52

enough for now

The Fray

            Tudo começou naquela manhã. Yago a levantara e a vestira. Dera-lhe banho e fizera seu café. Nathalia comera, claro, mas sem vontade. Fazia e repetia apenas o mesmo movimento: colher, boca, prato. Sabia que devia comer. Pelo seu próprio bem, deveria alimentar-se, tomar banho todos os dias, estudar... Mas queria mesmo seu próprio bem? Ou estava absorta demais naquela tristeza infindável?
            O mais provável, claro, era a segunda opção.

            Ela esperou até que Yago terminasse de arrumar a cozinha; não que conseguisse fazer muita coisa. O mínimo esforço doía-lhe no coração. Viu, desinteressada, Yago indagar-se se deveria ou não limpar a casa inteira, também; grossos tufos de poeira se acumulavam sobre os móveis, e o chão parecia coberto de areia. No final, decidiu deixar para mais tarde, pois estava com pressa.
            Para quê, Nathalia não sabia. Dentre tudo o que perdeu, havia a ansiedade. Mas ainda assim tinha pelo menos um pouquinho de curiosidade, lá no fundo. Então, levantou-se quando ele pediu, e seguiu-o até seu Celta.
O carrinho fora aposentado antes mesmo de ser usado. Antes mesmo de correr na lama (provavelmente acabando atolado), como Nathalia imaginou, antes de ser usado como plano de fuga para um fim de semana em Cabo Frio. Já não havia alegria nenhuma em entrar naquele último presente, e lembrar-se de sua mãe. Às vezes, ia ali de noite, e sentava no banco do motorista. Colocava a chave na ignição, e deixava ali, parada. Virava o volante de um lado para o outro, ouvindo os pneus se arrastarem parados contra o chão, tudo sem deixar de olhar para suas próprias mãos. À frente, havia a rua vazia. Ao lado, um grande vazio que nenhuma imaginação preencheria. No interior, não havia nada.
E então, todas as noites, chorava naquele volante.
Ouviu as portas do carro se fechando. Estava no banco de passageiro, o qual tantas vezes olhara e imaginara ali sua mãe, e pensara que nunca mais a veria. Nem ali, nem em lugar nenhum. Quando se jogou, sentiu só então um casaco. Devia realmente estar muito frio lá fora, agora que percebia que as janelas estavam embaçadas.
Sentia falta disso. De perceber tudo nos detalhes. Sentia muita falta.
Viu, pelos cantos dos olhos, Yago entrar no carro. Decidiu que já era hora de fazer alguma coisa, e simplesmente se virou, preguiçosa, para ele, podendo assim encará-lo nos olhos. Ele também percebeu, e viu-o forçando um sorriso de lábios comprimidos. Devolveu com o mesmo sorriso.
- Onde vamos? - sua voz saiu rouca, e sua garganta estava extremamente doída. Yago uma vez dissera que era por causa dos gritos à noite. Ela devia ter um pesadelo horrível, mas nunca se lembrava quando acordava de manhã.
- Você vai ver - ele respondeu, com uma voz arrastada e cansada. Nathalia percebeu que devia ser desgastante cuidar de uma namorada tão complicada.
Não disse mais nada o resto da viagem. Não que conversar não tivesse sido uma boa ideia - até fora. Mas a dor em sua garganta, somada à sua motivação, não dava outra: o melhor resultado era seu silêncio, poupando-se então para o que quer que Yago tivesse em mente.
O carro rapidamente percorreu as ruas de Costa Valença, e parou em frente à um prediozinho amarelo, de muros sujos de preto; provavelmente fora a chuva constante que castigara a pintura. Isso e a idade que aparentava ter. A cidade em si era relativamente nova, mal tinha noventa anos. Não desfrutara da época colonial, não sendo assim um ponto turístico, mas havia uma ou outra fazenda no interior do bosque ou na estrada que levava a Cabo Frio. O prédio mesmo aparentava ter sido erguido na época da construção da cidade, com um retoque aqui, outro ali, com o passar dos anos.
