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Case Comigo

Marry Me - Train



DEZEMBRO
            O grande dia havia chegado.
            Suzana brigava e gritava com Alex, na confusão que havia a sala à parte da igreja. Aparentemente, Alex havia comprado as flores-de-emergência erradas para Suzana: ela pedira rosas brancas, e no entanto ela trouxera uma outra flor vagabunda (porém branca). E não só isso: tivera a ousadia de pisar - sem querer - na cauda do vestido da noiva - que na opinião de Suzana, já era pequena demais limpa -, deixando uma bela marca preta na forma de um salto alto.

            Agora, estavam uma gritando com a outra - Alex estava particularmente ameaçando enfiar um dedo no olho de Suzana só para borrar a maquiagem.
            - Parem as duas! - Nathalia interviu, gritando, e puxou Alex pelo cabelo, enquanto puxava Suzana pelo vestido; sabia que Alex não se mexeria, para não bagunçar o penteado que passara horas arrumando, e Suzana não ousaria fazer o mínimo movimento que pudesse rasgar aquele vestido apertado.
            Logo as duas começaram a gritar para largarem-lhe, e Nathalia teve de apertar suas orelhas, onde sabia que era o ponto fraco de ambas.
            - Se as duas não pararem agora, vou fazer as duas entrarem naquela igreja de mãos dadas! - Nathalia esbravejou.
            - Desculpa - Suzana disse calmamente, e então fuzilou Alex com os olhos com tanta determinação que a fez ficar calada por alguns segundos - Eu só... estou muito nervosa, sabe.
            - Não é pra menos - Nathalia concordou - É o seu...
            - Não ouse - Suzana disse, apontando o dedo para o nariz de Nathalia - repetir essa palavra... novamente.
            - Casamento - Alex provocou, e Suzana pareceu estar a ponto de se atracar com ela, então Nathalia pôs-se a ordenar:
            - Ahn, Alex, vai pegar um pano molhado pra a gente limpar esse vestido.
            - Tá louca? - Suzana indagou, assim que Alex saiu - Vai deixar uma mancha gigante no meu vestido!
            - A gente usa um secador de cabelo também, tanto faz.
            Se arrumaram rapidamente, e deram um retoque na maquiagem também. Depois, gastaram um bom tempo admirando o quanto estavam lindas e por fim se sentaram nas três cadeiras disponíveis no quarto, de costas para o espelho.
            - É agora - Suzana disse, meio desanimada e meio temerosa.
            - Você está bem? - perguntou Nathalia, percebendo que a amiga estava um pouco verde.
            - Acho que vou vomitar - ela disse, com a voz parecendo pesada - Mas não nesse vestido!
            - Eu preciso de ar - ela completou.
            - Mas você não pode sair - Alex logo disse - Ninguém pode ver seu vestido. É melhor esperar pela hora de entrar de verdade na igreja, até por que seria falta de educação fugir correndo no meio da cerimônia.
            - Abre uma janela, por favor - pediu Suzana, ignorando o comentário de Alex.
            Como Alex, de pirraça, não se levantou, Nathalia cruzou a apertada sala até o que deveria ser a janela; no entanto, partia do chão até o teto, e levava à uma pequena varanda. Quando as garotas perceberam isso, na primeira visita à igreja, Suzana teve de resistir à vontade de subir ali e acenar para quem passava na rua, como num casamento real.
            Uma brisa leve entrou no quartinho, e Suzana pareceu se acalmar um pouco.
            - Como é que eu vou fazer isso? - ela choramingou.
            - Entra na igreja e sai de lá - Alex respondeu, em tom debochado, porém Suzana pareceu levar a sério.
            - Essa é justamente a parte mais difícil! - retrucou, suspirando, e após alguns segundos de silêncio, continuou: - Eu devo ter convidado umas duzentas pessoas, como eu vou olhar pra cara dessa favela toda?
            Ela não teve resposta nenhuma para essa pergunta: o alarme do celular de Nathalia começou a tocar, inundando a sala com (irônica e propositalmente) uma marcha de casamento.
            Suzana empalideceu no mesmo momento, e voltou a ficar verde.
            - É agora - Nathalia anunciou, calmamente, por mais que estivesse tão nervosa quanto a amiga.
            Por alguns minutos, ficaram apenas encarando uma à outra, até que Alex se cansou e disse:
            - Estamos vinte minutos atrasadas, já é suficiente pra fazer charme. Vamos, se levantem, por que a morte não vai chegar mais rápido que o casamento, queridas.
            E saiu pela porta.
            Nathalia então levantou-se também, chegando à conclusão de que Alex tinha razão. Puxou Suzana pela mão, fazendo-a levantar-se também, e ambas arrumaram seus vestidos de frente para o espelho, até não restar nenhum amassado sequer. Não retocaram a maquiagem; não queriam exagerar e acabar por parecer com prostitutas. Quando terminaram, tiveram que ambas respirar fundo, e quase que caíram para trás, tamanho nervosismo.
            - Nós temos que ir - Nathalia disse.
            - Eu sei - Suzana respondeu, sem a menor convicção.
            - Eu... eu sou a dama de honra. Eu vou organizar tudo lá, e você vem logo depois, tudo bem?
            Suzana concordou.
            - Ei, Nathalia - ela disse, quando a amiga já estava na porta, fazendo-a virar-se novamente - Obrigado... por tudo que você tem feito.
            Nathalia corou, e deu de ombros carinhosamente antes de responder:
            - Ah, que nada.
            - Sério - Suzana continuou. - Eu... eu não sei o que faria se não fosse você, e eu sei que não foi fácil, principalmente agora que...
            A voz dela foi morrendo aos pouquinhos, até calar-se completamente.
            Nathalia enrubesceu, e baixou o olhar. Não tinha mais lágrimas para chorar, porém engolia em seco e engasgara de surpresa. Há tempos não pensava naquele assunto, de tão ocupada que estava. E agora, tudo não podia simplesmente voltar a tona; não aqui, não agora.
            - Nada - repetiu - Não foi nada. Eu to honrada por tudo isso, e estou tão feliz por você!
            Foi a vez de Suzana enrubescer, e não foi pouco. Estava tão vermelha que passou a sentir calor, o que a fez se sentir ainda mais nervosa.
            - Eu vou colocar ordem naquela igreja - disse Nathalia.
            - Eu rezo por você - respondeu Suzana, rindo da sua própria piada. Logo percebeu o quão sem graça fora e suspirou, revirando os olhos.
            Enquanto Nathalia saía, Suzana tomou o buquê de flores-que-não-eram-rosas nas mãos e olhou-se de frente para o espelho. Repassou a mesma cena milhares de vezes na cabeça antes... e ainda repassava agora. Tudo, absolutamente tudo tinha que sair perfeito.
           
