Oi galero ;) Não sei se vocês leram o comunicado sobre SILENCIAR, mas se não, aqui está: http://historiasebesteiras.blogspot.com/2011/08/comunicado-o-fim-de-silenciar-e-o.html Lembrando que aqui também tem a sinopse do livro que eu estou escrevendo, "Ecos", e que sairá ano que vem nas livrarias, espero. Bem, aqui está o capítulo que vocês esperaram:


56

Afundando

Going Under - Evanescence

            Yago acordou cedo naquela manhã seguinte - ou fingiu fazê-lo, pois não dormira nada. Nem sua mãe nem seu irmão ousaram sequer por a cabeça para dentro do quarto; já havia dito que não queria ser incomodado. De qualquer forma, quando olhou para o relógio, viu que ainda eram sete da manhã. Se tivesse escola, estaria atrasado. Se tivesse provas, estaria no horário certo, pois as avaliações eram aplicadas somente às oito horas. Mas ambas haviam acabado na semana anterior, e os resultados sairiam somente depois do Natal. E, mesmo se não houvessem, Yago não se levantaria da cama - para nada.

            Quando olhou para o relógio novamente, se espantou: eram nove horas. Seu pensamento não poderia ser tão lerdo assim, não é?
            E então percebeu que havia chorado por todo esse tempo.
            Incapaz de aguentar aquela melancolia toda, ele se levantou, limpando o rosto; estava grudento e rude, pois as lágrimas haviam se secado sozinhas. Tomou um demorado banho quente, onde acabara esquecendo-se do que estava fazendo para mergulhar novamente em seus pensamentos. Passados bons trinta minutos - quando a água finalmente tornou-se fria, trazendo-o de volta ao mundo real -, ele saiu do banheiro, e vestiu-se rapidamente com um jeans claro e uma camisa preta; não vestiu um casaco, apesar de que dia estivesse congelando. Assim que terminou tudo, desceu as escadas.
            Encontrou sua mãe na cozinha, de cabelos perfeitamente arrumados, com um avental florido. Fazia alguma coisa à mesa, e Yago logo percebeu que anotava algo. Copiava de diversos jornais, de relatórios... talvez fosse alguma coisa de seu trabalho.
            Ela levantou os olhos, sem muita emoção no rosto, e voltou a anotar o que quer que fosse, dizendo:
            - Ah, bom dia, filho.
            - Bom dia - Yago respondeu, com pouquíssima emoção, também. - Onde está Lucas?
            Sua mãe largou a caneta, com a mão tremendo; parecia cansada. Coçou uma pálpebra, e pareceu precisar pensar um pouco, antes de enfim responder:
            - Ele saiu.
            - Para onde?
            - Eu... eu não sei, acho que foi com um desses amiguinhos dele...
            E voltou a escrever.
            Parecia estar morrendo de dor. Parecia ter sono - talvez nem tivesse dormido aquela noite. Yago ouviu um ronco escapar de sua barriga, o que significa que também não havia tomado café. O que poderia ser tão importante a ponto de fazê-la abrir mão daquilo tudo? Não poderia deixar para depois?
            Yago, pela primeira vez em muito tempo, se viu simpatizando com sua mãe.
            Não fora ele que no primeiro dia do ano letivo dissera para Nathalia: “Eu não me dou muito bem com minha mãe”? Não fora da boca de sua própria mãe que tivera de ouvir que era o culpado da morte de seu pai? Não fora dos dois a culpa de que, desde então, mal haviam passado do “bom dia” e “boa noite”?
