Olá galera ;) Pois bem, aqui estamos com o último capítulo dessa fase de SILENCIAR. O próximo capítulo será postado no dia 02/09, e com ele se iniciará a fase final de SILENCIAR, como 6 capítulos e um epílogo. Mas bem, por enquanto curtam esse aqui, que é o maior da série, e esperem pelo 58 ;)


57

PARTE UM

Me Salve

Save Me - Avenged Sevenfold

            Nathalia acordou com um estampido. Viu-se novamente numa sala escura, e na demorou para suas memórias voltarem, assustadoras. Se pudesse, teria gritado, mas o ar parecia preso em seu pulmão. Tinha extrema dificuldade em respirar, em parte pelo medo, em parte pela dor que sentia da barriga até a garganta. E sua cabeça, claro - parecia prestes a explodir. Antes que pudesse notar, havia sangue tampando-lhe a visão; se estava desacordada a tanto tempo, deveria ter feito algo para reabrir o corte...

            Havia vultos na sala. Grandes amontoados negros... ela não sabia distinguir o que eram... estava frio, muito frio...
            Ouviu passos.
            Mais perto, e mais...
            Uma longa escada, degraus rangendo, algo bem leve caindo...
            E então parou. Nathalia ouviu seus passos se afastando, a escada rangendo cada vez mais baixo. Mais passos, e dessa vez pareciam haver quatro pés, invés de dois. Imediatamente, sua mente pulou para a pior das opções: logo teria companhia, de provavelmente mais uma vitima... ou de um comparsa de Gustavo.
            Então, ouviu vozes: a grave e grossa, de Gustavo, no tom de desdém de sempre, e uma voz conhecida, feminina. De onde já a ouvira? E por que sua cabeça girava?
            Conseguiu captar uma ou outra parte da conversa:
            - ... foi tolice a minha, eu devia saber... - dizia a voz aguda.
            - Sim - Gustavo disse, e pôde ouvir uma risada sarcástica - Não devia. De todas as pessoas do mundo (aqui houve outro estampido, de modo que Nathalia não pôde ouvir o que dizia, mas não foi difícil de deduzir) ... deveria saber o quanto as pessoas podem ser cruéis.
            Ele riu, sem importar-se com o estado da garota, que provavelmente estaria de cabeça baixa, a ponto de chorar.
            - Não comece - a garota retrucou, mal humorada, num tom ainda mais familiar à Nathalia.
            - Hein (Nathalia não teve certeza se realmente essa palavra fora dita), realmente, é falta de educação da minha parte - E riu novamente, antes de voltar-se sério -, me desculpe. Não é minha obrigação entender, mas eu sei como deve ser difícil... Não é, querida?
            - É até fácil demais - a garota disse, dessa vez num tom sensual que levou Nathalia a perceber que a conhecia melhor do que imaginava - Não estou reclamando, sabe. É só...
            - ... difícil de admitir que ficar do lado de um assassino cruel e sem coração, o que fora a sua primeira opção, é melhor do que brincar de cirandinha com os amiguinhos?
            - ... chato de admitir que eu me divirto muito mais aqui - ela disse, ignorando o comentário de Gustavo.
            Ouviu uma gargalhada fria e masculina, seguida de um risinho nada tímido, beirando à gargalhada de uma bruxa. A garota, antes tão recalcada, agora soava tão assustadora quanto Gustavo.
            - Que bom que você voltou. Estava ficando chato e solitário aqui sem você.
            - Mas, ah - a garota disse, sarcasticamente - Pensei que você tivesse arranjado uma nova amiguinha. Como vai ela, alias?
            - Está com ciúmes, Gabriela?
            Nathalia estremeceu. Conhecia aquele nome... e aquela voz... um rosto surgiu em sua mente. Conhecia ela, mas quem era ela? Por que estava tudo tão confuso?
            - Não gosto da ideia de ter que te dividir - Gabriela respondeu, num tom falsamente magoado e doce. Nathalia ouviu passos de salto indo de um lado para o outro, o que provavelmente queria dizer que Gabriela dera as costas e passara a fazer cena. Típico, Nathalia pensou, e logo se perguntou o por quê daquele desprezo, que não era comum de sua parte.
            Gustavo riu novamente - um ato que já estava se tornando irritante, porém cada vez mais assustador.
            - Não se preocupe - ele disse - Pensei que essa seria interessante. Que nada, é a pior de todas. Você sabe como dizem, a vigésima oitava é a que dá sorte; porra nenhuma. Essa é a mais fraca de todas. Você tem que ver: já está até alucinando... no primeiro dia ainda.
            - O que você deu pra ela? - perguntou Gabriela, depois de rir-se falsamente, porém de modo igualmente cruel.
            - Por que as pessoas sempre pensam o pior de mim? Posso não ter coração, mas não quer dizer que meus sentimentos não estejam guardados em outro lugar, sabe? - disse ele, e Nathalia pôde ouvir uma bufada, antes dele continuar: - Bem, de primeira, nada. Mas ela estava tão agitada... chegava a ser irritante, se quer minha opinião. Ela acordou no meio dessa noite, gritando, sabe como é. Dei algo que vai deixar ela bem calminha até amanhã...
            - E então?
            - E então a brincadeira acaba - E mais uma vez ele riu.
            Nathalia se arrepiou. Estava tonta, porém lúcida o suficiente para perceber que falavam dela. Com certo temor, notou que Gustavo não ficaria nada feliz ao descobrir que já acordara. Sentiu-se aliviada também - se é que fosse possível numa situação daquelas -, por estar drogada. Assim, pelo menos tinha uma desculpa para aquela dor de cabeça, aquela tontura, aquela repentina amnésia... era admitir isso ou dizer que estava louca.
            Porém, não se sentiu nada feliz em saber que alucinara de medo - ainda mais no primeiro dia. Cadê a coragem, da qual sempre se gabara?
            - Que pena - Gabriela suspirou, docemente - Tanto trabalho para desistir em apenas três dias...
            - Eu não estou desistindo, ela que não corresponde aos meus padrões. - Nathalia ouviu mais passos, seguindo diretamente para onde ouvira Gabriela caminhar - Mas sim, é realmente uma pena... sabe, agora mesmo você disse que não queria me dividir, mas por um momento achei que realmente seria necessário. Não me olhe assim, você já devia ter considerado essa possibilidade. A sua sorte é que, como eu já disse, ela é patética. Sabe qual o nome que ela gritava na noite passada? Yago. - sua voz distorceu-se em fúria, e algo pesado caiu no piso; Nathalia teorizou que Gustavo havia golpeado algum objeto - Eu repito, patético. Talvez eu devesse ter me livrado dele antes...
