Oi galero ;) Não sei se vocês perceberam, mas esses capítulos tem todos tido títulos baseados em musicas da banda My Chemical Romance. Bem, se perceberam, vou explicar: como SILENCIAR já está no fim, eu acho que poderia ter rolado uma homenagem (mesmo que pequena como esta) à algumas bandas que me inspiram, e alusões à músicas não contam viu. Mas então, todas essas músicas vem de um único CD: The Black Parade, que é um dos melhores da banda, só perde para Danger Days. Mas enfim, esse é o último capítulo homenagem ;)



48

Desencantado

Disenchanted - My Chemical Romance

NOVEMBRO
O despertador tocou pela milésima vez.
Nathalia gemeu, em protesto, acordando finalmente de seu sono. Pressionou seu corpo contra o de Yago, e abriu um sorriso. O frio do inverno de Costa Valença os impedira de suar, tanto na noite anterior quanto nessa manhã.
Agora Yago também estava acordado. Ele sorriu do mesmo modo, e envolveu seus braços sobre o corpo dela, num abraço desajeitado. Nathalia sobrepôs suas mãos sobre as dele e, com certo esforço, conseguiu virar o rosto o suficiente para beijá-lo longamente.
Uma vez.
Duas vezes.
Cinco vezes.
Já não havia por que se preocupar com mais nada.
- Bom dia - sussurrou Yago, a poucos centímetros de seus lábios.
- Bom dia - ela respondeu, e então virou seu corpo todo para beijá-lo novamente.
Quando perceberam que estavam um em cima do outro, decidiram se afastar, pois afinal era dia de aula. Um dos últimos, Nathalia lembrou-se, e sentiu uma onda de adrenalina decorrente da alegria. Faltava apenas três dias para o inicio das provas. Depois disso, seriam onze dias de provas, e enfim férias.
Ela lembrou-se das últimas férias que passara com Yago (que na verdade foram apenas três semanas de recesso), e sorriu longamente ao perceber que teriam dois meses inteiros só para eles.
Em Costa Valença.
Em Cabo Frio.
Talvez até na maldita Londres.
Mas teriam esse tempo todo apenas para eles.
- O que foi? - Yago perguntou, notando seu sorriso.
- Nada - Nathalia logo respondeu, e beijou-o levemente mais uma vez.
- Que bom, por que pensei que eu estivesse esquecendo seu aniversário.
Nathalia piscou. Ontem fora segunda, e antes disso fora dia 31. Então hoje era dia...
- Feliz aniversário - Yago então disse, e riu.
- Ih, é - exclamou Nathalia, levantando-se da cama. Logo percebeu que estava frio demais e enrolou o cobertor no corpo.
- De-zes-seis aninhos - disse Yago, e a abraçou novamente, fazendo-a mais uma vez se deitar.
- Não, Yago - disse ela, e com cotoveladas fracas, se livrou do abraço, levantando-se mais uma vez.
- O que foi? - ele perguntou, sentando ao lado dela.
- É que... é meu maldito aniversário!
Yago suspirou.
- Você é daquelas que tem tipo uma neura com aniversário?
- Falsidade, presentes ruins e eu ainda nem posso me embebedar - suspirou ela, e então completou: - Legalmente.
Yago sorriu.
- O que que foi? - perguntou Nathalia, estranhando a espressão do namorado.
- Você é fofa até nas neuras - respondeu ele.
Nathalia então sorriu, e se aproximou dele, beijando-o e deitando-se sobre seu corpo. A única coisa que os separava do contato físico era o edredom, enrolado em Nathalia.
- Você já vai se dar bem hoje a noite, não precisa forçar mais ainda - disse ela.
- Pois bem, acho que você deveria se dar bem hoje a noite.
- O que está sugerindo? - ela sorriu.
Yago sorriu também e a beijou mais uma vez, tão longamente como nunca.
- Espere e verá - ele disse, levantando-se.
- Não tinha nenhuma outra frase de efeito não? - Nathalia sorriu, estirando-se na cama enquanto via o namorado se vestir.
- Você quer efeito ou quer surpresa? Ambos não dá.
Nathalia riu, e observou-o se aproximar. Deu-lhe um beijo por uma última vez, e então segurou-o pela gola da camisa, para não deixá-lo escapar tão cedo.
- Até daqui a uma hora - Yago disse.
- Até daqui a uma hora - ela repetiu, rindo, e então viu-o correr para a janela.
Ele pulou, como fazia toda vez que dormia lá. Nathalia não ouviu os pés dele chegando ao chão, por que, como ele sempre explicava, era preciso descer pelo telhado primeiro. Chegou à janela bem a tempo de vê-lo se equilibrar no muro. Ele ainda estava na metade do caminho, e caminhava como se fosse uma verdadeira estrela de circo na corda bamba. Estava com ambos os braços abertos, com um pássaro dos mais belos. E então pulou para o chão.
Com um sorriso no rosto, Nathalia obrigou-se a sair da janela, pois estava congelando.
Revirou os olhos ao ver em seu calendário o dia dois de novembro circulado em vermelho. Era seu aniversário, e agora ia ter que aguentar o que quer que viesse.

