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Um Mito Moderno

A Modern Myth - 30 Seconds To Mars

            Já estava acordada há horas. Lágrimas secas, expressão vazia. Há tempos encarava a janela, aberta à paisagem cinzenta, chuvosa. O frio que lhe chicoteava a pele não tão incomodo - quase que gostava. Quase lhe causava calor, tanta a tristeza que sentia. Tanta frieza que se abatia sobre si.
            Não estava pronta ainda. Devia vestir um vestido e um casaco pretos. Mas ela mesma já sentia luto o bastante. Não era necessário demonstrar. Não era necessário sentir-se pesada naquelas roupas que odiava, se sentir ainda pior, ainda mais sufocada.
            Ainda assim.
            Não levantara da cama desde que fora carregada por Yago até ali. Ele a encontrara no banheiro, encolhida num canto. Chorando. Tremendo. Ela não respondia a nada. Nem à seus gritos, nem à suas suplicas. Ela estava simplesmente paralisada; fria. Sua mente parecia trancada em algum lugar muito distante. Então ele a pegou nos braços, imóvel e dormindo acordada, e a levou para casa, dirigindo o Celta que ganhara no dia anterior. Deitou-a na cama, e logo deitou ao lado dela. Nathalia logo recomeçou a chorar, e a pestanejar sobre sua presença, e ele então saiu. Dormiu na sala, até aproximadamente oito da noite, antes de subir e sussurrar pesadamente em seu ouvido:
            - Eu... vou cuidar de tudo.
            E então saiu.
            De manhã, ele deixara um recado, dizendo que enterrariam o corpo mais tarde, às quatro horas.
            E agora eram duas horas.
            E Nathalia não sabia se aguentaria o velório. Todas as palavras bonitas do padre, louvando a um Deus que odiava. Todas aquelas pessoas que provavelmente não conhecia, os amigos de trabalho de sua mãe. Os mesmos amigos que a deixaram morrer.
            Não sabia se aguentaria ver o rosto pálido e sereno de sua mãe mais uma vez, deitada naquele caixão.
            Mas ela se levantou. Por reflexo, se levantou. Seu corpo a guiou até o armário, pois a mente ainda chorava. Tirou o vestido preto - seu único vestido preto - e deixou-o cair no chão. Violentamente, arrancou dois sapatos de salto, também pretos, e deixou-os jogados no quarto.
            Deixou ali a bagunça, e foi pro banho.
            E enquanto a água descia por seus ombros, quente, chorou novamente. Chorou com as mãos em concha, envolvendo o rosto, e retorceu-se numa posição fetal. Soluçava, como nunca fizera antes.
            Quando saiu do banho, com o cabelo ainda pingando de tão molhado, pôs-se a recolher as roupas que espalhara.
            E nem notou na Outra Nathalia, não de primeira.
            - O que você quer? - perguntou rispidamente, com frieza.
            - O mesmo que você - A Outra respondeu, num tom doce e triste que nunca ouvira antes.
            - Eu quero você fora daqui - retrucou então.
            E só então percebeu que ela chorava. Verdadeiramente chorava.
            - Eu também tenho um coração, sabia? - respondeu a Outra - E é o mesmo que o seu. O que você sente, eu sinto, e isso é uma merda.
            - Então suma daqui! - gritou ela, e começou a chorar também.
            - Não posso! - gritou de volta a Outra - Eu quero, mas não posso! Eu não quero sentir isso! Isso não sou eu! Eu não deveria sentir nada, por que eu não sou essa parte sua!
            Nathalia caiu de joelhos, com a toalha presa acima do seio, tapando sua nudez. Novamente, envolveu o rosto numa concha, e seus soluços foram abafados, tamanha força da pressão que fazia contra a boca.
            - Por que você não simplesmente some? - ela disse, com tantas lágrimas descendo pelo rosto que suas bochechas brilhavam.
            - Eu nem sei por que estou aqui - respondeu - Quanto mais me livrar de tudo isso.
            - Você não quer sentir - Nathalia admirou-se, chorosa - Você não é obrigada a sentir. Não está presa a mim, por que se estivesse, não existiria a muito tempo. Então por que? Por que você simplesmente existe?
            - Eu não sei - a Outra deu de ombros, ainda entre lágrimas - Deus nos odeia. Ele deve nos odiar ainda mais.
            - Você - Nathalia apontou - Para onde você vai quando não está aqui?
            - Eu... não sei. É tudo muito escuro, eu só lembro daqui. - Ela caiu de joelhos na cama, e num piscar de olhos estava ajoelhada ao lado de Nathalia, com as mãos em seus ombros. Nathalia nunca fora tocada por ela. Suas mãos não tinham peso, nem sensação. Para todas as dúvidas, ela não existia. Era fruto de sua cabeça, e apenas Nathalia podia vê-la.
            - Eu também não quero estar aqui... Nathalia. Mas eu pertenço aqui, enquanto você pertencer também.
            - Por que eu não simplesmente morro? - Nathalia perguntou-se em voz alta.
            - Por que você não está destinada a morrer - a Outra teve de levantar o rosto de Nathalia para encará-la na altura dos olhos, e segurou-o com as duas mãos.
            E assim que Nathalia fechou os olhos, a Outra, que chorara pela primeira vez, desapareceu.
           
