Oi galera ;) Mil desculpas por não ter conseguido postar este capítulo na semana passada, mas aqui está ele. Além disso, tenho um comunicado para fazer, e esse comunicado será postado na segunda-feira às 18h. É importante que todos vocês leiam, pois envolve o fim de SILENCIAR, bem como falará do novo livro que estou escrevendo: tanto título quanto sinopse serão revelados. Como veêm, é algo importantíssimo.
Mas, deixando isso de lado, aqui está o capítulo 55 de SILENCIAR. Espero que curtam, e espero vocês novamente segunda-feira ;)



55

Uma Bela Mentira

A Beautiful Lie - 30 Seconds To Mars

            Naturalmente, a festa fora cancelada, e Felipe e Suzana deram meia volta assim que receberam a notícia de Yago. A mãe de Suzana comprometeu-se em tomar conta dos convidados - não havia por que eles não se divertirem, e era bem possível que reivindicassem comida, afinal, Suzana conhecia seus convidados.

            Suzana, particularmente, estava desesperada.
            - Mas como assim? Como?! Bem debaixo dos nossos narizes! Como ninguém percebeu nada? Ninguém viu nada de suspeito? Ah, francamente, seus inúteis, estamos falando da minha melhor amiga, e da sua namorada, isso mesmo, Yago...
            Decidiram, na metade do caminho, ignorá-la.
            Ela havia, claro, trocado de roupa: agora, invés do vestido de noiva, usava jeans e uma camisa branca, a roupa que usaria na festa (mesmo com todos os protestos de sua mãe). Aurora estava lá, no meio dos convidados; onde iam não era um ambiente próprio para crianças, e a pequena parecia ter um efeito calmante sobre os convidados (“Ah, que fofa” ou “Ai, queria ter uma dessas pra morder”).
            Ainda assim, não tivera tempo para remover a maquiagem, então, quando entrou na delegacia, atraiu diversos olhares, pois claramente estava parecendo uma prostituta.
            Yago dirigiu-se, sem mais delongas, até o balcão, onde havia três secretárias magrelas, que pareciam estar no primeiro emprego.
            - Bomdia - ele atropelou as palavras, e não se importou em corrigir, rapidamente completando - Eu gostaria de fazer uma queixa.
            A garota - de dezessete anos no máximo, provavelmente juntando dinheiro para a faculdade - levantou os olhos, com os óculos quase escorregando da ponte de seu nariz pequeno e modelado. Ela imediatamente abandonou o telefone a seu lado; como não olhava o que fazia, acabou por batê-lo à mesa, e não ao gancho.
            - Aham - ela pigarreou rapidamente, tentando disfarçar - Sobre o que, senhor?
            Ela claramente estava sendo obrigada a chamar um moleque poucos meses mais novo do que ela de “senhor”. Ignorando esse fato, Yago forçou por sua garganta uma única palavra:
            - Sequestro.
            A expressão de espanto no rosto da garota foi intensificada quando seus óculos, finalmente, caíram do nariz anormalmente pequeno. Se Yago pudesse ler sua mente - o que não era necessário, pois lia sua expressão -, apostava que ouviria “Mas isso nunca aconteceu!”.
            - Ahn... - ela exclamou, sem interromper contato visual com Yago, até que se virou para a amiga a seu lado - Julia, onde é que você guarda os formulários?
            - Não sou eu, é a Pâmela que guarda numa daquelas gavetas.
            - Eu? Eu só atendo os telefones, Aline, deve ter sido você mesma que guardou e não se lembra aonde está.
            - Mas claro que não! - Se exaltou a primeira garota, a de nariz pequeno.
            Seguiu-se uma discussão, que parecia ter se repetido milhões de vezes antes, até que um homem, velho e barrigudo, interrompeu-as, rosnando:
            - Mas que diabos vocês estão de novo discutindo?
            Todas se calaram ao mesmo tempo, antes de Pâmela (ou Aline, Yago não sabia) anunciar:
            - Nós perdemos os formulários - disse, com voz chorosa.
            - Estão embaixo do telefone - suspirou ele - Francamente, já guardaram nas gavetas e você mesma, Aline, já organizou pra não esquecer.
            As garotas enrubesceram e o homem de terno revirou os olhos, fitando Yago logo depois.
            - Estava sendo atendido?
            Yago, que não protestara nenhuma vez, ainda tonto pelo que acontecera, simplesmente assentiu.
            - Você foi atendido?
            - Não, senhor - ele respondeu, agora temeroso também pelas garotas, mas logo chegou à conclusão de que tinha coisas mais importantes a tratar.
            O senhor revirou os olhos novamente, e anunciou:
            - Venha comigo.
            E Yago o seguiu pelo corredor que levava até uma sala, de porta branca, como nos escritórios. A sala em si era excessivamente pequena - Yago desconfiou se aquilo não era um armário de vassouras remodelado. Havia, bem no fundo, uma mesa, e à frente, uma cadeira que parecia ter sido roubada de uma escola pública. Nos cantos, havia fileiras e mais fileiras de armários de gavetas, provavelmente entulhados de arquivos. Yago se mostrou espantado ao ver que o homem, Jefferson Williane, era o delegado; talvez pensasse que o delegado deveria ter uma sala mais à altura de um chefe.