***

            Nathalia entrou na igreja por trás do altar, sem chamar muita atenção. Seu vestido era amarelo claro, de modo que parecia um papiro, antes branco, agora envelhecido. Descia dos ombros até pouco abaixo dos joelhos, com mangas curtas cobrindo-lhe parte dos braços. Como Suzana descobrira este modelito, Nathalia jamais saberia; mal tinha ideia de como ela gostara disso. Mas concordou em usar o vestido na cerimônia - e na festa, Suzana lhe lembrou -, assim como todas as outras damas de honra.
            As outras duas. Alex e Gabriela.
            Nesse tempo todo, evitara Gabriela. Não que não estivesse disposta a perdoá-la... apenas não queria. Seria muito mais fácil odiá-la pelo resto da vida do que ter de passar cinco segundos aceitando tudo o que ela tinha a dizer - e uma vida toda olhando na cara da garota que quase destruiu tudo que amava...
            Ela espantou esses pensamentos, e simplesmente postou-se ao lado de Yago.
            Ele estava vestido com um smoking simples e preto, com uma gravata borboleta em seu pescoço. Todos haviam lhe dito que não era lá muito solene usar o mesmo penteado arrepiado de sempre num casamento, mas lá estava ele, mesmo assim.
            - Oi - ela sussurrou em seu ouvido, com uma voz doce e aguda.
            - Oi - Yago disse, e olhou de cima à baixo; teve de segurar o riso ao anunciar: - Você está linda.
            - Obrigado - ela respondeu, sarcástica, por mais que realmente estivesse linda.
            - Onde está Suzana? - ele perguntou, encarando Felipe no altar; ele usava um terno bastante parecido com seu smoking, e à seu lado, estava seu pai, sussurrando em seu ouvido com um sorriso no rosto. Provavelmente a mesma ladainha de “Estou tão orgulhoso, eu quero cinco netos, eu vou ensinar todos eles a caçar pombos”.
            - Já está vindo - Nathalia sussurrou depressa, olhando para todos os cantos. Também estava à procura da amiga, que já estava demasiadamente atrasada.
            - Olha, eu sei que está todo mundo nervoso, mas acho que os convidados não vão poder esperar muito mais, não. Eles mesmos disseram que tem mais o que fazer, o que eu acho que é mentira, mas mesmo assim...
            Ele foi interrompido pelo sobrinho de uma das fieis da paróquia que, sem nenhum pudor, entrou correndo pelo tapete vermelho, fazendo toda a igreja se calar para acompanhá-lo com os olhos. Ele seguiu, com seus pezinhos pequenos, diretamente até a senhora que estava diante de um teclado, e sussurrou algo em seu ouvido - mas não sem antes tropeçar e lentamente cair, como uma folha, nos degraus do altar; por sorte, não fez escândalo nenhum, e continuou até entregar sua mensagem. A senhorinha assentiu e deixou-o sentar na cadeirinha a seu lado, e então começou a tocar a marcha de casamento.
            Quase que no mesmo instante, Suzana apareceu à porta da igreja, de braços dados com sua mãe. Em contraste com o vestido da noiva, a senhora usava um terninho rosa claro, parecendo uma executiva, e estampava um sorriso. Depois de muitas conversas e muitas brigas, acabara por aceitar a união entre Suzana e Felipe.
            Suzana entrara na igreja junto com a mãe por que seu pai, separado de sua mãe, preferiu dar atenção à sua outra família. Mas não havia problema. Ela odiava aquele homem mesmo.
            Caminharam desiguais: a mãe de Suzana sabia perfeitamente a velocidade na qual deveria entrar na igreja, enquanto Suzana mesmo caminhava ora acelerada demais, ora lenta demais. Ela era praticamente arrastada no tapete, sempre com um sorriso na cara - por mais que fosse obvio que gemia de dor, vez ou outra que quase tropeçava com aqueles saltos.