***

Desceu as escadas torcendo para que sua mãe não fizesse um escândalo de aniversário, e assim que chegou à cozinha, deu de cara com Yago sentado numa das cadeiras, vermelho feito um pimentão.
- Oi - ela disse, com a voz fraca, e sentindo o sangue fugir do rosto.
- Oi - ele respondeu com a voz igualmente fraca.
- Oi - a mãe de Nathalia subitamente apareceu na cozinha, com seu avental rosa e cabelo preso num rabo de cavalo.
Ela sorria tanto que parecia que iria adquirir um novo lote de rugas. Para falar a verdade, ela não tinha nenhuma ruga no rosto.
- Mãe - ela disse, com a voz fina.
- Nathalia, queriiidaaa! - ela disse, e então abraçou a filha tão forte que Nathalia achou que ia vomitar os órgãos fora - Feliz aniversário!
- Ahn, obrigado - ela respondeu.
Sua mãe apertou-a um pouco mais, até que Nathali pudesse sentir o sangue subindo por seu esôfago, e então a soltou.
- Vamos, Yago, dê parabéns para ela! - sua mãe praticamente pulava.
Yago se levantou, com os olhos fixos em Nathalia, e um sorriso forçado no rosto. Seus lábios estavam tão repuxados que era impossível não perceber que era falso.
- Parabéns - ele praticamente gemeu, e abraçou a namorada. Só então sussurrou em seu ouvido - Sua mãe está me assustando.
- Se ela pegar numa faca, corra o mais rápido que puder - Nathalia respondeu prontamente.
Assim que se separaram, foram cegados por um flash e ouviram um click.
- Foto de aniversário! - ela disse, novamente aos pulos.
- Aham - Yago e Nathalia disseram juntos, e então se sentaram, sem tirar os olhos da mãe.
Ela batia ovos numa panela gigantesca com imensa força, fazendo tanto barulho quanto um serial killer, pensou Yago. Ele estremeceu e deixou de lado esse pensamento, mas decidiu ficar de olho na senhora. Só pra garantir.
Com o cabelo perfeitamente preso e sem uma única gota de suor na testa, a mãe de Nathalia acendeu uma das bocas do fogão, apoiou a panela e virou-se para encará-los.
Ambos engoliram em seco.
- Eu encontrei o Batman aí desesperado no portão - ela disse, com o sorriso crescendo ainda mais no rosto.
- Não abria - Yago gemeu, entre dentes.
- Mas você tem a chave - Nathalia respondeu, baixinho - Como?
Ela ouviu um pesado choque metálico, e então se virou.
- Ah - ela disse, encarando as correntes nas mãos da mãe.
- Eu podia buscar vocês dois no quarto, mas acho que gosto do drama - ela respondeu, colocando as pesadas correntes sobre a pia.
- Você sabia que a gente...? - Nathalia deixou a frase em aberto. Não sabia o que dizer numa situação daquela e, bem, era simplesmente estranho falar com sua mãe sobre...
- Claro que sabia - ela respondeu, passando a mão na roupa para tirar a poeira - Sabe, vocês não são nada cuidadosos com o que vocês derrubam. E também, sei que tem boa intenção em fazer silêncio, mas olha, tem cada barulho...
- Tá bom, mãe, ta bom - disse Nathalia, interrompendo ela e corando aos poucos.
- Mas hoje eu decidi que ele devia ficar - a mãe de Nathalia retomou, sorrindo sugestivamente para os dois.
Nathalia mordeu os lábios, torcendo para aquilo não ser sobre sexo novamente.
- Por causa do meu aniversário? - disse então, soando mais uma resposta do que uma pergunta, revirando os olhos. Mal o dia havia começado e já estava de saco cheio.
