu. Não havia uma grande curiosidade em sua cabeça, pois, falhando ou aprovando-se, acabaria por receber todas as grandes respostas do mundo assim que terminasse o teste. Então, depois de pensar um pouco, escreveu:

Por que Gustavo não fez esse teste?

Assim que retirou a caneta do papel, as letras pareceram secar; não apenas na tinta, mas na essência: elas desapareceram do papel, como num passe de mágica. Logo depois, na mesma tinta, apareceram as palavras:

Gostamos de oferecer perdão a todos... que se arrependem. Sem arrependimento, continuar-se-á a errar, e o inevitável sofrimento está a espreita, apenas esperando esse erro. Gustavo não arrependia-se. Não tivemos escolha.

Yago arrepiou-se, pois sabia o que queriam dizer.
Espantando esse pensamento, decidiu continuar o teste.
      Depois do que lhe pareceram seis horas, ele se levantou. Havia feito todas as questões, e sua mão não doía nem um pouco. Pretendia caminhar até a mesa do senhor, mas não precisou: ele estava bem à sua frente.
      - Mas que... - Yago ia dizendo, porém o senhor levantou o indicador em sinal de silêncio.
      - Shhh - ele disse, simultaneamente - Você pode ter ido muito bem no teste, mas uma palavra feia lhe faria perder alguns pontos...
      Antes que Yago pudesse responder, o senhor tirou o teste de suas mãos, e fê-lo arder em chamas amareladas, muito próximas do que seriam no mundo real.
      Yago pensou em reclamar, mas logo o examinador disse:
      - Oh, que bom. Você foi aprovado.
      E esboçou um grande sorriso.
      - É realmente gratificante! Seu pai é um bom amigo meu, seria uma tragédia se te levassem daqui...
      E, com um gesto de mãos que parecia significar “pode ir”, Yago desmaiou, batendo a cabeça contra o chão que dessa vez não amoleceu.

***

Acordou - inacreditavelmente - num campo florido. Antes mesmo de se levantar, já estava rindo.
Seu pai estendeu-lhe a mão, ajudando-o a pôr-se de pé, e assim que o filho estava à sua altura, abraçaram-se, rindo juntos.
- Era isso então que era tão importante? - perguntou Yago, sorrindo.
- Todos tem que passar por uma provação... em algum momento no meio de todos esses séculos, eles devem ter percebido que era melhor aterrorizar-nos com uma prova do que com nossas lembranças; o ser humano sempre vai temer uma avaliação.
Yago sorriu, revirando os olhos. Então avistou um senhor, careca, de roupas surradas, sentado num banquinho no meio das flores...
- Aquele ali é o vovô? - perguntou, franzindo a testa, como se não acreditasse nos próprios olhos.
-Ah - seu pai disse - É sim...
- Vamos ver ele!
- Yago... acho melhor não.
- Mas por que, ele deve ficar feliz em me ver! - Yago reclamou, e pela primeira vez lhe passou na cabeça a ideia de que seu pai talvez estivesse certo... porém ainda precisava de uma explicação.
- Ah, claro, ele ficará radiante em lhe ver... - respondeu Marcelo; Yago notou que, como todos os outros, seu pai falava de modo formal. Talvez fosse alguma coisa do céu - Mas não agora.
- Mas por que? - repetiu Yago, birrento.
- Você lembra como seu avô morreu?
Yago exclamou um “ah!”. Seu avô morrera num incêndio, no galpão que mantinha atrás de sua casa, quando tinha seis anos. Entendeu tudo, subitamente.
- Ele ainda morre de medo de fogo - continuou desnecessariamente seu pai - Nenhum de nós pode chegar muito perto dele quando conjuramos nossa... bem, não criamos exatamente um nome, então chamamos simplesmente de “chama” ou “fogo” mesmo. Ele mesmo não consegue criar um próprio! É horrível quando ele imagina algo, pois todo menor pensamento se torna realidade aqui por meio da chama...