            Quando, enfim, chegaram ao altar, a mãe de Suzana despediu-se da filha com um beijo na testa, e caminhou até o flanco direito, onde estavam as damas de honra e o padrinho.
            A igreja toda levantou-se e bateu palmas, ato que foi rapidamente censurado pelo padre, muito conservador. Quando estavam todos sentados, começou seu discurso:
            - Caros irmãos e irmãs, estamos aqui reunidos, para unir, em sagrado matrimonio...
            O discurso seguiu-se monótono. Fez-se os votos, as orações... repetiram tudo o que o padre pediu, por aproximadamente cinco minutos, quando já não agüentavam tanta chatice:
            - Ahn, senhor padre - Suzana interrompeu-o, alto o suficiente para toda a igreja escutar - Será que não dá para, ahn, vossa excelência pular algumas frases... só pra chegar na parte prática?
            O padre, de má vontade, revirou os olhos e fechou sua Bíblia; como que fazendo pirraça, largou-a ruidosamente sobre a mesa, de modo que um pouco de vinho respingou da taça dourada, ao lado do vaso de flores. Deu de ombros para os noivos e disse, claramente contrariado:
            - Muito bem, vamos aos votos.
            - Ahn, se nos permite - Felipe disse - Nós escrevemos nossos próprios votos.
            - Pois bem - retrucou, contrariado novamente - Fale-os, se estão com tanta pressa.
            Felipe pigarreou, antes de começar:
            - Há três anos, eu conheci essa garota como uma amiga de escola. Minha mãe tinha acabado de morrer, e o pai dela tinha acabado de se separar de sua mãe. Nós passávamos a maior parte dos intervalos juntos, conversando... ela se tornou minha melhor amiga tão facilmente, que parecia que nos conhecíamos desde o berço.
            “Mas o que ela demorou muito a perceber, é que eu não queria ser mais um amigo. Eu me apaixonei por ela, mesmo com esse tempo tão breve que passamos juntos... E no inicio desse ano, muita coisa aconteceu. Ganhamos uma nova amiga - a Nathalia ali -, ganhamos um amigo renovado - o Yago, que “por coincidência” foi renovado pela Nathalia ali -, e ganhamos uma notícia. Poderia muito bem ser a nossa ruína... Poderíamos muito em ter desabado um em cima do outro, mas não foi o que fizemos, por que ela não nos deixou. Suzana... é a pessoa mais forte que eu conheço. Ela soube exatamente como lidar com tudo. Deus colocou um castelo bem no meio de seu caminho, e de alguma forma, ela seguiu em frente sem parar.
            “Eu amo ela, pois ela é minha força. Ela é o chão sob meus pés, e os braços que me levantam quando caio. Tem dias que eu simplesmente quero morrer, mas eu lembro dela e fico feliz em enfrentar qualquer coisa que vier à minha frente. Eu mataria por ela...
            - Aham! - pigarreou o padre - Não vamos quebrar nenhum juramento do Senhor.
            - ... e morreria por ela, por que sem ela... eu simplesmente não teria motivos para enfrentar qualquer coisa à minha frente.
            “Ela é simplesmente tudo. Não importa o quão longe estamos, ela está do meu lado, por que sempre posso ouvir sua voz, sussurrando em meu ouvido. Sempre escuto ela dizer - (nesse momento, Felipe falou uma série de palavrões que fizeram o padre jurar rezar por sua alma) -, da maneira mais cruel possível, pois ambos sabemos que é somente na raiva que eu vou conseguir me realizar.
            “Se algum de vocês conseguir arranjar algum defeito nela... olha, ficarei feliz em desmentir. Ela é perfeita, pois são suas imperfeições que lhe dão graça. Eu a amo, e sempre vou te amar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te, sendo-te fiel, todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe... Por mais que acho que nem ela seja capaz.”