- Em parte - sua mãe respondeu - É mais pelo presente.
Nathalia imaginou sua mãe lhe entregando uma caixa de camisinhas.
- Não dá pra esperar até depois da escola, não? - perguntou ela, imaginando-se como iria explicar para seus amigos. Poderia talvez mentir e dizer que era para a aula de ciências... da sexta série.
- Claro que não - respondeu a mãe - Eu suponho que você prefira esfregar o presente na cara dos seus colegas agora, até por que não vai ter tempo durante a festa.
Festa? Pensou Nathalia, e teve que se controlar para não revirar os olhos.
- Então vai - ela disse - Me dá logo esse presente. Onde você escondeu?
- Aaah! - sua mãe gemeu, baixinho, com um sorriso gigantesco no rosto. Estava pulando novamente, alternando seu peso entre as pernas e balançando seu corpo como uma criança - É grande demais pra eu esconder.
Ain, Nathalia gemeu novamente, em protesto.
- Então, eu deveria procurar? - Nathalia perguntou.
- E qual seria a graça?
Quando parecia que ela estava quase explodindo em fogos de artifício, a mãe de Nathalia tirou do bolso do avental uma caixinha rosa, quadrada, lacrada por uma fita aveludada mais rosa ainda. A parte de baixo era branca. Era tão pequena que mal excedia os limites da mão de Nathalia, que por si só era minúscula.
- É isso? - Nathalia exclamou, aliviada.
- Vamos, abre - sua mãe estava quase saltitando novamente.
Ela desfez o laço ao puxar apenas uma extremidade, de leve. Puxou a parte de cima, rosa, e revelou um interior acolchoado, e ainda rosa. Havia uma pequena almofada dentro, e Nathalia descobriu que era feita de veludo assim que passou o dedo por ela.
E bem no centro, havia uma chave, inteiramente preta, com exceção do segredo.
- O que é isso? - perguntou ela, segurando a chave com cuidado na palma de sua mão.
- Como você vai pra escola hoje - sua mãe respondeu, numa voz calma e serena dessa vez. Seus olhos criavam grandes expectativas, e seus dedos estavam entrelaçados na altura do peito.
Nathalia entendeu.
Não.
Não. Podia. Ser.
- Não - ela se pegou sussurrando.
Deixou a caixa cair, e saiu da cozinha correndo. Ouviu sua mãe gritar, em jubilo, e os passos de Yago seguindo-a.
Abriu a porta. Correu até o portão. Abriu-o também.
E travou.
- Ai, meu, DEUS! - gritou, com um sorriso finalmente formando-se em seu rosto.
Havia ali parado um carro. Seu carro.
Era bem pequeno. Prateado, com as janelas cobertas por um grosso insulfilm. Nathalia logo notou que era um Celta, e pela inscrição no vidro, era do ano de 1997. Os pneus eram customizados, parecendo mais discos de vinil do que calotas. Não havia um único arranhão na pintura.
Nathalia se divertiu ao perceber que havia um sistema automático de fechadura na chave, então ficou apenas trancando e destrancando.
- Gostou? - sua mãe aparecer às suas costas, e perguntou baixinho.
- Adorei! - ela gritou, e abraçou-a com força. Nathalia agora era quem estava pulando.
- Vamos lá, entre no carro - disse a mãe - Você também, Yago.
Nathalia puxou o namorado pela mão antes mesmo que ele pudesse concordar.
- Vai pro banco do carona - disse Nathalia, e abriu a porta do lado do motorista, entrando.
Yago logo já estava a seu lado.
