Hey galero ;) Bem, aqui está a continuação de O Fantasma De Você. Encarem isso como uma mini-série ou sei lá, mas bem, espero que gostem.


A VIDA DE TRAGÉDIAS IRÁ TE MATAR

                Bianca não acreditava em Deus. Para ela, uma Grande Presença Divina era das mais puras bobagens: sempre cética, preferia acreditar nos livros que levava embaixo dos braços do que num velho ditando trechos da Bíblia, sem base em nenhum conhecimento cientifico e muitas vezes incoerente. Pelos primeiros dezessete anos de sua vida, aceitou esse fato sem problemas; mas não agora.

                Entrava numa Igreja, como não fazia há anos... da última vez, fora obrigada a se ajoelhar e orar pela glória de Jesus. Não por seus pais, não - eles mesmos haviam perdido as esperanças em converter a tão racional filha -, mas pelo seu amado. Fiel, tampouco era, porém não poderia ser enterrado sem que seu corpo fosse antes benzido: era, afinal, uma tradição rezar uma missa para os mortos. E a lembrança ainda doía-lhe a alma; ver seu amor, tão sereno, tão calmo... morto, e ao mesmo tempo tão lívido que parecia que logo iria levantar-se e abraçá-la novamente.
                No entanto, passaram-se dez anos e nada de ressurreição.
                Então, entrava na Igreja: era vazia, como quase tudo em sua cidade, e também por que já passavam das nove horas, e a última missa do dia fora rezada um bom tempo antes. As velas, no entanto, estavam acesas, e, apesar de apenas elas iluminarem o lugar, tudo era perfeitamente visível e limpo - quase como se alguém fosse esperado ali. O lugar cheirava a madeira, de modo que sentia-se num bem cuidado salão real; era verdade que simplesmente por estar ali, já estava mais calma.
                Mas nada daquela bela decoração lhe importava; poderia ir e voltar dali, poderia quebrar tudo, e não sentiria o menor remorso. Apenas atravessou o hall que os bancos formavam, dirigindo-se para o altar que parecia longe demais; tudo lhe parecia grande demais. Talvez estivesse simplesmente desabituada - suas pernas, pelo menos, estavam, pois vinham tremendo, mal suportando o peso do próprio corpo, desde que saíra de casa. O mais rapidamente que pôde, alcançou a escadaria, e decidiu parar ali mesmo; sentia que não tinha força física para continuar a caminhar. Ajoelhou-se, sem tomar cuidado quanto a amassar ou sujar sua roupa - para quê?, vestia apenas uma longa camisola e um casaquinho, que lhe descia até as coxas, por cima -, em se sujar, com a poeira que só agora via; nada mais importava.
                E, logo ajoelhada, com as mãos tremendo, ela orou pela milésima vez; porém, dessa vez, realmente acreditava. Realmente queria chegar à... Deus? Não, sinto muito, Deus pouco lhe importava no momento - se existia ou não, era uma resposta que poderia muito bem morrer sem. Não, precisava dele: por que ele não reaparecera? Como aparecera, para inicio de conversa? Por que, dez anos, dois mil e tantos dias, milhões de horas depois... ainda lhe doía tanto?
                Se o que ele tinha feito era apenas para lembrar-lhe de que ainda existia, bem, foi doloroso e desnecessário: nunca, jamais, em hipótese alguma, Bianca esqueceria seu rosto; seu toque; seu beijo até, cujo gosto ainda residia em seus lábios. Tinha lhe visitado por saudades? Que diabos de... ato, egoísta e cruel, sádico... fora esse? Como ele ousava aparecer em sua frente, sabendo como a saudade lhe fazia mal? Ora, muito bem, os mortos podiam ter a eternidade inteira pela frente - mas ela não tinha. Tinha apenas mais anos e anos de sofrimento pela frente; um drama ao qual não tinha que se submeter, mas escolhera fazê-lo. Pois, afinal, uma vida de solidão não era vida, muito menos morte: era seu inferno.
                De lágrimas nos olhos, como estava acostumada a viver, orou, num calmo desespero. Clamou pela alma do amado, que parecia tão distante... Não sabia se respirava, pois tudo o que sentia em seu peito era gelo. Tudo o que corria de seus olhos era, dramaticamente falando, sangue: seu coração sangrava, e era frio.
                E ela esperava sua resposta; mais do que tudo, queria um simples sopro de vida, uma simples garantia de que ainda valia a pena viver - de que valia a pena esperar. Esperava ouvi-lo chegando, e senti-lo tocá-la, frio... e então. Viesse o que viesse. Vivesse a vida, morresse a morte. Estaria preparada para tudo... mas ele precisava prepará-la.
                E, com convicção, sua voz fraquinha como nunca estivera, continuou a orar. E a esperar. E esperou, esperou, esperou...
                E, nos momentos em que a esperança era escassa, e que suas feridas pareciam não cicatrizar, ela se contentava com o fato de que o amava, como poucos podiam amar; era horrível e doloroso, mas era humano: e se orgulhava de ter a capacidade de amar tanto assim. E se entristecia, pois passava mais uma noite chorando sozinha.

                Nos portões da gigantesca igreja, um homem esperava. Vestia jeans e camiseta, por mais que estivesse consideravelmente frio. Ninguém, porém, o olhava: primeiro por que não havia lá uma multidão na rua, e segundo por que seriam muitos poucos os que poderiam lhe ver. Era necessário um dom muito grande, além da compreensão de muitos; além da compreensão da tão sábia ciência.
                Ele não precisava de portas: entrou, mesmo que lhe causasse um frio desconforto, pelas paredes. E passou a observá-la dali, tão longe e tão perto ao mesmo tempo. Se tivesse um corpo, a abraçaria, porém, no presente estado, tudo que poderia lhe causar seria uma hipotermia. Sabia que, no entanto, a amante não se importaria; afinal, fora exatamente disso que viera atrás.
                Se pudesse chorar, choraria. Não estava numa mesma posição que a dela - a de sentir falta de quem amava -, mas talvez, ele pensou com receio de admitir, numa ainda pior: a de sentir falta de quem amava quando via a tal pessoa todos os dias. Pois, bem, dez anos não é pouco tempo, nem para os vivos, nem para os mortos; e foi esse o tempo que Bianca sentiu na pele, assim como ele sentira no coração - ironicamente, o único órgão que restava à funcionar em seu corpo; não bombeava sangue, mas bombeava sua tristeza, melancólico, sabendo que causava apenas sofrimento para seu dono quando devia estar amando.
                Ele se aproximou. Estava quebrando todas as regras havia dez anos, mas talvez essa fosse a pior; pior ainda do que se revelar para um humano: se revelar e se apaixonar por um humano, principalmente quando a recíproca era verdadeira. Logo viriam levá-lo à força, e, pelas histórias que ouvira dos outros fantasmas que continuavam a caminhar pela Terra, não era algo muito agradável: era pior do que a própria morte em si; e isso, vindo de alguém que morrera com o braço esmagado contra a cabeça num acidente de trabalho, não era pouca coisa.
                Mas, como podia ouvir nos pensamentos de Bianca, nada mais importava. O inferno que lhe esperasse. Fugiria de lá sem grandes problemas, pois sua amada valia o esforço.
                Sem se ajoelhar, afastou os cabelos de Bianca de seu rosto. Procurou tocar pouquíssimo em sua pele, mas ainda assim causou-lhe uma brisa gélida, que a fez comprimir os lábios: agora já devia saber que sua aparição não fora um sonho. Aqueles pensamentos cruéis desapareceram da mente de Bianca; ela parecia estar protestando mais consigo mesmo por acreditar em algo tão absurdo do que com o Fantasma de Você, então foi-lhe meio que um choque sentir frio novamente, por mais que o dia estivesse congelando e ela vestisse apenas sua habitual roupa de dormir surrada e manchada - roupa que às vezes usava dias a fio, e poucas vezes trocava.
                Ela, afinal, não abriu os olhos, porém sorriu: pareceu entretida com aquele toque. Tampouco tentou segurá-lo, por mais que não conseguisse de qualquer jeito. Sem se controlar, o fantasma passou a desenhar círculos em sua testa, descendo para seus olhos, sua bochecha, seus lábios... o toque frio de seus dedos pareciam envolvê-los como num novo beijo, e, Deus, não poderiam pedir mais. Já estava tudo tão perfeito...
                Ela pediu um sinal, não? Algo que pudesse se lembrar para sempre?
                O Fantasma passou sua mão por cima da chama de uma das velas, momentaneamente fazendo-a diminuir, até quase apagar... assim que afastou-se um tantinho, a vela implodiu, fazendo a chama voltar a seu tamanho normal, porém soltando algumas faíscas no caminho.
                Tal manifestação fez Bianca abrir seus olhos, bem a tempo de ver uma faíscazinha rolando, como se estivesse viva, a caminho de seus joelhos. Assim que a tocou, a faísca se apagou contra sua pele. Porém, não fora em vão: seu corpo instantaneamente inundou-se com calor, apesar do frio que fazia. Estava prestes a pegar uma pneumonia, e agora voltava, com um brilho avermelhado vindo de dentro de seu corpo e iluminando-a por todos os lados, à temperatura normal de trinta e seis graus Celsius; trinta e sete, trinta e oito... Logo a sala parecia queimar - estava muito mais quente do que o normal, muito mais viva do que deveria realmente se sentir...
                Seu cabelo, outrora louro-sujo, agora fazendo jus ao simples “sujo”, iluminou-se também: perdera o tom opaco e adquira o brilho e a bela formação de cachos que tinha na juventude; seu rosto, que aparentava quarenta anos apesar de sequer passar dos trinta, agora parecia muito mais jovem: tinha novamente dezessete anos. E suas roupas, surradas e sujas, agora reluziam, e incrivelmente, sua camisola parecia um lindo vestido... após uma analise um tanto mais profunda, Bianca percebeu que era um vestido, há tempos atrás... mas seu desleixo fora tão grande que o esquecera. O maltratara. Um belo vestido que se tornou um grande nada.
                Sorrindo, o Fantasma passou seus gélidos dedos pelo queixo da amada, levantando seu rosto. Agora tinha certeza de que ela poderia vê-lo. Mais regras sendo quebradas... mais sentimentos eu-não-me-importo. Podia puxá-la pra um beijo... um toque gélido, um último toque, e então iria de bom grado para qualquer castigo...
                Mas não.
                Ele se afastou, com o olhar de Bianca em seus olhos. Ela entendia; de algum modo, ela entendia, e não chorava, mas aceitava. Assentindo, ela deixou seus dedos se desprenderem, soltarem-se uns dos outros... as lágrimas que, enfim, corriam por seus olhos não eram de dor, muito menos de saudade: eram de aceitação. Tinha um sorriso no rosto o tempo todo.
                Estava enfim viva, com ou sem ele. Queria muito tê-lo, queria muito tocá-lo... mas se sentia feliz apenas de vê-lo bem.
                O homem apareceu ao fundo da Igreja do nada, e, assim que perceberam nele, simplesmente assentiu, com o rosto inexpressivo. E o Fantasma acompanhou-o, inundando o lugar de luz e deixando Bianca sozinha.
                Você aí pode pensar que Bianca voltou àquela depressão melancólica, à semivida de sempre, mas não. Também não pode-se dizer que superou tudo aquilo de uma hora para outra: a cama ainda parecia ser sua melhor amiga. Mas, um dia, a vontade de levantar predomina, e assim se fez: arrumou um emprego, um estagio na verdade, e de pouco em pouco foi subindo... não soube bem como, pois não havia feito faculdade, nem terminado direito o terceiro ano. Mas conseguiu viver bem, e envelhecer bem; já não contava com a morte chegando tão cedo, pois a vida lhe era muito feliz, e sabia que logo, logo, reencontraria aquele que amava, que ama e que sempre amaria.
                E viveu décadas e décadas sem saber quem lhe protegia. O nome do Fantasma era Bernardo, e foi por sua causa que Bianca fora tão vitoriosa; afinal, Bernardo era seu anjo da guarda.
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