            O rosto de Suzana se contorceu num sorriso, enquanto seus olhos encheram-se de lágrimas. Não ousou derramar nenhuma, pois passara horas arrumando aquela maquiagem. Simplesmente deixou seus músculos faciais trabalharem, e era obvio o quanto estava emocionada.
            - Eu... - ela começou seus votos, mas foi interrompida pelo toque de um celular.
            A igreja inteira voltou seus olhos para Nathalia. Ela corou, e abaixou a cabeça, tirando o celular rapidamente da bolsinha.
            - Eu volto logo - sussurrou para Yago, vermelha que só, e correu o mais rápido que pôde em direção à entrada da igreja, onde poderia atender sem atrapalhar o casamento.
            - Eu não poderia falar melhor - retomou Suzana - Exceto talvez...
            - Pelo que? - um impaciente Felipe indagou; tinha certeza de que fora perfeito quanto à todos os sentidos.
            - Você esqueceu de falar o quanto você é perfeito, o quanto você é forte, como você é meu chão, meus braços e minhas pernas... e o coração que me mantém viva, não pode ser seu, por que você é ele. - Ela sorriu então, antes de continuar com os votos oficias: - Eu, Suzana, recebo você, Felipe, como meu marido, e prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te, sendo-te fiel, todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe... por mais que acho que nem ela seria capaz.
            - Pode beijar... - o padre tentou dizer, mas os noivos se beijaram antes mesmo que ele terminasse a frase.
            A igreja explodiu em gritos, palmas e até mesmo confetes. Felipe e Suzana voltaram-se para os convidados, e receberam Aurora, que anteriormente estava com Alex, nos braços. Apesar de todo o barulho, a menininha não chorava; pelo contrário, ria-se como se reconhece-se a ocasião como uma festa.
            Eles correram pelo tapete vermelho, enquanto os convidados jogavam arroz por cima de suas cabeças, apesar dos protestos do padre (“Dentro da casa do Senhor, não!”). Chegando à entrada, desceram a pequena escadaria até a metade, quando Suzana gritou:
            - Ah, pra que eu vou querer esse buquê vagabundo? - e fuzilou Alex com os olhos - Pega aí, quem quiser.
            E jogou-o muito alto, tão alto que demorou a cair. Caíra a pelo menos cinquenta metros da multidão, e assim que tocou o chão, seguiu-se um pandemônio: todas as convidadas se atropelaram para pegar o buquê; algumas empurravam as outras contra o chão, enquanto as que estavam mais próximas socavam umas às outras. Uma das convidadas chegou a socar cinco amigas, em sequência, fazendo todas às suas costas caírem, num efeito dominó.
            Felipe e Suzana riram da cena, e continuaram a descer. Entraram no carro, e deram a partida, saindo pela rua aos gritos de apoio dos convidados que veriam mais tarde na festa.
            - Deu certo - Suzana gritou - Deu certo!
            - Oficialmente marido e mulher - ele respondeu.
            - Temos tanto o que fazer!
            - Tanto pra viajar...
            - Ainda temos nossa Lua De Mel...
            - ... e estamos de férias. Podemos ir pra onde você quiser.
            E sorriu maliciosamente antes de responder:
            - Em que lugar tem os melhores hotéis?
            Felipe voltou-se para ela, com um pequeno choque percorrendo o olhar, logo depois sendo substituído por um sorriso.
            - Sério? - perguntou, já sabendo a resposta.
            - Sério.
            - Então não tem problema...
            - Não - ela respondeu rapidamente, sorrindo - Estou pronta outra vez. Mas acho que alguém vai ter que ficar com Aurora, então, ela é pequena demais pra nos ver fazendo essas coisas.

