E então galero, aqui está o capítulo 51 de SILENCIAR. Como prometido, nos próximos dias serão postados um conto diariamente, com exceção de segunda que tem Profanis. Quem ainda não viu o primeiro conto, é só clicar aqui. Anyway, fiquem aí com o 51 ;)


51

Ode À Minha Família

Ode To My Family - The Cranberries

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NOME DA PACIENTE: Nathalia Carolina Rodrigues
DATA DE NASCIMENTO: 02/11/1994
PARENTESCO: Mãe falecida e pai ausente
DATA DE CONSULTA: 08/11/2010, 16h
CASO: -
OBS.: Primeira consulta. Pagamento pelo INSS.

Dr. Angélica Costa


(Apito. A câmera liga, a primeira imagem aparece. A sala focaliza. Iluminação baixa, a fim de não contrariar o humor da paciente. Sem música. No exterior, o céu está cinzento, porém a chuva dá sinais de que irá começar apenas algumas horas depois chuva começa às 16h34, sendo que as trovoadas começam às 16h17. O relógio da câmera marca 16h02m43s de inicio. A consulta deverá terminar exatamente às 17h03.)
(Barulho. Focaliza-se um braço. A câmera está no lugar correto)
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: pelo rosto da paciente, é possível ver que preferia não estar aqui. Não mantém contato visual. Quando o zoom é acionado, é perceptível que sua expressão mantém-se séria. As maçãs do rosto estão tensas. Os olhos entreabertos indicam que está perdida em pensamentos. 16h03, quando esbarro no lápis. O barulho dele caindo parece trazê-la de volta ao mundo real, mas por pouco tempo. Logo a paciente está novamente olhando para o nada.
(Ela suspira incontáveis vezes. 16h08: primeiro contato visual. A doutora lança-lhe um sorriso, e ela o devolve, parecendo encabulada, antes de voltar-se para a janela do outro lado da sala. Primeiramente, não parece muito com o que foi descrito. Está distante. 16h10: remexe-se desconfortável pela quinta vez contada. 16h18: passa-se o primeiro trovão, ela suspira e volta-se para a doutora Angélica, sem saber que está olhando diretamente para a câmera às costas da médica)
NATHALIA: (suspira, tira um mecha da testa, e sorri tristemente mais uma vez) Bem, acho que uma hora alguém vai ter de falar alguma coisa, não é?
(sua voz soa arrastada e triste)
ANGÉLICA: Pode ficar em silêncio, se quiser. (pausa, Nathalia não desvia o olhar) Muitos pacientes passam suas consultas em silêncio.
NATHALIA: Ah (interrompe o olhar, engole em seco, e então volta a encarar a câmera) Não... acho que faça sentido esbanjar dinheiro assim.
ANGÉLICA: Oh, quanto a isso, não se preocupe. O governo está pagando.
NATHALIA: Se importa... em me dizer quanto esta consulta está custando?
ANGÉLICA: Cem, por hora.
NATHALIA: Ah.
(pausa)
NATHALIA: Eu... não sei bem o que devo fazer aqui.
ANGÉLICA: A maioria começaria contando seu problema.
NATHALIA: (bufa) Aposto que está careca de saber sobre meu problema (dá ênfase na última palavra. Poderia ser deboche, talvez, mas parece simplesmente amargo e triste demais.)
ANGÉLICA: Falar sobre isso ajuda.
(A paciente parece se conformar. Muito provavelmente, está passando por sua cabeça que esta é mais uma tática de psicólogo.)
NATHALIA: Eu... completei dezesseis anos na última terça.
ANGÉLICA: Meus parabéns.
NATHALIA: (ignora) Eu havia... (pigarreia, e parece avaliar se seria uma boa ideia prosseguir) ... dormido com meu namorado. Nós fazemos isso, de vez em quando, na minha casa. Eu sempre achei que... minha mãe.. Nunca havia percebido, mas ela me mostrou que sim, naquela manhã.
ANGÉLICA: (quebra a pausa) E então, o que aconteceu?
NATHALIA: Ela estava preparando um bolo de aniversário para mim. (longa pausa) Uma festa. (suspira) Eu sempre odiei festas, pelo menos as minhas. Eu detesto ser o centro das atenções.
ANGÉLICA: É por isso que preferia não estar aqui agora? (soa mais fria que o necessário)
NATHALIA: (com frieza, também) Entre outros motivos.
(Passa-se pouco mais de meio segundo enquanto anotações são feitas.)
ANGÉLICA: Prossiga, por favor.