***

            Ela sentou-se, inexpressiva, numa das cadeiras na primeira fila da capela da casa funerária. Yago vestia um terno, e estava a seu lado, envolvendo seus ombros com um dos braços, e puxando-a para um meio abraço.
            A casa estava cheia; os amigos de trabalho, os vizinhos, os pais de outros alunos... mas não seu pai. Graças a Deus seu pai não viera.
            Ele nem devia saber, muito menos se importar.
            Ela ouviu em silêncio enquanto o padre rezava. Olhou para o próprio colo enquanto todos oravam. Quando foi instruído que todos levantassem, ela levantou também, ainda olhando para baixo. Ela chorou em silêncio, sem olhar uma única vez para o caixão fechado.
            Quando todos fizeram fila para benzer-se e tocar o caixão, ela foi a primeira. Com a mão direita, pousou-a levemente sobre a madeira polida, e irrompeu em prantos. Mas ninguém consolou-a. Ninguém tentou fazer um discurso sobre como as coisas melhorariam, pois sabiam que seria uma mentira.
            Passou ali parada, chorando, por longos segundos, até que afastou-se, caminhando, até a última fileira, a cadeira mais afastada. Seus passos pesados, o baque do salto contra o chão era a única coisa que se ouvia, mais a marcha fúnebre tocada no que parecia ser um piano muito velho. Caminhou de cabeça erguida, balançando os braços, como normalmente faria. Como se estivesse desfilando. Mas as lágrimas em seu rosto denunciavam que não estava tudo bem. Uma vez ou outra, levantou a mão direita e limpou o rosto, nos curtos quinze segundos que demorou para chegar à seu destino. Lá, sentou-se, e com os cotovelos apoiados nos joelhos, chorou ainda mais. Com o rosto coberto, chorou, mais do que todos ali choravam.
            E o discurso, o discurso que ela deveria fazer, não conseguiu, pois ainda chorava. Yago teve de lê-lo, enquanto ela fazia o possível para controlar-se a seu lado.
            E falhava, pois seus espasmos de choro não eram pequenos. Sua dor, muito menos. As lágrimas que corriam por seu rosto, distorcido de falta de controle, eram bem visíveis. Mas ninguém a encarava. Por pena? Todos ali sentiam pena dela. Era órfã agora. De mãe, mas com o pai que tinha, podia-se considerar órfã no total.
            E ainda no final, ela ainda chorava.

***

            O padre e algumas fies cantarolavam enquanto caminhavam pelo cemitério, e quatro homens carregavam o caixão. Uma procissão, liderada por Nathalia, caminhava atrás deles. Lentamente, seguiam o caminho construído, além da grama aparada, até o buraco onde sua mãe seria enterrada. Eram exatamente 16h07, e o frio congelava o sangue de Nathalia.
            Quando chegaram até a cova, demoraram uns bons vinte minutos para encaixar o caixão em todo o mecanismo que o faria descer.
            E então, o fizeram.
            Com grande barulho, o fizeram descer, ao som do canto daquelas moças desconhecidas, que provavelmente já haviam perdido a emoção de enterrar os mortos.
            E qualquer emoção que qualquer um sentisse, não bastaria para igualar-se ao frenesi que Nathalia sentia. Ela mal aguentava - estava a ponto de ter um ataque, a ponto de desacordar-se - aquela visão. A última visão de que teria de sua mãe, e nem era uma visão de verdade. Era apenas um triste, melancólico... nada.
            Quando ouviram o baque surdo do caixão ao atingir a terra, fizeram um sinal para que Nathalia se aproximasse. Ela, com duas rosas brancas nas mãos, levantou-se, e jogou-as na cova. Ambas as flores atingiram o novo fundo da cova, isto é, o caixão, com um barulho fraquinho que logo morreu. E então pararam, imóveis acima da madeira.
            Um por um, os convidados jogaram rosas brancas, até que o caixão mal era visível.
            Assim que terminaram as homenagens, os homens voltaram a trabalhar, jogando a terra revirada na cova.
            Nathalia não se mexeu, assistindo o processo.
            Todos foram embora, menos Nathalia, que novamente chorava, e Yago, que continuava a abraçá-la, tentando confortá-la.
            Mas ela chorava sem expressão.
            Apenas lágrimas, e nada mais.

***

            Assim que Yago a deixou em casa, ela o expulsara.
            - Me deixe em paz - dissera, e trancara a porta, mas sabia que ela arranjou um jeito de ficar ali perto. Provavelmente dormia no Celta, já que Nathalia esquecera a chave com ele.
            Não se importou, contanto que ficasse sozinha por um bom tempo.
            Ela subiu, e sentou em sua cama. Não tirou suas roupas, apenas os sapatos, que deixou espalhados no quarto. Em sua cama, levou a mão ao seio esquerdo. Doía ali, do lado esquerdo do peito. Deitou, ainda com seu vestido, e chorou novamente.
            Não percebeu que havia adormecido até acordar, duas horas depois. Sua maquiagem havia manchado o travesseiro, os lençóis... Ficaria assim. Não os trocaria por um bom tempo.
            Com a garganta seca e a cabeça doendo, levantou-se em vertigem. Piscou diversas vezes, não conseguindo focalizar direto. Correu para fora de seu quarto, tão rápido quanto aquele vestido a permitia, e desceu as escadas, postando-se no meio da sala.
            Para quê?
            Para quê tudo isso?
            Sua barriga pareceu doer instantaneamente, e ela se curvou novamente. Seu corpo formava uma bola, e estava presa ao chão apenas pela ponta dos pés. Por pouco não caía. Com o rosto estampando apenas dor, abraçou seus joelhos, e ficou ali, balançando-se para frente e para trás, por pouco não caindo, numa cruel posição fetal. O vestido lhe sufocava. Tudo lhe sufocava. Chorava silenciosamente, deixando as lágrimas apenas rolarem.
            Caiu então. Aquele pequeno impacto lhe causou mais dor do que nunca. Dor que desejou que lhe matasse, mas não matou. Foi apenas uma tortura silenciosa que sua própria mente lhe infligia.
            Com as palmas das mãos, mais precisamente a parte mais próxima dos pulsos, limpou as bochechas, até os olhos. Devia parecer um pierrô, o palhaço triste. A maquiagem borrada fazia o contorno de seus olhos pinicarem de leve, e ela nem se importava.
            Como um zumbi, levantou-se, fungando e limpando o rosto, e dirigiu-se à cozinha. Quando voltou, carregava, inexpressiva, uma bandeja, e com ela subiu os degraus.
            Na bandeja, havia pãezinhos, manteiga, suco, biscoitos e o favorito de sua mãe: doce de leite. Ela adorava comer torrada com doce de leite, e quando não havia torrada, comia com os biscoitos. Ao lado dos pratos, cheios de comida, havia uma rosa branca. E em ambos os extremos da bandeja, havia um candelabro, cada qual com uma longa vela branca, novíssima, acesa.
            Ela chegou ao quarto da mãe, e pousou a bandeja sobre os lençóis perfeitamente arrumados, intocados desde o dia em que ela se fora. Era isso que ela fazia, em todo dia das mães, ou em todo aniversário. E no seu aniversário, sua mãe também fazia isso. Com exceção desse ano, pois estava com Yago.
            Como ela iria sobreviver sem aquilo?
            Como ela poderia sorrir nos próximos anos, sabendo que sua mãe nunca mais lhe faria aquilo, e que nunca mais faria aquilo por ela?
            Com tristeza, ela virou a bandeja, espalhando a comida por toda a cama.
            As velas acesas, porém, apagaram assim que tocaram no colchão.
            O fogo não a encurralaria.
            Não a mataria.
            Não a levaria para sua mãe.
            E ela perguntou-se: por quê? Por que ainda estava viva? Por que, só daquela vez, só daquela única vez que queria realmente morrer...
            Então, ela lembrou-se do que a Outra dissera. “Você não está destinada a morrer”.
            Chorosa, Nathalia achou que aquele dia nunca teria fim.
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