O estacionamento também não parecia tão cheio; era sábado, o segundo desde a morte de sua mãe, o que significava que fazia duas semanas que tinha dezesseis anos. Sábado era um dia sagrado naquela região: todos iam ao shopping e às vendas, ou procuravam um filme no pequeno cinema de duas salas; alguns aglomeravam-se também nas árvores que haviam espalhadas pela cidade, e outro visitavam um mostra de filmes antigos que não tinha data de fechamento. Eram poucos os que iam para a escola; não para estudar, mas para as atividades recreativas que haviam lá. Podia ser gratuito, mas eram poucos os que ainda achavam graça em rodar um bambolê ou brincar no trampolim.
Yago gentilmente a ajudou a sair do carro, e bateu a porta. Nathalia se surpreendeu ao constatar que havia força nas suas pernas. Conseguia caminhar sozinha, sem a tremulação de sempre. Até sorriu. Definitivamente respirou com mais facilidade. Orgulhosa de si mesma - e quase esquecendo o motivo que a levara duvidar de sua própria capacidade -, decidiu espantar a mão de Yago de seu ombro, para lhe mostrar que era forte o suficiente. Porém, o resultado não saiu como esperava: enquanto dava uma voltinha, alegre, o namorado a encarou, com dúvida e certa magoa estampadas no olhar.
- Que foi? - Nathalia perguntou, logo arrependendo-se: parecia que havia engolido um pequeno gatinho e este arranhava sua garganta por dentro.
- Ah, nada, deixa...
- Ah - Nathalia exclamou baixinho, logo percebendo, e forçou-se a dizer, apesar da dor:
- Desculpa, amor, eu não queria...
- Não, tudo bem - Yago sorriu então. - Você consegue andar.
- Eu sei - ela respondeu. - Eu... nem sei por que parei.
De repente, toda essa ideia de depressão lhe parecia simplesmente idiota.
- Bem - Yago respondeu. - Ainda assim, tenho que te mostrar uma coisa. Vamos entrar. Vamos, aposto que você vai gostar!
Algo naquele “gostar” parecia dizer: “Você vai se sentir melhor!”. E estava morrendo por algo que lhe fizesse se sentir melhor.
Ela o seguiu pelos corredores, estranhamente familiares. Já estivera ali antes? E então lembrou-se: aquele lugar era uma escola... durante os dias úteis. Nos fins de semana, e às vezes de noite, era um centro de inclusão social ou algo do tipo. Ou seja, simplesmente reunia pessoas que passaram por todos os tipos de merda e os colocava para falar em publico, para estranhos que não conhecia nem queria conhecer.
Nathalia lembrava-se de tudo, pois fora ali que levara Suzana, no inicio do ano. E fora ali que descobrira um dos segredos de Alex. E de repente, sentiu medo.
- O que estamos fazendo aqui? - ela perguntou. Sua garganta não mais doía, mas sua voz transmitia todo o pavor que sentia.
Yago parecia prestes a responder, porém uma voz às suas costas foi mais rápida:
- Ele te trouxe aqui por que achou que eu pudesse te ajudar.
Ela se virou, e sentiu-se surpresa. Não sabia por que, afinal era de se esperar que a encontrassem naquele lugar. Mesmo assim, exclamou:
- Cristina!
- Olá - ela respondeu, com um sorriso no rosto, e Nathalia pegou-se sorrindo também. Já fazia algum tempo que não a via, desde o parto de Aurora, a filha de Suzana.
Mas tão logo quanto sorriu, voltou à uma expressão séria.
- Olha... - ela começou, já receosa com as próprias palavras, bem como com seu tom de voz - Eu realmente agradeço isso que vocês estão tentando fazer... - ditando isto, olhou tanto para Yago como para Cristina - Mas eu estou bem. Sério. Ou vou ficar bem. Não precisa...
- Nathalia, querida - Cristina interrompeu-a - Não é incomodo nenhum te ajudar. E mesmo que esteja bem, o que aconteceu... Não é algo que desejo a ninguém. Eu sou sua amiga, certo? E como amiga, é minha obrigação fazer o possível para te fazer se sentir melhor, mesmo que já esteja recuperada...
Ela sentiu um “mas continuo achando que não está” no final daquela frase, mas ignorou. Agora, estava contra a parede. Sabia muito bem o quão subliminar havia sido aquela frase: se negasse ajuda, estaria praticamente negando que Cristina era sua amiga. Mesmo não querendo, acabou concordando:
- Está bem, então. Vamos, me levem para qualquer salinha dessas.