NATHALIA: (suspira) Eu ganhei um presente dela, também, naquela manhã. Eu estava relutante e tudo, de novo, por que odeio ser o centro das atenções. Mas... (pausa, sorri pela primeira vez, e ainda assim é um sorriso amarelo, de lembranças) foi um carro. Eu sempre quis ter um carro, e ela sabia disso. Aposto que gastou todas as finanças do ano. (mantém o sorriso, e pisca repetidas vezes; parece a ponto de chorar) E eu fiquei tão feliz...
ANGÉLICA: (segue-se uma pausa, até que tenha certeza que a paciente acabara de falar) E qual era o modelo desse carro?
NATHALIA: Um Celta. Bem modesto, mas... era perfeito. (torna a remexer-se desconfortável, porém dessa vez acaba por afundar no sofá)
ANGÉLICA: Eu lembro do meu primeiro carro... Era um Celta, também. Só pude comprá-lo quando saí da faculdade e iniciei meu mestrado, acho que eu tinha vinte e dois anos...
NATHALIA: Quantos a senhora tem agora?
ANGÉLICA: Trinta. (pausa) Mas continue, por favor, diga-me o que aconteceu depois.
NATHALIA: (parece que irá irromper em lágrimas)
ANGÉLICA: (a doutora lembra que, nesse momento, perguntou-se se deveria ou não chamá-la pelo nome) Nathalia, querida...
NATHALIA: Ela morreu. (ela chora) Ela foi esfaqueada, e faleceu no dia seguinte.
ANGÉLICA: Eu sinto muito.
NATHALIA: (ignora) Eu estava lá. Eu... eu vi ela morrer, bem diante de mim (sua voz embarga-se à medida que progride)
ANGÉLICA: ...
(As duas passam um momento em silêncio, e voltam a conversar apenas quando o relógio marca 16h29.)
ANGÉLICA: Nathalia, querida, estamos aqui para lhe ajudar...
NATHALIA: (grita) Eu não quero ajuda!
ANGÉLICA: Querida...
NATHALIA: Não! (levanta-se inquieta) Eu não quero nada disso! Eu não preciso de ajuda! Eu quero MINHA MÃE de volta!
ANGÉLICA: Nathalia, eu te entendo, mas por favor, precisa se acal...
NATHALIA: NÃO, você NÃO entende! E não ouse me mandar me acalmar! Eu estou bem! Eu estou perfeitamente bem!
(Está chorando, enquanto grita. A doutora mantém-se em silêncio).
NATHALIA: Eu não podia estar melhor! Eu estou ótima, na verdade, acho que minha mãe podia ter morrido bem antes, aquela múmia só me trazia problemas mesmo! Estou no melhor dia da minha vida! Acho que nunca mais serei infeliz!
ANGÉLICA: ...
NATHALIA: É sério! Não podia ser mais sério! Estou bem!
(Terminando, irrompe em choro novamente, tremendo. Dessa vez, seu rosto se distorce, e é impossível dizer quando novas lágrimas chegam. Ela leva a mão à boca.)
NATHALIA: Não... não... não está... tudo bem.
(Chora mais, contorcendo-se.)
ANGÉLICA: (pensa que é a hora certa de falar.) Nathalia...
(Não é.)
NATHALIA: Não está tudo bem! (misturando raiva e tristeza, golpeia o abajur na mesa a seu lado. O objeto voa até o outro lado da sala e se espatifa contra a parede ruidosamente)
NATHALIA: Ah... ah, meu Deus... me d-desculpe... ah caramba...
(Senta-se novamente, escondendo o rosto entre as mãos, possivelmente chorando)
ANGÉLICA: (longa pausa, até o relógio marcar 16h35 e uma pesada chuva começar a cair) Isso te fez se sentir melhor?
NATHALIA: O-o que?
ANGÉLICA:  O abajur. Te fez se sentir melhor?
NATHALIA: (faz uma pausa, fitando-a com os olhos encharcados, sem maquiagem) N-não.
ANGÉLICA: Você pensou que pudesse te ajudar?
NATHALIA: N-não, me desculpe, eu não sei por que fiz aquilo...
(A doutora anota em seu caderno, um ato que parece irritar a paciente.)
ANGÉLICA: Eu acho que ambas sabemos como você se sentiu... mas importa-se de tentar descrever, você mesma?
NATHALIA: (olhou novamente para o nada, por um bom tempo) Quebrada. (pausa) Destruída (longa pausa). Como se estivesse queimando.
(Mais anotações.)
ANGÉLICA: Eu acho que ambas sabemos o que está acontecendo aqui.
NATHALIA: ...
ANGÉLICA: Você não está lidando bem com o fato de que sua mãe... faleceu. Ela, de fato, teve de passar por um processo muito violento que você acompanhou... Não estou dizendo que é fácil. Eu nunca perdi alguém, pelo menos não que eu possa me lembrar. Mas eu posso imaginar como deve ser a dor. Imaginar, não entender. E, como eu disse, não vai ser fácil superar. Agora, mais do que nunca, você precisa de que ama a seu lado...
(Pausa. Nathalia parece sentir-se constrangida)
NATHALIA: Se é pra isso que eu vim aqui, então acho melhor guardarem qualquer dinheiro que estejam usando aqui.
(O lápis cai novamente. É o que acontece quando a doutora está constrangida)
ANGÉLICA: (pigarreia, e introduz novo assunto) Nathalia... você acredita em Deus?
NATHALIA: (ri, amarga) Você deve estar brincando.
ANGÉLICA: Apenas responda, sim ou não?
NATHALIA: (faz uma pausa. Claramente não percebe que faltam apenas dez minutos para o fim da consulta) Acredito.
ANGÉLICA: Você tem algum problema com isso?
NATHALIA: Vários.
(silêncio)
ANGÉLICA: Esta é a parte em que você começa a ditá-los (sua voz era sarcástica, mas não amarga. Parecia inocente)
NATHALIA: ... Eu acredito em alguém que nos odeia.
ANGÉLICA: E por que você acha isso?
NATHALIA: Por que eu orei. Eu orei para Ele menos de dez minutos antes de minha mãe morrer. Eu orei, falei tudo o que precisava falar... e ainda assim, Ele não fez nada. Nem sei se Ele sequer me escutou.
ANGÉLICA: Você não acha que... às vezes, é além de nossa compreensão, os atos do Senhor?
NATHALIA: A senhora acredita em Deus?
ANGÉLICA: Acredito.
NATHALIA: Alguma coisa de boa já lhe aconteceu por isso? Já recebeu uma recompensa por ser fiel?
ANGÉLICA: Não (suspirou) Mas não deixo de crer por que, às vezes, quando já não há mais nada a fazer, ou mais no que acreditar... resta apenas aquela luz, vinda do nada. Quando não há mais no que acreditar, acreditamos no mais improvável possível... Acreditamos no que milhões dizem que não passa de um mito... E ainda isso, nos faz bem.
NATHALIA: Diga por você.
(Seguiu-se mais uma pausa, e, quando voltaram a falar, Nathalia tinha a voz embargada.)
NATHALIA: Sempre estão... nos dizendo, como vamos para um lugar melhor. Como vamos para a luz, para... o bem, ou sei lá. Mas... se é realmente assim, por que dói tanto para quem fica aqui?
(Chora.)
            NATHALIA: Você mesma me disse que devemos acreditar. Acreditar no que? Que tudo isso é para o melhor? Que Deus sabe o que está fazendo? (pausa, permanece um bom tempo sem falar, encarando a câmera) Vivem me dizendo que eu... (para por um momento, parece tentar recuperar-se) ... que eu não entendo as ações de Deus. Pois eu acho que é Ele que não nos entende, senão nunca causaria... essa dor, essa tormenta...
            (Parece não conseguir mais falar.)
            ANGÉLICA: E como você se sente, percebendo tudo isso que acabou de dizer...?
            NATHALIA: (silêncio; passam-se três minutos apenas em choro, sem jamais haver outro barulho senão a chuva ou seus soluços) Vazia. (pausa; chora) Como... se eu mesma tivesse morrido. Eu simplesmente não tenho nenhuma última esperança. (encara a doutora/câmera, fungando, aparentemente ainda chorando) Nenhuma.
            ANGÉLICA: (anota; seu relógio apita) Nathalia, hoje seu progresso foi muito bom mesmo, até para uma primeira consulta. Eu sei que agora deve ser um momento difícil, mas você deve ter amigos... e um namorado, pelo que me disse mais cedo, e aposto que eles te darão todo suporte que precisa... Bem, nossa consulta acabou. Obrigada por vir, e acho que precisaremos nos ver pelo menos uma vez por semana.

CONCLUSÃO: A paciente tem noção de que está deprimida, porém deve ter noção também de que não é uma depressão normal. As coisas que ela diz são maduras demais para sua idade, o que significa que ou os acontecimentos recentes causaram um crescimento mental mais agilizado, ou ela mesma já mantinha a guarda alta para casos como este. Caso a segunda opção se comprove, será necessário voltar à um trauma anterior. Além disso, Nathalia claramente não sabe como agir com esta situação; Acho que deve ser de meu dever orientá-la nesse momento.
Agora, do ponto de vista emocional... eu realmente não sei o que fazer. Essa garota parece tão perdida, e tão trancada pra si mesma... Sei que não deve-se envolver emocionalmente com o/a paciente, e que é algo horrível de se dizer, mas... eu realmente sinto pena dela.

Angélica Cristina da Costa
Psicóloga

OBS: Devido às circunstâncias, acho que não deve-se excluir a possibilidade de suicido. 
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