- É tão lindo - Nathalia disse, tocando no volante com as pontas dos dedos - Você sabia disso?
- Eu juro que não - Yago respondeu - Eu estava aterrorizado lá dentro, pensei que sua mãe ia acorrentar minha alma.
Nathalia riu, e beijou-o de leve.
- Vamos ligar? - ele perguntou.
Nathalia assentiu, e girou a chave.
- Ah - gemeu, sentindo o motor ligar.
- Se você morrer, deixa eu ficar com ele? - Yago perguntou.
- Se eu morrer, você fica com tudo meu! - ela respondeu, beijando-o mais uma vez.
Foi então que ouviu sua mãe pigarrear na janela do carro.
Nathalia agradeceu pelo insulfilm, e então baixou o vidro.
- E então? - disse a mãe, sorrindo.
- Eu nem sei o que dizer.
- Podia começar dizendo que vai pagar as contas pelos próximos dezoito meses.
Nathalia riu.
- Mas mãe - ela disse, subitamente se lembrando de um detalhe - Eu nem tenho carta para dirigir. Como eu...
- Nem se preocupa com isso - interrompeu a mãe - Seu aniversário é hoje. Eu te inscrevo na autoescola amanhã. Hoje, você vai rodar essa cidade toda e abastecer pela primeira vez. Vai buzinar na casa de seus amigos e trazer todos eles para sua festa. E nem se preocupa com guarda, por que a essa hora, nenhum dos três guardas está acordado. Então vai, vai pra escola. Não ouse matar aula tão perto das provas finais. Mas chega buzinando pra mostrar que você tem um carro e eles não.
Nathalia sorriu, pois sua mãe havia lido sua mente. Mais uma vez.
- Então tá - ela disse, e encararam-se por um momento, antes de ambas soltarem um gritinho e abraçarem-se pela pequena janela.
Yago resistiu ao impulso de imitá-las, pois sabia que acabaria com uma marca vermelha na cara.
- Buzina agora - disse a mãe.
Nathalia obedeceu.
- Pisa no acelerador... Não, esse é o freio.
Nathalia percebeu assim que o carro deu um salto, como uma boombox.
- Engata a primeira marcha, e sai devagar... isso. Buzina de novo! Segunda marcha agora. Não, essa é a quarta...
O carro saiu em disparada, cantando pneus, antes que ela pudesse completar.
- Feliz aniversário! - ela gritou, de longe, vendo o carro partir, pulando e acenando.
Nathalia e Yago riram, olhando para a janela de trás, e assim que Nathalia voltou-se para frente, teve de pisar fundo no freio para não atropelar uma pequena família de cachorros.
Novamente, o carro pulou, e os cachorros correram ganindo, sem olhar para trás.
Um caiu e rolou, e então, sem parar, voltou a correr.
Yago e Nathalia olharam um para o outro, e gargalharam alto. Passaram-se dois minutos e ainda riam com tanto fôlego quanto no inicio. Nathalia já experimentava uma convulsão de riso, enquanto Yago se dobrava de dor no abdômen. Sem que percebesse, Nathalia chutou o acelerador, e o carro avançou mais ou menos dois metros antes dela pensar em pisar no freio e puxar o freio de mão. Olharam-se novamente e recomeçaram a rir.
- Eles... eles correm mais que Satanás! - disse Yago, dobrando-se de rir novamente, e fazendo Nathalia jogar a cabeça contra o banco.
Continuaram a rir por mais alguns minutos, até perceberem um carro dando a volta neles. Obrigaram-se a parar e limparam as lágrimas dos olhos, e então Nathalia pisou no acelerador de leve novamente.
- Espere - ela disse - Costa Valença tem autoescola?

