Oi galero ;) Não sei se vocês viram, mas adicionamos uma barrinha de jogos no menu principal ali do lado xD Por enquanto, temos só aquela guitarra do google, mas logo o Marcos vai postar novos. Bem, curtam o capítulo ;)


49

Ficção

Fiction - Avenged Sevenfold

            Seu aniversário já havia passado. E Nathalia passara todo o dia encarando aquela cama, sentada numa cadeira de plástico branca, arranjada às pressas, de tanto que bateu pé. Não era lá muito confortável, nada comparado à sua própria cama, mas bastava. Não era conforto o que procurava. Na verdade, não procurava nada. Queria apenas observar sua mãe, e estar ao lado dela quando acordasse.
            O cardiograma estava normalizado. Não precisara de um pulmão artificial. Estava tudo bem até ali. Ou quase. Não podia-se exatamente considerar que sua mãe ter sido esfaqueada uma coisa boa.
            O médico lhe disse que foram quatro facadas. Uma precisa, três trêmulas e irregulares, como se quem as tinha feito se arrependesse profundamente, todas na barriga. Sua mãe fora pega de surpresa. No chão da cozinha, havia bolo espalhado, cacos de vidro do que antes fora um prato e diversos talheres jogados no chão. Faltava a prataria da família. Mas nada disso importava.
            Nada.
            Ainda não se sabia quem fizera a ligação ao hospital, que havia salvado sua vida. Mas teorizava-se que fora o próprio estripador, com a consciência pesada, tentando consertar seu erro.
            Tentando. Mas não conseguindo. Pois Nathalia iria até os confins do mundo para dar-lhe o troco. Nem que fosse na mesma moeda, ela pensou sombriamente, e logo chegou à conclusão que é mais provável que, em vez de conseguir vingança, ela fraquejasse diante do criminoso.
            - Oi - Yago disse, chegando por suas costas.
            - Oi - Nathalia respondeu, desviando o olhar rapidamente para olhá-lo, e depois voltando-se para sua mãe.
            Não importaram-se em trocar um beijo, pois nenhum dos dois estava no humor para caricias.
            - E então? Como está Ághata? - perguntou Nathalia, em voz baixa.
            - O mesmo - respondeu Yago, no mesmo tom - Respirando, mas por pouco, e viva por menos ainda.
            - Sinto muito - Nathalia disse, pela enésima vez se referindo à tia de Yago.
            - Não sinta - ele disse - Ela provavelmente só ta esperando pra poder finalmente transformar o inferno no paraíso dela.
            Nathalia sorriu, sem forçar, e esse mesmo sorriso amarelou e desapareceu quase que no mesmo instante. Esse era o tamanho de sua disposição para ser feliz.
            Ela escorregou na cadeira, abraçando a si mesma enquanto Yago se sentava na poltrona do outro lado da sala. Ele mesmo não entendia por que Nathalia insistia em sentar numa cadeira de plástico. Mas ela dizia que a poltrona não era próxima o suficiente. E Yago sabia o que era querer ficar mais próximo do moribundo que amava.
            - E ela? - perguntou ele.
            Nathalia suspirou, e sua voz se enfraqueceu.
            - Igual - respondeu - Pressão normal, respiração boa... tudo o que o Mauro disse quando chegamos.
            - Isso é ruim?
            Nathalia sentiu novamente as lágrimas se acumularem em seus olhos.
            - Não sei - respondeu ela - E ficar sem saber está me matando.
            Seguiu-se silêncio, antes de Yago responder:
            - Quando o meu pai morreu - ele disse, com a voz baixa, para não deixar-se embargar - Fui eu quem tive que desligar os aparelhos.
            - Você me contou.
            - Sim - Yago continuou - Eu desliguei, por que alguém precisa fazê-lo, e por que ninguém queria fazer. Os médicos disseram que... já não havia esperança nenhuma. Que o acidente de carro havia quebrado seu pescoço, e que era um milagre que ele continuasse respirando, mas que daquele momento em diante, ele estaria no mínimo tetraplégico. E que, as lacerações do metal haviam causado várias hemorragias, e que restava pouquíssimo sangue em seu corpo. Os órgãos já estavam morrendo, e os músculos já estavam a ponto de sofrer necrose.
            Ele pigarreou, antes de continuar:
            - Foi isso o que eu me lembro de terem me dito - disse - E eu não esqueço essas palavras de jeito nenhum. Até hoje... não consigo entender direito como em um segundo pode acontecer tanto mal... mas... depois que eu te contei, depois de tudo que você me disse, eu acho que consegui entender que o que eu fiz foi pra melhor. Ele não merecia envelhecer como um vegetal. Ele merecia morrer, e não suspender-se numa quase vida.
            Novamente, fê-se silêncio. Nathalia se ajeitou, desconfortável, em seu cadeira, enquanto Yago a encarava com os olhos puros e inocentes, e um sorriso triste no rosto, que logo desapareceu. Ele apoiava seus cotovelos nos joelhos, curvado para frente.
            - Era pra eu me sentir melhor? - disse Nathalia, numa voz doce e triste, sem rispidez, porém também sem vontade de parecer educada.
            - Não - Yago sorriu tristemente, e anunciou, doce - Mas outra coisa que eu não consigo esquecer é o estado do corpo de meu pai.
            Ele respirou fundo, antes de continuar, com a voz embargada.