            Por outro lado, não era aquela sua mãe? Não era ela que devia ouvi-lo, dar-lhe conselhos, opiniões, dicas de como se virar sozinho... uma ou outra cola de como se lidar com garotas...
            E se seu pai nunca tivesse morrido?
            Estariam os dois em outro patamar, como aquela antiga relação que tinham nas mais longínquas memórias de Yago?
            Mas, se ele não tivesse morrido... talvez nunca tivesse conhecido Nathalia... mas isso era bom ou ruim? A morte de seu pai acabara por lhe ajudar?
            Yago sentiu seu peito queimar. Era uma pessoa horrível, por sequer considerar essa opção.
            Mas e se...
            Será que ele conseguiria deixar tudo de lado? Será que poderia dar um abraço em sua mãe, e lhe dizer “eu te amo”? Será que algo mudaria? Será que, talvez, só talvez... conseguisse arrancar mais um sorriso dela? Um sorriso honesto, como de três anos antes? Será que ainda havia algum pingo de perdão nela?
            Sem nenhum dos dois perceber, Yago estava chorando. Por Nathalia, por sua mãe... por ele mesmo, que estava mais perdido do que nunca.
            Assim que deixou alguns poucos soluços involuntários escaparem de sua garganta, sua mãe levantou a cabeça. Claramente tinha intenção apenas de ver de relance o que acontecia, mas quando voltava-se para sua anotação, deixou a caneta cair, e voltou a encarar Yago. Estava embasbacada - era óbvio que o filho chorava (sentiu-se tola por pensar o contrário por tanto tempo, mas afinal, não sabia que Nathalia o ajudara a superar a morte do pai), mas nunca na sua frente. E, como qualquer mãe, não conseguiu ficar parada.
            - Yago - disse, espantada, tirando os óculos e pouco ligando para as mechas de seu cabelo escuríssimo que caía sobre sua testa - O... o que aconteceu?
            Mas ela sabia. Sabia sobre Nathalia; sabia sobre tudo. E ainda assim, não poupou-se do papel de tola - perguntou sem vergonha, de bom grado.
            Yago simplesmente avançou e abraçou-a, apertando-a forte. Quase que ambos caíram, pois não era algo que ela estava esperando. Mas assim que sentiu-se mais firme, primeiro, ficou mais perplexa ainda - e depois, passou os braços pelo pescoço do filho, que estava pelo menos quinze centímetros mais alto do que ela; a última vez que o abraçara, lembrava-se de vê-lo esticando-se um pouquinho, na ponta dos pés, para alcançar os 1,70 metros de sua mãe.
            Com certo pesar, ela percebeu o quanto perdera do filho; ele agora estava no penúltimo ano da escola. Logo completaria dezoito anos. Logo iria para a faculdade, ou gravaria um CD - com a bela voz que ela nem dera-se o trabalho de escutar. Ela nem sabia que ele tocava, que cantava! Não sabia quais eram as notas do filho; não sabia como o namoro dele andava; não sabia se tinha outro sonho, além, obviamente, do de cantar. E o máximo que fizera por ele, nesse tempo todo, fora assinar o contrato que aquela Yvonne lhe oferecera, sem sequer lê-lo.
            Todo esse tempo, e todo esse grande nada...
            Então, passaram um bom tempo simplesmente abraçados, como que para por tudo no lugar; afinal, não era por que perderam três anos que teriam que perder mais ainda.