“Por isso, acho melhor ele se acostumar com você um pouquinho, antes... bem como você se acostumar com sua própria chama, você deve aprender a domá-la, antes de tudo...
Yago sorriu, não se contendo.
- O que foi? - Marcelo perguntou.
- Nada, é só... lembra daquelas histórias de ninar, que você contava pra mim e pra Lucas... - Yago parou. De repente, lembrar-se do irmão lhe deixava triste. Lhe fazia lembrar-se do que havia deixado na Terra. Nathalia, Suzana, Felipe, Alex, sua mãe...
- Lembro sim - seu pai disse, sem perceber no que o filho pensava. Assim que Yago voltou à concentrar-se nele, viu que Marcelo sorria - “E então, o príncipe fez sua mão queimar, e uma bela chama iluminou o quartozinho da princesa...” Não achei que pudesse ser verdade, um dia...
- Como você faz? - Yago perguntou, interrompendo-o, já sem curiosidade quanto à própria infância.
- Perdão? - seu pai perguntou, naquele tom formal que Yago tinha medo de acabar por adquirir.
- Como você faz para lidar com tudo isso - respondeu, e fez um gesto com o indicador indicando todo o lugar - Bem, nós estamos mortos. Não era pra gente se sentir pelo menos um pouquinho... mal?
Seu pai encarou-o por um momento, pensativo. Com uma expressão de pesar, ele disse:
- É verdade, não cheguei a te perguntar - Seu tom era de como se pedisse desculpas - Desculpa, filho, mas... como você morreu?
Yago suspirou. As lembranças da dor, do sangue, das súplicas ainda lhe eram muito vívidas. Nathalia... lembrou-se de suas lágrimas, das promessas que lhe havia feito. Agora ela realmente estava sozinha. Teria de lidar com tudo aquilo sozinha. Com a morte da Sra. Rodrigues, com a própria morte de Yago... teria de explicar para sua mãe o que acontecera; como ela e Lucas lidariam? Culpariam Nathalia? Não, não poderiam, não seria justo; mas desde quando a morte era justa? Será que poderia voltar, nem que fosse por alguns segundos, apenas para dar um sinal de que estava tudo bem?
- Me mataram - Yago disse - Esfaqueado.
O rosto de seu pai distorceu-se, e ele fechou os olhos, como fazia quando estava com raiva ou vergonha.
- É claro - ele disse - Você era saudável demais... e tão jovem...
Aproximou-se então, e pousou a mão no ombro do filho.
- Onde foi, filho?
- Na barriga.
Sem cerimônia, Marcelo levantou sua camisa até a altura do peito, mais ou menos. Primeiro, Yago não entendeu, mas então, olhando para a própria barriga, viu: um grande corte, vermelho e preto ao mesmo tempo, partindo desde o diafragma até o umbigo. Ainda mais assustado, percebeu que, de repente, saía uma fumaça acinzentada do ferimento...
Sem aviso, a chama branco-azulada queimou na extensão do corte, fazendo Marcelo pular para trás, assustado. Yago gemeu; era a primeira vez que sua própria (ahem, sua mente fez questão de pensar, um tanto cética) chama o feria, e era um tanto desconfortável: sentia, obviamente, uma queimação, porém ela se espalhava por todo o corpo, desde os frios dedos dos pés até sua cabeça, onde os pensamentos rodavam a mil. Ainda, sentia como se a faca entrasse novamente por sua barriga, porém mais suavemente - a lâmina era mil vezes mais gelada, dando-lhe uma engraçada sensação de calor e frio ao mesmo tempo, porém parecia feita de massinha, e brincava com seu estomago, fazendo-lhe cócegas.
Assim como começou, terminou, e Yago teve apenas a incômoda sensação de que havia engolido algo grande demais. Olhando para a própria barriga, percebeu que o ferimento ainda estava ali, com a mesma horrível aparência que antes, porém sem fumaça. Yago percebeu que fora ele quem invocara a chama; ele se assustara, e em razão disso, a chama viera lhe proteger. Porém, acabou que só serviu para lhe dar uma terrível ânsia de vomito - o que rendeu uma interessante pergunta: Será que vomitamos no céu?
