Capitulo 9
Secrets
Yuri corria desesperadamente por uma floresta completamente desconhecida a seu ver. Não sabia o porquê, mas sabia que tinha que correr, e muito. Estava com a sensação que tinha algo indo atrás dele. Correu, e muito. Até que encontrou uma árvore oca. Entrou nela e se encolheu na tentativa de ficar o máximo invisível.
Começou a ouvir rugidos. Eram altos, muito altos. Parecia um animal. Um urso? Talvez, não queria parar para descobrir. Viu uma sombra aparecer perto da árvore. Começou a ofegar mais e mais, o que era ruim, pois pelo que se lembrava, animais tinham ótima audição. A sombra parou e começou a se aproximar mais do local onde estava. Podia ouvir cada passo, cada respiração do animal. Tudo parou. O animal, a respiração ofegante, simplesmente, tudo tinha passado. Então ouviu:


-Te achei.
Foi o tempo de Yuri abrir os olhos e acordar pulando da cama. Olhou para Felipe ao seu lado. Estava olhando para o teto, então se virou para ele e disse:
-Ainda não conseguiu. Certo?
-Uhum.
-Pelo menos viu o que era?
-Não, só uma sombra, mas não consegui definir o que era.
-Chegou mais perto, você ouvia o rugido e já acordava chorando, pelo menos agora viu a sombra.
-Há há. Palhaço.
Felipe sorriu e disse:
-Cara, é seu totem. Não vai te matar, é você mesmo. É tipo...
-Não faça isso com ele Felipe, bota-lo em combate direto e num espaço curto. Limitar nunca é bom. Deixe-o com todo o espaço necessário.
-Mariana... Sabes o tamanho do mundo em um subconsciente não?
-Sei, infinito. Isso torna as coisas mais interessantes ainda.
-Vai demorar muito, preciso ajuda-lo o quanto antes. Ele tá na mira na organização.
-Você fala como se ele tivesse desprotegido.
-Ele não pode contar sempre com agente, sabe se lá o que eles vão fazer.
-Relaxa garoto, nada vai sair do controle.
Felipe se levanta já perdendo a paciência. Foi se dirigindo para a porta em direção a cozinha, então parou ao lado dela e disse baixo:
-Sair do controle? Puxa, diz a pessoa que não faz nada de errado e não tem perigo de ter algo que pode sair do controle a qualquer instante.
Mariane estremeceu. Odiava quando ele entrava naquele assunto. Ultimamente aquilo era seu maior ponto fraco. Ela se abraçou e ficou em silencio. Estava prendendo a raiva e o choro.
Felipe foi andando até a cozinha deixando Yuri e Mariane sozinhos, então Yuri fala:
-O que ele sabe tanto que te deixa assim?
-Nada... Nada de mais.
-Porque vocês dois vivem fazendo isso? Falem-me algo e não deixem pro “tudo em seu tempo”.
-Escuta Yuri. Isso que você tá se metendo. É perigoso. E cair de cabeça em tudo de uma vez, é pior ainda e...
-Não, não é.
-Me deixa terminar. E eu fiz a mesma coisa que você, o Felipe por não ter experiência em treino me falou tudo, não só a mim. A Laila também. Por isso acabamos na organização. Ele foi o único que conseguiu sair de lá. Então agente pediu ajuda pra ele. Ele conseguiu limpar nossos registros. Mas ele não vai conseguir duas vezes. Mas mesmo assim algo muito, muito ruim aconteceu.
-E é isso que ele tem contra você.
-Uhum, exatamente. E se não fosse pelo que ele fez por mim no passado, eu mataria ele por saber disso. Já você, eu não te devo nada. Entende-me?
Yuri ficou em silencio. Não sabia o que falar, na verdade, não havia muito que falar. Mariane se levantou e voltou para a cozinha. Cruzou novamente com Felipe pelo corredor, se abraçou e abaixou a cabeça para não olhar para ele.
Felipe entrou novamente no quarto e jogou uma bala para Yuri. Então disse:
-Coma, e vamos tentar de novo.
-Sabe, acho que vou precisar de mais que uma bala pra me alimentar.