Yago pareceu surpreso por sua namorada ter cedido tão facilmente, mas não disse nada.
Quando estenderam-lhe as mãos, Nathalia uma para cada um: Yago segurou sua direita, e Cristina, sua esquerda. Caminharam assim, de mãos dadas, até a sala 39, que ficava no terceiro andar. Fora um pouco complicado subir escadas naquela posição (Nathalia tinha um certo pavor a cair de escadas, de modo que não se sentia segura se não segurasse num corrimão).
A primeira coisa que percebeu foi: a sala estava completa, inteiramente, vazia.
As cadeiras estavam arrumadas como da última vez: metade para a direita, metade para a esquerda, formando pelo menos dez fileiras de cada lado. No centro da sala, não havia nada, criando assim um corredor. E no pequeno palco, havia aquela imitação muito bem feita de tribuna.
Deixaram Nathalia sentada numa das cadeiras, aproximadamente na metade da sala - tanto em latitude quanto em longitude. Cristina seguiu para a mesa do professor, no flanco direito do mini palco, enquanto Yago subiu à tribuna. Ele pigarreou dramaticamente, e então começou:
- Ingrid Carolina Rodrigues nasceu no dia 27 de janeiro de 1971...
Imediatamente, Nathalia teve um arrepio à menção de sua mãe.
- ... na cidade de São Paulo. Em sua infância, gostava de brincar de bonecas e de ver programas de TV infantis (quer dizer, os que a ditadura permitia). Estudou, em toda a sua vida, em oito escolas diferentes, tudo isso por que sempre acabava sujando o próprio currículo no meio do ano, ao mais tardar. Envolvia-se em brigas e discussões, mas nunca nada sério.
“Na adolescência, por volta dos catorze anos, viu a ditadura acabar. Viu novas músicas surgirem, com o passar do tempo, e viu-se apaixonada particularmente por Nirvana e Legião Urbana (o que também significa que chorou como nunca quando a morte de seus vocalistas fora anunciada). Concluiu com notas acima da média o segundo grau e fez faculdade de medicina em São Paulo mesmo. Com trinta anos, havia já terminado a universidade, feito Mestrado, PhD e outras diversas formações. Bem antes disso, porém...
(Nathalia percebeu que Yago estava citando tudo o que havia lhe contado; toda a vida de sua mãe, sua família...)
“... havia dado a luz à uma linda menina, no dia 02 de novembro de 1993. Foi por essa menina que eu me apaixonei, e que pretendo amar pela minha vida toda - Dizendo isso, ela sorriu, olhando diretamente para Nathalia (a única presente na sala, de qualquer jeito), e continuou, após um pigarro - O nascimento de sua filha quase a fez largar a faculdade; de fato, perdeu bons dois meses de aula, e sua bolsa havia rompido enquanto estava em seu horário de almoço! Mas, apesar de todos os imprevistos, acabou por concluir o curso, e por se tornar uma as melhores médicas que essa cidade já teve, mesmo que por um curto período.
“Há poucos dias, porém, tivemos que enfrentar sua perda. Ingrid faleceu, mas apenas fisicamente. Pois, piegas à parte, ela continua viva em nossos corações. Ela continua... gritando, e tentando por ordem, e soprando em nossos ouvidos o quanto desaprova que eu durma com sua filha. Continua salvando vidas, mesmo que para isso não precise abrir ninguém. Ela nos salva simplesmente por ter existido...”
Nathalia sorria, chorando de felicidade. Era claro que ele se lembrava de tudo. Era claro que aquilo a havia ajudado. Sua mãe não estava morta, afinal. Nathalia que estava. E agora, mais viva do que nunca, queria beijar Yago, e agradecê-lo mais uma vez.
- Obrigado - Ela simplesmente disse, limpando as lágrimas do rosto.
- Ainda não acabou - Cristina anunciou, e saiu da sala.
Quando voltou, trazia uma multidão consigo. Mulheres e homens, jovens e velhos. Logo, o espaço todo estava cheio; fora até necessário trazer mais algumas cadeiras. Nathalia continuava o mais próximo possível do corredor improvisado, mas todas as cadeiras ao seu redor estavam ocupadas.
Cristina sorria para ela, e então, começou.