            - Então, qual queixa planejava fichar?
            - Sequestro - ele repetiu, friamente e entredentes.
            Jefferson, o delegado, se mostrou menos espantado. Simplesmente puxou um papel da pilha que havia a seu lado - Yago não soube como ele soube diferenciar, tamanha a bagunça que havia ali - e fez o movimento de quem marcava um “xis”.
            - Qual o seu nome? - ele perguntou.
            - Yago.
            - Sobrenome também, querido.
            - Yago Vieira.
            - Hum... - ele disse - Acho que já temos uma queixa sua aqui... ah, claro - ele puxou outro papel, e novamente, Yago espantou-se com sua eficiência: ele havia pego exatamente o papel que queria - Uma queixa contra um... Gustavo-sem-sobrenome, não é?
            Ele assentiu. Lembrava muito bem do dia em que fora ali, prestar queixa contra o ataque que Gustavo havia lhe feito; lembrava muito bem que citara cada detalhe, incluindo a arma Pervinca - que fora o que lhe fizera perceber que Gustavo atacara novamente. Lembrava-se também de como percebeu que seria completamente ignorado e fichado no arquivo morto, afinal, era jovem demais para receber uma digna atenção.
            - Então, só para confirmar... - Jefferson retomou a conversa, fitando o formulário antigo enquanto escrevia no novo - Continua com dezoito anos?
            - Certo - Yago respondeu. Havia mentido, obviamente, mas não sabia se menores de idade podiam prestar queixa sem a presença de um responsável; e ter sua mãe ali, ouvindo o que acontecia com sua vida, não era lá uma das ideias mais prazerosas que tivera.
            - Rua dos Alfeneiros, número quatro? - ele perguntou, e novamente Yago assentiu, controlando-se para não rir, até lembrar que não tinha motivo para tal ato. Havia realmente uma Rua dos Alfeneiros em Costa Valença, e talvez existisse um número quatro, não sabia. Mas não podia dar seu real endereço, novamente por causa de sua mãe; então, por que não dar o endereço do Menino Que Sobreviveu, Harry Potter?
            Jefferson continuou sem parar. Claramente, nem ele nem quem fichara Yago sabia muito de livros ou de cinema.
            - Número de telefone, 8252-6834?
            Fora a única informação que não mentira, pois era o número de seu celular; era de se esperar que tivesse privacidade ao menos com isso.
            - Certo.
            - Pois bem...
            Jefferson passou o que pareceu meia hora fazendo anotações. Deixou de ter o trabalho de perguntar à Yago, pois todas as informações pareciam continuar as mesmas de três meses atrás. Quando finalmente terminou, deixou a caneta tombar e disse:
            - Quem foi sequestrado?
            - Minha namorada - ele respondeu, entredentes, tentando manter a calma - Nathalia Rodrigues.
            - E você tem alguma ideia de quem seja, de onde ela está?
            - Ele mesmo - respondeu ele, cravando as unhas na calça jeans - Gustavo. E não. Não faço a mínima ideia.
            Jefferson deixou a caneta, com que brincava entre os dedos, cair novamente, e adotou uma nova postura: apoiando os cotovelos na mesa, totalmente curvado para frente, suspirou.
            - Yago - ele começou - Essa é a segunda queixa que você faz contra esse garoto em menos de seis meses. Estou começando a achar...
            - Que eu estou inventando? - Yago indagou, fervendo de raiva. Antes que Jefferson pudesse negar, ele levantou-se e bateu a mesa. - Você acha que eu estou inventando? É da minha namorada que estamos falando, e eu amo ela pra caralho. Então, me desculpa se eu quero pegar o filho da puta que fez isso, e se não acredita, eu tenho três pessoas ali fora que vão confirmar tudo...
            - Yago - Jefferson interrompeu-o, com a voz tão autoritária que não foi necessário repetir - Eu entendo como se sente, e... shhh - ele levantou um dedo, quando era obvio que Yago estava a ponto de protestar, e continuou: - ... e você tem que entender também que parece um pouco suspeito. Foram duas acusações sérias... Naturalmente, iremos investigar com o dobro de cautela, pois temos aqui um possível psicopata. E faremos sim todo o possível.
            Quando ele se calou, Yago manteve-se em silêncio, também. Encararam-se por uns poucos segundos, até que Jefferson decidiu voltar a anotar - novamente, retirara o papel certo da bagunça ao lado -, e, quando terminou, anunciou:
            - Pronto.
            - É só isso? - Yago espantou-se, pois fora tudo rápido demais.
            - É - confirmou Jefferson - Iremos investigar, como já disse, e faremos todo o possível para capturar esse Gustavo. Até lá, você deveria reunir o máximo de provas possíveis. Assim, talvez, eu consiga uma autorização para uma investigação mais abrangente.
            - Pode sair - ele disse, voltando a anotar em um papel diferente, apontando para a porta com a caneta.

***

            - Acabou? - Suzana perguntou, levantando-se da escadaria e correndo até Yago.
            - É - ele respondeu, desanimado.
            - O que eles vão fazer? - perguntou Alex, falando pela primeira vez. Sua voz falhava; era obvio que fora a que mais chorara ali, enquanto Suzana tinha um ataque.
            - Investigar - respondeu Yago, sarcástico - Eu espero que seja isso que façam realmente, por que se eu pegar aquele filho da puta primeiro...

***

            Nathalia não sabia quanto tempo havia se passado, mas obviamente não foram três horas. As algemas agora pareciam pesar demais, e estavam gélidas, causando um incomodo arrepio em seu corpo todo - nem podia se mover direito, quanto mais tremer descontroladamente.
            Gemia no escuro, pois há certo tempo sua garganta voltara a doer tanto que tornara-se impossível gritar. Quando tornou a esfriar - em algum lugar, Nathalia ouviu chuva -, uma brisa terrivelmente gelada açoitou-lhe a pele. Estava aterrorizada; sempre tivera medo do escuro, e agora parecia milhões de vezes pior.
            Quando lhe parecia que ficaria ali para sempre, as lâmpadas fluorescentes se acenderam, sozinhas.
            Não adiantou de muita coisa, pois as algemas ainda prendiam firmemente seus pulsos. Ela conseguiu respirar pela primeira vez, agora vendo o que havia à sua frente: a mesma sala suja e gigantesca, a mesma porta por onde Gustavo saíra... e quando chegou a pensar em alguma interferência divina, percebeu que não havia interruptor na sala, o que significa que havia um fora da sala. Como que para confirmar sua suspeita, ela ouviu o característico ruído de passos no que parecia ser uma escada do lado de fora - tap, tap, tap...
            Gustavo estivera ali, e ainda estava, mandando qualquer plano de fuga que poderia formar para o inferno.
            Ainda assim, sentiu o coração pular de alegria quando viu, ao longe, bem próximo da porta, um brilho cinzento; pequeno. Deixou a boca cair lentamente, e piscou pelo menos três vezes para ver se era verdade - uma pequena chave, provavelmente a que abriria suas algemas...
            Pensou que talvez pudesse fazer a cadeira pular até lá. Se somente fizesse força o suficiente... talvez, em uns bons dez minutos, estivesse perto...
            Quando pôs seu plano em prática, porém, a cadeira tombou no primeiro salto, fazendo Nathalia chocar-se brutamente contra o chão, e assim, consequentemente, fazendo as correntes penetrarem sua pele, por pouco não abrindo um sério corte. Ainda assim, a dor fora tamanha que Nathalia deixou escapar um silvo de protesto, e permaneceu na mesma posição por vários minutos, como se esperasse que assim parasse de doer.
            Não parou, e ela disse a si mesma para continuar.
            Como uma minhoca, contraiu seu corpo o máximo que pôde - o que não foi muito, pois as correntes não a permitiam - e esticou-se logo depois. Percorrera quanto, uns três centímetros? Fez de novo, e novamente pareceu não ter saído do lugar. Dois minutos depois, porém, estava definitivamente mais afastada, mesmo que pouco, do lugar de onde começara; nesse ritmo, demoraria mais uma hora para chegar à chave.
            Porém, contrariando suas expectativas, alcançou-a apenas dez minutos depois. Apoiando o queixo no chão, ela sorriu - gemendo de dor, com lágrimas nos olhos, conquistara a primeira vitória do dia.
            E agora?
            Como pegaria a chave?
            Sem muito pensar, voltou a arrastar a cadeira - as correntes, pressionadas contra o chão, produziam um barulho fantasmagórico e assustador, o único barulho que se escutava nas redondezas. Posicionou-se de costas para onde vira a chave, e, com o pouco que podia esticar das mãos, tateou o chão, torcendo para encontrá-la.
            Após três reposicionamentos, duas novas arrastadas de cadeiras, e cinco minutos incrivelmente lentos, voltou a sentir um gelo metálico em seus dedos. Porém, não foi fácil pegá-las em mão; demorou mais uns bons dois minutos de dor antes que conseguisse agarrá-las de um jeito prático.
            E, apesar de não ter muito tempo, e de muito menos conhecer o cadeado que a prendia, tentou enfiar a chave na fechadura, onde quer que ela estivesse. Ouviu vários retinires metálicos, como se lutasse esgrima. Vez ou outra, deixava escapar gemidos de dor ou de esforço, pois tinha que esticar muito sua pequena mão para procurar por qualquer coisa.
            Então, tomada por uma pequena luz - e se sentindo extremamente burra por não ter pensado nisso antes -, ela segurou a chave com uma mão e tateou o cadeado até achar sua fechadura com a outra.
            Rapidamente, conseguiu enfiar a chave ali, e gastou vinte dolorosos segundos girando-a; mas quando finalmente o fez, sentiu um tic confortável em seus braços - a corrente que envolvia suas mãos soltara-se.
            Usando um pouco da elasticidade que adquirira com as aulas de balé, quando era mais nova, se livrou das grossas correntes que envolviam seu torso, tendo agora quase toda a parte superior livre - com exceção, apenas, do pescoço.
            Mas ali só havia uma chave, percebeu, para pelo menos dois outros cadeados. Agora poderia pegar o que quisesse com suas mãos, mas não poderia correr, pois suas pernas continuavam presas, e sequer levantar-se da cadeira, por conta do circulo metálico que envolvia seu pescoço.
            Depois de pensar um pouco, tomou nas mãos o cadeado aberto. Era de uma marca bem comum; sabia disso por que tinha pelo menos três desses em sua casa.
            Sem ter muito a perder, enfiou a chave no cadeado na altura de sua coluna, e, para sua surpresa, abriu, libertando seu pescoço.
            Imediatamente, lançou-se para frente, rolando no chão. Afastou-se da cadeira do jeito mais rápido que conseguira, e voltou a sentar-se num canto. Com desespero, abriu as algemas de seus pés - e, quando as mesmas abriram, arremessou-as longe.
            Instintivamente, fez como via fazerem nos filmes: massageou pés, mãos e pescoço.
            E então levantou, e se viu correndo para a porta. Mas se lembrou: Gustavo estava ali mesmo, só esperando ela sair.
            Recuou levemente, e fingiu choro. Se Gustavo estava ali esperando, provavelmente gostaria de pensar que ela estava sofrendo. Desejou, do fundo de seu coração, que ele não entrasse.
            Com os olhos, passou a buscar alguma coisa. Qualquer coisa. Outra porta, uma janela... e, para sua decepção, não havia nada.
            Tomando cuidado para não fazer muito barulho além do lamento fingido, continuou a recuar, olhando para todos os lados, apenas para confirmar o que vira antes: geladeira, mesa, fogão, cadeira.
            Geladeira.
            Havia uma sombra detrás da geladeira.
            Sentiu-se tão animada que quase se esqueceu de chorar de mentirinha.
            Com passos controlados, avançou até ali. Apesar de não parecer, a geladeira velha era um móvel pesado. Teve de fazer uma tremenda força para movê-la uns poucos centímetros - e mais força ainda para não fazer barulho. Já não se importava em contar os segundos; importava-se somente em sair dali.
            Mesmo toda aquela teoria da conspiração parecendo absurda demais, o que havia atrás da geladeira era realmente uma porta. E, sem pensar duas vezes, abriu-a, sem fingir mais choro; sem fingir mais dor. Aquela passagem secreta seria sua chave para a liberdade...
            Gritou.
            Gritou o máximo que pôde.
            Por reflexo, esquecendo-se completamente que Gustavo podia ouvi-la... gritou.
            Havia algo ali no escuro... não um corredor, não uma sala... mas corpos. Diversos cadáveres espalhados, decompostos - alguns eram só osso. O lugar fedia tanto que Nathalia achou que fosse desmaiar. E bem à sua frente, havia o corpo de uma menina não muito mais velha do que a própria Nathalia - com um gigantesco corte no pescoço, o sangue já negro de tão envelhecido.
            Mais ao longe, Nathalia sentiu que iria vomitar ao constatar que havia uma cabeça feminina, sem corpo, jogada no canto mais iluminado.
            Tudo ali era visível apenas por causa de uma vela, que provinha uma luz sinistra sobre todos os vinte e sete cadáveres; espalhadas por toda a sala, haviam cruzes, brinquedos, bicho de pelúcia... tudo destruído, e arremessado para qualquer lado. Era gélida, como que para dar uma atmosfera ainda mais sinistra ao lugar.
            Mais do que nunca, Nathalia sentiu nojo, e desejou poder apagar todos os detalhes daquela visão.
            Pelo menos seis corpos empilhados no centro da sala...
            Uma gigantesca faca cravada nas costas de uma menininha de quinze anos no máximo...
            Uma mulher me meia idade, com o vestido tão manchado que mal dava para ver onde fora golpeada...
            Os olhos fixos, as bocas escancaradas e ensanguentadas...
            E o terrível, medonho lago de sangue que cobria cada centímetro daquela sala, e que agora escapava para os pés descalços de Nathalia. Mantinha-se líquido, muito mal coagulado, talvez pela refrigeração da sala - agora notava nos aparelhos de ar condicionado -, para preservar a perfeita cena do crime.
            Sem pensar muito, ela caiu de quatro, fazendo o sangue pular para suas roupas, e vomitou. Quando sentiu mais sangue alheio sendo jogado em seu rosto, causado pelo impacto de seu corpo contra o piso, vomitou ainda mais, e gritou ainda mais alto: um grito misturado à um gemido de pavor.
            Ela se levantou, tentada a encarar Gustavo na outra porta, e tentou correr, mas parou.
            Gustavo estava ali, bem a sua frente.
            - Você não deveria ter feito isso - disse, sem emoção nenhuma.
            Nathalia recuou um passo.
            - Não - ela gemeu, com os cabelos desgrenhados caindo-lhe na testa.
            - Sim - ele respondeu tão simplesmente quanto... trazendo algo grande em sua mão.
            - Não... - Nathalia repetiu - Não, não, não...
            A risada gutural de Gustavo ecoou pela sala, enquanto ele lentamente avançava para cima de Nathalia, que por sua vez recuava, de modo igualmente lento.
            Ela tropeçou num dos corpos gélidos, e caiu com estrepito, novamente fazendo a poça de sangue pular e inundar suas roupas e seu rosto. Gritou, pois o corpo a seu lado morrera numa pose que olhava fixamente para ela, com os olhos cinzentos e o lábio azulado; a pele macilenta de um defunto parecia derreter, e uma mosca saiu de dentro de sua boca naquele exato momento.
            Nathalia voltou a recuar, deitada, no sangue tão grudento que parecia uma espécie de goma, e tentou controlar a vontade de vomitar.
            - Por favor... - ela implorou, vendo-se ao lado da cabeça decapitada, e encharcada de sangue da cabeça aos pés.
            Era claro que Nathalia não era a única. Fora tolice sua pensar o contrário. Gustavo agia como um profissional; era claro que já havia feito aquilo antes. Pelo menos vinte e sete vezes. E todas suas vitimas estavam ali, na companhia de Nathalia... mortas, como ela logo estaria.
            - Você não devia ter feito isso - Gustavo repetiu, e desferiu um golpe com a frigideira que trazia na cabeça de Nathalia, desacordando-a.

***

            Realmente não sabia o que se passara na mente de Nathalia, por mais que tivesse uma pequena ideia. Riu; ela já enlouquecera. Era verdade que ali guardava as obras primas de sua autoria, mas não via o por quê de tanto terror. As duas ou três outras vitimas que descobriram aquela sala ficaram horrorizadas de verdade também, mas não tanto. Podia já sentir o gostinho da alucinação: vira Nathalia balançar os braços, como se quisesse se limpar de algo gosmento. O que seria que ela tinha visto? A sala, na vida real, era puramente esqueletos, e aquele cheiro maravilhoso... o cheiro da Morte, que poucos conseguiam realmente apreciar.
Arrastou-a até a sala principal, onde amarrou-a com as correntes novamente. Dessa vez, não a deixaria se soltar apenas para se divertir, pois agora sabia que havia uma boa chance dela fugir; invés disso, deixaria aquela porta aberta; deixaria aquele cheiro inundar a sala; deixaria o sangue que apenas ela via se espalhar por ali também, pois era claramente mais divertido observar sua hematofobia do que suas patéticas tentativas de escapar.
            Rindo como um louco, saiu da sala, imaginando qual seria a reação de Nathalia ao ver que reposicionara os corpos pela sala, também. Afinal, a garota parecia realmente precisar de companhia.
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