***

            Depois do almoço, decidiu ir à delegacia novamente; mas dessa vez foi sozinho. O dia estava novamente frio e nublado; a chuva, que sumira por alguns dias, agora parecia que ia voltar. Assim que pôs os pés do lado de fora, sua mãe lhe avisara para vestir um casaco - e, ao contrário do que fizera no primeiro dia de aula, obedeceu-a, sem protestar.
            Quando chegou em frente à delegacia, viu-se travando no mesmo lugar. Não de choque, mas de surpresa.
            Havia quatro carros de polícia, simples, estacionados ali. Da porta do prédio, saíam homens e mais homens com coletes à prova de balas, armas carregadas embainhadas, correndo sem se preocupar em ocultar a pressa. Entraram em três carros diferentes - Yago surpreendeu-se; pelo menos vinte homens haviam descido às escadas da delegacia, e sinceramente não achou que caberiam em Celtas disfarçados de viatura, mas eles conseguiram. Os três carros deram partida, cantando pneus, quase atropelando Yago, que no entanto estava perfeitamente dentro da lei, caminhando na calçada. Para se desviar, teve de pular para trás, assim chocando-se contra um muro de madeira mal feito que separava a rua de um terreno baldio.
            Restando apenas um carro de sirenes ligadas, o delegado Jefferson desceu sofrivelmente as escadas. Trajava também um colete à prova de balas e empunhava uma pistola, que logo guardou em seu cinto; porém, ao contrário dos outros policiais, era obvio que não estava acostumado àqueles trajes - na verdade, parecia sufocado. Talvez, na pressa, tivesse pego um número muito abaixo do que usava, e agora já não dava mais tempo de trocar-se.
            - Delegado! - Yago gritou, fazendo o delegado pular de susto e cair. Ajudou-o a levantar-se, o que não foi uma tarefa fácil, pois o delegado Jefferson parecia escorregar nos próprios sapatos; por duas vezes, quase fizera Yago cair também.
            - Senhor, o que houve? - Yago perguntou, preocupado, assim que conseguiu erguer o velho barrigudo. Por um momento, pensou que talvez tivessem encontrado Nathalia, mas logo lembrou-se que Costa Valença não tinha muito mais do que o mesmo número de oficiais que vira entrar nas três viaturas. Mesmo que não gostasse, tinha que admitir que era meio sem sentido usar noventa por cento dos policiais da cidade contra apenas um garoto de dezesseis anos.
            O velho suspirou, como se Yago fosse um incomodo. Ainda assim, respondeu:
            - Grande operação. Não posso fornecer muitos detalhes.
            - Senhor, por favor, eu imploro, se tiver algo a ver com Nathalia...
            - Não, não, nada disso - ele respondeu, e tentou continuar seu caminho, andando feito um pingüim.
            Yago sentiu certa raiva crescendo dentro de si.
            - Como assim não tem nada a ver com Nathalia? - ele sibilou - Vocês deviam estar investigando tudo sobre a vida de Gustavo! Deviam colocar alguém para rondar essa cidade toda atrás deles, e...
            - Garoto, é uma operação de drogas - Jefferson respondeu, como se não tivesse acabado de dizer que era uma operação sigilosa - Tiroteio em uma pequena vila à beira da estrada no caminho para Cabo Frio. Quase trinta reféns. Dois mortos, até agora. Trágico, realmente trágico. A prefeitura cabofriense já enviou parte do policiamento de lá, e nós vamos enviar parte de cá.
            - Vocês estão enviando todo o policiamento! - Yago rosnou - O que vocês querem fazer, provar que temos uma cidade segura e feliz?
            - Yago - Jefferson começou, à porta do carro, porém decidido a dar-lhe uma resposta malcriada - Eu sugiro que não desacate uma figura da lei. É crime, e, devo lhe lembrar, que crime significa prisão.
            Yago estava queimando de raiva.
            - Vocês nem pretendem investigar, não é?
            - O que nós fazemos não é da sua conta.
            - Ela é minha namorada e pode muito bem estar correndo risco de vida!
            - Pois bem, você não tem provas - Jefferson contra-atacou, debochado - Você pode muito bem ter inventado tudo isso por rixinha com esse Gustavo. E nós dois sabemos muito bem que, talvez, ela tenha cansado de você e fugido. Você não pode nos obrigar a fazer nada, e investigaremos quando bem entendermos. Agora, se me dá licença...
            E partiu com o carro, deixando um Yago vermelho de raiva à beira da rua.
            Yago pensou em pegar uma das pedras lascadas da calçada e atirar no Celta, que cuspia gasolina pelo carburador. Não fez isso, porém, por mais que quisesse correr atrás do delegado e lhe mostrar o que era não ter provas.
            Mas, nesse exato momento, ela sentiu uma mão em seu ombro.
            - Yago... - ele ouviu a sofrida voz de Gabriela, embargada - Eu sinto muito...
            Mas ele não lhe deu tempo de continuar: virou-se, livrando-se de sua mão, e agarrou pelos pulsos, fazendo-a se chocar contra o mesmo muro de madeira improvisado que ele há não muito tempo.
            Gabriela gemeu, mas sua demonstração de dor apenas fez com que Yago a apertasse com mais raiva.
            - Você! - Yago exclamou, e teve de se controlar para não jogá-la no chão.
            - Yago, você está me machucando...
            - Pois é pra machucar mesmo! - ele gritou - Você e aquele... aquele filho da puta sempre armaram pra cima da gente! Vocês dois fizeram isso! Onde está Natalia, hein? O que você fez com ela?
            - Eu não...
            - PRA ONDE?
            - EU NÃO SEI! - Gabriela gritou também - Eu não fiz nada!
            Ela estava chorando agora. Yago não queria, mas a largou, bufando, e viu a marca vermelha de seus dedos nos pulsos dela. Gabriela caiu instantaneamente, e, ajoelhada no chão, massageou os pulsos, que logo ficaram roxos.
            - Eu não fiz nada - ela disse, com a voz trêmula - Mas eu sei quem fez.
            - Gustavo - Yago rosnou, como se estivesse praguejando.
            Gabriela assentiu.
            - Por que você veio aqui? - Yago reclamou, olhando-a como se fosse um vira-lata sarnento.
            Gabriela engoliu em seco, e se levantou, encarando-o nos olhos com medo, porém, corajosamente.
            - Por que eu também sei onde ele a esconde. Eu já fui lá. E, eu nunca admiti pra ele, mas sei o que ele faz. Eu já ouvi ele falar sozinho uma vez ou outra, então não ficou muito difícil de descobrir todo o resto. E sei o que ele vai fazer com a Nathalia, e é por isso que temos que partir o mais rápido possível.

***

            Dessa vez, o atendente no balcão era um garoto, também em seu primeiro emprego. Parecia entediado agora, e reclamava por ter que atender telefonemas numa delegacia vazia enquanto todos estavam na estrada combatendo o crime. Como não fazia nada, foi fácil de distraí-lo: Gabriela apenas jogou charme pra cima dele, e o garoto baixou a guarda instantaneamente, de modo que nem viu Yago entrar na delegacia e seguir para o escritório de Jefferson.
            Para seu azar, estava trancado. Ele precisou usar o truque de Gabriela o ensinara - pegou o arame farpado em seu bolso e enfiou-o na fechadura. Passaram-se apenas dois minutos e ele já tinha perdido a paciência, quando finalmente conseguiu: a porta se abriu, e Yago, em silêncio, entrou na pequena sala, imediatamente maior sem a presença da grande barriga de Jefferson.
            Não demorou muito e ele achou, em uma gaveta fechada, uma pistola, completamente carregada. Suspirou de alívio; Gabriela tinha razão: o delegado mantinha uma arma reserva. Yago não tinha ideia de onde guardavam as armas dos oficiais, e teorizou que, onde quer que fosse, seria num lugar muito bem guardado.
            Então, viu a câmera bem acima de sua cabeça, gravando cada movimento seu.
            Por reflexo, atirou o porta-lápis no aparelho, fazendo faíscas pularem. Não que fosse adiantar de alguma coisa; eles deviam ter algum serviço de vigilância. O que lhe dava muito pouco tempo para fugir.
            Saiu correndo da sala, e agarrou Gabriela pelo braço.
            - Ei, o que... - o garoto secretário disse, levantando-se, mas era lento demais; quando esboçou um inicio de reação, ou seja, quando tentou alcançar o telefone para comunicar à alguém, Gabriela já havia se acostumado ao ritmo da corrida de Yago (mesmo que, de inicio, tivesse soltado um gritinho de surpresa).
            Rapidamente, entraram no carro de Gabriela, com ela dirigindo, e deram partida.
            - Conseguiu a arma?
            - Aham - confirmou Yago.
            - Está carregada?
            Yago tirou o pente com cuidado, e examinou-o; completo, sem nenhuma bala faltando.
            - Aham - confirmou novamente.
            - Você só tem esse pente?
            Yago subitamente ficou vermelho. Mas é claro que deveria ter procurado mais munição. Se ninguém notara nele enquanto a câmera o filmava, certamente não notaria enquanto ele revirava outras gavetas à procura de um pente reserva.
            Gabriela suspirou, e, tirando os olhos da estrada por uma fração de segundo, tirou outro pente do estofamento rasgado de seu banco e atirou-o à Yago, que pegou-o no ar.
            - Sorte a sua que essa é uma trinta-e-oito - disse ela, e tirou uma arma igual, porém menos polida, do mesmo rasgo no estofamento.
            - Ei, você tem uma! - Yago exclamou, indignado - Pra que você me fez passar por tudo aquilo, então?
            - Yago, Gustavo é um homem perigosíssimo - ela respondeu, impaciente, enquanto fazia uma em alta velocidade - Se ele quiser te matar, ele não vai perder chance nenhuma. Olho aberto! Eu não vou ter tempo de cuidar de um marmanjo e uma namorada; mal vou saber cuidar de mim.
            Sua voz tremeu ao fim da frase, e Yago soube o por que: se ela tivesse de matar Gustavo, ela tentaria fazê-lo... mas ela o amava. Conseguiria, então?
            - Não gaste balas - ela disse - Dois pentes são muito pouco, então olhe lá.
            - OK - Yago confirmou novamente.
            - Yago... - Gabriela disse, com pesar - Eu já disse, o Gustavo é muito perigoso. Ele vai tentar te matar, e não vai parar no meio do caminho por ninguém. Se eu me meter na frente, ele me mata. Então, por favor... tome cuidado.
            Yago suspirou.
            - E eu não sei? - disse ele.
            Foi a vez de Gabriela suspirar.
            - Não - ela respondeu. - Não sabe.
            Yago se acomodou em seu banco, com a arma empunhada. Chovia agora. Com certeza, aquele adolescente já havia chamado reforços; mas, do jeito que o delegado Jefferson havia se comportado, ele colocaria a ajuda em espera. Tinha umas boas três ou quatro horas antes de ter que prestar qualquer declaração. O sangue fervia em suas veias, e sua ansiedade poderia levá-lo à lua...
            Claro que a encontraria.
            Claro que a salvaria.
            Nem que, para isso, tivesse que morrer no meio do caminho.
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