***

Nathalia deve ter ouvido uns trinta testemunhos.
Diversas pessoas contando sobre seus próprios problemas. Drogas, gravidez, pobreza, mais drogas... Todas ali, com suas próprias tragédias pessoais. Cada uma esperando sua vez de desabafar. Cada uma esperando que aquilo a ajudasse.
Nathalia agora chorava novamente. Mas não com aquele sorriso em seu rosto. Chorava de tristeza; de revolta; de... raiva.
Ela levantou-se, no meio de um discurso, fazendo assim a pessoa da vez se calar. Sem esperar, sem culpa, sem nada, correu para fora da sala. Para o corredor. Onde esperava que pudesse respirar em paz, mais uma vez.
Não podia.
Yago a seguiu para fora da sala, e a alcançou quase nas escadas.
- Nathalia! - ele exclamou, fazendo-a parar. - O que...
- Isso era pra eu me sentir melhor? - ela perguntou, chorando - Ver que existem outras pessoas no mundo com problemas era pra fazer me sentir melhor?
Yago permaneceu calado, como se não tivesse resposta. E então, passados poucos segundos, respondeu:
- Não, Nathalia, claro que não...
- Pois eu não me sinto! - ela gritou - Eu não quero saber o que os outros sentem! Eu não quero saber se eu sou uma pessoa horrível! Eu quero minha mãe de volta, e essa é a única coisa que vocês nunca vão conseguir fazer!
Respirando com dificuldade, e ainda chorando muito, Nathalia decidiu jogar a culpa para o alto.
- Você são uns inúteis - sussurrou, mais para si mesma, porém audível o suficiente para Yago ouvir, fazendo-o corar de vergonha; viu também lágrimas surgirem nos olhos do namorado, o que não a impediu de gritar: - Inúteis!
E disparou escada abaixo.
Chegou no estacionamento, e percebeu, para sua alegria - ou algo próximo disso, pois alegria era a ultima coisa que queria sentir - que estava com a chave do Celta. Com os olhos, encontrou-o ao longe, agora que o estacionamento estava cheio. Eram aproximadamente 11h30, e não chovia; o que não impedia o céu de estar cinzento e o vento de estar gélido.
Mal andou metade do caminho e ouviu:
- Nathalia!
Mas não a voz de Yago; era uma voz feminina e imponente, que ela reconheceu como a de Suzana.
Ela se virou bem a tempo de ver a amiga, com Aurora nos braços, correr até ela (mais tarde, fez a amiga admitir que era muita irresponsabilidade correr e carregar um bebê ao mesmo tempo). Nesse exato momento, duas outras pessoas - Alex e Felipe - voltaram-se para sua direção, e puseram-se a correr também.
- O que aconteceu? - Suzana lhe perguntou quando conseguiu alcançá-la. Logo, Felipe e Alex estavam a seu lado, irritantemente próximos, e Nathalia concluiu que era melhor que tivesse continuado a andar; talvez, esperançosamente, teria chegado ao seu carro e dado partida antes de Suzana estar sequer perto.
- Nada - ela disse, entredentes, irritada.
- Vamos, somos seus amigos - Alex retrucou - Pode nos falar.
-  Sabe - Nathalia voltou-se, com a irritação já borbulhando-lhe os nervos - Eu estou cansada desse negócio de todo mundo ser meu amigo. Nunca lhes pedi nada! Não ajam como se tivessem alguma obrigação comigo. Vocês não tem. Eu não quero nada de vocês, só que me. Deixem. Em paz!
Preparava-se para voltar a caminhar, mas ouviu de Felipe:
- Mas, Nathalia...
Já não agüentava mais.
- Eu odeio vocês! - gritou ela - Odeio vocês, odeio o Yago, principalmente o Yago! Vão todos para o inferno e me deixem em paz!
E correu até seu carro, dando partida antes de qualquer reação.
Dirigiu em silêncio, não respeitando nenhuma regra de transito. Percebeu que não havia tirado sua carta ainda, mas não preocupou-se, pois não viu nenhum guarda. Acelerava a quase cem por hora, quando o limite de velocidade era cinquenta. O barulho do motor do Celta, sofrendo para fornecer tal velocidade, ecoava pela rua.
Chegou então em casa. Freou bruscamente, e desligou um carro. Por um momento, achou que fosse explodir.
Então, como todas as vezes que entrava naquele carro, chorou, com a cabeça apoiada no volante.