- Foi bastante feio - seu pai disse, depois de se recuperar; aparentemente, já vira coisas do tipo acontecerem - Quem lhe causou isso?
- Um amigo meu. - Yago respondeu, simplesmente, porém com o estomago revirando ainda mais.
- Amigo?
- Ah, ex-amigo.
- Hum - Marcelo murmurou - Você deveria escolher melhor seus amigos...
- Eu sei - retrucou Yago, impaciente, porém involuntariamente educado - Ele era um assassino... não só meu, mas um serial killer, o bobão (pretendia falar algo bem menos educado, porém, novamente sem querer, sua boca formou a palavra sozinha) mantinha todos os corpos no porão da casa...
- Ah, espero que tenha caído direto para o...
- Caiu mesmo. - apressou-se em responder, como se a menção daquele outro lugar fosse uma maldição - Eu vi.
- Ah - ele exclamou, e pareceu mais aliviado - Bom, bom... e qual era o nome dele?
- Gustavo.
- Gustavo?
Aquela não era a voz de seu pai. Era indiscutivelmente de uma mulher - provavelmente jovem, pelo timbre. Yago olhou por cima do ombro de Marcelo, e, a aproximadamente vinte metros deles, viu a dita mulher correndo em sua direção. Parecia ter saído de lugar nenhum, e Yago se lembrou de que era bem possível que realmente tivesse acontecido.
Vestia jeans e uma camisa sem decote, rosa, com uma simples estampa de uma bela cruz ornamentada de brilhantes, para sua surpresa, verdadeiros. Uma imagem passou por sua cabeça: haveria uma lojinha no céu? O que venderiam depois, roupas de guerra escritas “Exército de Cristo?” Riria, se não tivesse visto, com sua nova e melhorada visão, a dita loja a uns dois quilômetros de onde estavam.
A garota, que era bastante bonita, parou perto de onde estavam, e disse:
- Você disse que um Gustavo te matou?
- Ahn, é - Yago respondeu, confuso.
- Como ele era? - uma nova voz perguntou. Ainda feminina, dessa vez soava um tanto mais velha. Yago olhou para seu lado direito, e pulou de susto: uma mulher de uns trinta anos, vestida com roupas igualmente religiosas, estava à seu lado.
- Alto, cabelo liso, cara de idiota? - outra voz ainda perguntou, e uma garota de dezoito anos no máximo estava do lado esquerdo de Yago.
- Vivia de jeans?
- Sempre arrastava você para uma festa?
- Que interessante, escolheu um homem dessa vez...
As vozes não paravam de vir, principalmente de mulheres. Não demorou muito para notar: eram outras vítimas de Gustavo. Havia alguns outros homens ali, três no máximo; todos diziam que haviam morrido por ficarem no caminho.
- Ah, se ele estivesse morto... - uma mulher de quarenta anos falou.
- Ele está - disse Yago, cansado de tanto repetir - Eu vi ele morrer.
Fez-se silêncio, mas não por muito tempo. Logo o ar estava contaminado de vivas e comemorações. Cada um com sua respectiva chama, criaram fogos de artifício e jogaram para o céu, criando uma chuva colorida. Outros criaram garrafas de vinho, e quebraram nas cabeças uns dos outros, sem aparentar causar dor.
- Está bem, está bem! - o pai de Yago logo disse, controlando-os. Todas as chamas se apagaram, exceto à de um cara que aparentava cinqüenta anos: ele sem querer queimou as próprias calças.
- E onde está a garota que ele perseguiu dessa vez? - uma vozinha saiu da multidão, incrivelmente doce e novamente jovem demais.
- Viva - respondeu Yago, com pesar - Eu morri pra salvar ela.