***

            Yago fora um dos últimos a sair da igreja, tanto que perdera a partida de Felipe e Suzana. Saiu com as mãos nos bolsos, sorrindo.
            Ótimo, pensava. Um casamento a menos. Faltava apenas o seu... com Nathalia, claro. Mesmo que demorasse anos, até depois da faculdade, casariam-se sim, e seriam felizes. Teriam uma penca de pirralhinhos, e todos seriam lindos como a mãe e... bem, teriam de puxar alguma coisa do pai, ele pensou.
            Com os olhos, varreu aquela multidão inteira, mas não encontrou Nathalia. Olhou para dentro da igreja, e ela também não estava lá. Olhando ao seu redor, na escadaria e no pátio, também não a encontrava. Não deveria ser tão difícil, afinal, estava parecendo um papiro ambulante.
            Preparava-se para descer a multidão para procurá-la no meio da rua quando viu.
            O celular de Nathalia, sobre uma folha de papel amarelada perfeitamente dobrado em forma de quadrado.
            A primeira coisa que viu na tela do celular: “Uma chamada perdida”. O número era uma sequência indecifrável: exatamente onze vezes o número um; era obvio que este número não existia. Yago não entendia muito de telefonia, mas sempre pensou que tais números seriam criptografados, a fim de não se decifrar a localização da pessoa.
            Ele então desdobrou o papel, e gelou.
            No centro, havia o perfeito desenho de uma pervinca, em tinta vermelha, que cheirava a sangue.

***

            Nathalia acordou. Sua cabeça doía, e algo quente escorria dela. Quando tocou, percebeu que era sangue, e que havia um grande corte em sua testa. Seus braços e pernas doíam, e, com a pouca iluminação que havia naquela sala desconhecida, viu hematomas cobrindo sua pele, causados por muita pressão.
            Tentou se lembrar de alguma coisa - qualquer coisa -, mas não conseguiu. Sua memória parava no momento em que saíra da igreja para atender uma ligação, e então agora grande e gelado acertara sua cabeça, e então...
            Ela ouviu um ruído vindo do canto mais escuro da sala.
            Apesar de seus olhos não estarem completamente focalizados, Nathalia se encolheu. Havia ali a sombra de um grande homem - e dali, escapava uma risada gutural e aterrorizante.
            Lentamente, ele saiu das sombras, e fez o sangue de Nathalia gelar, observando um grande corte saindo de seu bíceps e cruzando até o antebraço da mão esquerda, e uma caneta manchada de sangue no mão direita.
            - Bem-vinda, Nathalia - disse Gustavo - Eu creio que ainda se lembre de mim. Diga, você se divertiu hoje? Pois eu estou prestes a me divertir demais. Agora, você prefere ovos mexidos ou cozidos?
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