***

Ela então entrou em casa, o que não significa que parou de chorar.
Em determinada hora, tomou uma decisão difícil, cruel até.
Levantou-se de sua cama. Ainda usava o mesmo jeans de manhã e o mesmo casaco. Agora, ambos estavam manchados de lágrimas, de tanto que se contorcera, de tanto que se encolhera, tentando desaparecer daquele mundo que só a fazia sofrer.
Desceu as escadas, sem vontade. Lembrou-se do dia do enterro, em que descera com o mesmo humor... com o mesmo objetivo. Dessa vez, porém, não haveria erro.
Rumou diretamente à cozinha, sem parar para nada.
Como Yago se sentiria? Como seus amigos se sentiriam? Era claro que não os odiava. Era claro que se importava com eles. Apenas... não agüentava mais. Queria esse escape. O que poderia acontecer de pior? A pior das situações era justamente a que desejava para si mesma.
Perguntou-se como seu pai se sentiria, e viu-se em dúvida pela primeira vez, pois não tinha certeza sequer de que ele a amava.
No final, nada mais importava. Apenas faria aquilo.
Sem expressão nenhuma, puxou uma faca afiadíssima da gaveta, e encostou-a na pele.
Doeria? Perguntou-se. Tinha bastante experiência com cortes, afinal já fora criança e diversas vezes caíra e cortara a pele. Mas um corte fatal doeria? Se sim, por quanto tempo? E a morte, como viria? Seria como dormir, que não se percebe quando acontece? Haveria, novamente, dor?
Ela não tinha ideia.
Mas sabia que queria sua mãe de volta.
Então cortou, e deixou sangrar.
Deixou doer, e, com esforço, cortou o outro pulso também. Não foi fácil, pois sua mão já doía demais. Percebeu que ardia. Percebeu que seu corpo parecia queimar, e logo depois tornava-se frio... Já não tinha a capacidade de ser mover muito mais.
E então, morreu.

***

Ela queria muito que fosse verdade. Ela queria muito ter coragem para fazer algo além de repassar aquela cena milhares e milhares de vezes em sua cabeça, mas suas mãos tremiam. Não tinha força, tamanho nervosismo, para abrir sequer um pequeno corte na pele, quanto mais para verdadeiramente mutilar-se.
Em determinado momento, tremia tanto que a faca escorregou de sua mão e caiu, retinindo contra o piso liso e branquérrimo.
            Ela se encolheu, levando as mãos ao rosto. Era fraca. Indecisa. Não conseguia sequer... não podia nem pensar na palavra sem tremer. Lentamente, porém com estrepito ao fim, sentou-se no chão, e novamente sentiu as dores que conseguira afugentar mais cedo, naquele mesmo dia.
            De que tudo aquilo adiantara? De que adiantara, Yago, Suzana, Alex, Felipe e Cristina tentarem lhe ajudar, se voltara à estaca zero?
            Não adiantara de nada, pois, mais uma vez, falhara.