Não houve espaço para silêncio dessa vez: todos exclamaram um “AH!” ao mesmo tempo, e começaram a cochichar. Passaram a encará-lo com intensa admiração, que Yago pensou que fora devido ao seu sacrifício. Porém, a cada segundo que passava imaginou que era algo mais...
- Então, você... - a mesma vozinha começou a dizer, mas logo foi interrompida por Marcelo:
- Silêncio! - ele gritou, e assim se fez. Voltou-se para Yago então, com um orgulhoso sorriso no rosto, e lhe disse: - Tire a camisa, filho.
Yago obedeceu instantaneamente, por mais que estivesse um tanto envergonhado em fazê-lo frente à tanta gente. Porém, qualquer pensamento desapareceu de sua cabeça na hora, sentindo algo diferente em suas costas...
Espantado, olhou de leve para trás, e quase pulou: duas belas asas, branco-azuladas, haviam saído de suas costas assim que tirou a camisa, como se sempre estivessem ali. Bateram de leve, levantando-o poucos centímetros do chão, ao mesmo tempo que levantava poeira exatamente na cara da multidão, que reclamou, ainda admirada. Eram gigantesca: pareciam se estender por dois metros cada, e um batida mais forte o fez flutuar quase cinco metros acima das cabeças dos que lhe observavam. Com leveza, deixou-se cair, ainda brincando com as asas. Seus pés tocaram no chão, e as belas asas se fecharam, permitindo que pudesse andar novamente, por mais que carrega-se novos dez quilos nas costas.
- Ai, que vontade de pecar - disse uma garota, que instantaneamente se calou. Por mais que tentasse falar, não podia: sua boca estava lacrada.
Todos riram, o que levou Yago à conclusão de que não era algo permanente. Riu também, sentindo-se mais leve.
- O que foi que aconteceu? - perguntou, alguns segundos depois, para seu pai.
- Ora - ele respondeu, sorrindo - Você morreu da forma mais honrosa que podia: salvando alguém que amava. Não poderia esperar menos de meu filho... - e bagunçou-lhe os cabelo, que agora não estava mais arrepiado, e sim caído na testa - E, bem, você teve sua recompensa. Você tem asas, Yago, e agora, quem sabe, poderá ser um anjo... se quiser, pode até fazer guarda para essa sua namorada...
O rosto de Yago se iluminou. Poderia voltar à Terra? Poderia ficar com Nathalia para todo o sempre? Mas então, pensou nas diversas complicações: e se ela se apaixonasse por outro? Teria de presenciar e protegê-la mesmo assim... mas doeria tanto! Porém, doeria ainda mais vê-la sofrer por sua morte. Por um momento, pensou no que aconteceria se se revelasse para ela... Cairia do céu? Bem, que assim fosse; qualquer sofrimento valeria a pena por apenas mais um mísero, talvez mal aproveitado, momento com ela.
- Mas me diga - seu pai logo voltou a falar - Qual era o nome dela? Da garota por quem você morreu?
- Nathalia - Yago respondeu imediatamente, e sorriu, feliz com a sensação que o nome de sua amada lhe trazia.
- Nathalia?! - uma voz imediatamente gritou, atrás de toda aquela multidão.
As pessoas imediatamente abriram caminho: uma mulher vinha correndo, de roupas familiares, voz familiar, rosto familiar...
- Sra. Rodrigues...? - Yago exclamou para si mesmo, tão baixinho que nem seu pai ouviu.
Surpreendeu-se ainda mais quando a mãe de Nathalia pulou em seu pescoço, abraçando-o, fazendo-o cair para trás. Yago apenas não chocou-se contra o chão por causa de suas asas, que o projetaram no ar imediatamente.
- Querido... não... - a Sra. Rodrigues disse, chorando lágrimas coloridas com cheiro de jujubas - Você também não... ah, que horror, mas que horror!
- Não se preocupe, senhora... - Yago apressou em consolá-la - Olhe só! Tenho asas! Eu posso voltar para a Terra e cuidar de Nathalia!