-Essa bala é de recheio, coloquei amarulla nela. Vai te relaxar, é mais fácil de conseguir.
-Ah sim.
Yuri colocou a bala na boca e a engoliu, Felipe olhou para ele e disse:
-Agora eu vou te prender lá, você só sai de lá com o totem. Na verdade, ou volta com ele dominado, ou ele volta no controle do seu corpo. No segundo caso, eu te mato.
-Espera, eu não...
Felipe colocou a mão na testa de Yuri, no mesmo segundo Yuri caiu desmaiado.
-Boa sorte, vai precisar.
***
Yuri se levantou devagar, voltou para seu subconsciente. Estava começando a desgostar dele. Mas agora estava diferente, ou pelo menos parecia. Tentou se lembrar de algo que Mariana havia dito. Algo sobre o subconsciente ser muito grande. Talvez Felipe tivesse o aumentado um pouco. Agora havia uma ponte, bem no meio da floresta. Um rio passava por baixo dela, não podia se ver aonde começava ou terminava.
Foi andando até a ponte devagar, só para ter certeza que nenhum animal ia aparecer e devora-lo. Chegou à ponte, e nada havia acontecido ainda. Olhou em volta, estava cercado por floresta. Olhou novamente. Não havia nada ali.
-Bem calmo não?
Uma voz falou, Yuri procurou de todos os lados, e não viu nenhuma pessoa.
-Relaxa Yuri, não vou te machucar. A vontade já passou, você estava entrando aqui do jeito errado, agora que está tudo bem, nada irá acontecer.
Yuri se virou novamente e viu um leão deitado no chão o observando. Aquele o animal? Leão? Não entendeu muito bem quando Felipe explicou esse tal lance de totem, mas parecia que era ele. Yuri o encarou e fala:
-Você... Sabe falar?
Ouviu um som que se parecia com risada, logo então ouviu:
-Não, eu não faço. Pelo menos não com a boca. Eu sou parte de você, então o que eu penso você ouve, e vice-versa.
-Ah, ah sim.
-Pois bem, é raro algum humano entrar no subconsciente. Ainda mais diretamente em seu totem. O que queres?
-Bem... Pode soar meio estranho mas...
-Eu sei o que você quer Yuri, já disse. Nossas mentes são conectadas. Mas aqui, eu vejo coisas que você não vê, afinal, sou o guardião do seu subconsciente, tenho que saber o que se passa nele. E afirmo a você que, o que você pensa e faz, muitas vezes não foram o que você sentia ou queria.
Yuri se manteve em silencio. Não tinha como argumentar com seu próprio subconsciente. Yuri olhou para o leão e disse:
-O que acontece se eu te “dominar”?
-Nada, só vai poder usar minha energia.
-Eu não podia?
-Podia, só que apenas em casos de emergência. Era uma reserva muito mais potente que a sua. Agora, se me dominar, não tem essa energia. Mas ganhará outras habilidades.
-Além das que eu já tenho?
-Não, agora ganhará habilidades físicas, como ver bem, ouvir bem e coisas assim. Geralmente, quem se conecta ao totem só se une a isso. Todas as conexões são parciais, nunca 100%, apenas algumas pessoas fizeram a 100%. Muito raro.
-O que acontece?
-Não se sabe. Ninguém sabe. Na união 100% o totem desaparece. E devido a isso não temos mais contato.
-Vocês podem se falar?
-Nós totens? Claro que sim, existe um universo todo onde todos no subconsciente se ligam.
O leão se levantou e continuou.
-Agora Yuri. Realmente vamos nos conectar?
-Eu... Eu não sei.
-Porque esse medo do Felipe?
-Não é medo, sim respeito.
-O respeito só vem com o medo, pelo menos o seu tipo de respeito com ele é assim.
Yuri se manteve em silencio. O que ele falava era verdade. Sentia medo de Felipe, já virá o que ele podia fazer diversas vezes, inclusive já sofreu uma das ações. Mas por mais que tenha visto algumas vezes, sabia que ele era bem mais forte que aquilo. Seguido desse pensamento, Yuri olhou para o leão e disse:
-Vamos. Quero uma parcial, mas no momento que eu quiser uma inteira, vamos fazer.
***
Laila estava deitada em sua cama com o mp³ ligado. Estava ouvindo Avril Lavigne – Sk8er boy. Como uma retardada estava fingindo estar na bateria e batia no ar como se estivesse lá, ao vivo com ela. De repente seu corpo começou a doer. Ela queria se debater de dor, mas tudo que conseguia era ficar paralisada sentindo a dor, nem gritar conseguia. Olhou par ao espelho ao lado de sua cama. Seu olho estava completamente negro. Não havia mais pupila ou córnea, era apenas tudo preto. A dor começou a aumentar mais e mais, até que então ela desmaiou.
Mariana entrou no quarto rápido e viu Laila já desmaiada e caída no chão. Ela a pegou no colo e a colocou de volta na cama. Abriu seu olho e viu tudo preto. O deixou fechar novamente e se ajoelhou no chão. Chorava, muito. Felipe apareceu na porta e disse:
-É assim que vão ficar as coisas? Já não é hora de dar um chega nisso?
Mariana virou para Felipe. E não conseguia falar, apenas chorava. Felipe se sentou ao lado dela e a abraçou. Ela o abraçou de volta e começou a chorar, então gritava:
-Por quê? Em... Por quê?
Felipe ficou em silencio, apenas a abraçava.
***
-Pois bem então. Antes de tudo, me responda. O que eu sou?
-Meu totem.
-Desenvolva.
-Você é o animal que me representa espiritualmente, o guardião do meu subconsciente.
-O que acontecerá se nos unirmos?
-Nossas energias irão se conectar e perderei a proteção do meu subconsciente. Porem, eu ganharei mais energia e terei mudanças físicas.
-Que tipo de conexão você quer?
-Parcial, mas a qualquer momento, se dividindo em dois, ou quando eu quiser ou quando estiver beirando a morte, nos tornaremos 100%.
-Você tem certeza disso?
Yuri hesita por alguns segundos, então prossegue:
-Positivo.
O leão se aproxima de Yuri.
***
Felipe olha para Mariana e depois para Laila, então diz:
-Teremos que contar, olha o que está acontecendo a ela, só vai perturba-la mais.
Mariane permanece em silencio, não queria fazer aquilo, mas sabia que era necessário. Então Felipe diz:
-E então?
-Tudo... Tudo bem.
Felipe estica os braços então fala:
-Acorde.
No mesmo instante Laila abre os olhos e se senta na cama. Assim que levanta da um grito ensurdecedor. Quando se acalma olha para Felipe e diz:
-MEUS OLHOS... ESTÃO... MEUS OLHOS...
-Negros, como o de um espirito se transformando em um demônio.
Laila o encara sem reação, não sabia o que dizer, ela estava certa. Olhou para Mariana sentada ao canto da sala, chorando. Então diz:
-Como eu posso estar com esses olhos, eu estou... Ah meu Deus... Mariana, agente...
-Não, só você.
-Mas como? Eu não quero estar... Espera, você consegue. Você pode me ajudar, certo Felipe? Afinal você é...
-Não, não posso. Já faz muito tempo, quase um ano.
Laila os encara, estava assustada, muito assustada. Já fazia tanto tempo assim? Como podia?
-Desculpa não ter te falado... – Diz Mariane chorosa – É que eu tive tanto medo, e tão pouca coragem...
-E ME DEIXOU FICAR ASSIM? SABE O QUE PODERIA ACONTECER, EM? SABE?
-É CLARO QUE SEI, MAS VOCÊ É MINHA MELHOR AMIGA, EU TE AMO. NÃO CONSEGUI.
-E POR CAUSA DISSO EU...
-PAREM AS DUAS – Grita Felipe já se irritando – CHEGA, PAREM DE SER TÃO CRIANÇAS. ELA ERROU? ERROU. MAS AGORA JÁ ERA, AGORA VOCÊ TEM QUE ACEITAR O FATO QUE VOCÊ...
Felipe fez uma pausa, então abaixou o tom de voz. A essa altura ambas já estavam chorando, então Felipe diz:
-Você está morta.
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