***

            Subiu as escadas, desanimada, e fez algo que nunca tinha feito antes: Abriu o alçapão do sótão, e uma escada de madeira desdobrou-se até tocar no chão, como fazia em filmes americanos. Fora esse um dos charmes que levara Nathalia e sua mãe a escolher aquela casa, e ela nunca percebera que jamais subira até ali.
            As escadas eram barulhentas ao passo, ainda mais que a escada principal da casa. A cada centímetro que avançava, um tap ecoava por praticamente a casa toda.
            Quando Nathalia pôs a cabeça para dentro do sótão, ficou maravilhada - ainda não sabia se no bom ou no mal sentido - com o que viu.
            Havia baús espalhados por todos os lados, a maioria cor de tabaco e do mesmo tamanho. Não havia cadeado, o que significava que qualquer um poderia ver o que havia em seu conteúdo. Mais além, havia uma mesinha branca, feita de ferro, rodeada de quatro cadeiras, todas construídas no mesmo padrão florido - Nathalia percebeu que era a mesinha que comprara para a futura casa que planejavam comprar em São Paulo, antes de tudo. Sempre se perguntou qual fora o destino daquela mesa, que sua mãe aparentara gostar tanto... sempre acabou concluindo que jogara fora, mesmo custando mais de quatrocentos reais. Agora notava que sua mãe nunca faria isso: provavelmente a havia guardado para o futuro... um futuro que jamais veria.
            Nathalia podia continuar a examinar o quarto; podia notar nos lençóis cobrindo outros móveis, levantá-los e revelar fotos emolduradas e seus trabalhos do primário; podia abrir gavetas, e encontrar as jóias da família, e uma chave em particular, que devia ser a chave do apartamento de seu pai; por falar em seu pai, podia achar os resquícios de fotos e roupas queimadas, guardadas tão seguramente que o cheiro ainda estava encrostado nelas; podia notar no como aquele lugar ficara lindo, com uma janela no fim da sala, uma janela que devia ter percebido assim que se mudaram para Costa Valença; mas não fez nada disso. Apenas caminhou até a mesinha empoeirada e sentou, sem se preocupar em sujar suas roupas.
            Em cima da mesa, havia um vaso de flores. Rosas vermelhíssimas, e incrivelmente saudáveis. A luz do sol batia diretamente nelas, o que poderia ser uma explicação para o por que conservavam sua beleza. Mas como sobreviveram sem água? Isso caso sua mãe sequer as molhasse. Como passaram duas semanas vivas?
            Ela viu apenas uma gotinha de água escapar do interior da rosa mais ao leste do vaso, e pingar na mesa, limpando instantaneamente aquele pequeno ponto. E acabou por concluir que nunca saberia a resposta.
            Percebeu, então, num livro de capa marrom e brilhante, igualmente empoeirado, em cima da mesinha. Ao abri-lo, deixou várias paginas soltas caírem, e o próprio livro escorregou de sua mão. Ela se levantou da mesa, e então se abaixou, recolhendo as páginas...
            Mas não eram apenas páginas vazias. Eram fotos, escritos, desenhos... tudo o que restara de sua mãe.
            Tomou nas mãos a primeira foto que viu, e, perplexa, fitou sua mãe com dezesseis anos de idade; era ela. Era simplesmente igual à Nathalia.
            Após observar mais profundamente, percebeu nos pequenos detalhes: sua mãe tinha uma covinha no queixo, ao contrário das suas, que ficavam nas bochechas; o cabelo era mais liso, quase que reto, a não ser por mínimas ondulações, enquanto seu cabelo era tão ondulado que parecia uma boneca; os olhos eram menores, e o nariz, mais tímido. Porém, dividiam o mesmo sorriso, de orelha a orelha, com dentes retos e lábios repuxados numa posição linda...
            Ao lado dela, havia um garoto, tão lindo quanto. Por mais que a foto estivesse um pouco desbotada, pôde perceber que seus cabelos eram loiro-sujos, quase ruivos, e desfrutava de belos olhos verdes. Sorria também, porém mais timidamente, sem mostrar os dentes. E tinha o braço envolvendo a cintura de sua mãe, enquanto ela devolvia o meio abraço agarrando seu pescoço. Era obvio que não era seu pai; seu rosto era doce demais, e aparentava ser gentil demais. Além disso, já vira fotos da juventude de seu pai, e ele não era nada parecido com aquilo.
            Ao virar a foto, notou em umas poucas palavras escritas; “Eu e o Tom”. Nathalia riu, pois achava aquele nome engraçado. Mas logo voltou a fitar séria as fotos, e se lembrou do que sua mãe dissera, em toda sua vida, enquanto achava que estava sozinha: que nunca esquecera Tom, que sempre amaria Tom... que Tom estava morto, vitima de um terrível acidente.
            Como que por desespero, Nathalia pegou foto por foto, e mesmo que brevemente, examinou cada uma delas, e depois lançou-se às outras. Por vezes repetira a mesma foto, mas examinou-as novamente sem se importar. Logo, não havia nenhuma foto no álbum; nenhum escrito de diário, nada. Estava tudo no chão, revirado novamente e novamente.
            E Nathalia chorava. Chorava por todas aquelas lembranças que não eram dela. Algumas que nunca foram contadas. E nunca seriam. Amigos que nunca conhecera. Todos os mistérios da vida de sua mãe... ali. Descobertos. E no entanto, tão sem resposta quanto antes.
            Houve certo momento em que adormeceu, em meio às fotos e aos textos. Adormeceu entre lágrimas, que logo secaram. E sonhou.

