Oi galero ;) Então, cá estamos com #SILENCIAR novamente, dessa vez na reta final. Caso ainda não tenham visto o cronograma nem o anunciamento do próximo livro, clique aqui. Enfim, espero que gostem muito desse inicio do fim ;)


58

Avenida Dos Sonhos Quebrados

Boulevard Of Broken Dreams - Green Day

            Nathalia gritou.
            Gustavo ria-se, como se todas suas dores tivessem tornado-se míseras cócegas, e largou o punhal da faca. Yago escorregou, caindo para trás com a faca ainda cravada em sua barriga, o fluxo de sangue imediatamente manchando sua camisa; porém, sabia que a hemorragia seria ainda pior se arrancasse dali, pois não haveria nada para estancar, mesmo que toscamente, o sangue que jorrava.

            Ele caiu de costas, com um gemido perplexo e assustado. Pareceu não ter forças para levantar, para revidar, sequer para levantar os olhos...
            E assim ficou, fazendo imenso esforço para levantar o pescoço e acompanhar com os olhos o que acontecia... e ainda assim falhando. Estava tão à mercê dos acontecimentos alheios que o máximo que fazia era espuma pela boca: saliva e sangue, misturados num macabro tom rosa...
            E Nathalia não deixou de gritar nenhum segundo.
            Mas quando Gustavo se aproximou mais, fazendo menção de que ia arrancar a faca da barriga de Yago...
            - NÃO! - Ela gritou, lágrimas nos olhos, voz extremamente embargada e distorcida, e, mesmo sendo pequena comparada à Gustavo, ela se lançou sobre ele.
            Aparentemente, ele não estava esperando isso, tanto que caiu com o impacto, batendo a cabeça numa árvore antes de atingir o chão. Nathalia ouviu o barulho de tecido rasgando, para depois descobrir que era a camisa de Gustavo - exatamente como haviam feito, naquele dia de chuva em Cabo Frio. Pareciam ter se passado anos, como se aquela lembrança nada mais fosse do que um sonho, quando tudo ainda era inocente...
            Voltou a realidade, com a mão de Gustavo envolvendo seu pescoço, impedindo todo e qualquer ar de entrar por ali.
            Ele arremessou para trás, e foi a vez dela de cair de costas. Com um grito abafado, que saiu como uma desesperada inspiração, sentiu-se atingir o chão, porém, seu vestido não rasgou. Bateu a cabeça contra a terra, é verdade, com grande força, e viu o mundo girar por um momento - e no momento seguinte, Gustavo estava apertando seu pescoço com ainda mais força, subindo por seu corpo até estarem cara a cara...
            Ele soltou um ganido, um riso de vitória, enquanto um sorriso crescia cada vez mais em sua cara, sua mão se fechando na laringe de Nathalia.
            - Te peguei - ele sussurrou, e voltou a rir.
            Como sua mão direita estava imobilizando-a, usou a esquerda para lhe fazer um carinho no rosto, na região das maçãs. Com o indicador, traçou a linha de seus lábios, descendo até o queixo, passando diretamente por seu pescoço e chegando ao peito... então, com a mão aberta, agarrou seu seio direito, arrancando-lhe um gemido de dor.
            - Você foi uma garota muito má, não foi? MUITO MÁ!
            Com isso, deu-lhe um tapa nas costelas; não forte o suficiente para arrancar-lhe o pouco ar que lhe restava, porém, bem localizado o suficiente para deixar uma marca de mão vermelha, e uma ardência característica.
            Apertou mais ainda o seu pescoço. Agora o gemido havia se transformado numa espécie de gritinho débil e curto, que para nada servia, além de denunciar à Gustavo o que ele queria saber: que Nathalia sentia imensa dor para respirar - para se manter viva.
            Desceu ainda mais sua mão, passando-a com força contra a barriga de Nathalia - o que deixaria novos vermelhidões -, encontrando finalmente suas pernas, que não teve vergonha nenhuma de agarrar.
            E, assim que levou sua mão até o rosto de Nathalia, tascou-lhe um nojento beijo.
            Não foi como Yago - para falar a verdade, não foi sequer parecido ao beijo de nove meses antes. Foi excessivamente molhado, excessivamente desesperado... os lábios de Nathalia estavam duros, sem retribuir sequer um momento. Gustavo se virava como podia, mas a boca da menina parecia estar lacrada. Ela gemia, de lábios e olhos fechados, virando o rosto para tentar se livrar do toque de suas bocas, e tudo que conseguia era ter o canto de sua boca e a bochecha lambuzada.
            Ele não parou. Continuou por um bom tempo, como se fosse o melhor momento de sua vida.
            E abriu os olhos, louco da vida. Parecia só agora ter percebido que aquilo não o levava a nada. Com pesar, recuou sua boca, que agora se contorcia irada. Sua expressão denunciava puramente raiva, puramente um extinto assassino...
            Ele acertou na cara de Nathalia o tapa mais forte que ela receberia em toda sua vida.
            - POR QUE ELE? - gritou Gustavo - POR, QUE, ELE?!
            A cada palavra, acertou um novo tapa.
            Nathalia derramava novas lágrimas, e seu rosto não adquiria simplesmente um tom vermelho: formava um verdadeiro hematoma, como se tivesse levado um soco. Soluçou, deixando levar-se pela dor... mas não teve tempo - Gustavo logo recomeçou a pancadaria.
            - EU SOU MELHOR! - acertou com isso um tapa na face direita de Nathalia - EU SOU MELHOR QUE TODOS VOCÊS! - outro tapa, na face esquerda - EU PODIA MATAR TODOS VOCÊS! HÁ HÁ! EU VOU MATAR TODOS VOCÊS!
            E, balbuciando palavras ininteligíveis, continuou a golpear repetidamente a cara de Nathalia, até deixá-la insensível.
            Quando finalmente parou, estava ajoelhado, arfando, sobre uma Nathalia chorosa. Seus longos cabelos loiros formavam um emaranhando, bagunçados para todos os lados, amontoados principalmente sobre seu rosto, logo escondendo-o. Debaixo dos tantos fios, ela soluçava, chorava e sangrava, pois os hematomas haviam se aberto como bolsas d’água. Fora tão ferida, tão marcada - física e emocionalmente -, que seu corpo todo tinha espasmos; seus soluços percorriam todo caminho até seu peito, ás vezes saltando do chão, com muita dor. Estava suja de terra em quase toda sua extensão: sua pele ligeiramente morena estava coberta de grossas marcas pretas, e em certos intervalos, os grãos de terra mostravam-se visíveis. Coberta de lama, também, fazendo o vestido e alguns fios de cabelo grudarem-se à pele, suja também das características marcas marrons.
            Gustavo puxou-a pelos ombros do vestido, agarrando também seu decote, e levantou-a, como se Nathalia fosse um garoto qualquer, e como se estivesse levantando-a pela gola da camisa; não, aquele vestido machucava muito mais do que qualquer camisa. Aproximou-a bastante de seu rosto, até que ambos pudessem sentir suas respectivas respirações.
            - Você é fraca - ele sussurrou - Fraca. Inútil. Precisou de dois amigos para te salvarem, e foi por você que esses dois falharam. Por você, esses dois vão morrer... mas não sem dor, claro, eles me causaram muitos problemas, e, ah!, como vai haver dor! - riu baixinho - Por você, está vendo, e ainda assim você não pode fazer nada. Vou garantir que assista. Vou garantir que veja eu arrancar aquela faca de Yago e ele gemendo de dor até morrer. E quantos tiros você acha que Gabriela aguenta? Em quantos lugares diferentes?
            Ele gargalhou mais uma vez, jogando a cabeça para trás, enquanto Nathalia não pôde fazer nada além de soluçar.
            - E... e ainda assim - ele gaguejou, em meio ao riso - Ainda assim você não faz nada! NADA! Seus amigos estão prestes a morrer e você só faz chorar...
            E então, Nathalia, com a cabeça pendendo para um lado, viu.
            Yago, ainda agonizante, porém indiscutivelmente vivo - graças a Deus -, segurava a região em torno de sua barriga, sem arrancar a faca; claramente, também achava que isso seria um ato extremamente idiota. Porém, não foi o namorado moribundo que atraiu sua atenção, e sim...
            ... a arma que Yago trazia, caída ao lado do dono - cinco balas, pela contagem de Nathalia, mais do que o suficiente...
            Olhando novamente para Yago, ela o viu juntar todas as forças que tinha para piscar lentamente com um olho só: um sinal de confirmação. Era isso que ele queria.
            Tirando forças não sabia d’aonde, Nathalia subitamente percebeu que seu braços estavam livres, e, sabendo que não era dotada de muita força, procurou atingir Gustavo em uma área mais sensível: socou sua garganta, que percebeu que, por algum motivo, era cheia de hematomas, e, vendo suas pernas livres, tentou acertar sua virilha; não conseguiu com tanta força, porém, viu-se livre por tempo o suficiente para empurrá-lo de lado e levantar-se, correr...
            Em poucos segundos, estava ao lado da arma, empunhando-a, e apontado-a para um Gustavo que parecia se recuperar rapidamente.
            Yago gemeu ao seu lado, e Nathalia teve vontade de dizer alguma coisa para confortar-lhe, mas não podia desviar sua atenção.
            Gustavo, ao perceber que havia uma arma apontada diretamente para sua cabeça, limitou-se a rir, debochado.
            - Você não tem coragem - disse, simplesmente.
            As mãos de Nathalia tremiam; nunca havia sequer considerado aquela opção, a de não conseguir. Será que conseguiria puxar o gatilho? Será que precisaria? Não poderia simplesmente render Gustavo? Ou tentar?
            - Vamos! - rosnou Gustavo - Se você quer tanto assim, me mate! Atira!
            Nathalia não parou de tremer, e aquela sensação cheia de suspense a fazia suar; seu coração estava aos pulos, quase arrebentando seu peito.
            - Como eu disse, você não tem coragem - Gustavo riu.
            E então levantou-se da terra lamacenta, e com certeza iria até Nathalia, e com certeza a atacaria, a renderia, e tudo estaria perdido, enfim e realmente perdido...
            - AAAAAAAARGH! - Gustavo berrou, cambaleando para trás e caindo novamente.
            O tiro não havia atingido sua cabeça, mas seu braço, quase exatamente no centro do bíceps. O sangue pulou mais longe do que Nathalia podia imaginar, mas não dava impressão de ter atravessado direto; a bala ainda estava em algum lugar lá dentro.
            Gustavo urrou de dor, de inicio, e depois soltou um grito ensandecido. As mãos de Nathalia tremiam mais do que nunca - ela atirara! Realmente atirara! E agora, Gustavo, seriamente ferido, sabia do que ela era capaz... se não estivesse numa situação tão desesperadora, poderia ter sorrido.
            Gustavo examinava, espantado, o ferimento em seu braço. Parecia não acreditar na dor, no sangue, na camisa esfarrapada finalmente rasgada...
            E, quando voltou-se para Nathalia, aparentou o pior tipo de fúria que ela já havia visto.
            Ele iria matá-la.
            Ele iria definitiva e cruelmente matá-la.
            Ele levantou-se, enquanto Nathalia mergulhava no mais profundo choque, com o rosto distorcido numa máscara horrorosa: dor, fúria, maldade, tudo ali, junto e misturado - mais o terrível instinto assassino, que não seria controlado assim que ele pusesse as mãos em Nathalia.
            Ele avançou, correndo, tão rápido quanto uma bala. Estavam à uma distância muito pequena, a alcançaria em dois tempos. E então...
            Nathalia não chegou a pensar direito. Apenas viu-se apertando o gatilho novamente, o barulho do tiro ecoando, as faíscas e a fumaça saltando do cano da bala.
            Também não havia pensando onde queria acertar: apenas viu o sangue saltando como um rio da testa de Gustavo, seus olhos revirando-se, e o impacto fazendo-o pender para trás... Nathalia agora via o sangue em sua nuca também, denunciando que a bala atravessara direto.
            Assim, Gustavo caiu, morto, a poucos centímetros de Nathalia; a poucos centímetros de seu objetivo, a uma mísera distância da vítima que mais lhe dera trabalho - sua única vítima a sobreviver. Seus olhos vidrados fitavam o mais profundo nada, e seu rosto, antes demoníaco, agora expressava apenas confusão: sua boca entreaberta dava-lhe um aspecto quase infantil... a não ser, claro, pelos pequenos rios de sangue que escorriam de um buraco em sua testa, correndo pelo rosto todo.
            Nathalia deixou a arma, ainda quente, escorregar por seus dedos. Sua mente pareceu imediatamente bloquear o assunto: tudo que lhe importava agora era Yago. Poderia muito bem processar o fato de que acabara de matar alguém depois.
            Como suas pernas (e braços, tórax, cabeça, etc.) ainda estavam fracas e doídas, arrastou-se até mais próximo do corpo de Yago. Ele tremia como vara-verde, de modo que a tremedeira de Nathalia parecia quase normal; o garoto parecia estar enfrentando um furacão.
            - Yago... - ela gemeu, chorosa, levando a mão à bochecha dele, enquanto a outra afastava os fios de cabelo, outrora arrepiados, da testa suada do namorado; então percebeu que havia um infame corte ali, que no entanto deixara aproximadamente sete gotas de sangue se espalhando.
            - Você... - ele tentou falar, mas acabou fazendo menção de vomitar; tudo o que saiu, no entanto, foi mais saliva rosada. Precisou se recuperar por alguns segundos, antes de continuar: - Você não precisa ter matado...
            Nathalia logo desconversou, pois não queria entrar naquele assunto.
            - Shhh, amor, shhh - E com isso, tomou a cabeça de Yago nas mãos e pousou-a em seu colo, e, pelo gemido de prazer que ele soltou, parecia estar ajudando.
            - Tá doendo - ele reclamou, na sua vozinha fraquinha que não era comum de sua parte: Nathalia voltou a se preocupar - Tá doendo muito...
            - Eu sei, amor, eu sei...
            - Dá vontade de arrancar... de tirar essa faca logo daqui...
            - Mas... mas não pode, Yago, você iria...
            - Morrer - ele choramingou, e só então Nathalia percebeu as lágrimas que escorriam por seu rosto - Por favor, Nathalia, eu não quero morrer, mas ta doendo tanto... mas tanto... Eu não quero morrer - ele repetiu, fazendo o máximo de esforço para levantar o rosto e olhá-la nos olhos - Eu não quero morrer, não me deixa morrer, Nathalia...
            - Você não vai! - ela sussurrou, tentando parecer firme, porém com a voz tão embargada que não parecia muito mais forte do que o namorado. - Eu não vou deixar!
            - Eu não posso morrer - ele disse, com tantas lágrimas no rosto eu provavelmente as engolia - Eu não posso te deixar sozinha... Eu não posso te deixar enfrentar tudo isso sozinha... Não posso deixar minha mãe, o Lucas... Minha tia, ela não pode morrer sem mim...
            Ele soluçava, suas lágrimas cobrindo todo o rosto.
            Nathalia poderia se sentir lisonjeada. Aquele momento terrível, com o garoto que amava à beira da morte, poderia ser também o mais romântico de sua vida. O motivo pelo qual não podia morrer... era que ele se importava demais com quem estava a seu redor! Ele amava demais! De todos os sentimentos que podia sentir, escolheu pavor: como alguém poderia ser tão... perfeito? Como alguém poderia escolher passar por toda aquela dor, apenas para não causar dor para alguém mais? Ela faria isso por ele? Com certeza, foi a primeira opção que passou em sua mente, mas... realmente faria? Ela o amava tanto assim... ela poderia sofrer tanto assim?
            E era horrível, realmente horrível, perceber que tanta dor assim era por sua culpa. Duplamente sua culpa: ela precisava de um resgate, e lá fora Yago, que acabara com uma faca no peito; e logo depois, ele recusava-se a morrer - tinha escolha, afinal? -, pois a amava demais... preferia passar por uma dor mortalmente cruel, por uma provação de sangue, à deixá-la sozinha, à mercê daquele mundo cruel.
            - Eu não vou te deixar - Yago disse, levando sua mão, com muito esforço, ao ombro de Nathalia - Eu não posso... eu...
            Foi interrompido por um vozeirão conhecido.
            - Mas o que está havendo... Ah, meu Deus! - exclamava o pai de Felipe.
            Quando Nathalia desviou finalmente os olhos de Yago, pôde fazer uma análise bastante superficial do senhor que vira três ou quatro vezes na vida: estava usando uma camisa xadrez, com uma camiseta cinza aparentemente suada por baixo, e calça jeans rasgada; parecia um caipira, porém, a espingarda moderníssima que trazia nos braços inspirava mais que respeito.
            Ele jogou a arma de lado, e se ajoelhou ao corpo de Gustavo. Não que pudesse fazer muita coisa, mas parecia simplesmente horrorizado ao ver um garoto tão jovem morto.
            Levantou os olhos então, e finalmente viu o que havia à sua frente.
            - Nathalia! - ele urrou, e desviou-se do corpo, desesperado.
            - Ah, Nathalia, o que... YAGO, MEU DEUS!
            Ele ajoelhou-se imediatamente frente ao corpo ferido de Yago, e à uma Nathalia extremamente suja, e com cortes por toda a pele.
            - Eu estou bem - disse, sem muita convicção, pois era bastante obvio que uma pessoa com uma faca cravada na barriga não poderia estar bem - Cuide de Nathalia, por favor, ela está ferida...
            - Não lhe dê ouvidos! - Nathalia apressou-se em dizer, com a voz mais firme do que esperava - Estou bem, e qualquer cuidado que eu precise, pode esperar - E então parou, e, mais desconfiada do que geralmente era, perguntou - O que o senhor estava fazendo na floresta?
            - Ouvi gritos, e-e tiros... Deus, o que andaram fazendo com vocês? Yago e aquele pobre garoto...
            - Pobre porra nenhuma - Nathalia rosnou, de raiva - Ele que fez isso - apontou para a faca na barriga do namorado - E isso - apontou para a própria cara, coberta de ferimentos.
            O pai de Felipe pareceu avaliar a situação por um momento, genuinamente espantado, olhando para o casal de namorados e para o corpo de Gustavo. Então, pareceu notar o correto a fazer, pois disse:
            - Esqueça isso, por enquanto. Podemos tratar de tudo depois, vamos cuidar de vocês.
            - Não podemos arrancar a faca! - Nathalia apressou-se em dizer.
            - Eu sei, querida, eu sei... já senti isso na própria pele...
            Com muito cuidado, tentou tomar Yago dos braços de Nathalia, sem sucesso. Qualquer movimentozinho representava imensa dor para Yago, que não se importava em escondê-la. Gemia, mas não pode-se dizer com gosto, pois parecia agoniar cada vez mais. Mordia o lábio, de vez em quando, e jogava a cabeça para trás. A cada tentativa, novas lágrimas desciam por seu rosto.
            - Isso não está dando certo - disse o delegado aposentado, enfim, pondo-se de pé - É melhor chamar uma ambulância... Tomara que achem a trilha para cá... É melhor você mudar ele de posição, de preferencia uma que não envolva seu colo: quanto mais contorcido ele estiver, mais fácil será para o sangue correr, e mais hemorragia haverá.
            Nathalia assentiu, e com muito cuidado, apoiou a cabeça de Yago no chão, fazendo o possível para deixá-lo reto. Quando considerou que tinha feito o melhor possível, ajoelhou-se a seu lado, novamente fazendo cafuné em sua cabeça. Antes de se virar para continuar, o senhor olhou-a bem nos olhos e perguntou:
            - Havia mais alguém com vocês... quando aconteceu?
            Nathalia já abria a boca para responder que não, mas subitamente se lembrou: Gabriela ajudara-os a fugir... ela também estava ferida, e muita silenciosa...
            Nathalia olhou para aproximadamente vinte metros atrás de onde Gustavo fora morto, e dez metros atrás de onde o pai de Felipe chegara. Lá, estava Gabriela, pálida demais para seu próprio bem, desmaiada...
            - Gabriela! - Nathalia gritou, e fez menção de correr até a ex-inimiga, porém seu corpo estava fraco demais para obedecê-la.
            Por sorte, o pai de Felipe também olhou para trás, notando também na Gabriela desmaiada. Correu até ela, e, sem a menor cerimônia, pousou os dedos em seu pulso. Uns dois minutos depois, gritou:
            - Ela está bem! - e se aproximou, já do lado de Nathalia continuando: - Mas está fraca. Uma bala na perna, o que diabos vocês estavam fazendo...! Bem, vou pedir três macas, urgente.
            Nathalia não protestou; obviamente não queria sair numa maca, mas não podia perder tempo com discussão. Em dois segundos, o pai de Felipe já não estava mais visível, de tanto que correra.
            Yago, quase que nesse exato momento, gemeu novamente, cuspindo sangue quase puro.
            - Yago...
            - Tá doendo - ele gemeu, mais fraco do que nunca - Tá doendo...
            - Eu sei que tá, mas por favor, resiste só mais um pouco, já tá quase acabando...
            - Tá doendo muuuito... - choramingou, e então se calou, cuspindo mais uma vez uma bela quantidade de sangue.
            Fez-se silêncio, enquanto Yago, com as feições tremendo, olhava para o nada.
            - Yago?
            Ele cuspiu mais sangue.
            - Yago? - a esse ponto, Nathalia abandonara sua posição cautelosa: agora segurava o rosto de Yago com ambas as mãos, e sua voz não era tão agradável, também; parecia um guincho desesperado.
            Yago respondeu uma única palavra, que aterrorizou Nathalia mais do que tudo:
            - Pai?
            - Yago, por favor, por favor, fique comigo, não durma!, não dorme!, Yago, pelo amor de Deus, fica comigo...
            A resposta verbal de Yago nunca veio; seus olhos apenas se reviraram e se fecharam, e seu corpo perdeu qualquer movimento.
            Nathalia não percebeu o tempo passando, mas devia ter perdido muito, pois, quando viu, um dos paramédicos gritava para seus assistentes; três macas, como o pai de Felipe prometera. Um dos assistentes, sem a menor cerimônia, arrancou Nathalia da companhia de Yago, e ela não percebeu que estava gritando e esperneando até estar distante o suficiente, e quase imobilizada na maca. Viu Yago sendo levantado também... se ele estivesse acordado, sentiria uma dor dos infernos! Esses médicos não tinham piedade, não?
            - Não! - Nathalia gritou, antes de ser novamente dominada.
            A faca foi arrancada da barriga de Yago ali mesmo, espirrando sangue novo sobre o sangue já coagulado. Porém, eles sabiam o que faziam: logo começaram a estancar o ferimento de jeito profissional.
            Nathalia não pôde ver nada, apenas Gabriela sendo levada, desacordada, porém viva, em outra maca, e não aguentou: com toda a força que restava, livrou-se dos médicos e mirou diretamente para a ambulância em que Yago estava (só então percebeu que estavam na entrada da floresta; havia andado muito na maca). Tentaram impedi-la, claro, mas ela corria como uma pessoa saudável, e entrou na ambulância exatamente quando iam fechá-la.
            - Vai! - ela gritou antes que pudessem protestar - Tanto vocês quanto eu sabemos que não há tempo!
            Sem poder discordar, deram a partida.
            Chegaram ao hospital depois do que pareceu anos; Yago estava subitamente mais pálido, e o cardiograma marcava um ritmo tão mais fraco... Retiraram, com cuidado, a maca de Yago e levaram-na pela entrada da emergência; Nathalia seguiu até onde podia, mas logo foi impedida de continuar, sem poder protestar nem nada. Enfiou os dedos nas mechas de seu cabelo, novamente chorando. Sabia que logo algum médico a obrigaria a deitar-se e descansar, mas não se importava. Apenas viu Yago sendo levado para longe...
            Ele estava morrendo. O amor de sua vida estava morrendo.
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