            - Ora, ora, ora, quem está com ciúmes agora? - E Gabriela riu-se novamente.
            - Se eu fosse você, calaria a boca agora - Gustavo retrucou grosseiramente - O assassino aqui sou eu e você não faz ideia da coleção de facas ao seu redor.
            - Nossa - Gabriela disse, com a voz novamente tímida, e com o quê de assustada - M-me desculpe, eu não pretendia...
            - Não tem problema - Gustavo disse docemente mais uma vez - Como você será minha rainha, posso perdoar-lhe muito facilmente... mas tudo tem seu preço.
            Nathalia quase pôde ouvir um gigantesco sorriso se formando na cara de cada um. Ouviu algo metálico retinir contra o chão, e sua mente logo imaginou um cinto. Como que para confirmar, as respirações dos dois comparsas, antes inaudíveis, logo tornaram-se altas e frenéticas - e de certa forma, incômodas. Ouviu mais uma risadinha, misturada com certo ruído gutural...
            Quando ouviu o primeiro gemido, fez cara de nojo, e sentiu como se fosse vomitar. Logo, houve um grito, porém de puro prazer, e sentiu-se mais nauseada ainda. Gustavo não era nada silencioso também: parecia fazer questão de agredir Gabriela, e ela não parecia se importar. Logo, Nathalia ouviu os dois espremidos contra a parede, um pressionando-se contra o outro, e parecia que socavam a madeira podre que Nathalia sabia estar presente em toda a casa.
            Não que Nathalia achasse aquilo nojento, mas o jeito como eles faziam era horroroso; já vira muita falta de amor em diversas relações, mas Gustavo e Gabriela pareciam unidos pelo puro ódio - pura crueldade. Um parecia que iria matar o outro, e assim ririam de um assustador prazer...
            Então Nathalia ouviu um grito masculino. Uma imensa dor, pelo que parecia. Quase pensou que fazia parte do que quer que estivessem fazendo, mas não: parecia real demais. O grito arrastou-se com o tempo, e parecia que não acabaria nunca. Nathalia viu-se satisfeita que Gustavo estivesse sentindo dor. Se morreria de qualquer jeito, que seu assassino sofresse o máximo possível.
            Logo veio mais um estampido - algo pesado chocando-se contra o chão, no exato momento em que o grito acabara...
            E tudo o que restou foram respirações pesadas - não uma, como Nathalia podia imaginar - pensava agora que toda aquela conversa de Gabriela fora pura mentira, e que ela realmente só queria ferir Gustavo; se fosse realmente isso o que ocorrera, sua respeito pela garota acabara de crescer -, mas duas...
            - Vai - Gabriela sussurrou alto demais, ofegante.
            Nathalia voltou a sentir medo; não pela voz de Gabriela, ou por voltar a perceber que estava sozinha no escuro de que tinha tanto medo, mas pelos passos que voltavam a descer ligeiros pela escada.
            Mais perto...
            E mais...
            Cada vez mais...
            Quem seria? Gustavo? Mas ele não estava desacordado? Outro comparsa? Quantas pessoas queriam matar-lhe, afinal?
            Uma batida na porta. Uma maçaneta girando. Luz. Uma forma, um corpo alto e esguio, respirando pesadamente...
            A luz se acendeu, cegando Nathalia instantaneamente. Quem quer que fosse, estava se aproximando... seus olhos não conseguiam focalizar... amigo ou inimigo, não sabia...
            Tocou-lhe o rosto, com suas mãos quentes, e ofegou, inspirando um calmo desespero, misturado à um grande alivio:
            - Nathalia... Nathalia, ah meu Deus, o que...
            Seus olhos imediatamente voltaram a ver, e seus ouvidos reconheceram aquela doce voz; a única voz que poderia acalmar-lhe.
            - Yago... - ela exclamou, fracamente, e notou como sua voz estava embargada. Sua garganta ardeu, o que levou-a a pensar quando fora a última vez que comera ou bebera alguma coisa.
            - Estou aqui, estou aqui - ele disse, segurando seu rosto entre as mãos - Meu Deus, o que ele fez... eu vou matar ele, eu vou matar ele...
            - Não - Nathalia disse - Por favor, só me tira daqui...
            - Mas é claro - ele disse, com raiva, e começou a arrancar as correntes de Nathalia, com uma chave que achara no meio do caminho.
            Quando ela finalmente estava livre, ouviram um novo grito, porém feminino.
            - Gabriela... - Yago disse.
            - Vamos logo - continuou ele, puxando Nathalia pela mão.
            - Não! - ela exclamou - Ela estava te ajudando! Nos ajudando, nós temos que voltar lá!
            Yago pareceu ignorá-la, e simplesmente puxou-a com mais força ainda.
            Levou-a até a geladeira, e Nathalia quase travou no meio do caminho, mas não tinha forças para tal. Yago empurrou-a, revelando uma porta, e abriu-a, puxando Nathalia para dentro...
            - Não! - Nathalia gritou - Aí não! Não!
            - Fica quieta, caramba - Yago rosnou, irritado - Não tem nada aí!
            Nathalia olhou ao redor. Era verdade. Havia velas, havia uma boneca... e um cheiro horroroso, bastante familiar, porém que, como muitas outras coisas, Nathalia não conseguia lembrar de onde o reconhecia. Mas ainda assim, tinha medo, e tanto; havia algo ali, algo iria sair das sombras, algo supremo e horrível...
            E quando olhou para trás, para a sala onde estivera amarrada em correntes, viu apenas carcaças; ossos negros e nojentos... mortos...
            E Yago continuou a puxá-la, afastando-a de tudo que era horrível.