***

Ela chegou na rua da escola buzinando, como sua mãe disse. Assim que notou o olhar de praticamente a escola inteira sobre o carro, decidiu parar, e corou de leve.
- Lesa - Yago disse, rindo.
Fez abrirem caminho para a garagem, e então estacionou o carro numa das vagas não utilizadas pelos professores. Desejou não ter deixado o carro torto, e tirou a chave da ignição. Seja o que Deus quiser, pensou, e saiu do carro.
Só sentiu o sorriso no rosto depois que pôs os pés no chão.
Fez o possível para manter pose enquanto saía, e é claro que conseguiu.
- Nathaliiia! - chamou uma voz doce e fina demais, a voz de Alex - Feliz aniversário!
A amiga abraçou-a, sem perceber que havia gritado no silêncio; ou seja, praticamente havia anunciado que aquele era o dia mais negro da vida de Nathalia.
Já podia até imaginar a quantidade de “Parabéns para você” e “Com quem será”.
- Ahn, obrigado - respondeu ela, corando novamente ao perceber que era o centro das atenções.
- Esse carro... é seu? - perguntou Alex, apontando para o carro e depois para Nathalia.
- Shhh, não fala nada, é do meu amante do morro e eu tenho que devolver.
As duas riram, por mais que Nathalia estivesse forçando. Não estava no humor para rir, e talvez só estivesse quando percebesse que ninguém ligava para o seu aniversário.
Um detalhe: todos ligavam.
- Eu ouvi a palavra amante? - disse Yago, abraçando-a pelo ombros, puxando-a para um beijo leve.
- Ei, não se anima não, é meu aniversário - ela disse, em tom de brincadeira, mas logo percebeu que estava apenas reafirmando para todo mundo.
- Bem, por enquanto, eu que to recebendo o presente - ele disse, beijando-a novamente.
- Eu recebi um carro.
- Eu recebi o fato de você ter nascido.
- Own - disse Alex - Isso seria tão fofo, se eu não estivesse de vela.
- Desculpe - Nathalia disse, e então afastou uma mecha da testa. Percebeu que ninguém mais prestava atenção neles, e que o papo furado de sempre havia voltado.
- Claro, ninguém liga pra a lésbica - Alex rebateu, com um biquinho falso.
- Sério? - Nathalia respondeu - No meu aniversário?
- Meu presente sou euzinha, quer? - disse Alex, novamente em tom de brincadeira.
- Ela é minha, querida - disse Yago, intrometendo-se - Se quiser, entra na fila... pra outra vida.
Alex suspirou dramaticamente.
- Como eu disse, ninguém liga pra a lésbica.
Nathalia riu.
- Então - Alex recomeçou, brincando com uma mecha do cabelo naturalmente louro, que não fora pintado há mais de dois meses - Vai ter festa?
- Shhh - Nathalia rebateu rapidamente, levando o dedo aos lábios - Fala baixo!
- Se você não queria que ninguém percebesse, então talvez não devia ter trago o monstro aí - ela apontou com o queixo para o carro.
Nathalia suspirou.
- Vai ter festa sim, mas não espalha.
- Pode deixar, essa boca tá selada - ela disse, fingindo que trancava a boca e jogando a chave fora.
- Vamos logo pra aula por que são muitas emoções - Nathalia disse, com um quê de sarcasmo.
- Às seis e cinquenta e cinco da manhã - Alex citou.
Chegaram na sala completamente vazia, mas trinta segundos depois já estava abarrotada de alunos e de gritos desnecessários.
Assim que o professor entrou na sala, começou um coro de Parabéns pra você, assim como Nathalia havia previsto.
Ela simplesmente enterrou a cabeça nas mãos, e corou tanto que pensou que logo seu rosto estaria parecendo um demônio.
- Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida - Então todos gritaram num uníssono desorganizado, e bateram palmas.
- Com quem será - começaram logo depois - Com quem será? Com quem será que a NATHALIA vai casar?
Ela torceu pra que não fizessem um romancinho qualquer.
- Vai depender, vai depender, vai depender se o YAGO VAI QUERER!
Todos se calaram, e simplesmente encararam Nathalia. Ela disse um “ah” baixinho, e percebeu o que tinha que falar.
- Eu aceito - disse Yago.
- Eu aceito também, mas não lavo roupa nenhuma, não!
Ninguém riu, logo Nathalia aliviou-se quando recomeçaram o canto.
- Ele aceitou, ele aceitou, tiveram dois filhinhos e depois se separou!
- Separou o caralho - Yago gritou, e todos se puseram a rir.
- Como você consegue e eu não? - Nathalia sussurrou, fazendo Yago rir de leve também.
Já não havia mais clima para continuarem a cantar, então todos se lembraram que o professor Daniel já havia entrado em sala.
Todos encararam o velhinho, de sessenta e tantos anos, de cabelos grisalhos e óculos de alto grau, enquanto ele montava uma expressão que não revelava nada. Disse, por fim:
- Cheguei a pensar que era meu aniversário.
Os alunos riram, e sentaram-se normalmente.
Esse era o primeiro tempo do dia. O pior já havia passado, então não havia por que temer.
Ou assim Nathalia havia pensado

***

Agora estavam no quarto tempo, a segunda aula de Daniel no dia. Estavam entediados, encarando formulas imensas e tentando entendê-las. Quando finalmente o faziam, tinha de ouvir a mesma explicação repetidamente para quem não prestava atenção.
Yago passou metade de todas as aulas sussurrando uma doce música no ouvido de Nathalia. A música parecia recomeçar sempre, de modo que nunca tinha fim.
Apenas no intervalo percebeu que a música era You Found Me.
Ele sussurrava ainda agora, ignorando a explicação que com certeza o salvaria de uma recuperação.
- Menina Nathalia - disse Daniel, apontando uma régua em sua direção - Entendeu o que eu acabei de dizer?
- Entendi - ela mentiu.
O professor se aproximou ainda mais.
- Quer meio ponto? - disse, uma oitava mais baixo.
Sentindo o olhar da turma inteira encarando-a, ela simplesmente assentiu.
- Então pode me dizer qual o resultado de x?
- Mas... está no quadro, professor.
- Pois bem, feliz aniversário - ele disse.
A turma gargalhou baixinho, e Nathalia, sem saber o que dizer, respondeu:
- Obrigada.
- Gabarite minha prova, e estamos quites.
Nesse momento, ouviram batidas na porta. Como sempre, a turma inteira ficou em silêncio, curiosa.
Todos olharam para trás, enquanto a nova inspetora, de quem ninguém se lembrava o nome, botava a cabeça para dentro da sala.
- Oi - ela sussurrou, já corando - É daqui a aluna Nathalia Rodrigues?
- Sou eu - Nathalia se levantou.
- Tem uma ligação para você - A inspetora sinalizou para o telefone, em suas mãos.
Nathalia assentiu, e caminhou até porta, saindo da sala. A inspetora a acompanhou, e fechou a porta metálica em silêncio.

***

Nathalia voltou poucos minutos depois, silenciosamente.
Não havia expressão nenhuma em seu rosto.
Ela caminhava como um zumbi, porém a passos rápidos. Seu cabelo esvoaçava enquanto dirigia-se à sua carteira.
- Nathalia? - Yago perguntou, o sorriso em seu rosto murchando.
Ela não respondeu, com o olhar fixo no nada. Pegou sua mochila do chão e, sem preocupar-se com arrumação, enfiou todo seu material nela. Livro por livro, e o fichário por cima. Não seria uma surpresa se algo acabasse amassado.
- Nathalia, o que...
Ela deu-lhe as costas, sem escutar mais nada.
Caminhou até a porta novamente, e fechou-a com força, causando um estalo alto antes da sala cair no silêncio novamente.

***

Chovia forte.
As pesadas gotas caíam sobre o vidro que cobria o corredor de salas, fazendo barulho. Nathalia tentou ignorar, mas aquele barulho fazia sua cabeça doer ainda mais.
Ela atravessou tudo, sem parar, sem ser parada.
Chegou ao estacionamento, e sentiu seu couro cabeludo molhar. Não havia cobertura naquela parte da escola, e também não ligava. Simplesmente continuou caminhando até seu carro.
Puxou a chave de seu bolso, e com os olhos turvos de lágrimas, tentou encaixá-la na fechadura do Celta.
Não conseguiu.
Errou uma, duas, três vezes...
Até que todos os arredores da fechadura estavam arranhados, com a pintura anteriormente prateada adquirindo um tom de preto.
Ela chutou o carro com força, fazendo-o balançar. Repetiu o ato. E então caiu em lágrimas.
Ajoelhada no chão molhado e lamacento, pôs a cabeça entre as mãos. Apoiou o cotovelo no chão, e então caiu, estirada. Sentiu a água imunda ricocheteando em seu rosto. Soluçava, e não tinha forças para se levantar.
Suas lágrimas se confundiam com a chuva, que se confundia com a lama.
Ao longe, ouviu passos. Pensou que era a chuva forte novamente, mas logo percebeu que era alguém se aproximando. Não ligou. Só queria deitar ali e morrer.
Alguém a pegou nos braços, e a levantou, fazendo-a sentar-se. Logo percebeu que era Yago. Daniel devia tê-lo liberado para ver se estava tudo bem.
Não estava.
Só então Nathalia percebeu que ele chamava seu nome.
- Nathalia! - ele gritava - Nathalia!
Ela soluçou, e voltou a chorar.
- O que aconteceu? - ele perguntou.
Ele não sabia.
Ele jamais entenderia.
Ou talvez entendesse, mas o coração de Nathalia jamais entenderia tal fato.
- Nathalia... - ele repetiu - O que aconteceu?
Ela o abraçou, chorando. O apertou forte, para não largá-lo nunca mais.
Ela precisava daquilo.
- Nathalia...
- Minha mãe - ela chorou - Minha mãe foi esfaqueada. Ela tá morrendo, Yago, ela tá morrendo!
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