***

            Por algum motivo, sabia onde estava. Nunca fora àquele lugar, jamais vira aquele imenso verde... mas poderia rodar toda a vastidão dali facilmente, como sua própria casa.
            Estava no centro de um campo. Ao longe, uma bela música tocava. Era calma, baseada apenas num instrumento... Nathalia logo notou que era piano, e que aquela era uma de suas músicas favoritas. A grama estava perfeitamente aparada, de modo que não duvidava que estivessem milimetricamente corretas, uma quanto às outras. Num raio de cinquenta metros, havia apenas verde; porém, além disso, havia flores, formando um perfeito circulo. As cores variavam: brancas, azuis, roxas, amarelas... e, mais próximas de Nathalia, haviam rosas tão vermelhas quanto sangue, porém tão gentis como... bem, rosas. Ela queria tocar naquelas flores. Eram tão lindas! Não duvidou que fossem aveludadas ao toque.
            Então, como que por mágica, novas flores cresceram, preenchendo o circulo de cinquenta metros. Logo, Nathalia estava no centro de um campo inteiramente florido e colorido.
O dia estava meio cinzento, meio ensolarado; as nuvens passavam pelo sol, que estava demasiadamente gigantesco e brilhante, de modo que para ofuscá-lo, seria necessário provavelmente uma nuvem tão negra quanto a noite. O vento fazia seus cabelos voarem e suas roupas dançarem; era um dia lindo, afinal, e Nathalia sentiu-se uma criança novamente. Não lembrou por que estivera triste. Apenas sorriu, e colheu flores que tornariam a renascer na terra à medida que ela as lançava no ar.
As pétalas logo dançaram, aproximadamente cem metros acima de sua cabeça, e caíram como chuva. Rosas, brancas, amarelas... era uma chuva verdadeiramente colorida. Dentes de leão não foram excluídos da festa: flutuavam, e o vento os soprava, fazendo seus pelos se soltarem, e caírem lentamente, como se estivessem dançando, também. O cheiro das flores, que já contagiava o campo, agora contagiava o céu também. Se fosse possível, até as aves estariam sorrindo.
Então, detrás da cortina de pétalas, de repente surgiu alguém.
Nathalia sabia que deveria sentir um aperto no coração, mas não sabia o porquê. Enquanto sua mãe caminhava até ela, abriu um belo sorriso, e desejou que chegasse logo. Mentalmente, gritou “Mãe!”, pois, por algum motivo, não conseguia falar nada.
Sua mãe estava vestida com uma calça jeans e uma camisa branca, debaixo de uma jaqueta jeans. Nathalia sabia que aquela era a combinação preferida dela, a que mais usava quando saía, para onde quer que fosse. Demorou algum tempo para perceber o que ela trazia ao seu lado: uma bicicleta pequena, vermelha. Não demorou nem um segundo a mais para reconhecê-la, pois aquela era sua primeira bicicleta.
Ingrid sorriu, e Nathalia não ouviu palavra nenhuma, mas sabia que estava sendo convidada a experimentar a bicicleta novamente.
Na vida real, teria ficado um pouco cética e temerosa; mas algo nesse sonho a inspirava alegria e fé. E era tão real que já havia esquecido que era um sonho, por mais improvável que fosse. Feliz, subiu na bicicleta, que inexplicavelmente lhe era perfeita. A primeira vista, fora pequena demais, mas devia ser um desses negócios de sonho; não era necessário que fosse possível. De possível, bastava a vida real. Naquele sonho, queria romper todos os limites e quebrar todas as barreiras, pois o impossível lhe fazia feliz.
Ao seu lado, por entre a chuva de pétalas, surgiu uma Nathalia oito anos mais nova, bem como sua mãe na época. Ela a empurrava, e Nathalia pedalava com temor, porém excitada, querendo mais do que tudo provar que já era crescida o suficiente para andar de bicicleta, como os adultos faziam. A Nathalia de hoje e sua respectiva mãe repetiam os mesmo movimentos nos mínimos detalhes, como num comercial de antes-e-depois. Nenhuma delas percebia, e nem ligava. A lembrança a seu lado parecia tão normal... tão certa. Como uma velha amiga que acabara de voltar.
Depois, decidiram fazer um piquenique. Nathalia nunca fizera um piquenique, então não havia lembrança para compartilhar o lanche. Mesmo assim, se divertiu à beça com sua mãe, enquanto surgia na pequena cestinha modelo-americano tudo o que desejavam: sanduíches de presunto ou de atum, milho quente, batata corada, salada de alface, doces e sucos... Poderia muito bem ter desejado um Big Mac ou uma Coca-Cola gigantesca, mas não o fez. Queria apenas aquela comida que tinha um gosto caseiro, exatamente igual ao jeito que sua mãe fazia.