            Havia outra porta, na outra extremidade da sala, tão gasta, velha e podre quanto tudo o que vira naquela... casa? Yago abriu-a, apresentando mais uma escada; Nathalia não sabia como era a primeira, porém essa era suja e escura. Não se surpreenderia se escorregasse e rolasse degrau por degrau - o que não seria divertido, pois o topo da escada estava a pelo menos uns quatro metros de altura. Yago guiou-a, sussurrando uma contagem: “Um, dois, três...” a cada degrau. No décimo quarto, ele parou, e olhou para os lados, com se seguisse instruções. Realmente, quando Nathalia olhou para o chão, viu que aquele degrau em particular era mais largo. Quando seguiu o olhar de Yago, viu ali uma porta, talvez a mais podre de todas; havia até um ou outro buraco, que, porém, não revelavam nada.
            Perguntou-se se era uma boa ideia seguir por ali, numa porta ainda mais tosca do que as que já vira naquele lugar, invés de continuar até o topo da escada. Imediatamente, pensou “não”, pois Gustavo apareceu no último degrau.
            Sujo de sangue.
            Suado.
            Com a expressão mais furiosa que Nathalia já vira.
            Rezou para que aquele sangue fosse dele mesmo, pelo bem de Gabriela.
            Yago também viu-o, pois não importou-se em destrancar a porta: apenas jogou seu corpo contra ela, quebrando-a facilmente, levando Nathalia consigo.
            Para sua surpresa, deram de cara com uma floresta. Chovia, o céu cinzento por cima do topo das árvores dando um tom sinistro ao dia - Nathalia já estava acostumada, pois o chamado Inverno de Costa Valença ainda não havia acabado. Ao longe, via apenas árvores e mais árvores; parecia quase impossível correr por ali, mas Yago estava conseguindo. Nathalia volta e meia tropeçava, mas era arrastada tão freneticamente que não se dava o luxo de cair, por mais tonta que estivesse.
            - Anda! - Yago gritou, assim que irromperam pela porta.
            E nesse exato momento, houve um tiro. Talvez Gustavo estivesse confuso também, e atirara atrasado demais. Ou... talvez Gabriela agora estivesse...
            Nathalia se recusou a pensar nisso.
            As árvores haviam crescido tão juntas que era necessário pular para avançar. Não foram poucas as vezes que Nathalia sentiu seu vestido se rasgar ao, sem querer, topar contra uma das árvores. Yago não parava nenhuma vez: arfava, se arrastava, aparentava estar mil vezes mais cansado... porém corria, pois sua própria vida dependia disso. E tinha de obrigar Nathalia a fugir também, pois afinal, ela era parte de sua vida.
            Até que...
            - Ei! - um grito ecoou pela interminável floresta, vindo de todos os lados.
            Pássaros grasnaram, levantando voo. Ambos pararam, estupidamente, pois sabiam que deveriam continuar correndo. Mas soara tão perto... como se Gustavo estivesse ao lado deles. E então, perceberam, com imenso pavor, que a fuga havia acabado.
            Lentamente, se viraram, com as mãos para o alto - talvez assim conseguissem se salvar por mais algum tempo -, suas expressões pareciam desculpar-se um com o outro. Engoliram em seco, simultaneamente, seus corações batendo em uníssono, porém não no bom sentido - não como nos velhos tempos, mas sim de medo. Sentiam que, se por acaso um parasse de bater, o outro inevitavelmente estaria fadado à morte também.
            Viraram esperando ver um cano frio e negro de uma arma apontada contra eles; tal confirmação era tão esperada que seria quase como um clichê. Porém, o que viram, além de uma surpresa, foi aterrorizante.
            Gustavo trazia Gabriela apertada contra o próprio corpo. Seu braço envolvia-lhe o pescoço, sufocando-a e provocando-lhe uma dor extremamente incomoda, Nathalia pôde imaginar. Gabriela volta e meia engasgava, o que fazia Gustavo apertar-lhe ainda mais o pescoço, divertindo-se. Ela estava um trapo: suas roupas haviam sido toscamente vestidas, provavelmente na pressa de carregá-la até ali (Nathalia imaginou que Gustavo fizera aquele esforço com o pingo de decência que restava nele). Parte da camisa ainda pendia no pescoço, pois um braço não entrara no respectivo buraco. A calça tinha apenas o zíper aberto, mas estava suja e rasgada; a experiência de ter sido arrastada até ali não deveria ter sido muito agradável.
            E, apontada para sua cabeça, trave abaixada, havia a imediatamente reconhecível Pervinca, o cano gélido encostado no lado direito de sua testa.
            - Voltem aqui... - ele disse, apertando ainda mais Gabriela, e com isso arrancando um gritinho que logo foi silenciado quando apertou-se o cano com mais força contra sua testa - Voltem aqui, os dois...
            Nathalia fechou os olhos, apertando-os com desprazer. Pela primeira vez, um pensamento lhe ocorria: não bastava ser capturada, como tinha que arrastar também o amor de sua vida e a garota que odiava e que por acaso estava tentando salvá-la.
            Gustavo riu.
            - Dói agora, não é, vadia? - ele disse, e Nathalia, quando abriu os olhos, notou que ele se referia a Gabriela.
            - Para, por favor - Nathalia implorou, chorosa.
            Gustavo voltou-se para ela, e a expressão divertida sumiu de seu rosto, dando lugar à puro ódio.
            - E você cala essa boca! - ele gritou, apontando a Pervinca para o peito de Nathalia, arrancando dela um gemido de medo e de Yago um rosnar ameaçador - Cala, essa, boca!
            - Por favor, eu... eu, eu faço qualquer coisa...
            - Você NÃO está em posição para argumentar! - rosnou ele - Venham vocês dois para cá, AGORA, vou matar esse seu namoradinho e essa vadia na sua frente... você tem medo de sangue, não é? Pois eu vou pendurar os cadáveres deles nas suas costas até...
            - POR FAVOR! - Nathalia gritou, fazendo Gustavo, embora contrariado, se calar por um momento - Por favor, eu vou, eu vou com você, eu não faço mais nada, mas por favor deixa eles irem...
            - Não faz mais nada o que?
            - Eu... - Nathalia engoliu em seco - Eu não fujo mais. Eu vou onde você for, faço o que você quiser, como você quiser...
            - Prometa! - Gustavo rosnou com tanta vontade que arrancou mais um gritinho de Gabriela, cujo pescoço agora aparentava uma grande vermelhidão.
            Nathalia voltou a tremer, e as lágrimas transbordaram de seus olhos.
            - Eu prometo te obedecer... - começou ela, com a voz trêmula - Eu prometo te seguir... onde quer que você vá - Nesse momento, sua voz tornou-se quase ininteligível; mas forçou-se a falar, pois sabia que havia vidas dependendo disso - Prometo fazer sempre o que você quiser...
            - Eu não quero uma mocinha comportadinha - ele disse, já rindo novamente - Nathalia, Nathalia, você já devia saber que é a pessoa mais sem graça que existe. Bem, acho melhor matar vocês todos logo, ia ser tão mais divertido...
            - EU FAÇO O QUE VOCÊ QUISER, já disse! - ela gritou, quase batendo pé, fazendo Gustavo rir ainda mais. Às suas costas, Yago parecia a ponto de explodir de raiva.
            Gustavo continuou a gargalhar, ecoando por toda a floresta - seus risos espantaram mais pássaros, como se pressentissem o perigo.
            - O que eu quiser, é? - ele riu-se - Então... se eu mandar você ficar quieta naquele porão sujo e frio... você fica?
            - Fico. - ela engoliu em seco.
            - Se eu mandar você rastejar aquelas escadas cheias de ratos, você se arrastaria?
            - Sim - sua voz tremeu.
            - Se eu dissesse para enterrar essa faca - do cinto, ele puxou uma mínima, de cinco centímetros no máximo, porém afiadíssima faca de cozinha, que poderia muito bem ser mortal no lugar certo -, na sua carne... você enterraria?
            Silêncio.
            - Não esqueça quem tem a arma aqui... - Gustavo cantarolou, e apertou o cano tão profundamente contra Gabriela que Nathalia pôde ver uma marca vermelha se formando instantaneamente, provindo da pressão.
            - Enterraria - ela disse, derramando lágrimas; já podia imaginar a dor...
            Gustavo voltou a gargalhar.
            - Ótimo - disse ele, sério novamente - Eu solto ela,e você vem para cá. Sem nenhum movimento brusco, você já sabe. E, ah, só pra garantir, acho que vou apontar minha amiga - e destravou novamente sua Pervinca - para nosso querido amigo Yago.
            E, como que um sinal para começarem, Gustavo tirou seu braço do pescoço de Gabriela, revelando uma grande mancha vermelha que já começava a ficar roxa, e empurrou-a com grosseria, quase fazendo-a cair.
            Nathalia já se preparava para seguir seu caminho quando Yago avançou.
            - NÃO! - ela gritou, mas Yago não precisou; ele parou assim que a Pervinca foi levantada mais alto, mirando em sua testa...
            - Hã-hã - Gustavo disse, fazendo um gesto negativo com o indicador da mão livre - Eu não faria isso se fosse você.
            - Nathalia - Yago sussurrou, a voz trêmula de raiva - Você não precisa fazer isso.
            - Preciso - ela choramingou, voltando-se para ele, e avançou para beijar-lhe.
            - Ahem - Gustavo pigarreou - Isso não estava no acordo...
            - Nathalia, por favor...
            - Me desculpe - ela sussurrou, entre lagrimas, e caminhou de costas até Gustavo.
            Percebeu então que Gabriela ainda estava caída no chão, massageando a própria garganta, sem antes fugir. Tremeu. Será que tinha se sacrificado para nada, por burrice dela...
            - Não se preocupe - Gustavo disse, como se lesse seus pensamentos. - Trato é trato. Porém...
            E, com um sorriso no rosto, deu um chute tão forte na barriga de Gabriela que a fez levantar uns poucos centímetros do chão, caindo de costas logo depois, cuspindo uma boa quantidade de sangue.
            - ... isso não estava no trato - ele completou, rindo.
            Nathalia não teve tempo para sentir-se horrorizada, ou sequer compaixão; sentiu seu cabelo sendo puxado, e logo sentiu-se sendo levada adiante, quase que arrastada.
            - Nathalia! - Yago gritou, irado.
            - Ah, cala a boca - disse Gustavo, entediado, sumindo entre as árvores com Nathalia.

PARTE DOIS

Me Enterre Vivo

Bury Me Alive - We Are The Fallen

            - Está machucando...
            - Você disse que faria o que eu quisesse.
            - É, mas...
            - E eu quero que doa. Afinal, você foi uma menina muito má, não foi, Nathalia querida?
            Dizendo isso, ele ameaçou fazer a cabeça de Nathalia bater contra o tronco de uma árvore podre, e riu do susto que ela levou.
            - Não teve graça - ela tentou dizer normalmente, porém sua voz saiu embargada e temerosa.
            - Teve sim - ele retrucou - E eu quero que você ache graça. Vamos, Nathalia, não é divertido, hein?
            Com um novo puxão de cabelo, Nathalia achou que seria mais racional forçar uma risada.
            - Assim é melhor - Gustavo disse docemente, com um sorriso. - Ora, mas rir é tão fácil! É tããão bom, não é?
            Ele puxou exatamente a mesma faca de antes, e colocou-a a centímetros do nariz de Nathalia.
            - Mas e a dor? - sussurrou ele, com o doce sorriso transformando-se numa máscara demoníaca - Você consegue gostar da dor?
            - Gustavo...
            - Ande. Vou lhe dar uma colher de chá, um cortezinho no braço. E eu quero você sorrindo. Se derramar uma lágrima sequer... acredito que teremos um problema.
            Nathalia encarou a faca, e demorou um pouco para pegá-la em mãos. Gustavo fora incrivelmente paciente até ali. Mas assim que passou a alternar o olhar entre aqueles olhos indiscutivelmente frios e a faquinha brilhante, Gustavo rosnou:
            - Anda logo com isso!
            - Por favor... - sua súplica lhe rendeu um tapa na cara, que derrubou-a no chão.
            - Agora! - Gustavo sussurrou ferozmente.
            Nathalia novamente decidiu que seria bom obedecer. A faca, apesar de pequena, se completamente enterrada, causaria um bom dano... se ao menos soubesse onde ficavam os nervos, para então evitá-los... tinha de tomar cuidado, mas se era apenas um cortezinho, precisaria apenas evitar artérias e veias vitais. Decidiu-se então por uma região entre o ombro e o cotovelo, que deveria ter mais carne do que sangue. Não poderia morrer por um sangramentozinho ali, não é?
            Levou a faca até o lugar que escolhera. Já havia se ralado tantas vezes quando criança, que não sabia explicar por que tremia, e por que tinha tanto medo. Talvez, por que agora, tinha consciência da dor. Tinha consciência de que sentiria aquela pontada aguda e fria...
            Deslizou a lâmina pela pele, e nada aconteceu.
            - Vamos, com mais força - disse Gustavo, e novamente nada aconteceu. - Anda logo, enfia isso aí!
            Por uma terceira vez, Nathalia tentou cortar-se. Dessa vez, com mais força, conseguiu romper um pedacinho infame de pele, mas sua marca era quase invisível, de modo que não arrancou sequer uma gota de sangue.
            - Desculpe, eu...
            Não pôde completar sua frase, pois Gustavo segurou sua mão com tanta força que doeu. Não só isso, como quase torceu-a para fazer a lâmina adentrar a pele de Nathalia, finalmente ferindo-a de verdade.
            Enterrada na horizontal, metade da lâmina entrou em sua pele. A outra metade manchou-se do sangue que logo esguichou. Nathalia estava certa, era uma sensação gélida de uma pontada cruel - porém, cem vezes pior. Sua mente não conseguiu absorver a dor direito, de forma que um arrepio precisou correr por seu corpo antes que pudesse reprimir um grito, simplesmente gemendo.
            - Da próxima vez - Gustavo disse - Eu quero ver você fazendo sozinha.
            E se levantou, puxando-a novamente pelo cabelo, visando a direção que levava àquela casa que Nathalia não sabia bem onde era. Mas...
            Nathalia ouviu um urro de dor, e mais um. Ouviu golpes contra a pele de Gustavo, e por fim ouviu-o caindo, antes que pudesse se virar para ver o que acontecia.
            Gabriela, suja de folhas, terra e sangue, com o pescoço agora totalmente roxo, segurava algo que parecia um galho muito pesado e grosso acima da cabeça. Mal Nathalia a viu, ela desceu o galho no peito de Gustavo, como se já tivesse golpeado-o antes - o que realmente fizera, Nathalia se lembrou. Depois, rapidamente, largou o galho de lado, e pisou o mais grosseiramente possível no peito de Gustavo, torcendo sua camisa ao virar o pé, e assim, provavelmente arranhando-o também.
            Gustavo gemeu de dor, antes de Gabriela anunciar:
            - Isso é pelo meu pescoço - sua voz era fraca, como se realmente tivesse havido dano às suas cordas vocais - E isso é pela minha barriga.
            Dizendo isso, pisou em sua cara com força, quebrando-lhe um dente.
            - Filho da puta... - disse, ao final.
            - O filio dja pucha que vochê aña - gemeu ele, e assim que Gabriela tirou o pé de sua cara, pôde repetir: - O filho da puta que você ama.
            E riu, logo depois, mas foi interrompido por um chute nas costelas.
            - Para você ver como eu escolho mal.
            Nathalia sentiu-se sendo levantada, e ao levantar os olhos, se deparou com Yago.
            - Ok, ok, está tudo bem... - ele tentou confortá-la, mas seus olhos logo caíram sobre seu braço, agora já coberto de sangue. Estourou: - O que foi isso?
            - Ah... - Nathalia percebeu que, se quisesse sair dali o mais rápido possível, teria de mentir, o que fez debilmente: - Ah, não foi nada...
            - SEU FILHO DA PUTA! - Yago berrou, e fez menção de atacar Gustavo (que ainda estava deitado no chão, sofrendo nas mãos de Gabriela), quando controlou-se, percebendo que cuidar da namorada deveria ser mais importante.
            - Vamos embora - ele disse.
            E assim, Gustavo riu.
            Riu como um débil mental, gargalhando tão alto que até para os que estavam longe seu riso era incomodo. Não se contorcia no chão pelo fato de estar imobilizado pelo pé de Gabriela, mas com certeza o faria se pudesse. Estava louco, pior do que já era.
            - Vamos - Yago ditou novamente, num tom de puro desprezo.
            - Vou dar a vocês dois minutos... - Gustavo sussurrou, rindo-se - Vou dar a vocês dois minutos... e então vamos nos divertir muito, muito mesmo...
            E voltou a rir, como um fanático.
            - Ah, é? - disse Gabriela - Pois quero ver como você vai se divertir sem isso.
            Pegou em mãos a Pervinca, e retirou o cartucho, enfiando-o no bolso das vestes. A arma estava infinitamente mais leve, e inútil.
            - Pode ficar com sua florzinha - ele disse, jogando a pistola descarregada na cara de Gustavo, que não esboçou expressão de dor - É inútil mesmo.
            Gustavo não parou de rir por nenhum momento.
            Nathalia não pôde deixar de se contaminar com aquela loucura, e não resistiu a continuamente fitar o ensandecido Gustavo, até que Yago repetiu:
            - Vamos. Você também, Gabriela - Completou, e Gabriela pareceu protestar em silêncio, mas acabou tirando o pé do peito de Gustavo e acompanhando-os.
            Gustavo não dava sinal de que pretendia levantar.
            Caminharam em silêncio, por vezes olhando por cima do ombro para garantirem que não estavam sendo seguidos. Nathalia não deixou de perceber que a mão livre de Yago - aquela que não envolvia seus ombros em sinal de proteção - estava constantemente postada à sua cintura, e logo percebeu: ali, brilhava mais uma arma. Espantou-se, mas achou melhor deixar suas perguntas para depois.
            - Tem certeza de que foi boa idéia deixar ele sozinho? - perguntou Gabriela - Eu ainda posso voltar lá...
            - E fazer o que, matar ele?
            - Não... - Gabriela retrucou, tentando parecer ofendida, porém essa ideia realmente passara por sua cabeça - Mas seu amigo Felipe mora aqui perto, e o pai dele é policial aposentado, não é? Você poderia buscar ajuda, enquanto eu ficava de olho nele.
            - Não - Yago disse - Você viu como ele estava, mal conseguindo se levantar... o que você fez com ele?
            - Desci o pau nele. Literalmente - completou, quando viu a expressão de Yago.
            - Bem, a questão é que ele não vai a lugar algum. E ele também não tem com o que nos atacar. Aposto que vai ficar rolando na própria baba até voltarmos com...
            Ele calou-se, pois um tiro ecoou pela floresta, estourando seus ouvidos até mesmo àquela distancia. Os poucos pássaros que haviam conservado a calma e seus ninhos levantaram voo, criando alguma sombra sobre as árvores já escuras, e grasnando alto, como se estivessem mortalmente feridas.
            O rosto dos três perdeu a cor instantaneamente.
            - O que... - Yago gemeu, espantado, e logo seu rosto distorceu-se em fúria. Virou para Gabriela, e sibilou: - Você deixou a arma com ele?
            Gabriela, cujos olhos estavam imensamente arregalados, voltou ao mundo real, porém sem grande alarde; ainda estava tentando processar o que acontecia. Com pânico, tentou formar uma frase, gaguejando de pavor:
            - E-eu ti-ti-tirei o p-pent-te...
            - MAS DEIXOU A MALDITA ARMA COM ELE?
            Gabriela derramou uma lágrima sem soluços, e enfiou os dedos entre as mechas de seu cabelo, em sinal de desespero.
            Nathalia, tão apavorada quanto, olhou para o relógio de pulso de Yago, que tremia junto ao braço do dono: fazia poucos segundos desde que completara-se dois minutos daquela promessa de Gustavo.
            E aquela característica e assustadora risada, ela voltou aos ouvidos dos três.
            Sem pensar muito, Yago empunhou a pistola e, desajeitado, destravou-a. Segurando com as duas mãos, tremendo de fúria e de medo também, fez as garotas correrem na direção oposta ao tiro, logo seguindo-as. Agora, voltava seu olhar para trás com maior freqüência, provavelmente tentando detectar Gustavo.
            O fato de mais e mais tiros ecoarem pelas árvores não ajudou muito; obviamente, ele tinha uma grande quantidade de munição, e não se importava em gastar, ou queria acertá-los às cegas mesmo. Nathalia tentou reprimir um gritinho ao ver o casco de uma grossa e idosa árvore quebrando-se num único ponto, fazendo a madeira úmida pular pelo menos dois metros - obviamente, um tiro acertara ali. Tentou, mas não conseguindo: soltou um gemidinho assustado, e só percebeu que havia parado no meio do caminhou quando Yago sussurrou “Vai!”.
            Nenhum dos três fazia muito barulho, para não chamar a atenção de Gustavo. O máximo que tiveram de fazer fora abaixar-se pois os tiros estavam atingindo cada vez mais árvores, arrancando cada vez mais cascos. Em mais dois minutos, estavam cobertos de lama e folhas, pois a chuva voltara a fustigar-lhes.
            Gustavo estava perto... muito perto...
            O último tiro ecoou mais próximo do que nunca.
            Já haviam percebido que a cada sete tiros - aproximadamente de seis a quinze segundos -, Gustavo fazia uma pausa; provavelmente para recarregar. Até ali, houvera pelo menos nove recargas, o que fez Yago e Gabriela trocarem um olhar apreensivo, mas não por muito tempo: após o tiro mais alto, seguiu-se uma nova pausa, o que lhes deu tempo para tentarem se esconder. Felizmente, havia uma depressão atrás de algumas árvores ali perto, um perfeito esconderijo.
            - Vem - sussurrou para Nathalia, fazendo-a levantar-se quase ereta e correndo para a depressão com Gabriela.
            Jogaram-se sem menor cerimônia ali, levantando folhas e tufos de terra; procuraram esconder ao máximo o topo da cabeça, pois a depressão comportava muito mal suas costas; para isso, foi necessário encolherem as pernas e agarrarem-se ao chão que descia em diagonal, para assim não caírem.
            Perceberam que fizeram muito barulho. Queriam arfar, recuperar o fôlego, mas era melhor não; talvez os passos pudessem ter despistado Gustavo, e um pouco de silêncio ajudaria também...
            Ouviram o pente sendo encaixado, um estalar, e a arma foi destravada novamente.
            - Eu posso ouvir vocêeeees! - exclamou Gustavo, em um tom de voz excessivamente alto e carregado de pura loucura - Vocês estão se divertindo, respirando? EU TAMBÉM! - E gargalhou alto demais; um arrepio percorreu o corpo de Nathalia, e ela percebeu que não era a única - Gelado, não? A chuva não está gelada? Podem deixar, eu sei que o inferno é quente, vocês vão se divertir taaaaanto lá!
            E atirou, acertando exatamente a árvore que Nathalia se apoiava, porém uns dois metros acima de sua cabeça. Soltou mais um gemidinho, e se contorceu de medo; lascas de madeira caíram do ponto onde a árvore fora atingida.
            - Mandem o abraço pro tio Lúcifer, viu! - Gustavo gritou, numa voz aguda, e atirou novamente; porém, não parecia acertar nada, de forma que Nathalia teorizou que atirava para cima.
            Quando novamente as balas acabaram, ele recarregou ainda mais rapidamente, e atirou na árvore em que Yago se apoiava, porém novamente muito acima de sua cabeça. Este mostrou-se um pouco mais controlado, porém arregalou os olhos e apertou os lábios, apertando a coronha da arma com mais força. Nathalia sabia exatamente o que ele pensava. Eu podia ter morrido...
            - Quando quiserem acabar a brincadeira de pique esconde - disse Gustavo, fazendo uma pausa para atirar na árvore de Gabriela - porém, muito próximo de sua cabeça, tanto que as lascas mal caíram antes de estatelar - É só levantarem daí. Eu poderia brincar pela eternidade toda, mas logo os bichos da floresta vão sair e acho que eles gostariam muito de provar vocês. Além disso, eu estou com fome e o jantar não está pronto.
            Os três se entreolharam. Era óbvio, não era necessário dizer... mas ele sabia. Talvez não tivessem sido rápidos o suficiente. Talvez, tivessem realmente feito muito barulho. Agora, o que importava era tentar fugir...
            Gabriela parecia ser a mais apavorada dos três, pois o tiro em sua árvore fora muito próximo; era possível que Gustavo soubesse qual árvore pertencia a cada um? Pois se soubesse... Gabriela estaria marcada: seria a primeira.
            Yago já estava vermelho novamente. Nathalia poucas vezes vira aquela expressão tão cheia de ódio, e sabia o que ele ia fazer; não pensou duas vezes, e mesmo assim, não teria feito muita diferença se o tivesse feito: sua posição já estava delatada mesmo...
            - Não! - ela gritou, mas já era tarde demais: Yago se levantara, e apontava a arma diretamente para a cabeça de Gustavo...
            Yago apenas não foi morto por causa de seus reflexos e de seus olhos de águia: Gustavo já tinha empunhado a arma antes mesmo dele se levantar, e já havia destravado-a também. Assim que Yago fez menção de se virar, ele apertou o gatilho; o tiro quase atingiu em cheio o peito de Yago, que voltou a se recolher na depressão. A adrenalina corria por seu corpo, porém, mais tarde, provavelmente pensaria: Eu quase morri duas vezes...
            Isso, é claro, se não morresse de verdade.
            Gustavo provavelmente teria gargalhado, se Gabriela não fosse tão rápida: tirou uma arma do cinto tão rápido que Nathalia não percebera (um pensamento infantil correu em sua mente; por que todos tem uma arma, menos eu?), e levantou-se rapidamente também. Gustavo ainda apontava a arma para onde Yago estivera, por isso não conseguiu se recuperar a tempo de impedir o tiro. Mas também, no desespero, Gabriela errara, mesmo que por poucos centímetros. Era óbvio que mirava seu peito, pois a árvore que crescera imediatamente à sua direita fora atingida, novamente espalhando lascas.
            Gustavo olhou para o lado, e sorriu.
            - Essa foi por pouco, hein? - disse, excessivamente dramático.
            - Larga essa arma - rosnou Gabriela, séria, segurando a sua própria com ambas as mãos.
            - Mas ora - ele passou a segurar sua pistola com apenas uma das mãos - Que graça teria? Seria um pouco de covardia me matar sem me dar chance de defesa, não?
            - Larga. Essa. Arma. - repetiu Gabriela, ignorando-o.
            - Pois bem - ele disse - Se você não quer brincadeira, não terá brincadeira.
            E Gabriela, lenta demais, não pôde ver seu movimento; e quando viu, ele já estava pronto. O susto foi tão grande que não teve reação nenhuma, e, mesmo que ele estivesse quebrando suas regras, não conseguiria atirar... nunca matara antes. Bem, teria de se obrigar a fazê-lo.
            Gustavo agora apontava a arma para o meio das árvores. Com o canto, e prendendo a respiração, uma Gabriela nauseada via que ele apontava para Nathalia e Yago, que estavam sorrateiramente fugindo, como ela tinha lhes dito para fazer. Ele os pegara, mas não se Gabriela conseguisse puxar o gatilho...
            - Vamos - disse Gustavo - Me mate. Puxe o gatilho. Acabe com minha misera vida - E deu mais uma gostosa gargalhada, que não durou tanto assim - Mas tenha em mente que eu sou bem rápido, e no momento que você me matar, acredite, eu terei um décimo de segundo e um fiapo de vida... o que me é mais do que o suficiente. Ou você poderia simplesmente vir pra cá, salvar a vida dos seus amigos... em troca da sua. Não? Pois bem, quem eu escolho então... Nathalia ou Yago, mulher ou homem, perfeição ou escória, dama ou vagabundo...
            Gustavo parecia esperar que Gabriela se rendesse, então surpreendeu-se, e muito, quando ela realmente atirou. Ele pulou para trás, como se esperasse que fosse atingido, mas novamente a árvore ao seu lado cuspiu lascas. Mas era isso mesmo que Gabriela queria: agora tinham tempo de correr.
            - VAI! - ela urrou para Yago e Nathalia, que imediatamente tornaram a correr, e seguiu-os, enquanto Gustavo demorou mais um momento para entender; tempo suficiente para Gabriela atravessar a depressão inteira, e o casal corria ainda mais à frente.
            - HEI! - Gustavo gritou, e imediatamente atirou para sua frente, sem acertar ninguém.
            Nathalia já não assimilava nada. Apenas corria, de mãos dadas com Yago, no mesmo ritmo exageradamente acelerado que ela normalmente não acompanharia. Passaram por árvores e mais árvores juntos, separando-se apenas quando encontravam um obstáculo no meio do caminho - como, por exemplo, mais árvores ou outras depressões. Yago volta e meia virava-se para trás, e uma ou outra vez atirou também, causando um imenso susto em Nathalia; provavelmente, o namorado havia visto Gustavo e estava só ameaçando, mas mesmo assim.
            - Gabrielaaa! - gritou Gustavo, atirando a esmo, mirando apenas na garota, que agora estava chegando cada vez mais perto de Yago e Nathalia. Agora não faltava muito para a saída da floresta, e então podiam decidir se iriam pela cidade ou se iriam para a casa de Felipe pedir ajuda...
            Um grito mortal, esganiçado e alto, inspirando puramente dor.
            Yago arrastou Nathalia até atrás de uma árvore grossa o suficiente para esconder os dois, e então finalmente puderam olhar...
            Gabriela.
            Caída.
            As mãos na perna esquerda, e podiam jurar que viam sangue entre os dedos brancos da menina... na verdade, toda sua pele parecia imediatamente mais pálida, mesmo sendo bastante morena.
            E Gustavo se aproximando cada vez mais, com a arma em punho, porém, segurando-a como se fosse apenas mais um acessório. Tinha um grande sorriso no rosto, e não tirava os olhos de Gabriela.
            - Olha onde estamos agora, hein? - disse ele, se agachando perto dela - No inicio, você conseguia imaginar que tudo isso aconteceria... e que terminaria aqui?
            - Vai se ferrar - ela rosnou, com toda a força que tinha, e, fazendo mais um esforço, cuspiu. Sua saliva mal chegou aos pés de Gustavo, tão fraca que estava.
            Gustavo simplesmente riu.
            - Bem... como eu disse, sem brincadeira pra você.
            E ergueu a arma, novamente destravando-a, o dedo apertando o gatilho e...
            - NÃO! - Nathalia gritou.
            Yago ainda tentou segurá-la, mas escapou por seus dedos; logo estava encarando Gustavo, que subitamente perdeu o interesse em Gabriela e redirecionou a arma diretamente para a cabeça de Nathalia, segurando-a com apenas uma mão.
            - Você de novo? - perguntou, como se estivesse desinteressado, porém sua voz tremia de raiva.
            - Não faça isso! - ela disse, com a voz mais calma; talvez por ser a segunda ou terceira vez que estivesse naquela situação naquele dia - Por favor, eu, eu...
            - Você o que? - perguntou, pausadamente - Depois de tudo que me fez passar hoje, ainda quer conseguir um acordo?
            Nathalia controlou sua vontade de dar uma resposta malcriada.
            - Não era isso que você queria? Graça? Uma garota emocionante, que não fosse tão certinha...
            - ISSO NÃO QUER DIZER QUE VOCÊ PODE FAZER O QUE BEM ENTENDER! - ele berrou, logo depois suspirando, e ditando mais calmamente: - Mas você tem razão... realmente, foi muito divertido...
            - Não é? - Nathalia controlou-se para não deixar sua voz tremer, e, com o canto do olho, percebeu que Yago não estava mais atrás da árvore; seja o que for que o namorado estivesse fazendo, teria de confiar nele e enrolar Gustavo um pouco mais - Foi um pouco sujo, mas correr é assim mesmo... e olha essa puta - Nathalia rosnou falsamente, olhando para Gabriela e dando-lhe uma piscadela muito rápida, com que para se desculpar; ainda assim, achou que ela não tinha percebido, e que mesmo assim sabia o que estava fazendo - No chão, onde merece ficar... posso matar ela? Eu?
            - Claro, minha querida, claro... - Gustavo disse, como se estivesse em dúvida se deveria confiar ou não; assombro que logo sumiu de sua expressão, dando lugar à pura felicidade - Ah, querida, como pude duvidar de você...
            - Eu só precisava de um tempo... agora podemos partir juntos.
            - E fazer o que quisermos!
            - Com quem quisermos! - Nathalia achou que tinha exagerado na última nota, chegando a pular, mas se convencera ou não Gustavo, nunca chegou a saber, pois Yago surgiu logo atrás do assassino golpeando-lhe a cabeça com um galho particularmente grosso; exatamente como Gabriela havia feito pouco tempo atrás.
            Ele gemeu de dor, derramando lágrimas - Yago parecia ter acertado exatamente onde Gabriela deixara um galo. Sem esperar uma reação, Yago chutou suas costas, fazendo-o cair sobre a perna ferida de Gabriela. Não teve tempo para se desculpar, simplesmente levantou Gustavo pela camisa e o jogou na árvore mais próxima. Ele caiu ali mesmo, e logo recebeu um novo chute de Yago, na barriga...
            Yago recebeu uma canelada fortíssima, dobrando-se de dor tempo o suficiente para levar um soco no rosto, caindo de lado.
            Gustavo também tentou pegá-lo pela camisa, porém, dessa vez, pela gola, e com intenção de desferir mais socos no rosto recém ferido de Yago. Este, porém, não o deixou: foi sua vez de acertar um soco na face de Gustavo, e, sem perder tempo, feriu sua barriga com uma joelhada. Gustavo tentou não sentir dor, gemendo por um segundo antes de recuperar-se... mas Yago já estava de pé, e chutou seu peito, fazendo-o cair para trás.
            Yago tentou fugir, pois a Pervinca estava longe de ambos, mas Gustavo agarrou seu pé...
            Caiu em cima de Gabriela, que tentava se arrastar para o mais longe possível.
            - Cuidado comigo, porra! - ela tentou gritar, mas o que saiu foram apenas uns gemidos ininteligíveis.
            Yago novamente não teve tempo de se desculpar: Gustavo pisou com toda a força em suas costas, bem na altura da coluna, e girou o pé, fazendo a sola de seu tênis deixara marcas na pele de Yago, que por sua vez gritou de dor. Gustavo virou-o, e aí sim, desferiu socos e mais socos em sua cara, causando instantâneos cortes e hematomas, inclusive um olho roxo.
            Gemendo de dor, Yago fez o que pôde: usou toda a força que tinha para desestabilizar o braço que Gustavo usava como apoio, fazendo-o cair; na trapalhada, suas cabeças se chocaram, imediatamente fazendo o mundo girar para os dois; pareciam que nunca tinham brigado na vida.
            Yago foi quem se recuperou mais rapidamente. Atirou o corpo de Gustavo de lado, acertou um belo soco em sua cara e um potente chute em sua barriga - que fez o inimigo contorcer-se e perder o ar - e levantou-se. Dessa vez, ninguém puxou seu tornozelo.
            - NÃO! - Gustavo gritou com o pouco ar que tinha recuperado, quando percebeu o que Yago iria fazer, mas era tarde demais: ele havia pego sua Pervinca, e, como não tinha a menor coragem nem intenção de matar, arremessou-a aos céus, e ela voou para longe, acima das folhas das árvores; foi para tão longe que ninguém conseguiu ouvi-la cair, mesmo na calada que era a floresta.
            Gustavo olhou, horrorizado, sua preciosa arma desaparecer, e o máximo que conseguiu foi repetir aos sussurros:
            - Não...
            Yago lançou-lhe um último olhar de desprezo, antes de voltar para Nathalia.
            - Vamos, querida, levante-se...
            Ela obedeceu.
            - Acabou, Nathalia - disse Yago, sussurrando, devido à dor - Finalmente acabou.
            - Mas... e ele?
            - Provavelmente não conseguira caminhar novamente por um tempo... dessa vez tenho certeza - disse Yago - Porém, não seria prudente repetir o mesmo erro... você vai na casa de Felipe, e eu fico aqui, cuidando de Gabriela e... dele.
            Novamente com desprezo, fez um sinal mudo com a cabeça para Gustavo.
            - Tá... NÃO! - Nathalia começou a dizer, mas quando finalmente prestou atenção ao que Yago apontara, gritou a negativa.
            Gustavo imediatamente envolveu o pescoço de Yago num mata-leão. Nathalia pensou por um momento que ele fosse quebrá-lo... mas não, ambos caíram de costas no chão. Yago, apesar de todas as dores que sentia, rapidamente deu uma cotovelada na barriga de Gustavo, fazendo-o gemer de dor mais uma vez. Ele estava perdendo de verdade...
            Yago voltou a se levantar, novamente arfando, e chutou a barriga de Gustavo mais uma vez. Voltaria a chutar, se não fosse Nathalia...
            - Vai! - ele disse, se afastando um pouco do Gustavo, dando um empurrãozinho em Nathalia para enfatizar o que queria que fizesse, e então se virou.
            Nem viu direito. Seus olhos não acompanharam quando Gustavo tirava uma faca não-sabia-da-onde, e quando ele levantou o afiado instrumento acima de sua cabeça.
            E então, sem Yago ver nem nada, ouvindo apenas uma gargalhada assassina, a lâmina foi enterrada profundamente em sua barriga. 
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