            - Era horrível, Nathalia - ele disse, com os olhos fixos no próprio pé - Eu não consigo deixar de imaginar aqueles ferimentos maiores do que realmente eram. Não consigo deixar de... tentar entender quanta dor ele realmente sentiu, e eu não consigo. Eu nunca vou conseguir.
            Ele limpou uma lágrima que descia de seu rosto.
            - E é exatamente por isso que eu sei que sua mãe vai ficar bem. Por que ela está milhares de vezes melhor do que meu pai, e está até respirando. Uma hora, ela vai acordar e vai te abraçar, vai te beijar, e aí vai dormir de novo, e acordar de novo, e de novo, e de novo...
            Nathalia sorriu, tristemente, com lágrimas nos olhos. Mas não de tristeza, e obviamente muito menos de alegria. Era de um sentimento indeterminado, que poderia apenas chamar de graça. Pois para sempre agradeceria Yago por esse momento.
            - Obrigada - ela disse, com a voz leve, firme, doce e triste ao mesmo tempo.
            Ela mesma limpou as lágrimas de ambos seus olhos, com ambas as mãos, e observou sua mãe por um tempo, antes de pedir:
            - Eu posso ficar sozinha... com ela, por um momento?
            - Claro - Yago respondeu prontamente, e saiu do quarto, não sem antes fechar a janela que dava para o corredor, onde qualquer um podia ver o que acontecia lá dentro.
            - Obrigada - ela disse, tanto para o assentimento de Yago quanto pela janela.
            Ela levantou-se de sua cadeira, e afastou-a. Ajoelhou-se ao lado da mãe, bem ao lado de sua cabeça. Observando-a de perto, podia ver que estava fria e calma. Sua boca estava fechada, mas apenas por que fecharam por ela. Sua mãe não podia fazer nada por si mesma.
            - Oi, mãe - Nathalia começou, com a voz calma - Eu... não sei se você está ouvindo, mas eu realmente espero que sim. Eu só queria pedir que, onde quer que esteja, volte logo. Eu ouço toda hora que você vai ficar bem, mas eu preciso ouvir da sua boca. Você sempre tem razão, sabe. Eu acho que eu ficaria mais tranquila se ouvisse de você.
            “Eu... ainda não tive aquela festa de aniversário que você tava preparando, sabe. Eu acho que meio que quebrou o clima - Ela olhou para a janela, observando o clima cinzento, e fungando enquanto forçava uma risada para si mesma. Porém, nem ela acreditou, então somente continuou:
            - Eu... sei que acho esse negócio de festa um saco, mas... eu adoraria ter uma. Eu quero aquele bolo, os balões rosas, um vestido novo... tudo, tudo o que você tinha planejado. Quem sabe um palhaço? - Ela sorriu novamente, mas o sorriso foi desfeito tão rápido quanto. Sentiu as lágrimas voltando a seu rosto - Mas eu preciso que você faça. É só com você que tudo vai ficar perfeito. É só você que vai saber transformar aquela palhaçada toda em algo... perfeito, ué! Se não tiver você... eu acho que não tem festa. Eu não quero fazer chantagem emocional nem nada, mas... simplesmente não tem. Eu quero uma festa sua. Só sua.
            Ela respirou fundo, engoliu em seco, e aproximou-se dois mini passos. Estava agora a no máximo dez centímetros da cabeça imóvel de sua mãe, e voltou a sussurrar.
            - Lembra - Sorriu, com apenas um pingo de tristeza no ato - de quando a senhora me levava pra Igreja de Nossa Senhora, lá em São Paulo, todos os domingos, enquanto meu pai estava de ressaca? E me obrigava a cantar todas as músicas, a rezar todas as orações, até que eu tivesse tudo gravado? Pois é, eu tenho gravado até hoje.
            “Lembra... que a senhora me dizia sempre: ‘sempre que tiver dúvidas... sempre que precisar de algo, que você não consegue por nada... ore, pois o Senhor vai te ajudar’? Eu lembro. E eu orei, mãe. Quando o papai deixou nós duas, sangrando, chorando, eu orei. Eu pedi pra parar de doer. Eu pedi pra ter forças pra levantar, eu pedi pra que você tivesse forças de me ajudar a levantar.
            “E adivinha, eu não tive.
            “Então, me desculpa, eu sei que você realmente gostaria muito que eu orasse por você... mas eu não posso. Eu simplesmente não posso orar para um Deus em que eu não acredito. E eu não quero que você fique ressentida por isso, por que é uma decisão minha em não acreditar Nele. E, se Ele existe, eu odeio Ele.
            “Eu não acredito em Deus, mãe. Mas eu acredito que você não vai se deixar derrotar por tão pouco. Eu acredito que você vai levantar, e que vai caminhar comigo de novo. Que... vai estar comigo nos momentos mais importantes da minha vida... os momentos meus.
            “Eu quero que você esteja lá, mãe. Então por favor, respire. Continue respirando. Não morra, por favor, por mim, não morra.”
            Ao fim de seu discurso, já estava chorando novamente. Seu rosto era pura dor. Seu coração não parava quieto. Ela passou as mãos no rosto, para limpar as lágrimas, porém não foi o suficiente: elas continuavam a vir. Fungou, e tentou respirar novamente.
            Engoliu em seco, e percebeu que não conseguiria falar mais nada. Nem sabia como conseguira falar tudo aquilo.
            Levantou-se com certa dificuldade, tropeçando nos próprios pés, e saiu, porta afora.

***

            Ela desceu as escadas às pressas, com os olhos já limpos, e encontrou Yago no que seria uma praça de alimentação, pouco além da recepção do hospital.
            O lugar era completamente branco, assim como o resto do prédio. Havia cinco mesas de plástico, cada qual com quatro cadeiras, com exceção de uma - Nathalia deduziu que a cadeira que estava faltando fora na qual estivera sentada, no quarto de sua mãe. Pouco antes da parede mais distante, havia um tipo de lanchonete, que mais parecia um self-service da rede Subway do que a cafeteria de um hospital. Atrás das batatas coradas, arroz, feijão, carne (de segunda), bandejas desbotadas, sobremesas sem açúcar e temperos light, havia uma única moça, com o cabelo preso num coque, coberto por um chapéu, para evitar que seus fios caíssem na comida. Ela estava vermelha, e parecia muito atarefada.
            Não demorou muito até que encontrasse Yago, com um copo plástico cheio de café, sentado numa das mesas mais distantes. Olhando duas vezes para o resto da praça, viu que todas as mesas tinham pelo menos dois componentes.
            Sentou-se à mesa de Yago.
            - Ah - Yago exclamou, percebendo sua chegada - Oi.
            - Oi - ela respondeu, fungando.
            - O que foi? Alguma coisa aconteceu?
            - Não, é só que... - Ela fez uma pausa, e meneou negativamente a cabeça, como se não acreditasse no que iria dizer - Eu acabei de falar pra minha mãe que eu não acredito em Deus.
            Yago pousou seu copo de café.
            - Nathalia...
            - Eu sei que ela tá desacordada. Eu sei. Mas... você não acha que ela pode nos ouvir? Em algum lugar da cabeça dela, você não acha que ela tá acompanhando tudo isso ao redor dela?
            Yago suspirou.
            - Eu, eu acho que sim, mas qual é o problema de você não acreditar em Deus? Eu tenho vários amigos ateus. Acho que ela pode aceitar.
            - Não pode - Nathalia retrucou - Não pode mesmo. Deus é a vida dela. Ela ia pra igreja todo domingo, e me arrastava junto. Ela até fazia doações, e defendia todas as causa que lhe impunham... Ela se ajoelhava, e rezava toda noite. E chorava enquanto fazia isso. Perguntava por que tudo isso aconteceu conosco, mas botava fé que era para um bem maior.
            Enquanto Yago encarava-a, ela continuou a negar com a cabeça, com novas lágrimas nos olhos. Estava desabafando sobre esse assunto pela primeira vez. Tudo aquilo que havia carregado no peito estava vindo a tona.
            - E era tão triste - ela continuou - É tão triste saber que, quem quer que esteja lá em cima, olha para nós e nos dá as costas.
            - Olha... - Yago disse então, depois de suspirar e passar alguns momentos em silêncio - Eu acho que, quando ela acordar...
            - Se ela acordar.
            - Quando ela acordar - repetiu Yago, e continuou - Você mesma deve perguntar. Você fala tudo isso que falou pra mim e o que mais tiver na cabeça. Ela é sua mãe. Ela vai aceitar.
            Nathalia suspirou, e se abraçou novamente.
            - Você acha mesmo?
            - Acho - respondeu - É uma escolha sua. Se você tem seus motivos para não acreditar, assim como ela tem os dela para acreditar... eu não acho que ela vá te amar menos por isso.
            Nathalia assentiu, e então levantou.
            - Aonde você vai? - Yago perguntou, levantando-se também, seu casaco preto roçando contra a mesa e quase rasgando.
            - Eu tive uma ideia.
            - Eu vou com...
            - Não - ela retrucou na mesma hora - Eu preciso fazer isso sozinha.
            E voltou a caminhar sem olhar para trás, sabendo que o amado iria respeitar sua vontade.