Logo depois, decidiram caçar borboletas, com uma redinha rosa e outra azul; assim que capturavam uma, com muita delicadeza a pegavam na mão e a soltavam. No entanto, algumas não voavam de primeira, e sim passeavam entre seus dedos. Então, passaram a imitar o canto de pássaros, atraindo todos os tipos de espécies para o centro do campo - Nathalia particularmente se encantara pelas calopsitas, pelos tucanos e araras azuis. Decidiram passar ao piano, que só agora percebiam. As teclas moviam-se sozinhas, tocando uma única melodia. Nathalia tentou imitar o ritmo, mas mesmos seus erros não atrapalharam a perfeição da música, que seguia sem parar.
Haviam se divertido muito naquele dia. Passaram tanto tempo juntas que Nathalia mal percebeu que, no mundo real, haviam passado-se apenas trinta minutos.
Nathalia pensava agora no que fariam a seguir. Havia tanto que queria fazer - seja pela primeira vez na vida ou pela centésima. Se naquele lugar tudo era possível, podia imaginar a Disney! Podia imaginar Mickey Mouse, Donald, Pateta e etc. nos mais perfeitos e coloridos traços. Melhor ainda, podia imaginar a Disney, e então misturá-la com Londres e Paris, formando a mais perfeita cidade já vista.
Poderia fazer tanta coisa...
Virou-se para a sua mãe, com um sorriso infantil e inocente, digno apenas das crianças que ainda não conheciam a crueldade do mundo, estampado no rosto, mas logo parou. Ela também tinha um sorriso, mas não o mesmo: era triste, quase como de alguém que faz o que não quer.
E então, ela se virou de costas e caminhou para longe de Nathalia.
De inicio, ela assistiu simplesmente, sem poder fazer nada. Logo depois tentou gritar - Mãe! Mas não surtiu efeito algum, pois ainda não podia falar. Mesmo assim, Ingrid pareceu parar por um segundo; e então, desconcertada, voltou a andar.
Nathalia queria correr até ela. Tentou correr. Correu, não importando-se com as flores que esmagava no caminho, não importando-se com mais nada. Sua mãe simplesmente caminhava, mas parecia cada vez mais distante...
Ela chorava, tanto na vida real quanto no sonho, pois agora lembrava-se o por que deveria estar triste.
Com toda a força que tinha, pôs-se a correr, mas jamais alcançava sua mãe. O caminho parecia esticar-se como um elástico, e Nathalia perguntou-se se não era Deus quem puxava ambas as extremidades. Mas não tinha tempo para indagar-se com perguntas sem resposta, muito menos para sentir raiva de um ser supremo que odiava mais que tudo: queria apenas chegar à sua mãe.
Tropeçou no meio do caminho, e caiu de cara no chão, engolindo terra, sangue e talvez um dente. Levantou-se, penosamente, tamanha dor que sentia, e tentou correr de novo. Mas acabou que não precisava, pois sua mãe estava parada a apenas alguns metros dela... sorrindo tristemente novamente, de olhos fechados, com os pés-de-galinha e as rugas explicitas em seu belo rosto.
Ao lado dela, estava Nathalia, só que com uma covinha no queixo, cabelo liso, olhos e nariz pequenos; e com um sorriso tão lindo, mas tão triste, que parecia um pequeno anjo apaixonado, de asas invisíveis, cuja tormenta contagiava todos ao redor.
Nathalia caminhou até sua mãe de quarenta anos, e lentamente, a mãe de dezesseis sumiu. Ainda havia um sorriso impresso naquele rosto, porém os olhos fechados agora estavam abertos, e não escondiam nem um pouco a grande tristeza que sentiam.
- Por favor - Nathalia implorou mentalmente, ainda sem conseguir falar; as lágrimas escorriam por seu rosto, e a boca se contorcia num espremer melancólico - Por favor.
Esta explicito naquela súplica o que ela queria; queria sua mãe para sempre, mesmo que em detrimento de tudo mais. Queria poder passar o resto da vida ali, e passaria mesmo, sem arrependimento nenhum. Queria tudo, tudo o que não podia ter.
Então sua mãe caminhou para longe, desaparecendo de vista. Antes que Nathalia pudesse cair e chorar, ela reapareceu em sua frente, e levantou seu rosto, fitando-a com o mesmo sorriso triste. Beijou-lhe a testa, e sussurrou a primeira e última fala de todo o sonho:
- Adeus.
Então, com um brilho alvíssimo, desapareceu aos poucos, transformada em pura luz e carregada pelo vento, deixando Nathalia sozinha ali.
E só então ela caiu.
E só então ela chorou.
Encolhida no chão, ela percebeu que deu adeus, uma última vez, à sua mãe, e que jamais a teria de volta.
A música jamais parou.

***

Os quatro a encontraram adormecida no chão do sótão, deitada sobre fotos e diários. Olharam um para o outro, e todos sabiam o que fazer. Yago aninhou-se de frente para Nathalia, podendo assim encarar seu rosto e beijar sua testa. Suzana deitou-se atrás dela, de costas para ela, com cuidado para não machucar a pequena Aurora. Felipe e Alex jogaram-se onde puderam, pois era o mais perto possível que ficariam de Nathalia.
Todos adormeceram com ela, abraçados com ela, enquanto Nathalia chorava, presa naquele sonho que daria tudo para que terminasse.
Reações: