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Quebrado

The Broken - Coheed And Cambria

            Passadas duas horas, Nathalia continuava encolhida no mesmo canto. Tremia - não só de medo, mas de frio também. Entrava friagem não sabia da onde; talvez do piso, feito de tabuas de madeira já envelhecidas úmidas e podres, que poderiam ceder a qualquer momento, ou das paredes, que por acaso eram feitas do mesmo material. Fosse o que fosse, aquelas paredes exalavam um cheiro de mofo; não só isso, como um cheiro mais forte... de animais mortos, e de urina. Como um real cativeiro.

            Nathalia teve bastante tempo para olhar a seu redor e perceber nos mínimos detalhes. Como, por exemplo, que havia uma geladeira, outrora branca, porém hoje amarelada e enferrujada, no canto da sala, funcionando perfeitamente; porém, Nathalia ainda estava receosa com a qualidade de qualquer comida que fosse conservada ali - toda a comida que comeria por sabe-se lá quanto tempo. Ao lado, ia o que deveria ser um balcão trabalhado com uma pia para louças, mas parecia mais a mesa que um antigo carrasco decapitava suas vítimas: estava suja e atolada de lixo, com comida estragada espalhada para todos os lados; claramente, tentativas falhas de Gustavo de preparar algo requintado para sua prisioneira, antes de desistir para ficar na base do feijão-com-arroz. Havia, também, um fogão, na mesma fileira de móveis, onde Gustavo preparava a próxima refeição desde o momento em que Nathalia acordara. Fora isso, havia uma mesinha simples, que mal dava para duas pessoas, no centro da sala; no entanto, estava completamente lascada, e a sujeira parecia ter penetrado especialmente fundo nela: havia lascas escuras e claras, totalmente desiguais. Era acompanhada de uma cadeira, igualmente suja e lascada.
            Nesse tempo todo, Gustavo não se voltara para Nathalia uma vez sequer. Murmurava alguma coisa para si mesmo, e Nathalia captava um ou outro sussurro - “sal”, “aqui”, “foi demais” e “ah, tá queimando”, coisas do tipo. E nem ela tinha coragem para puxar qualquer assunto, muito menos suplicar - por mais que estivesse bolando sua melhor desculpa para fugir.
            Para seu terror, assim que seu plano estava quase completo, perdeu a linha do pensamento, pois Gustavo largara as panelas no fogão e seguia em linha reta até ela, com um prato suspeito na mão.
            - Hei, querida - ele disse, flexionando os joelhos até estar de cara a cara com ela - Prove o que eu fiz pra você.
            - O que é isso? - perguntou, com a voz trêmula. Se estava com medo antes, agora então, ao se deparar com um sorriso excessivamente inocente no rosto de Gustavo, como se ele mesmo não tivesse ideia do que estava acontecendo.
            - Só um tira gosto - ele disse, remexendo na receita de cor amarelada um pouco mole demais para ser confiável - É mousse, de maracujá. Não adianta mentir pra mim, eu sei que você adora. Vamos, prove, diga se o meu está bom.
            - Ah... - ela exclamou, tentando ao máximo parecer calma e desinteressada - Eu não tô com fome agora...
            - Ora, vamos...
            - Eu quero guardar espaço para o almoço.
            - É só um pedacinho, não vai fazer mal...
            - É sério, eu comi tanto na igreja que acho que...
            - COME.
            A última exclamação assustou Nathalia. Não teve muito tempo para notar na expressão bestial que tomou a cara de Gustavo, nem na voz temerosamente distorcida e ameaçadora; apenas sentiu uma grande dor em seu maxilar, antes de perceber que Gustavo o abria a força, e enfiava a colher lá dentro.
            A primeira coisa que sentiu foi mais dor. Aparentemente, a colher acertara o fundo de sua boca com muita força, quase a fazendo engasgar. Antes que Nathalia pudesse cuspir, ele obrigou-a a fechar a boca com extrema dor novamente, e tirou a colher entredentes, fazendo-os ranger. E então, sentiu o gosto da coisa.
            A última coisa que havia ali era maracujá. Apesar de sua aparência derretida, tinha um gosto seco, e parecia duro em sua garganta. Isso somado à dor já presente, tornou quase impossível engolir. Mas ela se obrigou a fazê-lo, sentindo uma arrancada de sangue no ato. Teve de se controlar para não regurgitar tudo, pois o gosto amargo, estragado e doentio, tudo junto, permanecia em sua boca. Sentia como se estivesse comendo algo morto - o que, lembrando-se de quem prepara, podia ser muito bem verdade.
            - E então? - Gustavo perguntou, novamente sorrindo, novamente inocente.
            - Tá ótimo - ela respondeu, sem conseguir convencer nem a si mesma; sentia tanta dor que as lágrimas já vertiam. Seu rosto estava contorcido, e um sentimento nervoso cobria seu corpo.
            - Ah, que bom, então! - Gustavo respondeu, parecendo ignorar o estado de Nathalia e acatar sua resposta - Vou fazer mais, então! Vai servir de sobremesa!
            E virou-se de volta ao fogão, cozinhando algo que fedia tanto quanto aquela imitação de mousse.
            Não passou muito tempo, e Nathalia, já suficientemente dolorida, ouviu um gemido - Gustavo, obviamente, porém havia algo diferente.
            O gemido evoluiu para um grunhido, que evoluiu para um rosnar.
            - G-Gustavo? - Nathalia fez a burrice de perguntar.
            E no segundo seguinte, a única coisa que viu foi algo preto - e aparentemente duro - batendo contra sua testa. Primeiro sentiu simplesmente doer, e depois arder - estava queimando. Tão logo quanto esse primeiro segundo passou, gritou. O que lhe atingira fora uma panela quentíssima, recém-saída do fogo, e havia óleo em seu interior - óleo que agora se espalhava, fervendo, pelos braços e pernas de Nathalia.
            Ela pensou que nunca fosse sentir doer pior; não era como entrar num banho quente. O óleo parecia penetrar em sua carne, e, se não pudesse ver, pensaria que a estava corroendo. Por muito pouco, não atingira seu rosto - então sentiu uma pequena linha reta queimando em sua bochecha esquerda, e se corrigiu: por muito pouco não lhe atingira o olho.
            Sentindo a própria pele pegar fogo, ciente de que logo restaria apenas um feio vermelhidão e bolhas gigantescas, e ouvindo-se gritar como se sua voz não lhe pertencesse, ela ouviu Gustavo, soando como se estivesse muito longe:
            - Você não devia ter me irritado - E voltou a cozinhar o que quer que fosse.

***

            Passaram-se três horas, da qual uma gastou-se com o jantar. Nathaia tentou o máximo que pôde engolir a comida dura e aguada ao mesmo tempo, mas acabou deixando seu prato meio cheio - por mais que tentasse convencer Gustavo de que estava meio vazio. Mesmo assim, ele aceitou jogar fora o que sobrara. E depois...
            - Não levanta - ele disse, com a voz dura novamente.
            - O-o que? - Nathalia indagou, a voz trêmula, mas obedecendo; pelo bem de sua própria vida.
            Mas ele não respondeu. O único ruído que se ouviu foi o de correntes se arrastando. E quando Nathalia se virou para ver, percebeu que eram realmente corrente - enferrujadas, escurecidas, porém firmes como rochas. Ele largou-as no chão, fazendo estrondo.
            - Agora fique quieta.
            E puxou-as novamente, fazendo menção de prender aos pés de Nathalia.
            - O que... Não! - ela exclamou, levantando-se repentinamente, rumando para a porta.
            Mas tão cedo quanto começou sua fuga, teve de interrompê-la: ouviu o estralar de uma trava de pistola sendo puxada. Parou repentinamente, próxima à porta. Se continuasse, teria menos de um segundo para passar pela porta e fugir o mais rápido que pudesse; como era impossível, tinha certeza de que acabaria morta. Contrariada, levantou as mãos até onde Gustavo pudesse vê-las, num sinal de rendição.
            Gustavo seguiu até ela - Nathalia percebeu que, pelos ruídos, ele não voltou a travar sua arma. Quando passaram-se poucos segundos, arrastados como horas, ela sentiu um cano friíssimo contra suas costas, e imediatamente prendeu a respiração, emitindo um último ruído apavorado. Tão rapidamente quanto, sentiu Gustavo virando-a em cento e oitenta graus, e empurrando-a contra a parede; nesse momento, foi obrigada a exalar o pouco ar que ainda havia em seus pulmões para lidar com a nova dor. Gemeu, mas resistiu ao impulso de cair lentamente, rente à parede. Seu cabelo agora formava um emaranhado que não servia para nada a não ser atrapalhar sua visão.
            - Venha aqui - Gustavo ordenou, e Nathalia lentamente obedeceu. - Ande.
            Ele estava a seu lado, e a empurrava de pouco em pouco, quando parecia que estava lenta demais. Não caía, mas vertia para frente, antes de recuperar uma postura aceitável; não que estivesse preocupada com isso, ainda mais agora que suas costas doíam também, mas não se sentia confortável em andar curvada, descrevendo um arco com o próprio corpo.
            - Vai logo - ele empurrou-a novamente, e só então Nathalia notou o quanto a sala era grande; percorrera dez passos até ali e ainda estava na metade do caminho até a cadeira.
            Quando finalmente chegaram onde Gustavo queria, ele puxou-a pelos cabelos, fazendo se ajoelhar gritando.
            - Isso não é nada - disse, entredentes, puxando-a novamente até fazê-la se sentar (o mais dolorosamente possível) na cadeira.
            Nathalia não sabia dizer muito bem o que esperava daquelas correntes, mas surpreendeu-se com o resultado final: ouviu duas algemas, extremamente apertadas, fechando-se em seus finos tornozelos; mais algemas fecharam-se em seus pulsos, que foram repuxados para trás, prendendo-a numa posição que seria impossível de se sair; e, finalmente, o resto envolveu seu corpo - não muito apertado, ela percebeu -, fazendo de seu antebraço a única parte do tronco até o ombro não coberta por correntes. Mas, quando achou que finalmente havia acabado, Gustavo puxou seu cabelo novamente - e prendeu o que parecia ser uma algema gigante em seu pescoço, forçando-o para trás numa pose grotesca e dolorosa.
            Não demorou muito para Nathalia perceber que aquele era um elaborado sistema de tortura, que de jeito nenhum fora feito por um garoto normal de dezesseis anos.
            As correntes que puxavam seu pescoço foram afrouxadas, permitindo-a olhar para frente novamente; seus ombros doíam, porém, não havia nada que poderia fazer, pois suas mãos ainda estavam atadas uma a outra.
            - Me desculpe, querida - disse Gustavo, friamente - Acho que deixei apertado demais.
            Ele voltou a seu raio de visão, com o rosto inexpressivo. Nathalia ofegava.
            - Sabe... você esteve se comportando tão bem até aqui - disse ele, olhando-a nos olhos. Parecia profundamente desapontado. - Cheguei a achar que estava sendo um bom anfitrião... e a educação dita que, mesmo que eu não estivesse sendo, você poderia pelo menos fingir. Mas bem, há tanto que eu já planejava trabalhar em você mesmo... educação pode entrar na lista também.
            “Acho que vou começar por esse corpo.” ele disse, sorrindo, medindo-a de cima a baixo. “Essa roupa lhe cai tão mal... não deveria usar nenhuma. E aí, então, poderíamos começar o primeiro trabalho.
            Nathalia não escondeu o terror que lhe subiu a garganta. Não era burra, e mesmo que fosse entenderia o que ele queria dizer. E sentiu como se fosse vomitar (o que seria muito fácil, já que a comida lhe descera mal).
            - Mas não agora - ele disse, levantando-se - Agora tenho mais o que fazer. Sabe, manter você aqui não é fácil - então riu, mais para si mesmo, como se estivesse relembrando de um bom momento. - Deveria é estar agradecida.
            - O... o que? - Nathalia espantou-se - Você vai me deixar aqui sozinha?
            - Deveria é te dar castigo pior - ele respondeu - Mas é seu primeiro dia aqui... tem que se acostumar primeiro, por isso vou lhe dar uma colher de chá. Acho que três horas devem bastar.
            - O que? - Ela exclamou novamente - Você não pode! Não pode! Não me deixe aqui! E-eu... Eu vou gritar! Eu vou gritar, e alguém vai me ouvir!
            Gustavo sorriu.
            - Pode tentar - ele disse - Se alguém lhe ouvir, você provavelmente já vai ter explodido a garganta. Ninguém vai lhe ouvir daqui.
            Dizendo isso, caminhou para a porta.
            - Não! - Nathalia voltou a gritar, se sacudindo na cadeira, fazendo as correntes se remexerem também, com um ruído metálico. - Nããããão! Você não pode! NÃO PODE! Não me deixe aqui! Socorro!
            Ele suspirou, e virou, sem emoção alguma ao anunciar:
            - Sabe, Nathalia... eu pensei que, logo você, aceitaria tudo isso melhor. Sua mãe não resistiu nem um pouco.
            Ela se calou instantaneamente, travando na cadeira.
            - O... - ela não conseguiu continuar - O-o que?
            Ele deu um risinho satisfeito, e continuou seu caminho.
            - O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA MÃE?!
            Ele não virou-se.
            - O QUE. VOCÊ. FEZ? VOLTE AQUI. VOLTE AQUI! NÃO! NÃO ME DEIXE AQUI! ME SOLTA! SOCORRO! VOLTA AQUI! VOOOLTA!
            Ele apagou a luz, e saiu porta afora, trancando Nathalia, sozinha, aos gritos.
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