***

            Ela abriu com dificuldade uma das portas duplas da pequena capela. Na verdade, era uma porta grossa, extremamente pesada, feita de madeira cor de tabaco. Arrastava-se no chão, criando um barulho pesado, e depois de certo esforço, estava completamente aberta, ou pelo menos o suficiente para deixá-la passar. A porta mais parecia digna de um templo do que de uma capela.
            Então percebeu que tudo parecia um templo.
            Havia apenas quatro fileiras de bancos, no estilo de igrejas comuns. De cada lado, havia quatro bancos. Havia também três imagens de Nossa Senhora e Jesus em cada lado, cada uma representando momentos históricos da Bíblia: a crucificação, o nascimento, a ressurreição...
            E estava vazia. Completamente vazia.
            No altar, duas velas queimavam, dos dois lados da mesa. A mesa então, era coberta por um pano branco e outro vermelho, por baixo, e em cima dela, havia uma taça dourada e uma bíblia. Às costas do altar, havia uma gigantesca cruz de madeira, iluminada por luzes azuis, e uma caixa, que provavelmente serviria para as arrecadações.
            Ela caminhou então até o banco mais próximo do altar, e diante dele, se ajoelhou.
            - Oi - ela disse, corando. Era idiota, mas não sabia mais o que dizer. Entrelaçou os dedos, fazendo pose de reza, antes de continuar: - Deus. Você está aí? Sou eu, a Nathalia. Eu... vim aqui, em primeiro lugar, por causa de o que... um amigo me disse. O Senhor devia estar vendo, então sabe do que estou falando.
            “E... eu sei que devo estar parecendo uma boba, tendo dito que não acreditava no Senhor e logo depois me ajoelhando aqui. Eu... não sei o que deveria fazer aqui. Achar conforto, talvez, mas eu não sou uma dessas pessoas... que o conseguem, enquanto falam com Você. Mas já não tenho - já não sei para onde ir. Para quem pedir ajuda.
            “Eu não sei rezar... Pai. Eu não quero rezar. Eu não consigo entender todas aquelas palavras bonitas que fizeram em seu louvor. Então não acho que eu conseguiria achar algum significado nelas...
            “Mas eu estou disposta a tudo. Estou disposta a qualquer provação que me pedir. Eu estou pronta. Estou pronta pra aceitar. Eu mudei, e isso tem que contar para alguma coisa. Pode causar dor em mim. Pode me fazer sangrar. Eu não ligo. Só tire a minha mãe daquela cama, por que ela não merece nada disso. Eu sei que o que aconteceu foi algo horrível, e que foi apenas uma peça que o destino nos pregou, mas ela ama o Senhor. Ela Te ama. Ela merece, mais do que tudo, ser salva, ou então não sei quem merece.
            “Se alguém precisa sofrer, que eu sofra. Me puna, por ser infiel. Se o Senhor consegue me perdoar por isso, então simplesmente me puna no lugar dela. Faça o que quiser comigo. Mas eu lhe suplico... ela tem que sobreviver. Ela tem que respirar em paz mais uma vez, por mais vários anos. Eu preciso saber que ela vai voltar pra mim. Por que não importa o quanto esses médico digam que está tudo bem...
            “Por que eu não consigo deixar de sentir que há algo errado?
            “Então, Senhor... pelo menos realize parte de meu desejo, por favor. Me dê esse sinal de que posso acreditar em ti. Me dê esse sinal de que posso contar com o Senhor. Se ela está salva, por favor, faça parar de doer em mim, em meu coração. Por favor, me dê paz. Por favor, me faça poder olhar para ela sem imaginar o que seria da minha vida... sem ela. Por favor, não me deixe deixá-la morrer.
            “É tudo o que peço.”
            Na metade de seu discurso, já começara a chorar. Desde o inicio, tremia. Desde o fatídico momento em que recebera a ligação, sua voz estivera embargada. Agora, sentia uma junção dos três, e algo mais. Sentiu todo o desespero subir a tona, com força total, finalmente.
            Acreditava em Deus, afinal?
            Ou era simplesmente a falta de opções que o destino lhe infligira?
            Acabou que sentia tanto quanto antes. Nada mudara. Apenas milhares de lágrimas a mais.
            Levantou-se com dificuldade, com as pernas tremulando, quase cedendo. Fungou, e limpou o rosto com as costas da mão. E daí que acreditava em Deus? Odiava-o de qualquer jeito.
            Não recebera seu sinal. Então acreditaria no que sempre acreditara: na ciência. E a ciência dizia que sua mãe ficaria bem. Não importa o quanto seu coração dizia que algo estava errado... ela acreditaria nos fatos.
            Foi então que percebeu no burburinho.
            Enfermeiras corriam pelo corredor, todas gritando uma com as outras. Aparentemente algo sobre o terceiro andar...
            Ela travou quando viu Yago passando também.
            Ele travou quando a viu.
            Encararam-se por um instante antes de ambos porem-se a correr, seguindo as enfermeiras.

***

            O quadro da mãe de Nathalia piorara.
            Eles chegaram ao corredor bem a tempo de ouvirem o cardiograma em disparada, e de verem a maca ser retirada do quarto e transferida para uma das salas de cirurgia.
            - Não! - Nathalia gritou, e Yago teve de segurá-la para não deixá-la disparar sobre os médicos.
            Ela continuava a repetir a negação, e se retorcia nos braços de Yago.
            Os médicos corriam, balbuciando seus termos clínicos ininteligíveis, enquanto ajeitavam os aparelhos à volta da moribunda. Entraram rapidamente na sala de cirurgia do andar, que também tinha uma janela que dava para o corredor.
            Nathalia conseguiu se soltar, e correu até a janela.
            Mal conseguiu parar, e mal conseguia se manter em pé diante do que via.
            Sua mãe sangrava de novo, e entrara em convulsão.
            Não importava o que os médicos faziam, não conseguiam controlá-la. Não conseguiam estancar o sangramento. E, mesmo quando finalmente o fizeram, o coração parecia bater mais devagar, e mais devagar...
            E então acelerou demais.
            Ela novamente se retorceu, revirando os olhos e fazendo pelos menos dois eletrodos se soltarem de sua pele.
            Então, tiveram de abri-la.
            O bisturi traçou uma linha por seu peito, e abriram sua pele, fazendo sangrar mais.
            Havia algum sangramento interno, no peito, no coração, na barriga... Nathalia pensou, aterrorizada.
            E então, ela parou.
            Quieta.
            Calma.
            Morta.
            O cardiograma parou instantaneamente, e se seguiu um bipe continuo. Os médicos se entreolharam, e menearam a cabeça negativamente. A cobriram com o lençol que havia sobre metade de seu corpo, e ditaram:
            - Horário de óbito...
            Nathalia desmoronou.
            Nos braços de Yago, e depois no chão.
            Correu.
            Correu por todos os corredores, ouvindo os gritos daqueles que a procuravam.
            Caminhou quando finalmente estava sozinha.
            Uma caminhada chorosa, sofrida, arrastada.
            Entrou no banheiro, e chorou em frente ao espelho. Sem se observar. Sua própria vida não tinha importância naquele dia.
            Nada mais tinha importância.
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