Imediatamente, o rosto da mulher se iluminou. As lágrimas, grotesca e comicamente, voltaram para seus olhos, com um ruído de sucção um tanto incômodo. Ela abriu um sorriso, e abraçou Yago novamente, soltando um gritinho de comemoração, antes de dizer:
- Então ela está bem? Nathalia está viva?
- Está sim - disse Yago, compartilhando da mesma alegria - Ela vai viver! E eu vou voltar pra ela!
Depois de sorrirem, se abraçarem e gritarem por alguns momentos, de modo que nunca haviam feito em vida, a mãe de Nathalia voltou a chorar.
- Eu sinto tanta falta dela... - disse, enquanto as lágrimas escorriam ainda mais furiosas do que antes, talvez por terem se acumulado no momento em que voltaram para os olhos - Ah, queria poder voltar também...
- Bem... - disse Yago - Quer que eu leve algum recado?
Novamente, as lágrimas voltaram para os olhos da senhora, e suas olheiras pareciam inchar, tantas lágrimas que continham agora.
- Você faria isso por mim?
- Claro... a senhora é a mãe dela, devia ter mais do que direito...
Não se conteve: as lágrimas pareciam pular de seus olhos, como uma cachoeira, até que seu rosto voltasse ao normal. Sorria, no entanto, e abraçou-o novamente.
- Ah - disse ela, alguns momentos depois - Um recado... um recado... Ah, Deus, o que posso falar...
Nesse exato momento, as asas de Yago queimaram num fogo branco-azulado.
- Mas o que... - todos pareceram exclamar ao mesmo tempo, mas isso não chegava nem perto do espanto do momento em que perceberam que as asas haviam desaparecido.
Várias pessoas gritaram xingamentos e palavrões, e suas bocas foram instantaneamente lacradas.
- Minhas... minhas asas... - Yago disse, de olhos arregalados - O que aconteceu...
Novamente, não teve tempo para nada: seu corpo inteiro brilhou, branco-azulado, e, olhando para trás percebeu que tal luz vinha de um raio: atravessava o imenso campo inteiro, e adentrava no céu, desaparecendo debaixo da nuvens...
- Ora, ora, ora - disse seu pai, com um sorriso que parecia satisfeito e triste ao mesmo tempo.
A mãe de Nathalia soltou-o na hora, sorrindo também, porém, mais espantada.
- Mas o que...
- Você está voltando, Yago - disse a Sra. Rodrigues, com a voz fraca, porém feliz.
- Mas... mas já?!
- Não como anjo, meu filho... - seu pai continuou - Mas, aparentemente, você sequer esteve morto...
- O... o que?
Ele gemeu, pois o raio acabara de lhe dar um choque.
- Se quiser dar sua mensagem, agora é uma boa hora - disse seu pai, se dirigindo à Sra. Rodrigues.
- Ah... claro - respondeu ela, parecendo ansiosa.
- Mas o que está acontecendo?! - Yago perguntou novamente, por mais que já tivesse entendido.
- Você vai voltar para sua namorada, filho... para sua mãe, sua irmão...
- Ah, já sei! - disse a Sra. Rodrigues - Por favor, diga-lhe para abrir o baú azul, no sótão, e...
Yago gravou a mensagem, porém não pareceu entender. Diria aquilo para Nathalia, se estivesse realmente voltando para a Terra...
- Pai! - ele exclamou - Mas você vai ficar sozinho...
- Ora, não se preocupe - o senhor respondeu, sem convicção, ainda com aquele sorriso triste - Você vai voltar daqui a uns cinquenta ou sessenta anos, e o tempo aqui passa como um raio...
Derramando uma lágrima, beijou a testa do filho.
Os olhos de Yago mal captaram o que se seguiu. Estava a trezentos por hora, se afastando da multidão... de seu pai, da Sra. Rodrigues... vendo tudo como uma montagem de clipes, e nada fazia sentido... então, escuridão; luz; chama; os rostos daqueles que amava...
E, sem saber como, estava de olhos fechados, respirando novamente o ar a que estava acostumado - estava vivo.
Reações: