Capitulo 15
The cave
Felipe estava chegando ao parque que havia combinado de se encontrar com Yuri. Já era de madrugada, de modo que saísse escondido de seus pais. Yuri ainda não havia chegado. Felipe se sentou em um banco que havia lá, que alias, já estava aos pedaços. Ficou lá sentado por alguns minutos, e nada. Então decidiu pegar seu celular, quando começou a discar viu Yuri vindo ao fundo, andando, indiferente a ventania, frio e assustado ao mesmo tempo. Chegando lá se sentou ao lado de Felipe, e nada disse. Então Felipe disse:


-Pô cara, assim, eu tô com sono. Se você me chamou a toa eu acho melhor eu...
-Eu tive uma espécie de sonho...
Falada essa sentença tudo ficou em silencio. E como se já soubesse do que se tratava, Felipe fez uma ligeira expressão de surpresa. Então disse:
-Tá, um sonho... O que mais?
-Era em Paris. Estavam lá eu, você, Laila, Mariane e outras pessoas que o nome eu não lembro.
-Prossiga.
-Antes, você vai me responder, o que é...
-3ª habilidade. Certo?
Yuri ficou em silencio. Então Felipe disse:
-Você teve um sonho, extremamente real. Do que parecia ser o futuro. Mariane disse pra você fingir que me ouviu falando com Laila. Certo?
-Como você...
-Era um código. Pra me fazer acreditar no que eu acreditava. Quando você entrasse nesse modo, ela teria que falar isso.
-Então... O que é 3ª habilidade?
-Antes, como estava Paris?
-Laila me falou para não te contar até você me falar o que é a 3ª habilidade.
-Droga. – Felipe fez uma pequena expressão de decepção - Vou ter que falar. Pois bem, de um jeito bem resumido, 3ª habilidade é a capacidade de mandar sua alma através do espaço-tempo. Agora, como estava Paris?
-Não vou falar, não quero resumidamente. Explique.
-Você é chato demais.
-É, agora me explica.
-Pois bem, 3ª habilidade é a habilidade de se transportar para o futuro ou passado (lembrando que só espiritualmente falando). Sendo para o passado desde que você nasceu até agora, e no futuro até uns poucos dias antes da sua morte. Depois que se morre e sua alma continuar por aqui, ela pode ir pra qualquer época, ilimitada, mas ela jamais pode falar o que está acontecendo.
-Só isso?
-É, 3ª habilidade é o nome que foi dado por mim, o nome conhecido é profecia. Mas não gosto desse termo. E a mesma é uniforme, ou seja, idêntica pra todos, com poucas exceções. Mas essas exceções são baseadas nisso, só depende do acordo que você fez. Ah sim, poucas as pessoas que tem a 3ª habilidade ativada e menos ainda os que a controla.
-Acordo? Com quem?
-Falei de mais. Bom, já te falei da 3ª habilidade. Agora fala de Paris.
-Não, me conta que acordo é esse.
-Mas tu é muito chato em, fala logo de Paris.
-Não até você me falar sobre a 3ª habilidade.
-Você entra em combate com você mesmo. E bom... Se você vencer, você faz um acordo com sua habilidade.
-Como eu batalho com minha habilidade?
-Não com ela exclusivamente. Vai batalhar com você, o seu subconsciente. Para fazer isso tem que se ter controle do seu totem.
-Você vai me ensinar.
-Me fale de Paris.
-Não até você me ensinar.
-Eu também tenho 3ª habilidade, e eu controlo. Posso ir pra lá a qualquer momento.
-Porque não vai?
-Porque gasta energia, vai abaixar minha guarda, mas tá tudo muito calmo.
-Então vai.
-E você jamais vai controlar a 3ª habilidade sem mim porque você precisa de um intermediário pra isso.
Yuri ficou em silencio, então Felipe se levantou e começou a ir embora. Então Yuri disse:
-Espera... Eu falo.
Felipe abriu um sorriso. Então retornou e ficou em silencio, então Yuri disse:
-Agente estava na Torre Eiffel. Ou melhor, em frente a ela. Tudo parecia um grande cenário de uma guerra. Pessoas ensanguentadas. Feridas e queimadas. Uma batalha ocorria, e haviam um grupo de pessoas sentadas exatamente embaixo da torre, fazendo um circulo. Eles olhavam para a gente com desprezo. Nós estávamos muito machucados. Muito mesmo. Mas não parecíamos que ia parar. Ai então eles me falaram sobre a 3ª e me falaram para te perguntar. Eu perguntei o que estava havendo. Mas alguém falou que não podia saber, pois era o futuro.
Felipe ficou em silencio, e então disse:
-Fizeram o certo. Você não deve saber, não agora.
-Mas espera, eu estive lá. Eu quero saber e...
-Vai embora pra casa.
-O que?
-Vai... Embora.
-Não, eu quero...
Felipe se levantou bruscamente e disse com a voz mais firme:
-Vai... Embora!
Yuri ficou paralisado. Embora tenha tido desentendimentos com ele, nunca o havia visto daquele jeito. Então se levantou assustado e foi embora.
Felipe continuou lá. Então subiu em um monte que havia ali do lado. Havia uma lagoa lá, ninguém nunca encontraria. Era por fora da trilha, e dentro de uma espécie de caverna. Completamente inexplorado. Felipe havia descoberto por acaso, em uma briga.
Chegando lá foi até o ponto mais alto da caverna e empurrou uma pedra pra fora, fazendo com que entrasse um facho de luz no centro do lago. E então tirou uma outra de modo que pudesse ver o céu mesmo que lá debaixo.
Voltou e se sentou em uma pedra na beira do lago e jogou o pé por dentro d’água. Então colocou a mão sobre o rosto e ficou com expressão seria. Então levantou o rosto e disse:
-Sabe que eu odeio quando chegam assim.
-Sei. Mas queria te observar.
-Isso você num vai mesmo conseguir. Consigo te sentir a uma grande distancia.
-É, eu sei.
-Laila... Yuri viu o futuro, ele viu o...
-É, eu sei. Tava lá ouvindo vocês.
-Não, não estava.
-Tem razão. Mandei uma espécie de escuta nele.
-Sabia.
-Enfim, e ai, o que vai fazer?
-Eu não sei.
-A organização luta contra isso, vá se juntar a eles de novo.
-Ná, nem posso.
-Por?
-Pelo simples fato deles fazerem mais sacrifício que o necessário.
-Como se você não tivesse feito.
-Eu me arrependo.
-Não foi o que pareceu no dia em que me fez desaparecer.
-Eu me segurei.
-Não, não se segurou. Você foi com tudo.
-Se fosse isso você...
-Teria morrido... Mesmo já estando morta.
-Então como...
-Quando eu notei o que ia acontecer eu desapareci, e quando fiz isso criei uma proteção nos que estavam na sala.
-E o Yuri?
-Você sabe o que o protegeu.
-É, tô sabendo. Acha que a organização já sabe?
-Tenho certeza que sim.
-É verdade, quanto tempo será que vão demorar?
-Não acho que venham. Depois do que você fez naquele dia, duvido.
-Por que você acha isso?
-Com certeza Caio e Sergio reportaram. E o que você fez, não é algo bom pra eles, com certeza ficaram com o rabo entre as pernas.
Felipe então ficou em silencio. Até que fazia sentido o que Laila havia acabado de falar. O silencio se estendeu por longos e eternos dez minutos. Nesse tempo Laila se sentou ao lado de Felipe e deitou a cabeça em seu ombro, então Felipe perguntou:
-Como você sabia que eu ia estar aqui? Aliás, como você sabia sobre aqui?
-Eu sempre vou saber onde você está. Independente de tudo. Mesmo que eu não conheça o lugar, eu vou saber chegar lá. E bem... Eu já te segui até aqui quando era viva.
Felipe e Laila gargalharam e então as risadas logo viraram um momento pesado. Pela primeira vez, Laila parecia se importar em estar morta.
-Sabe Felipe, faz tempo que eu não te vejo sorrindo desse jeito. Muito mesmo. Porque você cuida tanto dos outros, e se esquece de você?
-Eu não faço isso.
-Faz sim. Admite.
-Eu me importo com o que eu vou precisar.
-Sei. Vô fingir que eu acredito.
-E você, porque se importa comigo?
Então Laila se sentou corretamente e deu um beijo em Felipe, um beijo curto e com gosto de quero-mais. Então ela se levantou e disse:
-Por isso.
Felipe abriu um sorriso e nada disse. Apenas observou. Olhou novamente para trás e já não tinha mais ninguém. Ficou mais um tempo olhando para trás. Então se virou novamente para olhar aquela paisagem.
A luz batia exatamente no meio do lago azul claro. Com o reflexo todo o lugar ficava com a iluminação azul, era possível ver a lua e algumas estrelas por onde entrava a luz. Ao fundo se via uma espécie de queda d’água, como a água saia dali, não entendia, mas achava o lugar melhor com esse mistério. Também se via algumas borboletas e incontáveis vaga-lumes voando ao meio de alguns pássaros. Nunca havia entendo como, mas, mesmo os pássaros de costume diurno voavam a noite ali. Como se não existisse perigo ali. Também olhava a plantação que havia ali, arvores e arbustos dos mais diversos tamanhos, alguma das folhas chegam a ser maior que o próprio Felipe.
Pegou então seu celular colocou Legião Urbana como era de costume. Então tirou o chinelo e a camisa. Passou a mão por cima de uma cicatriz que tinha nas costas, próximo a região do cóccix. Começou a adentrar no lago, podia sentir os peixes que ali estavam arrastando em sua pele enquanto nadavam. Foi chegando ao meio. A cada pedra em que pisava podia sentir o limo, embora não sentisse nenhum nojo, era uma sensação engraçada pisar.
Quando a água já estava em seu pescoço deixou seu corpo em horizontal e começou a nadar até o centro, na parte mais profunda. Não fazia barulho. A bateria de seu celular havia acabado a essa hora. Então começou a afundar. Desceu o 1º metro. E então o 2º, 3º até chegar ao 5º metro. A pressão já estava forte, muito forte. Mas não parecia se importar. Prendeu o pé embaixo de uma pedra para não voltar à superfície. E então abriu os olhos. Era apenas uma escuridão. Uma escuridão que cegava. A luz não chegava com tanta força naquela profundidade.
Conseguia apenas ver vultos dos peixes que ali passavam.
Por mais irônico que parecesse, sentiu seus olhos se encherem d’água. E no fundo do lago começou a chorar. Ficou lá por 30 segundos. E então não aguentando mais começou a gritar. Um grito de silencio, pois por estar em baixo d’água o som saia abafado e fraco. Gritou por poucos 10 segundos e então parou. Silencio novamente. Seus olhos se encheram d’água novamente. E então soluçava. Acabava de completar um minuto e meio. Então começou a subir novamente. Chegando lá em cima havia apenas silencio. Ainda chorava. Carregava uma expressão seria e triste. Começou a boiar. Então começou a ouvir apenas um som. O som que mais gritava em sua cabeça. O absoluto silencio. O silencio ensurdecedor.
Palavras do autor:
Para qualquer momento da sua vida,
Não existe som que ira gritar mais que um único som.
O ensurdecedor som do silencio.
-Marcos Valença
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